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25 de outubro de 1995
Com fé,
dinheiro
e fiéis

A Igreja Universal, a que mais
cresce no Brasil, já tem força para
provocar a maioria católica

O protético Murilo Valois, de 36 anos, viu a cena no Jornal Nacional, da Rede Globo, e sentiu o sangue lhe ferver nas veias. No vídeo, um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus chutava uma estátua de Nossa Senhora Aparecida. Tentou disparar um tiro na televisão, foi contido por familiares e planejou seu ataque para a noite de segunda-feira passada. Com uma enxada na mão, irrompeu num templo da Igreja Universal e quebrou o púlpito, a mesa, vasos de flores e equipamento de som. Em Montes Claros, no interior de Minas Gerais, o aposentado João Cardoso, de 57 anos, assistiu à cena no Jornal Hoje, também da Globo. à noite, pegou um revólver e invadiu um templo da Universal. Jogou pedras nas vidraças, mas não disparou nenhum tiro. Ligado na tela da Globo, o Brasil inteiro viu as cenas de Nossa Senhora Aparecida sendo agredida. Aqui e ali, pipocaram os protestos de católicos indignados com a ofensa à mãe de Jesus Cristo. Protestavam contra o maior fenômeno religioso da atualidade. Esse fenômeno é a Igreja Universal do Reino de Deus, que cresce num ritmo e numa velocidade nunca vistos antes na história do protestantismo no país, sob o comando do bispo Edir Bezerra Macedo.

Embalada pela voz dramática de Cid Moreira, a reprodução das cenas animou um monte de gente. Em Olaria, no Rio de Janeiro, um grupo de católicos apedrejou um templo da Igreja Universal, e a PM encontrou uma escopeta com um obreiro. A Confraria do Garoto, conhecida por manifestações bem-humoradas, fez um protesto contra a "guerra santa". Eli Patrício, pastor e subsecretário estadual, expulsou o grupo e perdeu o emprego. No bairro da Abolição, setenta pastores tiveram de cercar o primeiro templo da Universal, o berço da igreja, para conter ameaças de invasão. Em São Paulo, católicos da Zona Leste se reuniram numa marcha até um templo da Universal para pedir a imagem ofendida de Nossa Senhora Aparecida de volta. O comando da CNBB, reunido em Aparecida na quinta-feira, pediu mais reações de desagravo à Virgem. No Congresso Nacional, surgiu até pedido de CPI para investigar como a Universal enriqueceu, sem que houvesse nenhuma nova suspeita sobre seu patrimônio. Ou será que murro em santa pode enriquecer alguém?
 
"PEDAÇO DE GESSO" - O caso teve início na madrugada de 12 de outubro, em pleno feriado nacional em homenagem à padroeira do Brasil. No programa Palavra de Vida, transmitido ao vivo pela TV Record, o bispo Sergio von Helder, falando feito uma matraca, suando como uma fonte, tinha uma estátua de Aparecida ao seu lado e, com microfone na mão, dizia que ninguém devia acreditar em seus poderes divinos. Para provar a veracidade do que dizia, Von Helder bateu na imagem 22 vezes - doze vezes com o pé e dez vezes com a mão. Como a escultura não reagia aos tabefes, o bispo esperava convencer sua platéia de que não havia razões para temê-la, tampouco adorá-la. E dizia:

- Esse pedaço de gesso, quase do meu tamanho, feito pela mão do homem, nós queremos mostrar uma coisa ao Brasil, isso não funciona, óóó (bate na santa como quem testa sua resistência), isso aqui não é santo coisa nenhuma, óóóóóó (bate na imagem com o pé), isso aqui não é Deus coisa nenhuma, óóóóóó.
 
