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24
de dezembro de 1975
O grande cerco a
Isabelita
Às 7h30 da manhã da
última quinta-feira, o então comandante da Força
Aérea argentina, brigadeiro-general Héctor Luis Fautario,
subiu num avião Patagonia-120, de fabricação
nacional, estacionado no setor militar do aeroparque Jorge Newbery,
em Buenos Aires, para uma viagem de serviço até Córdoba.
O avião de Fautario, no entanto, nem chegou a levantar vôo.
Quando estava na cabeceira da pista, pronto para decolar, foi cercado
por uma camioneta Chevrolet, dois caminhões e dois jipes
repletos de soldados. Desta vez, entretanto, não se tratava
de mais um atentado terrorista - e sim de uma rebelião militar,
que nas 24 horas seguintes arrastaria a Argentina à sua pior
crise desde o retorno do peronismo ao poder, 31 meses atrás.
Com o Patagonia de Fautario cercado,
subiu ao avião o comandante dos oficiais rebelados - brigadeiro
Jesús Orlando Capellini, de 53 anos, um militar de idéias
conservadoras e puritanas. "Senhor", disse ele a Fautario, "informo-o
de que a partir deste instante está destituído do
comando de nossa Arma. Assumo eu o comando da Força Aérea
argentina em operações." Nas oito horas seguintes,
Fautario seria mantido preso, de forma humilhante, numa oficina
de reparo de aviões da Força Aérea situada
em Quimes - a 25 quilômetros de Buenos Aires.
Enquanto isso, os rebeldes do aeroparque,
reforçados pela adesão de duas outras unidades da
Força Aérea - as de Morón e Mendoza -, dariam
início à habitual série de comunicados e ultimatos.
E, por mais que o governo argentino se esforçasse por dar
a impressão de que tudo não passava de um incidente
menor, sem outras implicações fora dos estreitos limites
da Força Aérea, a crise acabaria por ganhar dimensões
nacionais. A ponto de, no final da semana, a rebelião na
Aeronáutica, ainda que por vias indiretas, resultar num cerrado
cerco à presidente María Estela Martínez de
Perón, de 44 anos - desta vez aparentemente sem saídas
para permanecer no poder.
JOGO INTRICADO - Na verdade,
o levante de Capellini, em si, em nenhum momento chegou a ameaçar
Isabelita - o audacioso brigadeiro, para começar, não
conseguiu nem mesmo a adesão maciça de sua própria
Força Aérea. Mas havia outros fatores em jogo, mais
decisivos, no quadro geral da Argentina de hoje. Não se poderia
esquecer, por exemplo, do panorama de generalizada exaustão
nacional, pela ciclópica escalada da violência no país
e a alarmante deterioração econômica. Resultado:
os militares, somados a amplos setores políticos do país,
apropriaram-se da oportunidade para avançar em direção
à debilitada viúva de Juan Domingo Perón.
Um intricado jogo, com efeito, tinha
curso na Argentina, no final da semana. Os principais chefes militares,
desgastados pela experiência de sete amargos anos no poder,
visivelmente não desejavam dar o golpe - mas ao mesmo tempo
transparecia a necessidade de afastar uma presidente de prestígio
e autoridade irremediavelmente esclerosados. A saída seria
uma delicada manobra, pela qual Isabelita seria deposta por meios
constitucionais. E assim o que se tentava desesperadamente, no fim
de semana, era convencer a presidente a renunciar, ou, falhando
essa hipótese, fazê-la mais uma vez tirar um período
de licença. Em último caso, também não
estava afastada a possibilidade de se procurar reunir forças
suficientes no Congresso para decretar o impeachment de Isabelita.
ATROPELO - De qualquer forma,
a evolução dos acontecimentos da semana passada foi
uma sucessão de sobressaltos e nervosas procuras de soluções
- características da atordoada Argentina de hoje. A crise
começou a tomar proporções nacionais no momento
em que a Capellini, depois de ter prendido Fautario, instalou em
Morón, 30 quilômetros a oeste de Buenos Aires, seu
quartel-general de operações. A primeira providência
do brigadeiro foi telefonar ao comandante da Marinha, Emilio Massera,
e ao chefe do Estado-Maior do Exército, Roberto Viola, para
informá-los da rebelião e convidá-los a aderir
- e o que se seguiu foram cenas de atropelo, pressa e desencontros.
