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  27 de julho de 1977
A sofrida procura da paz

Este é um inverno carregado de apreensões em Buenos Aires. No envelhecido Palácio San Martín, sede da chancelaria argentina, a poucas quadras da calle Florida, onde ruidosos turistas brasileiros se esparramam com seus recém-comprados casacos de couro, respirava-se nas últimas semanas uma melancolia de tango. Pois até no Ministério das Relações Exteriores se começava a duvidar de que apenas as luzes da diplomacia convencional pudessem dissipar o espectro de uma dramática crise com o Brasil, em virtude das intermináveis divergências sobre a questão do aproveitamento do rio Paraná. "As relações entre nossos países são um assunto sério demais para ficar entregue aos diplomatas", dizia recentemente a Luiz Weis, enviado especial de VEJA a Buenos Aires, um graduado funcionário diplomático argentino, numa amarga paráfrase do célebre dito de Georges Clemenceau sobre os militares e a guerra.

Com efeito, as esperanças argentinas voltaram-se ostensivamente para a possibilidade de um entendimento direto entre as Forças Armadas de ambos os países. Não que os militares, eles próprios, devessem resolver as questões em jogo. Mas esse tipo de aproximação, pretendido por Buenos Aires, poderia derrubar as resistências ao diálogo político - levantadas, segundo os argentinos, pelo Itamaraty. E, se tudo desse certo, uma conferência de cúpula entre os generais Ernesto Geisel e Jorge Rafael Videla daria a luz verde para conversações, aí sim diplomáticas e técnicas, entre brasileiros e argentinos. Na base dessa expectativa está a suposição de que os dois presidentes, melhor do que ninguém, podem abrir o caminho para algum tipo de acordo em relação aos temas mais evidentes da controvérsia.

Estes são, de um lado, a colossal hidrelétrica de ltaipu. que começa a ser construída no rio Paraná pelo Brasil e o Paraguai, pouco abaixo da Foz do Iguaçu e a 17 quilômetros da fronteira argentina - e, de outro, a ainda hipotética usina argentino-paraguaia de Corpus, que se localizaria cerca de 250 quilômetros a jusante de Itaipu, no mesmo Paraná - por enquanto, apenas um marco de concreto perdido no matagal às margens do rio. Teme-se em Buenos Aires que, ao entrar em funcionamento a partir de 1983, Itaipu possa transtormar a navegação e os portos argentinos rio abaixo, na medida em que provocar bruscas oscilações no nível das águas. Os brasileiros asseguram que isso não acontecerá e advertem, por sua vez, que se Corpus for erguida na cota de 120 metros acima do nível do mar, considerada ideal pelos argentinos, as turbinas de Itaipu acabarão "afogadas" pelo reservatório da usina.

VONTADE POLÍTICA - Em conseqüência, a capacidade geradora prevista para Itaipu - 12,6 milhões de quilowatts, quando a usina estiver operando com sua potência total - ficaria reduzida pelo menos em um sexto. Além disso, porções não especificadas de território nacional (no extremo oeste de Santa Catarina) correriam o risco de submergir para sempre. Respondem os argentinos que o potencial imaginado para Corpus na cota 120 - 6,8 milhões de quilowatts - seria dizimado para 1,9 milhão na cota 100, a altura máxima admitida pelos brasileiros, o que tornaria a obra um negócio muito pouco atraente. E, convencidos de que é possível conciliar Itaipu e Corpus - "se houver em Brasília vontade política para tanto", como se diz em Buenos Aires -, os argentinos saíram em busca de novos interlocutores para articular um encontro Geisel-Videla.

O primeiro, cauteloso passo nessa direção teria sido dado, conforme as versões divulgadas em Buenos Aires, pelo brigadeiro Orlando Agosti, comandante da Força Aérea argentina e um dos três membros da junta militar que governa o país desde março do ano passado. Justamente em Foz do Iguaçu, na fronteira entre o Brasil, o Paraguai e a Argentina, a uma dezena de quilômetros do lugar onde nascerá Itaipu, Agosti manteve no começo de julho uma discreta entrevista "não oficial" com o brigadeiro Délio Jardim de Mattos, então chefe do Estado-Maior da Aeronáutica, na qual foram mencionadas as dificuldades que atualmente separam os dois países. Essa jogada inicial se desdobraria no fim da semana retrasada, por ocasião da visita a Buenos Aires do almirante Gualter Menezes de Magalhães, chefe do Estado-Maior da Marinha brasileira.

