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25
de novembro de 1970
A fábula de Automópolis Uma história
curta e seus longos ensinamentos
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por Raymundo Rodrigues PereiraEra
uma vez uma bela cidade que tinha um nome qualquer. Na época da invenção
do automóvel, tão maravilhados ficaram seus habitantes com o prodigioso
engenho, que passaram a chamá-la Automópolis. Um belo dia, um habitante
da cidade, que antes usava o trem ou o bonde puxado a cavalo para ir até
o trabalho, comprou um automóvel. A princípio lhe pareceu sobremodo
honroso para seu status social e sobretudo vantajoso para a economia de seu tempo
ir de carro até o trabalho. E assim ele fez. Nos primeiros dias
época que hoje alguns sobreviventes do outrora pacato burgo relembram com
saudade, por motivos que mais adiante se verão , o tempo da viagem
do referido cidadão realmente caiu: de quinze para dez minutos. O exemplo
notável logo teve inúmeros seguidores. Alguns anos depois Automópolis
não era mais exatamente a mesma. O aumento do número de carros nas
ruas, principalmente nas horas de começo e fim de serviço, fez com
que o tempo de ida ao trabalho do filho daquele primeiro cidadão voltasse
aos quinze minutos da época de seu pai. Com a concentração
do trânsito, os automóveis ainda descobriram ruas menos movimentadas,
embora com isso aumentassem a distância da viagem. Mas os ônibus,
presos a trajetos fixos, tornaram-se muito mais lentos. Mal servidos, seus passageiros
habituais procuraram, o mais rápido que puderam, comprar automóveis.
Os ônibus perderam mais passageiros, além de eficiência. Tiveram
então de aumentar suas tarifas. Mais gente ficou menos estimulada a andar
de ônibus. Ao mesmo tempo, como os automóveis pareciam a solução
para cada um ir a seu serviço como e quando quisesse, o prefeito parou
os projetos de trens subterrâneos, arrancou os bondes e seus trilhos da
rua. A esta altura, o centro de Automópolis
estava barulhento e enfumaçado. Os que podiam, deixavam suas casas na zona
central para morar em áreas mais amenas. O miolo urbano cada vez mais ficou
sendo o confinamento de minorias étnicas pobres, agora vivendo ao lado
de (às vezes sob) verdadeiros labirintos de concreto viadutos, túneis
e pontes construídos para facilitarem o escoamento dos veículos.
O raio de extensão da cidade, que na época dos bondes puxados a
cavalo era de 3 a 5 km e na do trem 8, esticou para 40 km. A essa altura, o filho
do filho viajava 80 km por dia de casa ao escritório, mais de duas horas,
ida e volta. Pior ainda: os ocupantes de ônibus chegavam a perder até
quatro horas diárias nas conduções. Com o aumento da poluição
e do ruído, as condições de vida em Automópolis foram
se tornando precárias. Durante certos períodos de poluição
mais intensa, as pessoas eram obrigadas a usar máscaras contra gases. Um
dia até o silêncio tomou-se mercadoria: um cidadão mais esperto
organizou salas à prova de som e começou a cobrar entradas para
vender silêncio às pessoas saudosas dos bons tempos. Nos guetos do
centro, as minorias se revoltavam, ameaçando destruir a ordem social. A
situação foi piorando em todos os níveis. Até que,
no ar, a quantidade de gás carbônico e de poluentes tornou-se tanta,
e no chão as áreas verdes tão poucas, que as plantas não
conseguiam mais fabricar o oxigênio necessário à população.
