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  24 de dezembro de 1975
O grande cerco a Isabelita

Às 7h30 da manhã da última quinta-feira, o então comandante da Força Aérea argentina, brigadeiro-general Héctor Luis Fautario, subiu num avião Patagonia-120, de fabricação nacional, estacionado no setor militar do aeroparque Jorge Newbery, em Buenos Aires, para uma viagem de serviço até Córdoba. O avião de Fautario, no entanto, nem chegou a levantar vôo. Quando estava na cabeceira da pista, pronto para decolar, foi cercado por uma camioneta Chevrolet, dois caminhões e dois jipes repletos de soldados. Desta vez, entretanto, não se tratava de mais um atentado terrorista - e sim de uma rebelião militar, que nas 24 horas seguintes arrastaria a Argentina à sua pior crise desde o retorno do peronismo ao poder, 31 meses atrás.

Com o Patagonia de Fautario cercado, subiu ao avião o comandante dos oficiais rebelados - brigadeiro Jesús Orlando Capellini, de 53 anos, um militar de idéias conservadoras e puritanas. "Senhor", disse ele a Fautario, "informo-o de que a partir deste instante está destituído do comando de nossa Arma. Assumo eu o comando da Força Aérea argentina em operações." Nas oito horas seguintes, Fautario seria mantido preso, de forma humilhante, numa oficina de reparo de aviões da Força Aérea situada em Quimes - a 25 quilômetros de Buenos Aires.

Enquanto isso, os rebeldes do aeroparque, reforçados pela adesão de duas outras unidades da Força Aérea - as de Morón e Mendoza -, dariam início à habitual série de comunicados e ultimatos. E, por mais que o governo argentino se esforçasse por dar a impressão de que tudo não passava de um incidente menor, sem outras implicações fora dos estreitos limites da Força Aérea, a crise acabaria por ganhar dimensões nacionais. A ponto de, no final da semana, a rebelião na Aeronáutica, ainda que por vias indiretas, resultar num cerrado cerco à presidente María Estela Martínez de Perón, de 44 anos - desta vez aparentemente sem saídas para permanecer no poder.

JOGO INTRICADO - Na verdade, o levante de Capellini, em si, em nenhum momento chegou a ameaçar Isabelita - o audacioso brigadeiro, para começar, não conseguiu nem mesmo a adesão maciça de sua própria Força Aérea. Mas havia outros fatores em jogo, mais decisivos, no quadro geral da Argentina de hoje. Não se poderia esquecer, por exemplo, do panorama de generalizada exaustão nacional, pela ciclópica escalada da violência no país e a alarmante deterioração econômica. Resultado: os militares, somados a amplos setores políticos do país, apropriaram-se da oportunidade para avançar em direção à debilitada viúva de Juan Domingo Perón.

Um intricado jogo, com efeito, tinha curso na Argentina, no final da semana. Os principais chefes militares, desgastados pela experiência de sete amargos anos no poder, visivelmente não desejavam dar o golpe - mas ao mesmo tempo transparecia a necessidade de afastar uma presidente de prestígio e autoridade irremediavelmente esclerosados. A saída seria uma delicada manobra, pela qual Isabelita seria deposta por meios constitucionais. E assim o que se tentava desesperadamente, no fim de semana, era convencer a presidente a renunciar, ou, falhando essa hipótese, fazê-la mais uma vez tirar um período de licença. Em último caso, também não estava afastada a possibilidade de se procurar reunir forças suficientes no Congresso para decretar o impeachment de Isabelita.

ATROPELO - De qualquer forma, a evolução dos acontecimentos da semana passada foi uma sucessão de sobressaltos e nervosas procuras de soluções - características da atordoada Argentina de hoje. A crise começou a tomar proporções nacionais no momento em que a Capellini, depois de ter prendido Fautario, instalou em Morón, 30 quilômetros a oeste de Buenos Aires, seu quartel-general de operações. A primeira providência do brigadeiro foi telefonar ao comandante da Marinha, Emilio Massera, e ao chefe do Estado-Maior do Exército, Roberto Viola, para informá-los da rebelião e convidá-los a aderir - e o que se seguiu foram cenas de atropelo, pressa e desencontros.

