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Reportagens 28 de janeiro de 1976A transformação de Elis A história de uma cantora brasileira,
Era fim de ano. Tempo de festas - melancólicas ou não. Num dos centros nevrálgicos do shopping natalino, a avenida Brigadeiro Luís Antônio, em São Paulo, estreou a 17 de dezembro de 1975 o show "Falso Brilhante". Apesar da época ingrata, a première deu o que falar. Os críticos paulistas, com vigorosa unanimidade, apontaram o espetáculo como o melhor do ano. Os 1.200 lugares do Teatro Bandeirantes, palco da celebração, passaram a ser disputados no câmbio negro pelo dobro, o triplo, do preço normal. Lotação esgotada praticamente todas as noites. Enfim, como há muito não se via, algo de apoteótico na música popular brasileira. Os autores do feito: a cantora Elis Regina, o conjunto liderado por César Camargo Mariano, a diretora Míriam Muniz e, inusitadas mas indispensáveis citações, o cenógrafo Naum Alves de Souza, e Lu Martin, criador dos figurinos. Em tudo e por tudo, um show essencialmente musical - povoado de recursos cênicos de indiscutível bom gosto e eficácia. A própria classe teatral, beneficiada e grata, reconheceu o acerto das invenções e engrossou o coral de hosanas que saudou as surpresas ensaiadas durante três trabalhosos meses por Elis & Cia. Aos 30 anos, diante de microfones desde os 12, não foi à toa que Elis incorporou ao seu time e às suas apresentações gente e coisas do teatro. A "Baixinha", como afetuosamente a chamam os amigos, queria mostrar algo mais que uma linda voz. E heróica, garbosamente, exibe o corpo miúdo, 1,53 metro, 46 quilos comandados por um célebre sistema nervoso. Mais coisas, porém ostenta a cantora. Seu cérebro, por exemplo. Em vez de um enfileirado de canções, Elis e os companheiros redigiram um instigante roteiro, onde idéias, emoções e ação colorem e enriquecem os números musicais. Afinal, tinham todos uma mesma história para comunicar, a do artista brasileiro, o brilhante falso de que fala o título. E eles a contam, retratando, paralelamente, o seu país e o seu tempo. Com muito humor e a possível clareza. Apesar do estrepitoso sucesso de crítica e público, porém, o espetáculo um dia vai acabar. E por mais numeroso que tenha sido o contingente de seus espectadores, arrebanhados nas temporadas e excursões que Elis & Cia. ainda pretende realizar, ainda assim constituirá apenas uma pequena parte de sua platéia ideal, que seria o país inteiro. Uma pena. Porque "Falso Brilhante", mais que um mero cartaz entre as atrações noturnas de qualquer cidade, tem o condão de bulir com a criatividade alheia. Revela timbre de clarim, inspira quixotadas, sugere saídas. Virá um disco, é certo, pela gravadora Phonogram. Os trabalhos no estúdio se desenvolvem freneticamente. Já estão prensadas várias músicas do show - como "Los Hermanos" , de Ataualpa Iupanqui, "Corno Nossos Pais" e "Velha Roupa Colorida", de Belchior, "Um Por Todos, Todos Por Um", "Jardins da Infância" e "O Cavaleiro e os Moinhos", todos da dupla João Bosco/Aldir Blaric, "Fascinação", de Marchetti e Armando Louzada. E mais, Elis faz questão, "Tatuagem", de Chico Buarque de Holanda. Do LP participarão apenas, como antes, a voz da cantora e a arte de seus músicos. Não parece pouco, pode-se argumentar. Mas é ou será (prevê-se o lançamento do disco para depois do carnaval). Farão falta os gestos, as luzes, as entonações, as roupas, a reação invariavelmente empolgada da platéia, as cores e formas do cenário. Ao que tudo lindica, um disco previamente condenado a ser um falso brilhante. Principalmente porque não conterá, em nenhuma de suas dez programadas faixas, a intensa história que Elis Regina Carvalho Costa, uma cantora brasileira, corajosamente relata no espetáculo. Antes de mais nada, gaúcha, de Porto Alegre, bairro dos Navegantes, onde nasceu pobre, estrábica e sob o signo de Peixes. Era a primeira filha do operário Romeu e Ercy, senhora de prendas domésticas. E teve uma infância entediantemente normal. Ela mesma reconhece: "Fui uma criança medíocre, na acepção