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26 de maio de 1982
Os ingleses chegaram
A bandeira britânica volta a tremular
nas Malvinas ocupadas pela
Argentina - e a Inglaterra quer ir até o
fim na luta para recuperar as ilhas
"Esta noite, sete semanas após a agressão argentina,
forças
britânicas voltaram a se instalar firmemente nas ilhas Falkland."
John Nott, ministro da Defesa da Inglaterra, 21 de maio de 1982
Era o começo do fim da arriscada aventura militar lançada pela Argentina no último dia 2 de abril no Atlântico Sul. Era, também, o clímax da lenta agonia que há quase dois meses arrasta as duas nações para uma guerra de carne e osso, e dinamite, de passagem suas relações com meia dúzia de aliados ocidentais. "Nossas propostas de negociação não estão mais na mesa", avisara na véspera a primeira-ministra Margaret Thatcher, transferindo para o comandante da força-tarefa de setenta navios, contra-almirante John "Sandy" Woodward, a condução final da reconquista britânica das Malvinas. Desde a alvorada da última sexta-feira, tropas inglesas começaram a invadir as ilhas - e derrotadas as sucessivas levas de negociadores que tentaram se entrepor em seu caminho, Inglaterra e Argentina passaram a se enfrentar com força total no Atlântico Sul.
"Que ninguém se iluda", havia ameaçado o presidente argentino, general Leopoldo Galtieri, no início da semana em Buenos Aires. "Tenho 400 mortos e, se necessário, teremos 4.000 ou 40.000, seis meses ou seis anos de guerra. Não vamos levantar a bandeira branca." A liberalidade de Galtieri, seguro no palácio presidencial, ao discorrer sobre possíveis baixas entre os argentinos, em nada impressionou a Inglaterra, que simplesmente seguiu com seus planos. Menos de quatro horas após o assalto inicial, uma Union Jack, a bandeira do Reino Unido, foi fincada numa praia do Estreito de São Carlos, que separa as duas Malvinas, transformando aquela cabeça-de-ponte da reconquista das ilhas pelos ingleses numa ferida mortal para a Argentina. Após 50 dias, o pavilhão britânico voltava a flutuar no arquipélago - e o desembarque, que os argentinos não puderam deter, arrematava o quadro de avanço metódico e inexorável seguido pelos ingleses desde o início da crise.
Falando na manhã de sexta-feira passada aos jornalistas, em Buenos Aires, o chanceler argentino Nicanor Costa Méndez concluiu sua entrevista com um sorriso e uma frase confiante: "Apesar de tudo, eu acredito em milagres", disse, parafraseando a última página do diário de Anne Frank. Eram 10 horas da manhã. Exatamente nessa mesma hora, de Porto São Carlos, um povoado de dez ou doze casas brancas, debruçado sobre dois fiordes que se abrem para o estreito das Malvinas, e situado a 88 km de Port Stanley, a capital do arquipélago, saía uma mensagem para o Estado-Maior da Royal Navy, reunido em seu novo QG montado, desde a véspera, na Ilha da Ascensão: "A Union Jack foi novamente estabelecida nas FalkIand. Os combates continuam. Deus salve a rainha".
'OPERAÇÃO BABEL' - Para o comandante dos fuzileiros navais da Inglaterra, sir Stuart Pringle - impedido de participar da operação por ter perdido uma perna durante um atentado de terroristas irlandeses em Londres, em dezembro passado -, não se podia falar em milagre. "Eu estava certo de que os rapazes fariam um bom trabalho: todo seu treinamento foi realizado nas costas da Escócia, entre os fiordes da Noruega, e em outras localidades do Mar do Norte", disse sir Stuart. "Foi uma bela operação, que 'Sandy' Woodward realizou com inteligência e grande serenidade." Para levar a cabo a "Operação Babel", como foi batizada em Londres, Woodward não pôde contar com o fator surpresa. Por razões que só a diplomacia conhece - a necessidade da Inglaterra de exaurir oficialmente todas as tentativas de solução negociada - a invasão inglesa das Malvinas seguiu um roteiro de contagem regressiva tão previsível quanto o lançamento de uma nave espacial. Sabia que o tempo se esgotara o general Mario Benjamin Menéndez, governador e comandante das tropas argentinas nas Malvinas. E um de seus oficiais, do serviço de informações, chegou a confidenciar a um jornalista que "em vez de se concentrar num só lugar, eles vão desembarcar em cinco pontos".