Para começar, Massera e Viola foram tomados totalmente de surpresa pelas notícias - e o máximo que puderam fazer foi rapidamente providenciar uma reunião com o ministro da Defesa, dr. Tomás Vottero, e o do Interior, Miguel Angel Robledo. Dr. Vottero, aliás, ainda estava dormindo. Despertado por um assessor de seu Ministério, nem teve tempo de se banhar antes de seguir para seu gabinete. E os lances caricatos ainda teriam prosseguimento quando Vottero, ao final da reunião, foi incumbido de transmitir as novidades à presidente.

De fato, ao telefonar para o Palácio de Olivos, onde Isabelita se encontrava, o ministro da Defesa esbarrou com a inexpugnável resistência do secretário pessoal da presidente, Julio González - que se recusou terminantemente a colocar a presidente na linha. A senhora Perón, argumentou González, havia deixado ordens expressas de que não queria ser importunada em hipótese alguma. Em outras palavras, a presidente não estava nem para o caso de golpes. Inacreditavelmente, Vottero acabou mesmo sem falar pelo telefone com Isabelita - apenas deixou o recado.

"DIREITO DE REBELIÃO" - Em todo caso, os comandantes militares já haviam colocado as cartas na mesa durante sua reunião com os ministros. Vottero, logo no início, havia perguntado a Viola se o Exército apoiava a rebelião na Força Aérea. "O Exército respeita a ordem constitucional, mas também respeita a ordem, e não o caos", respondera vagamente Viola. "E o Poder Executivo tem feito muito pouca coisa para impor a ordem neste país." Em suma, o chefe do Estado-Maior - naquele momento comandando interinamente o Exército, pois o comandante efetivo, Jorge Rafael Videla, se encontrava em viagem à Venezuela - não apoiava nem o golpe, nem a presidente. E essa mesma ambigüidade seria confirmada pela posição das Forças Armadas com relação aos rebelados da Aeronáutica. Se, por um lado, o levante não era endossado, também não se fazia nada para reprimi-lo.

Com efeito, os pequenos focos de rebelião instalados pelo brigadeiro Capellini continuavam em livre atividade. E puderam assim desenvolver um amplo trabalho de relações públicas - distribuindo comunicados ou telefonando às redações de jornais, para expor suas posições. Para começar, os rebeldes acusaram de "ambigüidade política e indecência administrativa" seu antigo chefe, Fautario, justificando assim a decisão de destituí-lo. Mas não ficaram aí - também fizeram questão de deixar claro que seu movimento "não se esgotava na Força Aérea, mas tinha caráter institucional", como disse um dos rebelados, o comodoro Luis González, ao correspondente de VEJA em Buenos Aires, Antonio Villar.

Em síntese, os rebeldes queriam a destituição de Isabelita. "Nossa consciência não suporta mais a humilhação de velar em armas para o festim dos corruptos", dizia um dos comunicados rebeldes. No mesmo texto, era invocado "o direito natural de rebelião". E, enquanto isso, o comodoro González se estendia em queixas amargas. "Não podemos admitir", dizia ele, "que o dinheiro argentino não seja aceito em qualquer parte do mundo e que nossa capital se haja convertido num verdadeiro bazar de delícias para os estrangeiros." Por fim os rebeldes propunham sua solução: a imediata instalação do comandante do Exército, Jorge Videla, na presidência da República.

OITOCENTOS CONVIDADOS - Para veicular suas idéias, os oficiais rebelados chegaram a ocupar alternadamente, por breves períodos, as torres de transmissão de três emissoras de rádio de Buenos Aires - Belgrano, Rivadavia e Splendid. Ao mesmo tempo, outro meio de divulgar a causa foi lançar panfletos no centro de Buenos Aires. Com efeito, na tarde de quinta-feira, a cidade foi surpreendida pelos vôos rasantes de quatro aviões Mentor, dos quais choveram panfletos avidamente disputados pelos populares. Este episódio, por sinal, haveria de se converter no único momento em que a população demonstrou algum interesse pelos acontecimentos.