do termo". Permaneceu filha única até os 4 anos, quando nasceu Rogério, o Zéio, seu único irmão. Elis Regina ama descaradamente sua família. Na rua Califórnia, no bairro paulistano do Brooklyn, moram, em calçadas opostas do mesmo quarteirão, dois núcleos da família Costa. De um lado, Elis, o marido César Camargo Mariano e os filhos, João Marcelo, de 5 anos, nascido de seu casamento com Ronaldo Bôscoli, e Pedro Camargo Mariano, de 9 meses. Do outro, papai Romeu, mamãe Ercy e mano Rogério. Nas duas casas existe sempre, a qualquer hora do dia ou da noite, alguém da outra. Na Trama, firma que a família fundou para empresariar a carreira da filha cantora, Rogério trabalha como operador de som e administrador. E Romeu fiscaliza. "A palavra é um tanto pesada", Elis vacila, "mas a sua função é a de um capataz, saca? Ele confere tudo, um cão de fila, digamos assim". Por que uma equipe tão familiar? "Ora, em primeiro lugar, eles gostam de mim", assegura a Baixinha. "Em segundo, não estão a fim de me prejudicar. Terceiro, são hiperdotados para os cargos que ocupam. E tem mais uma coisa. Se alguém vai ganhar, que ganhem os meus. Só tomará champanha comigo quem comeu grama comigo." Essa ligação estreita e amorosa com os parentes, aliás, sempre foi inabalável. Foi a pedido de vovó Donana e pela mão de mamãe Ercy que Elis mostrou pela primeira vez em público sua "vozinha afinadinha', numa sala da Rádio Farroupilha, de Porto Alegre. Tinha 12 anos de idade e um nervosismo tão grande que sofreu, ao cantar, hemorragia nasal e uma patética diarréia. O casaquinho de astracã branco ficou todo manchado de vermelho. "Aquela menina tinha uma personalidade muito forte", lembra Ary Rego, animador do 'Clube do Guri", o programa de rádio onde Elis debutou ensangüentada. "Para ela, tudo precisava ser bem feito. Era muito organizada e exigente. Havia até garotas com vozes melhores do que a dela. Nenhuma, contudo, demonstrou o capricho e a disposição de Elis." José D'Elia, pianista que a acompanhava, também se recorda da garota de melena encaracoladas, óculos redondos de aro dourado. "Ela era a estrelinha do programa. Só tirava os óculos na hora de se apresentar. E sempre cantava rindo, de olhos fechados." A primeira música que interpretou foi "Lábios-de Mel", um velho sucesso de Angela Maria. "Aliás, ela e Cauby Peixoto são até hoje meus ídolos prediletos. Não abro mão para ninguém." Na parede do escritório da residência de Elis, autografada e emoldurada, existe de fato um foto de Cauby. É uma casa de poucos metros de frente, mas bastante comprida, um quintal transformado em jardim, multas plantas nos vários recantos de cada cômodo. Na vasta sala de visitas, protegida por um macio e grosso tapete verde-escuro, espalham-se as dezenas de corujas decorativas que César coleciona. Quadros primitivos cobrem suas paredes. Móveis confortáveis, muitas almofadas abrigam os visitantes. Da cesta de revistas transbordam jornais da imprensa nanica. Num canto, nada menos que nove volumes, que Elis confessa ler simultaneamente. E sua curiosidade abarca assuntos tão diferentes como as aventuras do Super-Homem, surrupiadas do filho João Marcelo, e a correspondência do ginecologista francês Frederick Lebover. "Há sempre um bule de água quente sobre a mesa da sala. Não para o chimarrão, como seria de se esperar num lar gaúcho, mas para as seguidas infusões de café solúvel que Elis prepara, ela mesma, a cada instante. "Eu sou muito ligada. Minha pilha está sempre nova, saca? Comigo não tem aquele negócio de motor amaciando. Sou do tipo McLaren, Ferrari, 300 por hora o dia inteiro. Você já pensou o que é ter permanentemente a seu lado uma pessoa ligadona assim?" César, o marido, 31 anos, pianista e arranjador, parece permanentemente tranqüilo e satisfeito. Se o ritmo da mulher tem o estilo Fórmula 1, o dele sugere um velho Packard. Rosto sério, muito calado, não é homem de se abrir no primeiro ou no segundo encontro. Um padre amigo do casal definiu bem a extrovertida e o reservado. "César lembra o Teatro Municipal. Elis, a escola de