REINO DA MÍDIA - Foram cenas grotescas, com o bispo beócio desafiando os mais comezinhos conceitos de bom senso: ele queria que a estátua reagisse, que os espectadores acreditassem que estava vencendo? Como o programa vai ao ar na madrugada, e sua audiência é ínfima, a coisa só foi virar um escândalo no dia seguinte, com a ampla cobertura dada pela Globo. Na sexta-feira, a emissora exibiu as cenas de Von Helder nos seus três telejornais. No sábado, reprisou-as mais duas vezes. No domingo, as cenas apareceram no Fantástico. No dia seguinte, voltaram ao ar. Até a sexta-feira passada, foram doze aparições das cenas na tela da Globo. A emissora, ficou evidente, queria vingar-se da Igreja Universal, já que está sendo processada por ter abusado da imagem do bispo Macedo na minissérie Decadência. Numa mensagem transmitida pela Record, o bispo Edir Macedo, num ato raríssimo para a sua igreja, pediu desculpas aos católicos. Falando por telefone de Nova York, onde vive, disse: "Von Helder pensou e agiu como um menino". Afastou-o do programa e do cargo em São Paulo, e até o pastor Ronaldo Didini, que apoiou a atitude celerada de Von Helder, perdeu o cargo de apresentador do programa 25ª Hora e passará a servir à igreja em algum país da áfrica.

A atitude do bispo Von Helder contra a efígie é crime previsto no Código Penal. O artigo 208 proíbe "vilipendiar ato ou objeto de culto religioso" e estabelece uma pena que varia de um mês a um ano de prisão ou pagamento de multa. Na esteira do crime, a Polícia Civil de São Paulo até vasculhou os estúdios da Record em busca da estátua agredida. Um delegado abriu inquérito e já marcou a data, nesta semana, para ouvir Von Helder e o pastor Ronaldo Didini. Uma das práticas mais comuns da Universal é desprezar outras religiões e agredir seus símbolos. Durante os cultos, os pastores dizem o diabo da umbanda, xingam os orixás do candomblé e acusam adeptos do espiritismo de filhos do demônio. No entanto, não se tem notícia de uma mobilização para defender umbandistas ou kardecistas ou para denunciar a intolerância religiosa. "Esse episódio chamou a atenção por duas razões", diz o antropólogo Jefferson Barcelar, do Centro de Estudos Afro-Orientais, da Universidade Federal da Bahia. "Porque a mídia deu divulgação e porque eles mexeram com a religião majoritária do país, que é a Igreja Católica."

Mas é possível encontrar um terceiro e grande motivo para tanto barulho. É o fato de que quem mexeu com a Igreja Católica não foi uma seita de fundo de quintal, mas a cada vez mais poderosa Igreja Universal do Reino de Deus. De 1990 para cá, seus fiéis pularam de 900 000 para cerca de 3,5 milhões, num salto estratosférico de 280% - mais do que qualquer outra igreja. A Assembléia de Deus é muito maior, com um rebanho de 12 milhões de fiéis, mas está no país desde o início deste século. Já a Universal tem apenas dezoito anos. Começou num prédio de uma antiga funerária, no bairro da Abolição, no Rio de Janeiro; hoje disputa o segundo lugar de maior igreja neo-pentecostal do Brasil e já tomou o rumo do mundo. Tem cerca de 2 100 templos no Brasil e instalou sua cruz em 34 países, num total de 225 templos nos cinco continentes. Com 7 000 pastores, pode ser comparada com uma empresa de grande porte e estima-se que seu faturamento gire em torno de 800 milhões de dólares - mais do que a Alcoa ou a Pirelli do Brasil. Inspirada no Vaticano, a Universal tem até um banco. É o Banco de Crédito Metropolitano, que ocupa três andares num prédio na Avenida Paulista.
 
