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25 de outubro de 1972 Allende
e o drama chileno
E os violinos
tremem. A trompa soa longínqua, a orquestra inteira se debate num crescendo
furioso. No palco, Rigoletto dá-se conta de que a maldição
que o perseguiu durante quatro atos finalmente o alcançou. A platéia
do Teatro Municipal de Santiago, na noite de quinta-feira da semana passada, aplaudiu
de pé, durante vários minutos, a récita extraordinária
da ópera. A saída, programas do espetáculo eram jogados em
cestos de lixo que ainda continham panfletos e cartazes usados na véspera,
num importante ato do drama em que o presidente da República do Chile,
Salvador Allende, parece marcado por um estigma tão trágico quanto
o do malfadado personagem de Verdi. Como
a sinistra casa dos Sparafucile na ópera, o Teatro Municipal - pesada construção
do fim do século passado que concilia detalhes barrocos com assépticos
banheiros de louça inglesa - foi o canário usado por A1lende para
tentar dar à profunda crise nacional as dimensões de uma simples
tormenta política. Mas, com quase dez dias de conflitos de rua, de estado
de emergência em 21 das 25 províncias do país, de greve nos
transportes e no comércio, as marcas de bombas" de gás no asfalto
e nas calçadas de ladrilhos amarelos de Santiago e outras marcas no espírito
dos chilenos pareciam tornar sua tarefa extremamente difícil. Ato
falho - Com uma intuitiva técnica teatral, Allende subiu ao palco do
Teatro Municipal com um sobretudo cinza, que tiraria num só gesto durante
a ovação iniciada com aplausos tímidos e concluída.
aos gritos de "A-llen-de". Ao longo dos acordes do hino nacional, cantado
por todos, alguns levantavam os punhos cerrados, enquanto senhores com sombrios
ternos escuros não continham orgulhosas lágrimas. Contudo,
as palavras do presidente, minutos depois, arrefeceram ânimos e contiveram
entusiasmos. Para Allende, que presidia o nascimento da Frente Patriótica
de Profissionais e Técnicos, aquela era apenas mais uma etapa de sua luta
para permanecer na liderança de um governo minoritário. Como
outras frentes patrióticas trazidas à luz à custa de operações
de emergência, a dos profissionais e técnicos foi organizada para
reagrupar os simpatizantes da Unidade Popular, à margem dos sindicatos
controlados pela oposição. "O governo democrático e
constitucional do Chile, eleito livremente por seu povo, não admite ser
atacado por estar seguindo as mesmas leis e regras pelas quais aceitou governar",
entoou Salvador. Allende. Demonstrando um paradoxal bom humor, interrompeu os
aplausos para dizer: "Não se faz uma revolução com aplausos
ou vaias". Ao ser imediatamente aplaudido por esta frase, gritou, interrompendo:
"Não aplaudam, não aplaudam". Mas, traído pelo
microfone, deixou-se ouvir dizer a seus companheiros de mesa: "Deve ser um
ato falho psicológico". Atos
voluntários - Na verdade, o país inteiro estava empenhado em
assumir papéis tensos e decididos, numa explosiva psicoterapia de grupo.
O Partido Democrata Cristão, sindicatos da oposição e larguíssimas
camadas da população civil acusavam o governo de repressão,
incapacidade, ilegalidade, e fraqueza. O doutor Allende, por sua vez, diagnosticava
que o país estava à deriva pela determinação quase
bélica de seus inimigos em tirá-lo do Palácio de La Moneda.
O Exército, em seu papel de executor da ordem civil e freio da desordem
nacional, apenas agia, preferindo opinar o menos possível. Como
pano de fundo às violentas críticas dos dois campos políticos,
as ruas da capital chilena estiveram em permanente mutação. Nesta
época do ano, a primavera cobre Santiago com o hálito fresco das
neves que se fundem ainda nos Andes, a apenas 40 quilômetros do centro da
cidade. Durante o dia, turistas e funcionários de escritórios das
ruas centrais corriam das bombas de gás e jatos de água fartamente
despejados pelos "carabineros" para reprimir manifestações.
