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25
de março de 1981
A ditadura do fisco
Indefeso diante de impostos sempre
mais onerosos, o contribuinte brasileiro
vai constatando que trabalha cada vez
mais só para pagar o voraz leão do fisco
O engenheiro eletrônico Celso Pradel,
30 anos, dois filhos, mora em São Paulo, trabalha na Ibrape
- uma subsidiária da Philips que fabrica componentes eletrônicos
- e tem um salário de 139 740 cruzeiros mensais. Comedido,
por força das circunstâncias, em suas despesas, PradeI
é organizado ao listá-las, até mesmo como um
imprescindível instrumento de sobrevivência, pois qualquer
exagero poderá levá-lo a dificuldades para fechar
seu mês. Na semana passada, quando preparava a declaração
de imposto de renda que entregará até esta sexta-feira
ao "leão" da Receita Federal, Pradel resolveu debruçar-se
sobre os números e descobrir, afinal, qual é o exato
tamanho da mordida que leva do leão.
Algumas horas de trabalho foram suficientes
para confrontá-lo com uma chocante situação:
somados apenas os impostos que conseguiu identificar - de vez que
muitos tributos, calculados com alíquotas variáveis
e complexas, estão de tal forma embutidos no preço
de produtos e serviços que seria necessária uma equipe
de tributaristas munida de computadores para isolá-los -
Pradel descobriu que dos 4 658 cruzeiros que ganha por dia pelo
menos 1 419 são entregues ao leão.
O engenheiro paulista, um retrato clássico
do contribuinte brasileiro da classe média, simplesmente
trabalha nove dias por mês só para o Fisco, e no final
do ano terá trabalhado exatos três meses e 18 dias
exclusivamente para pagar esses impostos identificáveis a
olho nu - e bem mais que isso, se somar os impostos indiretos acoplados
ao preço dos produtos que consome e demais contribuições
variáveis.
"Assim não há quem agüente",
desabafa Pradel. "É a classe média que tem que
sustentar toda a máquina estatal e a cada dia que passa estamos
pagando mais impostos". Pradel paga mensalmente 15 000 cruzeiros
de imposto de renda, 7 400 cruzeiros para o INPS, 1 378 cruzeiros
para o imposto predial do apartamento em que mora no bairro de Vila
Madalena, 1 570 de imposto sobre a conta do telefone, 435 cruzeiros
sobre a conta de luz, 1 236 cruzeiros de Taxa Rodoviária
Única para seus dois carros e, como se não bastasse,
dos 15 000 cruzeiros mensais que gasta com gasolina, 9 780 vão
direto para o Fisco.
Viver é pagar - "Do
imposto de renda, hoje em dia, não se pode tirar mais nada"
, reconhece o ministro do Planejamento, Delfim Netto, mesmo confrontado
com a aguda necessidade de mais recursos para o Tesouro. "O
contribuinte não terá como pagar - é uma fonte
que secou." Com ele concorda Francisco Dornelles, o temido
- e nestes dias detestado - secretário da Receita Federal,
a dona do leão. "O contribuinte está exaurido",
admite. A descrição é perfeita para Pradel.
"O aumento astronômico da TRU - 55% para carros novos
- nos obrigou a conservar nossos carros, que já têm
seis anos de uso", diz ele.
Pradel consegue localizar, também,
as marcas deixadas em seu bolso pelo "leãozinho"
estadual, o imposto de circulação de mercadorias:
dos 13 677 cruzeiros que computou em gastos com o supermercado no
último mês, 2 119 foram para o ICM. Por fim, ele lembra
que sua mulher Margot, 26 anos, obrigada a trabalhar como representante
comercial justamente para compensar a devastação feita
pelo Fisco no orçamento familiar, paga 11 000 cruzeiros por
ano de imposto sobre serviços, além de uma contribuição
compulsória de 471 cruzeiros, por mês, para o INPS.
