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27 de julho de 1977
A sofrida procura
da paz
Este
é um inverno carregado de apreensões em Buenos Aires.
No envelhecido Palácio San Martín, sede da chancelaria
argentina, a poucas quadras da calle Florida, onde ruidosos turistas
brasileiros se esparramam com seus recém-comprados casacos
de couro, respirava-se nas últimas semanas uma melancolia
de tango. Pois até no Ministério das Relações
Exteriores se começava a duvidar de que apenas as luzes da
diplomacia convencional pudessem dissipar o espectro de uma dramática
crise com o Brasil, em virtude das intermináveis divergências
sobre a questão do aproveitamento do rio Paraná. "As
relações entre nossos países são um
assunto sério demais para ficar entregue aos diplomatas",
dizia recentemente a Luiz Weis, enviado especial de VEJA a Buenos
Aires, um graduado funcionário diplomático argentino,
numa amarga paráfrase do célebre dito de Georges Clemenceau
sobre os militares e a guerra.
Com efeito, as
esperanças argentinas voltaram-se ostensivamente para a possibilidade
de um entendimento direto entre as Forças Armadas de ambos
os países. Não que os militares, eles próprios,
devessem resolver as questões em jogo. Mas esse tipo de aproximação,
pretendido por Buenos Aires, poderia derrubar as resistências
ao diálogo político - levantadas, segundo os argentinos,
pelo Itamaraty. E, se tudo desse certo, uma conferência de
cúpula entre os generais Ernesto Geisel e Jorge Rafael Videla
daria a luz verde para conversações, aí sim
diplomáticas e técnicas, entre brasileiros e argentinos.
Na base dessa expectativa está a suposição
de que os dois presidentes, melhor do que ninguém, podem
abrir o caminho para algum tipo de acordo em relação
aos temas mais evidentes da controvérsia.
Estes são,
de um lado, a colossal hidrelétrica de ltaipu. que começa
a ser construída no rio Paraná pelo Brasil e o Paraguai,
pouco abaixo da Foz do Iguaçu e a 17 quilômetros da
fronteira argentina - e, de outro, a ainda hipotética usina
argentino-paraguaia de Corpus, que se localizaria cerca de 250 quilômetros
a jusante de Itaipu, no mesmo Paraná - por enquanto, apenas
um marco de concreto perdido no matagal às margens do rio.
Teme-se em Buenos Aires que, ao entrar em funcionamento a partir
de 1983, Itaipu possa transtormar a navegação e os
portos argentinos rio abaixo, na medida em que provocar bruscas
oscilações no nível das águas. Os brasileiros
asseguram que isso não acontecerá e advertem, por
sua vez, que se Corpus for erguida na cota de 120 metros acima do
nível do mar, considerada ideal pelos argentinos, as turbinas
de Itaipu acabarão "afogadas" pelo reservatório da
usina.
VONTADE POLÍTICA
- Em conseqüência, a capacidade geradora prevista
para Itaipu - 12,6 milhões de quilowatts, quando a usina
estiver operando com sua potência total - ficaria reduzida
pelo menos em um sexto. Além disso, porções
não especificadas de território nacional (no extremo
oeste de Santa Catarina) correriam o risco de submergir para sempre.
Respondem os argentinos que o potencial imaginado para Corpus na
cota 120 - 6,8 milhões de quilowatts - seria dizimado para
1,9 milhão na cota 100, a altura máxima admitida pelos
brasileiros, o que tornaria a obra um negócio muito pouco
atraente. E, convencidos de que é possível conciliar
Itaipu e Corpus - "se houver em Brasília vontade política
para tanto", como se diz em Buenos Aires -, os argentinos saíram
em busca de novos interlocutores para articular um encontro Geisel-Videla.