DÍVIDA QUITADA - Fundada em 1977 pelo bispo Edir Macedo e outros três evangélicos, a Universal nasceu da costela de outra igreja, a Nova Vida, criada no país por um missionário canadense. Nove anos depois da fundação, o bispo Macedo já era o único papa da igreja, com domínio total sobre tudo. Nunca parou de crescer, mas só despertou a atenção em 1989, quando comprou a TV Record, por 45 milhões de dólares. Até líderes de outras igrejas pentecostais ficaram impressionados com a riqueza da Universal e a voracidade com que se propunha a formar um império na área de comunicações. A primeira aquisição foi a Rádio Copacabana, em 1984. Mas, de lá para cá, a Universal é o reino da televisão. A Record, que no início do ano tinha doze emissoras, já está com 47, e sua dívida de 300 milhões de dólares foi quitada integralmente. Tem ainda 26 rádios e é dona de duas revistas e dois jornais para público evangélico, além de um jornal comum, o Hoje em Dia, de Belo Horizonte. A propaganda é a alma do negócio. Numa rádio no Rio, seus locutores procuram conquistar novos fiéis com um reclame simples, rápido e direto: "Venha para a Igreja Universal, onde o milagre é uma coisa natural".

O império de comunicações é uma porta de entrada para os fiéis. Quando quer implantar-se num lugar, a igreja preocupa-se apenas em ter um templo - em geral são velhos cinemas ou teatros - e um espaço no rádio ou na TV. É pela mídia, conclama o rebanho. Nos Estados Unidos, pregar pela televisão é uma prática antiga, dá uma tremenda amplificada ao que é dito no púlpito e rende mares de dinheiro. No Brasil, a pregação pela televisão começou ainda na década de 60, num programa evangélico exibido pela TV Tupi. A novidade está no marketing evangélico e agressivo da Universal. Nos Estados Unidos, os Jimmy Sweggart da vida pregam em nome próprio e lhes basta que seu público ouça o que dizem. Já o bispo Edir Macedo não permite pregação em nome deste ou daquele pastor, mas só em nome da Universal. E também não se contenta em ter telespectadores, mas sim crentes dentro do templo. Nos programas da TV Record, são freqüentes as chamadas de fiéis para cultos e a divulgação dos endereços dos templos. "Daqui a pouco haverá evangelização pela Internet", prevê José Cabral de Vasconcelos, 47 anos, entronado há um ano como teólogo oficial da igreja.

VAGA PARA PASTOR - A Universal tem uma estrutura vertical, na qual quem manda mesmo é o bispo Edir Macedo. Mas tem um exército mais aguerrido do que qualquer outra religião em ação no Brasil. Na base da Universal, há milhares de obreiros, cuja tarefa é auxiliar crentes durante os cultos, receber os que entram num templo pela primeira vez e conversar com todos sobre qualquer problema. Os homens vestem camisa branca, e calça, gravata e sapatos pretos. As mulheres usam saia azul-escura e blusa listrada de branco com azul-claro. Voluntários, os obreiros não ganham salário, eles próprios definem seu expediente, mas exige-se que estejam presentes sempre no culto do segundo domingo do mês. Os pastores, que comandam um templo ou um grupo deles, trabalham em tempo integral. Abandonam os estudos e, no caso dos solteiros, a família. Ao atingir o pastorato, são obrigados a casar. Como os templos da Universal nunca fecham, os pastores trabalham da manhã à noite e nunca têm folga num final de semana. Em média, recebem 1 500 reais por mês, mas a igreja lhes dá casa, carro, telefone, celular, paga a escola dos filhos e, às vezes, lhes fornece até alimentação.

Os bispos vivem um pouco melhor. Suas casas são espaçosas, o carro é de melhor qualidade e o salário não é fixo. Fazem as retiradas necessárias do cofre da igreja. Em geral, pastores e bispos são pessoas de origem humilde e desfrutam uma qualidade de vida que a maioria nunca sonhou. O bispo Carlos Alberto Rodrigues, fundador da igreja junto com Macedo, mora numa cobertura de 500 metros quadrados em Belo Horizonte, num dos bairros mais valorizados da cidade. É vizinho de deputados, industriais e fazendeiros. Em troca do conforto, a Universal exige dedicação diária integral, aguerrida e cega. Todos estão sujeitos a transferências - de templo, de Estado ou mesmo de país - a qualquer hora e sem aviso prévio. Nem todo obreiro vira pastor e nem todo pastor vira bispo. Pode acontecer até mesmo de bispo voltar a ser pastor. "Aí entra a questão da vocação", diz o teólogo Cabral de Vasconcelos. "A gente estimula isso até porque a igreja está crescendo muito. Hoje, se tivéssemos 300 pastores, teríamos onde colocar todos de imediato."
 
