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27 de setembro de 1995
Coração desafinado

Infarto do ministro Sergio Motta põe
em evidência as doenças cardíacas,
maior causa de mortes na atualidade, e as
novas técnicas para combatê-las

Segunda-feira, dia 18, 9 horas da manhã. O ministro Sergio Motta está na sede da Telesp, em São Paulo. Muito irritado, comandava uma solenidade de liberação de 1,6 milhão de reais para projetos culturais. Na hora do discurso, Serjão distribuiu bordoadas. Malhou a equipe econômica do governo ao qual pertence, lanhou os juros ("escorchantes") e alfinetou o PFL, um de seus alvos prediletos. Bufava. Ao se dirigir para uma reunião, no mesmo prédio, foi atalhado por um repórter, que o provocou: queria saber a quantas anda a reforma ministerial. Essa, não! "Vamos fazer imprensa séria", devolveu o ministro, impaciente.
 
O coração de um homem adulto é do tamanho de um punho fechado e pesa apenas 340 gramas, em média. Em boas condições, é capaz de pulsar por mais de um século. Numa pessoa saudável, funciona ao ritmo de 72 batidas por minuto - 104 000 por dia, 38 milhões por ano e algo em torno de 2,5 bilhões de pulsações ao longo de uma vida inteira. O coração bombeia 85 gramas de sangue a cada batida, o que equivale a mais de 9 000 litros por dia. Com seu trabalho silencioso, é capaz de encher uma piscina caseira em uma semana. Esse dínamo prodigioso, reverenciado pelos poetas como o centro das emoções, é o que se conhece de mais próximo da fonte da própria vida. Com tudo isso, o coração não deixa de ser o que é: um músculo. Tem um trabalho a fazer - bombear o sangue no interior do corpo - e o faz. Quando falha, surgem problemas como o que atingiu o ministro Sergio Motta na semana passada.

As doenças cardíacas são, de longe, a maior causa de mortalidade no mundo inteiro. A mais freqüente delas, o infarto no miocárdio, matou 4,3 milhões de pessoas apenas num ano, 1993, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. Isso dá a metade da população de uma cidade como São Paulo. Quatro em cada dez mortes por doenças são causadas pelo infarto. Diante dessas cifras, a reação natural é culpar a vida moderna. Morre-se hoje muito mais de infarto do que na época de dom Pedro II, por exemplo, embora as doenças cardíacas sempre tenham estado presentes na trajetória da humanidade. O caso mais antigo de problema no coração que a História registra é o de uma mulher egípcia, na faixa dos 50 anos, que morreu em torno do ano 1000 antes de Cristo e cujo coração mumificado mostrava "claros sinais de estreitamento das artérias coronárias", segundo os especialistas. Com todos os males típicos da nossa época, como a Aids e as doenças causadas pelo cigarro, ela ainda é incomparavelmente melhor que os tempos anteriores à invenção da penicilina, quando a forma mais comum de tratamento das doenças - qualquer doença - era a aplicação de sanguessugas, que em geral acabavam apressando a morte do paciente. O infarto matava menos no passado por um motivo simples: eram poucas as pessoas a atingir a idade em que os problemas cardíacos são mais freqüentes, a partir dos 55 anos, no homem, e dos 65, na mulher. Tampouco o câncer - uma doença cuja incidência cresce com a velhice - era o flagelo que conhecemos. Nossos antepassados morriam de sarampo, tétano, tuberculose e de doenças infecciosas perfeitamente curáveis hoje em dia, sem contar as mortes de parto, que dizimavam as mulheres ainda na juventude.