Todos, menos o sobrevivente que narrou esta verdadeira história, morreram
quando a grande nuvem de gás carbônico acumulada nas camadas superiores
da atmosfera paralisou o sistema de aquecimento da Terra e nela se fez a nova
e terrífica Idade Glacial. A trágica
imitação da fantasia Leitores
atentos à narrativa dessa edificante fábula poderiam julgar que
semelhanças de Automópolis com certas cidades atuais, vivas ou mortas,
são meramente propositadas. Realmente. Os seus labirintos de concreto e
asfalto poderiam ser os da cidade de Nuestra Señora la Reina de los Angeles,
uma das mecas do automóvel, com 7 milhões de habitantes e quase
4 milhões de carros. Los Angeles tem 40% de sua área central reservada
para estacionamentos e garagens de aluguel. Seus viadutos parecem extensas línguas
que entram pelo miolo da cidade e depois rastejam por dezenas de quilômetros
marginados de casas. Viajar 100 km da residência ao trabalho ali não
constitui proeza insólita. Os guetos poderiam ser os do centro de Baltimore
(EUA), onde a população negra passou de 24% a 35% de 1950 para 1960
e no ano passado estava entre 45% e 48%. A redução da velocidade
média dos ônibus seria a da área central de Paris, onde caiu
de 13 km/h em 1953 11,5 em 1960, 10 em 1968 e 9 atualmente. A fome por automóveis
dos habitantes da fábula é igual à dos moradores de todas
as grandes cidades do Ocidente. (A União Soviética começará
a fabricar 1 milhão de automóveis por ano em 1972 e lá também
a história pode se repetir. Os carros
privados, atualmente, constituem 80% da frota das grandes cidades brasileiras
e mais de 90% dos veículos das capitais industrializadas ocidentais. São
responsáveis por mais de 75% do trânsito em cidades como São
Paulo e Rio, por exemplo. A pouca eficiência
do carro particular no centro de Automópolis é a mesma, por exemplo,
de São Paulo. Dos 700 000 automóveis dessa cidade, só 10%
podem ser usados simultaneamente não há ruas para o resto
e eles são usados apenas noventa minutos por dia. Esses 10% de carros
levam em média 1,3 pessoa cada e no total fazem menos de 25% do transporte
de pessoas na cidade. Sua contribuição à mobilidade urbana
é portanto mínima, sua capacidade de sufocá-la, enorme. O
apocalipse final de Autom6polis não passa atualmente de exercício
acadêmico de sociólogos e cientistas que querem ressaltar a necessidade
de soluções urgentes. Mesmo assim, as máscaras contra gases
já são compradas pelos mais precavidos habitantes de Tóquio,
onde os guardas de trânsito retornam periodicamente a seus quartéis
para respirar oxigênio puro. A vida
real imita a fábula inclusive em sua trágica tendência. O
áspero esforço das cidades para acomodarem os automóveis
em seu miolo não dá a impressão de ter levado ao nascimento
de uma paisagem urbana estimulante e criativa. "Algumas das vias expressas
construídas nos centros urbanos são magníficos projetos de
engenharia que conduzem os carros com grande engenhosidade até o coração
das cidades, mas também, e muito freqüentemente, com um brutal desrespeito
pela aparência e beleza das cidades que servem", diz o relatório
de Colin Buchanan, "Trafic in Towns", preparado para o Ministério
de Transportes britânico em 1966 e considerado um dos mais completos estudos
do tráfego urbano. Muitos concordariam.
Clodofeu Crivelari morava no segundo andar de um prédio da avenida São
João, uma das mais tradicionais ruas de São Paulo. À sua
frente estava a praça Marechal Deodoro, uma das mais famosas, cheia de
árvores, pardais cantores e bares de sorvetes quase turísticos.
O sorvete ainda está nos mesmos bares, agora bem menos freqüentados.
Mas os pardais sumiram com a maioria das árvores, arrancadas para a construção
de uma pista elevada. Nem Crivelari mora mais propriamente no mesmo lugar, embora
não tenha saído do apartamento onde vive com mulher e filha. É
que o elevado passa 2 metros acima do nível de sua janela e a apenas 8
metros mais para dentro da rua. "No meu entender, foi a pior coisa que fizeram.
Nós vivemos o tempo todo com esta praça linda. Os pardais cantavam
toda tarde e toda madrugada. Era uma coisa mesmo poética. Agora acabou.
Muita gente diz que vai ficar bonito o panorama, quando iluminarem este 'Minhocão'
(é o nome que os paulistanos dão à via). Para os olhos dos
outros pode ser, para os meus não." Marcos
Winograd, 41 anos, urbanista argentino, quase um propagandista de uma nova estrutura
urbana, também concordaria. Viu o alargamento da praia de Copacabana, a
abertura de várias pistas para automóveis na faixa roubada ao mar.
"A avenida Atlântica se alarga; ali não passarão mais
5 000 veículos por hora, mas 20 000. Onde o silêncio? Nas ilhas Malvinas,
ao sul da Argentina, talvez." Suas extrapolações a partir do
exemplo: dentro de trinta anos, a praia de Copacabana será antes de tudo
uma grande estrada. Pontes, túneis e viadutos servirão para o pedestre
ir até o mar sem ser morto pelas máquinas, os novos donos do ambiente.
