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26 de julho de 1972
Cooper, a religião aeróbica

 

 

 

Aeróbico: do grego "aér" (ar) e "bíos"
(vida); diz-se daquele que vive do ar.

Um louco, sem dúvida. Vinte dias antes, aquele homem com rosto de menino, braços compridos e um topete rebelde eternamente debruçado sobre as sobrancelhas permanecia internado, em regime de repouso absoluto, no Hospital das Clínicas de São Paulo - estava com pelo menos meia dúzia de costelas fraturadas em conseqüência de um acidente de automóvel. E agora, de calção, tênis branco e sem camisa, numa manhã tão fria que parecia impossível suar, trôpego como um bêbado, os joelhos se chocando a cada passada, ele corria, dando voltas e mais voltas numa pista de atletismo apenas separada do hospital e de seu resguardo por um cheiroso cortinado de eucaliptos.

"Eu sentia todos os ossos chacoalharem no peito, mas continuei, até completar 2.000 metros." Na verdade, Euclides Fontagno Marques, 37 anos, médico cardiologista respeitado, componente da famosa equipe comandada por Euryclides de Jesus Zerbini, sabe que o sistema de condicionamento físico idealizado por um colega americano, o dr. Kenneth H. Cooper, diretor do Laboratório Espacial da NASA em San Antonio, Texas, pode ser mais importante do que a cama na recuperação de um doente. "Não há nenhum mistério. Como também não há nenhum milagre. Com os exercícios, eu estava simplesmente estimulando meu organismo a reagir."

Mais do que isso, porém, o chamado método de Cooper já parece ser um instrumento fundamental na prevenção, por exemplo, de doenças cardíacas - e no próprio tratamento de pessoas com problemas de coração. "É evidente que um indivíduo fisicamente mais capaz, e não precisa ser um grande atleta, tem menos possibilidade de sofrer um enfarte do que aquele indivíduo sedentário, que passa todo o seu tempo entre o leito e a poltrona acolchoada do escritório."

UM CORPO NOVO - Segundo a terapêutica convencional de alguns anos atrás, o tratamento de um ataque cardíaco era feito com remédios de eficiência meramente temporária, como a maioria dos vasodilatadores - enquanto o paciente esperava por um novo enfarte. Hoje, já está provado que, com o treinamento atlético, um doente pode atuar diretamente sobre seu próprio organismo, em vez de depender da ação temporária das drogas. "Como sistema de condicionamento físico, o método de Cooper é o que existe de melhor à disposição da medicina", assegura Fontagno Marques.

Essa certeza tem sido constantemente corroborada nas viagens que Kenneth Cooper, fundador e grande sacerdote dessa nova religião, vem fazendo pelo mundo, a fim de divulgar os seus livros e suas idéias. Alto, magro, expressão decidida e um aperto de mão capaz de esmagar uma laranja, Cooper, de 42 anos, nos últimos dois visitou cerca de vinte países nas Américas e na Europa e testou sua teoria - cientificamente - em quase 60.000 pessoas. E, na essência, as conclusões dos exames foram todas iguais: "Depois de quarenta dias do método, o indivíduo praticamente ganha um corpo novo. Uma artéria com diâmetro de 2 milímetros passa para 6. Onde havia somente cem vasos capilares por milímetro, passam a existir trezentos".

EM DUAS BALANÇAS - A julgar pelo número e pessoas que são vistas correndo nas praias e ruas do Brasil, geralmente nos fins de madrugada, essas transformações aparentemente fantásticas já estão acontecendo no organismo de alguns milhares de brasileiros.

Em Fortaleza, cinqüenta pessoas assistem ao nascer do sol trotando animadamente ao redor de uma praça a poucos quarteirões do Palácio da Abolição, sede do governo estadual. No Recife, o vereador Clóvis Correia, ex-atleta, apresentou um requerimento à Câmara Municipal solicitando que a Prefeitura demarcasse a praia de Boa Viagem, de 100 em 100 metros, para facilitar as contas dos discípulos de Cooper. Em Salvador, o marco comemorativo da chegada de Tomé de Sousa, na praia do Forte de Santa Maria, tornou-se um ponto de referência - e de encontro - para os corredores da madrugada.

