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25 de agosto de 1993
O choque da Aids
na vida da estrela

Sandra Bréa, símbolo sexual de
uma geração, é a primeira mulher famosa
a admitir que convive com o vírus

Manter-se invisível por algum tempo num corpo sadio e, de repente, forçar sua vítima a tomar conhecimento do destino trágico que a aguarda é uma marca da Aids. O Brasil assistiu mais uma vez a essa revelação dolorosa na semana passada. Ela se insinuou entre sorrisos e gargalhadas forçadas num rosto que uma geração de brasileiros viu brilhar nas novelas de televisão, em filmes e musicais. Aos 41 anos, a atriz Sandra Bréa reuniu repórteres em sua casa em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, para anunciar na quarta-feira que é portadora do vírus da Aids. Entre baforadas nervosas de Benson & Hedges mentolados, Sandra tentava manter o controle, como se sua revelação fosse tão corriqueira como o anúncio de um novo papel na novela das 8.

"Fiz o HIV uma, duas, três, sete vezes. Veio a comprovação. Nunca me senti tão forte. Eu estou linda", disse ao jornal O Globo, que trouxe a notícia em primeira mão na quarta-feira. "O vírus é vida. A Aids é uma doença de união e não da morte", repetiria Sandra no dia seguinte, numa interpretação desconexa e patética. Um dos poucos amigos fiéis, o ator Jorge Azevedo, que contracenou com ela em produções recentes de baixo orçamento, como Lembranças de Hollywood, conta que a atriz soube da doença na casa dele, em março deste ano. Ela estava se tratando de uma infecção urinária com o médico Jorge Sabaneeff, do Hospital Naval Marcílio Dias. A infecção não cedia aos remédios e o médico diagnosticou a queda brusca de anticorpos. Daí à desconfiança da Aids foi um pulo.

Sabaneeff mandou fazer o exame apropriado para o caso, o Elisa, que detecta anticorpos contra o vírus no sangue. O teste foi positivo. Mais tarde o médico particular de Sandra, Walber Vieira, um clínico que a acompanha desde criança, submeteu-a ao exame definitivo, o western-blot, que acusa a existência de fragmentos do próprio vírus. Mais uma vez o resultado foi positivo. "O médico estava muito perturbado. Ligou para minha casa e mandou chamar Sandra imediatamente", conta Jorge Azevedo. Ela ouviu a notícia que mudou sua vida como se não fosse nada. Não chorou. Não se descontrolou. "O choque só veio horas depois. Ela cancelou apresentações de uma peça que faria no interior de Minas Gerais e se enfurnou em casa", lembra o ator.

ABISMO INTERIOR - Sandra Bréa sempre foi um pouco avoada. Ela costumava lembrar com gosto um conselho do ator Jardel Filho, morto há dez anos, para que adotasse o gênero "louquinha". "Os homens adoram", dizia Sandra no auge da carreira que começou com tremendo embalo de atriz-revelação na primeira novela em cores do país, O Bem-Amado, de 1973, e logo em seguida recebeu o impulso de um show no horário nobre na Rede Globo, o Sandra & Mièle. Na semana passada, quando falava de Aids, doença e morte, ela ainda parecia num palco, sua grande paixão na vida.

Essas revelações pessoais sobre a Aids são sempre terríveis. O doente, depois de se confrontar com o abismo interior, ainda tem pela frente o outro desafio - comunicar aos outros o seu estado. As pessoas anônimas caminham pela vereda da Aids sem esse fardo extra. A maioria das celebridades adota o mesmo comportamento defensivo. Certas pessoas, por algum motivo, resolvem quebrar o bloqueio e contam para os outros, publicamente. Exige coragem. O craque do basquete americano Earvin "Magic" Johnson anunciou sua condição de soropositivo há dois anos numa solene entrevista diante de câmaras de TV. O roqueiro Cazuza, o ator Carlos Augusto Strazzer, o militante Herbert Daniel também falaram de seu drama. Talvez o caso mais conhecido no Brasil, hoje, seja o de Herbert de Souza, o sociólogo Betinho, que comanda o programa do governo contra a fome e apanhou o vírus numa transfusão de sangue, por ser hemofílico.