De resto, Buenos Aires continuou sempre exibindo o mesmo movimento nas lojas, o mesmo fluxo no trânsito e as mesmas filas nos cinemas - como se absolutamente nada de anormal ocorresse no país. Não seria este, no entanto, o único toque de nonsense na crise argentina - um outro, ainda mais significativo, acabaria por vir da parte da própria presidente. De fato, na quinta-feira, quando a rebelião já caminhava a todo vapor, e o nervosismo tomava conta dos quartéis e dos meios políticos, Isabelita manteve um almoço que tinha programado para aquele dia no Palácio de Olivos.

A presidente, sorridente e vestida esportivamente, recebeu com calma e graça seus 800 convidados, entre políticos, sindicalistas e líderes peronistas em geral. Em nenhum momento se falou na crise que mantinha seu governo por um fio. Pelo contrário, sociável e bem-humorada, Isabelita chegou a sugerir aos convidados que tirassem os paletós para enfrentar melhor os efeitos do calor reinante no salão. Depois, em seu discurso, a presidente referiu-se ao "trabalho positivo" de seu governo. E, quanto ao movimento peronista, disse que se encontrava "em plena fase de reorganização".

OS SOMBRIOS MATIZES - Na verdade, o governo apenas reconheceria oficialmente a crise já nos primeiros minutos da sexta-feira, mais precisamente aos 50 minutos, quando o ministro Robledo irrompeu subitamente numa cadeia nacional de televisão. "Terminados os acontecimentos que coloriram com sombrios matizes esta jornada de incertezas, cumpro minha obrigação de oferecer ao país a explicação dos acontecimentos", começou o ministro. E a seguir anunciou a medida que, a seu ver, bastaria para "superar" o problema na Força Aérea: a substituição, no comando da Arma, do infeliz brigadeiro Fautario pelo brigadeiro Orlando Agosti.

Mas os acontecimentos não estavam "terminados" nem se havia "superado" coisa alguma. Por um lado, a substituição de Fautario por Agosti não significou nem mesmo o apaziguamento na própria Aeronáutica. Por outro, era mais do que óbvio que a rebelião continuava sem ser reprimida - sequer um tiro fora disparado contra os rebeldes. Na verdade, as mais contundentes pressões contra o governo de Isabelita ainda estavam por começar - com a chegada ao país, naquela mesma madrugada de quinta para sexta-feira, do comandante titular do Exército, Jorge Videla.

Imediatamente, o comandante do Exército se embrenhou num torvelinho de reuniões com outros líderes militares, Isabelita, ministros, deputados e senadores. Para suas mãos, claramente, passava então a chave da crise. Para começar, Videla repudiou os golpistas, rejeitando expressamente, inclusive, a indicação de seu próprio nome para a presidência. Mas, ao mesmo tempo, num telegrama enviado na tarde de sexta-feira a todas as unidades militares o comandante do Exército deu seu próprio parecer sobre a situação. "Cabe às instituições responsáveis, em nome dos interesses supremos da República, atuarem rapidamente, buscando soluções profundas e patrióticas", disse Videla. Nos setores políticos, a mensagem foi entendida claramente: era preciso fazer sair Isabelita, pela renúncia ou pelo impeachment.

NO CAOS - Seria, em qualquer dos casos, o toque de finados para a era aberta num ensolarado dia 25 de maio de 1973, quando se inaugurou na Argentina, com a chegada do ex-dentista Héctor Cámpora à Casa Rosada, o "governo popular", de "salvação nacional", de "união de todos os argentinos". Era, através de Cámpora, a ressurreição do regime peronista. Os slogans, contudo, não conseguiram ocultar as divisões do próprio peronismo, que se debatia em furiosas convulsões ideológicas internas - no 49º dia de seu patético governo, Cámpora, porta-estandarte da esquerda peronista, renunciou.

No curto espaço de um ano, a partir de então, sucederam-se três presidentes da República: o presidente da Câmara dos Deputados, Raúl Lastiri, o próprio Juan Domingo Perón e, com a morte do caudilho em 1º de julho de 1974, após nove meses de governo, sua viúva e sucessora legal, Isabelita. As previsões de que Isabelita, frágil, despreparada politicamente, não conseguiria reunir as esfaceladas legiões peronistas e, muito menos evitar o caos político, econômico e social que se esboçava já durante a gestão de seu alquebrado marido, não demorariam a se concretizar.