A arma usada com superioridade pelo comando inglês, à falta do elemento surpresa, foi confundir as tropas que defendem as ilhas. Woodward e seus homens, de fato, simplesmente desnortearam os argentinos. Em Buenos Aires, um alto oficial da Marinha, que pediu para não ser identificado, expressou "assombro" pela forma como os ingleses conduziram seus ataques. Tecnicamente, eles teriam contrariado todas as boas regras militares ao entrarem no Estreito de São Carlos e se exporem diretamente ao bombardeio da artilharia argentina postada em suas margens. "Parece que os britânicos pularam dez páginas do manual", espantou-se o militar, classificando a operação de arriscada demais. Arriscada ou não - segundo apurou a agência France Presse, o govemo de Londres aceitou correr o risco de sofrer até 200 baixas na ofensiva inicial de desembarque -, a operação colocou os ingleses dentro das ilhas e deu-lhes uma cabeça-de-ponte capaz de receber reforços.
COMO TÁXIS - Na verdade, a Operação Babel começara uma semana antes, com o ataque-relâmpago à ilhota de Pebble - onde os marines britânicos quebraram as poucas instalações que encontraram e não sofreram baixa. "Vai ser a guerra dos trinta anos", disseram os militares argentinos, certos de que esta era a primeira de uma longa série de pequenas estocadas, e de que nunca haveria um "Dia D", com um desembarque em grande estilo. Tudo deixava prever que seria assim: na terça-feira, uma lancha de marines aportou em outra ilha, mandou pelos ares um depósito de combustível e se retirou silenciosamente. No dia seguinte, foi a vez de uma tentativa de desembarque em Porto Howard, na Grande Malvina.
Ao mesmo tempo, uma série interminável de bombardeios fugazes obrigava os argentinos a gastarem sua preciosa munição, sem esperanças de substanciais reposições devido ao severo bloqueio aeronaval imposto às Malvinas pela frota britânica desde o dia 30 de abril. Os aviões que conseguiam chegar às ilhas eram pequenos demais para garantir um maciço fluxo de reabastecimento de armas e suprimentos em geral - o que tem entrado é menos do que tem sido gasto na tentativa de afastar os bombardeiros britânicos. Segundo fontes dos serviços de informação dos Estados Unidos, a seguir esse ritmo e a continuar o bloqueio total, os argentinos teriam seu poderio de fogo estrangulado em menos de dez dias.
Por tudo isso, o cenário montado por "Sandy" Woodward para a madrugada de sexta-feira foi desconcertante - ao invés das pequenas incursões previstas, ele expôs sua força ao fogo de terra e lançou-se a um desembarque de proporções consideráveis. Enquanto destróieres e fragatas inglesas despejavam seus canhões de 115 milímetros contra Port Stanley - onde está concentrado o grosso das tropas argentinas e fincada a sua bandeira azul e branca - e aviões Sea Harrier bombardeavam Fox Bay, a maior guarnição militar argentina na Grande Malvina, mais de 2.000 fuzileiros navais e pára-quedistas abriram caminho, simultaneamente, em dois pontos da Ilha Soledad: em Porto Darwin e no Estreito de São Carlos. Foi lá que se desenrolaram as cenas mais dramáticas. Dezoito navios de guerra britânicos, entre os quais o porta-aviões e nau capitânia Hermes, fecharam a via marítima que separa as duas ilhas e oito deles entraram no canal, silenciosamente, enquanto lanchas de alta velocidade e helicópteros desembarcavam os primeiros 300 homens da invasão.