Sandra Bréa é, porém, a primeira mulher conhecida a enfrentar o momento difícil da revelação. A Aids tem aumentado seu ataque às mulheres por três motivos: sexo com homens infectados, uso de drogas injetáveis e transfusão de sangue. A razão predominante é o sexo. Os parceiros que trazem a doença escondida no organismo são geralmente bissexuais, às vezes viciados em drogas injetáveis que apanharam a Aids usando agulhas contaminadas por outros usuários de drogas. Sandra, que tem o vírus no organismo mas não apresenta sinais da doença, repete para todo mundo que se contaminou numa transfusão de sangue depois de um acidente de automóvel, em 1991, no Rio de Janeiro.

'MÁFIA DE BRANCO' - Foi essa a versão que deu ao amigo Jorge Azevedo. Foi a história que repetiu a levas de jornalistas que, na semana passada, compareceram a sua casa, uma construção escura e fria, com as paredes e o teto atacados pela umidade. Os móveis gastos e os sofás rasgados completam o cenário, no qual se destaca uma parede repleta de fotos da atriz. São pôsteres em que aparece deslumbrantemente nua. "Fiquei nove horas presa às ferragens. Recebi sangue ali mesmo, na rua. Fui levada para um hospital, mas me liberaram em 24 horas", contou. Em que hospital foi atendida? Que providências tomou contra esses médicos que lhe deram sangue com vírus da Aids? Sandra não sabe dizer. Ela não vê hipótese de abrir processo contra os responsáveis pelo sangue contaminado. "Meu recado para a máfia de branco é: adoro vocês", diz, fiel ao gênero sugerido por Jardel Filho.

O cenário do acidente é bastante improvável. Sandra Bréa ora diz que a Rede Globo na época "abafou" o acidente porque ele poderia prejudicar os índices de audiência de uma novela que ela estrelava, ora afirma que os bombeiros não a reconheceram porque ela se transformara "numa massa de sangue". A Rede Globo nega que tenha ocultado o episódio. "Esta é a primeira vez que ouço falar do assunto", diz Alberico Sousa Cruz, diretor de jornalismo da Globo. Os médicos garantem que um acidente tão complicado a ponto de obrigar uma vítima a ficar nove horas presa às ferragens ocorre muito raramente e em situações bem diferentes. O descarrilamento de um trem numa região de difícil acesso ou a queda de um avião na selva, por exemplo. Nunca na batida de um Gol a 40 quilômetros por hora numa rua do Rio de Janeiro, como sustenta a atriz. O amigo Azevedo nunca ouviu falar do acidente. Os arquivos de jornais registram apenas um acidente de carro na vida da atriz - uma batida sem maiores conseqüências em 1985, em Ipanema. Sandra dirigia um Passat e bateu num táxi.

As estatísticas oficiais sobre a doença também não ajudam a sustentar a versão de Sandra. Em 1991, quase todo o sangue usado em transfusões nos grandes centros urbanos brasileiros estava livre do vírus da Aids. Naquele ano, apenas 9% dos casos da doença em mulheres foram provocados por transfusões. Quase todos esses casos ocorreram no interior do Brasil. As estatísticas levam também a outras análises. No mesmo ano em que Sandra Bréa diz ter-se contaminado, 47% das mulheres pegaram Aids por contato sexual. Cerca de 30% delas se infectaram com seringas contaminadas usadas para injetar drogas.

'UNIDADE CÓSMICA' - É inútil duvidar da história de Sandra, cuja coragem e desorientação neste momento merecem compreensão e respeito, mas é didático esclarecer às mulheres em que condições elas correm o risco de se infectar com a Aids. Vítima de uma doença marcada pelo preconceito, Sandra Bréa afirma que resolveu expor-se porque está engajada numa campanha pela construção de um hospital no Retiro dos Artistas, no Rio, que reservará dez leitos para atendimento a aidéticos. O Retiro é uma entidade filantrópica e recebe pessoas da classe artística que não têm mais como trabalhar na velhice. Patrocinadora da causa, a atriz achou que a publicidade em torno de sua doença poderia atrair atenção para a campanha.

