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26 de abril de 1989
A luta em público
contra a Aids

Abatido aos poucos pela doença,
o compositor Cazuza conta como resiste
em nome da vida e da carreira

O mundo de Cazuza está se acabando com estrondo e sem lamúrias. Primeiro ídolo popular a admitir que está com Aids, a letal síndrome da imunodeficiência adquirida, o roqueiro carioca nascido há 31 anos com o nome de Agenor de Miranda Araújo Neto definha um pouco a cada dia rumo ao fim inexorável. Mas o cantor dos versos

Senhoras e senhores
Trago boas novas
Eu vi a cara da morte
E ela estava viva

faz questão de morrer em público, sem esconder o que está se lhe passando. Cazuza conta como convive com a doença. Fala sem firulas de sua bissexualidade, de como se drogou pesadamente e confessa que está tendo dificuldade em se livrar do alcoolismo. Mais que isso, o artista trabalha continuamente e se expõe a todos os olhares. No momento, ele grava um disco, está fazendo um livro autobiográfico, compõe músicas e planeja um show. Os olhares que Cazuza atrai são muitos e variados. Há os que contemplem o seu calvário com admiração pela coragem e garra do cantor. Há os que busquem o sensacionalismo e o escândalo. Há os que o apontem como herói e mártir da Aids. Há os que se sintam fascinados em beijá-lo na boca em público. Há os que o vejam com piedade. E há os que se sintam morbidamente atraídos pela tragédia de Cazuza.

"É a minha criatividade que me mantém vivo", diz o roqueiro. "Meu médico diz que eu sou um milagre porque eu tenho tanta energia, tanta vontade de criar, e que é isso que me deixa vivo. Minha cabeça está muito boa, ela comanda tudo." A cabeça do ex-integrante do Barão Vermelho continua funcionando exatamente como antes - inclusive quando alterna subitamente raciocínios sensatos com delírios poéticos, gestos de extremo afeto com agressões gratuitas, acusações levianas com elogios generosos. O que está muito diferente é o corpo do astro. De 68 quilos, ele passou para 40. Seu bronzeado já não esconde as manchas que lhe marcam o rosto. Se ainda há dois meses ele freqüentava a pista de dança do People, a boate que é um dos templos da noite carioca, ele agora não consegue andar sozinho, tem dificuldade em colocar uma fita no gravador, se cansa quando fala seguidamente e precisa de auxílio para realizar necessidades fisiológicas. Bené, um misto de secretário, guarda-costas e motorista, é quem o carrega nos braços pelo seu apartamento, quem o leva até o carro quando Cazuza quer tomar um banho de cachoeira na Floresta da Tijuca ou vai gravar nos estúdios da Polygram no Rio de Janeiro.

'ESCOMBROS' - Na tarde de quarta-feira passada, Cazuza recebeu Angela Abreu e Alessandro Porro, da sucursal carioca de VEJA, em seu apartamento no Leblon, para uma entrevista que durou duas horas e meia e fumou um maço inteiro de Lucky Strike. Sem fugir de qualquer assunto, falou sobre tudo e todos em depoimentos pungentes. Em seu quarto, o ambiente lembra a assepsia de um hospital bem equipado, com tenda de oxigênio, máscara para facilitar a respiração, cadeira de rodas com forro especial no assento para evitar as escaras provocadas pela longa sedentariedade e uma mesa repleta de frascos de remédios. Das 6 horas da tarde às 8 da manhã uma enfermeira cuida do doente, que dorme seis horas por noite a poder de calmantes e às vezes acorda com dificuldades de respiração. Durante o dia, Fernanda Pessoa, 24 anos, sua secretária, é quem cuida de tudo, assistida por uma cozinheira e por Bené, que praticamente não desgruda de Cazuza durante um minuto.

