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Reportagens 26 de março de 1980O campo conta os lucros da supersafra A colheita de 52,4 milhões de toneladas
Ha quinze anos, quando herdou de seu pai 70 hectares de terra em Santa Bárbara do Sul, 350 quilômetros ao norte de Porto Alegre, o jovem gaúcho Irineu Tonon começou a cultivar sua pequena gleba com máquinas rudimentares e a ajuda de um único empregado. Algumas safras deram certo, ele aplicou os lucros na compra de mais terras e hoje, com 35 anos e dois filhos, espera os resultados dos bons ventos que sopram nos campos de soja: Tonon cobriu com esses generosos arbustos todos os seus 750 hectares, além de outros 100 hectares que arrendou. Tem doze empregados fixos, onze tratores, quatro caminhões, quatro plantadeiras, três colheitadeiras, quatro veículos para o trabalho na fazenda e, no rigor da moda local, um Opala do ano. Quando o sinal eletrõnico do relógio digital Citizen que enfeita o pulso de Tonon apita a hora do crepúsculo e o fim da jornada de trabalho, seu Opala se confunde com dezenas de outros carros que reluzem na avenida Victor Dumoncel, a única de Santa Bárbara, pilotados por filhas de produtores de soja e trigo, os dois pilares da agricultura regional. Assim como ocorreu com Tonon, a vida da cidade mudou dramaticamente nos últimos dez anos. Antigas casas de madeira foram substituídas por amplas vivendas que os fazendeiros do lugar gostam de ornamentar com pisos de mármore e pesadas portas de madeira lavrada, sinais exteriores de riquezas arrancadas às terras de Santa Bárbara. Ali se movimentam, hoje, 5.000 máquinas agrícolas - uma espetacular concentração para um município com 1.000 propriedades rurais e 8.000 habitantes na zona urbana. Santa Bárbara do Sul, com seus 75.000 hectares forrados de soja - que deverão render 1,8 milhão de sacas de 60 quilos e levar às contas bancárias dos agricultores quase 1 bilhão de cruzeiros -, é um dos pontos luminosos no mapa da grande safra de grãos que o país começou a colher neste final de verão. Na semana passada, as estimativas do Ministério da Agricultura convergiam para a marca dos 52,4 milhões de toneladas - a maior da história do Brasil rural. Só com as exportações de soja e o cancelamento de parte das importaçoes de milho e arroz, o país vai lucrar, segundo calcula o governo, 1,8 bilhão de dólares. Se fosse inteiramente vendida pelos preços mínimos fixados pelo Ministério da Agricultura, a safra de grãos de 1980 renderia mais de 350 bilhões de cruzeiros. À BEIRA DA EUFORIA - O recorde pertencia à safra de 1977, com 46 milhões de toneladas de grãos. A este se seguiram dois anos ruins, marcados por quebras nos principais produtos. Agora, o campo vive novamente um bom momento - e exibe sinais cada vez mais claros de que a agricultura brasileira vai ingressando na era moderna. O capitalismo chegou enfim ao campo, as máquinas e a tecnologia introduziram-se de vez na alma da agricultura e um novo Brasil emerge quietamente dessas imensas plantações - um Brasil que contrapõe ao sombrio estado de espírito das cidades uma entusiasmada corrida para lucrar, prosperar e investir. "A sociedade está alerta para o lucro e o agricultor descobriu que terra dá dinheiro", constata o ministro do Planejamento, Antonio Delfim Netto. Ele está à beira da euforia com os resultados da safra. "Este é um paisão!", exclama Delfim, ao ler as previsões formuladas por seus assessores. O tempo ajudou. Nesta Quaresma, pela primeira vez em alguns anos, o interior do Paraná não foi riscado por procissões de agricultores que, com orações e promessas, pedem aos céus chuva ou sol: desta vez, sol e chuva vieram na medida e no momento exatos e, com isso, o Paraná vai colher 14 mihões de toneladas de grãos, quase 30% da produção nacional. O Banco do Brasil abriu