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Reportagens 26 de julho de 1995Erotismo liberado para menores A escalada sexual na
Há algo na televisão brasileira que provoca mal-estar em vários pais e mães - as cenas de nudez, os diálogos maliciosos, as representações de relações sexuais mostradas no horário nobre, quando crianças ainda estão na frente do vídeo. Um sintoma desse mal-estar já chegou a Brasília. Circulam pelo Congresso nada menos que doze projetos que, de uma forma ou de outra, procuram criar leis destinadas a barrar aquilo que os parlamentares classificam como permissividade da televisão. Outro sintoma está nas respostas que o instituto Vox Populi obteve nas mais de 3 000 entrevistas que fez em 214 municípios. "Na sua opinião, a televisão brasileira tem mostrado mais sexo do que deveria?", perguntavam os pesquisadores, e nada menos que 63% das pessoas responderam que sim. "Há uma sensação geral, ainda que meio envergonhada, de que o sexo na televisão anda meio fora de controle", diz o ministro da Justiça, Nelson Jobim. Um levantamento realizado por VEJA na semana passada mostra que a sensação a que o ministro se refere tem razão de ser. Os números mostram que o sexo se tornou uma idéia fixa das emissoras de televisão. Aparece uma cena de nudez a cada 113 minutos, uma representação de ato sexual a cada 145 minutos. Novelas, filmes, propaganda, nada escapa do telerotismo. Não escapa nem a Record, do bispo Edir Macedo, que não tem programas de cunho sexual, mas exibe comerciais iguais aos das concorrentes. Pelos critérios empregados por VEJA, em que se considera tanto o que foi exibido na programação como nos intervalos comerciais, a Globo fica em primeiro lugar, a Bandeirantes em segundo, a Manchete em terceiro, o SBT em quarto e a Record em quinto. Somando-se cenas de nudez, palavras chulas, diálogos maliciosos e atos sexuais, a Globo registra 146 ocorrências, contra 83 da Bandeirantes. Um exemplo é a novela Quatro por Quatro, encerrada no último fim de semana e que era exibida às 7 da noite, hora em que boa parte da criançada nem sequer foi para o banho antes do jantar. No capítulo de sábado dia 15, sete das onze cenas levadas ao ar tratavam de sexo. Inclusive apresentou uma cena de sadomasoquismo, com máscaras de couro, correntes e chicotes, na qual os personagens trocavam frases como "você vai fazer safadeza comigo?" Esses pais, sejam eles liberais ou conservadores, costumam ser atropelados por perguntas e comentários sobre sexo feitos pelos seus filhos a partir do que vêem na TV. O médico carioca Luiz Antônio Carvalho, 35 anos e pai de Ana Carolina, de 9 anos, descobriu esse aprendizado na prática. Certa vez, quando assistia à novela Malhação com a filha, comentou que o casal na tela estava namorando. A menina rebateu que não, porque ambos estavam de pé. "Namorar, para minha filha, é uma coisa que só se faz deitado", conta Carvalho, conformado. "Tem tanta cena de sexo que a gente acaba ficando complacente", diz o médico. Rayenne Shamye, de 7 anos, que mora no Recife com os pais e mais duas irmãs, teve sua curiosidade despertada por um capítulo de novela. E forçou a mãe, Elizabeth, a dar algumas respostas. Pega de surpresa, ela se esforçou para explicar o que era "transa". "Contei a história da sementinha, mas expliquei exatamente o que era", lembra Elizabeth. O pai, Humberto, preferiria que suas filhas não fossem ainda expostas ao assunto. "Fico constrangido quando o sexo aparece na tela, mas procuro não demonstrar, para que elas encarem isso como uma coisa natural", confessa ele. Nunca é fácil. A maioria das crianças percebe na hora quando um pai está sem graça ou uma mãe ficou encabulada - e não é agradável ser apanhado nessa situação quando se deseja que os filhos tenham boa orientação sobre um aspecto tão