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Reportagens 25 de fevereiro de 1987Sarney espeta a conta O governo anuncia a moratória dos
Nesta segunda-feira, a partir do momento em que quase 700 bancos de várias nacionalidades e tamanhos começarem a abrir suas portas ao redor do planeta, o dinheiro que têm a receber por conta de juros, de um cliente que lhes deve no total 107 bilhões de dólares, deixará de entrar em seus guichês. Na última sexta-feira à noite, José Sarney, o presidente deste cliente chamado Brasil, comunicou em cadeia de rádio e televisão que o país, depois de ter ido à bancarrota pela última vez em 1982, voltara a quebrar e entrara, oficialmente, de novo em moratória. "Tomei uma decisão de grave importância para a História do Brasil contemporâneo", revelou Sarney, ao abrir sua fala de 18 minutos, que começara a ser redigida já na quarta-feira. "Quero anunciar que o Brasil suspende o pagamento dos juros de sua dívida externa." Começou ali, com o discurso do presidente gravado no porão do Palácio do Planalto e recheado de sombrias referências à "segurança nacional", "traição ao país" e "patriotismo", a materialização de uma das propostas defendidas pelo PMDB desde quando estava na oposição e há meses trabalhada pelo ministro da Fazenda, Dilson Funaro. Chegou-se a esta situação, no entanto, não como desembocadura de uma estratégia cuidadosamente construída e sim pela absoluta falta de moeda forte no caixa do Banco Central para fazer frente aos compromissos internacionais do país. É uma decisão arriscada - a História está repleta de casos de países, inclusive o Brasil do governo João Figueiredo, que foram à moratória e só saíram dela após uma enorme recessão. Nem o governo nem os credores, nesta recaída na falência externa, têm a menor idéia do que vai acontecer de agora em diante. A banca internacional foi informada da decisão através de um telex de três palmos de comprimento enviado ainda na sexta-feira por Funaro ao coordenador dos credores do Brasil, o vice-presidente do Citibank, William Rhodes, em Nova York, com o pedido de que a mensagem fosse retransmitida a quem tivesse dinheiro a receber do governo brasileiro. Não havia, até a manhã do sábado, declarações explícitas dos bancos credores a respeito de represálias contra o ato unilateral do Brasil - mas o fato de a palavra "represália" não ter sido formalmente pronunciada não quer dizer muita coisa. Da mesma formal Sarney, Funaro e outras autoridades brasileiras fizeram questão de jamais utilizar a palavra moratória - embora seja exatamente isso, pela mais neutra definição do dicionário, o que o Brasil fez. "Vamos negociar uma fórmula de amortizar os nossos compromissos dentro de parâmetros que não comprometam o desenvolvimento nacional, uma fórmula que evite a instabilidade política que fatalmente viria seguida de recessão, de desemprego, de crise social", prometeu Sarney. Que fórmula é essa, ninguém sabe. Sabe-se apenas que o governo suspendeu o pagamento dos juros por prazo indeterminado - e não por noventa dias, como se falou durante a semana, ou mesmo oitenta, como explicou a um banqueiro europeu o embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Marcilio Marques Moreira. Ele viera a Brasília na terça-feira, convocado por Sarney, e já na quinta colocava a banca internacional a par do que aconteceria. Mas só no fim da tarde de sexta-feira, quando caminhava ao final a reunião do Conselho de Segurança Nacional que referendou a moratória, é que Moreira foi ao Departamento de Estado entregar o comunicado oficial do governo brasileiro. Os bancos credores, por sua vez, além de receber o telex enviado a Rhodes, foram convocados para uma reunião de urgência às 16h30 do sábado na agência do Banco Central em São Paulo, na Avenida Paulista, para receber as primeiras orientações a respeito de como operar, na prática, com as novas regras do jogo. A suspensão do pagamento dos juros - o principal já deixou de ser pago há anos e é periodicamente "rolado" para a frente - não é geral. Ela envolve cerca de 70% da conta de juros que o Brasil deveria pagar este ano, estimada em 8 bilhões de dólares, alcançando a totalidade dos empréstimos de médio e longo prazo concedidos por bancos privados internacionais, à