No Rio, já existem até formulários oficializados pelo Corpo Marítimo de Salvamento, com dados sobre pressão arterial, pulsação, peso, idade, permitindo que os "cooperistas" possam ser acompanhados por médicos e instrutores de educação física. Em São Paulo, praticamente todos os clubes da cidade colocaram técnicos à disposição dos interessados em conhecer o método, e segui-lo. Em Florianópolis, aos poucos, a avenida Rubens de Arruda Ramos, à beira-mar, vai-se transformando numa festiva pista de atletismo, com corredores vestindo uniformes de todas as cores. Em Brasília, das 6 às 7 da manhã, em pleno eixo monumental, a mais larga avenida da capital, dezenas de pessoas gastam o seu suor exercitando-se ritmicamente entre os jardins das superquadras.

Nesse vasto panorama, só Curitiba, em todo o país, parece fugir à regra implantada pelos fiéis de Cooper. Lá, por alguma razão insondável que um cidadão preferiu justificar como "timidez paranaense", não há quem siga, de manhã, os ensinamentos do mestre americano: todos preferem correr à noite, depois das 22 horas, protegidos dos olhares indiscretos pela má iluminação de muitas ruas da cidade.

CORRIDA DE PERSONALIDADE - "Ganhei uma enorme disposição para o meu trabalho diário", reconhece o general Humberto Ellery, de 59 anos, 65 quilos, 1,65 m de altura, chefe da assessoria técnica do governo do Ceará. Todos os dias, das 5h30 às 7h30, ele comanda o grupo de cinqüenta pessoas que praticam o método de Cooper em Fortaleza. O próprio general se encarrega de cronometrar o tempo de todos e de tomar seu peso em duas balanças que leva de casa e instala imponentemente à sombra de um precário pé de algorobas.

"Li o livro do dr. Cooper, 'Aptidão Física em Qualquer Idade', durante o verão de 1971", conta Victor Faccioni, de trinta anos, 76 quilos, 1,79 m de altura, chefe da Casa Civil do governo gaúcho. "Cheguei a correr 4 quilômetros por dia." Na semana passada, Faccioni deu umas pedaladas na bicicleta ergométrica (equipada com um dispositivo capaz de medir os esforços feitos) que o governador Euclides Triches mandou importar da Alemanha para fazer seus próprios exercícios, e se empolgou com o aparelho - segundo Kenneth Cooper, praticar o ciclismo é quase tão bom quanto correr. Resolveu comprar uma bicicleta brasileira mesmo. Mas, infelizmente, a nacional ainda não tem os recursos da estrangeira, e Faccioni ficará sem poder medir sua resistência e força.

"É preciso determinação e persistência para obter um bom resultado", explica o paulista Ary Braga Pinheiro: nem a densa e fria neblina que nestes meses de inverno envolve a pista de atletismo do Esporte Clube Pinheiros, em São Paulo, por volta das 7 horas da manhã, é suficiente para arrefecer seu ânimo. Braga, de 59 anos, começou a viver as idéias do dr. Cooper há apenas sete meses. "Apesar desse pouco tempo, minha disposição já se multiplicou muitas vezes." Depois de correr três quartos de hora, sua pulsação chega a marcar 150 batidas por minuto. Em pouco tempo, porém, baixa para 120, recuperação rara para urna pessoa em sua idade. "Isso revela a boa forma física em que ele se encontra", observa o professor Orestes Boano, que coordena a aplicação do Cooper no Pinheiros.

LEVANTAMENTO DE PESOS - Qual é o segredo do método? O que tem ele de inusitado, de especial? "Por mais incrível que pareça", afirma Kenneth Cooper, "absolutamente nada. Eu não criei novos exercícios. Somente reformulei os que já existiam." Mas foi uma reformuIação radical. Preocupado em encontrar o processo ideal para medir o estado físico dos oficiais da Força Aérea americana, especialmente os candidatos a astronautas, Cooper concluiu, depois de catorze anos de tentativas, que nenhum dos exercícios convencionais, como os isomécicos, o levantamento de pesos ou a ginástica calistênica, demonstrava, isoladamente, qualquer efeito apreciável sobre todo o organismo, dos músculos até o coração e o sistema circulatório.