Ao sair da Telesp, às 11h30, já atrasado para quem ainda enfrentaria dois compromissos pessoais, Sergio Motta resolveu dar uma passadinha pelo McDonald's da Avenida Paulista. Fez o pedido: Big Mac, batatas fritas e uma Coca. Para compensar a gordura do Big Mac e das batatas, Serjão pediu Coca diet. Engoliu apressado o sanduíche e foi ao dentista, acompanhado apenas de seu motorista, Zezinho. Depois do dentista, partiu para outra consulta, às 15 horas, com o cirurgião cardiovascular Ricardo Aun, no Hospital Albert Einstein. O ministro marcara a consulta para tratar de uma úlcera em seu tornozelo esquerdo, causada por problemas circulatórios. É uma ferida comum em pacientes que, como Motta, são portadores de hipertensão e diabete. Há um mês Aun vinha medicando o ministro, que cumpria disciplinadamente as determinações do médico. Limpava a ferida duas vezes por dia com água morna e vaselina líquida, e tinha começado a fazer caminhadas perto de sua casa no Lago Sul, em Brasília, para perder peso. Serjão, no entanto, continuava uma jamanta de 120 quilos, 40 a mais do que o recomendável para alguém de sua altura (1,73 metro). No caminho do hospital, veio o mal-estar. Sentia falta de ar e suava muito. Ao atravessar os 100 metros da entrada do hospital até o consultório do médico, Serjão piorou. às 15 horas em ponto, apresentou-se à secretária do médico, Maria Madalena. "Estou com um mal-estar", disse, pálido. A secretária notou, então, que os lábios do ministro estavam roxos. Avisou o médico, que naquele momento terminava uma cirurgia.
 
Dos fatores de risco do ataque cardíaco, existe um que, este sim, é típico dos nossos dias: o stress. Do operário ao presidente de uma multinacional, passando pelo deputado e pelo ministro, ninguém está imune às situações de tensão nervosa causadoras da emissão de adrenalina no sangue. Em doses moderadas e a intervalos longos, a adrenalina é boa, pois prepara o organismo para responder a desafios. Já a emissão excessiva provoca uma sobrecarga no coração que pode até desencadear um infarto. É esta, talvez, a explicação para a incidência tão alta de doenças cardíacas entre os homens que se dedicam à política - uma das atividades mais estressantes que se conhecem. Sergio Motta é o segundo integrante do primeiro escalão do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso que se submete a uma cirurgia de ponte de safena. O ministro da Educação, Paulo Renato Souza, foi operado no dia 6 de junho, quando estava na iminência de sofrer um infarto. Paulo Renato não aparenta sofrer do coração. Tem 50 anos e faz exercícios regularmente. O problema é o colesterol alto, que no seu caso se deve à hereditariedade. Uma semana antes da operação, começou a sentir dores fortes no peito. "Parecia que havia uma bigorna lá dentro." Não deu importância e, no fim de semana, deixou-se seduzir pelas delícias da culinária goiana, à base de carne de porco - o puro creme do colesterol. Na segunda-feira, o ministro não conseguia concatenar a fala e a respiração durante um discurso. No dia seguinte, fez duas pontes, uma de safena e outra de mamária.

"O poder é uma armadilha", adverte o ministro do Meio Ambiente, Gustavo Krause. "Temos de administrar conflitos e pressões que nos deixam permanentemente em guarda." Hipertenso, Krause dedica noventa minutos de seu dia aos cuidados com a saúde. Freqüenta uma academia de ginástica, toma remédios contra a pressão alta e faz questão de ficar em casa pelo menos doze horas todos os dias. Quando chega do trabalho à meia-noite, por exemplo, só volta a sair depois do meio-dia. Krause é um caso raro de político que não precisou de um susto para adotar medidas preventivas em relação à saúde. O governador do Ceará, Tasso Jereissati, só mudou seu estilo de vida depois de sofrer um infarto, aos 36 anos. Hoje, nove anos e seis pontes cardíacas depois (duas mamárias e quatro safenas), Jereissati se submete a uma dieta tibetana, onde não entram a carne vermelha, os ovos e os derivados do leite. "Essa é a dieta que todo mundo deve fazer depois de uma certa idade", recomenda.

Seu colega Mário Covas, governador de São Paulo, sentiu o perigo de perto durante a campanha para o Senado, em 1986. Um infarto o obrigou a internar-se durante dez dias no Instituto do Coração, onde foi tratado com uma angioplastia, aquele processo em que se enfia dentro da artéria um canudo com uma bombinha na ponta. Quando a bombinha chega no lugar entupido pela gordura, ela é inflada e amassa a gordura na parede da artéria. Com isso, o sangue volta a correr normalmente. Catorze meses depois, Covas voltou ao Incór com dores no peito e recebeu duas safenas e uma mamária. "O momento mais marcante foi quando eu ia perdendo a consciência com a anestesia e pensava: 'Será que vou acordar?'", lembra Covas. "Dá um medo danado." Operado pelo cirurgião e atual ministro Adib Jatene, o governador não se contenta com os recursos da ciência: recorreu aos serviços de um bruxo mineiro, Thomaz Green Morton. "Ele é um homem portador de muita energia", diz Covas. Morton, também conhecido como "Rá", esteve no Palácio dos Bandeirantes no último final de semana de julho. Dona Lila, a primeira-dama paulista, garante que, durante a visita, o bruxo exalou perfume pelos dedos.

