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26
de novembro de 1986
O governo enche o
bolso
Funaro anuncia o pacote que aumenta
preços tarifas e impostos, muda o índice
de inflação e arrecada mais 175 bilhões
de cruzados para o Tesouro
Abertas as urnas e constatada rapidamente
a vitória do PMDB em todo o país, o governo não
hesitou em lançar-se sem demora à mais monumental
captura de recursos dos brasileiros desde o início da recessão
econômica, em 1982, quando o Brasil bateu às portas
do Fundo Monetário Internacional. Entre cortar realmente
fundo os seus gastos, algo que se promete desde o discurso de posse
de Tancredo Neves, lido pelo presidente José Sarney, segundo
o qual seria "proibido gastar", e avançar no aumento
da arrecadação, o governo optou pelo caminho de sempre
- e foi buscar no bolso do contribuinte, de forma mais maciça
do que nunca, os recursos que não consegue economizar em
seu próprio território. Foi um pacote de tamanho épico,
algo parecido, em escala, com os aumentos de preço despejados
sobre o país nos tempos em que a inflação rugia
ao ritmo de taxas de 16% ao mês e os preços subiam
a cada semana. Quase nove meses depois de implantar o regime dos
preços congelados como o alicerce do Plano Cruzado, o governo
abriu na última sexta-feira um pacote que traz aumentos que
vão de 100%, no caso das cervejas e cigarros, a 80% sobre
os preços dos carros novos e 60% para a gasolina e o álcool.
Para contrabalançar o gosto amargo
das medidas de peso do pacote, do qual o PMDB é sócio
participante desde que seus líderes, uma vez garantida a
vitória nas eleições de dia 15 de novembro,
o abençoaram junto ao presidente Sarney, o governo embrulhou
o cartapácio divulgado na última sexta-feira com uma
pilha de decisões que, se não ajudam a digerir aumentos
como os dos carros e das bebidas, melhoram a vida dos brasileiros.
Estão nesse caso a concessão de incentivos à
poupança e uma anistia fiscal. Em meio a elas é que
vêm os aumentos de preços - nos quais as empresas produtoras
dos artigos majorados apenas tomaram uma carona, pois o governo
abocanhou o maior quinhão dos reajustes através da
elevação do imposto sobre produtos industrializados.
Aos aumentos juntam-se os expurgos na inflação e as
mudanças na fórmula de correção das
cadernetas de poupança e dos financiamentos da casa própria.
Ao fim das contas, somando tudo, o governo já começou
a arrecadar, de forma imediata e sem volta, mais 150 bilhões
de cruzados dos brasileiros, uma conta que sobe para 175 bilhões
considerando-se os empréstimos compulsórios sobre
os carros, a gasolina e o álcool, que não foram eliminados.
Resultado: pouco mais de 4% do produto interno bruto do país
sairá dos particulares para os cofres do Tesouro, numa das
mais gigantescas transferências de renda para o setor público
que o país, de um golpe só, já experimentou.
Enquanto a parte a ser paga pelos cidadãos, como de costume,
começou a ser cobrada desde a zero hora da última
sexta-feira nos postos de gasolina, a parte do governo nesse esforço
para equilibrar as finanças públicas ficou para depois.
Nesse pacote arrecadador, de fato, o governo promete entrar com
o seu quinhão - estimado pelo ministro da Fazenda, Dilson
Funaro, em 40 bilhões de cruzados - através do fechamento
de órgãos públicos e estatais, entre os quais
o BNH, a privatização de outras e cortes de gastos.
Concretamente, no entanto, tais medidas ainda são promessas,
ao passo que a fatura dos consumidores é uma realidade em
pleno vigor.
O aumento da gasolina, o primeiro da lista
de reajustes a entrar em vigor, foi o maior desde novembro de 1979
- quando a economia mundial mergulhava na segunda crise do petróleo
armada pelos países árabes. A tacada que fez dobrar
de uma vez só os preços atuais de cigarros e bebidas
e aumentou violentamente os automóveis e as tarifas públicas
é algo que nem o FMl, tão criticado pela sua alardeada
insensibilidade, teve coragem de propor ao Brasil quando, no final
de 1982, passou a supervisionar as insolventes contas nacionais.