Os isométricos, por exemplo, contraem músculos sem produzir movimento ou exigir que o corpo consuma quantidades apreciáveis do oxigênio - ou seja, basicamente nem levam ao cansaço. Em geral, enrijecem um conjunto de músculos contra outro, ou contra um objeto parado. "É aquela história de a gente fazer força como se tentasse levantar a cadeira em que está sentado."

Os calistênicos, como a ginástica ou mesmo o levantamento de pesos, contraem os músculos e produzem algum movimento. Nenhum deles, contudo, deixa seu praticante exausto, obrigando a
uma maior necessidade de oxigênio. "Eu mesmo faço alguns exercícios calistênicos", admite Cooper. "Flexões de tronco, flexões de braço, ginástica abdominal são recomendáveis para se manter a
musculatura em boa forma, para se atingir a proporção ideal entre peso e altura. Contudo, representam apenas os tijolos que ficam na parte superficial de uma estrutura. E quase nada exigem dos pulmões ou do coração." Enfim, ele havia constatado falhas num sistema de treinamento físico com séculos de idade. Mas como fazer oara compensá Ias?

"A chave de tudo é a oxigenação do organismo", observa o capitão Cláudio Pêcego de Morais Coutinho, supervisor da seleção brasileira de futebol, que introduziu o método no país. "Qualquer atividade exige energia. O corpo produz energia queimando alimentos. E o agente dessa queima é o oxigênio". Cooper completa: "Mesmo em Cabo Kennedy os propulsores dos foguetes espaciais carregam combustível e um agente de oxidação para queimá-lo e produzir energia. Assim que deixam a atmosfera ficam sem oxigênio natural, e por isso têm de levá-lo. No corpo, o combustível é o alimento e a chama, o oxigênio. Porém, embora possa armazenar alimento, o organismo humano não tem como guardar oxigênio."

A MAIOR DISTÂNCIA - Para a alimentação, três refeições diárias são suficientes: o corpo utiliza o que deseja e guarda o restante para mais tarde. Mas isso não acontece com o oxigênio. Seu abastecimento precisa ser constantemente restabelecido, através da respiração. "Como vivemos na atmosfera, esse suprimento é ilimitado. Então, qual o problema? O problema é receber oxigênio bastante em todas as áreas pequenas, escondidas e infinitas do organismo, onde o alimento é armazenado, para que seja produzida uma quantidade saudável de energia. E isso só se consegue com os chamados exercícios aeróbicos, que exigem cada vez mais oxigênio, fazem com que os pulmões bombeiem mais ar (sempre com menos esforço), revigoram o coração, ampliam o calibre de veias e artérias e até multiplicam a quantidade dos vasos capilares. Em resumo, aumentam a capacidade de resistência, do indivíduo." Os melhores exercícios, segundo Kenneth Cooper: "Correr, nadar, andar de bicicleta, caminhar e correr no mesmo lugar, exatamente nesta ordem".

Mas como saber quantos metros correr ou nadar? Quantas vezes por semana serão suficientes? Que velocidade adotar? Para eliminar essa dificuldade, Cooper fez uma longa série de experiências na Força Aérea americana, até chegar ao seu famoso "teste dos doze minutos", freqüentemente confundido com todo o seu sistema de treinamento. O teste é simplíssimo: durante doze minutos a pessoa deve tentar percorrer a maior distância possível, correndo, andando "ou até mesmo se arrastando". Somente parar é proibido. De acordo com o seu desempenho, ela é incluída no que Cooper chamou de "categoria de aptidão".

- menos de 1.600 m, muito fraco;

- de 1.600 a 2.000 m, fraco,

- de 2.000 a 2.400 m, razoável;

- de 2.400 a 2.800 m, bom;

- mais de 2.800 m, excelente.

(Oitenta por cento das 60.000 pessoas catalogadas por Kenneth Cooper ficaram nas três categorias inferiores.)