Depois de ser recebido pelo próprio presidente Videla, Magalhães foi condecorado na sexta-feira, dia 15, pelo almirante Emílio Massera, reconhecidamente o melhor estrategista político da junta militar argentina, Nessa oportunidade, Massera leu um discurso de treze breves parágrafos e largas implicações. Disse, por exemplo, que "as ópticas exclusivamente nacionais parecem curiosos ranços de uma época passada" e que, hoje, "só uma concepção geopolítica de dimensão continental. que integre substancialmente todos os povos latino-americanos", poderia opor-se "às manobras daqueles que, situados em qualquer lugar do mapa, tentam, de má ou boa fé, induzir-nos a aceitar as conseqüências de uma micropolítica alheia aos interesses de nossos países" .

MENSAGEM A BRASÍLIA - De tais premissas, Massera chegou à conclusão de que "devemos estar prontos para corrigir desvios, prevenir equívocos e evitar astúcias supérfluas capazes de nos afastar dos objetivos transcendentes que unem Brasil e Argentina" - uma nítida mensagem a Brasília do que pensa o governo de Buenos Aires sobre as atuais dificuldades entre os dois países. No entanto, em Brasília, a fala do almirante não gerou maiores repercussões. Diplomatas ouvidos por Suzana Veríssimo, de VEJA, na semana passada, comentaram que "o discurso não contém nenhuma proposta nova, apenas reitera posições já conhecidas". A crítica de Massera às "ópticas exclusivamente nacionais", por exemplo, foi interpretada como uma estocada contra a atitude brasileira na questão Itaipu-Corpus, E a sugestão de uma aliança Brasil-Argentina (definida no Itamaraty como "uma idéia velha") é rejeitada sob o argumento de que "o Brasil não aceita formar blocos contra quem quer que seja".

Além disso, o discurso de Massera não tornou o governo brasileiro mais simpático à pretensão argentina de um encontro de presidentes. O Itamaraty, que já reagira com irritação ao que se dissera em Buenos Aires quanto à existência de uma "diplomacia militar", alegadamente inaugurada na conversa entre os brigadeiros Agosti e Mattos, continuava na semana passada a sustentar a posição manifestada publicamente pelo chanceler Antônio Francisco Azeredo da Silveira no dia 22 de junho. Nesse dia, ao sair de uma audiência com o presidente Geisel, Silveira desmentiu que houvesse planos para uma reunião Geisel- Videla. E acrescentou que ela só teria sentido se já estivessem resolvidas as divergências entre o Brasil e a Argentina,

Esse comentário adicional foi interpretado tanto na embaixada argentina em Brasília quanto no Palácio San Martín, em Buenos Aires, como "mais uma indelicadeza deliberada" de Silveira. "Se lhe tivessem perguntado sobre a eventualidade de um encontro entre Geisel e Jimmy Carter", comparou um diplomata argentino, "ele certamente se limitaria a dizer que não há nada previsto a respeito, sem acréscimos semelhantes que seriam mal recebidos em Washington". Por que, então, o chanceler brasileiro teria sido tão explícito? "Ele simplesmente disse a verdade", responde-se no Itamaraty. Para os argentinos, no entanto, a questão é mais complexa. Silveira, imaginam, estaria empenhado em manter as duas partes longe da mesa de conversações, em torno da qual poderia brotar o entendimento.

BOA VONTADE -. Daí, como argumenta um ressentido funcionário do Palácio San Martín, "o tom propositadamente radical" daquele e de outros pronunciamentos anteriores do chanceler. Senão, pergunta, "como explicar tan frecuentes actitudes de soberbia"? De modo geral, os diplomatas argentinos se dizem também surpresos com o que qualificam de "endurecimento" da posição brasileira nos últimos meses - em contraste com o clima francamente favorável ao diálogo que parecia firmar-se em fins do ano passado. Realmente, em dezembro de 1976, por ocasião da conferência dos chanceleres dos países da Bacia do Prata, em Brasília, o então ministro das Relações Exteriores da Argentina, almirante Cesar Guzzetti, após uma conversa a portas fechadas de 90 minutos com Azeredo da Silveira, chegara a prever "negociações futuras que tragam a esperança de resultados positivos".