exceção, naturalmente, do que já foi pago de 1º de janeiro até a última sexta-feira. Continuarão a ser pagos os juros dos empréstimos dados ao Brasil por organismos multinacionais, como o Banco Mundial, por institutos governamentais e pelas agências de bancos brasileiros instaladas fora do país. Foram também excluídos do calote, que só terminará, segundo Funaro, quando as negociações chegarem a bom termo, os empréstimos com menos de um ano de prazo para pagar. São as linhas de crédito de curto prazo que financiam o comércio exterior do país e irrigam as agências brasileiras em Nova York - especialmente a do Banco do Brasil, responsável por 7,6 bilhões de dólares de empréstimos ao país. TEMOR DE COLAPSO - "Vamos acompanhar atentamente, a partir desta semana, a situação dessas linhas de curto prazo, pois aí é que está a nossa maior preocupação", afirmou na noite de sexta-feira o presidente do Banco Central, Francisco Gros - o economista alcançado por Funaro numa diretoria do BNDES para o lugar de Fernão Bracher, que se demitiu há duas semanas alvejado pela sua política de juros e por discordar da tese da moratória. E grande o temor, entre a equipe de Funaro e no Palácio do Planalto, de que os bancos da crucial praça de Nova York, mas sobretudo as pequenas instituições do interior dos Estados Unidos, comecem a sacar seus depósitos nas agências brasileiras plantadas no exterior, num total de 15 bilhões de dólares, dando início, assim, ao mais absoluto colapso do comércio do país. Destes depósitos dos bancos estrangeiros, feitos pelos prazos de um a noventa dias no máximo, originam-se os créditos comerciais com os quais as empresas brasileiras, privadas ou estatais, compram produtos no exterior e financiam suas exportações a clientes de fora. No comércio internacional praticamente não há negócios pagos à vista, ainda mais no caso de um país faminto de divisas fortes, como o Brasil. Daqueles mesmos depósitos, além disso, saem os recursos que mantêm ativas as agencias de bancos brasileiros lá fora, já que, com raras exceções e mesmo assim em quantias diminutas, elas não vivem de depósitos normais de clientes - mas de financiamentos de curto prazo dados por outros bancos. Sarney se preocupou, em seu pronunciamento, em destacar que a suspensão do pagamento dos juros não significava "uma atitude de confronto" de seu governo com os credores da dívida externa. O embaixador em Washington também foi instruído a empregar uma linguagem "firme porém serena" - e o ministro da Fazenda procurou descartar alguma conotação "ideológica ou emocional" na decisão da moratória. FIGURAS ESTRANHAS - Vem nessa linha de preocupação de não agitar o vespeiro da praça de Nova York a decisão de deixar de fora da moratória as remessas de lucros, dividendos, royalties e repatriações das empresas estrangeiras instaladas no Brasil, assim como a venda de dólares aos viajantes ao câmbio oficial, ao contrário do que ocorrera em 1982. "Só com lucros, dividendos e repatriações ainda estamos sofrendo uma sangria de 150 milhões de dólares por mês", conta uma importante autoridade monetária. "Nós estamos dando aos bancos o recado de que o capital, aqui investido e não os empréstimos, terá tratamento preferencial nas nossas negociações para sairmos do sufoco." Não foram poucas as preocupações com as conseqüências do país ir à moratória durante a reunião do Conselho de Segurança Nacional que antecedeu o anúncio feito na noite da sexta-feira por Sarney. As indagações mais contundentes partiram dos ministros almirante Henrique Saboia, da Marinha, e Jorge Bornhausen, da Educação. Sarney falou pouco na reunião, que contou com a presença do ministro do Planejamento, João Sayad, que estava em São Paulo convalescendo da meningite que o acometeu há duas semanas. "Os senhores não precisam preocupar-se porque a moléstia não é contagiosa", brincou Sayad. Cada vez mais um estranho na equipe econômica comandada por Funaro, veio a Brasília chamado por Sarney, graças a conselhos de assessores planaltinos, segundo os quais não ficaria bem o ministro não ser ao menos convidado para a reunião. Nela, quem brilhou foi o ministro da Cultura, Celso Furtado, uma das vozes do PMDB que há mais tempo se encontra comprometida com a tese da