Brasil e sociedade

Política e economia

Internacional

Ciência e tecnologia

Saúde e sexo

Artes e espetáculos

Gente e memória

Religião e História

Esporte e aventura

Educação e trabalho

Sugira uma capa

Sobre o site

Sobre VEJA

1968 - 2007 | imagens

1993 - 2007 | reportagens

1997 - 2007 | edições integrais

Edição n° 1

Edições extras

Edições especiais

Reportagens de capa
1968 - 1997



Busca detalhada


Imagens das capas
1968 - 2007



Busca detalhada


Em Dia


Acesse o site

  28 de julho de 1976
À procura
da perfeição

Nos Jogos Olímpicos de Montreal,
a busca de medalhas está
derrubando recordes e revivendo
uma velha pergunta: qual
o limite do esforço humano?

Por um instante pareceu que seria impossível. Seu corpo suavemente retesado soltou-se do ponto mais alto das barras assimétricas, girou livre no ar, planou acima da segunda barra e pousou com impudente firmeza no solo do Stadium, de Montreal. De pé, 16.000 espectadores aplaudiram em delírio. Pela televisão, milhões de pessoas aplaudiriam também. Estava nascendo uma nova lenda no esporte mundial - a de Nadia Comaneci, uma romena de 14 anos, olhos escuros e sérios, colecionadora de bonecas e fã de Alain Delon, responsável pelo reencontro dos XXI Jogos Olímpicos com a beleza e a força carismática das olimpíadas.

Na quarta-feira, enquanto ela subia ao pódio para receber a medalha de ouro individual em ginástica feminina, a soviética Olga Korbut, classificada num mero quinto lugar, despedia-se de seu derradeiro momento olímpico, aos 21 anos, melancolicamente envelhecida: as duas fitas vermelhas que prendem seus cabelos estavam desmazeladamente desarranjadas, havia olheiras em seu rosto e sulcos nos cantos de sua boca. Há quatro anos, Olga Korbut havia assegurado ao mundo que venceria em Montreal.

E poucos duvidaram. Nas Olimpíadas de Munique, Korbut fora considerada a melhor de todas por um público encantado com suas acrobacias. Mas, numa das decisões mais criticadas da história dos Jogos, perdeu a medalha de ouro para outra soviética, Ludmila Turischeva (medalha de bronze este ano). Parecia, então, aos milhões de fãs que a televisão se encarregara de agrupar em torno da cândida Korbut, quase heresia admitir a possibilidade de aparecer alguém melhor.

PANE NOS COMPUTADORES - Nadia Comaneci, de 1,53 metro de altura e 40 quilos, é não só melhor mas - na opinião dos juizes de Montreal - absolutamente perfeita. No primeiro dia de competição, ela deslizou em torno das barras assimétricas, criou na ginástica movimentos difíceis até de imaginar, arrebatou o público e desnorteou não só suas adversárias como também os aparelhos responsáveis pela computação dos resultados. As máquinas tinham sido programadas de acordo com a afirmação de especialistas em diversos esportes de que um escore perfeito era uma impossibilidade.

Mas Nadia ganhou nota 10 - a primeira vez na história dos Jogos - e os computadores entraram em pane. Chamados apressadamente, os técnicos consertaram as máquinas e avisaram: "Não esperamos outra contagem igual, mas, se isso acontecer, estamos preparados". Sábia providência: a alada romena continuou acumulando notas 10, completando nada menos de sete em quatro dias. "Eu sabia que podia fazer tudo certo", afirmou ela imodestamente. E garantiu: "Agora, quero continuar me aprimorando cada vez mais". Em sua exuberante carreira no esporte, desde que começou a treinar, aos 6 anos de idade, como uma das 100 crianças recrutadas anualmente para testes pela Academia de Ginástica romena numa média de três horas diárias, essa filha de um mecânico e de uma funcionária de um clube romeno já recebeu dezenove notas 10 e ganhou, no ano passado, com apenas 13 anos, o título de campeã do mundo - Korbut, então brigada com a Federação Soviética, e Turischeva, machucada, não participaram do torneio.