samba." Colegas de trabalho, durante muito tempo conviveram os dois sem pensar em namorar. César jura que começou a gostar de Elis. Mas não ousava se declarar. A cantora que acompanhava ao piano parecia-lhe inatingível como uma estrela. "E ela era uma estrela, não era?" Elis, por sua vez, um belo dia também começou a se interessar. Mas, como César, tinha vergonha de dizer. O tempo foi passando até que um dia a estrela tomou coragem. Chamou um grupo de amigos para assistirem a "Os Sete Samurais" em sua casa. Durante a sessão, enfiou uma cartinha entre os dedos do pretendente e segredou na penumbra: "É pra ler no banheiro". Passados estratégicos minutos, o tímido se levantou, trancou-se entre ladrilhos e saboreou a mensagem. Uma sonhada, mas absolutamente inesperada, carta de amor. Sentiu-se tão desnorteado que nem se despediu das pessoas, fugiu, do banheiro para a rua. No dia seguinte, ao se encontrarem, um silêncio de morte. Elis, agoniada, cobra uma resposta. O Teatro Municipal, solene e silencioso, segura a mão da escola de samba. "Aí começou", César finaliza. A carreira de Elis Regina também principiou muito bem. Depois de dois consagradores anos como atração principal do "Clube do Guri", recebeu o primeiro convite para se profissionalizar. Tinha 14 anos e muita facilidade para idiomas - dom que lhe permitia desfiar um eclético repertório internacional, composto de músicas do hit-parade, fossem em inglês, italiano, espanhol ou francês. "Eu ganhava 6 contos de ordenado - muito mais que o pai. Tanto ele como minha mãe jamais se opuseram, nunca interferiram na minha carreira. Só pediam que eu continuasse estudando." Quem odiava a cantoria era o irmão, obrigado a deixar o futebol para levar a maninha ao auditório da rádio. Um dia o Zéio se enfezou de verdade e disse: "Eu não jogo, mas você também não canta". E deu-lhe um soco na boca. A Pia Sociedade das Filhas de Maria de Porto Alegre, da qual Elis era associada, também não apreciava suas inclinações artísticas. Ninguém, todavia foi mais categórico na condenação da "cantora de rádio" que a severa professora de francês do Instituto de Educação, General Flores da Cunha. A maestra reprovou injustamente a aluna e ainda a desacatou: "Disse que eu não tinha dignidade para envergar o uniforme da escola. E se eu era assim tão ordinária, minha mãe também não devia ser grande coisa. Aí eu não agüentei e, capuff, dei um tapa na megera. Da minha mãe você não fala desse jeito", relembra Elis possuída ainda de inextinguível furor. Adélia Porto da Silva, repórter da sucursal de VEJA em Porto Alegre, foi sua colega de escola. Sentaram-se na mesma classe de quarta série ginasial, em 1961. "Elis era ótima em inglês, boa em matemática e perfeita no relato de anedotas picantes. Em seus cadernos, rabiscava freqüentemente o nome de Gessy Lima, cerebral e elegante ponta-de-lança do Grêmio Futebol Portoalegrense." Idêntico entusiasmo Elis provocava nos músicos, como o maestro alemão Karl Faust, regente da orquestra em que estreou como crooner, aos 15 anos. Em seu escritório em Hamburgo, Alemanha, de onde atualmente dirige o departamento de música erudita da gravadora Polydor International, Faust, de 46 anos, recebeu Carlos Struwe, de VEJA, para uma conversa sobre a ex-pupila. "Ela sempre foi alegre, otimista, positiva. E trabalhava com seriedade. Depois que voltei à Alemanha, em 1962, reencontro Elis mais ou menos a cada dois anos. Mas até hoje não consigo definir sua voz. Para mim, é uma das poucas artistas completas que existem." Elogios assim tão derramados ecoam rotineiramente aos ouvidos da Baixinha. As reverências partem dos mais diferentes pontos. Walter Silva, o "Pica-pau", 42 anos, o radialista e produtor de shows musicais que em 1965 a convidou a experimentar São Paulo: "Ela é a nossa Edith Piaf, a nossa Amália Rodrigues, nossa Judy Garland, a nossa Libertad Lamarque, a única estrela de categoria internacional que o Brasil já teve". E "Pica-pau" arremata, triunfal: "Benditos os olhos que viram Elis Regina cantar e Pelé jogar". Alguns preferem outra forma de