moratória. Furtado previu um "duro e prolongado" período de negociações pela frente. Destacaram-se também as presenças dos presidentes do Supremo Tribunal Federal, da Câmara e do Senado - figuras estranhas ao foro do CSN, no qual só o ninistério tem assento. Com base nas narrativas dos presentes, uma coisa parece certa: salvo Sarney e Funaro, todos que falaram na reunião estarão em perfeitas condições de mostrar daqui a alguns meses, caso a moratória dê errado, que deixaram registradas suas reservas. De fato, tais reuniões são gravadas - e os participantes tiveram o cuidado de falar com um olho em Sarney e outro no gravador, para o qual destinaram as frases em que habilmente manifestaram ceticismo. Quase todos encontraram uma maneira diferente de perguntar a Funaro, por exemplo, que outras alternativas havia - de forma que a conclusão de que não havia nenhuma outra, à exceção da moratória, fosse uma colocação da exclusiva responsabilidade do ministro da Fazenda. Há uma mandinga em tomo de tais reuniões. Não existe nos registros históricos um único caso de reunião do CSN que tenha funcionado como conselho, visto que os presidentes sempre o convocaram para comunicar o que já estava decidido. Não há também qualquer caso em que suas deliberações tenham resultado em alguma melhora visível para a segurança nacional ou para o bem-estar do brasileiro. As três vezes em que o CSN se reuniu, antes da semana passada, foi para aprovar o AI-5, em 1968, o Pacote de Abril, que fechou o Congresso e criou a figura do senador biônico, em 1977, e a política do arrocho salarial do governo passado. Foi um Sarney tenso e preocupado que saiu dessa reunião direto para outra com as lideranças do PMDB e do PFL na Câmara e no Senado atrás da repercussão da moratória entre os políticos. "Todos apóiam o ato do governo e a essência da proposta", afirmou o líder do PFL no Senado, senador Carlos Chiarelli. As manifestações entusiásticas partiram dos setores mais radicais e xenófobos do PMDB. O senador Severo Gomes (PMDB-SP), que há anos se tomou um profissional da pregação antiestrangeira e apresenta a moratória como um elixir universal para todos os problemas do Brasil, gostou da decisão. "Ela é coerente, pois se você vive ameaçando que vai fazer é porque vai fazer", disse o senador paulista. "Agora, vai acabar a chantagem e esses canalhas vão querer negociar mais mansinho." O governador peemedebista de Pernambuco, Miguel Arraes, interpretou a posição de Sarney como moderada, pois admite uma ampla negociação com os credores, e seu colega pedetista do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, um crítico incansável de Sarney, prometeu "apoio tático" de seu partido à moratória. De um modo geral, porém, as reações no Brasil como um todo foram notavelmente mais contidas, mesmo em setores de esquerda - não houve festejo ou explosões de emoção patriótica e líderes como Luís Ignácio Lula da Silva (PT-SP) acharam que a moratória de Sarney significava apenas que o Brasil está quebrado. QUARTA DE CINZAS - "Mas e depois?", indagou o senador Jarbas Passarinho, do PDS do Pará. Era essa a pergunta que estava na origem das inquietações dos empresários na semana passada, depois de três dias de uma onda de boatos como há muito não se via e as lembranças da moratória de 1982, que os levou a enfrentar a recessão e percorrer extenuantes viagens à Cacex e ao Banco Central em busca de autorização para poder importar matérias-primas, equipamentos ou componentes sem os quais não poderiam produzir e, obviamente, vender. "As conseqüências da moratória são danosas", acredita o presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica, Aldo Lorenzetti. "Sem a entrada de dinheiro, vamos ter empresas paradas por falta de componentes. Essa moratória só atende às pressões do PMDB." O problema, segundo o presidente da Associação Nacional de Fabricantes de Papel e Celulose, Horácio Cherkassky, é que os políticos forçam a tomada de "decisões graves" sem considerar as conseqüências. "Eles estão numa posição fácil e cômoda", critica Cherkassky. "Mas somos nós, a classe produtora e a população, que teremos de arcar com as conseqüências." Não é que os empresários se coloquem, frontalmente, contrários à suspensão dos pagamentos da dívida