importante da vida como o sexo. Veterano autor de novelas e pai de duas meninas, uma de 7 anos e outra de 4, Dias Gomes nunca as proibiu de assistir a qualquer programa. "As pequenas transgressões que a TV comete são eliminadas por outros mecanismos sociais, como a orientação da família", diz ele. Eis aí uma visão sobre a qual ninguém está de acordo, a começar pelos profissionais da área. VEJA ouviu uma dezena de especialistas - psicólogos, psiquiatras, pedagogos, educadores sexuais -, e apenas um, o psiquiatra Christian Gauderer, com doutorado em Desenvolvimento da Criança na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, considera que a exposição de crianças ao sexo da TV não faz nenhum mal. A psicóloga Maria Aparecida Barbirato, coordenadora do Grupo de Trabalho de Pesquisa em Orientação Sexual, que foi contratado pelo Ministério da Saúde para implantar programas de educação sexual nas escolas públicas do país, acha que exposição precoce de crianças ao sexo é um fato que não pode ser ignorado. Barbirato constatou que, em geral, elas reagem à situação de duas formas. Algumas desligam a TV, simplesmente porque o sexo ainda não as interessa. "Mas a maioria começa a imitar a cena, apesar de não entender direito o que aconteceu", diz. "Francamente, isso é muito artificial." A psicóloga pernambucana Maria do Carmo Camaroti considera que, quando o assunto é sexo, as crianças são submetidas a uma série de informações que não estão aparelhadas para resolver. "É como dar feijoada a um bebê que se encontra na fase da mamadeira", compara. "As crianças ficam seduzidas, querem agarrar outras pessoas, dão beijos com força e adotam atitudes que consideram sensuais", conta a psicóloga. A psicanalista Cristina Kupfer, professora do Instituto de Psicologia da USP, considera que a exposição intensa ao sexo provoca desconforto em meninos e meninas. "Eles presenciam cenas em que o amor é realizado de forma completamente diferente daquela que podem dar e receber", afirma. "O que essas cenas fazem é aumentar sua angústia." Chefe de um serviço que atende problemas clínicos e dá orientação sexual a jovens entre 10 e 20 anos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o médico Ricardo Barros, presidente da Sociedade de Pediatria fluminense, chega a temer que a televisão esteja preparando um desastre de grandes proporções. Um dia, Ricardo Barros notou que sua filha mais nova, de 9 anos, ficava em estado de euforia quando chegava a hora de assistir a uma novela. "Ela dizia que não queria perder o capítulo para saber quem tinha transado com quem naquele dia", conta. O pediatra está convencido de que a televisão modifica o comportamento da criança, podendo prejudicá-la. "A televisão joga imagens e as pessoas vão captando. Está havendo uma sexualização precoce", afirma ele. "Meninas de 7 ou 8 anos já têm comportamento de adolescente, usam batom e salto alto, compram roupas erotizadas da Xuxa e da Angélica. Um menino de 11 anos já está pensando em beijar e agarrar uma menina. É impossível negar que a televisão tenha muito a ver com isso." Existe um dado que deve ser levado em conta quando se debate a influência da TV sobre o comportamento das pessoas. Ninguém discute que ela estimula o consumo de mercadorias e marcas - tanto que recebe verbas milionárias de publicidade. Também é certo que tem seu peso na hora de o cidadão escolher seu candidato numa eleição - tanto que o horário político, com toda a sua chatice, é disputado a faca pelos concorrentes. Fica difícil imaginar, nessa situação, que só em matéria de sexo a TV seja um aparelho neutro como um terno cinza. Vez por outra, alguma autoridade resolve tomar uma atitude. No Rio de Janeiro, o prefeito César Maia proibiu que as bancas de jornal mostrassem capas de revistas pornográficas do lado de