O cantor está morando num apartamento no 18º andar, de onde se avista toda a Praia do Leblon, desde o início do mês. Há quatro anos, deixou a casa dos pais, Lucinha e João Araújo, diretor da gravadora Som Livre. Desde que soube que estava com Aids, Cazuza teve crises de desespero e quase quebrou toda a mobília por duas vezes: atirou garrafas na janela, chutou cristaleiras e jogou vasos no chão. "Assisti a uma dessas crises, uma cena terrível", lembra uma amiga do cantor. "Ele não estava tão magro como agora, mas nunca foi um gigante, e assumiu a postura de um Rambo enlouquecido, destruindo tudo que via pela frente. A quebradeira durou poucos minutos e depois veio o choro, dele e dos pais abraçados, num monumento vivo de desgraça entre os escombros da casa destruída." Lucinha Araújo, cantora bissexta, é quem cuida das finanças e propriedades do filho, que é dono de um apartamento, um Jeep e uma perua Belina, cobra 6.200 cruzados novos por show e vive de direitos autorais. "Não sei quanto tenho, mas sei que sou perdulário, que gasto tudo que posso e minha mãe toma conta de meu dinheiro", diz Cazuza.

Lucinha, sofrida e corajosa, jamais usa a palavra Aids, preferindo "aquela doença". Presença assídua mas discreta no apartamento do filho, ela lamenta não poder impedir que Cazuza "faça coisas que não lhe dão benefícios". Nervosa e emocionada, ela se culpa pelo estado do filho. "Casei com o meu primeiro namorado, tive o Cazuza e fiquei ali, tratando dele, da coisa mais importante da minha vida, sem prestar atenção nas bobagens que ele fazia", lembra Lucinha. "Eu não tinha experiência, não sabia de nada, achava que estava fazendo o melhor." A mãe comenta ainda que Cazuza começou a lhe dar trabalho aos 15 anos, e "não parou mais" desde então.

OITO DETENÇÕES - O cantor é o primeiro a reconhecer que foi um menino-problema, um adolescente-problema, um jovem-problema, um homem-problema e é hoje um doente-problema. "Aos 12 anos fumei o meu primeiro baseado, olhei as estrelas e pensei que a maconha era o máximo", conta Cazuza. "Fui expulso do Colégio Santo Ignácio porque fumava maconha no corredor, me matriculei no Colégio Anglo-Americano e encontrei minha verdadeira turma: todo mundo fumava e cheirava na minha classe." Pego com maconha no bolso, Cazuza foi detido oito vezes. "Geralmente eu ia para a 14ª Delegacia, em Copacabana, e meu pai ia lá me soltar, mas isso foi na época do governador Chagas Freitas, quando a polícia fazia uma repressão brava em cima dos drogadinhos da Zona Sul."

O cantor fumava maconha, cheirava cocaína e usava heroína, embora o seu vício mais sério sempre tenha sido o álcool, principalmente o uísque. Some-se a essas drogas todas uma vida sexual extremamente intensa, com parceiros e parceiras, e se tem um quadro da vida de Cazuza, dos caminhos que ele percorreu. A história das artes está repleta de drogados (do poeta inglês William Blake ao rolling stone Keith Richards), de alcoólatras (de Ernest Hemingway a William Faulkner) e de promíscuos sexuais (de Marcel Proust a Jean Genet). O problema, nos anos 80 do século XX, é que a combinação desses fatores facilita a contaminação com o vírus da Aids. E, além disso, principalmente no mundo do rock dos dias de hoje, a vida do artista se confunde quase totalmente com a sua obra - e ambas estão submetidas ao escrutínio ou à bisbilhotice. Vida pessoal, canções, intimidades, cachês, discos, namoros e shows de astros do rock tendem a virar um único espetáculo.