As pessoas que puderem irão morar cada vez mais longe, criarão um
organismo social cada vez mais desumano. Gente que não se verá,
não conversará. "E há quem chame isso de progresso",
diz Winograd. Se essa arquitetônica
automobilística fosse brutal e desumana mas eficiente na eliminação
do problema de trânsito da cidade, talvez pudesse ser encarada como o amargo
remédio inevitável. Mas até sua eficácia é
contestada. Viadutos e pistas parecem úteis apenas como paliativos. Acalmariam
crises, mas sua eficiência cessaria depois de algum tempo dizem os
urbanistas. "Toda melhoria de tráfego atrai novo tráfego na
razão direta desse melhoramento", explica o arquiteto Hélio
Modesto, atualmente consultor do plano urbanístico de São Paulo.
"É um teorema." Com todas as dificuldades atuais, criar novas
garagens no centro teria o mesmo efeito a médio prazo: encorajar mais veículos
a saírem às ruas; anular a melhora temporária. Para cada
um que se acomoda, há nove esperando para sair tão logo haja espaço.
Sem uma providência para longo prazo, o simples desenvolvimento das tendências
atuais de uso do carro particular bastaria para levar as cidades à desordem
final. São Paulo lacra 90 000 carros por ano. Eles precisam de 5 milhões
de metros quadrados de ruas pavimentadas também por ano. Na época
mais furiosa de construções em São Paulo se fizeram apenas
3 milhões. Em termos do fatídico
ano 2000 as perspectivas tornam-se arrepiantes. Três bilhões de pessoas
quase o total de viventes acumulados até hoje desde a época
das cavernas viverão nas cidades. Representarão mais de 50%
da humanidade (eram menos de 15% no começo do século). Nos países
industrializados, mais de 90%. Enquanto isso, conservado o ritmo de hoje, a população
de automóveis passaria, de cerca de 200 milhões atuais, para 850
milhões. Em peso, espaço ocupado para se mover, alimentar e repousar,
uma horda muita vezes mais exigente que a dos humanos. O
desenvolvimento automobilístico foi tão fantástico, que parece
garantir sua própria sobrevivência. Suponha-se que existisse um sistema
de transportes individuais baseado em algo inteiramente diferente do automóvel.
De um momento para outro, os 200 milhões de automóveis atuais, a
um preço médio de 5 000 cruzeiros cada, entrariam em processo de
decomposição. Some-se a isso que já é uma cifra
fora da aritmética do homem e dos países comuns o valor das
instalações para produção e alimentação
de veículos a indústria automobilística, petrolífera,
postos de serviço e revendedores... A cifra já assombrosa pula para
além da imaginação. (Examine-se apenas um detalhe dessa máquina
fabulosa: a General Motors americana produziu no passado 5,3 milhões de
veículos, empregou 570 000 pessoas, faturou mais que o produto nacional
bruto de vários países, inclusive o Brasil.) A formidável
inércia da máquina automobilística praticamente elimina qualquer
solução radicalmente nova para o transporte urbano. Todas deverão
ser compatíveis com os carros atuais. Os novos veículos deverão
ser baseados nos automóveis e fábricas existentes, ou pelo menos
admitirem um longo período de convivência. A fim de que o choque
da dança possa ser absorvido pelo organismo social. O
mesmo parece valer para as cidades. Embora já se construam muitas inteiramente
novas, nenhum urbanista cuja sanidade mental seja indiscutível propôs,
por exemplo, mudar todos os habitantes de São Paulo uma nova metrópole
recém-construída a fim de resolver os graves inconvenientes atuais.
No máximo, os urbanistas estão propondo novos centros dinâmicos
ao lado das cidades velhas, com a função de receber o impacto do
futuro crescimento populacional, enquanto a metrópole antiga ganha tempo
para recompor-se. A paz na guerra dos automóveis contra as cidades, portanto,
está sendo negociada em várias frentes: a adaptação
das quinas atuais para torná-las limpas, seguras e silenciosas; a adaptação
das cidades antigas às novas exigências; a preparação
dos modelos de cidades novas. O fim do
motor a gasolina? O processo para acabar com
a sujeira, o barulho e a insegurança dos carros atuais está em marcha
há longo tempo. Os progressos em relação à segurança
têm sido pequenos. Embora os centros das cidades permitam velocidades cada
vez menores, os automóveis têm sido equipados com motores cada vez
mais potentes. Mesmo no Brasil, que não se destaca por lançar muitos
modelos novos de veículos, essa é a tendência. Os Volkswagens
passaram de 1 200 para 1 300 e agora para 1 500 cilindradas (medida diretamente
associada à potência motor). Desapareceram os Gordinis e Dauphines
para dar lugar ao Corcel. Os Aero-Willys estão sendo substituídos
por Galaxies. Mas, errada tanto quanto possa
ser, do ponto de vista de uma cidade mais segura, essa política não
é responsabilizada pelo crescente número de acidentes urbanos. Segundo
a Organização Mundial da Saúde, a culpa dos desastres é,
em mais de 90%, dos motoristas e estradas. Isso explica em parte por que o índice
de acidentes automobilísticos no Brasil é duas vezes maior que o
do Canadá e dos Estados Unidos, considerando-se o mesmo número de
veículos. Para reduzir, não bem o número de desastres, mas
o de vítimas, no próximo ano alguns modelos de carros americanos
apresentarão, além dos clássicos cintos de segurança
(obrigatórios até no Brasil), uma espécie de salva-vidas,
câmara de ar que se enche imediatamente após um choque, formando
uma proteção entre o corpo do passageiro e as ferragens. Outros
terão uma estrutura ultra-resistente em torno da área ocupada pelos
passageiros, para evitar seu amassamento em choques. Todos esses sistemas podem
tornar-se obrigatórios nos próximos anos. Mas
é no combate à poluição que os moradores da cidade
têm feito cargas mais bem sucedidas contra os defeitos do automóvel.
