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25 de outubro de 1972
Allende e o drama chileno

E os violinos tremem. A trompa soa longínqua, a orquestra inteira se debate num crescendo furioso. No palco, Rigoletto dá-se conta de que a maldição que o perseguiu durante quatro atos finalmente o alcançou. A platéia do Teatro Municipal de Santiago, na noite de quinta-feira da semana passada, aplaudiu de pé, durante vários minutos, a récita extraordinária da ópera. A saída, programas do espetáculo eram jogados em cestos de lixo que ainda continham panfletos e cartazes usados na véspera, num importante ato do drama em que o presidente da República do Chile, Salvador Allende, parece marcado por um estigma tão trágico quanto o do malfadado personagem de Verdi.

Como a sinistra casa dos Sparafucile na ópera, o Teatro Municipal - pesada construção do fim do século passado que concilia detalhes barrocos com assépticos banheiros de louça inglesa - foi o canário usado por A1lende para tentar dar à profunda crise nacional as dimensões de uma simples tormenta política. Mas, com quase dez dias de conflitos de rua, de estado de emergência em 21 das 25 províncias do país, de greve nos transportes e no comércio, as marcas de bombas" de gás no asfalto e nas calçadas de ladrilhos amarelos de Santiago e outras marcas no espírito dos chilenos pareciam tornar sua tarefa extremamente difícil.

Ato falho - Com uma intuitiva técnica teatral, Allende subiu ao palco do Teatro Municipal com um sobretudo cinza, que tiraria num só gesto durante a ovação iniciada com aplausos tímidos e concluída. aos gritos de "A-llen-de". Ao longo dos acordes do hino nacional, cantado por todos, alguns levantavam os punhos cerrados, enquanto senhores com sombrios ternos escuros não continham orgulhosas lágrimas.

Contudo, as palavras do presidente, minutos depois, arrefeceram ânimos e contiveram entusiasmos. Para Allende, que presidia o nascimento da Frente Patriótica de Profissionais e Técnicos, aquela era apenas mais uma etapa de sua luta para permanecer na liderança de um governo minoritário.

Como outras frentes patrióticas trazidas à luz à custa de operações de emergência, a dos profissionais e técnicos foi organizada para reagrupar os simpatizantes da Unidade Popular, à margem dos sindicatos controlados pela oposição. "O governo democrático e constitucional do Chile, eleito livremente por seu povo, não admite ser atacado por estar seguindo as mesmas leis e regras pelas quais aceitou governar", entoou Salvador. Allende. Demonstrando um paradoxal bom humor, interrompeu os aplausos para dizer: "Não se faz uma revolução com aplausos ou vaias". Ao ser imediatamente aplaudido por esta frase, gritou, interrompendo: "Não aplaudam, não aplaudam". Mas, traído pelo microfone, deixou-se ouvir dizer a seus companheiros de mesa: "Deve ser um ato falho psicológico".

Atos voluntários - Na verdade, o país inteiro estava empenhado em assumir papéis tensos e decididos, numa explosiva psicoterapia de grupo. O Partido Democrata Cristão, sindicatos da oposição e larguíssimas camadas da população civil acusavam o governo de repressão, incapacidade, ilegalidade, e fraqueza. O doutor Allende, por sua vez, diagnosticava que o país estava à deriva pela determinação quase bélica de seus inimigos em tirá-lo do Palácio de La Moneda. O Exército, em seu papel de executor da ordem civil e freio da desordem nacional, apenas agia, preferindo opinar o menos possível.

Como pano de fundo às violentas críticas dos dois campos políticos, as ruas da capital chilena estiveram em permanente mutação. Nesta época do ano, a primavera cobre Santiago com o hálito fresco das neves que se fundem ainda nos Andes, a apenas 40 quilômetros do centro da cidade. Durante o dia, turistas e funcionários de escritórios das ruas centrais corriam das bombas de gás e jatos de água fartamente despejados pelos "carabineros" para reprimir manifestações. Outros agrupavam-se em torno das bancas de jornais ou faziam enormes filas diante dos quiosques de cigarro, produto raro e racionado. Ou ainda, com todas as lojas fechadas desde sexta-feira e os transportes coletivos paralisados durante 24 horas pela mais dramática adesão ao movimento grevista, havia quem procurasse consolo numa refeição completa, em restaurantes de luxo. Em vão: com a greve dos donos de caminhão, estopim da atual crise chilena, alastrara-se o que os chilenos chamam de "desabastecimiento".

