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25 de outubro de 1978
O papa do leste

Um polonês no trono de São
Pedro não só quebra uma
tradição de quatro séculos
como dá a certeza de que
a Igreja mudará muito mais

Quando a coroa da Santa Sé foi colocada na cabeça do holandês Adriano VI, em 1522, por mais de quatro séculos o último papa não-italiano da Igreja Católica, o mundo recém-tomava conhecimento da descoberta do Brasil e o rei dom João III, de Portugal, apenas começava a disparar tiros de bombarda nos corsários franceses que cobiçavam as riquezas naturais de sua promissora colônia. Depois de aquela cerimônia se repetir por outras 45 vezes, finalmente neste domingo, dia 22 de outubro de 1978, um não-italiano volta a ascender ao trono de São Pedro: o polonês Karol Wojtyla, 58 anos, cardeal de Cracóvia, com o nome de João Paulo II, numa tripla homenagem a seus antecessores João XXIII, Paulo VI e João Paulo 1. Há bons motivos para que todos esses pontífices sejam lembrados no futuro, mas João Paulo II, escolhido há apenas uma semana, após o singelo pontificado de 34 dias de João Paulo I, ostenta ainda outros feitos inéditos. Pela primeira vez nos 2.000 anos da Igreja é eleito um papa de nacionalidade polonesa e, ainda, cujas formação e militância religiosa se processaram num país solidamente marxista. Além disso, atropelando o mito que vincula sabedoria e idade provecta, o novo papa pode chegar a conduzir a Igreja através do milênio: tem vasta cultura e um físico de incansável esportista.

Essas características, aliás, fazem prever um longo pontificado, capaz de alterar substancialmente as linhas do catolicismo mundial. Afinal, partindo de um conhecimento pessoal do mundo comunista, onde viveu até quinze dias atrás, e sendo, como manda sua fé, um inimigo de todas as formas de ateísmo, João Paulo II tem como nenhum de seus antecessores a possibilidade de afirmar a verdadeira universalidade da Igreja. Sua personalidade, segundo o vaticanólogo italiano Enzo Bettiza, só pode ser analisada naquele contexto. "Karol Wojtyla vem de um catolicismo militante, austero, politizado, que somente a retórica continua a identificar como sendo do silêncio", escreveu Bettiza no Il Giornale. "A Igreja polonesa não é apenas uma Igreja que continuou a falar em alto e bom som, mas que colocou o poder comunista em tais dificuldades que chegou a alterar os próprios termos do conceito de perseguição." E, mais adiante: "A situação realmente é única no universo comunista: hoje, é o Estado polonês e não a Igreja que sofre de complexo de inferioridade".

ESTRONDOSA OVAÇÃO - Na solene missa que celebrou o início do pontificado de João Paulo II, no átrio da Basílica de São Pedro, também havia sinais concretos de que começa para a Igreja um período certamente frutuoso. Entre reis, presidentes e diplomatas chefiando delegações de todo o mundo, encontrava-se o chefe de Estado polonês Henryk Jablonski, representante do mesmo regime que há vinte anos pusera na cadeia o cardeal Stefan Wyszynski, de Varsóvia, igualmente presente à cerimônia. Segundo a imprensa italiana, que anunciara com destaque na semana anterior a presença de Jablonski, ele ainda seria portador de um convite oficial para o papa participar das comemorações do nono centenário de Santo Estanislau, padroeiro da Polônia, a serem realizadas em maio do próximo ano. Lá estava também o arcebispo de Canterbury, chefe dos 65 milhões de fiéis da Igreja Anglicana, pela primeira vez comparecendo à posse de um pontífice católico, desde a separação de ambas as igrejas, no século XVI, antecipando talvez uma iminente reaproximação ecumênica. E, por último, os milhares de fiéis romanos, ocupando delirantemente a praça de São Pedro, testemunhando o por eles chamado de "o papa que veio de longe", que o receberam com o mesmo calor e afeto tributado a seus antecessores italianos.

É bem verdade que no fim da tarde de segunda-feira, dia 16, quando o cardeal Pericle Felici anunciou o "Habemus papam" e pronunciou em latim aquele nome "estrangeiro", houve momentos de perplexidade e aplausos tímidos na praça de São Pedro. Alguns minutos depois, porém, quando a figura vigorosa do segundo papa de nome João Paulo apareceu no balcão central da Basílica de São Pedro, para a primeira bênção, ouviu-se uma estrondosa ovação. "Tive medo de receber este encargo", disse ele num italiano bastante correto, interrompido por aplausos intensos, "mas o fiz no espírito de obediência a Nosso Senhor e confiança total na sua Mãe, Senhora Santíssima." Mais uma vez, ainda, o novo papa citaria Nossa Senhora, a figura eclesiástica mais cara aos italianos e, finalmente, diria com cativante modéstia: "Mesmo que eu não saiba me explicar na vossa língua italiana - nossa língua italiana - espero que me corrijam".