Estimativas recentes atribuem aos carros 40% da poluição do ar de
Nova York, 65% a 70% do de Chicago. Em São Paulo, menos carros, ainda menos
indústrias e outras fontes poluentes, veículos mais velhos e desregulados
(vida média de mais de quinze anos, contra seis nos EUA), a inexistência
de equipamento especial antipoluição, tornam essa contribuição
indesejável ainda maior, acredita-se (na entrevista ao "U. S. News
and World Report", Russel Train citou São Paulo como exemplo de cidade
onde a poluição é tão ruim ou pior do que nas piores
cidades dos EUA). Mais de duzentas substâncias químicas diferentes
já foram identificadas saindo do motor de combustão interna dos
veículos e nenhuma delas se pode chamar de recomendável para a saúde.
Ao contrário, são acusadas de causar doenças respiratórias
generalizadas e até câncer. Normalmente, todos esses poluentes se
dispersam no ar. Quando não, quando não há vento ou ocorre
uma inversão no sentido das correntes que sobem na atmosfera, os resultados
podem ser trágicos. Há mais
de dez anos começaram nos EUA as discussões quanto às normas
de controle de poluição. Em 1968 elas se tornaram nacionais. Os
equipamentos descobertos para cumprir as exigências legais, com perfeitas
condições de manutenção, contribuem para reduzir em
60% os níveis de hidrocarbonetos e monóxido de carbono, os principais
poluentes. Para este ano, o governo americano tornou obrigatória uma redução
de mais 30% em relação a estes índices. Permanecem intocados
outros poluentes perigosos de concentração muito menor nos
gases do escapamento , como os óxidos de nitrogênio e as partículas
de chumbo. O chumbo entra na gasolina sob forma de um aditivo, o tetra-etil-chumbo,
que aumenta a eficiência do motor e reduz o consumo de combustível
(tecnicamente, fala-se que o chumbo "aumenta o índice de octanas"
da gasolina). Embora nos EUA já exista uma gasolina sem chumbo (Almoco),
para suprimir o aditivo das atuais seria necessário calcula-se
gastar mais de 20 milhões de cruzeiros na reforma das instalações
das refinarias existentes. Além disso, para obter a mesma eficiência
num motor se gastaria mais combustível, o que levaria a esgotar as reservas
mundiais de petróleo mais rapidamente. No
Brasil, o combate à poluição pode começar no próximo
ano. No mês passado, o Conselho Nacional de Trânsito enviou uma carta
ao presidente do Sindicato da Indústria Nacional dos Fabricantes de Autoveículos
perguntando sobre as formas de combate à poluição que poderiam
ser adotadas e o tempo que a indústria julgaria razoável para as
primeiras medidas oficiais. O início
das negociações já apresenta alguns conflitos. No momento,
a indústria automobilística está reivindicando um aumento
do número de octanas (em última análise, da quantidade de
chumbo) da gasolina nacional. O combustível brasileiro tem uma octanagem
abaixo dos padrões internacionais. Segundo a indústria, uma equiparação
permitiria ao país economizar 909 milhões de litros de petróleo
bruto por ano. Os carros nacionais, embora
copiados de modelos estrangeiros, em sua grande maioria não têm qualquer
dos sistemas antipoluição que são obrigatórios nos
países de origem para esses mesmos modelos. Só o esportivo Puma
os utiliza, mas apenas nas unidades exportadas. Oscar Augusto Camargo, presidente
do Sindicato da Indústria Automobilística, acha ainda cedo para
uma campanha brasileira contra o automóvel como fonte de poluição,
que no momento atingiria uns poucos trechos de algumas cidades. "Não
se justifica que se onerem desde já os custos da totalidade dos veículos
para salvaguardar uns poucos pontos isolados." Um
de seus assessores teme os aspectos sensacionalistas da provável campanha:
"Pode-se criar um clima tal, que, quando um carro sair nas ruas, o pessoal
pense em jogar pedras nele". Engenheiros
e autoridades em poluição consideram uma questão aberta se
o motor a combustão interna empregado hoje na quase totalidade dos veículos
pode ficar suficientemente limpo a ponto de resolver o problema da poluição
nas cidades. O presidente Richard Nixon, em sua mensagem à nação
deste ano, convidou a indústria automobilística a apresentar um
substituto limpo e silencioso para o motor a explosão até 1976.