externa. "Se não há caixa, não há o que fazer", constata o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Mário Amato. "A questão é que a partir de agora os vendedores no exterior vão querer pagamento à vista e, sem importação, não há produção nem exportação", afirma o diretor-financeiro da filial brasileira da indústria química americana Dow, Marcel Batsleer. As conseqüências desse cenário, segundo o economista Paulo Guedes, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais, são recessão e desemprego. "É impressionante um governo que tem um ministro da Fazenda que conseguiu produzir duas hiperinflações, a anterior ao Plano Cruzado e a atual, e agora vai fazer uma recessão heterodoxa desastrosa", afirma Guedes. Mesmo entre economistas diretamente envolvidos com a linha de fogo da negociação com os credores, como os técnicos do Banco Central, há profundas inquietações. "Só a suspensão do pagamento dos juros não é suficiente sem uma política econômica interna coerente", diz um economista do Banco Central. É o que afirma o presidente da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da USP, Fernando Homem de Melo: "No princípio tudo parecerá correr bem e a moratória terá apoio político, mas depois virá a quarta-feira de cinzas". 'CABEÇA PARA BAIXO' - Para Homem de Melo, o país está sem política econômica e não consegue nem explicar a natureza da crise que se desenha. Uma voz absolutamente crucial para o relacionamento entre o governo brasileiro e seus credores falou no mesmo tom. "A confiança no Brasil foi perdida", afirmou, com inédita dureza, o presidente do Federal Reserve Board, o banco central americano, Paul Volcker, ao falar na última quarta-feira no Comitê Bancário do Senado dos Estados Unidos. Volcker, uma das personagens mais poderosas da finança mundial, na sua condição de zelador supremo da moeda, dos juros e dos bancos dos Estados Unidos, é figura-chave nas negociações que Funaro e Gros pretendem abrir, brevemente, com a banca internacional e o governo americano em torno do que fazer após a moratória brasileira - mas, a julgar pelo seu estado de espírito na semana passada, a conversa não será boa, até porque o presidente do Fed nunca cultivou boas relações com o ministro Funaro. Este americano grandalhão, com mais de 2 metros de altura, apaixonado por charutos cubanos e que já tratou sucessivamente com sete presidentes do Banco Central do Brasil desde que assumiu seu cargo, indispôs-se com a equipe econômica brasileira no curso das negociações conduzidas por Funaro com os bancos privados, entre o final de 1985 e o início do ano passado, para renegociar os débitos vencidos até dezembro último. O pleito de Funaro: negociar sem qualquer acordo com o Fundo Monetário Internacional. Volcker cedeu na última hora - assim como o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, James Baker III, também concordou em atender a mesma condição durante as negociações com credores governamentais do Brasil no âmbito do chamado Clube de Paris, em janeiro passado. Hoje, tanto no governo americano quanto entre os banqueiros particulares, muitos acham que se deu corda demais ao que chamam de "ousadia" do ministro brasileiro. Funaro e Gros pretendem embarcar na véspera do Carnaval para Washington e Nova York, certos de que não encontrarão terreno fácil, mas convencidos de que há espaço para dialogar. Lá, ouvirão muitas indagações sobre o que o país tem a oferecer. "Essa história de não pagar os juros já era esperada, pois os números não mentem jamais e as reservas do Brasil já estavam excessivamente baixas", disse na última sexta-feira a VEJA o vice-presidente de um dos maiores bancos nova-iorquinos e integrante do comitê de coordenação dos credores. "Qual a extensão desse problema? Eu não sei. Espero que não seja dramático. Há outra saída? No momento também não sei. O que sabemos é que só a declaração da moratória não resolve problema algum." Para este executivo, que se queixa do que chama de "postura soberba" de Funaro, o Brasil terá de apresentar uma política econômica antes de pedir alguma coisa e, além disso, passar pelo FMI "O que é mais assustador é que tudo isso ocorreu em seis meses", espanta-se. "Em 1982, o Brasil perdeu reservas diante de fatores externos, como