Sandra Bréa não explica essa relação de causa e efeito de maneira tão simples. Está muito confusa. Há muito tempo sua vida profissional perdeu o brilho. Ela também nunca teve um temperamento muito fácil. Por fim, explodiu a tragédia da Aids. A mistura do gênero "excêntrica" com a gravidade da revelação gerou cenas tristes na semana passada. "O verde e o amarelo são o ouro e as árvores roubadas, o azul é a cor de Deus e o branco corresponde à unidade cósmica", respondeu a uma repórter que ligara para saber de seu estado de saúde. Logo depois, com pletaria: "Eu vi a pororoca! Eu vi a pororoca!"

Mulher esguia, bonita, sensual, com olhos negros, brincalhões e ligeiramente estrábicos, Sandra Bréa surgiu com enorme potencial para uma carreira sólida e, de repente, perdeu o pique. Embicou lenta e precocemente para o acostamento da vida artística. "Até uns dez, quinze anos atrás, ela era uma das atrizes mais famosas do país, um símbolo sexual", lembra o diretor de televisão Daniel Filho. "Foi rapidamente esquecida. Seu nome só aparece agora, quando, de forma corajosa e necessária, ela vem assumir a condição de soropositiva." Daniel atribui o ostracismo de Sandra Bréa à forma como a TV explora a beleza da mulher. "Ela é uma ótima comediante, uma show-woman. Mas mulheres depois dos 40 não têm muita vez", afirma. "Estou preocupado em saber como ela vai sobreviver financeiramente agora", diz Daniel Filho.

Nas suas relações afetivas, a atriz sempre preferiu a mobilidade. Casou-se três vezes. Nunca escondeu que teve inúmeros relacionamentos sexuais. "Em relação a sexo aceito todos os cartões de crédito", disse ela numa entrevista à revista em 1977. "Tribal, grupal, hetero, poli, uni, aceito até o sexo certo, o homem/mulher." Sempre foram atribuídos a ela muitos romances. Um deles teria sido com o cabeleireiro Silvio Alberto Justo da Silva, o "Silvinho", que morreu de Aids em 1989. Isso não significa que Sandra Bréa pegou o vírus com o cabeleireiro, uma possibilidade tão improvável como a da transfusão de sangue no meio da rua.

INIMIGO NO LEITO - Atualmente, 64% das mulheres aidéticas contraem o vírus em relacionamentos sexuais com seus maridos ou parceiros. A idéia de que a mulher está segura ao lado do marido ou de um namorado fixo foi derrubada pelas estatísticas, mas continua sendo o principal argumento para justificar a prática de sexo sem a proteção dos preservativos. Ao contrário da Europa e dos Estados Unidos, nos países do Terceiro Mundo o marido ou o parceiro fixo age como o vetor potencial da doença. Em Porto Alegre, uma pesquisa da Secretaria de Saúde do Estado constatou que entre as mulheres que procuraram o serviço público de doenças sexualmente transmissíveis e Aids nos últimos doze meses 121 tinham o vírus HIV. Entre essas, 52 foram contaminadas pelos maridos, quinze contraíram o vírus com variação de parceiro e 26 eram usuárias de drogas injetáveis.

O quadro, extraído de uma população de baixa renda, mesmo restrito a um universo limitado, alerta para um drama cada vez mais comum nos hospitais brasileiros e nos consultórios de infectologistas. São milhares de mulheres, mães, esposas ou namoradas apaixonadas que vêem seu mundo desabar quando descobrem que foram contaminadas pelo companheiro. Mulheres de comportamento monogâmico em sua maioria, elas recebem um dia a notícia espantosa, inacreditável, assustadora. Vão morrer. E o veneno foi inoculado em seu organismo pelo homem com quem repartiam o leito.

No dia em que comemorava o primeiro aniversário de casamento, a pedagoga curitibana Albertina Volpato descobriu que seu marido estava com Aids. Nove meses depois, já sabendo que também estava contaminada, ela ficaria viúva. Tinha 33 anos quando o marido, Rogério, morreu aos 27. Albertina sofreu a dor de amparar o marido terminal e o pavor de desenvolver a doença. Mas evitou revoltar-se contra o homem que durante dois anos mereceu sua confiança a cada dia e noite. "Não quis para mim o papel de vítima, por isso não procurei um culpado", diz Albertina.

