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Reportagens 27 de novembro de 1996Gordura tem remédio Depois da era das bruxarias, um
Não desanime. Gordura já tem remédio. 'Em vinte anos de experiência médica, tratando milhares de obesos, nunca vi coisa igual: alguns de meus pacientes perderam 22 quilos em três meses apenas com remédios, sem dieta ou exercícios', diz o endocrinologista americano Benjamin Krentzman, que clinica na Califórnia, o Estado americano onde todo mundo quer parecer filho de Jane Fonda com Arnold Schwarzenegger. 'Esta é a década do ataque final à obesidade crônica', completa Krentzman, um entusiasta das novas drogas, várias delas já receitadas no Brasil. Elas são uma esperança real para os gordos derrotados pelas dietas mais exóticas e malhação de pára-quedista. Até bem pouco tempo atrás, a maioria das drogas para combater a obesidade era feita à base de substâncias hipnóticas e anfetaminas, que podem provocar alucinações e viciar os pacientes. Com o surgimento do Redux, do Isomeride e assemelhados, a saída química tornou-se mais aceitável para os gordos crônicos. Nos Estados Unidos, a obesidade é um problema de saúde pública. Apesar de comerem 40% menos calorias que nos anos 80, e apesar de 50 milhões deles freqüentarem academias de ginástica, os americanos estão mais gordos. Na década passada, um em cada quatro americanos era obeso. A relação hoje é de um em cada três. No Brasil, o número é quase o mesmo. O que se julgava apenas um distúrbio do comportamento - comer muito e exercitar-se pouco - passou a ser visto como uma disfunção biológica. Ou seja, o emagrecimento agora deve ser orientado e acompanhado por profissionais da medicina, e não pelos conselhos de atrizes de televisão e seus gurus psicoquímicos. 'Chegou a hora de tirarmos a questão da obesidade das mãos das publicações populares com suas dietas milagrosas, dos curandeiros e seus chás exóticos, e devolvê-la aos consultórios médicos', diz C. Everett Koop, o respeitadíssimo médico americano que foi ministro da Saúde no governo Reagan e hoje dirige a Shape Up America (Entre em Forma América). Koop alerta que a obesidade está intimamente relacionada com as mortes por ataque cardíaco, diabete e hipertensão, além de ser um agravante nos casos de artrite e uma das causas do câncer de colo e da próstata, em homens, e do câncer cervical, em mulheres. 'Pela primeira vez, temos drogas eficazes para tratar os casos mais graves, e é preciso agir', diz Koop. Descobriu-se não apenas quais são as substâncias químicas responsáveis pela ligação entre a cabeça e a barriga, mas também como quebrar essa cadeia. Pacientes que tomam, por exemplo, comprimidos de fenproporex e dexfenfluramina, princípio ativo do Redux americano e do brasileiro Isomeride, satisfazem-se com apenas um terço da quantidade de comida a que estão acostumados. 'Quando o paciente obeso se dá por satisfeito, e recusa a batata, o pão com manteiga ou um pedaço de bolo, é sinal de que o remédio está agindo', diz Xavier Pi-Sunyer, diretor do Centro de Pesquisa da Obesidade do Hospital St. Luke’s Roosevelt, em Nova York. O que Pi-Sunyer descreve é um fenômeno impressionante: auxiliado por um composto químico sintético, o organismo de um gordo passa a se comportar como o de uma pessoa magra. A ajuda extra da farmacologia não é a derrota total da gordura. Tratar com remédios a obesidade patológica e, em alguns casos, o desconforto estético de uns quilos a mais tem conseqüências que é preciso enfrentar. Remédio é remédio. Funciona, mas tem efeitos colaterais. Funciona, mas não igualmente para todo mundo. Funciona, mas não pode ser tomado - em hipótese alguma - sem supervisão médica enquanto durar o tratamento. 'Não existe mágica na terapia com remédios, seja o Redux ou outro qualquer', diz Medeiros. 'O que existe são resultados positivos, obtidos num prazo curto, quando comparado a outras abordagens.' 'Apenas mudamos os personagens no jogo da enganação: antes o gordo enganava a si próprio correndo à geladeira de madrugada para satisfazer o chamado do cérebro por serotonina, e agora estamos enganando o estômago, informando-o quimicamente de que não precisamos mais de comida', diz o médico Benjamin Krentzman, que experimenta em si mesmo as terapias químicas que receita a seus pacientes. Krentzman mantém uma página na Internet (http://www.loop.com/~bkrentzman/ index.html), que se tornou uma fonte de informações sobre o uso do Redux e de outras drogas emagrecedoras. Médicos de todo o mundo mandam suas experiências para Krentzman, que as exibe na Internet. Pela página de Krentzman pode-se saber que as autoridades de dezenas de países estão preocupadas com a possibilidade de o Redux se tornar um remédio popular - ou seja, passar a ser tomado sem receita médica, por indicação de amigos. Não é difícil isso ocorrer. Consumidores brasileiros têm importado caixas de sessenta comprimidos de Redux por 150 dólares a unidade, num ritmo frenético. A popularização dessas promessas químicas pela automedicação seria um desastre, alertam os médicos. 