O próprio governo americano está fazendo pesquisas para desenvolver
dois sistemas substitutivos até 1975. Respondendo ao apelo, os presidentes
dos três gigantes automobilísticos americanos, a General Motors,
a Ford e a Chrysler, anunciaram sua disposição de "eliminar
o automóvel como um dos fatores da poluição do ar nacional",
se necessário abandonando inclusive o motor a gasolina. Parece que no futuro
será cada vez mais difícil estabelecer controles bem apertados para
um processo que é inerentemente sujo a explosão da gasolinas
das câmaras de combustão dos veículos. Pelas estimativas de
órgãos oficiais, nos EUA a poluição do ar pelo escapamento
dos automóveis decrescerá até 1985. A partir dessa data,
mesmo o motor a gasolina mais limpo que se pode imaginar no momento será
intolerável. O simples aumento numérico dos carros fará a
poluição começar uma curva ascendente. Se um dia se exigir
que a poluição seja zero, diz um diretor de pesquisas da Chrysler
americana, "o carro tem de ser elétrico". Há
outro tipo de motor para veículos urbanos que não teria barulho
nem poluição: a turbina. Mas os elétricos estão claramente
adiante em sua marcha para substituir o motor a gasolina. Cinqüenta mil deles
já fazem pequenas entregas nas cidades da Inglaterra. Uma pesquisa na Universidade
da Califórnia estabeleceu os seguintes prazos para os carros elétricos
na América. 1975 produção em quantidade de baterias
(o "combustível" do carro elétrico) e controles; apresentação
de cerca de doze modelos elétricos vendáveis. 1980 produção
de 100 000 elétricos por ano, enquanto companhias de gasolina e óleo
combustível desenvolvem reformas para tornarem-se "postos de baterias".
1985 troca de motores a gasolina e diesel por elétricos na maioria
dos veículos novos; produção de 10 a 20 milhões de
veículos elétricos por ano. 1990 será elétrica
metade dos carros nas rodovias. Se a estimativa é correta, dez anos depois,
a situação pode se repetir no Brasil. A
cidade volta aos trilhos Numa hipotética
cidade do futuro com um sistema de trânsito perfeito, ainda não imaginado,
não está afastada portanto a possibilidade de que veículos
muito parecidos com os atuais, feitos talvez pelas mesmas fábricas atuais,
mas limpos e silenciosos, possam ser tolerados por todos os cidadãos. Nas
cidades existentes, contudo, a supremacia deverá ser do transporte coletivo,
pelo menos na área central. Mesmo o ônibus, que no longo prazo terá
de enfrentar inimigos tão formidáveis quanto o automóvel,
contribui para desabafar o coração urbano. Ocupa vinte vezes menos
espaço por pessoa transportada e no Brasil só custa
quatro vezes mais caro que o mais barato dos carros. O autoveículo é
derrotado não pela poluição nem pelo ruído ou insegurança,
mas pela sua própria presença. As normas mais avançadas em
projeto urbano, quando falam em vivendas, estabelecem de 15 a 17 metros quadrados
por pessoa; para teatros, 2,5 metros; restaurantes, 1.5 metro. O carro privado
aparece como uma anomalia devoradora do cada vez mais raro espaço vital
urbano: parado. ocupa 20 metros quadrados praticamente com uma só pessoa.
O custo de sua acomodação é também desproporcional.
Uma autopista, com seis faixas de trânsito, capaz de conduzir 3.000 pessoas
em cada sentido, por hora, custa o mesmo que uma ferrovia com capacidade dezessete
vezes maior. As grandes metrópoles
vão empurrando os carros para a periferia, pelo menos para os estacionamentos
estações de metrô distantes do centro. Evitam os viadutos
que tragam mais carros à área central, paralisam a concessão
de facilidades para construção de garagens nessa região.