fora - elas só podem ficar expostas do lado de dentro das bancas, lacradas em embalagens plásticas opacas. Há poucos dias, Siro Darlan, juiz de menores do Rio de Janeiro, proibiu que a diretora Bia Lessa exibisse cinqüenta crianças nuas numa encenação da ópera Il Tríptico. Também por sua iniciativa, os capítulos de Malhação não vão ao ar antes de passar por seu crivo. Ele recebe as sinopses da Globo e, quando não gosta de uma cena ou diálogo, determina que sejam modificados - ou mesmo suprimidos. Na prática, o que o juiz está fazendo é censura prévia. Seu trabalho tem como fundamento o Estatuto da Criança e do Adolescente, que elenca um conjunto de providências para proteger a imagem, a saúde física e mental dos menores. Como Malhação exibe atores com menos de 18 anos, que só podem aparecer na TV com sua autorização, sempre que discorda de um capítulo o juiz se nega a liberar a participação. Numa de suas primeiras cenas, Malhação iria apresentar um grupo de adolescentes apenas de calcinha e sutiã. Para atendê-lo, a cena foi modificada. Todos foram ao ar com roupa colante de ginástica. A outra parte, a maior, cabe à própria TV. A Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e TV, Abert, possui um código de ética muito bonito - mas até as crianças já perceberam que esse papelório só foi escrito para não ser respeitado. O argumento favorito das emissoras é dizer que quem não está satisfeito só precisa mudar de canal ou desligar o aparelho. Mas dizer isso, apenas, é fingir que se pode ignorar três realidades. Uma, que a TV é uma alternativa de lazer única para a maioria das famílias, especialmente as mais pobres. Duas, que freqüentemente as crianças ligam a TV quando os pais estão fora, trabalhando. Três, que a programação do conjunto das emissoras foi sexualizada em largas doses - há diferenças, mas a única exceção verdadeira é a rede educativa. As emissoras gostam de invocar a liberdade de expressão para que ninguém venha intrometer-se em seu trabalho, o que é correto. A liberdade é mesmo a causa mais bela que existe. Isso não elimina, no entanto, a necessidade de um debate sobre a função que a televisão exerce. É uma discussão que poderia melhorar a própria televisão, abrindo caminhos mais criativos do que o simples apelo sexual indiscriminado.
Na teoria, o sexo deixou de ser um mistério para eles. Crianças ainda, discorrem sobre temas como homossexualidade, estupro, Aids e função dos órgãos sexuais com a desenvoltura de especialistas. à primeira vista, os onze meninos e meninas entre 7 e 13 anos com que VEJA conversou na última quarta-feira são adultos precoces. As vozinhas infantis, no entanto, traem a contradição: se o discurso é de gente grande, nos corpos fluem poucos miligramas de hormônios sexuais. E eles ainda brincam com ursos de pelúcia, bonecas Barbie, bolinhas de gude, além do videogame e do computador, enquanto falam, falam e falam de sexo. Responsáveis por tamanha mudança na infância certamente são a revolução sexual vivida por seus pais e o medo inspirado pela Aids. Mas há um elemento igualmente novo, só que mais perturbador na parada: a TV, há dez anos mergulhada numa louca correria para ganhar pontos de Ibope à custa de muito sexo. Todas as crianças ouvidas reconhecem que aprenderam demais sobre os "truques do sexo" antenadas na televisão. E os pais correm atrás. A escola, idem. "Como eu nasci? É normal, meu pai transou com minha mãe. Já aprendi como se faz amor", revela o pequeno André, aluno de 3ª série em São Paulo. As lições, minuciosas, lhe foram dadas por um aparelho de 20 polegadas em seu quarto, sintonizado numa antena parabólica. "A TV ensina os truques. A escola só enrola. Acho que sexo tem de descobrir por você mesmo, se não, não dá. Tem de ser na TV, na vida", comenta o menino. Vida, mesmo, André tem pouca em seus 10 anos de idade, três horas diárias na frente da TV. Foi assim: "Quando eu tinha 5 anos, vi um filme que na época achei esquisito. Um homem chegava perto de uma mulher com os seios de fora na piscina e falava: 'Quero te c...'