Agenor de Miranda Araújo, o avô de Cazuza, teve sífilis aos 28 anos, enlouqueceu aos 38 e morreu duas décadas depois sem nunca ter deixado de ser considerado uma espécie de doido alegre pela família. Naqueles tempos, a sífilis não tinha cura, era considerada uma doença maldita que, conforme se dizia, se transmitia "pecando". "Meu avô morreu dois anos antes de eu nascer, mas para mim ele é muito importante, uma figura presente", diz o cantor, que fez uma música, Nabucodonosor, em homenagem ao velho Agenor. "Minha mãe, que tem 90 anos e é muito ligada ao Cazuza, ficou bastante emocionada com a música", conta o pai do roqueiro. Se o avô teve trinta anos de vida desde que contraiu a doença, o neto disporá de muito menos tempo, a não ser que se descubra a cura da Aids.

MEDO - Cazuza desconfia que está com Aids desde 1985, quando começou a ter febre nos fins de tarde, se tratava com duas aspirinas e ia para os bares à noite. Quanto a esse momento, ele registra um de seus raros arrependimentos quanto a sua vida pregressa. "Se nesse começo eu tivesse ido logo a um médico, hoje estaria muito melhor." Nessa época, também, ele leu um artigo sobre Aids numa revista e ficou ambiguamente impressionado. "Sempre fui muito destrutivo, eu achei que tinha Aids, eu quis ter Aids", lembra. Em outubro de 1987, como os sintomas da doença se manifestassem com maior vigor, ele fez os testes e descobriu a verdade. O consultório de seu médico ficava perto da praia, para onde ele foi depois de ver os resultados dos exames. "Sentei num banco diante do mar e fiquei apavorado, pensando: eu vou morrer, eu vou morrer", conta. Ele foi então para a casa dos pais e comunicou que ia morrer. Seus pais não aceitaram o fatalismo do cantor e o internaram numa clínica. "Eles não saíram do meu lado um minuto. Minha mãe foi uma leoa, ficava ao lado da minha cama e nem deixava que as enfermeiras me tocassem", reconhece, agradecido. "Eu queria sair do hospital, queria acabar logo com tudo aquilo, mas ela me mandava ficar quieto, e eu ficava." Quando saiu da clínica, Cazuza gravou o LP Ideologia, que considera hoje "um disco um pouco triste".

Com Ideologia, ele deu um salto na sua arte e entrou na terceira fase da sua carreira. Na primeira etapa, a dos três discos lançados pelo grupo Barão Vermelho entre 1982 e 1984, havia muito da tolice do rock brasileiro, com suas letras chinfrins e seu sonzinho barato. Mas no grupo já se destacavam as baladas, as canções românticas rasgadas, à maneira de Dolores Duran, compostas por Cazuza. Na segunda fase, já com o Barão dissolvido, ele aprofundou-se na trilha do rock romântico, com as canções derramadas e inovadoras dos LPs Exagerado, de 1985, e Só se For a Dois, de 1987. Com Ideologia, finalmente, o compositor ficou mais melancólico, mais político, mais contundente - e captou como poucos um certo desencanto com o país. Na interpretação de Gal Costa, a música Brasil foi tema de abertura da novela Vale Tudo, fazendo com que milhões de pessoas ouvissem diariamente os versos:

Não me convidaram
Para esta festa pobre
Que os homens marcaram
Pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada
Antes de eu nascer

Ao saber que estava com Aids, Cazuza só contou a má notícia aos pais. "Não dava para sair na rua gritando: 'Gente, estou morrendo'!" Ele ficou calado durante seis meses, quando já corria solto o boato de que ele estava com a doença. Até que reuniu os amigos em sua casa e contou o que estava acontecendo. "Disse a eles que era Aids mesmo, que a gente tinha de curtir porque eu não sabia quanto tempo mais iríamos ficar juntos", afirma. "Depois dessa reunião me senti melhor." Para o público, no entanto, ele não disse nada - ainda que muita gente desconfiasse do mal que o acometia. Em dezembro, ao ser entrevistado por Marília Gabriela no programa Cara a Cara, ela lhe perguntou se estava com Aids e ouviu uma negativa. "Mas num intervalo do programa ele me confessou que havia chegado com a intenção de declarar que estava com Aids, só que na hora H pensou nos pais e nos amigos, que eram contra a divulgação, e perdeu a coragem", diz Marília Gabriela. A apresentadora argumentou que não via motivos para esconder o que todo o mundo sabia. "Eu disse ao Cazuza que, se ele declarasse publicamente que estava com Aids, poderia estar tirando um peso das costas e, ao mesmo tempo, estaria ajudando outras pessoas na mesma situação, já que ele estava bonito, ativo e produzindo coisas lindas."