ESPIRITO PASTORAL - "Mas elegeram um papa comunista?", perguntou candidamente uma velha senhora, que esperava mais um papa italiano, diante das câmaras de televisão. "Não", respondeu-lhe um jovem a seu lado. "É polonês, mas católico. E, se entender de religião como seus patrícios conhecem o futebol, vai ser um grande papa." Na verdade, em menos de 24 horas de pontificado, João Paulo II deu mostras de prático espírito pastoral ao deixar o Palácio Apostólico da Santa Sé para visitar um amigo doente no Hospital Gemelli de Roma - o monsenhor polonês Andrea Deskur, presidente da Pontifícia Comissão para a Comunicação Social, vítima de um derrame cerebral na véspera do conclave. E, da mesma forma como João XXIII embaraçou a formal Cúria Romana, logo após sua eleição, revelando aos presos da penitenciária de Roma que tinha medo da cadeia "por ouvir em criança histórias terríveis de um tio que esteve preso", João Paulo II surpreendeu pela sua linguagem descomplexada, pelo estilo franco e modesto. No Hospital Gemelli, falando aos doentes, agradeceu a Deus por permitir que saísse às ruas tão logo eleito, "pois, devido ao entusiasmo, podia acontecer que o papa necessitasse ficar aqui para ser tratado". Encerrando esse discurso, o novo papa já ia retirar-se quando o monsenhor Giuseppe Caprio, substituto do secretário de Estado do Vaticano, chamou-o de volta, sussurrando algo em seu ouvido. "Desculpem-me, lembraram-me que devo dar a bênção", disse João Paulo II aos presentes. "Ensinam-me a ser papa."

Mas isso talvez não seja necessário. "A julgar pelos primeiros dias de seu pontificado", observou a VEJA um articulado Prelado do Palácio Apostólico, "parece que Wojtyla passou a vida se preparando para o pontificado." E acrescentou: "Até agora ele nada fez de errado, a não ser na terça-feira, dia 17, quando deixou de tomar seu elevador privativo e perdeu-se por alguns minutos pelos corredores". Sintomaticamente, o próprio cardeal Giovanni Benelli, de Florença, apresentado como um de seus principais contendores no breve mas aguerrido conclave dos dias 15 e 16, qualificou-o de "o homem justo no momento justo". E, de fato, pelo menos até o final da semana passada, João Paulo II teve o cuidado de não fazer qualquer menção que indicasse uma eventual alteração na Ostpolitik vaticana, a controvertida política de aproximação com o leste europeu. Na Cúria Romana, no entanto, ninguém tinha dúvida de que, mesmo decidindo levá-la adiante, o novo papa, profundo conhecedor da doutrina marxista, alterará sua tática. Juntamente com seu colega Wyszynski, o então cardeal Wojtyla manifestara reiteradas vezes algumas reservas a certas concessões da Ostpolitik imprimida durante o reinado de Paulo VI pelo monsenhor Agostino Casarolli, na prática o ministro das Relações Exteriores da Santa Sé.

FLEXIVEL E DINÂMICO - Apesar de jamais haver sequer se estremecido com o colega Wyszynski, porém, o ex-cardeal Wojtyla não endossava seu absoluto pessimismo diante das possibilidades da Ostpolitik e não acompanhava integralmente sua opinião sobre as relações da Igreja com o regime de seu país. Na Polônia, o futuro João Paulo II - tido como refinado político - adotava uma posição freqüentemente mais conciliadora em relação ao governo comunista, embora se manifestasse firmemente, em diversas ocasiões, sobre questões sociais e econômicas, chegando mesmo a encorajar reivindicações salariais de trabalhadores. De fato, Wojtyla sempre pareceu excepcionalmente preparado para esgrimir em política e diplomacia tanto quanto em teologia. Quando foi nomeado cardeal em 1967, já havia publicado mais de 300 ensaios em revistas teológicas e alguns livros. Por seus cursos e contatos internacionais aprendeu a falar razoavelmente o inglês e perfeitamente o italiano, o alemão e o francês. Seus sólidos conhecimentos teológicos, provados em diversas intervenções em todos os cinco sínodos dos bispos, completam uma autoridade moral respeitada continuamente pelo governo polonês nos últimos anos. Mais flexível e dinâmico que o rígido Wyszynski, "Wojtyla dialogava com o Estado sem ingenuidade e também sem arrogância", declarou a VEJA um analista romano em política eclesiástica.

Já no Concílio Vaticano II, Wojtyla havia assumido uma posição moderada na questão Igreja-Estado, declarando "não ser tarefa da Igreja dar lições aos não-crentes". Sua abertura ecumênica também era clara, pois recusava para a Igreja "o papel de monopolizadora da moral". Desde essa época, portanto, o futuro papa João Paulo II comportava-se de modo consistentemente aberto, obviamente influenciado pela estratégia pastoral que desenvolvera sob o regime comunista, esperando-se agora de seu pontificado a concretização dos ideais conciliares básicos. Mesmo porque, durante a missa que celebrou no dia 17, na Capela Sistina, aos cardeais que o haviam escolhido na véspera, ele declarou textualmente: "Antes de tudo, desejamos insistir na permanente importância do Concílio Vaticano II, e isso é para nós uma promessa formal de dar-lhe a devida execução". Além disso, há a considerar o fato de os "grandes eleitores" (purpurados capazes de mudar os rumos de um conclave) de João Paulo II terem sido os cardeais Franz König, da Áustria, Bernard Alfrink, da Holanda, Leo Suenens, da Bélgica, e Joseph Höffner, da Alemanha Ocidental, justamente os lançadores das sementes do Concílio Vaticano II, vinte anos atrás.