O primeiro, cauteloso
passo nessa direção teria sido dado, conforme as versões
divulgadas em Buenos Aires, pelo brigadeiro Orlando Agosti, comandante
da Força Aérea argentina e um dos três membros
da junta militar que governa o país desde março do
ano passado. Justamente em Foz do Iguaçu, na fronteira entre
o Brasil, o Paraguai e a Argentina, a uma dezena de quilômetros
do lugar onde nascerá Itaipu, Agosti manteve no começo
de julho uma discreta entrevista "não oficial" com o brigadeiro
Délio Jardim de Mattos, então chefe do Estado-Maior
da Aeronáutica, na qual foram mencionadas as dificuldades
que atualmente separam os dois países. Essa jogada inicial
se desdobraria no fim da semana retrasada, por ocasião da
visita a Buenos Aires do almirante Gualter Menezes de Magalhães,
chefe do Estado-Maior da Marinha brasileira.
Depois de ser recebido
pelo próprio presidente Videla, Magalhães foi condecorado
na sexta-feira, dia 15, pelo almirante Emílio Massera, reconhecidamente
o melhor estrategista político da junta militar argentina,
Nessa oportunidade, Massera leu um discurso de treze breves parágrafos
e largas implicações. Disse, por exemplo, que "as
ópticas exclusivamente nacionais parecem curiosos ranços
de uma época passada" e que, hoje, "só uma concepção
geopolítica de dimensão continental. que integre substancialmente
todos os povos latino-americanos", poderia opor-se "às manobras
daqueles que, situados em qualquer lugar do mapa, tentam, de má
ou boa fé, induzir-nos a aceitar as conseqüências
de uma micropolítica alheia aos interesses de nossos países"
.
MENSAGEM A BRASÍLIA
- De tais premissas, Massera chegou à conclusão
de que "devemos estar prontos para corrigir desvios, prevenir equívocos
e evitar astúcias supérfluas capazes de nos afastar
dos objetivos transcendentes que unem Brasil e Argentina" - uma
nítida mensagem a Brasília do que pensa o governo
de Buenos Aires sobre as atuais dificuldades entre os dois países.
No entanto, em Brasília, a fala do almirante não gerou
maiores repercussões. Diplomatas ouvidos por Suzana Veríssimo,
de VEJA, na semana passada, comentaram que "o discurso não
contém nenhuma proposta nova, apenas reitera posições
já conhecidas". A crítica de Massera às "ópticas
exclusivamente nacionais", por exemplo, foi interpretada como uma
estocada contra a atitude brasileira na questão Itaipu-Corpus,
E a sugestão de uma aliança Brasil-Argentina (definida
no Itamaraty como "uma idéia velha") é rejeitada sob
o argumento de que "o Brasil não aceita formar blocos contra
quem quer que seja".
Além disso,
o discurso de Massera não tornou o governo brasileiro mais
simpático à pretensão argentina de um encontro
de presidentes. O Itamaraty, que já reagira com irritação
ao que se dissera em Buenos Aires quanto à existência
de uma "diplomacia militar", alegadamente inaugurada na conversa
entre os brigadeiros Agosti e Mattos, continuava na semana passada
a sustentar a posição manifestada publicamente pelo
chanceler Antônio Francisco Azeredo da Silveira no dia 22
de junho. Nesse dia, ao sair de uma audiência com o presidente
Geisel, Silveira desmentiu que houvesse planos para uma reunião
Geisel- Videla. E acrescentou que ela só teria sentido se
já estivessem resolvidas as divergências entre o Brasil
e a Argentina,
Esse comentário
adicional foi interpretado tanto na embaixada argentina em Brasília
quanto no Palácio San Martín, em Buenos Aires, como
"mais uma indelicadeza deliberada" de Silveira. "Se lhe tivessem
perguntado sobre a eventualidade de um encontro entre Geisel e Jimmy
Carter", comparou um diplomata argentino, "ele certamente se limitaria
a dizer que não há nada previsto a respeito, sem acréscimos
semelhantes que seriam mal recebidos em Washington". Por que, então,
o chanceler brasileiro teria sido tão explícito? "Ele
simplesmente disse a verdade", responde-se no Itamaraty. Para os
argentinos, no entanto, a questão é mais complexa.