Outros agrupavam-se em torno das bancas de jornais ou faziam enormes filas diante
dos quiosques de cigarro, produto raro e racionado. Ou ainda, com todas as lojas
fechadas desde sexta-feira e os transportes coletivos paralisados durante 24 horas
pela mais dramática adesão ao movimento grevista, havia quem procurasse
consolo numa refeição completa, em restaurantes de luxo. Em vão:
com a greve dos donos de caminhão, estopim da atual crise chilena, alastrara-se
o que os chilenos chamam de "desabastecimiento". O
véu da meia-noite, porém, vinha cobrir as ruas de silêncio
e medo. Do primeiro minuto da madrugada até as 6 horas da manhã,
o toque de recolher imposto pelo governo intimidava, indiscriminadamente, partidários
da oposição e do governo. Fernando Carrera Vil1avidencio, irmão
da senadora socialista Maria Elena Carrera, pagou com a vida sua desobediência
ao sono intranqüilo e forçado de Santiago: às 2h30 de sábado,
foi abatido a tiros pelos soldados por não parar seu veículo quando
intimado. O "compañero"
Bravo - Era difícil, contudo, nesse país de intensa atividade política,
pretender convencer os chilenos a não se agitarem durante o dia. Na segunda-feira,
o general Hector Bravo Muñoz, comandante militar da zona de emergência
de Santiago, ordenava inutilmente a reabertura das lojas e o reinício do
trabalho dos caminhões particulares. A tarefa de abertura forçada
de alguns estabelecimentos comerciais de primeira necessidade ficou a cargo de
funcionários do governo. O general Bravo, conhecido por sua energia, sua
filiação ao setor mais tradicional e legalista do Exército
chileno e pelo informalismo (os jornalistas costumam chamá-lo de "compañero"
durante suas entrevistas coletivas), preferiu usar parte de seus homens na defesa
dos comerciantes que desafiavam a ordem de greve e a ira dos grevistas. A
outra parte, mais numerosa e ostensiva, se incumbia de tarefa igualmente delicada:
manter a ordem nas ruas. De início,
sem interferir diretamente na repressão, tropas do Exército ocuparam
os principais pontos da cidade, fazendo circular patrulhas. Nas esquinas centrais
e na rua Ahumeda - principal artéria comercial -, jipes militares paravam
ao lado de grupos de manifestantes e engatilhavam suas metralhadoras repetidas
vezes, numa talvez ingênua tática de intimidação. Contudo,
o próprio aparato militar funcionava como ponto de atração,
pois nem mesmo o cidadão menos politizado estava disposto a perder algo
do que poderia acontecer de repente. Como, por exemplo, a agressão torrencial
de que foi vítima o ex-presidente (1958-1964) Jorge Alessandri, de 77 anos.
Ele caminhava por uma rua central de Santiago, rodeado por correligionários,
quando foi ensopado por um carro lança-água da polícia. Salvo
por um guarda-costas de uma pesada queda (tem mais de 1,80 m), Alessandri recuperou-se
do jato da mangueira e continuou sua caminhada, impávido e ensopado. Mas
nem todas as cenas tinham final tão prosaico. Invariavelmente, o aparecimento
de capacetes metálicos, escudos, lança-granadas de gás e
metralhadoras era seguido por prisões, atropelos, choques e agonias. Ou
mortes: na quarta-feira, Sergio Olivares Salas, mecânico de 24 anos, foi
morto a 85 quilômetros de Santiago, quando atirou pedras num caminhão
de gás liquefeito que viajava escoltado por marinheiros armados. Paradoxalmente,
o Palácio de La Moneda, funil receptor de todas as convulsões no
país, irradiava uma surpreendente calma. Nas manhãs de sol, alguns
cachorros sonolentos esticavam-se nos cantos da pequena esplanada fronteira, onde
costumam realizar-se cerimônias de apresentação de armas a
visitantes ilustres. Jornalistas de plantão
em seu portão principal tinham por único espetáculo repetidas
rendições de guarda e a vista, através de imensas grades,
de dois pátios: o primeiro abrigando um chafariz de bronze de indisfarçada
inspiração mourisca; o segundo, um pequeno jardim coberto de singela
grama inglesa e ornado com filas de laranjeiras floridas. O próprio Salvador
Allende, entre sucessivas reuniões de gabinete, ainda encontrava tempo
para receber as credenciais do embaixador sueco com todas as honras de praxe.
Os "upelientos" - Mas, apesar
de seguidos comunicados e declarações do governo através
da cadeia nacional de rádio e televisão, os 10 milhões de
chilenos - e em particular os 3 milhões de santiaguenses. - sentiam que
Salvador Allende lutava desesperadamente pela sobrevivência política.