"O silêncio era quase absoluto, podia-se ouvir a água bater nos cascos dos navios", relatou um dos jornalistas ingleses que acompanharam ao vivo a operação. "Na ponte ao lado da pista dos helicópteros, a tropa aguardava, sentada no chão e tomando chá em silêncio, a hora de embarcar." Um colega seu, que transmitia de outro navio, descreveu uma cena paralela. A primeira barcaça de desembarque, relatou ele de seu ponto de observação, chegou às praias pouco depois das 6h30 da manhã, e, com os rostos pesadamente camuflados de preto, carregando enormes fardos com morteiros, metralhadoras, foguetes antitanque - tudo amarrado às costas -, os soldados desciam pela rede de cordas pendurada do lado da nave-mãe e se instalavam nas barcaças. Esses lanchões se enfileiravam ao lado das naves-mães "como se fossem táxis", indo e voltando ininterruptamente durante quatro horas.
PRIMEIRO ENCONTRO - Dos navios de guerra infiltrados no Estreito de São Carlos, ao mesmo tempo, zarpavam embarcações anfíbias lotadas de tanques, para enfrentar os blindados argentinos ali desembarcados no início de abril, quando a força-tarefa britânica ainda estava longe. Outras lanchas trouxeram tratores, que em menos de dez horas ajudaram a montar uma pista de aterrissagem metálica para acolher dentro das ilhas os seus caças-bombardeiros Harrier. Por fim, os ingleses desembarcaram um carregamento variado de foguetes "Rapier", sistemas de mísseis, barris de combustível, caixas de munições e água potável. Fizeram tudo isso cobertos pela escuridão de uma noite sem lua, quebrada apenas pelo clarão do primeiro choque entre um grupo de soldados ingleses desembarcados e a guarinição argentina de Porto São Carlos. De resto, o desembarque durou quatro horas cheias de tensão mas sem qualquer problema. A escuridão cedeu lugar a uma madrugada brilhante, de céu claro e sem nuvens. Tão claro que dos navios que começavam a sair do estreito era possível ver a tropa inglesa avançando pelos campos verdes das Malvinas, misturando-se às vezes com um rebanho de carneiros. Foi possível, até mesmo, ver o encontro de um grupo de soldados com kelpers, os habitantes britânicos das ilhas.
Essa mesma luminosidade também ajudou as sucessivas levas de aviões argentinos, que só então despontaram nos céus da Baía de São Carlos, a iniciar seu contra-ataque, alvejando os navios ingleses postados no canal entre as duas ilhas principais. Dos sofisticados Mirage III-E aos tradicionais Skyhawk, de fabricação americana, passando por aviões de treinamento convertidos para carregar bombas, todos miravam os oito pontos enfileirados no canal. Os navios, porém, não estavam indefesos - baterias de mísseis foram instaladas pelos ingleses nas encostas mais altas das ilhas, durante a primeiríssima fase do desembarque, e pegaram os pilotos argentinos totalmente desprevenidos. Não fosse isso, ao invés de cinco navios britânicos atingidos, todas as oito embarcações que até a manhã de sábado ainda se encontravam no Estreito de São Carlos quase certamente teriam sido afundadas.
As contas preliminares das primeira doze horas de combates, de qualquer forma, foram pesadas. Quando um de seus helicópteros caiu no mar antes do desembarque, a Inglaterra perdeu de uma vez só 21 homens - um a mais do que no afundamento do destróier Sheffield, três semanas atrás. Em contrapartida, os argentinos teriam perdido, só neste primeiro dia da invasão, mais de 10% de toda a sua força aérea - mais precisamente, nove Mirage, cinco Skyhawk e três pequenos Pucará, além de quatro helicópteros. Falava-se, além disso, de intensos combates em terra na manhã do sábado - e pelo menos 100 prisioneiros argentinos já haviam sido embarcados em um dos navios aquartelados na Baía de São Carlos, junto com 31 kelpers encontrados pelos comandos de desembarque na localidade de mesmo nome.