reconhecimento. Antônio Carios Jobim, por exemplo, gravou um disco todo com Elis. Os mais significativos nomes da música popular brasileira revelados nos últimos dez anos, de Edu Lobo a Milton Nascimento, de Chico Buarque a João Bosco, não hesitaram em confiar a Elis o seu trabalho. E ela ainda ajudou a revelar muitos outros, como Tim Maia - e um autor de carreira bruscamente interrompida, um certo Édson Arantes do Nascimento, o Pelé. Não bastasse tão amplo crédito à sua competência profissional, alguns compositores tornaram-se íntimos amigos de Elis Regina. Como Aldir Blanc, o parceiro de João Bosco, que percebe na voz da cantora "a emoção que tive ao fazer a letra". Mais. "Acho Elis a maior cantora que o Brasil já teve em qualquer época. Admiro tanto a sua capacidade de duração quanto a de renovação. Nosso relacionamento é profundo, superaberto. Quem a conhece bem de perto vê que a cada dia de espetáculo, a cada faixa de disco, ela se supera. Um processo violento e contínuo de superação de si mesma. Elis é uma pessoa extremamente corajosa." Produtor e diretor de espetáculos, humorista, o bon vivant Luís Carlos Mièle trabalhou diversas vezes com Elis. "Já a vi, e já a li, rotulada das mais diferentes maneiras. Mas a verdade é que em todas as fases de sua carreira, tanto público como crítica sempre tiveram que engolir Elis Regina. Porque, distribuindo muito mais talento que simpatia, Elis é a primeira, a segunda e a terceira cantora do Brasil." Exatamente o que, ela estava disposta a provar quando, a 31 de março de 1964, desembarcou - com o pai Romeu - no Rio de Janeiro, esquecida do propósito de se tornar professora e advogada, e ansiosa por sensibilizar o chamado cenário artístico nacional. Na bagagem levava um disco que gravara para a CBS, uma sacolejante reunião de boleros e rocks-baladas, possíveis, segundo seus idealizadores, de fazer dela uma répica de Celly Campelo. "Romeu e eu fomos morar num quarto-e-sala da rua Figueiredo Magalhães, em Copacabana. Aprendi a cozinhar. Lavava a louça e Romeu arrumava a casa. Eu esfregava roupa, ele passava. Sabe como é, Romeu tinha lá seus 45 anos, e nessa idade ninguém arranja emprego. A gente precisava se virar com o que eu ganhava na TV Rio, num emprego que o Paulo Gracindo me conseguiu. Eram 200 contos por mês. Mandávamos 100 para Porto Alegre, 60 iam no aluguel, sobravam 40 para o resto." O compositor Roberto Menescal conheceu-a naquela época. E maravilhou-se à primeira vista. "Foi um negócio parecido com o que senti ao ouvir pela primeira vez o trabalho de João Gilberto. Fiquei vidrado mesmo." E a empolgação não diminuiu com o tempo. "Acho que Elis Regina é um pouco Vinicius de Moraes - está sempre começando. Quando você menos espera, lá vem ela toda entusiasmada, inteiramente imprevisível. Apesar de não ser fácil lidar com ela, é uma pessoa tão incrível que merece todo o crédito profissional." Vinicius, compositor, poeta e diplomata, foi quem a batizou de "Pimentinha". A razão: "Aquela mulher não é fácil. Muito temperamental, imprevisível nas suas reações. Mas nenhuma cantora brasileira tem, como ela, tamanha sensibilidade para ritmo e divisão. Ela está mais tranqüila agora." E diagnostica a possível causa: "O casamento com o Cesinha". Elis, aliás, não procura desmentir sua fama de "baixinha invocada", hiper-sensível, difícil. "Sou mesmo. Eu sou uma pessoa geniosa. Se você me tratar legal, tudo bem. Mas se eu tenho uma unha encravada e você pisa nela, o mínimo que eu vou fazer é te mandar..." - transmitiu ela, quase como uma advertência, a José Márcio Penido, que a entrevistou para VEJA. Os palavrões, aliás, participam desinibidamente de sua conversa. E também gírias, desde o senil "bicho" às mais disseminadas criações da chamada turma da curtição. De uns e outros, contudo, ela abre mão ao explicar sua posição na constrangedora disputa que se trava, desde a semana da estréia, nos bastidores de "Falso Brilhante". A diretora e o cenógrafo pleiteiam um percentual na bilheteria do espetáculo. Tal exigência, rebate Edmar Tommy, advogado da