Essas negociações, por sinal, não se limitariam aos problemas do rio Paraná: Itaipu e Corpus passariam a ser tratados no contexto geral das relações entre os dois países. "Bastará a boa vontade das partes envolvidas", assegurou então Guzzetti, "para aparar as divergências." Um mês depois, quando se adensavam as pressões americanas contra o programa nuclear brasileiro, o governo argentino declarou-se publicamente solidário com o Brasil - "um gesto espontâneo de boa vontade jamais retribuído", queixa-se hoje um decepcionado diplomata argentino. "Foi, de fato, uma atitude positiva", reconhece de seu lado um alto funcionário da embaixada brasileira em Buenos Aires. "Mas é bom não esquecer que as atividades nucleares argentinas também estão na mira dos Estados Unidos."

Seja como for, o edifício de esperanças que se supunha sólido em dezembro-janeiro em pouco tempo passaria a exibir múltiplas rachaduras. A primeira fenda surgiu em abril. No dia 12 desse mês, quando o presidente paraguaio Alfredo Stroessner veio ao Rio de Janeiro conferenciar com o general Geisel (não por acaso, meros dez dias antes da visita do presidente argentino Jorge Videla a Assunção), Azeredo da Silveira declarou que o Brasil não poderia admitir a construção da hidrelétrica de Corpus na cota desejada pela Argentina, "porque isso significaria abrir mão da soberania nacional". Em maio, o Brasil rejeitou uma proposta argentina, encaminhada ao Itamaraty pelo embaixador Oscar Camilion, para a realização de "conversações trilaterais" - portanto, com a inclusão do Paraguai - sobre a compatibilização dos projetos energéticos no rio Paraná.

"NÃO HÁ O QUE NEGOCIAR" - Na mesma época, de acordo com a contabilidade argentina, Camilion levou a Silveira uma sugestão alternativa: conversações a nível estritamente técnico, apenas entre brasileiros e argentinos, sobre Itaipu e Corpus. O embaixador deixou o gabinete do chanceler sem levar consigo uma resposta diferente da que já conhecia - segundo o Itamaraty, sobre Itaipu devem conversar brasileiros e paraguaios; sobre Corpus, paraguaios e argentinos. Mais grave do que isso, para as suscetibilidades argentinas, foi outro acontecimento. Horas antes da audiência a Camilion, Azeredo da Silveira prestara um sigiloso depoimento perante a Comissão de Relações Exteriores do Senado sobre a questão da Bacia do Prata. Ele teria então formulado ácidas críticas à posição argentina.

Atribuiu-se ao chanceler, por exemplo, a afirmação de que "a Argentina não sabe o que quer e tem o hábito de sempre reabrir questões já resolvidas". O Itamaraty apressou-se em divulgar um desmentido, mas nem por isso as autoridades argentinas se sentiriam reconfortadas. Verdadeiras ou não tais declarações, o fato é que realmente o Itamaraty encara com desconfiança as ofertas vindas de Buenos Aires. "Negociar? Não há o que negociar", resumiu a VEJA uma alta fonte da chancelaria. "No que diz respeito a Itaipu", explica-se, "o Brasil já garantiu que a operação da usina não afetará a navegação no rio Paraná." Diplomatas e autoridades do setor energético insistem, com efeito, em que a hidrelétrica deverá funcionar em regime de "base".

Isso quer dizer que produzirá energia em ritmo constante, despejando portanto volume de água sempre igual a jusante do rio - o que não modificará a altura das águas e, além disso, também regularizará o caudal. Mesmo na hipótese, apresentada como "remota", de que a usina gere quantidades variáveis de energia, ou seja, funcione em "semibase" ou em "ponta", todas as precauções serão tomadas a fim de que a conseqüente. alteração do nível do rio não prejudique os barcos e os portos argentinos. "Essa não é apenas uma garantia verbal", ressalta um diplomata. "Ao assinar o Tratado da Bacia do Prata, em 1967, o Brasil assumiu o compromisso formal de não causar danos a seus vizinhos por obras que viesse a realizar em recursos naturais compartilhados."