Foi à moda dos tempos em que o país estava submetido
à chancela do FMI, a propósito, que o governo encontrou
a sua maneira de ocultar tais aumentos de preços do índice
de inflação e assim impedir que os reajustes se paguem,
formalmente, pelo resto da economia e deságüem em reivindicações
salariais. Se o índice não serve, quebre-se o índice
e crie-se um outro, que virá sob a forma do velho INPC, que
reajustava os salários no governo passado, com a nova roupagem
- roupagem esta bem mais justa e costurada de maneira a expurgar
os aumentos de preços considerados inconvenientes pelo governo,
como os decretados na semana passada. Pelo cenário anterior,
desenhado pelo IPC, a inflação de dezembro começaria
o mês já no nível de 7% - que vem a ser, efetivamente,
a medida da perda do poder aquisitivo dos salários em geral
por conta novo pacote.
"Não tínhamos outro
jeito", sustenta o ministro da Fazenda, que passou o último
mês negociando as medidas enfim anunciadas na última
sexta-feira com outros setores do governo, os políticos do
PMDB revigorados pelos votos de 15 de novembro e com o próprio
presidente da República. "Os aumentos são para
rachar mesmo, pois a economia está perigosamente aquecida.
Mas, se o caminho mais fácil de reduzir a demanda estava
no aumento do imposto de renda dos assalariados, nós preferimos
deixar a via da iniqüidade e tirar só de quem está
consumindo". Funaro acha importante a distinção
entre arrecadar via taxação no consumo, que leva as
pessoas a diminuir ou adiar suas compras - diferença que,
do ponto de vista de quem entrega efetivamente essa renda ao governo,
não melhora em nada as coisas. O ministro insiste, também,
em dizer que há uma necessidade absoluta de reduzir o crescimento
da economia, de um ritmo de 10% ao ano para mais ou menos 6%, por
limites físicos na capacidade de importar e no fornecimento
de itens básicos como a energia. Ele sustenta como artigo
de fé, por fim, que o déficit do governo é
hoje menor do que era em janeiro e que os aumentos de preço
do pacote, por suas contas, não batem "em 90% dos brasileiros,
os menos favorecidos".
Funaro, como seus colegas João Sayad,
ministro do Planejamento, e Almir Pazzianotto, ministro do Trabalho,
esforçou-se por justificar medidas que horas antes do anúncio
oficial no auditório do Ministério da Fazenda, em
Brasília, transmitidas pela televisão, não
haviam obtido consenso entre os três. O pacote que Sayad tinha
na cabeça, por exemplo, não previa corte algum de
gastos públicos - mas aumento disfarçado de imposto
de renda, com a criação de um empréstimo compulsório
que iria tomar 8% dos salários líquidos. Funaro, por
seu turno, era a favor de reajustes menores de preços graças
ao corte do subsídio que há anos favorece os produtores
de trigo. Pazzianotto contemplava outra solução que
não fosse a da mudança do termômetro da inflação
- preocupado com a previsível reação negativa
dos sindicatos.
A costura final do pacote, na verdade,
saiu durante um almoço, quarta-feira, na casa do ministro
da Ciência e Tecnologia, Renato Archer, no qual o presidente
nacional do PMDB e da Câmara, deputado Ulysses Guimarães,
tomou conhecimento do que a equipe econômica planejava executar
para conter a demanda - e assim recuperar o fôlego das contas
externas do país - e tapar o onipresente déficit público
federal. Coube a seus dois antigos assessores, os economistas João
Manoel Cardoso de Mello e Luiz Gonzaga Belluzzo, da equipe de Funaro,
revelar o que estava posto no pacote ainda desembrulhado. A conversa
foi amistosa, mas não a negociação. Ulysses
sabia, por intermédio de representantes do PMDB no governo,
que Funaro tinha no corte do subsídio ao trigo, que devora
ao ano 24 bilhões de cruzados do Tesouro, um dos focos centrais
do novo pacote. Também sabia disso o senador Pedro Simon,
amigo pessoal do presidente do PMDB e recém-eleito governador
do Rio Grande do Sul, estado com amplas plantações
de trigo. "O Simon diz que o fim do subsídio pode quebrar
a agricultura gaúcha", colocou Ulysses aos assessores
de Funaro. Belluzzo argumentou que a idéia era cortar pela
metade - e não acabar totalmente com essa extraordinária
fórmula que leva o governo a pagar ao agricultor brasileiro
240 dólares a tonelada por um produto que é vendido
aos moinhos por 70 dólares e pode ser importado por 90 a
110 dólares.