TRINTA POR SEMANA - O passo seguinte é o método propriamente dito. E ele se divide em duas partes igualmente importantes. Na primeira, que pode levar três ou quatro meses e é conhecida no Brasil como "condicionamento", depois que o capitão Coutinho resolveu aplicar o sistema na seleção nacional de futebol, a pessoa é colocada em boas condições físicas. A segunda, que deve durar o resto da vida, existe para que essas condições sejam conservadas.

Para facilitar a seus discípulos, Cooper organizou cerca de cem tabelas, dando pontos a cada tipo diferente de exercício. Por exemplo: andar 1.600 metros em treze minutos vale dois pontos, correr 1.600 metros em menos de oito minutos vale cinco; pedalar 4.800 metros em dez minutos vale três; nadar 1.000 metros em vinte minutos vale nove. Um set de tênis, embora possa demorar até meia hora, vale apenas um ponto e meio, porque o esforço é descompassado. Uma partida de bola-ao-cesto, com quarenta minutos, vale seis pontos.

"O ideal é chegar aos trinta por semana, fazendo os exercícios progressivamente", recomenda Cooper. "Daí em diante, basta manter a forma." Mas por que trinta pontos? "Esse número corresponde à quantidade de oxigênio necessária para queimar 180 quilocalorias semanais, suficientes ao equilíbrio fisiológico do organismo."

BANHO DE MAR - Os números nunca mentem. Segundo o catecismo de Cooper, Euclides Triches, governador do Rio Grande do Sul, possui uma excelente condição física. Aos 53 anos, com 70 quilos e 1,73 de altura, Triches conseguiu percorrer 2.250 metros no teste de doze minutos. E se surpreendeu: "Afinal, eu não fazia exercícios com regularidade". Acontece que, durante seus tempos de deputado federal em Brasília, ele costumava passear diariamente pelas superquadras, vencendo uns 6 quilômetros em uma hora. Nas tabelas de Cooper, essa marca corresponde a oito pontos - quarenta por semana, muito acima do necessário para um bom estado físico.

Talvez estimulado pelo sucesso de seu colega do sul, César Cals, 45 anos, 90 quilos e 1,77, governador do Ceará, também se transformou num adepto inabalável da nova religião. Cinco vezes por semana o seu Galaxie negro deixa o Palácio da Abolição, em Fortaleza, 5h30 da manhã. Seis quilômetros depois, na praia do Futuro, vestindo longos e discretos calções, Cals pratica o seu Cooper freqüentemente encerrado com um magnífico banho de mar. Ele não costuma medir seu desempenho. Mas os recordes talvez nem estejam entre os objetivos dos seguidores da seita. Por exemplo, o ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, que invariavelmente se levanta de madrugada para caminhar em Copacabana "ever o sol nascer sobre a Guanabara". Aos 71 anos, ele está fazendo 1.600 metros em doze minutos. "É uma marquinha sofrível, mas eu não sou um campeão." Na verdade, a grande maioria dos "cooperistas" divide-se entre os preocupados com a linha e os preocupados com a saúde - e os que misturam as duas preocupações.

TEMPO DE SONO - Não se pode duvidar que o sucesso da preparação física do selecionado brasileiro, vencedor da Copa de 1970 apesar dos problemas da altitude mexicana e do "futebol-força" empregado por italianos, alemães e ingleses, foi o maior responsável pela entronização do método de Cooper no país. Porém, como lembra o capitão Coutinho, 33 anos, 78 quilos, 1,84, que há um ano pediu baixa do Exército para se dedicar exclusivamente aos esportes, "se o sistema não fosse excelente, de nada adiantaria a repercussão proporcionada por nossa vitória". De fato, Cooper conseguiu comprovar, cientificamente, todos os efeitos que a teoria de seu sistema previa. Em testes de laboratório demonstrou que a capacidade pulmonar de uma pessoa condicionada pelo método aumentava em até 100%. Que o volume de sangue em circulação pelo corpo subia 25%. Que veias e artérias aumentavam suas dimensões, em vez de se estreitarem, como acontece na arteriosclerose. Que o número de capilares se multiplicava cerca de três vezes. Que o aparelho digestivo se relaxava, eliminando os problemas de acidez estomacal. Que os músculos em geral se tornavam mais fortes e resistentes. Que o tempo de sono diminuía. "E mais ainda", enfatiza o capitão Coutinho, "apenas com o Cooper é possível que uma pessoa perca, no mínimo, 1 quilo de peso por mês."