MASSACRE - Quando começaram as competições em Montreal, 150 repórteres cercaram uma outra estrela dos Jogos, a alemã oriental Kornelia Ender, para saber sua opinião a respeito da americana Shirley Babashoff. "Será uma das minhas mais sérias concorrentes", ela disse com simplicidade. Na verdade, desde o ano passado, quando Babashoff venceu a alemã na prova dos 200 metros livres, no Mundial de Cáli, Colômbia, o encontro das duas em Montreal vinha sendo esperado como um dos grandes confrontos dos Jogos. Kornelia Ender, de 17 anos, 1,81 metro de altura e 73 quilos, havia batido, antes das Olimpiadas, dezesseis recordes mundiais e era ainda dona de quatro. Também desta vez, tanto quanto na ginástica, o desafio acabou num massacre - com a diferença de que a rainha manteve a coroa.

No final de sua primeira prova, os 100 metros livres, abrindo e fechando a boca com o ritmo compassado de um peixe, para recuperar o oxigênio brutalmente consumido no esforço para bater mais um recorde, Kornelia Ender começava a ganhar a disputa. Quando o marcador eletrônico da piscina anunciou seu tempo, a loira valquíria aquática sorriu e deu um grito de alegria: 55 segundos e 65 centésimos, novo recorde mundial, a primeira marca de uma mulher abaixo dos 56 segundos. Babashoff ficara reduzida a um quarto lugar, sem prêmios. Até a sexta-feira, Kornelia Ender acumularia quatro medalhas de ouro, uma para cada prova que disputou, e passaria a ser a recordista feminina de medalhas de natação, numa só olimpíada. Babashoff recolheria, por sua vez, não mais de três medalhas de prata e nenhuma de ouro.

PESO DEMAIS - As magníficas apresentações de Nadia Comaneci e Kornelia Ender reviveram uma eterna pergunta: quais os limites humanos? Pelas notas que recebeu, Comaneci teria alcançado a perfeição. Mas, em ginástica, os valores de julgamento são subjetivos e amanhã poderão não continuar os mesmos. Aliás, houve mesmo quem visse excessiva benevolência dos juizes da ginástica nas notas da romena e preferisse, no encerramento da competição, aplaudir a derrotada Korbut.

Subjetivas também, por exemplo, são as medidas das competições de tiro. Caso contrário, o alemão oriental Karlheinz Smieszek, medalha de ouro em carabina deitada, estaria assombrosamente perto do máximo: dos 600 tiros de sua prova ele acertou 599 na mosca, colocada a 50 metros de distância. Nada impede, contudo, que amanhã o número de tiros seja fixado em 700. Pois, no esporte, as mudanças de critérios, de métodos e de técnicas têm sistematicamente levado os limites a níveis anteriormente inimagináveis. O halterofilista brasileiro Paulo Batista de Sene, derrubado pelo peso de 97,5 quilos que não conseguiu levantar, talvez tenha sofrido apenas a falta de melhor desenvolvimento técnico. Como, de certa forma, aconteceu com a natação australiana que, na década de 50, chegou a superar a americana e agora é apenas figurante nas Olimpíadas. Mas os técnicos foram para os Estados Unidos em busca de melhores salários e os que ficaram insistiram numa técnica ultrapassada - o crawl de dois tempos, com batida de pé relativamente sincronizada com as mãos, ao contrário do estilo moderno em que os pés batem rapídamente, independente dos movimentos dos braços.

COM AS MÃOS - No salto com vara, provavelmente o limite já tivesse sido alcançado há tempos, não fora a introdução da fibra de vidro, material flexível que transforma a vara numa espécie de catapulta. O salto em altura é outro exemplo. Durante sete anos o recorde do soviético Valery Brumel (2,28 metros) resistiu a todos os ataques dos atletas e parecia definitivamente imbatível. Mas, em 1968, um americano chamado Richard Fosbury inventou uma técnica até certo ponto grotesca para essa competição. Saltando de costas para a barra, ele bateu o recorde de Brumel, ganhou a olimpíada e hoje seu estilo é usado em todo o mundo. Recentemente, outro americano, cujo nome apenas resvalou pelas notícias, introduziu uma técnica ainda mais exótica, saltando com o impulso das mãos apoiadas no chão. O novo estilo, porém, até agora só conseguiu levar seu inventor a superar o recorde brasileiro, 2,11 metros, equivalente à marca olímpica de 1956.

A METADE DO TEMPO - Impossível, portanto, comparar o passado com o presente. Em Montreal, de qualquer forma, ninguém tem dramatizado mais o esforço de superação dos limites que as nadadoras da Alemanha Oriental. Em Munique, elas não ganharam uma única medalha de ouro. Em quatro anos, transformaram-se nas mais rápidas do mundo e chegaram ao Canadá carregando treze recordes mundiais nas catorze provas da natação feminina. Pelo menos numa prova, os 400 metros livres, uma dessas fabulosas nadadoras, Petra Thumer, conseguiu superar, com seus 4min9s89/100, os 4min12s2/10 alcançados na competição masculina das Olimpíadas de 1964 pelo então festejado americano Don Schollander.