ENTREVISTA COM O DEMÔNIO - Com um império de comunicações e soldados xiitas, a Universal foi montada na hora certa. A Igreja Católica perdeu o senso de espetáculo das suas missas e o rebanho ficou desorientado entre o secularismo da Teologia da Libertação e o conservadorismo anacrônico de João Paulo II. Enquanto os cultos da Universal são uma atração, tudo o que os católicos podem fazer é tentar manter seu rebanho com o movimento carismático. Os pastores da Universal dispõem de inteira liberdade para atuar. Não há hora certa para cantar, rezar, exorcizar os demônios dos crentes ou para convidá-los a dar dinheiro. Com isso, funcionam como animadores de um show, falam alto, correm de um lado ao outro do palco e promovem o espetáculo medindo a temperatura da platéia. Na hora dos exorcismos, é uma catarse coletiva. Há gritos, histeria, desmaios e encarnações. Os fiéis que incorporam os demônios mais agitados são levados para o palco. Ali, os pastores entrevistam o demônio e desafiam-no aos gritos: "Sai, Exu! Sai, Satanás!" Quem entra num templo durante essa histeria coletiva tem a impressão de chegar a um hospício numa hora de rebelião furiosa. Além de ser uma atração, a coisa faz sucesso. Os pentecostais, historicamente, usam o exorcismo e falam em demônios. Mas a Universal é a que mais ênfase dá aos diabos que povoam o mundo dos homens.

Para os adeptos da igreja, o planeta está tomado por demônios. É o que pregam os pentecostais, surgidos a partir de um racha dos metodistas, no início do século. Em comum, metodistas e pentecostais dispensam intermediação eclesiástica, ignoram clérigos, crêem na manifestação do Espírito Santo e na cura. Dos pentecostais, que chegaram ao Brasil na década de 10, surgem os chamados neopentecostais, na década de 70, e deslancham uma prática de ênfase no exorcismo. A base teológica é uma visão dualista do mundo. Há o mundo espiritual, onde Deus e o diabo travam uma disputa intestina, e há o mundo dos homens. É na terra que os espíritos do bem e do mal encontram o campo de batalha. Assim, o demônio, na busca do triunfo sobre o divino, se apossa de tudo. Expulsá-lo do corpo dos homens é o triunfo do bem sobre o mal. "Cristo passou mais tempo expulsando demônios do que pregando", afirma o teólogo Cabral. "Pelo que a Bíblia fala e pelo que a gente vê acontecer, os demônios não estão só nas religiões, nos cultos que adoram entidades que consideramos demoníacas, mas estão em tudo o que é mau."

A guerra entre Deus e o diabo é o núcleo da pregação da Universal. Com isso, seus pastores e bispos mantêm um pé no medievalismo, e justificam assim tudo o que consideram ser bom ou ruim. Na eleição presidencial, foram capazes de subir aos púlpitos para garantir que o diabo usava barba, numa referência a Lula, do PT. Mais do que o sentimento anticomunista que embalam, os adeptos de Macedo tinham medo, mesmo, é de assistir ao triunfo eleitoral de um partido identificado com a Igreja Católica. Com essa visão de mundo tosca, a Igreja Universal seria apenas mais uma seita na paisagem brasileira. Mas ela tem três traços que a distinguem radicalmente. Primeiro, ela enfrenta as outras religiões, ataca-as com fanatismo, disputa no tapa o mercado de fiéis em potencial. Segundo, a Igreja Universal gosta de dinheiro, e incentiva a sua busca. Essa característica, típica do protestantismo, faz com que ela seja uma igreja riquíssima e possa comprar muita coisa. E, em terceiro lugar, tem uma emissora de televisão, na qual defende os seus pontos de vista sem se preocupar em agradar à elite brasileira. Ela procura os pobres, que abarrotam os seus templos. E a elite, é claro, fica chateada com o crescimento da Universal, que não pára de se expandir. A bancada de deputados federais da Universal, por exemplo, que subiu de quatro para seis na eleição passada, preocupa-se muito mais com as novas portarias e os projetos que versem sobre concessão de rádio e televisão do que com o debate ideológico.
 
