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  25 de dezembro de 1968
Lá se foi o
homem ver a Lua

Para Frank, Jim e Bill viajarem 147
horas e 800.000 quilômetros e correrem
os riscos para ver a Lua de perto,
350.000 pessoas trabalharam em 20.000
companhias durante 10 anos e os EUA
gastaram 1,2 trilhão de cruzeiros velhos

As águas ao longo da costa da Flórida são calmas e cristalinas e pelas madrugadas os pescadores costumam sair em seus barquinhos para trabalhar, passear ou simplesmente viver a vida longe do agitado continente. Às 5 horas e 10 minutos da madrugada de sábado, também Jim, Frank e Bill tomaram seu barquinho para uma viagem que sai da costa da Flórida e vai para longe, bem longe deste agitado mundo. Apollo, o deus da beleza, o nome do barco. Frank, seu comandante, saiu pensando em coisas belas: na Lua, no Natal, na paz entre os homens. "Estamos saindo para a Lua. Eu e meus dois companheiros, James (Jim) Lovell e William (Bill) Anders, seremos os primeiros humanos a vê-la de perto. Também seremos os primeiros a ver a Terra como uma pequena esfera distante. Nós a mostraremos assim aos homens pela televisão neste Natal. E esperamos que, ao vê-la pequena, compacta, unida, compreendam que ela é a habitação de todos os homens. Que as fronteiras nacionais e as diferenças não têm mais sentido. Que vivemos todos numa ilha."

A PARTIDA - O Saturno V tremeu, amarrado ao solo por imensas braçadeiras que agarravam suas 3.000 toneladas de peso, seus 121 metros de altura, sua potência superior à de qualquer motor já construido pelo homem. Sete horas e cinqüenta e um minutos de Cabo Kennedy. Os homens, na pequena cabina de 3 metros no alto do foguete, já estavam lá há duas horas e quarenta minutos, prontos para a fantástica travessia em busca da Lua. Haviam acordado às 2 horas e meia da madrugada para os últimos exames médicos, os últimos avisos sobre a viagem de 147 horas, 800.000 quilômetros, a mais longa, a mais ambiciosa, a mais cara de todas as viagens. Na longa espera dentro da cabina, ajudaram a preparação dos detalhes da partida. Os sinais verdes se foram acendendo, um a um. Duas dúzias de estações que acompanhariam o vôo de todos os cantos da Terra foram dizendo "sigam!". Os computadores de Caho Kennedy como que apalparam todos os circuitos, todas as peças vitais do gigante para assegurar sua força para a subida. Os gráficos diante de 5.000 homens no Centro de Controle de Lançamento em Cabo Kennedy, e no Centro de Controle de Vôo em Houston se foram acumulando conforme planos traçados pacientemente por físicos, engenheiros, matemáticos e políticos durante dez anos. Nove segundos antes da subida, os homens dentro da Apollo-8 ouviram o sinal de partida dos motores. Mais de cem interruptores foram acionados simultâneamente para cortar o cordão umbilical que unia o foguete à Terra.

Os sensores elétricos desligaram-se. Os motores começaram a tossir em chamas e fumaça, a princípio irregularmente e depois num troar contínuo que seria ouvido nas cidadezinhas que cercam Cabo Kennedy, até 15 quilômetros da rampa de lançamento. Depois de alguns segundos, aparentemente impotentes para segurar os três homens no chão, os quatro imensos braços de ferro largaram o Saturno. E lá se foram Jim, Frank e Bill conquistar a Lua.

O PÚBLICO - Os americanos sempre anunciaram com todos os detalhes e muita antecedência as suas viagens espaciais. Mas o vôo do Apollo-8 superou todos os recordes de publicidade. A partida do foguete foi praticamente um show de rádio e televisão, uma imagem vista simultâneamente na Europa e nos Estados Unidos e um som ouvido praticamente em todo o mundo. O presidente eleito Richard Nixon estava junto de Kurt Debus, o homem que disse "go" (sigam) quando a contagem regressiva chegou a zero exatamente na hora prevista. (Os computadores falaram em "atraso" na partida: seis centésimos de segundo.) Nixon viu o monstro mecânico envolvido por chamas e fumaça elevar-se lenta e angustiosamente do solo nos primeiros segundos. Consumindo combustível à velocidade de 15 toneladas por segundo, o primeiro estágio de cinco motores acelerou rapidamente a torre metálica de 120 metros de altura e dois minutos e meio depois ela era um ponto brilhante no céu claro da manhã da Flórida. Em dez minutos, a Apollo estava a 1.000 quilômetros do local de lançamento. Logo que o primeiro estágio foi consumido e caiu no mar, Frank Borman, o capitão da nave, mudava suas preocupações da Flórida para o Texas, do centro de lançamento em Cabo Kennedy para o Centro de Controle do Houston. "Apollo chamando Houston", repetiu o comandante. E, ouvindo a resposta calma e nítida de Michael Collins, o porta-voz da estação terrestre, Borman entrava em contato com únicos e tênues fios que o ligarão à Terra durante seis dias e três horas. "Obrigado, Michael, temos muito o que conversar."