Silveira, imaginam, estaria empenhado em manter as duas partes longe
da mesa de conversações, em torno da qual poderia
brotar o entendimento.
BOA VONTADE
-. Daí, como argumenta um ressentido funcionário
do Palácio San Martín, "o tom propositadamente radical"
daquele e de outros pronunciamentos anteriores do chanceler. Senão,
pergunta, "como explicar tan frecuentes actitudes de soberbia"?
De modo geral, os diplomatas argentinos se dizem também surpresos
com o que qualificam de "endurecimento" da posição
brasileira nos últimos meses - em contraste com o clima francamente
favorável ao diálogo que parecia firmar-se em fins
do ano passado. Realmente, em dezembro de 1976, por ocasião
da conferência dos chanceleres dos países da Bacia
do Prata, em Brasília, o então ministro das Relações
Exteriores da Argentina, almirante Cesar Guzzetti, após uma
conversa a portas fechadas de 90 minutos com Azeredo da Silveira,
chegara a prever "negociações futuras que tragam a
esperança de resultados positivos".
Essas negociações,
por sinal, não se limitariam aos problemas do rio Paraná:
Itaipu e Corpus passariam a ser tratados no contexto geral das relações
entre os dois países. "Bastará a boa vontade das partes
envolvidas", assegurou então Guzzetti, "para aparar as divergências."
Um mês depois, quando se adensavam as pressões americanas
contra o programa nuclear brasileiro, o governo argentino declarou-se
publicamente solidário com o Brasil - "um gesto espontâneo
de boa vontade jamais retribuído", queixa-se hoje um decepcionado
diplomata argentino. "Foi, de fato, uma atitude positiva", reconhece
de seu lado um alto funcionário da embaixada brasileira em
Buenos Aires. "Mas é bom não esquecer que as atividades
nucleares argentinas também estão na mira dos Estados
Unidos."
Seja como for,
o edifício de esperanças que se supunha sólido
em dezembro-janeiro em pouco tempo passaria a exibir múltiplas
rachaduras. A primeira fenda surgiu em abril. No dia 12 desse mês,
quando o presidente paraguaio Alfredo Stroessner veio ao Rio de
Janeiro conferenciar com o general Geisel (não por acaso,
meros dez dias antes da visita do presidente argentino Jorge Videla
a Assunção), Azeredo da Silveira declarou que o Brasil
não poderia admitir a construção da hidrelétrica
de Corpus na cota desejada pela Argentina, "porque isso significaria
abrir mão da soberania nacional". Em maio, o Brasil rejeitou
uma proposta argentina, encaminhada ao Itamaraty pelo embaixador
Oscar Camilion, para a realização de "conversações
trilaterais" - portanto, com a inclusão do Paraguai - sobre
a compatibilização dos projetos energéticos
no rio Paraná.
"NÃO
HÁ O QUE NEGOCIAR" - Na mesma época, de acordo
com a contabilidade argentina, Camilion levou a Silveira uma sugestão
alternativa: conversações a nível estritamente
técnico, apenas entre brasileiros e argentinos, sobre Itaipu
e Corpus. O embaixador deixou o gabinete do chanceler sem levar
consigo uma resposta diferente da que já conhecia - segundo
o Itamaraty, sobre Itaipu devem conversar brasileiros e paraguaios;
sobre Corpus, paraguaios e argentinos. Mais grave do que isso, para
as suscetibilidades argentinas, foi outro acontecimento. Horas antes
da audiência a Camilion, Azeredo da Silveira prestara um sigiloso
depoimento perante a Comissão de Relações Exteriores
do Senado sobre a questão da Bacia do Prata. Ele teria então
formulado ácidas críticas à posição
argentina.
