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26
de junho de 1991
A jogada do chefão
Pablo Escobar, o maior narcotraficante do
mundo, constrói sua própria cadeia, estabelece
as condições da rendição e assina a trégua
Contrariando o espírito latino,
foi tudo muito lacônico. Reunida na manhã de quarta-feira
em Bogotá, a Assembléia Nacional Constituinte da Colômbia,
convocada para rearrumar a ordem institucional de um país
devorado até a alma pela violência e pelo poder dos
narcodólares dos barões da cocaína, deu a senha
com apenas seis palavras: "Fica proibida a extradição
de colombianos". Poucas horas depois de ter sua principal exigência
atendida, o beneficiário número 1 do novo artigo da
Constituição colombiana foi mais lacônico ainda.
"Gostei", resumiu Pablo Escobar Gaviria, o homem mais procurado
do mundo, ao final de uma rápida inspeção de
seus novos domínios. Ali, na prisão especial construída
no alto da serra que circunda a cidade de Medellín, o maior
traficante de cocaína de todos os tempos acabava de desembarcar
não como um bandido sanguinário que vai pagar por
seus crimes, mas como um suserano feudal que decide fazer um recuo
tático e assinar uma trégua. Não é de
estranhar que tenha apreciado as instalações. Da mesma
forma como ditou as regras do jogo à Constituinte, foi ele
quem escolheu o local, financiou a construção, estabeleceu
as normas de segurança e até selecionou os guardas
encarregados de zelar por sua proteção na prisão
de Envigado. As prerrogativas do detentor de uma fortuna avaliada
como uma das trinta maiores do mundo -- 3 bilhões de dólares,
segundo o cálculo da revista americana Forbes - foram
mantidas em todas as circunstâncias. Em nenhum momento se
permitiu mostrar imagens de Escobar, para protegê-Io de seus
muitos inimigos. Segundo descrições das poucas pessoas
que o viram, ele fez uma pequena cirurgia no nariz, mudou o penteado
e exibe uma barba, precocemente grisalha para seus 41 anos, no lugar
do antigo bigodão de churrascaria. Os cuidados com a segurança
se multiplicaram. Para facilitar o trajeto do helicóptero
que o apanhou num local secreto na zona rural de Envigado, as autoridades
colombianas fecharam o espaço aéreo da região
de Medellín.
"ESPOSA INIGUALÁVEL" - "O
helicóptero parou apenas dez segundos e eu o recebi com um
abraço", contou o padre Rafael Herreros, 84 anos, conhecido
nacionalmente pelo programa religioso que mantém na televisão
há três décadas e transformado em intermediário
nas negociações para a rendição do poderoso
chefão. Escobar estava acompanhado por dois lugar-tenentes
e, ao chegar na prisão, entregou graciosamente seu revólver.
Durante o rápido percurso, ele falou a um único jornalista
também previamente selecionado. Parecia mais um jogador
de futebol ao entrar em campo para disputar a final: "Com a
minha apresentação e a minha sujeição
à Justiça, desejo prestar uma homenagem a meus pais,
a minha inigualável esposa, a meu filho pacifista de 14 anos,
a minha pequena bailarina de 7 anos e a toda minha família,
a quem quero tanto". Assim que se confirmou a rendição
do capo da coca, a Colômbia foi tomada por um sentimento generalizado
de alívio. Atormentados por uma guerra que faz a violência
urbana brasileira parecer um piquenique de seminaristas, os colombianos
acabaram sofrendo de uma espécie de esquizofrenia. Para eles,
a droga é um problema dos Estados Unidos, onde são
despejadas cerca de 80% das 500 toneladas de cocaína que
os traficantes locais comercializam anualmente. Na Colômbia,
acredita-se, o problema é a violência brutal desfechada
pelos chefões quando se sentem acuados. Foi cedendo a esse
raciocínio compartimentalizado que o presidente Cesar Gaviria
-- eleito no ano passado depois do assassinato do candidato favorito,
o senador Luis Carlos Galán, um dos muitos crimes pregados
na conta sangrenta de Pablo Escobar -- voltou atrás na promessa
de "não ceder 1 milímetro" na luta contra os narcotraficantes
e manter o acordo que permitia o castigo mais temido pelos chefões
da droga: a extradição para os Estados Unidos. Não
durou muito a promessa. No começo de seu governo, Gaviria
chegou a extraditar quatro traficantes, todos peixes menores, mas
logo sentiu o peso da vendeta alucinada dos criminosos, através
da intensificação dos atentados terroristas numa escala
que lembrava o Líbano do auge da guerra civil. A extradição
atiça os ânimos nacionalistas dos colombianos e leva
a capacidade de intimidação dos traficantes a paroxismos
de violência, e não se encontram juízes ou políticos
(ainda vivos) para aprová-Ia ou aplicá-Ia. O jeito
foi negociar.