PALAVRÕES - Cazuza ouviu o conselho atentamente, mas decidiu acatá-lo apenas em parte. Um mês depois, durante uma conturbada turnê pelo Nordeste, ele fez referências cada vez mais abertas à Aids. "Meu amor agora está perigoso", disse ao público num show em Maceió. "Mas não faz mal, eu morro, mas morro amando." Ao longo do périplo nordestino, o cantor se apresentou embriagado, desmaiou no camarim, arriou as calças no palco (estava sem nada por baixo), bolinou os seios de uma fã e despejou dúzias de palavrões nos ouvidos das platéias. Estava sem controle, ziguezagueando entre a depressão e a euforia, mas seguiu o conselho de seu médico e seguiu para os Estados Unidos, internando-se no Boston Medical Center.

No hospital americano, o cantor chegou à conclusão que era melhor assumir publicamente que estava com Aids. Pesaram na sua decisão os argumentos de Marília Gabriela e o contato que teve com um outro paciente do hospital. "No quarto ao lado do meu estava um rapaz que passava os dias andando pelos corredores, com ar deprimido. Cheguei perto dele e abri o jogo, dizendo que para os aidéticos não havia cura, mas só paliativos, e que era bom aproveitar." O rapaz ainda tentou negar as evidências. "Mas eu não estou com Aids, minha mãe me disse que não há nada definido." Com a crueza que lhe é habitual, Cazuza foi direto à ferida. "Deixa de ser bobo, você e eu estamos com Aids, e o negócio é botar para quebrar porque a tristeza mata mais depressa", respondeu. "O rapaz sorriu e talvez a partir daquele momento tenha começado a viver novamente - comigo, aconteceu a mesma coisa." Ainda nos Estados Unidos, em fevereiro, Cazuza deu sua primeira entrevista reconhecendo que estava com Aids.

O cantor voltou ao Brasil cheio de planos e idéias. Caio Graco Prado, dono da editora Brasiliense, convidou-o a publicar um livro, e Cazuza resolveu fazer dois. Para um deles, ele está gravando uma série de entrevistas com o amigo Tavinho Paes, que pretende transformá-las num relato autobiográfico. No outro livro, quer reunir suas letras de música e versos. Caio Graco não acha que, ao editar um livro de Cazuza, esteja sendo sensacionalista ou se aproveitando da tragédia do cantor. "Nem sabia que ele estava com Aids quando pensei no livro, apenas achei que ele é um artista muito inteligente, uma espécie de crítico da sua geração", diz o editor. "E, depois que ele assumiu publicamente a doença, minha admiração só aumentou: o Cazuza teve a coragem de falar de um assunto que todo mundo evita." Caio Graco admite, no entanto, que o público às vezes fica fascinado quando um artista expõe seu drama pessoal de maneira sincera. "A reação das pessoas ao Cazuza pode ter alguns pontos de contato com o que ocorreu quando Marcelo Rubens Paiva lançou Feliz Ano Velho", arrisca. "Meio milhão de pessoas compraram o livro de Marcelo, fascinadas com o depoimento do jovem cujo pai foi morto pela polícia política e que ficou paralítico."