cantora, seria infundada, pois havia-se combinado que Míriam Muniz e Naum Alves de Souza receberiam um pagamento fixo por seu trabalho - 40.000 cruzeiros cada um. Paga esta soma, nada mais teriam a reclamar. Os dois artistas, por sua vez, reafirmam, cada qual, o direito a 5% da renda diária. Como nenhum contrato escrito se celebrou entre as partes, a polêmica se estendeu por um mês. No final da semana passada, entretanto, graças aos esforços de seus advogados, os litigantes pareciam dispostos a celebrar um acordo e encerrar a questão. Apesar de tão agitada vida, a surpreendente Elis cultiva hábitos bem prosaicos. Faz a feira toda semana. Vai com o marido e os filhos andar de montanha russa no Playcenter e fazer piquenique nos gramados do Parque Ibirapuera. Não tem cozinheira. Ela mesma prepara o trivial variado de todos os dias - é uma especialista em suculentas peixadas. "Nós somos bem medíocres, graças a Deus", sintetiza. "Ela sempre será uma radical", define o seu amigo Abelardo Figueiredo, produtor de shows e proprietário da boate Beco, em São Paulo, com a autoridade de quem foi até padrinho de casamento da cantora (com Bôscoli): "Ronaldo e Elis eram duas pessoas muito carentes de afeto, até parecia que se completavam. Mas o resultado foi um relacionamento neurótico. César Camargo Mariano lhe dá mais segurança afetiva, acho que estão ótimos juntos. Em casa, ela se comporta como uma mãe superdedicada, capaz de fazer tudo pelos filhos, mas sem chegar a superprotegê-los. A conversa é cri-cri, vida burguesa mesmo, porque Elis é uma mulher simples. Ama e odeia com toda força - e nisso está a chave da sua personalidade e do seu radicalismo". Elis conheceu Ronaldo Bôscoli quando se mudou para c Rio, há quase doze anos. O baterista Do Um Romão convidou-a para cantar com seu Copa Trio no Beco das Garrafas, o mais renomado reduto da música brasileira na primeira metade dos anos 60. Elis descreve o local: "O Beco era uma ruazinha de 50 metros, 20 talvez, com uma série de garagens, quatro ao todo, adaptadas para boates. Aquilo significava o templo da canção brasileira. Quem entrava nas quatro casas era quente. Quem não conseguia, estava perdido. Tive, então, oportunidade de vivenciar uma realidade das mais violentas que um ser humano possa se permitir". Os cariocas, lembra Elis, consideravam-se os donos da música brasileira - não tinham inventado a bossa-nova? Os forasteiros, se não passavam por maus-tratos, permaneciam simplesmente ignorados. "Agrediam a gente de tudo quanto é jeito. Eu dava boa-noite e não ouvia resposta. Ensaiava uma música num tom e na hora de tocar os músicos atacavam três tons acima, só pra me humilhar. Eu chorava que nem uma imbecil em cena." Namorado firme, naquela época, nenhum, ela garante. "Eu queria minha mãe, o útero materno, porque estava numa guerra desgraçada." Não gostava da noite, da boêmia, detestava beber. "Prefiro o branco ao preto. Prefiro o dia. Eu posso ver." De bom, para ela, o Rio só tinha a oferecer suas características de cidade-balneário. Assim, sem pensar duas vezes, aceitou o convite de Walter Silva para se apresentar nos shows musicais que ele produzia no Teatro Paramount de São Paulo. O cachê de 80 contos equivalia a uma dezena de noites de trabalho na boate Bottle's, do Beco. "Lógico que aceitei. O pessoal chiou - afinal, eu estava segurando a lotação da casa, pô. Um bando de sanguessugas, isso sim. Me xingaram de tudo quanto é nome. Mas eu tinha que aceitar, precisava ganhar dinheiro." Na capital paulista, Elis Regina encontrou um ambiente musical bastante diferente. Os concorridíssimos shows do Paramount contavam com a colaboração de universitários paulistanos. Cada semana, um diretório acadêmico organizava a programação e convidava um grupo de artistas, "todos recém-chegando", ela recorda: "Vi o Chico Buarque, por exemplo, estudante de arquitetura, cantando 'Pedro Pedreiro' com as irmãs". Tanta gente nova, tantos talentos, por que não fazer um concurso? - pensaram os diretores da TV Excelsior, de São Paulo. Surgiu então o 1º Festival de Música Popular