CONSUMIR MENOS - Em primeiro lugar, começaram a ser destruídos os mecanismos econômicos que o peronismo tinha manejando para manter os cofres argentinos em razoável equilíbrio. Os até então obedientes sindicatos, com efeito, passaram a contestar a pedra de toque do sistema, o inviável Pacto Social - um acordo firmado em maio de 1973 entre empregados, empregadores e governo, congelando alguns preços e os salários até junho deste ano. A simples hipótese de rompimento do compromisso fazia vislumbrar um horizonte inflacionário, tenebroso, mas ainda otimista em relação à realidade: a inflação, estimada em 150% para 1975, chegou a 110% em apenas seis meses. De qualquer forma, a insatisfação dos trabalhadores, a tradicional fonte da força do peronismo, ainda não extravasara os limites das reivindicações e entendimentos através da Confederação Geral do Trabalho. O próprio governo tomou a iniciativa de tornar a tarefa dos dirigentes sindicais impossível. Em julho último, o então ministro da Economia, Celestino Rodrigo, entre outras medidas, desvalorizou o peso em 100%, triplicou os preços dos combustíveis e pediu aos argentinos para adotarem um comportamento para o qual, na verdade, não deixara opção: consumir menos. Estava definitivamente rompido o equilíbrio econômico. E, inevitavelmente, rompeu-se o que ainda restava de equilíbrio social.

ÁREAS-CHAVES - A partir daí não ouve mais que um simulacro de lealdade dos peronistas a lsabelita, que teoricamente era sua líder suprema e inconteste, como presidente da República, viúva do caudilho e chefe do Movimento Justicialista. Nesse mesmo mês de julho, uma inimaginável greve de 48 horas, dos trabalhadores peronistas contra um governo peronista, viria dar o mais eloqüente impulso no processo de deterioração da imagem do "governo popular" - abalado não só pela crise econômica, a violência e a corrupção, mas por insanáveis vícios de origem.

Na verdade, desde o início de seu governo, Isabelita foi claramente dominada por seu secretário particular e ministro do Bem-Estar Social, o dúbio José López Rega, astrólogo e líder da ala direitista do peronismo. Através da presidente, López Rega se apoderou de todas as áreas-chaves do governo e semeou tantos rancores, em tão pouco tempo, que tornou o conflito dentro do peronismo inevitável e sem retorno. De fato, o lopezreguismo se assenhoreou da universidade, da maioria dos ministérios, da polícia, das rádios e das televisões, estatizadas por decreto. E, à medida que crescia seu poder, foram se tornando mais vulneráveis as bases de Isabelita.

As queixas, com efeito, vinham de todo lado. Atacava-se a lei de imprensa lopezreguista, que não permitia críticas ao governo. Nas províncias, governadores acusados de esquerdistas eram sucessivamente destituídos para dar lugar a interventores do extremo oposto. E o quadro se completava com a atuação impune de uma organização terrorista que, na opinião generalizada, obedecia ao comando de López Rega - a Aliança Anticomunista Argentina (AAA), responsável pelo assassínio de quase 200 pessoas consideradas esquerdistas e pela fuga de um número incalculável de argentinos para o exterior.

EM MASSA - Entre a Triple A e seus inimigos de morte, os extremistas de esquerda - congregados no Exército Revolucionário do Povo (ERP) e na organização de origem peronista Montoneros - um inédito frenesi de violência se apossou da Argentina. Os terroristas de esquerda se especializaram em assassinar militares, da ativa ou da reserva. E, ultimamente, as mortes já não eram computadas em termos individuais, mas de massa. Só na última sexta-feira, por exemplo, foram encontrados nos arredores de Buenos Aires seis cadáveres crivados de balas, elevando para 697 o número de vítimas do terrorismo em 1975 - e a 874 desde a posse de Isabelita. Para sobreviver a esse caos crescente, Isabelita vem cedendo o que pode. Em primeiro lugar, por uma exigência endossada pelos militares, concordou em desfazer-se de López Rega, que ainda em julho último foi despachado para Madrid. Depois, ela própria, combalida, tomada por crises nervosas e problemas intestinais, sucumbiu a uma rebelião do outrora dócil Poder Legislativo. Contrariando ordens expressas suas, o Senado elegeu Italo Luder como presidente da Casa, cargo cuja vacância colocava o deputado Raúl Lastiri, estratégico genro de López Rega, como sucessor imediato da presidente.