'RITO CELESTIAL' - Marcelo Rubens Paiva, por sua vez, acha que há, sim, pontos de contato entre a sua situação e a de Cazuza, mas existem muitas diferenças. "Quando escrevi Feliz Ano Velho, eu estava começando do zero, iniciando um novo ciclo, inclusive fisicamente, estava saindo daquele mundo de isolamento dos hospitais e UTIs, enquanto o Cazuza me parece estar encerrando um ciclo e entrando no mundo hospitalar", diz o escritor. Para ele, as semelhanças entre ele e o cantor se encontram mais na reação das pessoas. "Pode ser que muita gente, ao saber o que passei e o que Cazuza está passando, considere que os problemas delas são pequenos, domésticos frente ao que julgam ser as grandes tragédias", raciocina Marcelo. A dificuldade, nesses casos, é que ocorre uma superestimação do artista. "Acho, francamente, que meu livro foi superestimado", diz. Quanto a Cazuza, o escritor tem dúvidas. "Não entendo muito bem de letras e poesia, mas, até onde sei, o Cazuza está acima da média desse roquinho brasileiro tão insosso."

Marcelo Rubens Paiva tem ainda outras duas pistas para se tentar entender a reação do público ao Cazuza-com-Aids-pública. "Como a morte para ele é algo presente, as pessoas encaram tudo que ele diz, ou fala, ou compõe como uma espécie de testamento, de últimas palavras", diz. O peso, a gravidade que as declarações e músicas de Cazuza adquirem levam o público a reagir de maneira estranha. "No show dele em São Paulo, várias pessoas me falaram que aquilo não era um espetáculo de música, mas um 'rito celestial', e iam ao show como que para se despedir do Cazuza."

Entre os que sofrem de Aids, a exposição pública de Cazuza foi considerada altamente benéfica. "Ele está ajudando a tirar o estigma da doença", opina o sociólogo Herbert de Souza, que, como seus irmãos - o humorista Henfil e o músico Chico Mário, ambos falecidos -, foi contaminado pelo vírus da Aids numa transfusão sangüínea para controlar sua hemofilia. "Cazuza sabe que só há morbidez onde existem sombras e jogou luz sobre o assunto, ajudando milhares de pessoas", completa. O sociólogo, mais conhecido como Betinho, considera que a carga de preconceitos contra Cazuza é maior. "Todo aquele que tem Aids é discriminado, mas o preconceito aumenta quando se trata de homossexuais ou drogados - eles também são discriminados devido a suas opções de vida, as pessoas julgam que os homossexuais e drogados estão doentes por culpa própria." Há no Brasil mais de 5.500 casos registrados de Aids e uma estimativa de que meio milhão de pessoas estejam contaminadas pelo vírus, mas ainda não exibam os sintomas. "Quem tem Aids deve fazer como o Cazuza: fugir da morbidez, enfrentar de frente o estigma, assumindo publicamente a doença. Com isso, diminui a curiosidade em volta, se ajuda os outros a viver melhor e, principalmente, o doente se ajuda a si mesmo, enfrentando melhor as dificuldades."

'MALDITO' - "Cada um tem o direito de dizer se está ou não com Aids", diz o escritor Herbert Daniel, que militou nos anos 60 e 70 nos grupos terroristas Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares e Vanguarda Popular Revolucionária, voltou do exílio em 1981 e agora, no início do ano, descobriu que está com Aids. "Acho criminosos os boatos que surgem em torno dessa ou daquela pessoa porque, no fundo, esses mexericos significam bisbilhotar a sexualidade de um ser humano", diz Daniel, homossexual declarado. Ninguém tem padecido mais com esses boatos do que o ator Lauro Corona. Abatido, magro, pálido e com o cabelo mais raio, ele se afastou da novela Vida Nova em meio a um intenso burburinho: tinha dificuldade em decorar os textos e se cansava facilmente. Lauro explicou que o seu papel exigia que ele trabalhasse ao lado de um forno de padaria num estúdio, o que lhe provocou problemas pulmonares. "Eu não estou com Aids, mas a campanha que a imprensa está fazendo contra mim é tão grande que eu passei a ser encarado como um maldito", disse o ator a VEJA há pouco mais de um mês, quando a onda de boatos chegou ao ápice. "É uma irresponsabilidade a imprensa noticiar especulações, provocando repercussões definitivas em minha vida profissional e afetiva", afirmou Lauro, que desde então vem se recusando a falar com jornalistas.