"PURA RETÓRICA" - Lembra-se ainda no Itamaraty que os argentinos fizeram o mesmo alarido sobre o que aconteceria ao rio Paraná quando, nos primeiros anos da década de 60, o Brasil começou a construir o complexo hidrelétrico de Jupiá-Ilha Solteira (4,6 milhões de quilowatts) nas mesmas águas, na divisa entre os Estados de São Paulo e Mato Grosso - "e, como se viu, nada mudou". A Argentina, por outro lado, argumenta a mesma fonte, não tem o direito de erguer uma barragem a tal altura que inunde permanentemente uma faixa de terra no Brasil - "este é um ponto pacífico que não pode ficar sujeito a negociações". Ademais, "o Brasil tampouco aceitará que Itaipu perca mais de 2 milhões de quilowatts para que Corpus funcione a nível ótimo em benefício da Argentina".

Retruca-se em Buenos Aires que, no quadro de um acordo geral sobre o uso do rio Paraná, o Brasil seria recompensado pela energia perdida em ltaipu. Acontece que essa compensação viria de Corpus", devolvem as autoridades brasileiras, "e Corpus é por enquanto apenas um sonho argentino, ao passo que Itaipu é um fato consumado." Amparados nessa análise da situação, funcionários do Itamaraty atribuem outras intenções aos argentinos quando eles falam em harmonizar os projetos no rio Paraná. "A tese da compatibilização das obras é pura retórica", desabafa um representante brasileiro em Buenos Aires. "Eles querem, isto sim, reabrir a questão de Itaipu."

Em outras palavras, a Argentina apenas tentaria revestir de formas novas a mesma jogada a que se dedicou, sem êxito, há alguns anos - obrigar o Brasil a submeter o projeto de Itaipu a "consulta prévia", com base no princípio de que nenhuma modificação em recursos naturais compartilhados por vários países (como é o caso do rio Paraná) pode realizar-se independentemente da vontade de um deles. No começo anos 70, de fato, a Argentina ergueu essa bandeira, embora tivesse assinado, em 1961, a "Declaração de Assunção", que reconhece o direito soberano de cada país sobre o trecho que lhe pertence de um rio de curso sucessivo. De todo modo, na época em que o Brasil e o Paraguai avançaram nos entendimentos para a construção de Itaipu, a Argentina a levou a tese da consulta prévia a mais de um plenário internacional e obteve, em mais de uma ocasião, maioria de votos a seu favor - sem que essas vitórias produzissem quaisquer efeitos práticos.

"BORRÓN Y CUENTA NUEVA" - Os argentinos negam, todavia, que seu objetivo atual seja o de ressuscitar a consulta prévia sobre Itaipu - embora citem o fato de que, em 1933, ao negociarem com o Uruguai a realização de uma obra conjunta no rio Uruguai, se dispuseram espontaneamente a submeter o projeto ao Brasil. "A discussão jurídica, de qualquer forma, é coisa do passado", garante o porta-voz do Palácio San Martín, Federico Herard del Campo. "Não estamos propondo ao Brasil um debate em torno de princípios", repete o chefe do Departamento da Bacia do Prata da chancelaria argentina, ministro Arturo Osorio Arana. Outro diplomata do mesmo departamento, o articulado secretário Guillermo Jacobella, fala em "borrón y cuenta nueva" - apagar o que passou e recomeçar de outra forma.

Ele imagina um "diálogo aberto", no qual nem os argentinos mencionariam a consulta prévia nem os brasileiros recorreriam ao argumento da soberania irrestrita. "Conversaríamos para saber se é possível compatibilizar Itaipu e Corpus", sugere Jacobella. "O que não é possível é tratar cada um desses projetos como se o outro não existisse." Essa é considerada em Buenos Aires uma verdade elementar. E não são apenas os diplomatas que acusam o Brasil de fazer de Itaipu uma "obra secreta" - referência ao tipo de operação a ser adotado para a usina. Leigos e especialistas receiam igualmente que o regime natural das águas do Paraná será alterado, para desgraça da navegação e do sistema portuário fluvial argentino.

"Precisamos, em primeiro lugar, saber como os brasileiros de fato pretendem operar Itaipu. E, depois, se possível, congeniar las cosas", resume o almirante Horacio Colombo, que representa o governo de Buenos Aires na comissão mista argentino-paraguaia encarregada dos empreendimentos conjuntos dos dois países no rio Paraná, como a já decidida hidrelétrica de Yaciretá e a ainda embrionária Corpus. Colombo se diz convencido de que Itaipu funcionará em regime de "ponta" - "do contrário, será antieconômico para o Brasil" - e exibe grossas pastas recheadas de gráficos e tabelas com estimativas dos danos que a usina causará à Argentina. O almirante se mostra bem menos expansivo ao falar de Corpus, provavelmente por saber que o governo paraguaio não está exatamente ansioso em concordar com sua construção.

