Arquivo VEJA |
|
Mais reportagens
Brasil e sociedade Política e economia Internacional Ciência e tecnologia Saúde e sexo Artes e espetáculos Gente e memória Religião e História Esporte e aventura Educação e trabalho Revistas
1997 - 2009 | edições integrais Edição n° 1 Edições extras Edições especiais |
Reportagens 25 de dezembro de 1991Fé em desencanto O êxodo dos católicos de classe
O cimento do catolicismo, a base espiritual sobre cuja estrutura foi erguida a sociedade brasileira, está rachando. A Igreja Católica vem perdendo o rebanho dos pobres para as seitas evangélicas, que incham na mesma proporção assustadora da urbanização do país - quatro em cada cinco brasileiros estarão morando numa grande cidade até o ano 2000. As ovelhas mais abastadas também estão se extraviando. É mais fácil um camelo entrar rio reino dos céus que um padre se interessar pelas indagações metafísicas dos ricos - mesmo que abra todos os dias as portas do templo para recebê-los em cerimônias luxuosas e caras. Casar na Igreja da Candelária no Rio de Janeiro - todos os sábados já estão agendados até 1993 - vale 25% do preço de um Chevete zero-quilômetro. A fratura mais perigosa para a hierarquia católica, no entanto, aquela que estará sendo tema nos sermões de muitas dioceses neste Natal, é a fuga da classe média, o ponto de apoio mais forte do catolicismo no Brasil moderno e que a cada dia afasta-se mais da Igreja. Neste Natal, as igrejas dos bairros da classe média estarão repletas, dando a impressão de que o catolicismo continua firme e forte no Brasil. Pura ilusão: boa parte dos que se dizem seguidores da Igreja fundada por São Pedro só vai à missa no Natal. Segundo dados do IBGE, há dez anos, nove em cada dez brasileiros diziam ser católicos. Esse número caiu para oito em dez na população em geral. Na classe média, em particular, o baque foi maior. Uma pesquisa realizada a pedido de VEJA pela LPM distribuiu 600 questionários dirigidos às classes B, C e D no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Brasília. A pesquisa encontrou apenas 72% de pessoas que se dizem católicas - mas apenas um em cada três católicos havia ido à missa na semana anterior. E sete em dez tinham costume de consultar cartomantes, videntes, tarólogos ou freqüentar sessões espíritas e tendas de umbanda ou candomblé. "Simpatias, horóscopos, idolatrias pagãs são práticas comuns entre os católicos da classe média brasileira", constata o relatório da pesquisa da LPM. "Sou uma católica em transição para o espiritismo", diz a paulista Daisy Galasso, 48 anos. "Quando meu pai morreu fiquei inconsolável e os padres só me diziam meias: verdades. O espiritismo me mostrou que a morte meu pai foi uma escolha dele mesmo, mas no futuro seu espírito voltará à Terra em outro corpo." Pecado mortal - Que não nos ouça a Sagrada Congregação para a Fé, o antigo Santo Ofício, cujos serviços crematórios purificaram pela fogueira as almas enegrecidas de bruxos e hereges na Idade Média. A Igreja não queima mais seus desafetos - embora costume cozinhar em banho-maria ou fritar os dissidentes no mesmo estilo culinário dissimulado dos governos dos homens -, mas considera ainda pecado mortal faltar à misaa dominical. Consultar-se com cartomantes e videntes é necromancia, um crime hediondo perante a ortodoxia católica porque fere diretamente o primeiro mandamento: "Amar a Deus sobre todas as coisas". Nem é preciso dizer o destino das almas que enveredam por estas vielas escuras do caminho do mal. Elas, segundo a fé católica, têm garantido um lugar no vagão expresso até as profundezas infernais - a menos que se arrependam a tempo. Onde o catolicismo decai em número e em vigor apostólico desvanece na mesma velocidade o temor de pecar e de ser punido por isso. Talvez por essa mesma razão, os padres católicos perderam poder de convencimento sobre seus paroquianos (65% de adeptos das seitas protestantes e evangélicas e do espiritismo já foram católicos) e pregam no vazio quando se dirigem aos gentios (apenas 8% dos novos católicos são evangélicos, judeus ou espíritas convertidos). Os bispos mais cuidadosos que se lançaram a campo para entender o comportamento arredio dos fiéis encontraram sinais ainda mais perturbadores do que os obtidos pela pesquisa da LPM. Dom Boaventura Kloppenburg, bispo de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, por exemplo, ficou assustado quando descobriu que apenas 11 % dos católicos de sua diocese eram fiéis praticantes, freqüentadores