Enquanto isso, retomam a construção de sistemas de transportes coletivos.
Eles têm de ser abundantes, eficientes e confortáveis para seduzirem
os proprietários a deixar seus veículos em casa ou nos estabelecimentos
das estações do metrô no subúrbio. Até 1980,
Nova York gastará 450 milhões de cruzeiros anuais para construir
novas linhas de metrô, estacionárias desde 1940. São Paulo
e Rio constróem suas primeiras linhas de metrô. Os paulistas gastarão
64,2% de seu orçamento municipal em obras de transporte, até 1990;
43,7% para o metrô. O retorno ao transporte coletivo trilhos surge como
uma tendência moderna. E o metrô é apenas a opção
clássica. Os monotrilhos elevados, embora tenham de ser construídos
com alguns (se bem que menores) dos inconvenientes dos viadutos, oferecem possibilidades
até poéticas. "O destino do homem não é andar
mergulhando na terra como tatu", diz Paulo Mendes da Rocha. "Por que
não um elevado de acrílico, que brilhe sobre a cidade?" Paralelamente
ao árduo esforço de acomodação das cidades velhas
aos dias presentes, os planejadores do futuro estão colocando no papel
as idéias das novas cidades, pensando nos revolucionários sistemas
de transporte urbano em desenvolvimento. "Os
homens se reúnem nas cidades a fim de viver; e juntos permanecem a fim
de viver a boa vida", dizia Aristóteles. Embora multidões vivam
nas cidades modernas não a boa vida junta, mas angustiantes pesadelos individuais,
os urbanistas que empolgam a nova geração de planejadores urbanos
pregam a aglomeração como a única saída para o homem
das cidades. "A partir da revolução industrial se demonstrou
que o aglomerado urbano criava grandes eventos na cultura e na produção.
Pode-se afirmar ainda hoje que em todos os níveis da atividade social é
possível tirar partido dessa aglomeração" - diz Joaquim
Guedes, 42 anos, urbanista governo brasileiro escolheu para estudar o aproveitamento
das potencialidades novas da região da Transamazônica. Segundo urbanistas
como Guedes, a solução para a cidade não está na fuga
para a utópica paz das mansões dos subúrbios, onde as populações
também vivem segregadas. Essa fuga,
permitida pelo automóvel, além de outros danos à integridade
humana, poderia levar à formação de uma "cultura suburbana",
conseqüência lógica da paz "bovina" dos subúrbios,
transformados em verdadeiras cidades-dormitórios. Ali o homem se distanciou
do caos do centro e de sua desumanização. Mas ao mesmo tempo afastou-se
também das grandes bibliotecas, da orquestra sinfônica, do contato
humano variado, das possibilidades de escolha infinita, das melhores coisas que
fizeram das grandes cidades a maior obra da civilização. A
nova geração de urbanistas acha necessária uma descentralização
de cidades muito populosas, mas para dar lugar a uma metrópole polinucleada,
em cujos subnúcleos os moradores possam desfrutar dos benefícios
da multidão. O núcleo principal seria mantido e revivificado, como
o local das grandes obras que representam o esforço e a cultura da cidade:
o grande teatro municipal, as grandes galerias, os grandes e os preciosos mercados
de coisas raras que só podem existir se mantidos por milhões de
compradores. Uma questão do futuro
interessa particularmente aos brasileiros: Brasília, o exemplo nacional
de cidade do futuro, é realmente um exemplo? "Brasília é
uma cidade com cabeça, tronco e rodas", disse o urbanista Lúcio
Costa, seu construtor junto com Oscar Niemeyer. "A cidade não tem
cruzamentos para evitar que o carro assuma uma feição ameaçadora
diante do pedestre." Essa importância do automóvel hoje não
é uma das maiores preocupações dos planejadores. No
concurso para Brasília, exatamente no ano do aparecimento da indústria
automobilística no Brasil (1957), os projetos com sistemas de transportes
coletivos foram eliminados. O automóvel era recebido como uma promessa
de solução do trânsito urbano. Hoje, entre os jovens arquitetos,
Brasília vem sofrendo críticas consideráveis. Embora
todos a respeitem como exemplo de planejamento contra o caos e pela sua magnífica
arquitetura, também a apontam como "a última das cidades feitas
mais para o automóvel que para o homem". A escala de seus espaços
vazios seria a do automóvel e não a humana. Daí a falta de
vitalidade aparente, a sensação de solidão das pessoas que
tentam ir a pé além dos limites das superquadras, onde parecem estranham
ente confinados os pedestres. A maioria dos arquitetos que pensa assim se recusa
contudo a fazer publicamente críticas a Brasília. Eles acham que
um de seus grandes méritos, aliás, é ser a única cidade
brasileira que poderá ser reformulada sem grandes dores. Mas não
endossam as mudanças pretendidas pelos últimos administradores da