MORANGOS E CREME - Até a manhã de sábado, não havia notícias de uma contra-ofensiva eficaz por parte dos argentinos - os ingleses não haviam perdido posições, as cabeças-de-ponte pareciam firmes e a perspectiva era de combates mais generalizados ilha adentro. Não pareciam exageradas, assim, as homenagens feitas aos fuzileiros navais chefiados pelo general Jeremy Moore, o comandante-em-chefe das tropas de assalto anfíbio às ilhas. "Estes são dias de ansiedade", declarou a primeira-ministra Thatcher. "Mas temos as forças de combate mais maravilhosas do mundo. Estamos todos solidários com eles." Numa fazenda da região de Kent, a família Hewitts ofereceu aos marines que estão reconquistando as Malvinas uma tonelada de morangos, um dos mais populares símbolos ingleses da chegada da primavera, e 300 quilos de creme. O Ministério da Defesa aceitou o oferecimento. Ainda no sábado, um avião decolou de Londres com o insólito carregamento, acondicionado em caixas térmicas, e uma instrução: fazer a entrega, no próximo fim de semana, em Porto São Carlos.
Para Moore, de 53 anos, a Operação Babel foi um precioso e inesperado presente de fim de carreira, uma vez que deverá se aposentar dentro de dez meses. Homem de muita fé - até mesmo para as Malvinas ele trouxe sua inseparável Bíblia no bolso do uniforme -, é também de poucas palavras. A um jornalista que lhe perguntou como estava a situação, retorquiu: "Isso não é de sua conta". Logo que o grosso de seus homens estiver solidamente entrincheirado nos 12.000 quilômetros quadrados das ilhas em disputa, Moore deverá sair de cena novamente, para que as tropas regulares a bordo dos transatlânticos Canberra e Queen Elizabeth 2, que navegam nas proximidades, completem o trabalho de ocupação. Pelo menos essa parece ser, agora, a estratégia de "Sandy" Woodward: avançar o mais rapidamente possível para a conquista das posições-chave em terra, até a rendição final dos argentinos.
"Não há o que negociar até que eles saiam de lá", dizia na sexta-feira um assessor de Margaret Thatcher. "Não consigo imaginar um cessar-fogo até que os argentinos digam 'chega'." Do leque de opções militares à disposição do comandante Woodward para conseguir a rendição, apenas uma foi formalmente vetada pelo governo britânico: ataques contra o território continental da Argentina. De resto, a força-tarefa poderá requisitar todos os recursos que achar necessário, e é significativo que ainda na semana passada zarpassem de portos ingleses mais navios de apoio para a frota no Atlântico Sul.
AOS ATOS - Para o governo dos Estados Unidos, que três semanas atrás decidiu optar publicamente por um alinhamento com seu tradicional aliado europeu, deixando a Argentina a ver navios, também é chegado o incômodo momento de passar das palavras aos atos. Além dos três navios petroleiros enviados à Ilha da Ascensão, no meio do Oceano Atlântico, para ajudar o abastecimento da frota, um número não revelado de aviões de reabastecimento em vôo, do tipo KC-135, do Exército americano (versões militares do Boeing 707), já foi colocado à disposição da OTAN na Europa para substituir os aviões-tanque Victor britânicos enviados ao Atlântico Sul. No início da crise, o Pentágono já havia fornecido ao comando militar inglês uma cópia altamente sigilosa de um manual contendo as especificações técnicas, forças e fraquezas do avião-caça Skyhawk, de fabricação americana, que faz parte da Força Aérea da Argentina. Na semana passada, porém, o governo inglês queria mais e, segundo o New York Times, os Estados Unidos estabeleceram uma lista de material bélico que inclui foguetes antiaéreos, tanques sobressalentes para os caças Harrier, geradores elétricos e equipamentos de calefação que as tropas precisariam para enfrentar o rigoroso inverno austral.