Atribuiu-se ao
chanceler, por exemplo, a afirmação de que "a Argentina
não sabe o que quer e tem o hábito de sempre reabrir
questões já resolvidas". O Itamaraty apressou-se em
divulgar um desmentido, mas nem por isso as autoridades argentinas
se sentiriam reconfortadas. Verdadeiras ou não tais declarações,
o fato é que realmente o Itamaraty encara com desconfiança
as ofertas vindas de Buenos Aires. "Negociar? Não há
o que negociar", resumiu a VEJA uma alta fonte da chancelaria. "No
que diz respeito a Itaipu", explica-se, "o Brasil já garantiu
que a operação da usina não afetará
a navegação no rio Paraná." Diplomatas e autoridades
do setor energético insistem, com efeito, em que a hidrelétrica
deverá funcionar em regime de "base".
Isso quer dizer
que produzirá energia em ritmo constante, despejando portanto
volume de água sempre igual a jusante do rio - o que não
modificará a altura das águas e, além disso,
também regularizará o caudal. Mesmo na hipótese,
apresentada como "remota", de que a usina gere quantidades variáveis
de energia, ou seja, funcione em "semibase" ou em "ponta", todas
as precauções serão tomadas a fim de que a
conseqüente. alteração do nível do rio
não prejudique os barcos e os portos argentinos. "Essa não
é apenas uma garantia verbal", ressalta um diplomata. "Ao
assinar o Tratado da Bacia do Prata, em 1967, o Brasil assumiu o
compromisso formal de não causar danos a seus vizinhos por
obras que viesse a realizar em recursos naturais compartilhados."
"PURA RETÓRICA"
- Lembra-se ainda no Itamaraty que os argentinos fizeram o mesmo
alarido sobre o que aconteceria ao rio Paraná quando, nos
primeiros anos da década de 60, o Brasil começou a
construir o complexo hidrelétrico de Jupiá-Ilha Solteira
(4,6 milhões de quilowatts) nas mesmas águas, na divisa
entre os Estados de São Paulo e Mato Grosso - "e, como se
viu, nada mudou". A Argentina, por outro lado, argumenta a mesma
fonte, não tem o direito de erguer uma barragem a tal altura
que inunde permanentemente uma faixa de terra no Brasil - "este
é um ponto pacífico que não pode ficar sujeito
a negociações". Ademais, "o Brasil tampouco aceitará
que Itaipu perca mais de 2 milhões de quilowatts para que
Corpus funcione a nível ótimo em benefício
da Argentina".
Retruca-se em Buenos
Aires que, no quadro de um acordo geral sobre o uso do rio Paraná,
o Brasil seria recompensado pela energia perdida em ltaipu. Acontece
que essa compensação viria de Corpus", devolvem as
autoridades brasileiras, "e Corpus é por enquanto apenas
um sonho argentino, ao passo que Itaipu é um fato consumado."
Amparados nessa análise da situação, funcionários
do Itamaraty atribuem outras intenções aos argentinos
quando eles falam em harmonizar os projetos no rio Paraná.
"A tese da compatibilização das obras é
pura retórica", desabafa um representante brasileiro
em Buenos Aires. "Eles querem, isto sim, reabrir a questão
de Itaipu."
Em outras palavras,
a Argentina apenas tentaria revestir de formas novas a mesma jogada
a que se dedicou, sem êxito, há alguns anos - obrigar
o Brasil a submeter o projeto de Itaipu a "consulta prévia",
com base no princípio de que nenhuma modificação
em recursos naturais compartilhados por vários países
(como é o caso do rio Paraná) pode realizar-se independentemente
da vontade de um deles. No começo anos 70, de fato, a Argentina
ergueu essa bandeira, embora tivesse assinado, em 1961, a "Declaração
de Assunção", que reconhece o direito soberano de
cada país sobre o trecho que lhe pertence de um rio de curso
sucessivo. De todo modo, na época em que o Brasil e o Paraguai
avançaram nos entendimentos para a construção
de Itaipu, a Argentina a levou a tese da consulta prévia
a mais de um plenário internacional e obteve, em mais de
uma ocasião, maioria de votos a seu favor - sem que essas
vitórias produzissem quaisquer efeitos práticos.