Ao saber do estado físico de Sergio Motta, o médico Aun não perdeu tempo. Ordenou, por telefone, que o ministro fosse colocado numa maca. Ao chegar, o médico encontrou um Motta ansioso, com um mal-estar indefinido, suando frio e com pulso acelerado. Serjão passava a mão direita perto do ombro esquerdo e na barriga, para apontar a região do desconforto. "Deve ser o lanche que comi", disse. Pensava no Big Mac. Aun decidiu fazer um eletrocardiograma. Assim que os ponteiros começaram a riscar o papel, a dúvida se desfez. "Ministro, o senhor está tendo um infarto", comunicou-lhe, à queima-roupa. "Mas como? Eu nunca tive problema de coração", reagiu Motta. E entregou os pontos: "Faça o que for preciso". Foi a primeira vez, em dezessete anos, que Aun constatou um infarto em plena consulta. Por este ângulo, Serjão deu muita sorte. Estava dentro de um dos melhores hospitais brasileiros. Mais tarde, o ministro agradeceu ao médico: "Doutor, o senhor tirou a bola de dentro do gol". Para deter o infarto, Aun deu-lhe uma aspirina e um comprimido de isordil. Em seguida, perguntou ao ministro se ele queria chamar outro médico. "Chama o Bernardino", respondeu Motta. Falava de Bernardino Tranchesi Júnior, chefe da Unidade Coronariana do Instituto do Coração. No trajeto para a sala de cateterismo, o ministro pediu para avisar sua mulher, Wilma.

Nem sempre o infarto apresenta sintomas tão agudos quanto no caso de Sergio Motta. O analista contábil Erlan Bezerra da Silva, de 34 anos, morador de Diadema (SP), estava jogando futebol, numa tarde de sábado, quando teve falta de ar e dormência nas mãos e na língua. Parou aos quinze minutos de partida e, ao voltar para casa, sentiu uma dor forte no centro do peito. "Em nenhum momento pensei que estava tendo um infarto. Pensei que eram gases." A dor durou a noite inteira, mas cedeu no dia seguinte. Só na segunda-feira, depois de consultar o médico da fábrica onde trabalha, fez um eletrocardiograma. "O médico pegou os resultados e me disse: 'você teve um infarto' ". Casos como o de Erlan acontecem quando o bloqueio da artéria se dá nas suas partes mais estreitas, longe da aorta, a superartéria de onde provém todo o sangue que irriga o coração. A área atingida é pequena e o funcionamento do órgão não sofre alterações radicais. É como no sistema de encanamentos de um edifício: se o entupimento é no 1º andar, poucos moradores sentem seus efeitos; se os canos são bloqueados perto da caixa-d'água, o prédio inteiro entra em colapso. A dona de casa carioca Gilda Freitas Autran, de 53 anos, só descobriu que teve um infarto três meses depois, em março de 1993. O primeiro sintoma foi uma ardência no peito, que se estendeu pelos braços até os dedos das mãos, na véspera do Ano-Novo. "Foi uma sensação muito esquisita." Quinze dias depois, Gilda acordou no meio da madrugada com dores no peito. Foi ao ginecologista, que atribuiu o mal-estar à menopausa e receitou um hormônio. Gilda continuou a piorar. Não conseguia mais fazer suas caminhadas diárias pelo Aterro do Flamengo, tinha enjôos e não dormia direito. Mesmo assim, demorou a ir a um cardiologista, que, afinal, constatou o infarto e lhe deu os parabéns pela resistência de seu coração.