As mulheres estão nadando cada vez mais perto dos homens, principalmente porque hoje elas treinam tanto quanto eles. Ao contrário dos tempos em que, dizia-se, para proteger sua feminilidade, as nadadoras eram submetidas a treinamentos que não ultrapassavam os 1.500 metros diários, atualmente são considerados normais treinos de 10.000 a 14.000 metros por dia.

PONTAPÉ NO TRASEIRO - Foi justamente o fascínio do esforço humano à procura da perfeição que, afinal, devolveu o encanto e a alegria aos XXI Jogos Olímpicos, exatamente quando eles pareciam caminhar para a total desmoralização. De fato, no começo da semana, por um raro momento, o cachimbo deixou a boca de lorde Michael John Killanin, para que ele, presidente do Comitê Olímpico Internacional - um dos últimos redutos da fanada nobreza mundial (dezessete de seus 76 membros têm títulos nobiliárquicos) -, proclamasse: "Se alguém algum dia me ouvir falar em reeleição para este cargo, tem permissão para aplicar-me um pontapé no traseiro". Fazia apenas três dias que os XXI Jogos Olímpicos tinham sido inaugurados em Montreal, pela rainha Elizabeth II, da Inglaterra, e o COI se mostrava incapaz de colocar a casa em ordem.

Ao longo da semana, os países africanos continuariam a abandonar os Jogos em represália à presença da Nova Zelândia, numa debandada que, até a quinta-feira, já havia tirado das Olimpíadas trinta nações e mais de 700 atletas. E, quase simultaneamente à pouco aristocrática autorização de lorde Killanin aos seus pares, o espírito esportivo mais uma vez era mandado olimpicamente às favas. No Estádio de Inverno da Universidade de Montreal, Boris Onischenko, da equipe soviética de pentatlo moderno que ganhou a medalha de ouro em Munique e os últimos três campeonatos mundiais, tentou garantir a vitória na competição de esgrima agregando à sua invejável bagagem técnica o reforço da eletrônica. Sua espada era dotada de um dispositivo capaz de disparar o sinal de touché sem que Onischenko encostasse no adversário. Descoberto, o soviético, que liderava a competição com 1.096 pontos, foi eliminado dos Jogos, expulso da delegação e da Federação Soviética de Pentatlo Moderno, transportado a um navio russo ancorado no porto de Montreal - o maior porto fluvial do Canadá - e recambiado a seu país, sob indignação geral.

Na quinta-feira, revelando outro problema, o juiz brasileiro de voleibol, Antônio Pedro Costa, denunciou ao Comitê Organizador dos Jogos uma oferta de 1.000 dólares que teria recebido do técnico da equipe feminina da Coréia do Sul para que facilitasse a vitória de seu time sobre a Alemanha Oriental.

LÁGRIMAS NO PÓDIO - Enquanto o infeliz soviético era execrado por seus artifícios tecnológicos, um oriental se transformava em mais um dos heróis dos Jogos, ao demonstrar que são próprios do caráter do homem também sentimentos elevados, como a coragem e a abnegação. Shun Fujimoto, um professor de Educação Física de Tóquio, de 26 anos, depois de uma brilhante série de exercícios com argolas, realizou uma saída imperfeita, pois mal conseguia apoiar o pé direito no chão. Ainda assim, sua apresentação foi suficiente para merecer 9,70 pontos, manter sua equipe à frente da União Soviética e ganhar a medalha de ouro.

No pódio, havia lágrimas nos olhos de Fujimoto enquanto ecoavam no Stadium de Montreal os solenes e breves acordes do Kimiga-yo, o Hino Nacional japonês. Fujimoto, revelariam os raios-X depois, terminara sua participação nas competições com uma fratura no joelho direito. No dia seguinte, com a perna engessada, ele afirmou: "Eu sabia que alguma coisa tinha se partido em minha perna durante os exercícios de solo, pouco antes. Mas as argolas são o meu forte e nossa equipe precisava ganhar a medalha de ouro". Para ganhar, ele até recusou o uso de sedativos. "Poderia ter alguma substância considerada doping e eu não iria arriscar essa medalha por causa de um comprimido", disse.