. Não entendi nada. Como assim, c...? Com garfo e faca?! Nunca tinha visto nada parecido na vida. Foi superestranho. Fiquei perturbado. Armazenei aquelas cenas na cabeça, essas coisas foram ficando na memória. Mulher e homem fazendo sexo, falando coisas estranhas, tinha pego essas imagens por acaso, pela antena parabólica. Vi o cara mordendo a orelha da mulher. Achei animal". Como era de esperar, André ficou insaciavelmente curioso. "Perguntei à professora, ela disse um monte de baboseiras. Perguntei para meu pai, ele me disse algumas verdades, só algumas. Veio com um papo de sementinhas se juntando. Minha curiosidade era maior. Aí comecei a aprender por minha conta, o homem da banca de jornais da esquina deixava eu olhar umas revistas. Depois fui me aprimorando, sabendo mais, perguntando para meus amigos e amigas mais velhos. Fui ficando expert. Não tenho mais dúvidas sobre sexo. Sou um homem resolvido. Agora é só fazer. Já tenho as manhas, sei do que uma mulher gosta", comenta o menino, 1,45 metro de corpo imberbe. Os quatro garotos são unânimes ao relacionar em quem mais confiam. Primeiro, vêm os pais. A TV está em seguida. Os professores ficam em terceiro, à frente apenas das empregadas domésticas. Do que eles não gostam é de assistir à TV com os pais. "Prefiro com a empregada, ela tem menos intimidade. Com papai e mamãe, dá vergonha. O ideal é assistir sozinho", afirma Alberto, 12 anos, o veterano da turma masculina. Com as meninas é diferente. Primeiro vêm as mães, depois os pais, em seguida a escola e os amigos, por fim a TV. "A minha mãe tenta explicar tudo o que eu pergunto para ela sobre sexo. Uma vez, perguntei para o meu pai o que era masturbação e ele me disse que isso eu só devia saber quando completasse 15 anos. Ele é muito tímido, sabe? Prefiro me abrir com a minha mãe. Ela me explica tudo, só pára quando não sabe mais sobre um assunto. Aí ela compra um livro sobre sexo e nós lemos juntas", explica Lívia, 9 anos, aluna da 3ª série. "A camisinha é como uma bexiga de borracha que vem toda enroladinha num pacote. O homem pega o seu pênis ereto e põe essa bexiga na ponta. Depois, é só desenrolar", ensina a loirinha Marina, 8 anos, 2ª série, sem nenhuma vibração especial na voz. Onde aprendeu? Ela viu uma campanha de prevenção da Aids na televisão, completou as informações com a mãe - sempre ela - e tornou-se craque no assunto. "O mesmo preconceito apareceu em Malhação", acusa Maria Alice, 13 anos, aluna da 7ª série e veterana do grupo feminino. "Tinha um menino virgem, que todo mundo queria que não fosse mais. Arrumaram uma prostituta para ele... Eu acho o fim. Os autores de novelas deviam pensar que esse tipo de coisa é uma pressão incrível na cabeça das pessoas. Quem acha uma baixaria resolver a vida sexual desse jeito acaba se sentindo culpado porque não está fazendo aquilo que os outros, a novela inclusive, acham que ele deveria fazer." Com os meninos, a imagem de sexo ideal é povoada por cenas de novela, anúncios publicitários e afins. A vontade de ficar com mulher surge primeiro com a TV, e não na escola. Danilo, de 10 anos, ficou apaixonado pela Letícia Spiller, a Babalu de Quatro por Quatro, antes de se interessar por uma colega de classe que só quer ser sua amiga. "Fico com muito mais vontade de ver essa atriz na TV do que de dar um beijo na minha colega", confidencia. André completa: "A gente sonha mais com a mulher da televisão, ela é mais bonita. Não consigo imaginar como seria se não tivesse TV". Ninguém mais consegue. |
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