Para começar, Massera e Viola
foram tomados totalmente de surpresa pelas notícias - e o
máximo que puderam fazer foi rapidamente providenciar uma
reunião com o ministro da Defesa, dr. Tomás Vottero,
e o do Interior, Miguel Angel Robledo. Dr. Vottero, aliás,
ainda estava dormindo. Despertado por um assessor de seu Ministério,
nem teve tempo de se banhar antes de seguir para seu gabinete. E
os lances caricatos ainda teriam prosseguimento quando Vottero,
ao final da reunião, foi incumbido de transmitir as novidades
à presidente.
De fato, ao telefonar para o Palácio
de Olivos, onde Isabelita se encontrava, o ministro da Defesa esbarrou
com a inexpugnável resistência do secretário
pessoal da presidente, Julio González - que se recusou terminantemente
a colocar a presidente na linha. A senhora Perón, argumentou
González, havia deixado ordens expressas de que não
queria ser importunada em hipótese alguma. Em outras palavras,
a presidente não estava nem para o caso de golpes. Inacreditavelmente,
Vottero acabou mesmo sem falar pelo telefone com Isabelita - apenas
deixou o recado.
"DIREITO DE REBELIÃO"
- Em todo caso, os comandantes militares já haviam colocado
as cartas na mesa durante sua reunião com os ministros. Vottero,
logo no início, havia perguntado a Viola se o Exército
apoiava a rebelião na Força Aérea. "O
Exército respeita a ordem constitucional, mas também
respeita a ordem, e não o caos", respondera vagamente
Viola. "E o Poder Executivo tem feito muito pouca coisa para
impor a ordem neste país." Em suma, o chefe do Estado-Maior
- naquele momento comandando interinamente o Exército, pois
o comandante efetivo, Jorge Rafael Videla, se encontrava em viagem
à Venezuela - não apoiava nem o golpe, nem a presidente.
E essa mesma ambigüidade seria confirmada pela posição
das Forças Armadas com relação aos rebelados
da Aeronáutica. Se, por um lado, o levante não era
endossado, também não se fazia nada para reprimi-lo.
Com efeito, os pequenos focos de
rebelião instalados pelo brigadeiro Capellini continuavam
em livre atividade. E puderam assim desenvolver um amplo trabalho
de relações públicas - distribuindo comunicados
ou telefonando às redações de jornais, para
expor suas posições. Para começar, os rebeldes
acusaram de "ambigüidade política e indecência
administrativa" seu antigo chefe, Fautario, justificando assim
a decisão de destituí-lo. Mas não ficaram aí
- também fizeram questão de deixar claro que seu movimento
"não se esgotava na Força Aérea, mas tinha
caráter institucional", como disse um dos rebelados,
o comodoro Luis González, ao correspondente de VEJA em Buenos
Aires, Antonio Villar.
Em síntese, os rebeldes queriam
a destituição de Isabelita. "Nossa consciência
não suporta mais a humilhação de velar em armas
para o festim dos corruptos", dizia um dos comunicados rebeldes.
No mesmo texto, era invocado "o direito natural de rebelião".
E, enquanto isso, o comodoro González se estendia em queixas
amargas. "Não podemos admitir", dizia ele, "que
o dinheiro argentino não seja aceito em qualquer parte do
mundo e que nossa capital se haja convertido num verdadeiro bazar
de delícias para os estrangeiros." Por fim os rebeldes
propunham sua solução: a imediata instalação
do comandante do Exército, Jorge Videla, na presidência
da República.
OITOCENTOS CONVIDADOS - Para
veicular suas idéias, os oficiais rebelados chegaram a ocupar
alternadamente, por breves períodos, as torres de transmissão
de três emissoras de rádio de Buenos Aires - Belgrano,
Rivadavia e Splendid. Ao mesmo tempo, outro meio de divulgar a causa
foi lançar panfletos no centro de Buenos Aires. Com efeito,
na tarde de quinta-feira, a cidade foi surpreendida pelos vôos
rasantes de quatro aviões Mentor, dos quais choveram panfletos
avidamente disputados pelos populares. Este episódio, por
sinal, haveria de se converter no único momento em que a
população demonstrou algum interesse pelos acontecimentos.