NA CONTA CORRENTE - De qualquer forma, a religião de Kenneth Cooper ainda não incluiu, entre os seus milagres possíveis, o fim da obesidade. "O problema todo se resume numa conta de somar e diminuir", observa o dr. Nelson Senise, 47 anos, 70 quilos e 1,80, ex-campeão de natação, ex-dançarino profissional dos tempos boêmios do Rio de Janeiro, atualmente o dietista da moda na Guanabara. "Se a pessoa tem um gasto diário de 1.500 calorias mas ingere 1.800, as 300 em excesso têm de ser contabilizadas na conta corrente de seu organismo. Só que esse superavit é nocivo e significa obesidade. Significa que a pessoa come mal e demais." E a sobra, evidentemente, precisa ser queimada. Caso contrário, além da permanente ameaça de uma arteriosclerose, quando gotículas de gordura, diariamente, vão-se acumulando nos vasos que carregam o sangue pelo corpo, até entupi-los, existem os perigos da hipertensão e dos enfartes, das tromboses, dos diabetes, dos distúrbios da vesícula biliar - e até mesmo na morte.

Como evitar esses problemas? Já que a religião de Cooper apenas consegue, sozinha, a redução de 1 quilo de peso por mês, parece indispensável uma forma qualquer de ecumenismo atlético, do qual fariam parte também a ginástica e os regimes de emagrecimento.

HÁBITOS SADIOS - Na recepção, os aventais brancos das atendentes lembram o ambiente anti-séptico de um hospital. Por todos os cantos, a rigorosa preocupação com a limpeza copia a organização de um colégio de freiras. Ao mesmo tempo, no entanto, lustres de acrílico vermelho, quadros abstratos pintados em combinações violentas e o movimento de gente indo e vindo pelos amplos salões rescendendo a sabonete sugerem um clube nas manhãs de domingo. Na realidade, o Instituto de Fisioterapia Mizuki, fundado há quinze anos em São Paulo, não deixa de ser tudo isso ao mesmo tempo. Como diz Idalina Tosiko Mizuki, uma elegante senhora que dirige o instituto junto com o marido e três filhos, "através da fisioterapia recuperamos pessoas doentes ou com defeitos físicos. Damos condições e ensinamentos para que nossos clientes aprendam sadios hábitos de vida. E conseguimos ajudar muitas pessoas a emagrecer - por que não?"

A academia da senhora Mizuki é um bom exemplo para se demonstrar, ainda que indiretamente, a penetração da seita de Kenneth Cooper. Há dois anos, antes da Copa do México, praticamente só as madames mais gorduchas procuravam suas salas de banho e seus professores de ginástica. Todavia, depois da ascensão do método de Cooper, centenas de mulheres "que não se sentiriam bem fazendo um exercício público", como afirma Maria Augusta Nielsen, diretora da Socila, a tradicional escola de elegância do Rio - começaram a fazer fisioterapia. "Além das razões estéticas, elas compreenderam que a atividade física era fundamental para a sua própria sobrevivência", justifica Halina Szerman, diretora do Lady Ginastic Center da capital paulista.

MOLA DE AÇO - Em todo caso, nas pistas do Esporte Clube Pinheiros ou nas calçadas de Copacabana já há muitas mulheres correndo em busca da salvação aeróbica. E assim o iluminado Kenneth Cooper vai colecionando novos fiéis. Mais: ao mesmo tempo que suas igrejas as praias e as pistas de atletismo pululam de crentes, ao mesmo tempo que seus dois livros ("Aptidão Física em Qualquer Idade" e "Rejuvenesça com os Novos Exercícios Aeróbicos") esgotam-se nas livrarias e nas casas de artigos esportivos de todo o país, os fabricantes de aparelhos para ginástica exultam com as benesses que o mago do condicionamento físico despeja em suas colheitas.