das missas e das atividades da diocese. A proporção de católicos praticantes encontrada pelo bispo de Novo Hamburgo entre sua grei - um para dez - parece ser a que melhor descreve o esvaziamento dos cultos católicos. Em pesquisas corno a da LPM, em que a pessoa declara sua opção a um entrevistador que está vendo pela primeira vez, entra em ação um mecanismo inconsciente de preservação da auto-imagem. O entrevistado tende a mostrar-se melhor do que realmente se julga e talvez, por isso, a pesquisa tenha encontrado um número maior de praticantes do que os observados pelos bispos e padres nas missas diárias. Chama divina - Do outro lado do altar, a sensação também é de que a maioria dos católicos vai menos à missa do que ia há alguns anos e se considera menos cumpridor dos deveres religiosos do que seus pais foram. É o caso da arquiteta carioca Angela de Oliveira Torres Raposo, de 39 anos, que teve toda sua formação religiosa traçada para fazê-la uma católica praticante. Estudou durante onze anos numa escola católica, o Colégio São Paulo, em Ipanema, foi crismada (a cerimônia de confirmação da fé católica) e casou-se na igreja. Angela afastou-se aos poucos da Igreja. Só vai à missa em datas excepcionais, como a primeira comunhão do filho Rafael, de 10 anos, em julho e, em maio, à missa de um ano da morte do pai. Quando trata de traçar as estratégias de retomada de fiéis, a Igreja reconhece que apenas um em cada dez católicos brasileiros cumpre rigorosamente suas obrigações de súdito do trono de Pedro - e é para mudar essa situação que os bispos mais ativos estão agora se empenhando. "Os dados que conseguimos em pesquisas nas igrejas são inquietadores", diz o padre Alberto Antoniazzi, vice-reitor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Belo Horizonte, que coordenou em agosto uma abrangente investigação dos hábitos religiosos dos habitantes da capital mineira e de cinco outros municípios vizinhos. Antoniazzi descobriu, estarrecido, que 73% dos moradores da região estudada se diziam católicos e entre estes apenas 29% eram praticantes assíduos. A Igreja agarra-se como pode à pouca massa crítica que lhe sobrou para manter acesa a chama do verbo divino. Dom Kloppenburg traçou em Novo Hamburgo uma estratégia que consiste em assediar os católicos não praticantes durante as cerimônias de casamento e batizados de modo a trazê-los de volta ao convívio da paróquia. O padre Antoniazzi, de Belo Horizonte, também ajudou a lançar uma campanha de arrebanhamento que se assenta fortemente no trabalho pastoral em tomo dos que se dizem católicos. Ofensa - Talvez mais que os números, a recepção fria dada ao papa João Paulo II em sua segunda visita ao Brasil, em outubro passado, tenha deixado nos bispos a sensação de que é preciso reagir. "Foi uma surpresa para todos, até para a comitiva pontifícia, a fraca resposta da massa católica brasileira à visita do papa. Pode-se dar várias explicações para isso - tratava-se de uma segunda visita ou o tempo não ajudou. Mas o fato é que havia sempre menos gente e entusiasmo do que o esperado", disse Marco Tosatti, vaticanista italiano e articulista do jornal La Stampa que acompanhou o atual papa em todas suas 54 viagens pelo mundo. Mas como e por que a Igreja perdeu tão rapidamente sua articulação poderosa entre os brasileiros? Os bispos e padres de esquerda põem a culpa no cura gordo, preguiçoso, de batina engordurada e politicamente conservador que, se pudesse, ainda hoje estaria rezando missa em latim e de costas para a assistência. Os conservadores enxergam nas atitudes dos religiosos ligados à Teologia da Libertação o casamento tropical do marxismo com o cristianismo a razão do enfraquecimento da Igreja. O certo é que na tensão provocada pelo cabo-de-guerra travado entre as duas correntes políticas da Igreja abriu-se a fenda por onde o rebanho mais pobre fugiu rumo aos templos pentecostais e os mais abastados para os braços dos médiuns espíritas, cartomantes, videntes e tarólogos. "Em nome da Teologia da Libertação cometeram-se os maiores absurdos. Deixaram de pregar a palavra de Deus. Soube de padres que passaram dois anos vivendo em comunidades indígenas sem pregar a palavra de Cristo sob o pretexto de não ferir a cultura dos índios", indigna-se dom Eugênio Sales. "As pessoas da classe média e os empresários se sentem ofendidos por serem tratados pelos padres ligados à Teologia da Libertação como capitalistas selvagens", diz dom Boaventura Kioppenburg. "Ofendidos, sedentos