De resto, Buenos Aires continuou
sempre exibindo o mesmo movimento nas lojas, o mesmo fluxo no trânsito
e as mesmas filas nos cinemas - como se absolutamente nada de anormal
ocorresse no país. Não seria este, no entanto, o único
toque de nonsense na crise argentina - um outro, ainda mais
significativo, acabaria por vir da parte da própria presidente.
De fato, na quinta-feira, quando a rebelião já caminhava
a todo vapor, e o nervosismo tomava conta dos quartéis e
dos meios políticos, Isabelita manteve um almoço que
tinha programado para aquele dia no Palácio de Olivos.
A presidente, sorridente e vestida
esportivamente, recebeu com calma e graça seus 800 convidados,
entre políticos, sindicalistas e líderes peronistas
em geral. Em nenhum momento se falou na crise que mantinha seu governo
por um fio. Pelo contrário, sociável e bem-humorada,
Isabelita chegou a sugerir aos convidados que tirassem os paletós
para enfrentar melhor os efeitos do calor reinante no salão.
Depois, em seu discurso, a presidente referiu-se ao "trabalho
positivo" de seu governo. E, quanto ao movimento peronista,
disse que se encontrava "em plena fase de reorganização".
OS SOMBRIOS MATIZES - Na verdade,
o governo apenas reconheceria oficialmente a crise já nos
primeiros minutos da sexta-feira, mais precisamente aos 50 minutos,
quando o ministro Robledo irrompeu subitamente numa cadeia nacional
de televisão. "Terminados os acontecimentos que coloriram
com sombrios matizes esta jornada de incertezas, cumpro minha obrigação
de oferecer ao país a explicação dos acontecimentos",
começou o ministro. E a seguir anunciou a medida que, a seu
ver, bastaria para "superar" o problema na Força
Aérea: a substituição, no comando da Arma,
do infeliz brigadeiro Fautario pelo brigadeiro Orlando Agosti.
Mas os acontecimentos não
estavam "terminados" nem se havia "superado"
coisa alguma. Por um lado, a substituição de Fautario
por Agosti não significou nem mesmo o apaziguamento na própria
Aeronáutica. Por outro, era mais do que óbvio que
a rebelião continuava sem ser reprimida - sequer um tiro
fora disparado contra os rebeldes. Na verdade, as mais contundentes
pressões contra o governo de Isabelita ainda estavam por
começar - com a chegada ao país, naquela mesma madrugada
de quinta para sexta-feira, do comandante titular do Exército,
Jorge Videla.
Imediatamente, o comandante do Exército
se embrenhou num torvelinho de reuniões com outros líderes
militares, Isabelita, ministros, deputados e senadores. Para suas
mãos, claramente, passava então a chave da crise.
Para começar, Videla repudiou os golpistas, rejeitando expressamente,
inclusive, a indicação de seu próprio nome
para a presidência. Mas, ao mesmo tempo, num telegrama enviado
na tarde de sexta-feira a todas as unidades militares o comandante
do Exército deu seu próprio parecer sobre a situação.
"Cabe às instituições responsáveis,
em nome dos interesses supremos da República, atuarem rapidamente,
buscando soluções profundas e patrióticas",
disse Videla. Nos setores políticos, a mensagem foi entendida
claramente: era preciso fazer sair Isabelita, pela renúncia
ou pelo impeachment.
NO CAOS - Seria, em qualquer
dos casos, o toque de finados para a era aberta num ensolarado dia
25 de maio de 1973, quando se inaugurou na Argentina, com a chegada
do ex-dentista Héctor Cámpora à Casa Rosada,
o "governo popular", de "salvação nacional",
de "união de todos os argentinos". Era, através
de Cámpora, a ressurreição do regime peronista.
Os slogans, contudo, não conseguiram ocultar as divisões
do próprio peronismo, que se debatia em furiosas convulsões
ideológicas internas - no 49º dia de seu patético
governo, Cámpora, porta-estandarte da esquerda peronista,
renunciou.
No curto espaço de um ano,
a partir de então, sucederam-se três presidentes da
República: o presidente da Câmara dos Deputados, Raúl
Lastiri, o próprio Juan Domingo Perón e, com a morte
do caudilho em 1º de julho de 1974, após nove meses de governo,
sua viúva e sucessora legal, Isabelita. As previsões
de que Isabelita, frágil, despreparada politicamente, não
conseguiria reunir as esfaceladas legiões peronistas e, muito
menos evitar o caos político, econômico e social que
se esboçava já durante a gestão de seu alquebrado
marido, não demorariam a se concretizar.