Lá pelas tantas, Belluzzo reduziu
a tentativa de corte do subsídio para apenas 30% de seu atual
valor. Nem isso pareceu razoável. Ulysses passou a argumentar
que a medida repercutiria sobre os orçamentos das famílias
mais pobres, que consomem pão e macarrão. Cardoso
de Mello argumentou que, como compensação, haveria
um abono da ordem de 80 cruzados, o que aliviaria o aumento destes
alimentos nos orçamentos das famílias com até
5 salários mínimos de renda mensal - 4 200 cruzados.
Fez-se o acordo, mas ele teve vida curta. No Planalto, o subsídio
ao trigo ficou do mesmo tamanho quando se constatou que a maior
parte dos assalariados brasileiros trabalha sem vínculo empregatício
e, assim, não haveria como creditar os abonos. "Não
podemos encarecer o pãozinho, o biscoito dos pobres",
argumentou o presidente Sarney. No mesmo almoço em que Cardoso
de Mello e Belluzzo serviram a Ulysses o que se planejava fazer
na economia, com a presença de outros políticos do
PMDB, acertou-se mais facilmente o fim do subsídio ao leite,
substituído por aumento de preço, e aos produtores
de cana-de-açúcar. Apesar da concordância do
presidente do PMDB, nada saiu como a equipe do ministro da Fazenda
havia planejado. Os políticos do Nordeste, onde se situa
a região canavieira mais atrasada do país, bateram-se
pela manutenção do benefício estatal. E, em
vez de cortes, ganharam um aumento de 32% no preço da cana
- resultando daí o reajuste do açúcar e do
álcool de consumo doméstico.
No caso do leite, optou-se por prorrogar
o subsídio até o final do ano. Com as pressões
políticas chegando de todos os lados, à medida que
a contagem dos votos ia indicando os favoritos das urnas, o pacote
foi tomando a forma que acabou sendo revelada na sexta-feira. No
meio das decisões, Ulysses recusou a proposta do empréstimo
compulsório sobre os assalariados, que, segundo Sayad, deveria
começar a incidir sobre as rendas mensais a partir de cinco
salários mínimos. A idéia original, que partia
de 15 SM, foi descartada, pois renderia ao Tesouro pouco diante
das necessidades - 50 bilhões de cruzados. Sayad calou-se
diante da reprimenda de Ulysses. "A classe média é
formadora de opinião pública e foi ela que ajudou
a convencer as classes mais baixas de que a oposição
faria governos melhores que os militares", disparou o presidente
do PMDB. A classe média ganhou ali uma batalha, mas começou
a perder espetacularmente em outro flanco. Como o que se discutia
no governo era como raspar dinheiro dos particulares para o estado,
passaram a tomar forma, sob a concordância de Ulysses e outros
próceres do PMDB, os megarreajustes de preços. De
uma maneira ou de outra, assim, todos vão ceder uma parte
do que ganharam com o Plano Cruzado, e a estabilidade dos preços
desde então, e dificilmente irão recuperar mais na
frente - já que o novo índice de inflação
passará lotado diante dos reajustes agora decretados.
A dúvida que assaltou os brasileiros
após o anúncio das medidas também acometeu
o presidente do PMDB tão logo se cristalizou o tamanho das
mudanças de preços e impostos. "Com todas essas
medidas para quanto vai a inflação?", indagou.
"É difícil medir, mas achamos que não
passará de 7% em dezembro, voltando logo a cair para cerca
de 1% com o novo índice", respondeu Belluzzo. Ulysses
expôs logo outra inquietação que na semana passada
invadiu também as sedes das mais importantes entidades empresariais
do país: "O que nos garante que este será mesmo
o último ajuste do Plano Cruzado?" Cardoso de Mello
respondeu: "Será o último se não tivermos
problemas cambiais a partir de agora". Está aí,
precisamente, a parte frágil de um pacote, composto por 44
atos, que mereceu elogios do prestigiado economista americano John
Kennneth Galbraith, mas poderá ser o primeiro de uma série
e não o começo de uma solução. "Os
ajustes agora feitos na economia são necessários e
eu os teria feito se fosse o responsável pelo Plano Cruzado",
disse Galbraith na última sexta-feira, em São Paulo,
onde começou um giro de uma semana pelo Brasil a convite
da revista Exame e do grupo Rhodia. As medidas que agradaram Galbraith,
foram avalizadas pelo PMDB e sacudiram os brasileiros são
as relacionadas a seguir.