de fé e não de peroração política ou social, eles abandonam a Igreja." Além da franca hostilidade com os ricos - e para muitos padres basta não ser miserável, bóia-fria, retirante ou sem-terra para ser considerado rico -, os religiosos marxistas perderam fiéis aos montes quando se vincularam e as suas paróquias a partidos políticos. Na última campanha presidencial os padres de esquerda entraram com toda a força na campanha do candidato do PT, Lula, enquanto boa parte dos descamisados rezava já pela cartilha de Collor ou queria apenas rezar e se consolar nos braços do Senhor. Há uma outra dimensão, mais profunda que a luta partidária, na secularização dos sermões do clero: "Quando você tem um filho morto no colo, não quer ouvir do padre que a sociedade precisa ser mais justa, quer sim uma palavra de conforto e transcendência", diz o escritor religioso Rubem Alves. Medo da verdade - À ala conservadora por sua vez, faltou generosidade e espírito cristão no trato com os religiosos dissidentes influenciados pelas idéias esquerdistas. O franciscano Leonardo Boff, o maior expoente do esquerdismo católico brasileiro, foi exageradamente punido pela Santa Sé com subsídios que recebeu dos bispos conservadores brasileiros. Boff, um intelectual requintado e culto, foi tratado como um anarquista panfletário e humilhado como um herege. O frei franciscano foi destituído há seis meses da direção da revista Vozes, seu principal púlpito desde que fora proibido de lecionar em seminários, também por imposição do Vaticano. Agora dedica-se a pregações ecológicas. "O bem provavelmente mais escasso na Igreja de hoje é a Verdade", escreveu Boff numa carta endereçada a seus superiores franciscanos em que dizia que desistia de sua luta política. "Tem-se medo da Verdade das coisas, como no caso do livro, indiciado, sobre os padres casados, uma pesquisa sociológica séria, feita na melhor universidade do Brasil (Campinas, Estado de São Paulo). E se tem medo do Deus da vida, dos pobres, dos humilhados e dos ofendidos que não aceitam a dominação, de nenhum tipo, e que descobriram a Igreja como aliada e advogada da sua causa". Num documento pouco lido, mas de extrema sabedoria, divulgado há quase três anos, a Exortação Apostólica "Christifidelis Laici" (Cristãos Leigos), o Vaticano coloca o dedo na ferida ao reconhecer que "a ruptura entre Evangelho e cultura é sem dúvida o drama da nossa época". O cotidiano dos religiosos brasileiros, de todos os matizes ideológicos, na luta para segurar os fiéis que ainda se sentem recompensados em assistir a missas, mostra que essa ruptura funciona como um ímã às avessas, que cria um campo de força em torno das igrejas e mantém afastados os novos freqüentadores em potencial. "Em geral continuamos usando uma linguagem agropastoril enquanto o mundo está na era da cibernética", diz o padre José Fernandes de Oliveira, o padre Zezinho, de 50 anos, que é o maior vendedor de discos religiosos do país com mais de 5 milhões de cópias comercializadas. Dono de dois discos de ouro, o padre Zezinho usa um computador portátil e nunca teve problemas de audiência com suas canções ou sermões. "Se a Igreja não desenvolver uma nova linguagem está condenada a perder a maioria de seus fiéis." Boas respostas - O baiano, Messias Guimarães Brandão, 25 anos, poderia ter se transformado numa versão moderna do padre Zezinho. Católico fervoroso na adolescência, participava de grupos de estudos religiosos até que começou a perceber que os debates na igreja estavam se tornando repetitivos e tinham os mesmos temas fosse o grupo formado por beatas ou adolescentes. "Procurei respostas até onde foi possível e nunca as obtive, por isso rompi com a igreja", conta Messias, que hoje é vocalista da banda de rock Brincando com Deus, em que ele se apresenta paramentado de padre. "Minhas músicas falam do cotidiano e dos problemas que enfrento. São coisas que busquei na religião e não encontrei." O exemplo de Messias é extremado e quase único, mas não está em dissintonia com o que as pesquisas deixam claro. A da LPM mostra que 70% das pessoas que abandonam o catolicismo o fazem porque caem nos braços de uma seita ou religião em que suas apreensões são melhor compreendidas e as respostas recebidas dos religiosos são mais diretas e reconfortantes. Um em cada dez católicos deixa de sê-lo porque não consegue conciliar a posição da Igreja com algumas imposições da vida em família (métodos anticoncepcionais), as conquistas científicas (bebês de proveta, manipulação genética) e os avanços comportamentais (aborto, sexo antes do casamento). Guaracy de Brito. 