Na maioria das vezes, a dor é tão forte que não permite nenhuma dúvida. "Era como se eu tivesse dentro do peito um torno triturando o meu coração pelos dois lados", lembra o empresário pernambucano Aracati Lima, de 77 anos, que sofreu um infarto na segunda-feira 18, no Recife. "Já recebi facada no braço e na perna", diz, mostrando cicatrizes de seus tempos de fuzileiro naval, "mas nada como essa dor do infarto." Magro e forte, Aracati nunca se considerou candidato a um ataque do coração. Seu único fator de risco é o cigarro - fuma um maço por dia, religiosamente, há sessenta anos. No caso do publicitário paulista José Luis Namur, de 48 anos, autor de jingles famosos como o da galinha azul da Maggi, o vilão da história é mesmo o stress. "Sou um pequeno empresário, não tenho horário para nada nem tempo para relaxar", diz. "Precisei de uma trombada para tomar jeito." A trombada foi uma crise de angina, no ano passado, resolvida com três safenas e uma mamária. Mudou de vida, claro. Baniu o cigarro, diminuiu o álcool e adotou uma dieta mais saudável. "Quando você vê a magra passar por perto, fica esperto logo", brinca Namur, refeito do sufoco.

O fato mais estranho na história clínica de Sergio Motta é que, aos 54 anos e com um extenso currículo de complicações, o infarto tenha ocorrido só na semana passada. De todos os fatores de risco, ele só está livre de um - o cigarro, que abandonou há vinte anos. O resto ele tem. É hipertenso, diabético, tem colesterol elevado e vida sedentária. Em Brasília, costuma entupir-se de sanduíches. Não bastasse isso, Motta trabalha num ritmo alucinado. O stress é intenso, agravado por traços de personalidade, como o "pavio curto". Seu amigo Tasso Jereissati notou isso nas últimas vezes em que esteve com Motta, em Brasília. "Ele estava ofegante, cansava-se ao menor esforço físico, estava gordo e estressado", diz Jereissati.

Os médicos concordam quanto às maneiras de prevenir uma doença do coração: diminuir o stress, a gordura e o cigarro, aumentar os exercícios e, a partir dos 45 anos, mais ou menos, fazer um check-up por ano. A primeira providência é a pessoa verificar sua situação diante dos fatores de risco mais graves, como o colesterol, a diabete e a hipertensão. Ariovaldo Xavier, de 48 anos, funcionário da Associação Comercial de São Paulo, nunca tinha tido problemas de saúde. É magro, calmo, não fuma nem bebe (é crente). Só descobriu que tinha o colesterol alto quando estava tendo um infarto, depois de passar um fim de semana com dores no peito. Ariovaldo recebeu duas pontes de safena. Se tivesse adotado antes sua atual rotina de vida, que inclui caminhadas e dieta, poderia ter escapado da faca e do perigo. "A responsabilidade pela boa saúde não pode ser jogada inteiramente nas costas do médico", insiste o cardiologista Maurício Wajngarten, professor da Universidade de São Paulo. "As pessoas têm de assumir a sua parte. O médico é o acionista minoritário nesse investimento que é a saúde do paciente", diz Wajngarten.

A dúvida aparece ao se constatar que, mesmo depois de passar por uma experiência traumática como um infarto ou uma safena, é impossível seguir à risca todos os conselhos médicos. Nessas horas, o fundamental é o bom senso, sempre. Exceto em casos extremos, a preocupação com a saúde não pode ser levada ao ponto de eliminar todos os prazeres da vida. Se for assim, para que viver? A fórmula do equilíbrio varia de pessoa para pessoa. O advogado paulista José de Oliveira Messina (três pontes de safena e duas mamárias) largou o cigarro, faz dieta e anda quarenta minutos por dia. "Mas não dispenso um vinho ou uma caipirinha de vez em quando", diz. O engenheiro agrônomo Adolpho Cusnir não tem paciência para os exercícios diários, mas faz questão de caminhar duas vezes por semana, evitar as gorduras e tomar os remédios religiosamente. Ele reconhece que sua vida não mudou muito depois da operação de ponte de safena: "Mas também, com 72 anos, não vou bancar o super-homem, não é?" O ministro Paulo Renato diminuiu o ritmo de trabalho, de catorze horas por dia para dez, no máximo. "Meu colesterol ainda está alto, por volta de 230", comenta. "Tenho de baixá-lo para 170. É o meu desafio do momento."