Aumentos de preços
A parte mais dolorosa, visível e
ambiciosa do novo pacote é que atinge diretamente os bolsos
dos consumidores, surpreendidos com aumentos espetaculares de preços
movidos a IPI. E desta vez a carestia vem sem disfarces pela mão
do governo, que, a pretexto de enxugar a demanda e acertar os preços
congelados em 28 de fevereiro abaixo de seus custos de produção,
irá garfar uma soma que nem através do imposto de
renda consegue arrecadar. Uma parte vem diretamente, com as majorações
de tarifas. Outra vem com o acréscimo de alíquotas
do IPI sobre os preços de alguns produtos gerados pelo setor
privado.
Encher o tanque do carro, desde
a última sexta-feira, ficou 60% mais caro. O preço
do litro de gasolina passou de 6,10 para 9,76 cruzados e o do álcool
foi de 3,96 para 6,33 cruzados. Encher o tanque de um Escort movido
a álcool passou a exigir o desembolso de 292 cruzados, contra
183 cruzados ao preço antigo. Outra forma de medir o desembolso
real de renda a ser feito pelo consumidor é calcular quanto
representa o ônus a longo prazo. No mesmo caso do Escort,
o dispêndio anual passa a representar, por exemplo, 10% da
renda de quem somou 140 000 cruzados de salários.
Se ficou mais caro queimar o combustível
dos carros, tornou-se ainda maior a quantia necessária para
comprar um modelo zero quilômetro. Desde o início do
ano, as montadoras reivindicavam um reajuste de 25% a 30%. O governo
atendeu-as parcialmente. Decretou um aumento de 80% dos carros em
geral, mas só destacou 20 pontos percentuais desse reajuste
em favor dos fabricantes. O resto irá para o Tesouro. Dessa
parcela que lhe cabe no aumento, as montadoras terão de tirar
uma fatia e repassar aos fornecedores de autopeças em níveis
a serem negociados. O aço que compram das Siderúrgicas
do grupo Siderbrás, além disso, custará mais
caro, num aumento destinado a onerar exclusivamente o setor automobilístico
em 30%. Os fabricantes não gostaram. "O aumento não
é suficiente", queixa-se o presidente da Anfavea, a
associação das montadoras, André Beer. "Os
carros brasileiros já eram recordistas mundiais em impostos
e agora são supercampeões".
O consumidor tem mais razão para
se queixar. O carro mais barato fabricado no país, o Chevette
Sedan, passou de 50 090 para 90 162 cruzados. Sobre essa cifra,
o governo acrescenta ainda mais os 30% do empréstimo compulsório,
o que eleva o preço final do carro para 117 210 cruzados.
Na prática, considerando-se o empréstimo compulsório,
o automóvel mais barato no Brasil subiu 144% desde o fim
de julho - um aumento de preço recorde, segundo os fabricantes,
que só agora foram aquinhoados com um pequeno pedaço
desse bolo. "O governo oficializou o ágio e tributou-o
tom o IPI" , ironiza o presidente da FIESP, Mário Amato.
O tamanho do aumento dos carros
não preocupa gente como o ministro João Sayad, segundo
o qual carro é artigo supérfluo e de uma minoria,
assim como cigarros se encaixariam também nessa indefinida
de artigos sem necessidade - embora pobres e ricos consumam igualmente,
pesando mais para uns que para outros. O aumento dos cigarros, a
maior fonte arrecadadora de impostos para o país, foi de
100% em média, distribuído em reajustes de 45% para
as marcas populares e 120% para as demais. O cigarro mais consumido
no país, o Hollywood, teve seu preço elevado de 5
para 11 cruzados. Desse total, 70% representa impostos, ficando
o resto dividido entre o fabricante e o varejista. Quem fuma um
maço por dia de Hollywood, assim, passará a despender
180 cruzados a mais por mês com o reajuste. Como no caso das
montadoras, os industriais também não gostaram. Do
aumento decretado, Ihes caberá apenas majoração
de 25% de suas margens de lucro, "Eu não entendo as
medidas adotadas", afirma o presidente da Reynolds, Carlos
Eduardo Jardim. "Parece o tipo do negócio que só
é bom para uma das partes: o governo". Para não
forçar demais a inflação, o aumento cigarros
entra em vigor em 20 de dezembro próximo. Até lá,
os fumantes vão raspar os pacotes das prateleiras.