Para evitar suspeitas em caso de dramáticas perdas da Inglaterra, o porta-voz do Departamento de Estado, Dean Fischer, apressou-se a esclarecer que os Estados Unidos não enviarão soldados para as Malvinas em hipótese alguma. Fora isso, entretanto, a ajuda é ampla e aberta. Nessas circunstâncias, não é de admirar que milhões de argentinos tenham passado a considerar os americanos como inimigos até mais traiçoeiros do que os ingleses. Na semana passada, a declaração de mais peso partiu do almirante Jorge Isaac Anaya, comandante-em-chefe da Marinha, membro da Junta Militar que governa o pais e pai de um piloto que combate nas Malvinas. "Hoje, mais do que nunca", disse o almirante, "sentimos a necessidade de revitalizar as organizações intemacionais, de modo que elas não sejam a fachada em que se amparam as tendências feudalistas dos poderosos".
O ex-presidente Roberto Marcelo Levingston, por sua vez, aumentou o tom das críticas durante uma conferência para profissionais liberais. "A doutrina Monroe não é nada mais do que uma ferramenta para fins hegemônicos dos EUA", acusou. Mais estupefaçâo criou ainda a declaração de outro general do Exército, Jorge Leal, respeitadíssimo no país por ter sido o primeiro a pisar na Antártida, em 1965. Dizendo que a Argentina não deve ter preconceitos nem pudores suicidas, o general Leal, hoje na reserva, acrescentou: "Qualquer fatura que os soviéticos nos passem em troca de apoio será mais misericordiosa do que a fatura da derrota. O primeiro mundo, chamado cristão e ocidental, nos deu olimpicamente as costas. Precisamos sondar seriamente o apoio da URSS".
BONS MOMENTOS - A campanha antiamericana já chegou às ruas, e na Calle Estados Unidos a placa foi substituída por Calle Povo Argentino. O ponto de atrito mais grave, porém, surgiu por meio de rumores de que o embaixador americano em Buenos Aires, Harry Schlaudemann, um veterano especialista em América Latina com passagens por Santiago, Caracas e Lima, estaria mantendo reuniões com políticos de oposição, dirigentes sindicais e militares das três forças de tendência contrária à atual cúpula militar. Sabe-se que o governo Galtieri esteve à beira de divulgar uma nota diplomática de protesto contra as movimentações de Schlaudemann, que estaria convocando interlocutores para um suposto "processo de desestabilização" - mas, à última hora, o regime preferiu enviar um emissário a seu gabinete manifestando desaprovação.
Segundo apurou VEJA, esses contatos realmente existiram. Dirigentes sindicais, políticos do Partido Radical e peronistas, além de dissidentes militares das três armas, estiveram no fortificado casarão onde funciona a embaixada americana no bairro de Palermo, e durante esses encontros Schlaudemann teria acenado com um rápido processo de democratização no país, com eleições e tudo, caso houvesse um apoio à retirada das tropas argentinas das Malvinas. Ocorre, porém, que um dos convidados - Angel Bardi, almirante e presidente da Bolsa de Comércio de Buenos Aires - saiu direto da embaixada para a Casa Rosada e apresentou a proposta como um ardiloso "plano de sedição" urdido por Schlaudemann e seu conselheiro político, que já abandonou a Argentina.
Parecem simplesmente pré-históricas, hoje, as lembranças dos bons momentos que o general Galtieri passou nos Estados Unidos, em agosto último, quando ainda era apenas comandante-em-chefe do Exército argentino, mas já um promissor candidato a ocupante da Casa Rosada. Às custas do contribuinte americano, Galtieri, sua mulher e três ajudantes excursionaram pela Disneylândia, visitaram um estúdio cinematográfico em Hollywood, assistiram ao irresistível musical da Broadway 42th Street e se hospedaram no Waldorf Astoria, em Nova York, e no complexo Watergate, em Washington, além de assistirem a uma sofisticada mostra de armas em Fort Lewis e em Fort Campbell. Hoje, é a Bolívia que oferece a ajuda de "toda a sua Marinha" para o combate ao "agressor colonialista". Segundo dados do Instituto de Estudos Estratégicos de Londres, edição 1981-1982, a Bolívia tem um navio transporte e quarenta lanchas fluviais.