CONSUMIR MENOS - Em primeiro
lugar, começaram a ser destruídos os mecanismos econômicos
que o peronismo tinha manejando para manter os cofres argentinos
em razoável equilíbrio. Os até então
obedientes sindicatos, com efeito, passaram a contestar a pedra
de toque do sistema, o inviável Pacto Social - um acordo
firmado em maio de 1973 entre empregados, empregadores e governo,
congelando alguns preços e os salários até
junho deste ano. A simples hipótese de rompimento do compromisso
fazia vislumbrar um horizonte inflacionário, tenebroso, mas
ainda otimista em relação à realidade: a inflação,
estimada em 150% para 1975, chegou a 110% em apenas seis meses.
De qualquer forma, a insatisfação dos trabalhadores,
a tradicional fonte da força do peronismo, ainda não
extravasara os limites das reivindicações e entendimentos
através da Confederação Geral do Trabalho.
O próprio governo tomou a iniciativa de tornar a tarefa dos
dirigentes sindicais impossível. Em julho último,
o então ministro da Economia, Celestino Rodrigo, entre outras
medidas, desvalorizou o peso em 100%, triplicou os preços
dos combustíveis e pediu aos argentinos para adotarem um
comportamento para o qual, na verdade, não deixara opção:
consumir menos. Estava definitivamente rompido o equilíbrio
econômico. E, inevitavelmente, rompeu-se o que ainda restava
de equilíbrio social.
ÁREAS-CHAVES - A partir
daí não ouve mais que um simulacro de lealdade dos
peronistas a lsabelita, que teoricamente era sua líder suprema
e inconteste, como presidente da República, viúva
do caudilho e chefe do Movimento Justicialista. Nesse mesmo mês
de julho, uma inimaginável greve de 48 horas, dos trabalhadores
peronistas contra um governo peronista, viria dar o mais eloqüente
impulso no processo de deterioração da imagem do "governo
popular" - abalado não só pela crise econômica,
a violência e a corrupção, mas por insanáveis
vícios de origem.
Na verdade, desde o início
de seu governo, Isabelita foi claramente dominada por seu secretário
particular e ministro do Bem-Estar Social, o dúbio José
López Rega, astrólogo e líder da ala direitista
do peronismo. Através da presidente, López Rega se
apoderou de todas as áreas-chaves do governo e semeou tantos
rancores, em tão pouco tempo, que tornou o conflito dentro
do peronismo inevitável e sem retorno. De fato, o lopezreguismo
se assenhoreou da universidade, da maioria dos ministérios,
da polícia, das rádios e das televisões, estatizadas
por decreto. E, à medida que crescia seu poder, foram se
tornando mais vulneráveis as bases de Isabelita.
As queixas, com efeito, vinham de
todo lado. Atacava-se a lei de imprensa lopezreguista, que não
permitia críticas ao governo. Nas províncias, governadores
acusados de esquerdistas eram sucessivamente destituídos
para dar lugar a interventores do extremo oposto. E o quadro se
completava com a atuação impune de uma organização
terrorista que, na opinião generalizada, obedecia ao comando
de López Rega - a Aliança Anticomunista Argentina
(AAA), responsável pelo assassínio de quase 200 pessoas
consideradas esquerdistas e pela fuga de um número incalculável
de argentinos para o exterior.
EM MASSA - Entre a Triple
A e seus inimigos de morte, os extremistas de esquerda - congregados
no Exército Revolucionário do Povo (ERP) e na organização
de origem peronista Montoneros - um inédito frenesi de violência
se apossou da Argentina. Os terroristas de esquerda se especializaram
em assassinar militares, da ativa ou da reserva. E, ultimamente,
as mortes já não eram computadas em termos individuais,
mas de massa. Só na última sexta-feira, por exemplo,
foram encontrados nos arredores de Buenos Aires seis cadáveres
crivados de balas, elevando para 697 o número de vítimas
do terrorismo em 1975 - e a 874 desde a posse de Isabelita. Para
sobreviver a esse caos crescente, Isabelita vem cedendo o que pode.
Em primeiro lugar, por uma exigência endossada pelos militares,
concordou em desfazer-se de López Rega, que ainda em julho
último foi despachado para Madrid. Depois, ela própria,
combalida, tomada por crises nervosas e problemas intestinais, sucumbiu
a uma rebelião do outrora dócil Poder Legislativo.