As bebidas seguem o mesmo caminho
da carestia e foram reajustadas em 100%, sobrando desse total apenas
10% ao fabricante. O preço de uma garrafa de cerveja, já
racionada nos bares e supermercados, em pleno início de verão,
passa de 6,80 para 13,60 cruzados.
Se a dose do pacote é amarga,
ficou mais ainda com o aumento de 25% no quilo do açúcar
cristal e de 20,9% no do refinado.
A dor de cabeça que tais
aumentos poderão acarretar aos consumidores também
não ficará barata. Os remédios subirão
em média 10%, ficando excluídos os considerados "essenciais"
- definição que, até agora, não se sabe
direito o que vai abranger.
O capítulo das tarifas, que
dizem respeito aos serviços básicos oferecidos pelo
estado nem sempre com eficiência, é uma das partes
mais gordas do pacote. A conta de eletricidade sobe em média
35%, bem como a de telefones. As tarifas postais foram acrescidas,
também em média, de 35%. O menor reajuste fez elevar
de 50 centavos para 1 cruzado o custo de uma carta simples.
A nova inflação
Ao tomar conhecimento da vastidão
do elenco de medidas adotado pelo governo, o industrial Mário
Amato, um otimista convicto, passou a recear pela sorte da inflação
e a volta da recessão. "O governo tem de ter extrema
sensibilidade para detectar o momento em que a dose aplicada tomou-se
excessiva demais para o andamento dos negócios", alerta
Amato. O ministro da Fazenda assegura que não vai tirar a
mão do leme. Já no caso dos automóveis, por
exemplo, Funaro programou um corte a partir de 1º de abril
de 10 pontos percentuais no preço agora aumentado em 80%,
à custa da redução da alíquota do IPI.
"As alíquotas em geral vão cair sempre que julgar
necessário" , diz o ministro, que exorciza a ameaça
de uma recessão. Quanto à outra preocupação
de Amato, Funaro resolveu de maneira mais simples: trocou o índice
de inflação, que agora será dado com base no
padrão de consumo das famílias com renda mensal de
até cinco salários mínimos. Tal indicador reedita
o velho INPC, com uma novidade: introduz como norma fixa o conceito
da acidentalidade, o que significa que sempre que um preço
subir anormalmente, como ocorria no passado com o prosaico chuchu,
a alta não será computada no índice. O novo
INPC, que passará a ser chamado de IPC, embora não
guarde nenhuma semelhança com o atual indicador de inflação
medida pelo IBGE - o atual considera o padrão de consumo
de até trinta salários mínimos -, será
ainda mais enxuto que seu assemelhado dos tempos do governo Figueiredo.
Nele, foram excluídos alguns produtos ou serviços,
como carros, empregada doméstica, bebidas, cigarros e flores,
sob o argumento de que as classes de renda mais baixa, as que o
governo se compromete a proteger, não têm estes itens
em seu padrão de consumo. O índice, na prática,
será administrado pelo governo. A mudança de termômetro
de preços incomoda os sindicatos. "Isso se chama manipulação",
diz o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São
Paulo, Luiz Antônio Medeiros. "Oficializaram a fajutagem",
emenda o presidente da CGT, Joaquim dos Santos Andrade, suplente
do senador peemedebista Mário Covas.
A tributação da Petrobras
Assim como a inflação recebeu
novo formato para não registrar a carestia real na economia,
a Petrobras ganhou um imposto, o IOF, a fim de repassar ao Tesouro
os lucros advindos do aumento da gasolina e do álcool. Tal
gravame incidirá sobre a importação de petróleo
à base de 37,5% até o final do ano. A partir de 1º
de janeiro, a alíquota poderá subir para 130%. Parte
da receita dessa tributação custeará o pagamento
aos estados dos royalties da exploração de petróleo.
Grandes investidores não gostaram nem um pouco desse IOF.
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