seus cofres: no ano passado, as operações com crédito rural atingiram 392 bilhões de cruzeiros, mais da metade do total de empréstimos concedidos pelo BB - que se orgulha de ser o maior banco rural do mundo. Os preços mínimos são satisfatórios e ocorreram saudáveis modificaçóes no imposto territorial rural, agora mais indulgente com quem planta mais: dependendo da área de terra utilizada e da produção por hectare, haverá desconto de até 90%; e 2,1 milhões de pequenos produtores - ou mais da metade dos 4 milhões de imóveis rurais do Brasil - serão beneficiados pela isenção. Reduzida a histórica desconfiança dos produtores, eles plantaram com a disposição dos velhos pioneiros: no Rio Grande do Sul, os pés de soja hoje sitiam até mesmo as portas das históricas minas das missões jesuíticas, em São Miguel. Em outros Estados, algumas igrejas já abrem suas portas para abrigar porções da supersafra. HORA DE CHICAGO - Como seus antepassados, que há 10.000 anos lavravam os campos da Mesopotàmia, os agricultores brasileiros dos anos 80 acordam cedo, trabalham duro e vigiam de perto suas plantações - sem o olho do dono, explicam, também a terra não engorda. Mas incorporaram a sua rotina a hábitos e inovações que espantariam seus avós. Em Campo Mourão, no Paraná, os 7.400 associados da Cooperativa Agropecuária Mourãoense podem acompanhar minuto a minuto as oscilações dos preços do mercado internacional: o trabalho é feito na sede da entidade - onde três relógios elétricos apontam a hora oficial de Chicago, de Londres e de Brasília - por dois computadores acoplados a um serviço de telex e telefone internacional. Ninguém recebe com atraso notícias de súbitas oscilações na Bolsa de Chicago, o grande, decisivo termômetro da agricultura mundial. Esses progressos criaram um novo homem na terra, tornando aparentemente anacrônicas certas palavras. "Prefiro ser chamado de empresário rural, não de fazendeiro", pede Nelson Teodoro de Oliveira, 39 anos, casado com uma arquiteta, pai de um filho de 2 meses e dono de quase 3.000 hectares na região de Campo Mourào. "Para mim", explica, "fazendeiro é o gigolô da terra, o grande proprietário que sempre tirou tudo da terra sem nada repor." Milhares de outros agricultores concordariam com ele - a imagem do grande senhor que reinava como um lorde feudal sobre suas terras, avesso a qualquer atividade que não fosse o gado, o café ou o cacau, vai cedendo lugar, cada vez mais, ao profissional que vai batalhar o lucro onde o lucro estiver e com as armas mais eficientes que puder manejar. Calça e camisa esporte, botas de cano curto, Nelson carrega no bolso, além da caneta e do talão de cheques, uma minicalculadora eletrÔnica que utiliza a todo momento. Nesta safra, ele espera colher 32.000 sacos de soja, 30.000 arrobas de algodão e 15.000 sacas de milho. Finda a colheita, ele poderá vigiar ainda mais atentamente seus 550.000 pés de café e mais de 2.000 cabeças de gado. PIADA FAVORITA - "Antigamente, nossos pais diziam que ere errando que se aprendia em agricultura", lembra Nelson. "Hoje, um único erro pode levar o empresário rural à perda de sua propriedade." Ele admite que, neste ano, as coisas correram bem: com a venda de sua produção, deverá ganhar cerca de 30 milhões de cruzeiros. Mas não esbanja otimismo, preocupado com dívidas bancárias e com a escalada dos preços de máquinas e insumos agrícolas. Na verdade, os espetaculares avanços na agricultura brasileira não escondem seus problemas - e eles não são poucos nem pequenos. Uma colheitadeira, que no ano passado custava cerca de 750.000 cruzeiros, hoje custa 1,4 milhão. Entre janeiro de 1979 e o começo deste ano, os preços dos fertilizantes acusaram um salto de 225%. E, no caso dos pequenos produtores, os juros bancários podem chegar a 27%. Inimigos cordiais dos gerentes