Contrariando ordens expressas suas, o Senado elegeu Italo Luder
como presidente da Casa, cargo cuja vacância colocava o deputado
Raúl Lastiri, estratégico genro de López Rega,
como sucessor imediato da presidente.
Em outras palavras, Luder passava
a ser o sucessor em caso de vacância na presidência
- fato ocorrido em seguida, com um pedido de licença de Isabelita
por recomendação médica e inspiração
militar. E, sob a mesma inspiração, segundo se acredita,
em um mês o presidente interino reformulou o Ministério,
demitiu todos os homens identificados com López Rega e atribuiu
às Forças Armadas o combate ao terrorismo, até
então trabalho feito pela polícia. Sugestões
de licenças para tratamento de saúde, a partir de
então, tornaram-se freqüentes, e às vezes acatadas
depois de alguma inútil resistência.
DECOMPOSIÇÃO
- Progressivamente expropriada de poder real, Isabelita parece ter
cada vez menos amigos a quem recorrer. A Juventude Peronista, fustigada
por López Rega e de há muito na clandestinidade, vem
se empenhando numa "guerra sem tréguas ao governo de
traição". O verticalismo, que caracterizava o
Movimento Justicialista, encontra-se não só horizontalizado
por desacatos contínuos às ordens da chefe, mas também
fragmentado por rebeliões e tentativas de criação
de novos partidos, como o "Peronista Autêntico".
Mesmo no Poder Legislativo, o bloco
peronista, sempre majoritário, ficou em minoria há
duas semanas, com a deserção de 25 deputados. Em síntese,
eram raros, na semana passada, os que pareciam dispostos a permanecer
no barco à deriva, sob a ameaça de um naufrágio
iminente - menos por força de um eventual bombardeio do que
por sua própria decomposição interna. Essa
ruína, de fato, se traduz em números bastante eloqüentes
no setor econômico, de onde se origina todo tipo de problemas
para os argentinos. A inflação deste ano, até
outubro último, chegara a 257%. Um terço da dívida
externa, superior a 10 bilhões de dólares, terá
de ser pago até o final deste ano - e a Argentina, sem reservas,
está com praticamente todas as fontes de crédito fechadas.
As matérias-primas industriais
importadas escasseiam, e com isso reduz-se a operatividade das fábricas,
isto é, diariamente, aumenta o desemprego. No campo, os agricultores,
desestimulados, plantam cada vez menos. Com isso, as perspectivas
de exportação de cereais, uma das principais fontes
de divisas do país ao lado da carne - por sua vez praticamente
paralisadas, com as restrições de importação
do Mercado Comum Europeu -, são desanimadoras. É,
em resumo, o que os argentinos qualificam, simplesmente, de "el
desgobierno".
"UMA MUDANÇA"
- Entretanto, nem mesmo todo esse descalabro foi suficiente, até
o fim da semana, para levar os principais chefes militares argentinos
à clássica solução golpista. O que não
quer dizer, evidentemente, que o governo de Isabelita conte com
qualquer complacência entre os militares, muito ao contrário.
Como disse a VEJA um general com altas funções em
Buenos Aires: "Concordamos totalmente com Capellini nas questões
de fundo. O que não podemos compreender é por que
ele se lançou sozinho nesta aventura, sem comunicar sua decisão
às outras Armas, ainda mais que estávamos, as três
Armas, trabalhando coordenadamente na realização de
uma mudança".
De qualquer forma, há sinais
claros de que a "mudança" pretendida pelos militares
implicaria a manutenção das instituições.
De fato, as Forças Armadas parecem já suficientemente
preocupadas com suas amplas operações de combate às
guerrilhas na província de Tucumán. E há um
consenso generalizado de que a liquidação de Isabelita,
feita dentro de um quadro jurídico-institucional, é
mais conveniente. De fato, a legalidade, mesmo meramente técnica,
livra os militares dos ônus do exercício direto do
poder, e não os impede de ser eficientes - já que
a recente legislação antiterrorista aprovada pelo
Congresso é extremamente rigorosa, incluindo até a
pena de morte.