Tomando sol na praça de armas, em
frente à catedral de Santiago, Simón Bonilla, comerciante de roupas
e sapatos, declarou a Marco Antônio Rezende, enviado especial de VEJA: "Não
durmo há três dias; mas me consolo sabendo que eles, os 'upelientos',
também não dormem". Não pode haver expressão
mais pejorativa para designar os partidos da Unidade Popular, mas o comerciante,
cuja loja estava havia dias de portas fechadas, talvez estivesse sendo até
comedido na indignação que compartilhava com uma larga parte da
população do país. Se
o movimento grevista tem caráter sedicioso e político, como acusa
o governo, ele não poderia ter sido desfechado em melhor momento. Ao tomar
posse, dois anos atrás, Allende passou a ter ao seu lado, automaticamente,
os fantasmas de uma crise financeira que começou assombrada por todos os
espíritos malignos de sua própria eleição. Após
o primeiro ano de governo havia alguns trunfos reais a apresentar ao país,
e a Unidade Popular fez deles o melhor uso possível. Em apenas dezoito
meses a participação dos assalariados na renda nacional subira de
52% para 60%. Para um governo que se declara representante do proletariado, aquele
parecia ser o caminho certo. Alucinados
- Mas todos os ambiciosos planos de redistribuição de renda
e democratização da produção encontram insuperáveis
dificuldades internas. A História, infelizmente para Allende, julga fatos
e não intenções. E aos problemas econômicos do governo
da Unidade Popular juntaram-se outros, como a incapacidade administrativa de novos
quadros repentinamente alçados ao poder, erros táticos na aplicação
do programa do governo, pressão externa e, por fim, o câncer que
corrói o país: a inflação. "A
política criminosa do governo tem feito os preços aumentarem de
100% em poucos meses", resmunga entre os dentes o motorista de táxi
Hector Kiss, orgulhoso de sua ascendência inglesa. "Eu mesmo gostaria
de abrir uma pequena indústria, mas não há incentivos. Prefiro
continuar dirigindo meu táxi (um Chevrolet último tipo mas já
decrépito) para pagar os aumentos de preços quando eles vêm."
De fato, em um mês (junho), o quilo de carne passou de 40 escudos (l dólar,
ao câmbio oficial) para 150; o pão, de 3,60 para 6,80; o açúcar,
de 6 para 12. "É um governo de alucinados", conclui Hector. Partidários
ou não do governo, motoristas de táxi, porteiros de hotel e até
mesmo engraxates fazem pouca questão de manter qualquer integridade ideológica
no seu trato com estrangeiros. Apressam-se em propor transações
monetárias "a uma taxa mais favorável", o que resulta
num calamitoso câmbio negro onde o dólar atinge até 350 escudos.
Longos braços - A grave crise que
envolveu a administração Allende de uma só golfada levou
o presidente a procurar interesses antichilenos também no exterior. "Quando
conquistamos a vitória nas urnas", declarou pela cadeia nacional de
rádio e TV, na semana passada, "sabíamos de todas as dificuldades
que iríamos encontrar. O imperialismo tem braços longos e poderosos
demais." Se ele tiver razão,
o que chamou de "braços do imperialismo" alcançou o Chile
na Europa, com os tribunais da França e da Holanda embargando carregamentos
de cobre chileno a pedido da empresa americana Kennecott Copper (veja o quadro
na página 32). Considerado excelente negociador e exímio espadachim
da política até por seus adversários, Allende aproveitou
a oportunidade para capitalizar publicamente a solidariedade recebida dos estivadores
europeus. E para explorar a manifestação de oitenta sacerdotes americanos
residentes no Chile, que enviaram uma carta ao presidente Nixon alertando-o para
o fato de que "o cobre significa pão, roupas, habitação,
saúde, educação para o povo chileno". Nuvem
de fumaça - Os chilenos, que chegaram a considerar a possibilidade
de uma intervenção militar argentina após a eleição
de Allende, temem efetivamente papel que os Estados Unidos possam ter na atual