O cateterismo feito em Sergio Motta na segunda-feira logo detectou a obstrução que causara o infarto - na coronária direita. Todos os ramos da coronária esquerda também apresentavam obstruções, que, decidiu-se mais tarde, seriam aliviadas com a implantação de três ou quatro pontes de safena ou mamária numa cirurgia que estava prevista para o sábado 23. Naquela segunda-feira, aproveitou-se a ocasião para remover, através da angioplastia, o entupimento da coronária direita. O explosivo Motta revelou-se um doente calmo e até dócil. Queria ler jornais e ver televisão, mas os médicos vetaram, temendo excitá-lo. Contentou-se, então, com a leitura de Chatô, de Fernando Morais. Também ouviu músicas clássicas. Na quarta-feira, considerando que proibi-lo de trabalhar seria prejudicial ao ministro, já que elevaria sua ansiedade, os médicos resolveram autorizá-lo a se reunir com seus auxiliares. Assim, na quinta-feira, Motta recebeu em seu quarto no 10º andar do Einstein seus principais assessores no Ministério das Comunicações.

Entusiasta da vida saudável, Krause alerta os políticos contra as "liturgias cretinas" praticadas pelos homens do poder. "Em Brasília há almoços demais, jantares demais, sono de menos, exercícios de menos", observa. "Se você obedecer a todos os padrões estabelecidos, morre, deixa os filhos órfãos e vira nome de rua." Krause recomenda um truque simples para quem quiser evitar as arapucas das reuniões sociais: "Sempre que tenho um jantar, faço uma refeição antes de sair de casa." Os próprios médicos especializados em coração têm dificuldades de conciliar os cuidados com a saúde e as exigências da vida cotidiana. Enio Buffollo, de 57 anos, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardíaca, segue uma dieta de poucas gorduras, mede periodicamente seu colesterol e até desenvolveu um método individual de manter a forma física: dispensar o elevador. Como trabalha sempre em prédios, em andares diferentes, exercita-se boa parte do tempo descendo e subindo escadas. Mesmo assim, Buffollo confessa que nada pode fazer contra o stress, único aspecto de sua rotina que não condiz com as recomendações de qualquer cardiologista aos seus pacientes. "Como eu gosto muito do que faço, isso alivia um pouco a carga", justifica-se. Buffollo diz não ter medo do infarto porque, hoje, as técnicas cardiovasculares fornecem defesas para qualquer deficiência. "O duro é enfrentar um tumor, uma enfermidade contra a qual não temos defesa", afirma. Já os problemas cardíacos podem ter solução, desde que detectados a tempo, insiste o professor. "E até quando não tem mais jeito, podemos jogar fora o coração estragado e colocar um novo no lugar." Conversa típica de cirurgião cardíaco, mas afinal até transplante já dá para fazer com alguma esperança de sobreviver por uns anos mais.

 

O caminho do infarto

Bloqueio da coronária requer socorro imediato

Imagine um túnel por onde circulam veículos ininterruptamente. Imagine agora um bloqueio qualquer no túnel, deixando livre só uma pista para a passagem dos automóveis. O trânsito fica mais lento e congestionado. Imagine, finalmente, que um carro quebre bem na hora em que está passando ao lado do bloqueio. Sem nenhuma pista livre, todos os veículos que vêm atrás param. Cessa a circulação. É desse modo, comparativamente, que ocorre o infarto do miocárdio.

As artérias coronárias - os vasos que recobrem e irrigam o coração - são como um túnel por onde circula o sangue oxigenado. Com o tempo, devido a causas variadas, placas de gordura (ateromas) acumulam-se nas paredes do vaso, que fica mais estreito. Resultado: o sangue flui com dificuldade. De repente, a circulação fica tão lenta que propicia a formação de um coágulo - é o carro que quebrou, no exemplo do túnel. Com a obstrução, o sangue não passa e o tecido do coração que deixou de ser irrigado morre. Isso é um infarto. Bloqueios semelhantes do fluxo sanguíneo podem ocorrer em outras partes do corpo. Quando a área atingida é o cérebro, o resultado é um derrame.

Os infartos podem ser malignos ou benignos. Depende do local onde ocorreu a obstrução e do tamanho do estrago. Há três coronárias principais e várias secundárias. É como se fosse uma árvore, com os troncos mais grossos e vários galhos menores. Se o bloqueio ocorre numa coronária secundária, o dano é pequeno - esse é o infarto benigno. O maligno é a obstrução de um tronco principal.

Nesse caso, a vítima precisa ser atendida imediatamente. A maior parte das mortes por infarto acontece em menos de uma hora. Se o fluxo do sangue não for restaurado logo, por intermédio de uma droga que dilui o coágulo ou mecanicamente (com a ajuda de um cateter), o coração pára de funcionar. Para sempre.