CONTRA OS BÁRBAROS - Com base em tais pistas, o vaticanólogo romano Sandro Magister arrisca-se a vaticinar que, sob o pontificado de João Paulo II, "a imagem de uma Igreja prevalentemente latina e atlântica dará lugar à imagem de uma Igreja multinacional e transcultural". Em sua opinião, essa mudança se refletirá primeiro na Itália e, depois, no restante do mundo. "A Itália será mais leiga, menos confessional", garante Magister. "E o Partido Democrata Cristão será mais europeu e menos eclesiástico." Segundo comentou em editorial o jornal milanês La Repubblica, de centro-esquerda, "o Vaticano tem sido nos últimos trinta anos, para o bem ou para o mal, um ponto de referência para o maior partido político da Itália".

Outros observadores consideram que a larga experiência do novo papa em negociações com o regime comunista polonês lhe conferiu qualificações especiais não só para lidar com os partidos "eurocomunistas" da Europa ocidental, mas, particularmente, com o italiano. E, com relação ao Terceiro Mundo, os mesmos observadores acreditam que a esperada postura "multinacional e transcultural" de João Paulo II proporcione uma maior autonomia a suas igrejas na elaboração de suas múltiplas necessidades pastorais. O cardeal Paulo Evaristo Arns, de São Paulo, não conseguia disfarçar a euforia: "Foi como se tivesse vencido um cardeal do Terceiro Mundo".

Para os cardeais do Terceiro Mundo e os progressistas de modo geral, realmente, João Paulo II oferece a militância de uma Igreja pobre, voltada para a ação pastoral mas aberta aos problemas do mundo. Contudo, também os conservadores se mostravam esperançosos - para eles, o ex-cardeal de Cracóvia entronizava no trono de São Pedro uma decidida oposição ao comunismo.

Associando-se às manifestações de alegria pelo resultado do conclave, Civiltà Cristiana, movimento tradicionalista ligado ao arquidireitista monsenhor Marcel Lefebvre, expressava num panfleto "a satisfação pela escolha de um filho dessa Polônia mariana, autêntica e heroicamente sempre católica, baluarte da civilização cristã contra os bárbaros".

REFORMAS ESTRUTURAIS - Naturalmente, alguns meses se passarão até que se possa notar a marca do estilo de João Paulo II. O cardeal Hyacinthe Thiandoum, do Senegal, apresenta-o como "um homem livre e que tem uma vontade de ferro". Essa qualidade, aliás, será de grande valia não só na condução dos negócios externos da Igreja como nos internos, já que qualquer autonomia concedida às igrejas do primeiro, segundo ou terceiro mundos implicaria uma redução dos poderes da até agora soberana Cúria Romana - o hierarquizado organismo político, administrativo e judiciário da Santa Sé. Que João Paulo II possui uma visão pessoal do problema ficou claro quando não confirmou imediatamente em seus cargos, como fez João Paulo 1, todos os antigos titulares da Cúria, à exceção do cardeal francês Jean Villot, na Secretaria de Estado. "Claro que João Paulo II não mudará ninguém nos primeiros meses", afirmou a VEJA um religioso íntimo da Cúria Romana. "Mas nada impede que, dentro de seis meses, ele queira ter ao seu lado pessoas de maior confiança, já que a Cúria Romana se opôs até o fim à eleição de um papa não-italiano."

Além de reformas estruturais, que certamente serão feitas dentro da tradição de longos prazos da Igreja, não faltam ao novo pontífice alguns compromissos urgentes, como uma decisão sobre o novo Código de Direito Canônico, a escolha do tema do próximo Sínodo dos Bispos, previsto para o ano que vem, a fixação da data da conferência episcopal a ser realizada em Puebla, no México, e a nomeação de novos cardeais.

Há dez vagas, mas somente cinco nomes certos para receber a púrpura - o brasileiro Ivo Lorscheiter, secretário da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, provável futuro cardeal de Manaus, é um deles. Para um papa de saúde frágil como João Paulo I, essas teriam sido provavelmente tarefas sobre-humanas. João Paulo II, no entanto, além da solidez intelectual, possui um invejável preparo físico para suportar o peso simbólico da tiara pontifícia. Por todas essas razões, o bispo Bronislaw Dabrowski, secretário da Conferência Episcopal Polonesa, e provável sucessor do ex-cardeal Wojtyla em Cracóvia, estava certo, no final da semana passada, de que, "se o quiser, João Paulo II tem condições de deflagrar uma revolução na Igreja em todo o mundo".


 
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