"Não há nenhuma atividade que se exerça
sem estar pagando alguma forma de imposto", diz o economista
André Franco Montoro Filho, professor de Finanças
Públicas da Faculdade de Economia da USP. Mais enfático,
o diretor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas
da USP, Adroaldo de Moura Silva, sentencia: "Viver é
pagar tributos".
Sem dúvida, há hoje no Brasil
24 diferentes impostos federais, estaduais e municipais, além
das mais diferentes modalidades de taxação. O brasileiro
paga imposto sobre o que recebe a cada mês. Paga imposto para
morar. Paga imposto - até 30% sobre a conta - para falar
ao telefone. Paga imposto - de novo 30% sobre a conta - quando acende
a luz ou liga qualquer aparelho elétrico. Paga imposto -
1 % sobre o valor - quando recebe a escritura de um imóvel.
Paga imposto para ter automóvel, para colocar gasolina em
seu tanque e para circular em estradas com pedágio. Paga
imposto - 10% sobre o ingresso - para ir ao cinema, ao teatro ou
a um show. Paga imposto - até 6,9% sobre o valor - para fazer
operações bancárias e financeiras. Paga, inclusive,
algo que se chama, para não ficar nenhuma dúvida,
imposto sobre serviços de qualquer natureza. Paga, sob o
amplo rótulo das taxas, emolumentos e tarifas, uma miríade
de tributos: para usar aeroporto, para que lhe recolham o lixo,
para ter água em casa, para tirar documentos e para provar
que não tem nenhum imposto a pagar. Paga desde que nasce
até depois que morre, com o imposto de transmissão
- de 2% - sobre os bens que eventualmente deixar.
Sem Parentesco - Como Celso Pradel,
milhões de contribuintes perderam horas de descanso nas duas
últimas semanas na tarefa de preencher declarações
de renda. Até a próxima sexta-feira, dia 27, deverão
começar a ser entregues na rede bancária 6,2 milhões
de declarações. Desse total, 4,5 milhões receberão
de volta entre 100 e 120 bilhões de cruzeiros - talvez o
sinal mais eloqüente de que o leão, em sua gula, ingeriu
muito mais do que tinha direito. A devolução de parte
do imposto recolhido antecipadamente na fonte - equivale à
soma dos orçamentos anuais dos estados de Pernambuco e Ceará
-, não reflete nenhuma generosidade do Fisco. Ao contrário.
O dinheiro devolvido seria muito maior se a correção
monetária aplicada sobre o imposto retido na fonte, arbitrariamente
calculada em 55%, tivesse algum parentesco com a inflação
de 110,2% verificada no ano passado. "Isso é injusto",
reconhece o cobrador-mor Francisco Dornelles, em seu gabinete da
Receita Federal, em Brasília. A diferença tão
grande entre a correção do imposto e a inflação
corresponde, na verdade, a um imposto adicional. Não se trata
de um empréstimo do contribuinte ao governo, como lembra
o tributarista Alberto Xavier, de São Paulo. "Até
porque a Receita recolhe o imposto ao longo de um ano e devolve,
parte dele, seis ou oito meses depois", diz Xavier. Com isso,
o Fisco ignora sumariamente a inflação do ano do recolhimento
e do prazo que o separa da devolução - e, na língua
oficial do país, essa operação atende pelo
nome de confisco. A inflação, pelo visto, só
é levada em conta com todos os seus decimais quando o Fisco
cobra. Um psicanalista mordido pelo leão na sua recente irrupção
de fúria contra médicos e dentistas, no Rio de Janeiro,
vai ter que pagar, com drástica correção, 156
000 cruzeiros sobre os 22 000 que, de fato, sonegou em sua declaração
de 1978.
A inflação gera outras iniqüidades.
As alíquotas de desconto do imposto de renda na fonte - uma
tabela progressiva que incide sobre as diferentes faixas de salários,
cobrando mais à medida em que o salário é maior
- foram mantidas intactas apesar do advento do reajuste semestral.