de banco, os agricultores de todo o país repetem, em safras boas ou ruins, sua piada predileta. Um fazendeiro acertou sozinho na Loteria Esportiva e lhe perguntaram o que faria com o dinheiro. "Vou pagar o banco", explicou. "E o resto?", indagaram. "O resto", respondeu o agricultor, "o banco que espere". Dois anos de vacas magras arruinaram alguns produtores, empobreceram outros e, com isso, desaconselharam prematuras manifestações de otimismo. No ano que vem, afinal, o tempo talvez não ajude como desta vez. E as grandes safras sempre podem provocar bruscas quedas nos preços, por trazer embutido o fantasma da superprodução. Além do mais, a tradição rural brasileira ensina que uma troca de estocadas entre governo e agricultores faz parte do ritual da colheita. Na semana passada, centenas de produtores de soja do Rio Grande do Sul ensaiavam protestos contra o imposto de 13% sobre as exportações recentemente fixado pelo governo. Numa declaração de guerra contra o que chamam de "confisco cambial", eles ameaçam boicotar a comercialização do produto enquanto o governo mantiver o imposto. Por tudo isso, mesmo em tempos de vacas gordas, a maioria dos agricultores prefere não esbanjar. CALENDÁRIO PECULIAR - Alguns produtores, contudo, não resistem à tentação de reprisar os opulentos latifundiários do passado. Em dezembro, quando uma previsão de 314.000 toneladas, ao preço de 1 bilhão de dólares, colocou o Brasil na ponta da produção mundial de cacau, plantadores da região de Ilhéus e Itabuna, no coração da zona cacaueira do sul da Bahia, reviveram os melhores momentos dos "coronéis" dos romances de Jorge Amado. A fazendeira Zuê Martins pediu aos colunistas sociais de Itabuna que noticiassem sua presença no réveillon de Acapulco, no México. O fazendeiro José Lima Fontes, 65 anos, passou a circular entre seus pés de cacau ostentando um cinto de prata cravejado de brilhantes. O cinto está avaliado em 750.000 cruzeiros. Com as chuvas de verão, as estimativas terão de ser redesenhadàs. Mas, por enquanto, Fontes não colocou seu cinto à venda. Gestos assim perdulários têm rareado, nos campos, mas os agricultores vão consumindo volumes cada vez maiores de automóveis e eletrodomésticos. Jaime Bavaresco, 30 anos, chefe de vendas da revendedora Ford de Chapecó, em Santa Catarina, vendeu no final do ano passado um Corcel II a um agricultor que não sabia dirigir. Solícito, Bavaresco conduziu o veículo até a fazenda do comprador, onde o esperava também o avalista. "Ao ver o carrão", conta Bavaresco, "o avalista também quis comprar o seu. Ele precisava de um avalista, que também comprou um automóvel. Resultado: vendemos dez carros de uma enfiada." Mário Surdi, 40 anos, gerente da loja de departamentos Hermes Macedo, em Chapecó, diz que os sistemas convencionais de crédito freqüentemente colidem com o peculiar calendário da soja e do milho. Os agricultores comparam preços, pechincham, depois escolhem geladeiras e fogões, e afinal comandam: "Daqui a sessenta dias liquido o assunto". Surdi concorda - e reza para fazer bom tempo. Rodeado por eletrodomésticos e com garagens atulhadas de carrões, grandes fazendeiros saboreiam outros equipamentos da moderna civilização rural. Ronaldo Marquez, poderoso produtor de soja, arroz e amendoim do Triângulo Mineiro, cuida de seus negócios a bordo de um avião particular. Elói Marchetti, grande produtor de soja e arroz em Rondonópolis, Mato Grosso, percorre suas terras cavalgando um trator com ar condicionado e aluga aviões para pulverizar com herbicidas e inseticidas suas vastas plantações da Fazenda Santa Mônica. TENDÊNCIA IRREVERSÍVEL - Naturalmente, a mecanização da lavoura não ocorre por igual em todo o país. Na última semana de fevereiro, intrigados trabalhadores do município baiano de Irecê, a 500 quilómetros de