SEM ROSTO - Enquanto mantinha uma
persistente perseguição policial aos barões
da coca, o presidente acenou com um acordo: quem se entregasse voluntariamente
teria a garantia de que não passaria os anos que lhe sobrassem
numa cela americana e ainda se beneficiaria de redução
das penas. "A extradição não é o único
e nem sequer o principal instrumento para lutar contra os narcotraficantes,
mas, agora que permanece abolida por decisão da Assembléia
Nacional Constituinte, somos obrigados a fortalecer a Justiça
para evitar que a Colômbia se converta num santuário
de delinqüentes", afirmou Gaviria depois da rendição
de Pablo Escobar. Para reforçar a mensagem, o governo colombiano
mandou publicar na sexta-feira passada um anúncio de página
inteira no jornal The Washington Post com um balanço
vistoso de sua luta contra os narcotraficantes. Os chefões
mais conhecidos estão todos lá: Carlos Lehder (extraditado
em 1987 para os Estados Unidos, onde cumpre prisão perpétua),
Gonzalo Rodríguez Gacha (morto num tiroteio com a polícia
em 1989), os irmãos Jorge e Fabio Ochoa (que se entregaram
no ano passado) e o mais novo trunfo, Pablo Escobar. Nem a propaganda
oficial nem a moderada expectativa de que a violência diminua,
pelo menos por algum tempo, convenceram o jornal EI Espectador,
o único órgão de comunicação
de projeção nacional a endossar a mão estendida
aos reis da droga pelo governo e pela Assembléia Constituinte.
"A prova de que o terror se impôs e de que a Justiça
colombiana não infunde temor é a proibição
da extradição de um dos criminosos mais perseguidos
e poderosos do mundo", disse o jornal em editorial. Funcionários
e proprietários do EI Espectador sabem perfeitamente
qual é o preço a pagar por essa coragem. O jornal,
que era originalmente de Medellín, teve que transferir suas
instalações para Bogotá, mas nem por isso escapou
da sanha dos assassinos a soldo dos barões da droga. Em 1986,
foram assassinados o correspondente do jornal em Leticia, na fronteira
com o Brasil, e em seguida seu proprietário e editor, Guillermo
Cano. Em 1989, um carro-bomba na sede do EI Espectador deixou
oitenta feridos. Até o começo do ano. o jornal era
distribuído em Medellín sob escolta policial. Na semana
passada, nem mesmo os jornalistas colombianos sabiam quem, entre
seus colegas, estava fazendo as reportagens sobre a rendição
de Pablo Escobar. O fato de que um repórter, para trabaIhar,
tinha que se manter na clandestinidade, enquanto o poderoso chefão
se rendia cercado de todas as garantias de segurança é
um retrato eloqüente da inversão de valores que o poder
paralelo das drogas criou na Colômbia. Num país revirado
de cabeça para baixo, onde os traficantes criaram "uma organização
mais forte do que o estado", segundo a definição do
ex-presidente Belisario Betancur, os honestos se escondem e os bandidos
se exibem. Outro jornal colombiano, El Tiempo, funcionava
em Medellín até o ano passado num "aparelho" disfarçado
de escritório de contabilidade. Em outro local, a redação
"oficial" estava praticamente desativada, com um pequeno número
de funcionários de fachada, de forma a minimizar as vítimas
em caso de atentado. Para levar adiante os processos contra traficantes,
o governo criou os "juízes sem rosto", que jamais são
identificados, na tentativa de Ihes salvar a pele e a imparcialidade.
SOCIEDADE DROGADA - Para quem vive
fora da Colômbia, é fácil condenar jornalistas
que se calam, juízes que se intimidam ou presidentes que
voltam atrás com suas promessas. Para quem constata o poder
estarrecedor dos barões da cocaína, que compram ou
matam conforme suas necessidades, o surpreendente é que ainda
haja quem os combata, de que maneira for. "Um observador sagaz de
nossas realidades disse que toda a sociedade colombiana está
drogada", comentou o mais ilustre dos colombianos, o escritor prêmio
Nobel Gabriel Garcia Márquez. "Não por gosto pela
cocaína -- o que com certeza não é alarmante
na Colômbia --, mas por uma droga muito mais perversa: o dinheiro
fácil."
E que dinheiro. O mercado mundial da cocaína
movimenta por ano cerca de 150 bilhões de dólares
mais do que toda a dívida externa brasileira. De meros
traficantes de maconha, bandidos de segunda categoria, os delinqüentes
colombianos se transformaram, em pouco mais de quinze anos, em donos
de uma rede multinacional que compra uma matéria-prima barata
no Peru e na Bolívia e a coloca, já industrializada,
nas mãos dos distribuidores de qualquer mercado do planeta.
No caminho desse negócio altamente compensador, o lucro generoso
abre portas que todo o esforço coordenado pelo governo americano,
o mesmo que venceu o Exército de 1 milhão de homens
de Saddam Hussein, não consegue fechar. São pistas
clandestinas, contas secretas, policiais, militares e até
governos coniventes. O dinheiro da droga pode tudo. O general Manuel
Antonio Noriega, que mereceu a honra de uma invasão americana
para tirá-lo do poder, era um mero intermediário que
recebia comissão para facilitar esse negócio multibilionário.