a alta do preço do petróleo e dos juros. Hoje existe o mesmo quadro, mas provocado por fatores domésticos. Agora o governo vai culpar quem?" Na França, a perplexidade diante da extrema e rápida deterioração das contas do país não foi menor com o anúncio da moratória. Há disposição de cooperar. "É inegável que houve um retrocesso da economia brasileira, embora a situação não seja catastrófica", disse o executivo principal de um dos gigantescos bancos estatais da França. Sua dúvida é comum aos banqueiros de outras nacionalidades: a resistência ao FMI. "Essa atitude é literária e não científica", ironiza. FOME DO POVO - Sarney deu, a seu modo, respostas à estupefação dos credores no pronunciamento de sexta-feira. Ao tentar explicar por que o Brasil chegou à presente situação de falência, com suas reservas em divisas jogadas à lona, argumentou que ao assumir o governo, em março de 1985, elas eram de 7,8 bilhões de dólares - e que no ano anterior haviam ingressado no país 9 bilhões sob a forma de novos empréstimos concedidos pelos credores. "Pois bem", cobrou o presidente, "em 1985 e 1986, os dois anos de meu governo, nem 1 dólar líquido. E nestes dois anos, ao contrário, nós tivemos uma saída líquida de 1,4 bilhões de dólares." Para Sarney, é hora de parar. "Nos últimos cinco anos, o Brasil pagou 55,8 bilhões de dólares somente em juros", acrescentou em seu discurso. "Repito: nós não podemos pagar a dívida com a fome do povo." O fato é que a crise cambial que levou à presente moratória é mais recente e suas raízes não são encontradas na época em que o mesmo Sarney era presidente de um PDS que avalizou em 100% a política então praticada pelo ministro do Planejamento, Antônio Delfim Netto. Surgidos no último trimestre do ano passado, quando os superávits da balança comercial brasileira começaram a emagrecer a olhos vistos, caindo de uma média de 1 bilhão de dólares ao mês para raquíticos 100 milhões, os sinais de que a situação não comportava ilusões se acentuaram em janeiro - o Banco Central começava a administrar as remessas de divisas para o exterior. A diferença, em relação à quebra de 1982, é que agora o governo, pelo menos publicamente, assumiu uma posição adversária em relação aos credores, convencido de que poderá manter-se à tona devido aos supostos interesses dos países desenvolvidos de evitar uma crise semelhante à de cinco anos atrás - e confiante no que acredita ser o "peso do Brasil" no cenário internacional. "O brasileiro, por um problema atávico, não pode ver alguém de olhos azuis sem sentir medo", interpreta o chefe da Assessoria Econômica de Funaro, Luiz Gonzaga Belluzzo. Não se sabe em que dados factuais o assessor se baseia para fazer essa análise, nem se ela inclui o considerável contingente de brasileiros que têm, eles próprios, olhos azuis, mas seu recado é claro: boa parte dos problemas com o trato da dívida, segundo a visão reinante no gabinete de Funaro, derivaria da excessiva timidez dos funcionários do governo brasileiro, ao longo dos anos, diante de seus interlocutores estrangeiros. Ao suspender o pagamento dos juros, o governo avança também um sinal vermelho sempre seguido nas renegociações dos compromissos anteriores. Nelas, rolava-se o pagamento das amortizações, mas mantinha-se como ponto de honra saldar a conta dos juros, mesmo que à custa de atrasos mais ou menos longos. Desta vez, não existe na retórica do governo a disposição de ajustar a máquina econômica para quitar pontualmente o serviço da dívida - ou seja, os juros. Ao contrário, o que se deseja é que os credores se convençam de que o Brasil só deve pagar o que pode. "Não está nos planos desse governo pagar os juros da dívida à custa do sacrifício da economia interna", afirmou Funaro aos políticos com quem se reuniu na quarta-feira. O governo acha-se, além disso, prisioneiro das promessas políticas de que os auditores do FMI nunca mais voltariam a examinar os livros nacionais. "O governo deve encontrar a fórmula que quiser para limitar a remessa de juros ao nível que o país possa pagar", afirma o senador Mário Covas (PMDB-SP). "Mas na questão do FMI não tem conversa. Aí quem fala é o PMDB e não apenas o ministro da Fazenda." 