OS "PADRINOS" DE CORPUS - Estaria, assim, Corpus realmente condenada a não sair do papel, pelo menos durante muitos anos ainda? E, em conseqüência, teria o Itamaraty razão em não negociar "o aproveitamento ótimo", como dizem os argentinos, dos recursos do rio Paraná? Nem uma coisa nem outra, responde-se em Buenos Aires. Os argentinos, é verdade, reconhecem não ostentar credenciais respeitáveis em matéria de realizações no setor hidrelétrico - talvez por ser o país praticamente auto-suficiente em petróleo. No caso da usina de Yaciretá, por exemplo, mais de cinqüenta anos passaram entre o primeiro estudo técnico levado ao governo e a decisão de fazer a obra. "Mas a Argentina está mudando mais do que o Brasil imagina", adverte um funcionário da chancelaria.

Complementa o jornalista Mariano Montemayor, ex-embaixador da Argentina no Paraguai, de quem se diz estar familiarizado com o pensamento militar de seu país: "Depois do 24 de março" (quando caiu o governo de María Isabel de Perón, no ano passado), "as Forças Armadas passaram a levar a sério a Bacia do Prata e descobriram a hidreletricidade". Números exibidos em Buenos Aires parecem comprovar essa informação. Em 1970, apenas 9% do consumo interno de energia vinha de fontes hidrelétricas. Agora, calcula-se que essa participação alcançará 42% em 1985. E, entre os rios argentinos, nenhum tem potencial remotamente comparável ao do Paraná. Montemayor faz, a propósito, uma analogia com o Brasil: "Para que Brasília deixasse de ser um sonho, foi preciso um poderoso padrino, Juscelino Kubitschek. Pois bem: os militares serão os padrinos de Corpus".

Ele não é o único analista da situação argentina a pensar assim. O jornalista Enrique Alonso, do popular matutino portenho Clarín (circulação: 500.000 exemplares), autor de freqüentes artigos sobre a questão da Bacia do Prata, supõe até que Corpus possa tornar-se a fonte de um "movimento de afirmação nacional" na Argentina - ou seja, o estandarte que permitiria às Forças Armadas superar os ferozes antagonismos que dividem os argentinos e, assim, cumprirem a tarefa, que se propõem, de reconstruir o país. Exagero? Quem sabe. Não deixa de ser significativo, porém, o fato de que a sorridente recepcionista da comissão argentino-paraguaia do rio Paraná invariavelmente atenda o telefone com um sonoro "Corpus, buenos dias" - uma fórmula tão inadequada à realidade como reveladora do ânimo argentino nesse campo.

DESOLADA PERPLEXIDADE - Faz sentido, portanto, que cada nova evidência da escassa disposição do Itamaraty em aceder aos convites argentinos provoque em Buenos Aires fundas reações emocionais, do desalento à indignação. Na chancelaria, ainda existe a preocupação de não pôr à mostra sentimentos mais contundentes. No máximo, a resposta do Palácio San Martín à política brasileira na Bacia do Prata se traduz em comentários de desolada perplexidade. "Francamente, não entendemos o que deseja o Brasil", diz por exemplo um diplomata que, sem dúvida, tem idéias mais precisas, certas ou erradas, sobre as intenções brasileiras. Outros preferem lançar a culpa de tudo aos ombros do ex-embaixador em Buenos Aires, de 1969 a 1974, hoje chanceler Azeredo da Silveira.

Esse, porém, já não é o diagnóstico de setores menos interessados em estabelecer distinções entre o Itamaraty e o governo brasileiro como um todo. É o caso de velhos arautos da inevitável rivalidade entre o Brasil e a Argentina, como o extremado almirante Isaac Francisco Rojas, ativo participante do golpe que derrubou o regime peronista em 1955. "Seria imperdoável candura", escreveu ele recentemente no diário La Nación, "imaginar que se teria aberto alguma brecha entre o Itamaraty e qualquer outro organismo do Estado, menos ainda o Conselho de Segurança Nacional" Embora longe ideologicamente de Rojas, o semanário Ultima Clave, tido como porta-voz dos setores liberais do Exército, também se recusa a crer que os problemas com o Brasil resultam somente da atuação do ministro Silveira.