Em outras palavras, Luder passava a ser o sucessor em caso de vacância na presidência - fato ocorrido em seguida, com um pedido de licença de Isabelita por recomendação médica e inspiração militar. E, sob a mesma inspiração, segundo se acredita, em um mês o presidente interino reformulou o Ministério, demitiu todos os homens identificados com López Rega e atribuiu às Forças Armadas o combate ao terrorismo, até então trabalho feito pela polícia. Sugestões de licenças para tratamento de saúde, a partir de então, tornaram-se freqüentes, e às vezes acatadas depois de alguma inútil resistência.

DECOMPOSIÇÃO - Progressivamente expropriada de poder real, Isabelita parece ter cada vez menos amigos a quem recorrer. A Juventude Peronista, fustigada por López Rega e de há muito na clandestinidade, vem se empenhando numa "guerra sem tréguas ao governo de traição". O verticalismo, que caracterizava o Movimento Justicialista, encontra-se não só horizontalizado por desacatos contínuos às ordens da chefe, mas também fragmentado por rebeliões e tentativas de criação de novos partidos, como o "Peronista Autêntico".

Mesmo no Poder Legislativo, o bloco peronista, sempre majoritário, ficou em minoria há duas semanas, com a deserção de 25 deputados. Em síntese, eram raros, na semana passada, os que pareciam dispostos a permanecer no barco à deriva, sob a ameaça de um naufrágio iminente - menos por força de um eventual bombardeio do que por sua própria decomposição interna. Essa ruína, de fato, se traduz em números bastante eloqüentes no setor econômico, de onde se origina todo tipo de problemas para os argentinos. A inflação deste ano, até outubro último, chegara a 257%. Um terço da dívida externa, superior a 10 bilhões de dólares, terá de ser pago até o final deste ano - e a Argentina, sem reservas, está com praticamente todas as fontes de crédito fechadas.

As matérias-primas industriais importadas escasseiam, e com isso reduz-se a operatividade das fábricas, isto é, diariamente, aumenta o desemprego. No campo, os agricultores, desestimulados, plantam cada vez menos. Com isso, as perspectivas de exportação de cereais, uma das principais fontes de divisas do país ao lado da carne - por sua vez praticamente paralisadas, com as restrições de importação do Mercado Comum Europeu -, são desanimadoras. É, em resumo, o que os argentinos qualificam, simplesmente, de "el desgobierno".

"UMA MUDANÇA" - Entretanto, nem mesmo todo esse descalabro foi suficiente, até o fim da semana, para levar os principais chefes militares argentinos à clássica solução golpista. O que não quer dizer, evidentemente, que o governo de Isabelita conte com qualquer complacência entre os militares, muito ao contrário. Como disse a VEJA um general com altas funções em Buenos Aires: "Concordamos totalmente com Capellini nas questões de fundo. O que não podemos compreender é por que ele se lançou sozinho nesta aventura, sem comunicar sua decisão às outras Armas, ainda mais que estávamos, as três Armas, trabalhando coordenadamente na realização de uma mudança".

De qualquer forma, há sinais claros de que a "mudança" pretendida pelos militares implicaria a manutenção das instituições. De fato, as Forças Armadas parecem já suficientemente preocupadas com suas amplas operações de combate às guerrilhas na província de Tucumán. E há um consenso generalizado de que a liquidação de Isabelita, feita dentro de um quadro jurídico-institucional, é mais conveniente. De fato, a legalidade, mesmo meramente técnica, livra os militares dos ônus do exercício direto do poder, e não os impede de ser eficientes - já que a recente legislação antiterrorista aprovada pelo Congresso é extremamente rigorosa, incluindo até a pena de morte.