Para Cazuza, admitir ter Aids pode ter ajudado, mas ele enfrenta uma montanha russa de problemas. "Na última vez que me internei, foi por puro álcool", conta. "Eu, que deveria ter uma vida tranqüila, sem beber nem me cansar, passei dois dias numa praia enchendo a cara de cachaça, de caninha 51 mesmo. Me dei mal, fui para a Clínica São Vicente e foi um milagre não ter morrido", lembra. Com acompanhamento psiquiátrico, calmantes e trabalho, Cazuza vem tentando se livrar do alcoolismo e das crises de depressão. Sempre que tem forças, ele vai ao estúdio da Polygram para, sentado e às vezes deitado, gravar o seu álbum duplo. Alguns amigos do cantor consideram que a gravação desse álbum - que tem a música Burguesia, em que afirma que a elite brasileira não é discreta nem tem charme - está contribuindo muito para manter Cazuza vivo. O problema é que ele já gravou músicas suficientes para encher não dois, mas três LPs. "Ninguém tem coragem de dizer ao Cazuza para parar de gravar, ninguém tem coragem de desligar esse plug que pode estar servindo para ligá-lo à vida", diz um funcionário da Polygram. Há um medo cada vez maior na gravadora de que Cazuza passe mal e venha a morrer dentro do estúdio.

ÍNDIOS E ESCRAVOS - Se há pessoas que, muito justamente, têm medo e se preocupam com Cazuza, a começar pelos seus pais, ele mesmo não aparentava medo na semana passada. Ele parecia seguir a exortação que o poeta inglês Dylan Thomas fez a seu pai moribundo num verso memorável: Fúria, fúria contra a luz que morre, ao mesmo tempo que assimilava a resignação sábia do francês Charles Baudelaire:

É a morte que consola, ai!, e que faz viver
Ela é o objetivo da vida, a única esperança
Que, como um elixir, nos embala e dá alento
E nos dá forças para prosseguir até o fim do dia

A sua maneira, na música Azul e Amarelo, Cazuza fez algo como uma síntese de Dylan Thomas e Baudelaire:

Estou pronto pra ir
Ao tem encontro, Senhor
Mas não quero
Não vou, não quero

Cazuza não quer que as pessoas tenham pena dele. Tampouco considera que suas condições físicas estejam sendo exploradas pela televisão, pela imprensa ou pelas gravadoras. "Realmente não acredito nisso", diz. "Também no programa especial de fim de ano da Globo não me senti usado. Achei o programa muito bonito, eu dançava, corria, adorei." Mas, sem dúvida, o drama de Cazuza tem servido de pretexto para que se escrevam algumas bobagens. O jornalista verde Fernando Gabeira, por exemplo, escreveu que o verso A droga que já vem malhada antes de eu nascer é uma "reflexão sobre a própria civilização brasileira, que se instalou com a rapina colonial e a intensa exploração de índios e escravos negros". Gabeira também acha que o verso do poeta Wally Salomão Eu sou o beijo da boca do luxo na boca do lixo, com o qual Cazuza se identifica, demandaria "alguns anos de estudo" até que fosse interpretado corretamente. Quando o ecologista topar com letras de Tom Jobim, Chico Buarque ou Caetano Veloso, para não falar de Shakespeare ou Dante, quantos séculos os de estudo precisará? Cazuza não é um gênio da música. É até discutível se sua obra irá perdurar, de tão colada que está ao momento presente. Não vale, igualmente, o argumento de que sua obra tende a ser pequena devido, à força do destino: quando morreu de tuberculose em 1937, Noel Rosa tinha 26 anos, cinco a menos que Cazuza, e deixou nada menos que 213 músicas, dezenas delas obras-primas que entraram pela eternidade afora. Cazuza não é Noel, não é um gênio. É um grande artista, um homem cheio de qualidades e defeitos que tem a grandeza de alardeá-los em praça pública para chegar a algum tipo de verdade.


 
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