Assim, e esse é um caso muito comum, uma parcela do aumento
salarial - na realidade, uma mera correção do poder
aquisitivo, e não um efetivo aumento de renda - é
devorada pelo leão simplesmente porque o salário novo
pulou de uma faixa de desconto para outra, bem mais alta. O salário,
mal ou bem, acompanha uma inflação galopante. A tabela
do Fisco não.
Um mês inteiro - Procedimentos
como esses penalizam de maneira especialmente perversa a classe
média - o grosso do contingente de contribuintes - e, dentro
dela, sacrificam ainda mais os que ganham menos.
Mesmo as pessoas que agora, na hora de
apresentar suas declarações, estarão isentas
de recolher, foram sujeitas a recolhimento do imposto na fonte.
"A classe média acaba sendo a mais prejudicada",
reclama Horácio Alves da Fonseca, gerente de uma agência
em Pinheiros do Banco do Estado de São Paulo, que só
no ano passado pagou 150 000 cruzeiros de imposto de renda - o equivalente
a um mês inteiro de salário. As próprias estatísticas
oficiais amparam sua queixa. A participação do imposto
de renda recolhido dos assalariados em 1978 foi de 70% do total
líquido arrecadado, enquanto a dos ganhos de capital não
chegou nem a 13%. Quem faz fortuna com especulação
financeira paga muito menos imposto do que quem vive do próprio
salário.
A diferença de tratamento também
é flagrante no caso de empresas. Uma empresa agropecuária
que tenha um lucro líquido de 30 milhões de cruzeiros
pode fazer tantos abatimentos, que pagará apenas 360 000
cruzeiros de imposto - ou seja, a cada 100 000 cruzeiros de lucro
estará pagando 1 200 escassos cruzeiros de imposto, enquanto
um assalariado sem dependentes que receba, líquidos, os mesmos
100 000 cruzeiros por mês, pagará na fonte algo como
13 000 cruzeiros, ou 11 vezes mais. A verdade, neste e em outros
casos, é que nos últimos anos o imposto de renda vem
abocanhando parcelas cada vez maiores do salário.
O assalariado Fonseca dá seu testemunho:
em 1979 o imposto retido na fonte, ao longo do ano todo, correspondia
a 75% de seu salário mensal como gerente de banco; este ano,
comeu um salário inteiro. Marcelo Rudge Barbosa, 34 anos,
dois filhos, administrador de empresas do BNDE, ganha por ano 14
salários mensais de 102 000 cruzeiros, que, somados aos 20
000 que sua mulher Alexandrina ganha como nutricionista, compõem
uma renda mensal que não dá margem a poupança.
Alexandrina cortou todos os gastos supérfluos, mas isso só
não foi suficiente. "Não existe imposto sobre
a renda, mas sobre o salário", queixa-se Barbosa.
Mas, como milhares de outros brasileiros,
Barbosa não sente arrepios só com a proximidade do
leão. Todos os impostos que paga sobem exponencialmente.
A odiada TRU, que todo proprietário de veículo paga,
é um caso exemplar de matemática fiscal. De 1979 para
1980, a arrecadação da TRU mais do que triplicou -
pulou de 15,3 bilhões pala 49,9 bilhões de cruzeiros.
A frota de veículos, porém não cresceu nem
10% no mesmo período. O caso do Imposto sobre Produtos Industrializados
(IPI) também é dramático e freqüentemente
ilude o próprio consumidor. Dos 312 828 cruzeiros que custa
um Volkswagen 1 300, zero quilômetro, por exemplo, 162 670
cruzeiros correspondem a impostos. O preço do mesmo Volks,
sem impostos, seria de 150 158 cruzeiros. O IPI é igualmente
frenético em produtos como os cigarros: um maço de
HoIIywood vendido a 41 cruzeiros recolhe de impostos algo como 30
cruzeiros, pagos pelo consumidor.