O véu da meia-noite, porém, vinha cobrir as ruas de silêncio e medo. Do primeiro minuto da madrugada até as 6 horas da manhã, o toque de recolher imposto pelo governo intimidava, indiscriminadamente, partidários da oposição e do governo. Fernando Carrera Vil1avidencio, irmão da senadora socialista Maria Elena Carrera, pagou com a vida sua desobediência ao sono intranqüilo e forçado de Santiago: às 2h30 de sábado, foi abatido a tiros pelos soldados por não parar seu veículo quando intimado.

O "compañero" Bravo - Era difícil, contudo, nesse país de intensa atividade política, pretender convencer os chilenos a não se agitarem durante o dia. Na segunda-feira, o general Hector Bravo Muñoz, comandante militar da zona de emergência de Santiago, ordenava inutilmente a reabertura das lojas e o reinício do trabalho dos caminhões particulares. A tarefa de abertura forçada de alguns estabelecimentos comerciais de primeira necessidade ficou a cargo de funcionários do governo. O general Bravo, conhecido por sua energia, sua filiação ao setor mais tradicional e legalista do Exército chileno e pelo informalismo (os jornalistas costumam chamá-lo de "compañero" durante suas entrevistas coletivas), preferiu usar parte de seus homens na defesa dos comerciantes que desafiavam a ordem de greve e a ira dos grevistas.

A outra parte, mais numerosa e ostensiva, se incumbia de tarefa igualmente delicada: manter a ordem nas ruas.

De início, sem interferir diretamente na repressão, tropas do Exército ocuparam os principais pontos da cidade, fazendo circular patrulhas. Nas esquinas centrais e na rua Ahumeda - principal artéria comercial -, jipes militares paravam ao lado de grupos de manifestantes e engatilhavam suas metralhadoras repetidas vezes, numa talvez ingênua tática de intimidação.

Contudo, o próprio aparato militar funcionava como ponto de atração, pois nem mesmo o cidadão menos politizado estava disposto a perder algo do que poderia acontecer de repente. Como, por exemplo, a agressão torrencial de que foi vítima o ex-presidente (1958-1964) Jorge Alessandri, de 77 anos. Ele caminhava por uma rua central de Santiago, rodeado por correligionários, quando foi ensopado por um carro lança-água da polícia. Salvo por um guarda-costas de uma pesada queda (tem mais de 1,80 m), Alessandri recuperou-se do jato da mangueira e continuou sua caminhada, impávido e ensopado.

Mas nem todas as cenas tinham final tão prosaico. Invariavelmente, o aparecimento de capacetes metálicos, escudos, lança-granadas de gás e metralhadoras era seguido por prisões, atropelos, choques e agonias. Ou mortes: na quarta-feira, Sergio Olivares Salas, mecânico de 24 anos, foi morto a 85 quilômetros de Santiago, quando atirou pedras num caminhão de gás liquefeito que viajava escoltado por marinheiros armados.

Paradoxalmente, o Palácio de La Moneda, funil receptor de todas as convulsões no país, irradiava uma surpreendente calma. Nas manhãs de sol, alguns cachorros sonolentos esticavam-se nos cantos da pequena esplanada fronteira, onde costumam realizar-se cerimônias de apresentação de armas a visitantes ilustres.

Jornalistas de plantão em seu portão principal tinham por único espetáculo repetidas rendições de guarda e a vista, através de imensas grades, de dois pátios: o primeiro abrigando um chafariz de bronze de indisfarçada inspiração mourisca; o segundo, um pequeno jardim coberto de singela grama inglesa e ornado com filas de laranjeiras floridas. O próprio Salvador Allende, entre sucessivas reuniões de gabinete, ainda encontrava tempo para receber as credenciais do embaixador sueco com todas as honras de praxe.

Os "upelientos" - Mas, apesar de seguidos comunicados e declarações do governo através da cadeia nacional de rádio e televisão, os 10 milhões de chilenos - e em particular os 3 milhões de santiaguenses. - sentiam que Salvador Allende lutava desesperadamente pela sobrevivência política.