"BORRÓN
Y CUENTA NUEVA" - Os argentinos negam, todavia, que seu objetivo
atual seja o de ressuscitar a consulta prévia sobre Itaipu
- embora citem o fato de que, em 1933, ao negociarem com o Uruguai
a realização de uma obra conjunta no rio Uruguai,
se dispuseram espontaneamente a submeter o projeto ao Brasil. "A
discussão jurídica, de qualquer forma, é coisa
do passado", garante o porta-voz do Palácio San Martín,
Federico Herard del Campo. "Não estamos propondo ao Brasil
um debate em torno de princípios", repete o chefe do Departamento
da Bacia do Prata da chancelaria argentina, ministro Arturo Osorio
Arana. Outro diplomata do mesmo departamento, o articulado secretário
Guillermo Jacobella, fala em "borrón y cuenta nueva" - apagar
o que passou e recomeçar de outra forma.
Ele imagina um
"diálogo aberto", no qual nem os argentinos mencionariam
a consulta prévia nem os brasileiros recorreriam ao argumento
da soberania irrestrita. "Conversaríamos para saber se é
possível compatibilizar Itaipu e Corpus", sugere Jacobella.
"O que não é possível é tratar cada
um desses projetos como se o outro não existisse." Essa é
considerada em Buenos Aires uma verdade elementar. E não
são apenas os diplomatas que acusam o Brasil de fazer de
Itaipu uma "obra secreta" - referência ao tipo de operação
a ser adotado para a usina. Leigos e especialistas receiam igualmente
que o regime natural das águas do Paraná será
alterado, para desgraça da navegação e do sistema
portuário fluvial argentino.
"Precisamos, em
primeiro lugar, saber como os brasileiros de fato pretendem operar
Itaipu. E, depois, se possível, congeniar las cosas",
resume o almirante Horacio Colombo, que representa o governo de
Buenos Aires na comissão mista argentino-paraguaia encarregada
dos empreendimentos conjuntos dos dois países no rio Paraná,
como a já decidida hidrelétrica de Yaciretá
e a ainda embrionária Corpus. Colombo se diz convencido de
que Itaipu funcionará em regime de "ponta" - "do contrário,
será antieconômico para o Brasil" - e exibe grossas
pastas recheadas de gráficos e tabelas com estimativas dos
danos que a usina causará à Argentina. O almirante
se mostra bem menos expansivo ao falar de Corpus, provavelmente
por saber que o governo paraguaio não está exatamente
ansioso em concordar com sua construção.
OS "PADRINOS"
DE CORPUS - Estaria, assim, Corpus realmente condenada a não
sair do papel, pelo menos durante muitos anos ainda? E, em conseqüência,
teria o Itamaraty razão em não negociar "o aproveitamento
ótimo", como dizem os argentinos, dos recursos do rio Paraná?
Nem uma coisa nem outra, responde-se em Buenos Aires. Os argentinos,
é verdade, reconhecem não ostentar credenciais respeitáveis
em matéria de realizações no setor hidrelétrico
- talvez por ser o país praticamente auto-suficiente em petróleo.
No caso da usina de Yaciretá, por exemplo, mais de cinqüenta
anos passaram entre o primeiro estudo técnico levado ao governo
e a decisão de fazer a obra. "Mas a Argentina está
mudando mais do que o Brasil imagina", adverte um funcionário
da chancelaria.