AGÊNCIA DE CURA - A Igreja Universal cresce porque oferece aos pobres o reino dos céus na terra. Oferece saúde, prosperidade material e felicidade já. Ela, muito justificadamente, tem fama de pronto-socorro espiritual, de se apresentar como uma agência de cura, milagreira e manipuladora. Só que também é mais que simples manipulação. "É uma igreja capaz de mobilizar uma parte da população que estava marginalizada", diz a socióloga Maria das Dores Campos Machado, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, que estuda o assunto. "Ali, as pessoas recebem uma motivação." A Universal cresce muito nas capitais, em especial São Paulo, Rio e Salvador - por coincidência, ou não, são as que têm a maior concentração de adeptos de cultos afro-brasileiros e do kardecismo, ramos que a Universal mais combate. Nas capitais, o local do fermento está na periferia, não no bairro dos Jardins, em São Paulo, ou na beira da Vieira Souto, no Rio. Ela se interessa por um público que o Estado esqueceu, ocupando seus vazios. A igreja acolhe mendigos, drogados e prostitutas. Não causa espanto a nenhum obreiro se, num templo, entra um travesti em trajes sumários. Eles o acolhem e ouvem seus problemas. Dão conforto espiritual e solidariedade. Há pouco mais de dois anos, a igreja instalou-se dentro do Carandiru, o maior presídio de São Paulo. Já tem 200 fiéis, entre os 1 200 presos que têm alguma religião. "A maioria se converteu aqui dentro", diz o pastor batista Wilson de Paula, que coordena as atividades religiosas do Carandiru.

Em cada templo existem centenas de histórias trágicas, protagonizadas por pessoas que podem até estar mal, mas estiveram pior. A mineira Sandra Davi, de 38 anos, conta que era uma sem-teto. Andava pelas ruas e dormia embaixo de viadutos. Prostituía-se para comer, comprar cigarro e bebida. Entrou num templo da Universal e está a caminho do final feliz. Trabalhou como doméstica e hoje tem um barraco no morro. "Antes, só tinha uma peça para vestir, agora não dá para enfiar a mão no meu armário, de tanta roupa", diz. A pernambucana Nair Ribeiro, de 55 anos, procurou a igreja no dia em que o marido apontou uma arma para sua testa. Converteu a família inteira. O segurança Francisco Antônio de Souza, de 38 anos, trabalhava à noite e consumia cocaína para não dormir. Na saída de um inferninho, levou uma facada. Quase morreu, entrou em depressão e foi içado do poço pela Universal. Hoje, é obreiro da igreja e comprou uma casa de dois cômodos.