PROBLEMAS - Tudo isso, e mais, é resultado de uma guerra que o cineasta argentino Hector Babenco, autor do aclamado Pixote, classifica de "tão irreal e absurda que mais parece um erro de ortografia. E como escrever telefone com ph". Na semana passada, o general Leopoldo Galtieri também recebeu o inesperado apoio de Isabelita Perón, que passou mais de cinco anos confinada em prisão domiciliar e só recentemente foi autorizada a deixar o país. De Madrid, onde está exilada, a ex-presidenta enviou telegrama à mesma Casa Rosada que ocupou durante dezenove meses, afirmando que iria lutar pessoalmente contra os "imperialistas ingleses" se isso fosse possível ou necessário.
A essa altura, o general Galtieri já tinha problemas suficientes com seus soldados nas Malvinas. Segundo um adido militar latino-americano chamado pelos generais do Estado-Maior do Exército para uma consulta sobre possíveis envios de cartuchos para canhões, "os argentinos não estão equipados sequer para fornecer ração militar de guerra" a seus homens. No próprio dia do desembarque britânico, o cardápio dos soldados argentinos no front incluía guisado de carne com arroz e fruta fresca de sobremesa. A comida é elaborada na própria ilha, em restaurantes sobre rodas que também servem água potável. Mas quando há um "alerta vermelho", significando iminência de ataque, não se serve nada.
Por enquanto, cada soldado argentino nas Malvinas ainda tem direito, diariamente, a cinco cigarros, cinco barras de chocolate, bolachas e uma latinha de patê. Como complemento, recebem papel higiênico, fósforos e pastilhas de álcool para acender o fogo e tentar combater o frio. Para os soldados que ficam de guarda à noite, eram distribuídas miniaturas de garrafas de uísque, resultado de doações feitas por empresas e particulares. Mas, com a intensificação da guerra, tudo isso pode mudar. A tensão desses últimos dias tem sido tão ininterrupta sobre os ombros do general Galtieri que seus nervos começam a fraquejar. Conforme ele mesmo contidenciou, está com dificuldades para dormir, e durante a missa solene em comemoração ao Dia da Marinha, no início da semana, chorou em silêncio, abraçado ao cardeal Juan Carlos Aramburu.
Aos argentinos, no final da semana, restavam bem poucas opções - sem demonstrar concretamente como poderiam expulsar os ingleses de volta a seus navios, os generais de Buenos Aires viam a aventura iniciada em abril com grande fulgor retórico transformar-se numa amarga e desesperada luta contra o fantasma da capitulação militar. Era um cenário que a Casa Rosada considerava impossível ao ocupar as Malvinas, segura de que os 13.000 quilômetros de distância entre as ilhas e a Inglaterra seriam uma barreira intransponível para os britânicos. Não eram. Sem conseguir nenhum ganho estratégico desde o início da crise, a Argentina foi perdendo uma a uma as linhas de defesa que julgava ter. Os ingleses, contrariamente, foram vencendo cada obstáculo do percurso, até chegarem onde tinham decidido chegar - à terra firme das Malvinas.
Cabe agora ao presidente Leopoldo Galtieri e seu Estado-Maior a tarefa de tirá-los de lá e remetê-los, junto com a força-tarefa, de volta à Inglaterra. Além de sua promessa de consumir 40.000 vidas e seis anos, na luta que imagina ter pela frente, não se sabe de nenhuma idéia prática para levar a cabo tal incumbência. Com a batalha pela retomada das ilhas em pleno curso, e escassas possibilidades de outra solução que não seja a militar, a volta à normalidade é uma perspectiva longínqua no sul do Atlântico. Atacado, o velho império contra-atacou e parece disposto a levar sua resposta até o fim. |
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