Duzentas taxas - A volúpia
de taxar não é privilégio do governo federal.
Nos estados o quadro é o mesmo, ou até pior. No Rio
de Janeiro, único estado governado por um político
de oposição - Chagas Freitas, do PP -, registra-se
provavelmente o mais elevado índice de natalidade de taxas
do país. Existem hoje, no Rio, nada menos que 200 taxas diferentes.
O governo fluminense recriou a taxa do lixo, que o Supremo Tribunal
Federal derrubara como inconstitucional, e só com ela arrecadou
ano passado 2,6 bilhões de cruzeiros. Inventou uma taxa de
incêndio, pretexto para pagar os bombeiros, e levantou mais
500 milhões. Deu à luz, ainda, uma taxa judiciária,
mas o novo rebento mal teve tempo de respirar. Um grupo de advogados
interpôs um recurso na Justiça e a cobrança
foi suspensa - por enquanto. "Não há outra saída
a não ser criar taxas", alega o secretário da
Fazenda, Heitor SchilIer, que recebe salário mensal de 206
000 cruzeiros e entrega ao leão, por ano, o equivalente a
três salários.
Schiller, um entusiasta do Fisco, prevê
novos ataques ao contribuinte fluminense. "Se amanhã
o governador me propuser uma taxa para saúde, eu cobro",
garante. Segundo ele, milhares de pessoas procuram diariamente os
hospitais sem necessidade. "Por qualquer faniquito se vai a
um hospital, só porque é de graça", teoriza
SchilIer. "Se houvesse uma taxa, a procura caía e os
hospitais melhoravam". Há outros truques de que o contribuinte
nem desconfia. A taxa de incêndio, por exemplo, não
é distribuída nos domicílios do Rio de Janeiro.
O contribuinte tem que comprar um formulário específico
numa papelaria. "Assim, a gente cobra também o ICM sobre
o papel do formulário", gaba-se Schiller.
Sociedade Cínica - A esse
bombardeio maciço de taxas o contribuinte brasileiro está
respondendo, por enquanto, com resignação. Paga, muitas
vezes não sabe por que paga, e não reclama. O próprio
Schiller, prolífico pai de taxas, estima que a carga tributária
total que pesa sobre os brasileiros pode estar beirando os 60% da
renda. E não se percebe no horizonte até onde irá
o Fisco. "Está-se criando neste país uma sociedade
cínica", lamenta o advogado, fiscalista e contista bissexto
Antonio Fernando Bulhões de Carvalho, do Rio de Janeiro.
"Ninguém mais luta contra a injustiça ou a inconstitucionalidade
de certas medidas". Bulhões acha que o futuro para o
contribuinte brasileiro é cada vez mais sombrio - a despesa
pública só tende a crescer e, no final, acabará
sendo sempre amortizada pelo contribuinte.
Caçando dinheiro por meio de impostos,
os governos sabem que, por mais poderosos que pareçam, jamais
podem atravessar uma certa faixa de segurança. Afinal, a
história da humanidade registra um número bem maior
de levantes populares contra impostos do que, por exemplo, contra
más leis eleitorais. Exatamente por isso, em todo o mundo,
são mais freqüentes as anistias fiscais que as políticas.
Também por isso, o ministro Delfim pondera que não
se pode arrancar mais nada do contribuinte no imposto de renda -
mesmo porque o Brasil, durante tantos anos um paraíso onde
não se pagava nada ao estado, hoje em dia está correndo
junto e em muitos casos até passando na frente dos países
de taxação mais alta do mundo.
Brasil X EUA - Os dados indicam
que somente o Japão possui um leão com o mesmo apetite
do brasileiro. Na maioria dos demais países do Mercado Comum
Europeu e nos Estados Unidos, a tributação pode ser
particularmente feroz, mas em geral incide com muito mais dureza
sobre o capital, taxando o assalariado com maior grau de justiça.