crise. Para muitos, não deixou de ser significativo que um atentado à
estrada de ferro SantiagoValparaíso tivesse sido anunciado nos Estados
Unidos antes mesmo de acontecer, na quarta-feira passada. No
mesmo dia, a limpeza anual da caldeira de aquecimento do Hotel Carrera-Sheraton
provocou uma nuvem de fumaça negra que envolveu o prédio inteiro,
localizado na praça do palácio presidencial. Imediatamente, correram
rumores de que era um ato de terrorismo nacionalista, réplica do atentado
da véspera contra o Buenos Aires Sheraton, porque os hotéis Sheraton
pertencem à companhia ITT, envolvida, segundo o colunista e mestre-de-denúncias
americano Jack Anderson, numa conspiração para impedir a posse de
Allende. Bola de neve - A princípio,
o movimento grevista dos transportes rodoviários - exigindo maiores tarifas
de fretes e em protesto contra um suposto plano do governo de criar uma empresa
estatal de transportes - parecera uma nuvem de fumaça tão inofensiva
como a do Carrera-Sheraton. Na verdade, adquiriu os contornos crescentes de uma
bola de neve. Em apenas duas semanas, englobou comerciantes, engenheiros, estudantes
secundários e universitários, bancários, agrônomos,
médicos, enfermeiros, parte do pessoal da marinha mercante, pilotos, da
linha aérea estatal LAN-Chile e até mesmo um número reduzido
de ferroviários. Os líderes
grevistas, expostos a uma notoriedade maior do que a de alguns figurões
da política chilena (como o ex-presidente Eduardo Frei, cuja atividade
pública na semana passada resumiu-se em assistir aos funerais de sua mãe,
Victoria Montalva, de noventa anos), viram-se subitamente envolvidos por uma auréola
de vitória. Rafael Cumsille, presidente da Confederação Nacional
do Comércio Varejista, manteve o mesmo sorriso com que delineara a tática
de "puertas cerradas" dos estabelecimentos comerciais ao ser agredido
na porta do Tribunal de Justiça, quando se apresentava para cumprir ordem
de prisão. Luis Villarín, líder dos proprietários
de caminhões e solto sob fiança na quarta-feira passada, disse por
sua vez: "Essa luta devemos ganhar, pois é a única e a última".
Mas os sorrisos e a tranqüilidade aparente
dos dirigentes grevistas não encontravam eco nos meios parlamentares. Acusações
recíprocas - Nos debates políticos, quando se esgotam os argumentos,
costuma-se usar o que está à mão. Na Câmara, quarta-feira,
foram copos e cinzeiros, que voaram pelo plenário enquanto os deputados
se dividiam segundo as linhas não partidárias que separam quem quer
brigar de quem não quer. Nenhum alvo foi atingido, nenhuma agressão
consumada. A certa altura, o democrata-cristão Arturo Frei avançou
sobre os bigodes do socialista Mario Palestro, que prometia reação
à altura, mas o conflito, como diversos outros, não se consumou
graças à ação pacificadora do também socialista
Luis Aguillera. Censuráveis acontecimentos
como esse (votava-se uma moção de censura, proposta pelos comunistas
e afinal derrotada, contra a Mesa da Câmara) parecem indicar, acima de tudo,
a angústia e a tensão causadas pela certeza da gravidade de uma
situação somada à incerteza sobre o que pode e mesmo sobre
o que deve acontecer. Nesse ponto, irmanam-se governo e oposição,
assim como na gravidade das acusações e ameaças recíprocas:
"O Chile enfrenta uma sublevação
destinada a alterar a ordem pública e destituir o governo popular."
(Daniel Vergara, subsecretário do Interior.) "O
governo está estrangulando progressivamente os direitos constitucionais
dos cidadãos. Somente o primeiro mandatário pode remover as causas
do conflito e oferecer garantias reais de que as soluções encontradas
serão cumpridas." (Declaração conjunta dos líderes
da oposição.) "Está
em desenvolvimento um golpe de Estado de estilo diferente, sem participação
das Forças Armadas, que se mantêm fiéis à Constituição."
(Senador Luis Corvalán, líder do partido comunista.) "Até
onde chegará o movimento? Até que se satisfaçam nossas exigências."