Brasileira, em 1965. Logo de saída, defendendo "Arrastão', de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, Elis (que muitos pensavam ser Élis), conseguiu uma formidável vitória. A música ganhou o primeiro lugar e ela o título de melhor intérprete, alguma fama - a voz perfeita, o sorriso escancarado, os braços que se moviam furiosamente enquanto cantava - e apelidos como "Hélice" e "Eliscóptero". Para comemorar a vitória no festival, Walter Silva programou três noites de espetáculos, com a participação dos mais destacados concorrentes. "Então eu cantei um pot-pourri com o Jair Rodrigues, acompanhamento do Jongo Trio. Os produtores, que gravavam todas as apresentações, mandaram a fita para a Phonogram, sem que eu e Jair soubéssemos de nada." Três semanas mais tarde, estourava em todas as lojas de discos do país o LP "Dois na Bossa". "Aí não deu pra segurar mais", relembra Elis. O Brasil ingressava na era dos festivais - e Elis Regina despontava como a mais cintilante revelação do naipe feminino de astros. "Era uma verdadeira loucura. O país inteiro seguia pela televisão. No teatro, não tinha chão, só gente. Bastava entrar em cena e dizer boa noite, uáááááááá, a massa ululava. Chico, Edu, Nara, Gil, Caetano, apenas gente nova, em cena e na platéia, um negócio muito bonito." E conturbado também. "O artista se sentia obrigado, por falta de mercado e de alternativa, a se dedicar exclusivamente à televisão. Eu não tinha tempo para conviver com os colegas. Tudo muito desumano. Excursionávamos sem parar. Faziam-se shows de várias horas, com cinqüenta ou mais artistas, em instalações precárias, sem camarins, banheiro - e até mesmo sem cadeiras." "Por que não trouxe a Elis?", costumavam igualmente indagar do sambista quando o viam sem a parceira. Depois do terceiro disco, conta Jair, os dois resolveram desfazer a dupla. "Era uma jogada muito perigosa. Na época, quando do pintou "O Fino da Bossa", juntou-se a fome dela com minha vontade de comer. Mas, depois de saciados, comer mais seria pura gulodice". Aos 36 anos, que não aparenta, Jair parece o mesmo daqueles tempos - simples, despachado, brincalhão. A separação foi discutida e decidida em termos amigáveis. "Elis sempre se portou como uma profissional correta e uma figura humana admirável", garante Jair. "Nunca me destratou, nem como cantor, nem como homem, sempre foi maravilhosa comigo." Elis tem as mesmas palavras carinhosas para recordar o ex-companheiro. "O primeiro filho dele nasceu no mesmo dia que eu, 17 de março. Essa coincidência me fez chorar feito uma cabra." Dela também não têm queixas os dois empresários com quem trabalhou, Marcos Lázaro, durante onze anos, e Rode Oliveira, dezoito meses. Graças ao primeiro, Elis cantou para platéias de quase vinte países das Américas, Europa e África. "Não viajou mais para o exterior porque não quis", conta Lázaro. "Para mim, ela está no nível de uma Ella Fitzgerald ou de uma Barbra Streisand."O destrato entre os dois também transcorreu em paz. "A maior qualidade de Elis é que, sendo amiga, o é realmente. Como demonstrou comigo: separamo-nos tão cordialmente que ela nunca falou mal de mim nem eu dela." De fato. Diz Elis: "Onze anos depois, fazendo uma repensagem, concluí que Marcos Lázaro foi a pessoa mais honesta que eu conheci. Porque ele nunca me mentiu, sempre disse: o que me interessa são os 20% que você me dá". Como se traduziria, então, essa, digamos, desonestidade dos demais? "Quase todos diziam que gostavam de mim." Roberto de Oliveira, 27 anos, da Clak Produções Artística, empresariou Elis durante todo o ano de 1974. Levou-a a gravar com Tom Jobim nos EUA e a percorrer o chamado circuito universitário - uma longa excursão de ônibus por cidades do interior. E relembra: "Ela enfrentou a parada com uma disposição incrível. Se tivesse que cantar o ano todo, cada dia numa cidade, Elis adoraria", conta Roberto, um homem que a Baixinha define amorosamente como "um cara de branco, prateado e com uma aura no corpo". Quanto ao circuito, "embora estafante", compensou. "Porque pude mostrar o