Complementa o jornalista
Mariano Montemayor, ex-embaixador da Argentina no Paraguai, de quem
se diz estar familiarizado com o pensamento militar de seu país:
"Depois do 24 de março" (quando caiu o governo de María
Isabel de Perón, no ano passado), "as Forças Armadas
passaram a levar a sério a Bacia do Prata e descobriram a
hidreletricidade". Números exibidos em Buenos Aires parecem
comprovar essa informação. Em 1970, apenas 9% do consumo
interno de energia vinha de fontes hidrelétricas. Agora,
calcula-se que essa participação alcançará
42% em 1985. E, entre os rios argentinos, nenhum tem potencial remotamente
comparável ao do Paraná. Montemayor faz, a propósito,
uma analogia com o Brasil: "Para que Brasília deixasse de
ser um sonho, foi preciso um poderoso padrino, Juscelino
Kubitschek. Pois bem: os militares serão os padrinos
de Corpus".
Ele não
é o único analista da situação argentina
a pensar assim. O jornalista Enrique Alonso, do popular matutino
portenho Clarín (circulação: 500.000
exemplares), autor de freqüentes artigos sobre a questão
da Bacia do Prata, supõe até que Corpus possa tornar-se
a fonte de um "movimento de afirmação nacional" na
Argentina - ou seja, o estandarte que permitiria às Forças
Armadas superar os ferozes antagonismos que dividem os argentinos
e, assim, cumprirem a tarefa, que se propõem, de reconstruir
o país. Exagero? Quem sabe. Não deixa de ser significativo,
porém, o fato de que a sorridente recepcionista da comissão
argentino-paraguaia do rio Paraná invariavelmente atenda
o telefone com um sonoro "Corpus, buenos dias" - uma fórmula
tão inadequada à realidade como reveladora do ânimo
argentino nesse campo.
DESOLADA PERPLEXIDADE
- Faz sentido, portanto, que cada nova evidência da escassa
disposição do Itamaraty em aceder aos convites argentinos
provoque em Buenos Aires fundas reações emocionais,
do desalento à indignação. Na chancelaria,
ainda existe a preocupação de não pôr
à mostra sentimentos mais contundentes. No máximo,
a resposta do Palácio San Martín à política
brasileira na Bacia do Prata se traduz em comentários de
desolada perplexidade. "Francamente, não entendemos o que
deseja o Brasil", diz por exemplo um diplomata que, sem dúvida,
tem idéias mais precisas, certas ou erradas, sobre as intenções
brasileiras. Outros preferem lançar a culpa de tudo aos ombros
do ex-embaixador em Buenos Aires, de 1969 a 1974, hoje chanceler
Azeredo da Silveira.
Esse, porém,
já não é o diagnóstico de setores menos
interessados em estabelecer distinções entre o Itamaraty
e o governo brasileiro como um todo. É o caso de velhos arautos
da inevitável rivalidade entre o Brasil e a Argentina, como
o extremado almirante Isaac Francisco Rojas, ativo participante
do golpe que derrubou o regime peronista em 1955. "Seria imperdoável
candura", escreveu ele recentemente no diário La Nación,
"imaginar que se teria aberto alguma brecha entre o Itamaraty e
qualquer outro organismo do Estado, menos ainda o Conselho de Segurança
Nacional" Embora longe ideologicamente de Rojas, o semanário
Ultima Clave, tido como porta-voz dos setores liberais do
Exército, também se recusa a crer que os problemas
com o Brasil resultam somente da atuação do ministro
Silveira.
Segundo Ultima
Clave, na raiz das divergências sobre o rio Paraná
estariam as "ambições hegemônicas" do Brasil
no cone sul da América e a "estratégia expansionista
baseada nos conceitos geopolíticos de 'fronteiras móveis'
e 'destino manifesto' ". Sentencia o jornal: "Itaipu, acima de tudo,
é uma plataforma de lançamento da hegemonia brasileira
na Bacia do Prata". As críticas mais corrosivas de Ultima
Clave contemplam, no entanto, a própria diplomacia argentina
- que não teria sido capaz de definir uma linha de ação
coerente em face do Brasil. Alvo predileto desses ataques é
o embaixador argentino em Brasília, Oscar Camilion, a quem
se acusa de ser demasiado blando e a quem seus adversários
gostariam de ver substituído.