DROGAS PESADAS - A jornalista paulista C.O.V., 28 anos, que faz parte de um grupo de mulheres soropositivas do Gapa, o Grupo de Apoio e Prevenção da Aids, em São Paulo, casou virgem com o primeiro namorado, aos 24 anos. Engravidou logo em seguida e teve uma filha linda que pesava 4 quilos. Quando a criança tinha 1 ano e 10 meses, foi internada com pneumonia. Sua imunidade era zero. Morreu uma semana depois. Os testes diagnosticaram que os três eram portadores de HIV. Consumido pela culpa de ter contaminado a família, o marido morreu em onze meses. "Cuidei dele até o fim. Sem os dois minha vida perdeu parte do seu sentido. Amava meu marido e não me arrependo de ter casado com ele", diz C.

A atitude solidária e altruísta das mulheres tem um lado humanitário altamente louvável. Em uma análise mais fria, no entanto, reflete também o conformismo feminino, que, por padrões seculares de comportamento, acaba permitindo que elas se tornem presas fáceis da contaminação. Para a maioria das mulheres, a hipótese de desconfiar de um parceiro recente, namorado, noivo ou marido, por uso de drogas ou bissexualismo, é uma coisa muito remota, geralmente impensável, mesmo que em alguns casos tenham algumas pistas para isso. Até quando sabem que o marido mantém romances fora de casa, raramente exigem o uso de camisinha. Em geral, associa-se o preservativo a relações fugazes. O casal utiliza a camisinha nas primeiras vezes. Estabelecido o vínculo romântico, dispensa-se a formalidade como se sugerir o uso do preservativo fosse uma ofensa à honestidade do companheiro.

A auxiliar de enfermagem Edna, 37 anos, era uma pessoa bem informada em relação à Aids e utilizava preservativos em suas relações sexuais. Dispensou a proteção ao arrumar um namorado fixo. "Eu me apaixonei e achei que não precisava mais usar", diz Edna. Há quatro anos, ela descobriu que é portadora do vírus. Está tentando reconstruir sua vida com o auxílio de um grupo de incentivo aos soropositivos, o GIV. Ela descobriu tarde demais que o perigo pode estar mais próximo do que se imagina. "A mulher precisa parar de achar que só porque tem uma camisinha na bolsa será vista como aquele tipo fácil, que sai de casa pensando em arrumar uma transa."

A mulher não precisa apenas mudar seus conceitos em relação à proteção sexual. Deve estar mais atenta também às inclinações do parceiro. É surpreendente que um bissexual ou um usuário de drogas possa conviver intimamente com uma mulher por anos sem que ela nem sequer desconfie do comportamento clandestino dele. É um assunto delicadíssimo. Ninguém se arrisca a dar conselhos de como tocar no tema em casa, mas todos concordam que a hipocrisia, nesse caso, mata. "Não recuso a hipótese de que meu namorado usasse drogas pesadas escondido de mim", diz a mineira Sônia Rodrigues, 27 anos. Há quatro anos, Sônia era a namorada apaixonada de Erick, que há três morreu de Aids. Contaminada mas ainda sem os sintomas da doença, ela até hoje tem dúvidas de como contraiu o vírus. "Acho que foi meu namorado, mas sei lá, a gente nunca tem certeza."

SEMPRE NO PALCO - São raros os casos em que a mulher contaminada sabe, com segurança, como se deu o contágio através do marido. Normalmente ela vira a viúva de um estranho. "Meu marido morreu jurando que nunca se picava", diz Maria S., 35 anos, administradora de empresas paulista, portadora do vírus há quatro. "Logo depois de sua morte, meu irmão me contou que sabia que ele cheirava cocaína. Fui a última a saber", diz. Muitas vezes, quando se descobre a origem da contaminação, é tarde demais. A carioca Valéria Lina Lewis, 27 anos, pegou o vírus do marido, Paulo, que morreu em 1987. Ele havia operado a vesícula tempos antes de conhecê-la e recebido três ou quatro transfusões de sangue.