Salvador, o maior produtor brasileiro de feijão, com 1,5 milhão de sacas, assistiram à chegada de uma colheitadeira Claison, a primeira do lugar. O teste com a "holandesinha", patrocinado pelo fazendeiro João Cardoso Dourado, fracassou: a cada 10 metros, a máquína emperrava - para alívio de trabalhadores informados de que a colheitadeira faz o trabalho de 150 homens. Dourado promete insistir: "No próximo ano vou aplainar o terreno, como deve ser, e colher com a máquina. O lucro é muito melhor". Em tempo de safra, ele costuma ter sonhos agradáveis, ou pesadelos, em que o feijão assume forma humana. A mecanização da lavoura tem estimulado sensivelmente o êxodo rural - um fenômeno que se tornou mais agudo a partir de 1966, quando a extensão ao campo da legislação trabalhista tornou bem mais vantajosa a utilização da mão-de-obra temporária. Delfim Netto acha que a tendência é irreversível, a menos que sejam abolidos alguns mandamentos da economia capitalista - entre os quais o que ensina a perseguir bons lucros. Hoje, um em cada três brasileiros vive no campo, índice ostentado pelos Estados Unidos no início do século. Atualmente, graças à mecanização da atividade rural, apenas um em cada 25 americanos vive em fazendas - e a produção agrícola do país é a maior de todos os tempos. Não é impossível que seja esse o índice brasileiro do século XXI. Essas distâncias servem para mostrar quão longo é o caminho que o Brasil ainda tem a percorrer - e aconselham a tratar com sobriedade os avanços da agricultura brasileira. Neste ano, a safra de soja, de milho e de trigo dos EUA está calculada em assustadores 317 milhões de toneladas. Considerados apenas esses três produtos, cada um dos 10 milhões de agricultores americanos produz 31 toneladas; cada agricultor brasileiro, pouco mais de 1 tonelada. Um produtor americano alimenta 59 pessoas, índice que cai de um para dez na União Soviética - a pobreza das estatísticas sobre a agricultura não permite que se conheça o índice brasileiro. Mais de 4,3 milhões de tratores circulam nos EUA, nómero que cai para 270.000 no Brasil. Aqui, existem 32.000 colheitadeiras e debulhadeiras enquanto há 645.000 máquinas dessa espécie no campo americano. O sistema americano, à parte eventuais distorções sociais, exibe uma irrecusável eficácia - na verdade, ali se desenvolve a mais bem-sucedida experiencia agrícola da história da Humanidade. "As cidades têm de ganhar condições para absorver os migrantes", afirma Delfim Netto. "E, se a agricultura for bem, não haverá trabalhadores rurais desempregados." CAFEZAIS ATROPELADOS - Também vigora no Brasil, sobretudo depois de grandes safras, uma lei cunhada nos anos 70 por Earl Butz, ex-secretário da Agricultura dos EUA. "Cresça ou caia fora." Com os lucros das colheitas, médios e grandes produtores tendem a absorver as pequenas propriedades das cercanias: compram mais terras, mais máquinas - e plantam. Há exceções: a catarinense Chápecó, com suas 4.612 propriedades, 75% das quais com menos de 25 hectares, mereceu o apelido de "céu do minifúndio". Em quase todo o país, contudo, a agricultura assiste ao progressivo avanço das grandes fazendas, embora a soja, o milho e outros grãos pareçam ainda longe de operar os fenômenos observados nas regiões onde predominam os canaviais. Em Sertãozinho, a 350 quilômetros de São Paulo, quatro famílias de usineiros possuem 60% dos 400 quilômetros quadrados do município. Nessa região, cortada por impecáveis rodovias, o hectare atinge o mais alto preço em todo o país: de 200.000 a 300.000 cruzeiros. A escalada do preço da terra tem estimulado uma contínua expansão das fronteiras agrícolas. A soja espraiou-se pelos campos do Rio Grande do Sul, avançou por Santa Catarina, atropelou cafezais no Paraná, cruzou as divisas de São Paulo e, com a descoberta