Tomando sol na praça de armas, em frente à catedral de Santiago, Simón Bonilla, comerciante de roupas e sapatos, declarou a Marco Antônio Rezende, enviado especial de VEJA: "Não durmo há três dias; mas me consolo sabendo que eles, os 'upelientos', também não dormem". Não pode haver expressão mais pejorativa para designar os partidos da Unidade Popular, mas o comerciante, cuja loja estava havia dias de portas fechadas, talvez estivesse sendo até comedido na indignação que compartilhava com uma larga parte da população do país.

Se o movimento grevista tem caráter sedicioso e político, como acusa o governo, ele não poderia ter sido desfechado em melhor momento. Ao tomar posse, dois anos atrás, Allende passou a ter ao seu lado, automaticamente, os fantasmas de uma crise financeira que começou assombrada por todos os espíritos malignos de sua própria eleição. Após o primeiro ano de governo havia alguns trunfos reais a apresentar ao país, e a Unidade Popular fez deles o melhor uso possível. Em apenas dezoito meses a participação dos assalariados na renda nacional subira de 52% para 60%. Para um governo que se declara representante do proletariado, aquele parecia ser o caminho certo.

Alucinados - Mas todos os ambiciosos planos de redistribuição de renda e democratização da produção encontram insuperáveis dificuldades internas. A História, infelizmente para Allende, julga fatos e não intenções. E aos problemas econômicos do governo da Unidade Popular juntaram-se outros, como a incapacidade administrativa de novos quadros repentinamente alçados ao poder, erros táticos na aplicação do programa do governo, pressão externa e, por fim, o câncer que corrói o país: a inflação.

"A política criminosa do governo tem feito os preços aumentarem de 100% em poucos meses", resmunga entre os dentes o motorista de táxi Hector Kiss, orgulhoso de sua ascendência inglesa. "Eu mesmo gostaria de abrir uma pequena indústria, mas não há incentivos. Prefiro continuar dirigindo meu táxi (um Chevrolet último tipo mas já decrépito) para pagar os aumentos de preços quando eles vêm." De fato, em um mês (junho), o quilo de carne passou de 40 escudos (l dólar, ao câmbio oficial) para 150; o pão, de 3,60 para 6,80; o açúcar, de 6 para 12. "É um governo de alucinados", conclui Hector.

Partidários ou não do governo, motoristas de táxi, porteiros de hotel e até mesmo engraxates fazem pouca questão de manter qualquer integridade ideológica no seu trato com estrangeiros. Apressam-se em propor transações monetárias "a uma taxa mais favorável", o que resulta num calamitoso câmbio negro onde o dólar atinge até 350 escudos.

Longos braços - A grave crise que envolveu a administração Allende de uma só golfada levou o presidente a procurar interesses antichilenos também no exterior. "Quando conquistamos a vitória nas urnas", declarou pela cadeia nacional de rádio e TV, na semana passada, "sabíamos de todas as dificuldades que iríamos encontrar. O imperialismo tem braços longos e poderosos demais."

Se ele tiver razão, o que chamou de "braços do imperialismo" alcançou o Chile na Europa, com os tribunais da França e da Holanda embargando carregamentos de cobre chileno a pedido da empresa americana Kennecott Copper (veja o quadro na página 32). Considerado excelente negociador e exímio espadachim da política até por seus adversários, Allende aproveitou a oportunidade para capitalizar publicamente a solidariedade recebida dos estivadores europeus. E para explorar a manifestação de oitenta sacerdotes americanos residentes no Chile, que enviaram uma carta ao presidente Nixon alertando-o para o fato de que "o cobre significa pão, roupas, habitação, saúde, educação para o povo chileno".

Nuvem de fumaça - Os chilenos, que chegaram a considerar a possibilidade de uma intervenção militar argentina após a eleição de Allende, temem efetivamente papel que os Estados Unidos possam ter na atual crise. Para muitos, não deixou de ser significativo que um atentado à estrada de ferro SantiagoValparaíso tivesse sido anunciado nos Estados Unidos antes mesmo de acontecer, na quarta-feira passada.