Sandra Bréa foi casada três vezes. A primeira, com o engenheiro Eduardo Espínolla Netto, foi de papel passado. Casaram-se em 1972 e separaram-se em 1975. Nessa época ela se mudou para a casa de Jacarepaguá, onde mora até hoje. O segundo marido foi o fotógrafo Antônio Guerreiro, o favorito das estrelas nos anos 70 e início dos 80. Foram morar juntos em 1981 e separaram-se em 1983. Ainda em 1983, ela se casou com o empresário gaúcho Arthur Guarisse. Durou apenas oito meses. E houve os relacionamentos fugazes, sobre os quais Sandra falava com tanta liberdade no passado. Mesmo com sua experiência de vida, é impossível arrastar Sandra para uma discussão séria sobre a doença que se abateu sobre ela. "Dona Aurora, minha mãe, deve estar dando pulinhos de alegria lá no céu", diz ela sobre a doença e o desenlace que ela acarreta.

Os sinais são de que a atriz está passando por um período de extremo martírio interior. Os amigos contam que, além da doença, ela sofreu recentemente outros dois fortíssimos abalos emocionais. Um deles, o suicídio da mãe, em 1987. Aurora Santorra foi chefe de aeromoças de uma grande companhia aérea. Vestia-se com apuro. "Suas roupas eram como as dos passageiros da primeira classe", contou Sandra. A mãe foi demitida da empresa em que trabalhava e nunca mais conseguiu um emprego. Ganhava a vida vendendo enciclopédias de porta em porta. "A morte da mãe abalou-a profundamente", diz o ator Carlos Vereza, que a atriz aponta como um de seus poucos grandes amigos.

Há meses veio outro golpe, a briga com o filho adotivo, Alexandre, de 14 anos, "Xandeco", que Sandra levava para teatros e gravações quando ainda bebê. "Alexandre acabou preferindo morar com a babá e madrinha dele. Foi um golpe duro para Sandra", conta o amigo Jorge. "Fiquei surpreso com a notícia, mas acho que ela está se saindo bem. Ficou com uma imagem simpática ao divulgar seu problema", diz Antônio Guerreiro, o ex-marido que soube da Aids de Sandra há quatro meses. Guerreiro não acha que ela esteja desequilibrada emocionalmente. "Ela é assim mesmo, uma pessoa exagerada, agitada. Faz tudo com estardalhaço. Sandra está sempre num palco."

Sem marido e
sem herança

A carioca Lúcia de Fátima Cerqueira Rodrigues, 38 anos, descobriu, em 1987, que seu companheiro, Paulo Cesar de Rodrigues Lopes, era portador do vírus da Aids. Hemofílico, Paulo precisou receber uma transfusão de sangue durante uma extração de dente na Casa do Hemofílico, no bairro da Tijuca. Junto com o sangue, veio a Aids. Lúcia se abateu, mas reagiu de forma corajosa. Não abandonou Paulo, com quem vi via desde 1976 e tinha um filho. Adotou um comportamento mais ou menos comum à mulher brasileira, como observa a médica paulista Valéria Petri. "Nunca vi uma mulher, mesmo que infectada, desamparar um marido doente", atesta Valéria. Lúcia fez então três testes de Aids. Todos deram negativo. Aliviada, podia continuar cuidando do companheiro sem temer pela própria saúde.

No dia 6 de novembro de 1990, aos 37 anos, Paulo morreu, na Casa do Hemofílico. Na hora final, Lúcia não estava ao seu lado. "Dois meses antes de sua morte, descobri que Paulo tinha uma amante e uma filha", justifica-se Lúcia. "Aceitei a doença, mas não ter sido enganada. Por isso, não fui mais visitá-lo no hospital." Com medo de perder para a amante sua parte no espólio do marido, Lúcia moveu, em 1990, uma ação para garantir seu direito à metade dos bens de Paulo - duas casas no subúrbio do Rio e um telefone. Perdeu o processo. No início deste mês, o juiz Severiano Ignácio de Aragão, titular da 40ª Vara Cível do Fórum do Rio, onde corria a ação, concluiu que ela não tinha direito de ficar com nada. "A sentença foi brilhante", comenta Marcelo Turra, professor da disciplina Aids - Aspectos Jurídicos, da Faculdade de Direito Cândido Mendes. Pela lei, Lúcia só poderia ter sido excluída do espólio se tivesse atentado contra a vida do companheiro. "Quem garante que o abandono não tenha acelerado o falecimento do Paulo?", indaga Turra. Daqui a quatro meses, o processo será julgado em segunda instância.


 
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