(Senador Renán Fuentealba, líder do PDC.) O
ponta-de-lança - Para os democratas-cristãos, o atendimento de suas
exigências parece ter data marcada: as eleições legislativas
em março de 1973, quando será renovada toda a Câmara e metade
do Senado. Os acontecimentos das últimas semanas tranqüilizaram o
PDC quanto ao desprestígio popular da Unidade Popular e lhe restaria esperar
uma vitória esmagadora no ano que vem e talvez, como um prêmio extra,
o plebiscito vagamente prometido por Allende em caso de derrota do governo nas
eleições. Corno conseqüência
inevitável dessa atitude prudente, o partido majoritário parece
ter entregue a iniciativa das investidas mais violentas contra La Moneda ao pequeno
e radical Partido Nacional, seu companheiro na Confederação Democrática
formada para representar a oposição em março. Acusado pelo
governo de ser o artífice de todas as fases da crise, o PN, presidido pelo
senador Sergio Onofre Jarpa e apoiado nas ações de rua pelos ultradireitistas
do movimento Patria y Libertad, chegou a ir longe demais no seu papel de ponta-de-lança
no combate a Allende. Na quinta-feira passada,
Jarpa dizia a VEJA: "Achamos que é necessário fazer um processo
político contra o governo da Unidade Popular em face da situação
catastrófica a que conduziu o país. Sabemos que a Constituição
toma difícil a destituição do presidente, mas isso não
libera o Congresso de sua responsabilidade de defender os direitos dos cidadãos
e a liberdade". Repelido por seus próprios
aliados - "uma insensatez", afirmou o deputado pedecista Fernando Sachueza
-, o Partido Nacional, no final da semana, desistia dessa sua proposta de "impeachment",
num recuo muito menos benéfico para Allende que para seus adversários.
Na verdade, a proposição,
condenada ao fracasso em virtude da exigência constitucional de uma maioria
de dois terços, teria o único efeito de dividir a oposição.
Obediente à sua vocação legalista, o PDC se veria na constrangedora
obrigação de ficar ao lado do presidente, repetindo a posição
que tomou quando se tentou evitar no Congresso a sua posse, há dois anos.
As bases de Allende - Por sua condição
de mais poderosa força política do país, o PDC vive assim
a contradição de ser ao mesmo tempo o maior inimigo e o herdeiro
presuntivo de Allende. Tem, portanto, um interesse que se sobrepõe a todos
os demais - o de ver mantida as regras do jogo, não permitindo sua alteração,
seja por uma aventura socialista levada às últimas conseqüências
pela Unidade Popular, seja por uma interrupção violenta dos sete
anos de mandato do atual presidente. No
momento, é certamente mais importante para os democratas-cristãos
conter os ímpetos de seus aliados do Partido Nacional do que se preocupar
com a Unidade Popular, cuja principal aventura parece ser a da própria
sobrevivência. Desde o início do governo, dividida por divergências
em tomo da rapidez e do nível de agressividade que deveria caracterizar
a experiência socialista, a coligação de esquerda parece perder
sua unidade na mesma proporção que a popularidade. Praticamente
afastados do conflito, os extremistas do Movimiento de Isquierda Revolucionaria
(MIR) preocupam-se pouco em defender um governo com o qual mantêm relações
de difícil convivência. Nas vigílias do La Moneda, na semana
passada, Allende contava, além de seu próprio partido, o socialista,
apenas com a lealdade, no Congresso e nas manifestações de massa,
do Partido Comunista. E a sua estratégia é a de respaldar-se na
neutralidade das Forças Armadas para enfrentar com os recursos legais a
oposição, "sediciosa" ou não. O
respaldo - "Esta batalha será ganha pela democracia, e as Forças
Armadas se manterão neutras, respeitando a Constituição,"
Não são palavras de Allende, mas de seu arqui-rival Eduardo Frei.
Elas revelam o que parece ser uma das poucas opiniões unânimes no
Chile: a de que os militares jamais agiriam para derrubar - ou para sacramentar
a derrubada - daquele que tem, segundo a redação constitucional,
o título de "generalíssimo comandante doutor" Salvador
Allende. Seu subordinado imediato, o comandante-chefe
do Exército, é o general Carlos Prats Gonzáles, militar de
velha escola - o que, no Chile, significa um profundo sentimento legalista -,
que tem exercido ostensivo papel moderador. Não só recebe freqüentemente
líderes políticos para lhes fazer apelos apaziguadores como já
chegou a extremos como o de escrever ao presidente do Colégio de Jornalistas
do Chile, pedindo que a classe o ajudasse na tarefa de acalmar os ânimos.
Na sexta-feira passada, Prats e seus colegas
da Marinha e Aeronáutica almoçaram com Allende no La Moneda e, a
saída, o comandante-chefe fez questão de minimizar a gravidade da
situação, afirmando não haver a menor possibilidade de transformação
do estado de emergência em estado de sítio. Os setores radicais da
oposição até agora não conseguiram abalar essa atitude,
que parece filtrar-se de Prats até os escalões mais baixos do oficialato.
