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Reportagens 24 de julho de 1996O fim de uma era O modelo que salvou os
A festa foi memorável. Quando Mohammed Ali surgiu no alto do estádio de Atlanta para acender a tocha olímpica, com todas as luzes do mundo iluminando o seu mal de Parkinson, o público se curvou de genuína emoção. Em 1960, quando tinha 18 anos e ainda se chamava Cassius Clay, fora ele quem iluminara o ringue olímpico dos Jogos de Roma, injetando-lhe um ar de leveza sem paralelo. Levou medalha de ouro e virou lenda. A surpresa que deu e a homenagem que recebeu em Atlanta confirmaram que ninguém organiza melhor uma coreografia musical-pirotécnica televisiva do que os Estados Unidos. O sotaque sulista da cerimônia ajudou a derreter corações e produziu alguns entusiasmos verbais de momento. "O movimento olímpico é maior do que a Igreja Católica", excedeu-se o catalão e católico presidente do Comitê Olímpico Internacional, Juan Antonio Samaranch. Agora chegou a hora de os 10 700 atletas mostrarem por que passaram os melhores anos de sua vida lutando por mais oxigênio, submetendo-se à tirania de um relógio e abusando do corpo para torná-lo uma máquina vencedora. Suas marcas, se forem heróicas, ficarão registradas para sempre. Para o Brasil, a chance de sair de seu tradicional perfil olímpico acanhado - com medalhas em no máximo três esportes diferentes - é real. Jamais o país se apresentou com uma equipe olímpica forte em tantos esportes (veja reportagens abaixo). É possível que a própria cidade de Atlanta entre para a História com uma marca inesperada: como a sede da incrível Olimpíada que encolheu, justamente ao chegar a seu clímax como evento mundial. Foram 11 milhões de ingressos colocados à venda (mais do que nos Jogos de Los Angeles e Barcelona, somados), são 3,5 bilhões os pares de olhos conectados numa tela de TV, e a numerologia de superlativos para todos os gostos é extensa. A armadilha está aí. Quarta melhor cidade do mundo para fazer negócios, Atlanta sedia uma Olimpíada que começa a ser engolida pelo próprio sucesso do agente que a salvou da extinção: a iniciativa privada. A fórmula privada nasceu da hecatombe financeira dos Jogos de Montreal, em 1976, que deixaram um rombo público de 1 bilhão de dólares - não zerado até hoje. E mostrou seu extraordinário vigor oito anos depois, em solo americano, quando a Olimpíada de Los Angeles, sem ajuda do governo, deu um lucro de 220 milhões de dólares. A partir daí a fórmula pareceu tão eterna quanto a chama olímpica. E foi, até Atlanta. Hoje, o próprio gigantismo do evento fabricado pela iniciativa privada começa a dar sinais de autofagia: ele ficou grande demais, e não cabe mais nos contratos de patrocínio corporativo que o regem. "Ainda se deve chamar a Olimpíada de evento esportivo, ou de ramo da indústria de entretenimento e publicidade?", indaga o semanário inglês The Economist. A animada e suarenta massa humana que começou sua marcha sobre a capital da Geórgia, na semana passada, precisou aprender rápido o bê-á-bá das logomarcas. Ônibus com publicidade Kodak, Visa ou Panasonic, por exemplo, é ônibus olímpico, enquanto o símbolo dos cinco anéis que se esparramou pelas cidades-sede das Olimpíadas virou ícone quase digital nos estádios e ginásios das competições de 1996. Em caso de dúvida, é só seguir as curvas da Coca-Cola, o patrocinador gigante dos Jogos, e se chega a alguma competição. A piada mais corrente diz que se um atleta for flagrado pelo exame antidoping com uma substância chamada Pepsi-Cola no organismo será banido para sempre das competições. O regulamento olímpico ainda impede o atleta de usar logomarcas no uniforme? Não tem problema: a nadadora Anna Wilson e toda a equipe da Nova Zelândia, patrocinada pela Reebok, circulam em Atlanta - e na piscina onde competem - com