De julho a dezembro de 1971, o Bel-Linha (fabricado por Fernando Alencar Pinto S.A. - literalmente, uma máquina eletrônica de massagens) quadruplicou sua produção. De 1970 para 1972, as Indústrias Caloi, responsáveis pela Caloicicle (uma bicicleta fixa), venderam o dobro de unidades. O Alfinetão (fabricado pela metalúrgica Rufambra, de São Paulo - uma mola de aço que promete resolver os problemas de coluna vertebral), lançado em março deste ano, teve até junho a sua procura aumentada em quase 300%. Mas os mártires já provaram que ninguém chega a santo impunemente. E, na esteira de seu sucesso, o método de Cooper acabou arrastando críticos inevitáveis.

EXPLICAÇÕES PARA TUDO - "Bomba! Bomba! Brooommm! Peeeenúltima noootícia! O método de Cooper pode causar a morte!" Se pudesse ter o prazer de assistir ao noticiário de Ibrahim Sued na última sexta-feira, o sumo sacerdote da religião aeróbica ficaria, com certeza, muito irritado. Não com Ibrahim que apenas reproduzira o pensamento do professor Alberto Benchimol, brasileiro, diretor do Instituto de Pesquisas Cardiológicas do Hospital Bom Samaritano, de Arizona, Estados Unidos. "O sistema pode significar o caminho certo para o enfarte", teria dito Senchimol. Especialmente no caso de pessoas mais idosas.

Kenneth Cooper, porém, aparentemente encontra explicações para tudo: "Eu sempre disse que um exame médico é imprescindível para qualquer pessoa que pretenda levar a sério o programa de condicionamento". Além disso, com o apoio da Força Aérea americana, que tornou o método obrigatório em seus programas de educação física, está montando em Dallas, Texas, a primeira clínica especializada em diagnóstico e prevenção de doenças cardíacas através de exercícios. "O perigo não está no sistema do dr. Cooper", completa Carlos Alberto Parreira, um dos preparadores físicos da seleção brasileira de futebol, "mas nos exageros que se cometem por aí. O dr. Cooper estudou todos os problemas possíveis durante longos anos de pesquisas de campo e de laboratório, com pessoas de todas as idades. Assim, se as suas recomendações forem seguidas à risca, como nós fazemos com os jogadores da seleção, não haverá qualquer problema." De fato, basta lembrar o caso do capitão Arthur Yarrington, que, aos trinta anos, foi proibido de voar nos jatos da Força Aérea dos Estados Unidos, por causa de um pequeno distúrbio cardíaco. "Ele tinha uma chance em mil", recorda Cooper. "Mas foi suficiente. Fizemos uma série exaustiva de exames. E então eu preparei um programa especial de exercícios para o capitão. Um ano depois ele estava correndo 50 quilômetros por semana. E resolveu pedir sua readmissão como piloto. Houve um teste severíssimo com seu coração. Os médicos que o examinaram surpreenderam-se ao ver que as coronárias de Yarrington tinham um calibre muito maior do que doze meses antes. E ele voltou a voar."

Problema de matriz - Para o dr. José Roiz, mineiro, especialista em bioquímica da nutrição, o problema maior estaria na dieta alimentar que os discípulos de ooper seriam obrigados a seguir: "Ela se baseia apenas em alimentos ricos em proteínas - e essa espécie de regime pode causar o envelhecimento precoce de seus seguidores, além de provocar sobrecarga no fígado e nos rins. O melhor exemplo do que estou dizendo é o atleta Brito, da seleção brasileira, que aparenta ter mais de quarenta anos, embora seja dez anos mais novo".

Na verdade, porém, a religião aeróbica, além de sugerir uma diminuição no consumo de fumo e álcool, não recomenda, especificamente, qualquer cardápio. Quanto à velhice prematura de Brito, 33 anos, 78 quilos, 1,82, segundo o próprio jogador "é uma questão de matriz: quando eu nasci já era feio assim".


 
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