'O pior mal que alguém pode se fazer é tomar essas drogas sem acompanhamento médico', diz o endocrinologista paulista Alfredo Halpern. O FDA considera gorda, para efeito de tratamento com Redux, a pessoa que tenha índice de massa corporal, ou IMC, maior ou igual a 30. Esse índice é o mais novo e adequado indicador médico de gordura de aceitação universal (veja ilustração acima) Tem-se o IMC dividindo o peso em quilos pela altura em metros elevada ao quadrado. Quem, por exemplo, mede 1,62 metro e pesa 80 quilos tem IMC de 30 e, portanto, pelo rigor das recomendações americanas já se poderia habilitar a tomar Redux ou outra droga emagrecedora. Nessas pessoas, os quilos a mais representam um risco maior para a saúde do que os comprimidos para emagrecer. Segundo cálculo do pesquisador Landis Lum, professor da escola de medicina da Universidade do Havaí - Estado americano onde a gordura é quase epidêmica -, o Redux pode salvar vidas de pessoas obesas. Acompanhe o raciocínio do doutor Lum: 'Pelo que se sabe dos efeitos letais da droga, ela pode matar até quarenta pacientes em cada milhão. Ora, em pessoas de índice de massa corporal na casa dos 30, a diabete, os derrames e ataques cardíacos provocados pelo excesso de peso matam mais - 280 em cada milhão de pessoas. Pode-se afirmar, portanto, que o Redux salva 240 vidas por milhão'. Ótimo. Mas no caso do Redux, mesmo os efeitos colaterais brandos são bastante incômodos: diarréia, boca seca, sonolência e sonhos agitadíssimos. José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, vice-presidente da Rede Globo, tomou o Redux, reconhece que o remédio fez com que emagrecesse de maneira significativa, mas não agüentou o tranco. 'É insuportável ficar com a boca seca o tempo todo', conta Boni, que também ficou com sua vida onírica de cabeça para baixo. 'Alguns sonhos eram tão vivos que eu acordava rindo.' O Redux também pode provocar uma rara e progressiva hipertensão pulmonar, ou PPH, letal na maioria dos casos. Na média, a PPH ataca dezoito pacientes que tomam Redux em cada grupo de 1 milhão. Alguns estudos, ainda dependendo de confirmação, indicam que esse número pode chegar a quarenta mortes por milhão. A estatística pode parecer sinistra, mas é um número menor do que o de mortes associadas a uma simples aspirina, e substancialmente menor do que o risco de tomar pílulas anticoncepcionais ou penicilina. Ao menor sinal de inchaços nas extremidades dos dedos, desmaios, falta de ar, dores no peito, o paciente deve parar de tomar imediatamente o remédio e procurar ajuda médica. Os sintomas acima são os que precedem as crises fatais de PPH. 'Para evitar um desastre desses, o médico precisa examinar com muito cuidado seus pacientes. Quem tem problemas de psicose maníaco-depressiva, insuficiência renal ou hepática não pode tomar dexfenfluramina', avisa o médico Geraldo Medeiros. Um trabalho seminal do geneticista canadense Claude Bouchard, da Universidade de Laval, no Quebec, mostrou a relação direta entre alguns genes e a ocorrência da obesidade, da diabete e dos distúrbios da tireóide (veja ilustração acima). Um desses genes ajudaria a explicar por que comendo menos calorias, exercitando-se mais e fazendo toda sorte de dietas, o número de indivíduos gordos só aumenta. Os seres humanos estariam se tornando a cada geração indivíduos metabolicamente mais eficientes - ou seja, capazes de realizar mais trabalho físico com uma quantidade menor de calorias. 'A humanidade está se aprimorando geneticamente numa direção um tanto estranha. Estamos nos tornando grandes estocadores de gordura. A obesidade está dobrando a cada cinco anos no mundo. Nós temos uma epidemia pela frente, uma maré gigante de problemas para a saúde pública dos países ocidentais', diz Philip James, especialista escocês, autor de um estudo mundial sobre a questão da gordura em nações industrializadas. 'Ainda estamos distantes de uma vitória completa contra a obesidade. Por uns bons anos ainda será quase impossível transformar uma pessoa gorda num indivíduo definitivamente magro', reconhece o pesquisador nova-iorquino Pi-Sunyer. 'Mas o ataque coordenado à gordura com drogas, exercício e dieta de baixas calorias é a terapia mais potente de que dispomos.' Pi-Sunyer acha racional esperar que um gordo sadio possa conseguir facilmente, combinando as três armas acima, perder 10% do peso corporal no primeiro ano de tratamento e mais 10% no ano seguinte. Daí para a frente manter-se nesse patamar pelo resto da vida será uma meta mais realista. Para quem dispunha apenas de falsas esperanças, o avanço é enorme. O peso de perder peso As novas drogas para emagrecer são uma esperança a mais para os gordos decepcionados com os resultados das dietas e dos exercícios. O tratamento químico, porém, tem limitações APENAS EXERCÍCIO APENAS DIETA DIETA + EXERCÍCIO REMÉDIO DIETA + REMÉDIO + EXERCÍCIO |
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