do cerrado, alcançou as terras de Goiás e Mato Grosso. Por rotas semelhantes, o milho e o arroz expandiram a fronteira até Rondônia: atualmente, o arroz servido nas mesas do sul do país pode vir da fervilhante Ji-Paraná, em Rondónia. "Neste ano, vamos invadir o Maranhão com arroz", promete o ministro Delfim Netto. Essa ampliação de fronteiras costuma esbarrar em estradas cuja precária conservação pode estrangular o escoamento - o arroz de Ji-Paraná, por exemplo, freqüentemente atola na desoladora Cuiabá-Porto Velho. O governo federal promete asfaltar a rodovia para a próxima safra e enviar emissários encarregados de comprar a produção diretamente dos plantadores. Um vasto esquema de armazenamento foi montado pelo Ministério da Agricultura, que promete mobilizar, se for o caso, escolas, quartéis e igrejas. Segundo Delfim, a supersafra de 1980 não pode, como outras, esvair-se por falta de estradas ou de lugares que a protejam da ação do tempo. A GALOPE - Um dos grardes saltos da agricultura brasileira neste século foi a conquista do cerrado - uma área de 1,9 milhão de quilômetros quadrados que, entre outras regiões, cobre a maior parte de Goiás e Mato Grosso, largas extensões de Minas Gerais e mesmo porções de São Paulo. Durante o esplendor do café, Guaíra, 500 quilômetros a nordeste de São Paulo, perto da divisa com Minas Gerais, foi estigmatizada pela baixa altitude. Nos anos 40, operosos imigrantes japoneses provaram que o cerrado não era imprestável e as mudanças começaram. Vieram o arroz, depois o algodão, finalmente a soja. No ano passado, com 1,6 milhão de sacas. Guaíra transformou-se no maior produtor do Estado de São Paulo. Hoje, quando o Posto Ipê, na entrada da cidade, tem suas mesas tomadas por homens sujos de poeira, com chapéus panamá na mão e copos de uísque escocês, a cidade de 32.000 habitantes se alvoroça: os encontros do Ipê marcam o início da colheita da soja - e os guairenses se preparam para assistir a transações multimilionárias. "Guaíra provou que um município pode ser viável tendo como principal fonte de renda a agricultura", afirma o prefeito Aloízio Santana. Por seus 1.200 quilômetros quadrados espalham-se 631 fazendas médias e grandes - há pelo menos quinze anos, a pequena propriedade foi erradicada da região. Trabalhada por quase 1.000 tratores e 300 colheitadeiras - o mais elevado índice de mecanização da América Latina, segundo o Banco do Brasil -, a terra de Guaíra atinge a invejável marca de 40 sacas por hectare, equivalente ao índice de produtividade americano. A arrecadação municipal cresce a galope e a cidade, toda asfaltada, é inteiramente coberta pela rede de água e esgotos. Mas alguns fazendeiros permanecem insatisfeitos. "O povo não confia mais nesse governo", costuma gritar nas noites do Posto Ipè o produtor José Roberto dos Santos. "Cadê o João", provoca. Há oito anos, Santos trabalhava em terras arrendadas. Hoje, é dono de 3.200 hectares plantados com soja e arroz. Em Guaíra, são comuns ofertas de 120.000 cruzeiros por 1 alqueire. Mas raros fazendeiros aceitam vender. DO BAZAR ÀS FAZENDAS - Preços mais sedutores convidam ao desbravamento do centro-oeste. Em Rondonópolis, no cerrado de Mato Grosso, dezenas de forasteiros entretêm-se todos os dias no leilão de terras que movimenta a central avenida Amazonas. Em média, o hectare é vendido por 8.000 cruzeiros - embora sempre se corra o risco de comprar terras em litígio ou fazendas inexistentes. Num unico dia, o cartório local chega a registrar quinze escrituras, um terço das quais referentes a grandes fazendas. Não faltam compradores decididos a incorporar-se ao já nutrido estoque de barões do cerrado. Um deles é o libanês Naim Chafareddine, que em 1953 chegou a Rondonópolis, então um minúsculo povoado à margem de uma estrada de terra. Chafareddine