A preocupação com o legalismo, aliás, já transparecera no comunicado enviado por Videla às unidades do Exército. Os comandantes militares desejariam uma tranqüila transição no poder, com Isabelita passando a presidência a seu sucessor natural, o presidente do Senado, Italo Luder. Por sua vez, Luder, seguindo a Constituição, promoveria, no Congresso, eleições indiretas para um mandato-tampão que expiraria em maio de 1977. O candidato, evidentemente, teria que passar pelo crivo militar. E, uma vez no poder, daria curso ao calendário eleitoral fixado quinta-feira por Isabelita, que prevê eleições gerais - inclusive presidenciais - para 17 de outubro do próximo ano.

SINUOSIDADE - No próprio Congresso, essa solução era progressivamente vista como a mais aceitável. Na tarde de sexta-feira, os 27 deputados do chamado "Grupo de Trabalho", que recentemente se desligaram do bloco peronista, sugeriram que a Câmara pedisse a renúncia da presidente. O grupo bloquista - um pequeno partido da província de San Juan - apoiou a sugestão, adiantando que poderia, também, ressuscitar uma proposta de impeachment que tentou apresentar em outubro. À noite, no Senado, os líderes de todos os partidos, exceto o Justicialista, pediram que a presidente solicitasse um período de licença "como a única forma de salvar o processo institucional".

Tanto essa movimentação parlamentar como outros fatos evidenciavam, de qualquer forma, o dramático isolamento de Isabelita. Seu próprio partido, o Justicialista, manifestou-se "em defesa da ordem constitucional" - prudentemente evitando referências expressas à presidente. Os sindicatos peronistas, que só deram sinal de vida quinze horas depois de deflagrada a rebelião na Aeronáutica, acabaram não passando de ameaças de greve, não concretizadas até a manhã de sábado. Mais: convocaram uma manifestação popular para a Plaza de Mayo e tiveram que recuar, ante o veto frontal oposto pelas autoridades militares.

Embora a nota oficial da CGT e das 62 organizações peronistas mencione Isabelita, o texto é um primor de sinuosidade. Declarando-se em estado de alerta, as organizações defenderam o "processo de institucionalização, cujo afiançamento se vai concretizando por cima das dificuldades e apesar dos interesses criados, sob a condução da senhora presidente, dona María Estela Martínez de Perón, e dos distintos níveis que conformam o Estado nacional, enquadrado dentro das normas da Constituição". Enfim, fechando o quadro de solidão, a Justiça argentina também se punha em movimento contra a presidente. Sintomaticamente, o juiz federal Alfredo Nocetti Fasolino ordenou, na última sexta-feira, uma ordem de captura contra ninguém menos que José López Rega - réu num processo de corrupção envolvendo 6 milhões de cruzeiros e no qual a própria Isabelita está implicada.

RETÓRICA - A presidente, ao que tudo indica, sofreu também pressão direta dos comandantes militares para que renunciasse, num encontro mantido no Palácio de Olivos. Na ocasião, porém, ela se teria mantido irredutível, a ponto de distribuir depois um comunicado, lido por uma rede de rádio e televisão, afirmando que "qualquer coisa" que não leve em conta o fato de ser ela "a presidente legal dos argentinos" é sinônimo "de desordem e ilegalidade". A nota termina com uma declaração patética: "Ou o país termina com o golpismo, ou o golpismo acaba com o país".

Houve ainda duas amplas reuniões de Isabelita com os comandos militares, o Gabinete e líderes sindicais. Na segunda delas, encerrada às 21h30, chegou a ser analisada a sugestão partida do Senado para que a presidente se licenciasse. E os comandantes militares insistiram: esperavam que o Executivo e o Gabinete tomassem atitude ‘no espírito do telegrama" de Videla ao Exército, "a fim de que as instituições prevalecessem sobre as pessoas". Na retórica da crise, isso significava a saída de Isabelita de cena.

Os militares, assim, abriram claramente seu jogo. No curso dessas reuniões, exigiram severa punição para López Rega e levantaram mesmo a hipótese de um processo contra a presidente, assediada por crescentes denúncias de corrupção administrativa e pela óbvia incompetência para dirigir o país. De tudo, restou uma única evidência incontestável: os militares controlam a situação, e esperam, agora, que os políticos tomem a iniciativa de liquidar legalmente com o agonizante governo.

 
     
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