45 anos, delegado de polícia no Recife, afastou-se da igreja depois de uma vida inteira de carolice por achar que os padres insistiam em teses inviáveis na prática. "Um exemplo é a condenação do uso de contraceptivos em países como o Brasil, onde é assustadora a quantidade de menores abandonados nas ruas", diz Brito, que nem se lembra mais da última vez que confessou ou comungou e só entra numa igreja hoje quando é convidado para casamentos ou batizados. História antiga - Frente a essa situação, pode-se chegar à conclusão de que, se nada for feito para mudar a situação, dentro de mais alguns anos a fé apostólica romana vai evaporar-se pela rarefação de fiéis, pelos erros estratégicos que comete, pela truculência com que trata seus dissidentes e por não se ajustar ao mundo contemporâneo. É bom lembrar, no entanto, que a Igreja Católica comete esses mesmos pecados há 2.000 anos - e há 2.000 anos ela tem sido a força espiritual mais poderosa da civilização ocidental. "A Igreja Católica não está propriamente em crise. Ela está vivendo o momento mais realista de sua história", concede o reverendo Jaime Wright, secretário-geral da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, com sede em Vitória. Wright é um campeão do ecumenismo e dos direitos humanos, co-autor do livro Brasil: Nunca Mais, o monumental trabalho de pesquisa que provou a disseminação da tortura política durante a ditadura. O reverendo não acredita que a Igreja Católica seja submergida por esse enfrentamento com a realidade. "Ela está até se saindo bem. A proporção de católicos realmente praticantes sempre foi de 10% mesmo nos momentos de glória da Igreja." Para ser entendida corretamente, a decadência atual do catolicismo precisa ser vista dessa perspectiva de milhares de anos e de uma abrangência planetária sem precedentes na história das crenças humanas. Há mais católicos no mundo não apenas do que outros cristãos protestantes. Há mais católicos do que hindus, budistas ou muçulmanos. O papado é a mais antiga e duradoura monarquia absolutista do mundo e milhões de pessoas acreditam ainda que o pontífice é o único e infalível intérprete da vontade de Deus. Não se pode entender a História do mundo - sejam suas guerras, conquistas intelectuais, artísticas e científicas - sem o catolicismo. O que sobra do mármore se se extrair o catolicismo das esculturas de Michelangelo e Bernini? Que significado teriam hoje muitas das composições de Bach, Haydn e Mozart sem a ambientação católica em que foram feitas? A Divina Comédia, de Dante Alighieri, que sentido literário teria sem o jogo de trevas e luzes arbitradas nela pela fé católica? Queixas ao bispo - No Brasil, o maior país católico do mundo, o refluxo da Igreja de Roma é sentido de forma mais determinada porque desde o dia da descoberta do país pela frota do português Pedro Álvares Cabral a doutrina do catolicismo marmorizou-se de forma indelével em toda a estrutura social do país. "Hoje se pensa que o dinheiro e a tecnologia resolvem tudo. O progresso material afastou as pessoas da Igreja, mas a fé continua sendo uma necessidade básica do ser humano", diz o paulista Marcos Fábio Lion, um dos melhores cardiologistas do país, um católico fervoroso que comunga todos os domingos. Por mais que se recicle e se renove, a Igreja Católica praticamente não tem meios de retomar seu vigor antigo, uma potência alimentada pelo empuxo histórico de ter sido o amálgama espiritual da formação do Brasil. O sociólogo Gilberto Freyre, morto há quatro anos, escreveu em sua obra magistral Casa Grande e Senzala, a obra científica brasileira mais distinguida no exterior em todos os tempos (escrita em 1933), que o catolicismo foi o traço de unidade nacional mais forte no Brasil. "Separar o brasileiro do católico é tarefa difícil", escreveu Freyre. Ele lembra que desde os primórdios da formação do Brasil o catolicismo imperou sobre todas as outras características sociais e étnicas. "Um frade ia a bordo de todo navio que chegava ao Brasil a fim de examinar a consciência, a fé, a religião do adventício", conta Gilberto Freyre. "O que barrava então o imigrante era a heterodoxia, a mancha de herege na alma, e não a mongólica do corpo. Do que se fazia questão era da saúde religiosa: a sífilis, a bouba, a bexiga e a lepra entraram livremente trazidas por europeus e negros de várias procedências." Era