montou um bazar e começou a emprestar dinheiro nas entressafras. Comprou uma pequena gleba e, às custas de calcário e mecanização intensiva, comprovou que o cerrado era viável. Hoje, ele é dono de quatro fazendas e 5.500 hectares, onde planta arroz e soja, e cria gado. Montou uma indústria de beneficiamento de arroz, duas churrascarias e serviço de lava rápido. Não revela o valor de seu patrimônio, que os amigos avaliam em dezenas de bilhões de cruzeiros. Ultimamente, Chafareddine tem viajado com alguma freqüência à Europa e ao Líbano natal, onde também se envolveu em empreendimentos agrícolas. Em Rondonópolis, contudo, ele só se permite uma única vaidade ostensiva: um Dodge Charger fabricado sob encomenda. O paulatino arrendamento de suas terras a outros plantadores estimulou rumores de que Chafareddine pretende aposentar-se. Ele nega - e afirma que vai continuar morando em uma mansão de linhas sóbrias na rua 13 de Maio, fiel ao lugar onde fez fortuna. Como a maioria dos agricultores do país, Chafareddine gosta de lembrar que seu trabalho comporta pesados riscos, e que talvez fosse melhor dedicar-se por inteiro a atividades menos instáveis. Não seria melhor atirar-se exclusivamente à criação de gado? Ou substituir as culturas anuais pelo lucrativo verde da cana? Chegada a hora do plantio, todavia, milhões de agricultores recorrem ao banco e retomam o ciclo que os fará esperar, alternadamente, pelo sol e pela chuva. NOVA GERAÇÃO - Os produtores trazem um justificado orgulho por seu trabalho de alimentar o país e abastecer os portos de exportação, embora saibam que as grandes safras não costumam provocar imediatos reflexos positivos nos bolsos dos consumidores. O governo não pôde impedir, até agora, que uma prolífica rede de intermediários seja costurada entre a lavoura e a mesa dos brasileiros. Uma saca com 60 quilos de arroz, por exemplo, teve seu preço mínimo fixado, neste ano, em 320 cruzeiros mas é vendido nos supermercados a mais de 1.360 cruzeiros. Antes disso, o arroz passou pelas mãos de um caminhoneiro, que o vendeu para uma indústria de beneficiamento, que o vendeu para um grande atacadista, que, finalmente, o vendeu para um supermercado. As bases para a explosão da agricultura, de qualquer modo, parecem lançadas. Os consumidores devem esperar que a floresta de intermediários seja desbastada com a mesma dose de paciência exibida pelos próprios produtores. "Nossa agricultura aqui ainda é nova", lembra Nelson de Oliveira, o empresário rural de Campo Mourão. "Os investimentos mais pesados ainda estão sendo pagos. Dentro de poucos anos, os investimentos maiores serão apenas para a reposição do maquinário. Então, sim, se poderá falar em maiores lucros para o produtor." Estrela de uma nova geraçao de homens do campo, o paranaense Oliveira é uma espécie de modelo dos agricultores que poderão comandar a arrancada agrícola dos anos 80. Presidente do sindicato rural de Campo Mourão, vice-presidente da poderosa Federação da Agricultura do Paraná, só veste terno para as viagens de negócios ao Rio de Janeiro. Não quis concluir o curso de Economia, mas lê revistas especializadas em assuntos rurais. Apóia o governo "por questão de necessidade", embora não tenha optado, até agora, por nenhum dos novos partidos. Apesar de confiante nesta safra de verão, aconselha os principiantes a investirem na pecuária - "caso contrário, desistam do campo", sugere. Ao longo deste ano, todavia, Nelson de Oliveira certamente estará no comando do pelotão mecanizado que lavra suas terras, apoiado por 175 famílias de trabalhadores rurais que mantém como meeiros ou porcenteiros. Todos os dias, olhará para os céus sempre à espera de que sejam clementes e permitam a colheita, em 1981, de mais uma grande safra. |
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