No mesmo dia, a limpeza anual da caldeira de aquecimento do Hotel Carrera-Sheraton provocou uma nuvem de fumaça negra que envolveu o prédio inteiro, localizado na praça do palácio presidencial. Imediatamente, correram rumores de que era um ato de terrorismo nacionalista, réplica do atentado da véspera contra o Buenos Aires Sheraton, porque os hotéis Sheraton pertencem à companhia ITT, envolvida, segundo o colunista e mestre-de-denúncias americano Jack Anderson, numa conspiração para impedir a posse de Allende.

Bola de neve - A princípio, o movimento grevista dos transportes rodoviários - exigindo maiores tarifas de fretes e em protesto contra um suposto plano do governo de criar uma empresa estatal de transportes - parecera uma nuvem de fumaça tão inofensiva como a do Carrera-Sheraton. Na verdade, adquiriu os contornos crescentes de uma bola de neve. Em apenas duas semanas, englobou comerciantes, engenheiros, estudantes secundários e universitários, bancários, agrônomos, médicos, enfermeiros, parte do pessoal da marinha mercante, pilotos, da linha aérea estatal LAN-Chile e até mesmo um número reduzido de ferroviários.

Os líderes grevistas, expostos a uma notoriedade maior do que a de alguns figurões da política chilena (como o ex-presidente Eduardo Frei, cuja atividade pública na semana passada resumiu-se em assistir aos funerais de sua mãe, Victoria Montalva, de noventa anos), viram-se subitamente envolvidos por uma auréola de vitória. Rafael Cumsille, presidente da Confederação Nacional do Comércio Varejista, manteve o mesmo sorriso com que delineara a tática de "puertas cerradas" dos estabelecimentos comerciais ao ser agredido na porta do Tribunal de Justiça, quando se apresentava para cumprir ordem de prisão. Luis Villarín, líder dos proprietários de caminhões e solto sob fiança na quarta-feira passada, disse por sua vez: "Essa luta devemos ganhar, pois é a única e a última".

Mas os sorrisos e a tranqüilidade aparente dos dirigentes grevistas não encontravam eco nos meios parlamentares.

Acusações recíprocas - Nos debates políticos, quando se esgotam os argumentos, costuma-se usar o que está à mão. Na Câmara, quarta-feira, foram copos e cinzeiros, que voaram pelo plenário enquanto os deputados se dividiam segundo as linhas não partidárias que separam quem quer brigar de quem não quer. Nenhum alvo foi atingido, nenhuma agressão consumada. A certa altura, o democrata-cristão Arturo Frei avançou sobre os bigodes do socialista Mario Palestro, que prometia reação à altura, mas o conflito, como diversos outros, não se consumou graças à ação pacificadora do também socialista Luis Aguillera.

Censuráveis acontecimentos como esse (votava-se uma moção de censura, proposta pelos comunistas e afinal derrotada, contra a Mesa da Câmara) parecem indicar, acima de tudo, a angústia e a tensão causadas pela certeza da gravidade de uma situação somada à incerteza sobre o que pode e mesmo sobre o que deve acontecer. Nesse ponto, irmanam-se governo e oposição, assim como na gravidade das acusações e ameaças recíprocas:

"O Chile enfrenta uma sublevação destinada a alterar a ordem pública e destituir o governo popular." (Daniel Vergara, subsecretário do Interior.)

"O governo está estrangulando progressivamente os direitos constitucionais dos cidadãos. Somente o primeiro mandatário pode remover as causas do conflito e oferecer garantias reais de que as soluções encontradas serão cumpridas." (Declaração conjunta dos líderes da oposição.)

"Está em desenvolvimento um golpe de Estado de estilo diferente, sem participação das Forças Armadas, que se mantêm fiéis à Constituição." (Senador Luis Corvalán, líder do partido comunista.)

"Até onde chegará o movimento? Até que se satisfaçam nossas exigências." (Senador Renán Fuentealba, líder do PDC.)

O ponta-de-lança - Para os democratas-cristãos, o atendimento de suas exigências parece ter data marcada: as eleições legislativas em março de 1973, quando será renovada toda a Câmara e metade do Senado. Os acontecimentos das últimas semanas tranqüilizaram o PDC quanto ao desprestígio popular da Unidade Popular e lhe restaria esperar uma vitória esmagadora no ano que vem e talvez, como um prêmio extra, o plebiscito vagamente prometido por Allende em caso de derrota do governo nas eleições.