Nos Estados Unidos, por exemplo, um contribuinte com mulher e dois
filhos que tenha um salário mensal equivalente a 125 000
cruzeiros e faça as deduções padrão
de 25% irá pagar um imposto de renda anual de 142 425 cruzeiros.
Um brasileiro, na mesma faixa de renda e nas mesmas condições,
pagará 209 000 cruzeiros - simplesmente 46,5% a mais do que
o contribuinte americano.
Nem por isso o contribuinte americano acha
que seu fisco é benevolente - muito pelo contrário.
Em 1980, segundo estatísticas do FBI, três quartos
de todos os casos de desacato a autoridades federais nos Estados
Unidos foram praticados contra funcionários do Internal Revenue
Service, a Receita Federal americana. De maneira menos patológica,
e com muito maior significado político, esse estado de espírito
intensamente antifisco tem se manifestado na própria orientação
atual da sociedade americana. Afinal, o presidente Ronald Reagan
foi eleito, entre outras coisas, no bojo de uma apaixonada pregação
contra o avanço do estado em direção ao bolso
dos indivíduos e das empresas. Antes disso, no âmbito
estadual, cidadãos derrubaram diretamente, por meio de plebiscitos,
impostos e taxas. E uma das questões centrais do debate econômico
dos Estados Unidos, hoje, é o projeto do governo para cortar
10% do imposto de renda por ano, ao longo de três anos.
Para onde vai? - Mesmo os que supõem,
no Brasil, que o Fisco americano é mais impiedoso reconhecem
que pelo imposto pago o contribuinte dos Estados Unidos ganha de
volta benefícios incomparavelmente maiores do que o contribuinte
brasileiro. "Aqui paga-se muito e recebe-se pouco", lamenta
Marcelo Rudge Barbosa, por quem o estado, tanto quanto ele se lembra,
nunca fez coisa alguma. De tudo que se paga no Brasil, a Previdência
Social é provavelmente o organismo do qual se espera resposta
mais imediata - serviços de saúde expeditos e uma
aposentadoria digna. Não dá nem uma coisa nem outra.
A classe média paga ao INPS como um imposto. Não está
disposta a engrossar as filas dos hospitais - escaldada, quem sabe,
no exemplo do próprio ministro da Previdência, Jair
Soares, que, postado anonimamente na fila de um ambulatório,
não conseguiu ser atendido. Os contribuintes preferem, como
os 500 000 afiliados da Golden Cross, pagar um seguro-saúde
por conta própria.
Quem paga INPS, ou qualquer outro imposto,
já perdeu de vista o uso que fazem do bolo cada vez maior
arrecadado. É difícil para o contribuinte imaginar
que ao encher o tanque de gasolina de seu carro está, por
exemplo, sustentando o Fundo Aeroviário, uma parte do DNER
e até dando dinheiro para a Nuclebrás - em cada litro,
de 60 cruzeiros, 40 são integralmente de impostos. Essa questão
- para onde, afinal, vai todo o dinheiro que se paga de impostos?
- é, na verdade, uma das faces mais importantes do debate
fiscal no Brasil. E, segundo estão prontos a admitir até
mesmo os integrantes do governo, as respostas para tal questão
permanecem largamente insatisfatórias.
Sabe-se naturalmente o quanto, em grandes
números, cada setor da administração federal
recebe, assim como se sabe que 1 em cada 3 cruzeiros arrecadados
de impostos é consumido no pagamento de funcionários
do próprio estado. Está claro, também, que
uma parte considerável do que se pagou emerge, à vista
de todos, na forma de obras como Itapu e Tucuruí, rodovias,
usinas nucleares ou equipamentos de telecomunicações.
O grande problema, porém, sobretudo num país onde
o contribuinte está reconhecidamente exaurido pelos impostos,
é a emergência no Brasil de uma máquina estatal
a cada ano mais cara, maior e, por isso mesmo, cada vez mais sujeita
ao desperdício e a despesas que o cidadão brasileiro
médio, o pagador de tudo, dificilmente engoliria, se tivesse
meios para tanto.