uma época em que a expressão queixar-se ao bispo significava, muitas vezes, conseguir a revogação da sentença de um magistrado, por mais alto que fosse seu cargo. '"Os bispos podiam avocar a si as pendências, reformá-las e castigar os magistrados", escreveu o jurista espanhol Sempere y Guarinos num livro sobre o poder do catolicismo no mundo nos séculos XVI e XVII. Veneno filosófico - Ao longo da vida brasileira imperial a Igreja só fez se fortalecer. Teve escravos, terras e títulos de nobreza desfrutados à sombra da riqueza dos engenhos de cana-de-açúcar. A instalação da República e a separação oficial do Estado, com o conseqüente corte dos proventos pagos a bispos e padres, coincidiu com a primeira grande crise do catolicismo: o perigo do positivismo, o modismo intelectual da época que afastou da Igreja as melhores inteligências. Lentamente, a Igreja Católica se recompôs e, animada por uma sucessão de papas esclarecidos, deitou novamente raízes na alma dos brasileiros bem pensantes - os mal pensantes ou não pensantes nunca haviam até então saído de baixo da batina do cura. "Pensam que não li Darwin ou Auguste Cornte. Estudei-os profundamente, só que não me deixo intoxicar pelo veneno de suas filosofias", escreveu o padre Júlio Maria, um dos mais ativos pregadores católicos brasileiros da virada do século. Durante muitas décadas o Brasil teve uma inteligência católica e pensadores como Jackson de Figueiredo e Alceu de Amoroso Lima que, mesmo conservadores, não foram propriamente reacionários. Um religioso conservador como dom Eugênio Sales, por exemplo, ostenta em sua sala de trabalho uma placa que lhe foi conferida pelos comunistas brasileiros por seu trabalho contra a tortura de presos políticos no país nos anos 60. Não existe mais esse núcleo católico de pensadores, pelo menos da forma organizada como o país conheceu em décadas passadas. Um dos sobreviventes isolados dessa corrente é o ministro da Economia, Marcílio Marques Moreira. "Há muito exagero e precipitação quando se fala de crise no catolicismo", diz o padre carioca Jesús Hortal, diretor do departamento de Teologia da PUC do Rio de Janeiro. "O catolicismo insiste na pregação ética elevada, na idéia de comunidade e de solidariedade. Não é porque algumas pessoas tratam a religião como um produto descartável que a Igreja Católica deve se jogar nesse ciclo consumista. Atualmente as pessoas pegam uma crença aqui, outra ali, de acordo com o que lhes interessa." Hortal acusa, por exemplo, o pentecostalismo de ter se transformado num supermercado da fé que, além da contribuição em dinheiro dos fiéis, não exige nenhuma adesão formal a princípios de conduta ética cristã. Paradoxo - Concebido por Lutero com a promessa de libertar o ser humano da intermediação dos padres católicos na comunicação com Deus, o protestantismo - pelo menos em sua versão mais nervosa e moderna no Brasil, encarnada pelos evangélicos - é que, paradoxalmente, atrai a presença física do fiel ao templo. A maioria dos católicos, por outro lado, faz suas orações e agarra-se a crenças que dispensam a intermediação dos padres. Esse paradoxo se mantém pela constatação de que mais forte do que todas as religiões, mesmo a católica com seus milênios de tradição, é a religiosidade. Uma tabulação feita pelo padre Hortal a partir de dados do IBGE e outros colhidos de uma pesquisa do Instituto Gallup em todas as cidades brasileiras com mais de 50.000 habitantes mostrou que apenas 1% dos entrevistados que se diziam sem religião não acreditava em Deus. "A crença e a prática religiosa passaram para a esfera do individual", diz Hortal. "Acreditar deixou de significar a adesão plena a alguma igreja concreta." A necessidade de encontrar um sentido para a vida e de tornar suportável a perspectiva da morte foi o que carregou a religiosidade por todas as sociedades humanas através dos séculos. Essa necessidade foi mais forte e onipresente num tempo em que os homens acreditavam que a vontade de entidades sobrenaturais controlava tudo - o regime de chuvas, as pestes, o humor do soberano. A ciência e a vida moderna cuidaram de esvaziar esse céu mágico. O mundo, como escreveu o francês Marcel Gauchet, desencantou-se. A religiosidade, no entanto, continua sendo na alma humana o mesmo lago plácido onde o homem busca repouso nas horas de sofrimento extremo. É pela posse da senha que dá acesso a essa região mental que as religiões lutam. |
VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter | ![]() |
|