Todos eles freqüentam a igreja e atendem aos apelos frenéticos feitos pelos pastores para que dêem dinheiro. Enquanto os de fora encaram isso como ignorância dos fiéis, ou exploração da miséria pelos pastores, quem está dentro sabe por que desembolsa dinheiro. "É preciso entender que as pessoas que estão lá têm um retorno", afirma a socióloga Maria das Dores. Esse retorno pode ser social, moral, mas é também espiritual. Aplastada com suas divisões, a Igreja Católica tem dificuldades de oferecer tanto o apoio social quanto o espiritual. E por isso está preocupada com a igreja de Edir Macedo - que resolveu, no dia da padroeira, enfrentá-la, elegendo Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil, no seu próprio dia, como alvo. "Na história do protestantismo no Brasil, os evangélicos sempre foram perseguidos", diz o sociólogo Ricardo Mariano, da USP, autor de um excelente estudo sobre os pentecostais. "Agora, pela primeira vez, passaram a perseguidores." O espetáculo protagonizado pelo bispo Von Helder pode ter sido um erro de cálculo, à medida que a Universal não esperava que a Globo usasse as imagens para atacar a igreja e sua emissora. Mas ele mostra que a Universal já está considerando-se forte o suficiente para fazer o que nenhuma outra religião jamais fez no Brasil: enfrentar a Igreja Católica.


O bispo que arrebenta

Von Helder é um pregador do barulho

Na Universal, não há pregador que faça mais sucesso do que o bispo que chutou a estátua de Aparecida. Sergio von Helder, 36 anos, entrou para a igreja em 1988. Teve uma carreira meteórica, indo de obreiro no Rio de Janeiro a bispo de São Paulo, função que ocupava quando foi afastado depois da confusão com Nossa Senhora Aparecida. Cresceu porque tem duas virtudes. Ao falar, só falta fazer a terra tremer. Em seus cultos, como um animador de programa de auditório, corre de um lado para o outro no altar, gesticula freneticamente, aponta para todos os cantos do templo, olha para cima, vira os olhos para o chão, sua em bicas, empapa a camisa e termina o trabalho como se tivesse corrido uma maratona, de tão esbaforido. Para arrecadar dos fiéis, também é um talento. Quando pede dinheiro, grita frases como: "Se você tem mais na bolsa e não quer dar, é o diabo". Entre os pastores, é conhecido como "o bispo que arrebenta".

E arrebenta mesmo. Em Fortaleza, onde presidiu em 1989 a seccional da igreja no Ceará, Von Helder fez sucesso chamando Padre Cícero de "padreco" e incitando os pastores a quebrar e chutar suas imagens. A cada culto, eram destruídas três imagens de gesso do padre venerado pelos nordestinos. Na última campanha presidencial, Von Helder arrebentava contra o candidato Lula, do PT. Foi ele quem inventou que o diabo é um sujeito barbudo, que fala com a língua presa e tem um dedo a menos numa das mãos. Graças ao baixo nível e à agressividade, Von Helder se deu bem. Antes de abandonar suas funções, morava num imóvel da igreja de 1 000 metros quadrados na Chácara Flora, um bairro nobre de São Paulo. Descendente de luteranos austríacos, casado e pai de duas meninas, Von Helder teve uma infância humilde. Pensou em ser jogador de futebol, já que, nos campos do Rio, era um excelente meia-esquerda. Acabou trocando as chuteiras pelos coturnos. No Exército, tentou seguir carreira, mas saiu como capitão reformado. Acertou a mão quando enveredou no mundo religioso. Errou ao enfiar os pés pelas mãos.


Ele é um milagre

Empresário nato e pregador
vibrante, Edir Macedo veio do nada
para arrastar milhões

Mente quem diz que o bispo Edir Macedo nunca operou um milagre. Seu maior milagre foi ter sobrevivido. A dona de casa Vera Macedo Vinagre, de 64 anos, tia do bispo, que mora em Rio das Flores, no Rio de Janeiro, terra natal do bispo, lembra: "A Geninha (Eugênia Macedo, mãe de Edir Macedo) ficou grávida 33 vezes, mas só pariu quinze vezes. Quando ela ficava grávida, fazia abortos. Dos quinze, só sete crianças, quatro mulheres e três homens, alcançaram a vida adulta: Eraldo, Edir, Edna, Eris, Madalena, Elcir e Celso. A Geninha sempre teve uma vida simples e nunca deixou de fazer os serviços da casa. Até hoje". Com tamanha taxa de abortos e mortes prematuras na família (80%), o bispo escapou por milagre.