trabalho de João Bosco, de Milton Nascimento, falar com as pessoas mais de perto e tomar contato com a realidade do país. Pois as metrópoles não são o Brasil. O Brasil é Piracicaba, Uberaba, Uberlândia, o interior. São Paulo é um acidente, saca? Mas é um lugar maravilhoso, de onde não vou sair nunca mais." Seu maior sonho, por exemplo, está na casa pré-fabricada que pretende erguer em seu terreno nos Alpes da Cantareira, um novo, longínquo e verdejante bairro de São Paulo. Além desse lote, Elis possui três apartamentos no Rio de Janeiro e a casa onde mora em São Paulo. Bens que adquiriu ao longo dos últimos anos, a partir do momento em que "O Fino da Bossa", os festivais da Record e os discos promoviam farta e regular compensação financeira. Uma época em que trabalhava "que nem uma louca". Uma vez teve um desmaio, de pura exaustão, e passou 28 horas desacordada. "Eu simplesmente não queria acordar. Pra quê? Não passava de uma máquina registradora. Não tinha amigos, não conversava com ninguém. Romeu, pela primeira vez em tantos anos, não estava ao meu lado. Eu o tinha dispensado, ficava encabulada de ser a estrela que sempre carregava o papai ou a mamãe, saca?" Morando só, sem receber visitas e sem fazê-las, "para não dar o que falar", Elis confessa que nunca se sentiu tão mal. "Com 20 anos, uma enorme vitalidade, trabalhando doidamente e vivendo só, era um tremendo vazio. Você fica carente demais, o primeiro malandro com um pouco de lábia que pinta você cai. Não deu outra. Em 1967, casei com Ronaldo Bôscoli." - Chegou a ser bom algum tempo? Ronaldo também não fala da ex-mulher. Procurado por uma repórter de VEJA, marcou um encontro. Mas não compareceu. Mais tarde, por telefone, explicou-se. Seu advogado recomendara não fazer declarações para não prejudicar o andamento do lento processo que corre na Justiça carioca pela custódia de João Marcelo, o filho do casal. Em fins de 1970, Elis fez análise com o dr. Hélio Pellegrino, no Rio. De grupo? "Não confio nas pessoas. Quando você conta casos ao analista, você dá nomes, né? Eu só conheço gente que todo mundo conhece. De repente, tem alguém ali no grupo que vai escrever contando minhas sessões, e aí como vai ser? Eu não sou besta. Já aconteceu isso uma vez, não quero de novo. Uma pessoa que privava da minha intimidade foi depois para os jornais contar até o nome do remédio que eu tomava nas minhas prisões de ventre." Quem foi? Alguma secretária, empregada doméstica? De qualquer forma, o tratamento pacificou Elis. Ela deu por encerrada a "fase loucura" de sua carreira, que durava já seis anos, e passou a restringir suas apresentações em público. Nos últimos anos, montava apenas um show por temporada, um ou dois discos no máximo. Antes tão afogueada, sua carreira quase beirou o extremo oposto, impecáveis recitais onde a absoluta correção de suas interpretações chegava a aparecer gélida, impessoal. Até a reviravolta completa de "Falso Brilhante". Hoje, o pai não é mais o único amigo de Elis Regina. Ela se orgulha de contar com gente querida em "Vitória, Belo Horizonte, Formiga, Curitiba, Porto Alegre, Rio, Recife, São Paulo e São Luís do Maranhão. Pessoas-exemplos, pessoas-chaves, gente que fala direto, sem entrelinhas - elas dizem". Existe também o preito dos admiradores. Elis adora, por exemplo, ser reconhecida na rua. "Gosto mesmo. Meu superego fica dançando rumba de tanta satisfação. E não tenho a menor vergonha de confessar. Vou ficar velha, com 60 anos, mas não largo esse riso na cara pra todo mundo ver que sou eu." Sonhos de conquistar o mundo? "Acidentalmente, talvez. Perseguir isso, não. Tenho preocupação com uma carreira latino-americana - o que é bem diferente." Em "Falso Brilhante", no final do espetáculo, à frente de sua pequena mas comovedora companhia, Elis ginga pelo palco com um tosco estandarte na mão. Que pavilhão seria esse? Ela demora muito para responder. "Eu, porta-estandarte? Sei não. Sou uma cantora. Popular. Não levanto nada não. Eu só canto. O resto é conseqüência." |
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