TACADAS PRECISAS
- Camilion seguiu para Buenos Aires na terça-feira da
semana passada - oficialmente em férias, "chamado para consultas",
segundo certas especulações. Seja como for, dificilmente
o governo argentino poderia prescindir da presença em Brasília
daquele que é considerado o melhor diplomata do país
- e um dos seus mais argutos brasilianistas. Para Camilion, 47 anos,
ex-chefe de redação do jornal Clarín,
uma eventual deterioração nas relações
bilaterais significaria uma derrota até pessoal - poucos
argentinos têm defendido durante tanto tempo e com tanta consistência
a tese do entendimento com o Brasil. Já em 1961, ele ajudou
a tecer o ambicioso lance de aproximação política
que tomaria forma no Acordo de Uruguaiana, assinado pelos então
presidentes Jânio Quadros e Arturo Frondizi.
E sua designação
para embaixador em Brasília, em maio do ano passado, é
até hoje apontada em Buenos Aires como prova da boa vontade
argentina, tanto quanto a decisão de apoiar o Brasil na polêmica
nuclear com os Estados Unidos. Nos últimos meses, segundo
um amigo portenho, Camilion tem dedicado 90% de seu tempo à
questão do rio Paraná. "Nos outros 10%, joga golfe;
aliás, muito mal." Suas tacadas são porém incomparavelmente
mais precisas quando ele defende a paz entre o Brasil e a Argentina
e condena a discussão ruidosa e emocional dos problemas existentes
- entre outros motivos, porque a elevação da temperatura
política na Bacia do Prata faria recrudescerem as pressões
internacionais sobre os programas nucleares brasileiro e argentino,
ainda que nem um nem outro lado pense em incorporar argumentos atômicos
à discussão sobre o rio Paraná.
DE IGUAL PARA
IGUAL - "Também por isso", ouve-se no Palácio
San Martín, "os dois países deverão caminhar
rumo a um diálogo amplo, sobre represas, política
nuclear e tudo o mais". Acrescenta um comentarista argentino: "Com
o fim da era Nixon-Kissinger, o Brasil deixou de ser o aliado preferencial
dos Estados Unidos na América Latina. Daí, não
deveria o governo brasileiro relacionar-se conosco a partir de uma
posição de força ou com base numa política
de fatos consumados". No Itamaraty, tal descrição
é prontamente rebatida. "E rótulos de modo algum se
aplicam à diplomacia brasileira", afirma uma alta fonte do
Ministério. "Sempre estivemos dispostos a conversar com os
argentinos de igual para igual" Na reunião da OEA em Granada
no mês passado, por exemplo, o chanceler Azeredo da Silveira
teria exposto "com argumentos irrespondíveis" a posição
do Brasil ao novo ministro argentino das Relações
exteriores, Oscar Montes.
Pelo menos em relação
a um ponto, brasileiros e argentinos concordam plenamente - a necessidade
de manter abertos os canais de entendimento para que "diferenças
instrumentais", como disse em seu discurso do dia 15 o almirante
Emilio Massera, não se convertam numa confrontação
política indesejável para ambas as partes. A favor
do entendimento joga, acima de tudo. o que em Buenos Aires se define
como "a força dos fatos" - elementos tão decisivos
como a crescente familiaridade entre os dois povos, gerada pela
explosão turística dos últimos anos, e o denso
intercâmbio comercial: o Brasil é o principal comprador
de produtos argentinos e o segundo mais importante vendedor para
esse país. Em 1976, o valor desses negócios superou
pela primeira vez 750 milhões de dólares. Tem razão,
portanto, o diplomata argentino que dizia há poucas semanas
a VEJA, no Palácio San Martín: "Brasil e Argentina
podem fazer qualquer coisa um ao outro - menos deixar de conversar".
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