GRAMA INDIGESTA - Por seus ideais, os homens superam suas deficiências - isso não é novidade. Uma das atletas da equipe da União Soviética em Montreal é Tatyana Kazankina, que se recusou a aceitar a recomendação dos médicos para que abandonasse o esporte porque tinha problemas cardíacos. Em junho, Tatyana se tornou a primeira mulher a correr os 1.500 metros em menos de 4 minutos, e chegou ao Canadá como favorita da prova.

Mas há obstáculos que não podem ser vencidos apenas pela vontade. O ginasta japonês Shigero Kasamatsu, por exemplo, quatro vezes campeão mundial e favorito em Montreal, perdeu a chance de ganhar uma medalha de ouro dois dias antes dos Jogos por causa de uma crise de apendicite. Atacado de anemia, o americano Tim Shaw, recordista mundial de natação dos 400 metros livres, considerado o melhor atleta amador dos Estados Unidos em 1975, precisou interromper os treinamentos. Não conseguiu depois recuperar o ritmo a tempo e acabou perdendo sua prova para outro americano, Brian Goodel.

Por outro lado, o boicote deflagrado pelos países africanos pulverizou chances por atacado - incluindo, no atletismo, as do recordista mundial dos 1.500 metros, Filbert Bayi, da Tanzânia, que deveria travar um inesquecível duelo com o recordista da milha, John Walker, da Nova Zelândia. James Gilkes, da Guiana, país que se retirou dos Jogos em solidariedade aos africanos, ainda tentou uma saída: participar das provas de 100 e 200 metros rasos sob a bandeira do COI. "Não me importam os problemas políticos. Eu tenho 23 anos e nas próximas Olimpíadas já não terei condições de participar". Seu pedido, porém, foi recusado.

Em todo caso, muito pior aconteceu com o cavalo "Ajax", da equipe sueca de equitação. Ele comeu a grama de Bromont, o local das competições hípicas, que tinha sido tratada com corante, e morreu envenenado.

SINAL-DA-CRUZ - Os brasileiros não tiveram tais problemas. Em compensação, sem técnica, equipamentos e preparação à altura dos melhores, resta, como alternativa, a esperança nos céus. Na beira das piscinas e das pistas, nadadores e atletas brasileiros - como de resto os sul-americanos em geral - fazem invariavelmente o sinal-da-cruz. Sem grandes resultados. No final da semana, da 120 medalhas distribuídas, nenhuma tinha ido para qualquer país sul-americano.

Alguns brasileiros, da equipe de tiro, já haviam voltado para casa, o remo, o halterofilismo e a esgrima estavam definitivamente eliminados, e o vôlei, desclassificado da disputa principal, empenhava-se em tentar o quinto lugar. Quanto ao futebol, pelo menos para o seu ex-técnico, Zizinho, deve ter sido uma surpresa. Quando a delegação brasileira partiu para Montreal, Zizinho, que havia sido desligado da direção do time, fez uma desanimada profecia. O Brasil, segundo ele, seria eliminado no começo do torneio. Mas os brasileiros, depois de empatarem por 0 a 0 com a Alemanha Oriental, uma seleção com jogadores remanescentes da Copa do Mundo de 1974, venceram a Espanha por 2 a 1 e passaram para a fase seguinte da disputa, as quarta-de-final, no domingo.

De qualquer forma, além das esperanças em João Carlos de Oliveira, o "João do Pulo", que compete nesta quarta-feira no salto em extensão e na quinta no salto triplo, os brasileiros tinham, pelo menos, um herói: Djan Madruga, um nadador do Fluminense, de 17 anos, que, antes das Olimpíadas, passou três meses treinando nos Estados Unidos.

Na terça-feira, ele bateu o recorde sul-americano dos 1.500 metros livres e chegou em quarto lugar na final da prova. Dois dias depois, repetiu a dose nos 400 metros livres. Não conseguiu a medalha, é verdade. Mas seus adversários eram alguns dos mais fantásticos nadadores de todo o mundo. E, pelo menos até o brasileiro cair na água, nenhum nadador da América Latina havia chegado tão perto da consagração olímpica em Montreal.

Talvez essa modesta glória seja uma pobre compensação, perto das formidáveis proezas de esportistas capazes de levar os limites humanos cada vez mais longe. Mas tais façanhas continuam reservadas a atletas imensuravelmente superiores aos produzidos pelo mal cuidado esporte brasileiro.

 

 

 

 
     
voltar
 
  VEJA on-line | Em Dia