Arquivo VEJA |
|
Mais reportagens
Brasil e sociedade Política e economia Internacional Ciência e tecnologia Saúde e sexo Artes e espetáculos Gente e memória Religião e História Esporte e aventura Educação e trabalho Revistas
1997 - 2008 | edições integrais Edição n° 1 Edições extras Edições especiais |
Reportagens 26 de setembro de 1990O renascer de uma grande nação A vontade do povo e
"Foi como se tivessem puxado o nosso tapete. Um terremoto. De repente, o centro da Europa parecia ter sido deslocado algumas centenas de quilômetros para o Leste", surpreendeu-se o escritor Patrick Süskind, o sensível autor do romance O Perfume, ao descrever suas impressões diante do que, há menos de um ano, era um acontecimento espantoso e hoje já parece fazer parte de uma história remota. "Onde antes havia um muro desolador, abriu-se de repente uma nova e insólita perspectiva. E nós estávamos lá, boquiabertos como vacas diante de um portão recém-aberto, de olhos arregalados, temendo seguir um novo rumo." Para sorte dos alemães, as "vacas de olhos arregalados" que tomaram champanhe em cima do Muro de Berlim na noite de 9 de novembro do ano passado para comemorar a queda da barreira erguida quase quatro décadas antes não perderam muito tempo em divagações intelectuais sobre o que fazer diante do novo rumo que se abria. Na quarta-feira da próxima semana, dia 3, o que era impensável antes daquela noite célebre e se tomou inevitável a partir de então vai ser concretizado num ato derradeiro: as duas metades da Alemanha dividida desde o fim da II Guerra Mundial se unirão oficialmente para formar um só país. Não é uma união entre iguais. A Alemanha Oriental, onde a idéia do comunismo nasceu, a sua aplicação prática foi implantada pelos tanques soviéticos e sua morte acabou decretada por decisão do próprio povo, vai se anexar voluntariamente, de armas e bagagens, à metade ocidental, rica, capitalista e estupendamente bem-sucedida. Da fusão entre as duas partes, com todas as tremendas dificuldades criadas pelo casamento entre parceiros tão desiguais, renasce uma grande nação, que já é uma superpotência econômica por direito próprio e agora, com seu território e sua população expandidos, passa a ocupar um posto excepcional no mapa da Europa e do mundo. VARINHA DE CONDÃO - A velocidade com que as duas metades do país dividido caminharam para seu reencontro foi tão vertiginosa que é difícil acreditar que há menos de um ano, no último dia 7 de outubro, o então secretário-geral Erich Honecker comemorou os quarenta anos de fundação da Alemanha Oriental com uma festa lúgubre, na qual reafirmou desafiadoramente que não ia mudar nada, abrir nada nem se abalar com nada. Onze dias depois, Honecker estava desempregado e o povo da Alemanha Oriental votava com os pés o fim do regime comunista - nas embaixadas dos países do Leste Europeu onde se refugiava às dezenas de milhares, nas ruas das cidades onde saía em manifestações pela democracia. Como num conto de fadas em que a abóbora se transforma em carruagem a um toque da varinha de condão, deu tudo espantosamente certo. Os problemas da unificação, que pareciam impossíveis de ser resolvidos até mesmo pelo incrível gênio alemão, desmoronaram com a mesma facilidade com que a muralha de concreto se desmanchou no ar. Os países europeus, petrificados durante muito tempo pela "profunda e gelada desconfiança que o alemão desperta sempre que tem algum poder nas mãos", segundo a definição de Friedrich Nietzsche, engoliram a unificação na falta de qualquer outra escolha. "Nós não empurramos os acontecimentos, mas somos empurrados por eles", reconhecia alegremente o chanceler da Alemanha Ocidental, Helmut Kohl - um político sem grande brilho transformado em estadista do primeiro time pelo fato de estar no lugar certo na hora da guinada histórica e ter estatura para enfrentá-la -, a cada vez que pisava mais fundo no acelerador da unificação. Depois de muito espernear, a União Soviética concordou com a retirada de seus 380.000 soldados em território alemão-oriental, seduzida por uma mala de dinheiro. Total da conta: 12 bilhões de marcos (7,5 bilhões de dólares), para custos da desmobilização. MAIS E MELHOR- A facilidade com que Kohl saca do talão de cheques ajuda a entender como os alemães chegaram à unificação com uma rapidez de fazer inveja às divisões panzer que esmagaram o continente europeu no início da II Guerra Mundial. Qual o país que poderia se dispor a pagar uma conta que ao longo dos próximos dez anos deve chegar a 1,2 trilhão de dólares para recuperar a sua metade perdida? A Alemanha Ocidental