Mas as provocações têm sido constantes, não excluindo
várias tentativas de ridicularizar os militares, como é o caso de
uma anedota que circula atualmente por toda Santiago: "Você
sabe por que não há ovos no Chile?", pergunta uma moça
ao namorado, cadete da academia militar Bernardo O 'Higgins. "Porque as galinhas
estão nos quartéis e os galos na cadeia," Pregos
de cinco pontas - Com os soldados do general Prats mantendo a crise chilena limitada
às fronteiras da Constituição, Allende pode-se dar ao luxo
de deixar o palácio para cumprir rotineiras obrigações políticas
- como a de inaugurar a nova sede da Secretaria Nacional da Mulher, onde almoçou.
E, também, conseguiu disposição para ocasionais manifestações
de bom humor. Na manhã de sábado, conversou durante uma hora com
jornalistas estrangeiros - e, a uma pergunta sobre se tinha medo do que lhe poderia
acontecer, respondeu: "Não tenho medo de nada. Uma prova disso é
que estou aqui, no meio desta multidão de repórteres e, cinegrafistas"
. E, da ironia, o veterano político
de 64 anos passou ao não menos eficiente recurso da dramatização
- e derrubou sobre uma mesa, à vista dos atônitos jornalistas, uma
cesta de vime cheia de pregos de cinco pontas. Era, informou, uma prova dos meios
violentos usados pelos grevistas para sabotar o sistema de transportes do país.
Usando os pregos como trampolim para uma oportuna indignação, o
presidente incluiu numa mesma denúncia os grevistas - cuja principal reivindicação,
segundo ele, seria a queda do governo - e diversos correspondentes, "profissionais
sem ética empenhados em denegrir a imagem do Chile no exterior". Essa
imagem, acrescentou, seria bem menos negra do que se propala: "É verdade
que se conseguiu parar os transportes de carga e o comércio, porém
os transportes urbanos só foram interrompidos por um dia e nenhum serviço
essencial foi interrompido". Além disso, apenas 6.000 das 35.000 indústrias
do país haviam sido atingidas pela maré da solidariedade grevista.
Como muitos outros malogrados chefes de governo, Allende está disposto
a sustentar com ênfase patética que a nação está
do seu lado e que a crise será superada graças aos esforços
desse "povo invencível". No entanto, o estado de espírito
de seus seguidores, fossem quantos fossem, talvez se espelhasse mais fielmente
no cartaz que ele próprio confessou ter visto num comício da Unidade
Popular: "Lo gobierno es una m... pero es mi gobierno y lo defiendo".
O pijama de madeira - A capacidade
de rir às próprias custas parece ser uma das marcas registradas
de Allende: quando a revista "Chile Hoy" lhe perguntou qual o maior
erro cometido no país recentemente, respondeu: "Elegirme a mi".
No entanto, suas tiradas irônicas começam a ser substituídas
por afirmações dramáticas, mais de acordo com o clima que
se respira nos círculos mais íntimos do governo. Assim, num discurso
pronunciado na quinta-feira numa loja maçônica, dizia, em tom trágico
mal disfarçado pela expressão grotesca: "Repetindo as palavras
do presidente Aguirre Cerda em 1939, afirmo que só conseguirão afastar-me
do Palácio de La Moneda num pijama de madeira". Uma
imagem talvez engraçada - mas que deve ter encontrado poucos compatriotas
do presidente com ânimo para rir. Tenha ou não os estímulos
políticos que o governo lhe atribui, o movimento grevista, pela rapidez
com que se alastrou pelo Chile, certamente revelou que seu principal fermento
era a insatisfação de uma população atingida em todos
os seus níveis por uma situação econômica caótica.
A esse clima generalizado de descontentamento
e impaciência soma-se a frustração, comum a todos os lados
do conflito, gerada pela ausência total de perspectivas de dias melhores
num futuro próximo. A crise já demonstrou que nenhuma tradição
é forte bastante para resistir a ela - como a da liberdade de expressão,
atingida pelo pijama de madeira que se fechou há dez dias sobre as emissoras
de rádio e TV. Assim, muitos chilenos podem se perguntar se, agravando-se
progressivamente a crise, a próxima barreira histórica a cair não
seria a da neutralidade militar. O que provaria apenas que, no Chile, como em
qualquer país, o desespero não é privilégio dos civis.
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