865 000 maços - De fato,
o contribuinte está perfeitamente disposto a aceitar que
tantos ou quantos bilhões sejam destinados a tal ou qual
ministério - mas é certo que preencheria sua declaração
de rendimentos com uma oitava a mais de irritação
se estivesse a par das dezenas de pequenas histórias e pequenas
contas que, no dia-a-dia da máquina estatal, acabam ajudando
a compor a soma final das despesas públicas. Pode ser de
seu interesse, por exemplo, saber que está pagando desde
1979 por uma missão completa que o Brasil mantém junto
à Conferência de Desarmamento das Nações
Unidas, em Genebra - a qual não se deve confundir com a equipe
brasileira junto aos demais organismos da ONU na mesma Genebra,
e muito menos com a Embaixada brasileira na Suíça,
em Berna.
Embora o Brasil não tenha precisamente
do que se desarmar, o Itamaraty deslocou de Moscou para Genebra
o embaixador Celso Souza e Silva (salário de 8 000 dólares
mensais) mais um ministro conselheiro (6 000 dólares de salário)
e dois oficiais de chancelaria. Souza e Silva dispõe de casa
própria e a delegação brasileira aluga dois
conjuntos de quatro salas. A presença do Brasil na Conferência
do Desarmamento custa ao contribuinte algo como 350 000 dólares
por ano, ou 26 milhões de cruzeiros. De onde podem vir 350
000 dólares? Podem vir, por exemplo, do IPI arrecadado com
a venda de 865 000 maços de cigarros Hollywood. Assim, a
cada 17,3 milhões de cigarros que fumam, os contribuintes
zeram a conta do desarmamento em Genebra.
O engenheiro paulista Livingstone Munck,
32 anos, casado, sem filhos, salário mensal de 135 000 cruzeiros,
que alimentou o leão este ano com 245 000 cruzeiros só
em imposto de renda, não sabe que é preciso 200 contribuintes
iguais a ele para sustentar, ao longo de um ano, apenas um dos jatinhos
Learjet, de cinco lugares, que o governo mantém em sua frota.
Pelo menos o Banco Central, o Instituto Brasileiro do Café,
o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal possuem aparelhos
iguais a esse, que percorrem rotas as mais diversas e têm
um custo de operação médio de 50 milhões
de cruzeiros por ano, cada um.
Da mesma forma, o gerente de banco Horácio
Alves da Fonseca não conseguiu esconder seu aborrecimento
quando teve que entregar ao imposto de renda, este ano, um mês
de salários - 150 000 cruzeiros. Mal sabia que são
necessários outros 5 000 Fonsecas para colocar em marcha,
a cada ano, os 1 440 carros de representação a serviço
dos burocratas federais - uma gota d'água no oceano de 28
000 veículos atualmente a serviço da União.
Um Opala chapa-branca, segundo informações do Dasp,
tem um custo mensal de 44 000 cruzeiros.
Sem política - Há
também, e com mais relevância, o vasto caudal do desperdício
e das despesas geradas pela incompetência administrativa,
uma histórica marca do estado brasileiro - o caso clássico,
aqui, para ficar em exemplos recentes, é o da "Ferrovia
do Aço", que até agora consumiu bilhões
de cruzeiros em obras que o Banco Mundial, constrangidamente, considerou
contrárias aos interesses brasileiros e, por isso, se recusou
a financiar.
E inevitável, assim, que sejam necessários
recursos cada vez mais formidáveis para sustentar essa máquina
condenada a gastar cada vez mais - e por aí se pode chegar
à pedra de toque da questão tributária no Brasil.
Ela consiste na inexistência, para todos os efeitos, de uma
genuína política fiscal - em vez disso, o que existe
é apenas um esforço arrecadador para manter o estado
à tona. Criam-se, aumentam-se e modificam-se impostos com
o único objetivo de fazer frente às despesas imediatas.