Corno conseqüência inevitável dessa atitude prudente, o partido majoritário parece ter entregue a iniciativa das investidas mais violentas contra La Moneda ao pequeno e radical Partido Nacional, seu companheiro na Confederação Democrática formada para representar a oposição em março. Acusado pelo governo de ser o artífice de todas as fases da crise, o PN, presidido pelo senador Sergio Onofre Jarpa e apoiado nas ações de rua pelos ultradireitistas do movimento Patria y Libertad, chegou a ir longe demais no seu papel de ponta-de-lança no combate a Allende.

Na quinta-feira passada, Jarpa dizia a VEJA: "Achamos que é necessário fazer um processo político contra o governo da Unidade Popular em face da situação catastrófica a que conduziu o país. Sabemos que a Constituição toma difícil a destituição do presidente, mas isso não libera o Congresso de sua responsabilidade de defender os direitos dos cidadãos e a liberdade".

Repelido por seus próprios aliados - "uma insensatez", afirmou o deputado pedecista Fernando Sachueza -, o Partido Nacional, no final da semana, desistia dessa sua proposta de "impeachment", num recuo muito menos benéfico para Allende que para seus adversários.

Na verdade, a proposição, condenada ao fracasso em virtude da exigência constitucional de uma maioria de dois terços, teria o único efeito de dividir a oposição. Obediente à sua vocação legalista, o PDC se veria na constrangedora obrigação de ficar ao lado do presidente, repetindo a posição que tomou quando se tentou evitar no Congresso a sua posse, há dois anos.

As bases de Allende - Por sua condição de mais poderosa força política do país, o PDC vive assim a contradição de ser ao mesmo tempo o maior inimigo e o herdeiro presuntivo de Allende. Tem, portanto, um interesse que se sobrepõe a todos os demais - o de ver mantida as regras do jogo, não permitindo sua alteração, seja por uma aventura socialista levada às últimas conseqüências pela Unidade Popular, seja por uma interrupção violenta dos sete anos de mandato do atual presidente.

No momento, é certamente mais importante para os democratas-cristãos conter os ímpetos de seus aliados do Partido Nacional do que se preocupar com a Unidade Popular, cuja principal aventura parece ser a da própria sobrevivência. Desde o início do governo, dividida por divergências em tomo da rapidez e do nível de agressividade que deveria caracterizar a experiência socialista, a coligação de esquerda parece perder sua unidade na mesma proporção que a popularidade. Praticamente afastados do conflito, os extremistas do Movimiento de Isquierda Revolucionaria (MIR) preocupam-se pouco em defender um governo com o qual mantêm relações de difícil convivência. Nas vigílias do La Moneda, na semana passada, Allende contava, além de seu próprio partido, o socialista, apenas com a lealdade, no Congresso e nas manifestações de massa, do Partido Comunista. E a sua estratégia é a de respaldar-se na neutralidade das Forças Armadas para enfrentar com os recursos legais a oposição, "sediciosa" ou não.

O respaldo - "Esta batalha será ganha pela democracia, e as Forças Armadas se manterão neutras, respeitando a Constituição," Não são palavras de Allende, mas de seu arqui-rival Eduardo Frei. Elas revelam o que parece ser uma das poucas opiniões unânimes no Chile: a de que os militares jamais agiriam para derrubar - ou para sacramentar a derrubada - daquele que tem, segundo a redação constitucional, o título de "generalíssimo comandante doutor" Salvador Allende.

Seu subordinado imediato, o comandante-chefe do Exército, é o general Carlos Prats Gonzáles, militar de velha escola - o que, no Chile, significa um profundo sentimento legalista -, que tem exercido ostensivo papel moderador. Não só recebe freqüentemente líderes políticos para lhes fazer apelos apaziguadores como já chegou a extremos como o de escrever ao presidente do Colégio de Jornalistas do Chile, pedindo que a classe o ajudasse na tarefa de acalmar os ânimos.