 

Quando levar a dor a sério

Evite o pânico e, na dúvida, consulte um médico


Não saia em disparada para o hospital ao primeiro sinal de dor no peito. O melhor a fazer, se a dor for insistente, é consultar um médico. Ele poderá responder, com base no histórico do paciente, se é caso para se preocupar e tomar providências. Isso é indispensável porque existem várias doenças do esôfago cuja sintomatologia é muito parecida com a de um ataque cardíaco.

A dor do infarto é intensa e duradoura - "um aperto forte no peito" é uma das expressões que os doentes mais usam. Outros descrevem a sensação como a de uma "cãibra por dentro". Essa característica é mais importante do que a localização da dor. Não importa muito se dói do lado esquerdo ou direito do peito, ou se nas costas. O que conta é o tipo de dor, geralmente constritiva. Falta de ar, dormência em um dos braços ou em ambos, dor no queixo e iminência de desmaio são outros dos sintomas comumente associados ao infarto. Na dúvida, peça ajuda. "Dor é bom", consola o cardiologista Mauricio Wajngarten, de São Paulo. "Ela funciona como uma luzinha vermelha, um sinal de alerta." Muitas vezes, é preferível uma dor aguda, que obriga a vítima a pedir socorro, do que um infarto que só é percebido mais tarde, quando já causou danos irreversíveis.

Em muitas ocasiões, confunde-se a dor provocada pela angina com a dor do infarto - mais uma razão para procurar o cardiologista. A dor no peito, nesses casos, dura entre cinco e dez minutos, em média, e desaparece com o repouso. Quem está com dor ininterrupta há dez horas não tem angina. Por via das dúvidas, convém seguir uma regra sugerida pelo cardiologista Fúlvio Pileggi, diretor do Instituto do Coração: pessoas com mais de 35 anos (principalmente homens), com qualquer tipo de dor no tórax, devem investigar se o mal-estar tem origem coronariana. Mulheres depois da menopausa também devem prestar mais atenção a essas dores.

É importante também observar os chamados fatores de risco. Quem tem mais chances de ter doença cardíaca deve, obviamente, acautelar-se e combinar as consultas ao médico com exames regulares de pressão arterial e de dosagem de colesterol. Em qualquer caso, a visita constante ao médico é essencial.

 

Mulheres à beira de um ataque

Proteção hormonal diminui com a
menopausa e a vida mais agitada

Várias décadas de feminismo proporcionaram às mulheres uma notícia boa e outra ruim. A boa é que, depois de anos de luta, elas hoje concorrem em pé de igualdade com os homens em quase todas as carreiras, das delegacias de polícia às diretorias de multinacionais. A má é que, com isso, entraram para o clube do infarto, irmandade que até recentemente era tão mais machista quanto a maçonaria. Na década de 50, nove em cada dez infartados eram homens - e quem preenchia a última vaga era quase sempre uma senhora sexagenária. Hoje, os cardiologistas não se surpreendem quando atendem mulheres com menos de 40 anos. "Desde que abri meu consultório, nos anos 60, o número de pacientes mulheres cresceu uns 30%", estima o cardiologista Fúlvio Pileggi, diretor do Incor.

Um estudo realizado pela Organização Mundial de Saúde em 21 países computou uma média de cinco ataques cardíacos masculinos para cada um feminino. Mas esse índice diminui nos países industrializados, onde as mulheres trabalham fora de casa e são submetidas a stress, alimentação ruim e sedentarismo na mesma proporção que os homens. Nos Estados Unidos, a média é de três para um. Lá o coração é a principal causa mortis em mulheres com mais de 55 anos. A partir dos 50 anos, ele mata seis vezes mais que o câncer de mama ou de útero.

Até a menopausa, as mulheres contam com uma proteção natural inexistente no metabolismo masculino. É o estrógeno - o hormônio sexual produzido nos ovários. Sua presença no sangue reduz os níveis de colesterol "ruim" (o LDL e o VLDL), aumenta os de colesterol "bom" (HDL) e ajuda a preservar a parte interna das artérias. O cardiologista e geriatra Mauricio Wajngarten, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, observa que freqüentemente as mulheres na menopausa deixam de tomar hormônios porque têm medo de que isso venha a provocar câncer. "O medo é muitas vezes injustificado", afirma Wajngarten. "O coração mata muito mais do que o câncer, em ambos os sexos."