'MENTIRAS' - Sarney acredita que tem cacife para agüentar uma parada dura com a banca internacional. "O Brasil tem hoje reservas suficientes para atender às importações por vários meses", animou-se em seu pronunciamento. "Nossas reservas líquidas e disponíveis, posso assegurar à nação, são de 3,96 bilhões de dólares." Há sérias dúvidas quanto a tais números revelados por Sarney, ainda mais partindo de um governo que, deliberadamente, revela-os apenas com cinco meses de atraso. "Eles estão mentindo", afirma o último presidente do Banco Central do governo passado, Affonso Pastore. "Como é possível que eles tenham divulgado em outubro que as reservas eram de 5,5 bilhões de dólares e hoje, depois de quatro meses de superávits magérrimos, digam que o número é de quase 4 bilhões? É o milagre da multiplicação dos pães?", Pastore tem fortes sentimentos de que o presidente esteja sendo enganado. Na praça de Nova York, o número corrente das reservas é estimado em miseráveis 500 milhões de dólares, uma cifra que Pastore acredita ser mais confiável. "O que impressiona nisso tudo é que continuamos na festa, importando cerveja alemã, salmão e promovendo feiras para produtos estrangeiros", censura o industrial Lorenzetti. Entre os credores, as colocações são mais pragmáticas. "Digam o que quiserem quanto às reservas, mas a questão é que ninguém vai chegar aqui na minha frente, dizer que não vai pagar uma parte dos juros que me deve e ainda pedir novos empréstimos sem explicar como vai sair dessa situação", afirmou, depois de saber da fala de Sarney, um vice-presidente de um dos grandes bancos de San Francisco. "A situação é contornável, desde que se deixe de lado o populismo econômico de que o governo tem se valido e se volte à ortodoxia", aconselha o diretor do americano Chase Bank, no Rio de Janeiro, Carlos Manuel Peláez. O presidente da filial brasileira do Banco Tokyo, um dos maiores do Japão, Toshiro Kobayashi, acredita que a negociação possa ser feita, desde que não se peçam coisas impossíveis. "O Brasil só fala grosso aqui dentro", dispara Kobayashi. "Lá fora, a história é outra. Eles nunca falaram grosso." Pedido impossível, segundo Kobayashi, é a intenção de Funaro de pagar menos juros a cada ano - e não simplesmente deixá-los de pagar agora para saldá-los noutra época dentro do esquema conhecido por "capitalização". "Os bancos não podem reduzir seus juros, que, aliás, nunca estiveram tão baixos como agora", assegura o banqueiro japonês. "Reduzir o serviço da dívida de 5% do Produto Interno Bruto para 2,5%, como quer o governo, é loucura." Os bancos não só afirmam não aceitar pedidos como estes como alegam não poder sentar para conversar sem saber quanto o país se compromete a fazer de superávit comercial neste ano e, mais que isso, qual é o limite efetivo que pode ser alcançado e não aquele que, politicamente, quer-se alcançar. "Nós achamos necessária uma maxidesvalorização do cruzado", diz um executivo de Nova York. ESTRATÉGIA NENHUMA - Uma sugestão como essa, assim como a da ida ao FMI, dá idéia de como serão difíceis as negociações e do que o Planalto pode esperar daqui para a frente em termos de pressões dos setores que o apóiam. "Se fixar a máximo o governo não dura mais de 24 horas", ameaça o deputado João Herrmann Neto (PMDB-SP). O quadro, na verdade, não é iluminado. "Só chegar lá fora e dizer que temos capacidade de autogestão da economia não basta, porque ninguém vai acreditar e, de fato, ela não existe", constata o ex-ministro Mário Henrique, Simonsen. "Se ainda fosse no ano passado, dava para enganar." Complicadores é o que não faltam na fenda aberta por Sarney com sua moratória. Ela chega quando John Reed, o presidente do Citibank - o maior credor do Brasil, com 4,6 bilhões de dólares a receber -, foi citado duas semanas atrás no Wall Street Journal como defensor da idéia de que o Brasil não deve esperar facilidades da banca e no momento em que o diário londrino Financial Times, uma das bíblias dos meios econômicos e financeiros internacionais, comentou a moratória em um editorial intitulado "O Brasil sucumbe ao populismo". Reed tem comentado com amigos que o tom do artigo do Wall Street Journal não reflete seu real pensamento sobre o Brasil, mas não há dúvida de que ele tem pouca coisa diferente a oferecer a Funaro, além do que