Depois, montou a igreja mais barulhenta do Brasil. Saiu do nada para ser bajulado por políticos em tempo de eleição e perseguido, processado e caçado durante o resto do tempo. Os parentes de Macedo alimentam interpretações quase míticas sobre o nascimento de "Didi", como era chamado. Amarílio Macedo, 72 anos, analfabeto, dono de uma humilde barbearia em Rio das Flores, lembra-se com clareza do dia do nascimento do sobrinho Edir. "Foi quando houve uma explosão na caldeira da cooperativa de leite aqui. Foi uma explosão tão violenta que matou cinco pessoas. Voaram pedaços da caldeira para todos os lados até 2 quilômetros de distância. E o Didi veio com essa explosão: já nasceu fazendo barulho", conta Amarílio.

O time de pastores da Universal o admira de tal forma que segue à risca o modelo do chefe e líder. Falam como ele, sejam paulistas, baianos ou gaúchos. Todos os missionários da Universal arrastam o "r" como um típico fluminense de Rio das Flores, pequeno município onde o sumo pontífice neopentecostal nasceu. Também entremeiam as perorações durante os cultos com o "Amém, Jesus!" que Macedo adaptou, como muleta de linguagem, do "Praise the Lord" dos evangélicos americanos. Mesmo pregadores com bastas pilosidades cultivam o hábito de jogar madeixas das laterais da cabeça para o cocuruto. Em Macedo, é um truque para ocultar a calvície. Nos pupilos, tentativa de ser tal e qual o mestre. Até o gestual é semelhante - mesmo considerando a particularidade de a mímica do bispo ser prejudicada por uma malformação genética que atrofiou seus polegares, de espessura pouco maior que a de uma caneta. São cópias de uma matriz que tem mesmo muito a ser imitado. Ou serão duas?
 
LAPTOP ON LINE - Por trás da figura do bispo Edir Macedo há, ao menos na aparência, dois homens bem distintos: de um lado, o empresário nato, à vontade com balanços contábeis, e negociador habilidoso. Organizador competente, Macedo sabe a hora de guardar a retórica pentecostal e sacar o laptop que o acompanha todo o tempo para checar - on line - a movimentação financeira de suas empresas. Um advogado da enorme equipe que o assessora é testemunha disso: "Ele tem uma clareza mental cartesiana. Quando quer, é 10 de racionalidade e zero de misticismo. Trata-se de um calculador incansável de custos e benefícios". Em dez longas conversas que manteve com esse advogado, o bispo foi capaz de nem uma única vez citar a Bíblia. A fala, nesses encontros, foi calma, a voz, pausada. "Macedo nunca faz brincadeiras com as pessoas que convivem com ele. Não tem nenhum senso de humor. Não bebe. Não fuma. Nos jantares, só toma água mineral. Na verdade, acho que ele é quase um tímido", diz o defensor.

De outro lado, está um crente fanático nos dotes do Espírito Santo, pregador ardoroso e carismático. Quando ele diz que "o Evangelho é poder, e poder tem de ser exercido, para a derrota de Satanás e a glória de Deus", mesmo seus adversários mais renhidos admitem: há sinceridade. O bispo acredita. Exortações violentas dão lugar a longos silêncios, em que a platéia prende o fôlego, à espera de nova arremetida. Ele se ajoelha, derrama lágrimas copiosas, brande a Bíblia como uma arma cujo alvo é o demônio. Show total. Qualquer um que vê o fundador da Universal em ação num dos megacultos que a igreja patrocina em estádios de futebol se impressiona com os recursos dramáticos de que ele é capaz.