Na sexta-feira passada, Prats e seus colegas da Marinha e Aeronáutica almoçaram com Allende no La Moneda e, a saída, o comandante-chefe fez questão de minimizar a gravidade da situação, afirmando não haver a menor possibilidade de transformação do estado de emergência em estado de sítio. Os setores radicais da oposição até agora não conseguiram abalar essa atitude, que parece filtrar-se de Prats até os escalões mais baixos do oficialato. Mas as provocações têm sido constantes, não excluindo várias tentativas de ridicularizar os militares, como é o caso de uma anedota que circula atualmente por toda Santiago:

"Você sabe por que não há ovos no Chile?", pergunta uma moça ao namorado, cadete da academia militar Bernardo O 'Higgins. "Porque as galinhas estão nos quartéis e os galos na cadeia,"

Pregos de cinco pontas - Com os soldados do general Prats mantendo a crise chilena limitada às fronteiras da Constituição, Allende pode-se dar ao luxo de deixar o palácio para cumprir rotineiras obrigações políticas - como a de inaugurar a nova sede da Secretaria Nacional da Mulher, onde almoçou. E, também, conseguiu disposição para ocasionais manifestações de bom humor. Na manhã de sábado, conversou durante uma hora com jornalistas estrangeiros - e, a uma pergunta sobre se tinha medo do que lhe poderia acontecer, respondeu: "Não tenho medo de nada. Uma prova disso é que estou aqui, no meio desta multidão de repórteres e, cinegrafistas" .

E, da ironia, o veterano político de 64 anos passou ao não menos eficiente recurso da dramatização - e derrubou sobre uma mesa, à vista dos atônitos jornalistas, uma cesta de vime cheia de pregos de cinco pontas. Era, informou, uma prova dos meios violentos usados pelos grevistas para sabotar o sistema de transportes do país. Usando os pregos como trampolim para uma oportuna indignação, o presidente incluiu numa mesma denúncia os grevistas - cuja principal reivindicação, segundo ele, seria a queda do governo - e diversos correspondentes, "profissionais sem ética empenhados em denegrir a imagem do Chile no exterior".

Essa imagem, acrescentou, seria bem menos negra do que se propala: "É verdade que se conseguiu parar os transportes de carga e o comércio, porém os transportes urbanos só foram interrompidos por um dia e nenhum serviço essencial foi interrompido". Além disso, apenas 6.000 das 35.000 indústrias do país haviam sido atingidas pela maré da solidariedade grevista. Como muitos outros malogrados chefes de governo, Allende está disposto a sustentar com ênfase patética que a nação está do seu lado e que a crise será superada graças aos esforços desse "povo invencível". No entanto, o estado de espírito de seus seguidores, fossem quantos fossem, talvez se espelhasse mais fielmente no cartaz que ele próprio confessou ter visto num comício da Unidade Popular: "Lo gobierno es una m... pero es mi gobierno y lo defiendo".

O pijama de madeira - A capacidade de rir às próprias custas parece ser uma das marcas registradas de Allende: quando a revista "Chile Hoy" lhe perguntou qual o maior erro cometido no país recentemente, respondeu: "Elegirme a mi". No entanto, suas tiradas irônicas começam a ser substituídas por afirmações dramáticas, mais de acordo com o clima que se respira nos círculos mais íntimos do governo. Assim, num discurso pronunciado na quinta-feira numa loja maçônica, dizia, em tom trágico mal disfarçado pela expressão grotesca: "Repetindo as palavras do presidente Aguirre Cerda em 1939, afirmo que só conseguirão afastar-me do Palácio de La Moneda num pijama de madeira".

Uma imagem talvez engraçada - mas que deve ter encontrado poucos compatriotas do presidente com ânimo para rir. Tenha ou não os estímulos políticos que o governo lhe atribui, o movimento grevista, pela rapidez com que se alastrou pelo Chile, certamente revelou que seu principal fermento era a insatisfação de uma população atingida em todos os seus níveis por uma situação econômica caótica.

A esse clima generalizado de descontentamento e impaciência soma-se a frustração, comum a todos os lados do conflito, gerada pela ausência total de perspectivas de dias melhores num futuro próximo. A crise já demonstrou que nenhuma tradição é forte bastante para resistir a ela - como a da liberdade de expressão, atingida pelo pijama de madeira que se fechou há dez dias sobre as emissoras de rádio e TV. Assim, muitos chilenos podem se perguntar se, agravando-se progressivamente a crise, a próxima barreira histórica a cair não seria a da neutralidade militar. O que provaria apenas que, no Chile, como em qualquer país, o desespero não é privilégio dos civis.

 
   
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