OS PERIGOS - Por um minuto, durante a primeira órbita, os homens da Apollo não puderam ouvir a voz confortante de Collins. Houve um defeito na aparelhagem de Terra e os astronautas voaram "de olhos fechados" perto de 500 quilômetros. O vôo cego em órbita terrestre não lhes causou qualquer preocupação. Eles estão preparados para viajar sem contato com a Terra mesmo em órbita lunar. Durante 45 minutos de cada uma das dez órbitas que farão em tomo da Lua, o satélite ficará entre a nave e a Terra e estará impedindo o trajeto das ondas de rádio até as antenas terrestres. Se algum incidente acontecer neste período, eles não poderão contar com os conselhos dos rapidíssimos computadores de Houston e serão obrigados a enfrentar o problema com o pequeno e bitolado cérebro eletrônico da nave. A função deste aparelho é principalmente comandar todas as "manobras de aborto", viagens de volta antes do término da missão, motivadas por alguma falha da nave. O computador da Apollo tem na memória os detalhes de todas estas viagens infelizes, calculados previamente para as várias fases do vôo. E são muitos os motivos que poderão forçar Borman e seus companheiros a um retorno em condições excepcionais: o choque com um meteorito, uma tempestade solar, defeitos vitais na espaçonave. Mas, à medida que se aproximava a hora da partida, os críticos da viagem tornavam-se menos radicais e admitiam que a longa espera de dez anos autorizava a partida. Na sexta-feira, véspera do lançamento, o astrônomo inglês Bernard Lovell repetia que o vôo era "inútil cientificamente", mas ao mesmo tempo achava que os americanos tinham tomado todas as precauções e o risco era pequeno, apenas ligeiramente maior que das outras viagens espaciais já realizadas. A possibilidade de os motores dá nave falharem e não conseguirem tirar os três homens da órbita lunar no dia do Natal era considerada mínima. "Só o azar, o acontecimento não científico, o não previsível, nos surpreenderá", dizia Thomas Paine, diretor da NASA, aos jornalistas reunidos em Cabo Kennedy para a última entrevista coletiva antes do disparo. "Os motores do módulo de serviço da Apollo são os mais testados de todos os que foram usados até agora no programa espacial. Milhares de testes em laboratório, uma dezena de testes de vôo nas Apollos 5, 6 e 7," Praticamente, a Apollo são duas naves em uma. Todos os equipamentos têm reservas que os substituirão no caso de uma falha. No motor que fará a nave entrar e sair da órbita lunar, apenas a câmara de combustão, o orifício de injeção de combustível e o bocal de escape de gases não têm substitutos.

PELA PRIMEIRA VEZ - Até o meio-dia e 56 minutos (hora de Brasília) de sábado os três viajantes prepararam o seu barco para a primeira incursão tripulada no espaço profundo. Jim Lovell, o encarregado do sistema de navegação, concentrou sua atenção nas informações de radar vindas da Terra para restabelecer o delicado senso de direção da Apollo, embotado ligeiramente pelas tensões e tremores do Saturno durante a subida até órbita terrestre. Sob o comando de Borman, a estação de Houston acompanhou minuciosamente o perfeito desempenho de todos os sistemas a bordo: navegação, estabilização, propulsão, energia elétrica, telecomunicações, pressão e temperatura da cabina, controle de emergência, aterrissagem. Finalmente, os painéis na frente de Jim, Frank e Bill acenderam todas as suas luzes verdes. Aparecendo por trás da Terra, a Lua Nova fez o convite para a visita. Borman puxou a alavanca dos motores de propulsão da Apollo e contou cinco minutos. Novamente os três foram afundados nos assentos por uma aceleração que levou o barco de 28.000 para 39.000 quilômetros por hora, com a proa voltada para o ponto onde a Lua deveria estar dali a 66 horas, para o encontro marcado.

 

 

 

 

 
     
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