Os americanos desembarcaram , cercaram-no,
prenderam-no e o levaram para ser julgado nos Estados Unidos. O
Panamá continua servindo, como sempre, de escala para o tráfico.
Mesmo que tivesse sido colocado fora de combate, outras alternativas
sempre estariam à mão. Países pequenos do Caribe
e da América Central são portos seguros diante da
capacidade de corrupção dos narcodólares. As
Bahamas de praias paradisíacas já foram carinhosamente
apelidadas pelos barões da coca de "o nosso porta-aviões".
O Brasil, com seu território imenso, serve de ponte para
cerca de 50% de toda a cocaína que é exportada para
a Europa e os Estados Unidos. Mais recentemente, a Argentina vem
despontando como escala do tráfico e centro de lavagem de
dinheiro da droga. Num processo aberto na Espanha, a cunhada e ex-chefe
do cerimonial do presidente argentino Carlos Menem, Amira Yoma,
é acusada de levar pessoalmente malas cheias de dólares
"sujos" em suas viagens aos Estados Unidos.
SEGURO-DESEMPREGO - No epicentro
dessa trilha de pó branco, bilhões de dólares
e muito sangue estão os barões colombianos -- tanto
os conhecidos, hoje quase todos fora de ação, quanto
os discretos, do Cartel de Cali. Na Colômbia, os chefões
de Cali são chamados de "os inteligentes", em contraposição
ao estilo brutal e exibicionista do Cartel de Medellín, encarnado
à perfeição por Pablo Escobar. Como um típico
novo-rico a quem a fortuna rápida sobe à cabeça,
ele começou a ter delírios de grandeza e até
aspirações políticas, distribuindo benesses
à população de Medellín e, principalmente,
Envigado. A cidadezinha onde Escobar foi criado e despontou para
o mundo do crime é um retrato da força da grana fácil:
no único município de toda a Colômbia com seguro-desemprego,
a prefeitura dispõe atualmente de uma sobra de caixa da ordem
de 50 milhões de pesos 80.000 dólares --, com
os quais pretende incentivar a abertura de microempresas. A própria
sede da prefeitura, um prédio de tijolos aparentes, concreto,
vidro fumê e decoração suntuosa. poderia perfeitamente
figurar em alguma próspera cidade americana.
Enquanto construía com uma mão,
com a outra Escobar matava. Na avaliação de seus concorrentes
de Cali, foi ele quem convulsionou as regras do jogo ao mandar matar
o ministro da Justiça Rodrigo Lara Bonilla. metralhado no
centro de Bogotá, em abril de 1984. O assassinato do ministro,
que vinha demonstrando excesso de zelo no exercício da profissão,
sacudiu a opinião pública colombiana e desfechou uma
perseguição inédita aos barões da droga.
Desde então, o ciclo só fez se repetir: a cada novo
assassinato de impacto, o governo ressuscitava o acordo de extradição
com os Estados Unidos e apertava o cerco em torno dos traficantes.
Esses, reunidos coletivamente sob um nome de conjunto de rock --
Os Extraditáveis --, reagiam com mais violência ainda.
O auge da ofensiva ocorreu entre setembro de 1989 e junho do ano
passado. quando os narcotraficantes instalaram trinta carros-bomba,
explodiram um Boeing da Avianca com I 07 pessoas a bordo e detonaram
meia tonelada de dinamite contra a sede da polícia secreta
colombiana, matando setenta pessoas.
VIDA CURTA - Foi na tentativa de
romper esse ciclo que as autoridades colombianas ofereceram o "acórdão"
aos traficantes dispostos a se render. "A entrega de Pablo Escobar
é a saída mais realista para o problema". resigna-se
o cientista político Eduardo Pizarro, da Universidade Nacional
de Bogotá. "As novas fórmulas são positivas
para ambas as partes do conflito e para o país em geral."
É essa a esperança dos colombianos - que a guerra
termine ou, ao menos, se tenha uma trégua. Quanto ao tráfico,
ninguém se ilude. Só este ano. com os irmãos
do clã Ochoa já atrás das grades e Escobar
supostamente baratinado com a perseguição policial,
estima-se que tenha entrado 1 bilhão de dólares pela
ventanilla sinistra -- o guichê da esquerda através
do qual o Banco Central colombiano legaliza o ingresso dos dólares
"anônimos", cuja origem não precisa ser declarada.
Se o mesmo ritmo se mantiver, a conta baterá no fim do ano
em 2,5 bilhões de dólares, mais do que a receita de
qualquer exportação legal do país, como o café
ou o petróleo. Ainda que Escobar e seus sequazes fiquem efetivamente
fora de ação, caso não prossigam os negócios
de dentro da prisão construída sob medida. os "discretos"
de Cali continuam no mercado e sempre haverá novos candidatos
a preencher os espaços. vazios. "Enquanto existir demanda,
existirá o tráfico". costuma dizer Pablo Escobar,
agora recolhido ao seu retiro na montanha, de onde o padre Herreros,
eternamente esperançoso, acredita-se ele saia em dois ou
três -- "tempo suficiente para que um homem refaça
seus pensamentos, já que tem uma vida tão curta".
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