Os adversários do bispo gostam de explorar essa dualidade para acusar a Universal de grande farsa, a explorar a boa-fé dos humildes. A crítica deve imaginar que o prelado responsável pelas finanças do Vaticano tem transes místicos quando precisa investir as economias da Santa Madre. Tais ataques levaram o bispo Macedo a amargar onze dias de prisão em 1992, nos quais ele se portou como mártir do cristianismo a denunciar a hipocrisia dos fariseus. Vem daí o poder de siderar fiéis. Mas, se fosse só isso, sua igreja não passaria de mais uma dentre as centenas de denominações protestantes que vicejam no país. Jogue-se de lado, por um momento, a crença católica nos temas bíblicos tradicionais do martírio, sacrifício, na negação dos prazeres da carne e das coisas deste mundo. Esqueça-se, por alguns instantes, a pregação de Jesus ("É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus") para que se faça um mergulho na Teologia da Prosperidade, professada pelo bispo. É ela que dá consistência e unidade às duas faces do líder da Universal. "Os negócios aqui na terra são administrados pelo homem. Se for inteligente, astuto e souber aproveitar as oportunidades, esses dons, aliados à bênção divina, farão dele uma pessoa tremendamente próspera", diz Macedo.

Foi o que ele fez, com competência, boas relações e, é claro, uma dose de fé. Em 1962, aos 17 anos, Edir Macedo foi contratado como servente pela então Loteria do Estado da Guanabara, por indicação - leia-se apadrinhamento - do então governador do Estado, Carlos Lacerda. Na época, ele só tinha cursado até o 2º ano ginasial. No ano seguinte, melhorou de vida: foi promovido a contínuo. A cada ano subia mais um degrau dentro da Loteria. Em 1964, passou a auxiliar administrativo D. Em 1965, foi ser auxiliar B. Um ano depois, chegou a auxiliar A. Em setembro de 1977, quando ocupava o cargo de agente administrativo, pediu uma licença sem vencimentos. Foi nesse ano que fundou a Igreja Universal do Reino de Deus. Ficou quatro anos sem trabalhar. Em setembro de 1981, Macedo pediu demissão da Loteria. Foi o começo da fortuna.
 
MÃO FROUXA - Fortuna que não aliviou seus problemas físicos. É também o tio Amarílio, o barbeiro, quem conta: "Os dois dedos polegares do Edir são fininhos, da espessura de uma caneta, mexem pouco, a articulação próxima à palma da mão é dura. Também os fura-bolos são diminutos. Esse defeito é de nascença, o Didi já veio predestinado, marcado". Deve ser difícil para um homem vaidoso como Edir Macedo, sempre de terno e gravata, que usou peruca durante seis meses para ocultar a calvície, conviver com o problema congênito nas mãos, extremamente brancas. Ao apontar, o bispo sempre o faz com o dedo médio, aquele usado para ofender as pessoas. Isso não o impede de segurar o microfone nos cultos, mas fica estranho quando ele aponta, e faz muito isso quando prega para platéias. Inimigos do bispo tiram proveito disso. Um pastor rival chegou a descrever: "O bispo pega na mão de maneira frouxa e furtiva, como um covarde. Não aperta". Como poderia?

O próprio Edir Macedo admitiu certa vez  que a genética mudou sua vida em pelo menos uma ocasião. "Minha segunda filha, Viviane, nasceu com lábio leporino. Era uma deformação imensa, que praticamente eliminava o céu da boca. Esse nascimento foi uma agonia e me fez decidir que não ficaria mais na igreja em que estava. Eu partiria para anunciar o que Deus me havia revelado." Surgia a Universal. Dezoito anos depois, um pequeno império de comunicações como patrimônio e uma fonte inesgotável de riqueza na massa crescente de fiéis, Edir Macedo mora nos Estados Unidos. A partir de Nova York, tenta abrir tentáculos definitivos sobre o mundo. "Os cristãos devem perseguir os demônios. Nossa luta é muito mais de combate do que de defesa. Devemos nos armar de toda a armadura de Deus para libertar os oprimidos de todo o mundo. A igreja deve ser triunfante e estar sempre na ofensiva." Está sendo. Os clones de Macedo preparam-se para a conquista do planeta.


 
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