Segundo Ultima Clave, na raiz das divergências sobre o rio Paraná estariam as "ambições hegemônicas" do Brasil no cone sul da América e a "estratégia expansionista baseada nos conceitos geopolíticos de 'fronteiras móveis' e 'destino manifesto' ". Sentencia o jornal: "Itaipu, acima de tudo, é uma plataforma de lançamento da hegemonia brasileira na Bacia do Prata". As críticas mais corrosivas de Ultima Clave contemplam, no entanto, a própria diplomacia argentina - que não teria sido capaz de definir uma linha de ação coerente em face do Brasil. Alvo predileto desses ataques é o embaixador argentino em Brasília, Oscar Camilion, a quem se acusa de ser demasiado blando e a quem seus adversários gostariam de ver substituído.

TACADAS PRECISAS - Camilion seguiu para Buenos Aires na terça-feira da semana passada - oficialmente em férias, "chamado para consultas", segundo certas especulações. Seja como for, dificilmente o governo argentino poderia prescindir da presença em Brasília daquele que é considerado o melhor diplomata do país - e um dos seus mais argutos brasilianistas. Para Camilion, 47 anos, ex-chefe de redação do jornal Clarín, uma eventual deterioração nas relações bilaterais significaria uma derrota até pessoal - poucos argentinos têm defendido durante tanto tempo e com tanta consistência a tese do entendimento com o Brasil. Já em 1961, ele ajudou a tecer o ambicioso lance de aproximação política que tomaria forma no Acordo de Uruguaiana, assinado pelos então presidentes Jânio Quadros e Arturo Frondizi.

E sua designação para embaixador em Brasília, em maio do ano passado, é até hoje apontada em Buenos Aires como prova da boa vontade argentina, tanto quanto a decisão de apoiar o Brasil na polêmica nuclear com os Estados Unidos. Nos últimos meses, segundo um amigo portenho, Camilion tem dedicado 90% de seu tempo à questão do rio Paraná. "Nos outros 10%, joga golfe; aliás, muito mal." Suas tacadas são porém incomparavelmente mais precisas quando ele defende a paz entre o Brasil e a Argentina e condena a discussão ruidosa e emocional dos problemas existentes - entre outros motivos, porque a elevação da temperatura política na Bacia do Prata faria recrudescerem as pressões internacionais sobre os programas nucleares brasileiro e argentino, ainda que nem um nem outro lado pense em incorporar argumentos atômicos à discussão sobre o rio Paraná.

DE IGUAL PARA IGUAL - "Também por isso", ouve-se no Palácio San Martín, "os dois países deverão caminhar rumo a um diálogo amplo, sobre represas, política nuclear e tudo o mais". Acrescenta um comentarista argentino: "Com o fim da era Nixon-Kissinger, o Brasil deixou de ser o aliado preferencial dos Estados Unidos na América Latina. Daí, não deveria o governo brasileiro relacionar-se conosco a partir de uma posição de força ou com base numa política de fatos consumados". No Itamaraty, tal descrição é prontamente rebatida. "E rótulos de modo algum se aplicam à diplomacia brasileira", afirma uma alta fonte do Ministério. "Sempre estivemos dispostos a conversar com os argentinos de igual para igual" Na reunião da OEA em Granada no mês passado, por exemplo, o chanceler Azeredo da Silveira teria exposto "com argumentos irrespondíveis" a posição do Brasil ao novo ministro argentino das Relações exteriores, Oscar Montes.

Pelo menos em relação a um ponto, brasileiros e argentinos concordam plenamente - a necessidade de manter abertos os canais de entendimento para que "diferenças instrumentais", como disse em seu discurso do dia 15 o almirante Emilio Massera, não se convertam numa confrontação política indesejável para ambas as partes. A favor do entendimento joga, acima de tudo. o que em Buenos Aires se define como "a força dos fatos" - elementos tão decisivos como a crescente familiaridade entre os dois povos, gerada pela explosão turística dos últimos anos, e o denso intercâmbio comercial: o Brasil é o principal comprador de produtos argentinos e o segundo mais importante vendedor para esse país. Em 1976, o valor desses negócios superou pela primeira vez 750 milhões de dólares. Tem razão, portanto, o diplomata argentino que dizia há poucas semanas a VEJA, no Palácio San Martín: "Brasil e Argentina podem fazer qualquer coisa um ao outro - menos deixar de conversar".

 
     
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