cidade. "Eles querem é colocar um minhocão em cima da W-3",
diz um deles (W-3 é a avenida comercial da cidade). O
próprio Lúcio Costa sentiu necessidade de vivificar a cidade, mandando
projetar as últimas superquadras com uma densidade demográfica duas
vezes maior que a do plano original. E é interessante ver observam
alguns urbanistas como Brasília poderá absorver os novos
tempos, simplesmente por ter sido planejada. A
unidade da vida e da cidade Uma das mais revolucionárias
concepções de cidade nova, entretanto, talvez seja a defendida por
Marcos Winograd, do Centro de Estudos do Habitat da Universidade de La Plata,
tido como um dos mestres do urbanismo latino-americano. Para
Winograd as cidades chegaram ao ponto máximo de ruptura. "A cidade
não é mais uma. São várias, separadas por contradições
brutais, que de certa forma também representam o brutal processo de ruptura
da vida do homem de hoje. Há uma cidade para se trabalhar, outra para dormir,
uma para os adultos se divertirem à noite, outra para as crianças
brincarem de dia. Vai-se à cidade onde se dorme quando não se dorme
e é um deserto. Vai-se ao bairro onde os adultos se divertem à noite
quando não é noite e não há ninguém. Do ponto
de vista da teoria urbanística, é preciso voltar à cidade
única, que também era uma imagem da integridade da vida." Para
ele, tecnologicamente e socialmente é possível iniciar o movimento
em busca da cidade unificada. Onde os homens trabalhem, vivam, divirtam-se como
uma pessoa só, como num ambiente único. Se ele está certo,
isso teria imenso significado no transporte urbano. Eliminaria parte dos incontáveis
deslocamentos que os homens fazem na cidade dividida. Winograd
antevê uma cidade que incorpore e humanize a tecnologia atual. Computadores
permitiriam que algumas tarefas fossem feitas em casa: o técnico, professor
ou mesmo operário controlaria ou criaria um processo a distância,
a partir de um terminal eletrônico. Pequenas fábricas com um sistema
completo de controle de poluição e de ruído poderiam fazer
parte do "contínuo construído" que é a sua cidade.
Além de eliminar deslocamentos, isso traria o trabalho de volta a um ambiente
humano, ao invés de situá-lo, como hoje, exclusivamente no amedrontador
mundo das máquinas. Sistemas de ensino e outras transmissões de
televisão até mesmo de supermercados para a dona de casa
fazer as compras permitiriam recuperar mais horas perdidas no congestionamento
das ruas. Para ele, a redução das necessidades de circulação
urbana e a unificação da cidade seriam conseguidas pela moderna
tecnologia de comunicação, a descentralização dos
serviços e a concentração das construções.
Todas as economias de tempo conquistadas pela aceitação da técnica
moderna o homem ganharia para se dedicar às artes, à educação,
à cultura. A cidade de Winograd é então a cidade ócio,
dos homens que trabalhariam três a quatro horas por dia e depois se divertiriam,
andariam pelas casas dos amigos, a pé graças à proximidade
criada concentração da construção , através
de áreas verdes, transportes, tudo incluído. Como
seria o transporte urbano na cidade ideal de Winograd? "Como o serviço
de água e esgoto", para usar uma imagem sua: uma parte já integrante
da estrutura da cidade. Algo muito diferente no aspecto mas, em essência,
como o conjunto de elevadores dos vários edifícios de hoje, um sistema
de transporte vertical embutido dentro da cidade e praticamente despercebido por
ser gratuito e quase totalmente pago pela iniciativa privada. "A cidade funcionará
como uma edificação única", diz o urbanista Hélio
Modesto, também partidário de uma solução do tipo
da de Winograd. As formas desse transporte inserido na rede de serviços
a serem oferecidos pela cidade do futuro iriam desde ônibus automáticos
controlados por computadores, táxis que se poderiam chamar e orientar para
o endereço desejado por meio de uma discagem, calçadas rolantes
e outros sistemas aparentemente do mundo da fábula. Os
caminhos que andam Por mais fantástica
que possa parecer a vida da nova cidade, muitos de seus sistemas já estão
além da mesa de projetos, em vários pontos do mundo. Videofones,
por exemplo, já existem e, em teoria, poderiam economizar todos os deslocamentos
que se fazem para ver pessoas que não se quer realmente abraçar
ou apertar as mãos. A experiência de alguns escritórios com
ele atualmente ainda cria perda de tempo: a maioria das pessoas sente uma necessidade
inconsciente de pentear o cabelo ou apertar a gravata sempre que a campainha anuncia
um chamado. Mas isso poderá ser resolvido com o tempo e o hábito. O
escritório sem o aspecto clássico sala, mesas, funcionários
reunidos pode ser construído hoje por qualquer companhia de computadores.