A preocupação com o
legalismo, aliás, já transparecera no comunicado enviado
por Videla às unidades do Exército. Os comandantes
militares desejariam uma tranqüila transição
no poder, com Isabelita passando a presidência a seu sucessor
natural, o presidente do Senado, Italo Luder. Por sua vez, Luder,
seguindo a Constituição, promoveria, no Congresso,
eleições indiretas para um mandato-tampão que
expiraria em maio de 1977. O candidato, evidentemente, teria que
passar pelo crivo militar. E, uma vez no poder, daria curso ao calendário
eleitoral fixado quinta-feira por Isabelita, que prevê eleições
gerais - inclusive presidenciais - para 17 de outubro do próximo
ano.
SINUOSIDADE - No próprio
Congresso, essa solução era progressivamente vista
como a mais aceitável. Na tarde de sexta-feira, os 27 deputados
do chamado "Grupo de Trabalho", que recentemente se desligaram
do bloco peronista, sugeriram que a Câmara pedisse a renúncia
da presidente. O grupo bloquista - um pequeno partido da
província de San Juan - apoiou a sugestão, adiantando
que poderia, também, ressuscitar uma proposta de impeachment
que tentou apresentar em outubro. À noite, no Senado, os
líderes de todos os partidos, exceto o Justicialista, pediram
que a presidente solicitasse um período de licença
"como a única forma de salvar o processo institucional".
Tanto essa movimentação
parlamentar como outros fatos evidenciavam, de qualquer forma, o
dramático isolamento de Isabelita. Seu próprio partido,
o Justicialista, manifestou-se "em defesa da ordem constitucional"
- prudentemente evitando referências expressas à presidente.
Os sindicatos peronistas, que só deram sinal de vida quinze
horas depois de deflagrada a rebelião na Aeronáutica,
acabaram não passando de ameaças de greve, não
concretizadas até a manhã de sábado. Mais:
convocaram uma manifestação popular para a Plaza de
Mayo e tiveram que recuar, ante o veto frontal oposto pelas autoridades
militares.
Embora a nota oficial da CGT e das
62 organizações peronistas mencione Isabelita, o texto
é um primor de sinuosidade. Declarando-se em estado de alerta,
as organizações defenderam o "processo de institucionalização,
cujo afiançamento se vai concretizando por cima das dificuldades
e apesar dos interesses criados, sob a condução da
senhora presidente, dona María Estela Martínez de
Perón, e dos distintos níveis que conformam o Estado
nacional, enquadrado dentro das normas da Constituição".
Enfim, fechando o quadro de solidão, a Justiça argentina
também se punha em movimento contra a presidente. Sintomaticamente,
o juiz federal Alfredo Nocetti Fasolino ordenou, na última
sexta-feira, uma ordem de captura contra ninguém menos que
José López Rega - réu num processo de corrupção
envolvendo 6 milhões de cruzeiros e no qual a própria
Isabelita está implicada.
RETÓRICA - A presidente,
ao que tudo indica, sofreu também pressão direta dos
comandantes militares para que renunciasse, num encontro mantido
no Palácio de Olivos. Na ocasião, porém, ela
se teria mantido irredutível, a ponto de distribuir depois
um comunicado, lido por uma rede de rádio e televisão,
afirmando que "qualquer coisa" que não leve em
conta o fato de ser ela "a presidente legal dos argentinos"
é sinônimo "de desordem e ilegalidade". A
nota termina com uma declaração patética: "Ou
o país termina com o golpismo, ou o golpismo acaba com o
país".
Houve ainda duas amplas reuniões
de Isabelita com os comandos militares, o Gabinete e líderes
sindicais. Na segunda delas, encerrada às 21h30, chegou a
ser analisada a sugestão partida do Senado para que a presidente
se licenciasse. E os comandantes militares insistiram: esperavam
que o Executivo e o Gabinete tomassem atitude no espírito
do telegrama" de Videla ao Exército, "a fim de
que as instituições prevalecessem sobre as pessoas".
Na retórica da crise, isso significava a saída de
Isabelita de cena.
Os militares, assim, abriram claramente
seu jogo. No curso dessas reuniões, exigiram severa punição
para López Rega e levantaram mesmo a hipótese de um
processo contra a presidente, assediada por crescentes denúncias
de corrupção administrativa e pela óbvia incompetência
para dirigir o país. De tudo, restou uma única evidência
incontestável: os militares controlam a situação,
e esperam, agora, que os políticos tomem a iniciativa de
liquidar legalmente com o agonizante governo.
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