Na verdade, o que o país tem assistido,
num cenário mais amplo, é ao desabamento dos critérios
do governo em relação aos dois tendões da saúde
econômica da classe média: a poupança e os impostos.
Para ir bem do bolso, o governo precisa que os cidadãos poupem
e paguem. Assim, a idéia é estimular a poupança
e azeitar a máquina fiscal. Nos últimos dois anos,
porém, o governo estabeleceu um confisco sobre as cadernetas
de poupança e, pouco depois, mostrou que o Fisco recuou para
o estágio da inteligência animal: sai à procura
de comida quando tem fome. O leão, mal alimentado pelos fiscais
do zoológico, sai raivoso a comer visitantes sempre que a
caixa de Brasília está baixa.
A economia de um governo, numa comparação
simples, é semelhante à de uma família. Numa
casa, é preciso haver dinheiro para pagar a gasolina do carro.
Se o dono da casa desorganiza suas contas, chegará o dia
em que, aflito, sairá a procurar moedas em vasos, sobras
com a empregada ou notas esquecidas em paletós de inverno
para pagar a gasolina. O Brasil legisla sobre matéria tributária
com o alvoroço desse cidadão. O passo seguinte, nesses
casos, é o sujeito descer à rua com o faqueiro da
casa, oferecendo-o aos transeuntes.
Colchão de ar - A analogia,
na vida real do governo, é mais comum do que se pode pensar.
No dia 10 de dezembro do ano passado, o secretário da Receita
Federal, Francisco Dornelles, em um de seus despachos matinais com
o ministro Delfim Netto, foi surpreendido com uma instrução
lacônica: "Chico, você precisa me arrumar 300 bilhões".
Dornelles foi ver o que podia fazer. Recolheu-se a seu gabinete
na Receita e dali emergiu três dias depois com a fórmula
salvadora para os cofres públicos: aumentar o Imposto sobre
Operações Financeiras. Episódios como este,
na verdade, são coisa velha, indissoluvelmente ligada aos
hábitos tributários da administração
- e ilustração exemplar da ausência de uma política
fiscal verdadeira. Em 1973, o então ministro do Trabalho,
Júlio Barata, incluiu no guarda-chuva da Previdência
Social as empregadas domésticas e confessou que sua real
intenção era fechar um rombo nas contas do INPS, por
meio das contribuições que então passaram a
ser feitas pelas empregadas e suas patroas.
Na verdade, a desordem tributária
do Brasil é um sinal eloqüente de que, superadas as
primeiras etapas da abertura política, o arbítrio
continua dramaticamente concentrado na área fiscal. Provavelmente
não existe nenhuma outra área da vida nacional onde
o indivíduo esteja à mercê do estado de forma
tão completa quanto em matéria de impostos - uma província
na qual o Executivo impera com absolutismo, esta situação
apenas se agrava quando o Congresso, desde 1967 destituído
de seus poderes para tratar de impostos, debate por meses a fio
suas prerrogativas, sem lembrar em nenhum momento de incluir entre
elas a principal: legislar sobre matéria tributária.
"É inadmissível que
o Congresso não tenha entre suas prerrogativas a discussão
da política fiscal", diz Bulhões de Carvalho.
"A política fiscal é um instrumento do governo.
Tem que ser discutida". Também o secretário da
Receita Federal acha que o Executivo não pode ter poderes
imperiais nesta área. "A discussão no Congresso
só criaria um clima de co-responsabilidade, ideal à
execução de uma verdadeira política tributária",
diz Francisco Dornelles. Na realidade, esse entorpecimento do Congresso
nas questões tributárias faz com que inexista entre
o Fisco e o contribuinte um indispensável colchão
de ar. Não há nada entre o Fisco e seu bolso, assim
como não há quem fale por seus interesses. Sozinho
diante do leão, o brasileiro apenas se conforma, quietamente,
em pagar a conta.
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