já vem sendo feito. Declarada a guerra, o que acontece? Embora o presidente tenha dito em seu discurso que o Brasil quer negociar, a estratégia do governo consiste, na prática, num livro branco. O governo brasileiro, segundo uma importante autoridade econômica, vai para a negociação sem ter o que negociar - ou seja, sem propostas mais precisas, com números e prazos. "Para isso, teríamos de ter uma história para contar, mas que política econômica nós vamos apresentar?", indaga este funcionário. "Teremos de depender do apoio dos bancos centrais, dos organismos multilaterais e dos governos dos países credores. Se houver compreensão, teremos uma chance. Se, não existir apoio, o caldo vai entornar." Fora a proposta de pagar menos juros, assim, o Brasil não sabe, ou diz que não sabe, que sugestões terá para os credores nas negociações que se seguirão à moratória. O ministro da Fazenda, contudo, imagina-se numa posição de força. Na última sexta-feira à noite, ao ser informado de que as ações dos principais bancos americanos haviam despencado na Bolsa de York com o anúncio da moratória brasileira, Funaro comemorou o fato com um próximo assessor de Sarney, saudando o episódio como uma demonstração da força do Brasil e da fraqueza da banca. Foi, certamente, um momento de ruptura com a realidade, que subverte uma questão essencial: quem quebrou na semana passada foi o Brasil, e não os bancos. Na verdade, os bancos se prepararam bem melhor que o Brasil para a moratória anunciada na sexta-feira. Nos Estados Unidos, por imposição do Fed e por iniciativa própria, eles vieram nos últimos anos aumentando pesadamente suas reservas, de maneira a poder enfrentar um baque imprevisto. Na Europa, os bancos também procuraram escorar-se, transformando parte dos lucros a cada exercício numa reserva estratégica para contingências. Para os credores, de qualquer forma, confronto para valer é uma hipótese que não interessa estimular. O problema, segundo eles, está na viabilidade da política econômica que o Brasil tem a apresentar. Em seu pronunciamento, Sarney revelou alguns tópicos. "Fala-se sempre que o governo não cumpre sua parte", disse o presidente. "Pois bem, de início, nesta noite, eu afirmo três pontos como início da contribuição do governo." Destes, o primeiro soou como uma piada - o anúncio de que "o governo durante seis meses só gastará o que arrecadar". Além de ninguém acreditar nisso, ficou a intrigante questão de saber por que o governo, até agora, gastava mais do que arrecada e por que terá de novo o direito a fazer isso uma vez cumpridos os "seis meses" de bom comportamento prometidos por Sarney. O segundo ponto é que "as empresas estatais somente farão investimentos com recursos gerados por suas próprias receitas ou recursos já identificados e efetivamente disponíveis". Ou seja, continuarão gastando o que sempre gastaram. O terceiro, "a revisão global aos subsídios", é uma promessa como centenas de outras já feitas à sociedade. "As medidas comunicadas pelo presidente já foram anunciadas outras vezes e não cumpridas", constata o chefe do Departamento Econômico do Banco Boavista, José Alfredo Lamy. "A prudência indica que é melhor esperar para ver." O pronunciamento de Sarney escorrega ao seu final em uma negação absoluta das críticas, venham de onde vierem, ao fazer uma insensata admoestação, que só encontra paralelo em épocas passadas quando o atual presidente era um prócer da falecida Arena e de seu sucedâneo, o PDS. "Está na hora de patriotismo responsável", declarou Sarney. "Nada de traição ao país sob pretexto de criticar o governo, que apenas herdou essa dívida do passado." A propósito desse inédito ataque ao direito de opinião, o ex-ministro Simonsen atendia o telefone na noite de sexta-feira cantando a seus interlocutores um trecho da ária Nemico della Patria? (Inimigo da Pátria), da ópera Andrea Chérnier, de Umberto Giordano. A questão central, na verdade, não está em identificar inimigos da pátria, mas apenas em saber se esse lance do governo de tentar obter condições mais favoráveis, através não de uma negociação prévia com os credores mas sim posterior à declaração da moratória, vai ou não dar certo. Tudo se resume a isso. |
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