Um terminal de computador e um videofone na casa de cada funcionário são
mais fáceis de construir que uma autopista ou uma linha de metrô.
Mas as pessoas basicamente gostam de sair de casa. Se quiserem sempre sair para
trabalhar, mesmo assim o videofone e os painéis de computadores permitem
reduzir a circulação inútil. Servirão para instalar
escritórios que dependam uns dos outros em áreas bem distantes,
aliviando a pressão sobre o centro comercial de hoje, onde as firmas querem
estar juntas para poderem simplesmente trocar informações e negócios
e não exatamente se darem abraços. Também
os sistemas de transporte da estrutura da cidade nova estão a caminho.
Metrôs com controle automático já existem e asseguram por
linha um fluxo de 40.000 passageiros por hora, tanto quanto uma autopista de oito
faixas de trânsito. Para os subúrbios, onde o túnel se torna
muito caro porque as linhas se espalham demais e o tráfego fica menos denso,
há necessidade de algo menor, mais leve, mais barato. Para isso está
sendo sugerido o Westinghouse Transit Expressway (via expressa de trânsito).
Tem 28 assentos e corre sobre rodas de borracha num trilho de concreto. É
rápido, silencioso, leve, movido a eletricidade e guiado por computador;
um cada dois minutos, dia e noite. Nos momentos de rush poderia carregar 20 000
pessoas por hora. A empresa Brush Electrical, britânica, está construindo
um auto-táxi. Os passageiros comprariam um cartão antecipadamente
programado para computador. Quando colocado num lugar apropriado do painel do
veículo, ele orientaria o táxi até o destino. Por enquanto
o auto-táxi é previsto para funcionar em trilhos, numa malha de
linhas curtas de muito movimento. A Dunlop
está trabalhando num sistema chamado Speedway, uma espécie de caminho
andante. É uma correia de movimento rápido sobre a qual as pessoas
fariam trajetos de 500 a 3 500 metros, de núcleos bem movimentados até
aeroportos, terminais de metrô, estacionamentos fora do centro. O segredo
do Speedway é uma complicada plataforma móvel ao lado da correia
central que se desloca primeiro lentamente perto dos "pontos", a fim
de que as pessoas possam embarcar, e depois, mudando sua largura, aumenta a velocidade
de forma a permitir a passagem para o centro rápido. No seu desenvolvimento
máximo é possível que um sistema de correias assim possa
substituir todos os trens subterrâneos, com capacidade de transporte de
até 120 000 pessoas por hora em cada linha. Outros tipos de transporte
urbano jatinho para propulsão individual, ligeiramente indiscreto
por sua capacidade de ir de janela em janela, o ônibus voador de decolagem
e aterragem vertical - estão ainda mais próximos. Por
mais engenhosas e futuristas que possam parecer, essas são soluções
que o homem já descobriu para garantir as condições de habitação
das cidades. "O homem está afinal em condições de transcender
a máquina e de criar um novo ambiente biológico e social, onde serão
realizadas as mais elevadas possibilidades existência humana", diz
o filósofo americano Lewis Mumford. "O homem percebe hoje que a construção
seu habitat é a tarefa que tem de enfrentar. Estão a acabando o
ar, a água, o equilíbrio e as condições de vida
diz Mendes da Rocha. Os homens estão tentando recriá-las, criando
novas coisas. Se também tiverem abandonar outras, é quase certo
que o farão. A entrevista de Russel E. Train à revista "U.S.
News and World Report" da semana passada é particularmente sugestiva
a esse respeito. A revista perguntava: "Que acontecerá se o que o
senhor chama de um 'carro substancialmente livre de poluição' não
aparecer até 1980?" Resposta de Train: "Então nós
provavelmente teríamos de iniciar a regulamentação do uso
do automóvel". A revista: "Os americanos aceitariam isso?"
Train: "Penso que sim. Não acredito que o povo americano hesite se
a escolha for entre um sério problema de saúde pública e
o automóvel. Quando as pessoas ficam assustadas, elas desistem coisas.
Eu desisti dos cigarros; agora acho que tudo é possível!" | |