As mulheres também são beneficiadas por um outro mecanismo biológico: os excessos de gordura se acumulam quase inteiramente sob a pele, formando a celulite - detestável do ponto de vista estético, mas um mal menor em relação à saúde. Melhor a gordura ficar ali, à vista de todos, do que escondidinha, no interior das artérias, como ocorre freqüentemente nos homens. É essa, pelo menos, a opinião dos médicos, que fazem outra advertência: a mistura da pílula anticoncepcional com o cigarro é uma receita maligna, capaz de multiplicar as chances de uma mulher sofrer um infarto. As mulheres também são mais inclinadas a ter prolapso da mitral, um defeito da válvula cardíaca que não chega a ser grave, mas que causa dores intensas. "Não se conhece a razão dessa dor, mas ela não é perigosa e pode ser combatida com analgésicos", aconselha Pileggi.
 Depois da menopausa, com a queda da barreira natural dos hormônios, a freqüência dos ataques cardíacos se aproxima gradualmente da registrada entre os homens. Com um agravante - as conseqüências tendem a ser piores. A proporção de mortes no primeiro infarto é 8% maior do que nos homens, e a chance de um segundo ataque é de 40%, contra 13% entre pacientes do sexo masculino. Outro complicador é que em boa parte das mulheres as doenças coronarianas não são diagnosticadas nos primeiros estágios. Em 31% dos casos, o entupimento das artérias passa despercebido até o momento em que é necessária uma cirurgia. Exames de rotina, como o eletrocardiograma de esforço, têm margem de erro de até 67% nas mulheres.

 

A engenharia do coração

Novas técnicas revolucionam o tratamento das doenças cardíacas

Embora os ataques cardíacos continuem a matar mais do que qualquer outra doença, há uma tendência mundial de queda na proporção de óbitos por esse tipo de problema. É o resultado de uma revolução nas técnicas de diagnóstico e tratamento, com o auxílio de novos equipamentos que incorporam as últimas conquistas da engenharia, da química, da física e da computação. Graças a esses avanços, a medicina conta hoje com um arsenal espetacular para o combate às doenças cardíacas. Alguns destaques:

• Trombolíticos - São drogas que o doente deve tomar no momento do ataque cardíaco. Aplicados através de uma injeção na veia, os trombolíticos dissolvem o coágulo (ou trombo) e fazem com que o sangue volte a circular - mesmo sem desentupir totalmente as artérias. Desde 1982, quando foram descobertas, essas drogas reduziram a mortalidade pós-infarto à metade. Mas precisam ser aplicadas o mais cedo possível, para evitar que os danos no coração se tornem excessivamente graves.

• Pontes (de safena e mamária) - Em casos de obstrução arterial grave, uma solução é retirar um vaso sanguíneo de outra parte do corpo e instalá-lo ao lado da artéria entupida no coração, como uma avenida de contorno, permitindo que o sangue flua normalmente. A previsão é de que nos próximos anos a ponte de mamária desbanque a safena do posto de favorita.

• Angioplastia - A cirurgia cardíaca das pontes é uma verdadeira operação de guerra: abrir o peito, resfriar o coração, extrair uma veia de outro lugar, implantar. Comparada a ela, a angioplastia é de uma simplicidade impressionante: através de uma artéria da perna, introduz-se um tubo com um balãozinho na ponta. Ao chegar à artéria entupida no coração, o balãozinho é inflado com ar, amassando o coágulo e liberando a passagem do sangue. Foi a solução inicial no caso do ministro Sergio Motta, na semana passada. A angioplastia é efetuada com anestesia local e o paciente costuma receber alta depois de dois dias.

• Novas técnicas - O maior problema, nas angioplastias, é uma nova obstrução da artéria alguns meses depois de operada. Costuma acontecer em 30% dos casos. Para evitar a reobstrução, surgiu a aterectomia rotatória, ou rotoblader, que consiste num sistema de minúsculas lâminas rotatórias que abre a artéria como se fosse um desentupidor de canos. Há também o stent, uma mola introduzida na coronária para evitar que ela volte a encolher depois da operação. A última novidade é a desobstrução com o uso do raio laser.


 
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