se encontra numa posição única para fazer isso, do alto de um sistema econômico que é simplesmente o mais bem-sucedido da Europa desde o nascimento da Revolução Industrial. O país tem o maior superávit comercial do mundo. Na proporção per capita, os alemães exportam quatro vezes mais que os Estados Unidos e duas vezes mais que o Japão. Seu PIB é apenas ligeiramente inferior ao da França e da Grã-Bretanha somados. A inflação média anual, nos últimos cinco anos, foi de 1,2%. O alto grau de racionalização e produtividade permite o crescimento quase ininterrupto da produção e o aumento real dos salários, ao mesmo tempo que a jornada de trabalho diminui - a meta dos sindicatos, já atingida em alguns setores, é a semana de 35 horas. Ou seja, os alemães-midentais trabalham cada vez menos, produzem cada vez melhor e ganham cada vez mais. ESPAÇO VITAL - Pelo menos 400 famílias têm fortunas superiores a 100 milhões de dólares, mas as benesses dessa supermáquina de produzir riquezas e bem-estar social se espalham por toda a sociedade. Uma família média - o pai, operário especializado, a mãe, dona de casa, e dois filhos - chega ao fim do mês com rendimentos da ordem de 4.046 marcos, ou 200.000 cruzeiros. Cerca de 80% das famílias têm carro próprio. Para cada 100 domicílios existem 121 aparelhos de TV, 160 geladeiras, 100 máquinas de lavar roupa, 105 aspiradores de pó e noventa telefones. No ano passado, 28 milhões de alemães, os turistas mais viajados do mundo - "Para um homem de inteligência, viajar dá a melhor educação", recomendava Goethe desde o século XVIII - foram de férias ao exterior, onde deixaram 40 bilhões de dólares. Cansados de procurar um programa diferente a cada ano, cerca de 800.000 alemães têm casas de veraneio em países como Itália, França, Espanha, Portugal. Com suas exportações, seus marcos, seus carros e suas passagens de avião, eles conquistaram o que duas guerras monstruosamente sanguinárias travadas neste século, a pretexto de conseguir para a Alemanha o acesso às matérias-primas, aos mercados externos e ao tenebroso lebensraum - o espaço vital - de que falava Adolf Hitler, não alcançaram. "O poder econômico ocupa hoje o espaço que as divisões de infantaria tinham na época do Kaiser", costumava dizer Franz Josef Strauss, o político ultraconservador que morreu em 1988. Strauss foi ministro das Finanças entre 1966 e 1969, numa época em que a Alemanha Ocidental já colhia tranqüila os frutos do Winschafiswunder, o milagre econômico que só encontra paralelo no Japão, o outro país que perdeu a guerra e levantou-se dos escombros para se transformar em superpotência movida a riqueza. Os alemães não precisam mais lutar pelo espaço vital. Eles podem comprá-lo com seus marcos poderosos. HISTÓRIA DE SUCESSO - É difícil lembrar que, há 45 anos, a Alemanha era uma nação vencida e ocupada por quatro Exércitos estrangeiros, com 60 milhões de pessoas em estado de catatonia, passando fome e frio, sem poder militar, político ou econômico - sem futuro. É bom recordar, no entanto, que a potência erguida sobre essas ruínas teve por trás de si muita sorte - a ajuda americana impulsionada pela guerra fria -, um trabalho tremendamente duro e uma idéia forte: a do "capitalismo com consciência", desenvolvida por Ludwig Erhard, ministro da Economia entre 1949 e 1963. Adepto apaixonado da economia de mercado e inimigo de fé dos monopólios, ele foi o guru do desenvolvimento da Alemanha no pós-guerra. "A receita do professor Erhard, que significa dar às massas uma fatia de bolo mais grossa do que na maioria das economias capitalistas, demonstrou ser a maior produtora de riquezas, tecnologia moderna e segurança social já alcançadas por qualquer outra ideologia ou sistema político", define Edwin Hartrich, um americano que viveu na Alemanha durante a guerra primeiro como jornalista e depois como soldado e escreveu o livro O Quarto e Mais Rico dos Reichs. "Essa receita produziu o momento mais brilhante do capitalismo e infligiu uma derrota decisiva ao socialismo marxista em seu berço natal. É a maior história de sucesso do século XX." Foi com base nessa história que a Alemanha Ocidental se transformou numa vitrine com tal poder de atração sobre a metade do Leste que nem o muro de Berlim conseguiu conter, reuniu poder de fogo suficiente para bancar a conta da unificação e, a uma década do final do século, voltou a ocupar, unida e com mais força do que nunca, o lugar que sua insânia guerreira lhe tirou no passado: o de grande potência da Europa e do mundo. |
VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter | ![]() |
|