a logomarca tatuada na pele. "A convivência olímpica, para mim, não significa conviver com outros atletas, e sim ganhar a medalha de ouro", esclarece John Stockton, um dos integrantes do Dream Team do basquete americano. Nem sequer pedidos de asilo político, outrora marcados por lances de arrojo e drama, se fazem como antigamente. Luis Arrojo, o grande nome do beisebol amador de Cuba, não pulou cercas nem atravessou rios, não arriscou a pele planejando a fuga com agentes secretos da CIA. Simplesmente se materializou no escritório de um agente esportivo de Miami, assinou um contrato milionário e se declarou asilado. O que parece já ter ficado claro, antes mesmo de começarem os dezessete dias de competições, é que "o lucro paga a festa, mas não o local da festa", nas palavras do canadense Dick Pound, membro do Comitê Olímpico Internacional. Nenhum país moderno, hoje, pode permitir-se fincar uma Olimpíada em casa apenas para a celebração do esporte. Os Jogos de Atlanta, que deveriam ser regidos essencialmente por uma teia de grandes corporações, tiveram de se socorrer em seis ministérios e cinco agências federais americanas para não entrar em colapso. Nenhuma injeção de dinheiro privado tão maciça se faz mais sem desdobramentos sociais. E estes, como antigamente, dependem de uma participação igualmente maciça do poder público. O maior trunfo da candidatura da Cidade do Cabo, na África do Sul, para sediar os Jogos em 2004 foi autoproclamar-se sede das "forças progressistas" do olimpismo e anunciar que o governo de Nelson Mandela já alocou 1 bilhão de dólares em obras sociais. Para "pagar a festa", como diz o canadense, vale tudo em Atlanta: nem bebês de 4 meses amarrados nas costas das mães tiveram refresco na cerimônia de abertura. Ou pagavam os 638 dólares pelo ingresso, ou não entravam. Mas ninguém sequer chegaria ao estádio sem que o poder público entrasse com a complexa operação de transporte. Em 1864, quando o general nortista William Sherman incinerou a Atlanta de ...E o Vento Levou, a cidade ficou com apenas 1,64 dólar para se reerguer. Em 1996, o movimento olímpico mundial começa a tomar precauções para não incinerar a si próprio. NATAÇÃO É sempre a mesma coisa: nadador que é bom não desfila em festa de abertura olímpica. Nadador medalhável, então, não acompanha a festa nem pela televisão. Para aqueles que, como o brasileiro Gustavo Borges, começam a competir já na manhã seguinte, quase que como tropa de choque de glórias ou derrotas futuras de seus países, a noite da cerimônia de abertura oficial dos Jogos acaba sendo um túnel de assombrações privadas. Enquanto Atlanta se sacudia com as coreografias enlatadas da festança, Gustavo se reencontrava com uma velha conhecida, em seu quarto-miniatura da vila olímpica: a ansiedade. "Ela não me pega pelo estômago, nem tenho desarranjo físico. É mais a cabeça. Fico preocupado olhando o relógio - primeiro tenho oito horas pela frente, depois só mais sete, depois seis, o tempo vai sumindo." Aprendeu a desistir de mentalizar a prova, o exercício cerebral em que o atleta procura simular cada instante da competição até a imaginada vitória. "Era um troço muito louco. Eu mentalizava bem demais. Suava frio, tinha calafrios e estragava meu sono. Acordava como se tivesse nadado a noite toda." Quatro anos atrás, tinha 19 anos e, como diz, "nenhuma noção do que estava fazendo". Foi com soberba ausência de pressão que ganhou a medalha de prata na prova mais nobre da natação olímpica: os 100 metros. Agora, vive a armadilha dos grandes atletas: para se superar, só o ouro. Antes de enfrentar a muralha russa que atende pelo nome de Alexandr Popov, há cinco anos imbatível nos 100 metros e considerado insuperável nas águas do complexo aquático de Atlanta, Gustavo nadaria primeiro os 200, já no sábado. Oficialmente, não é sua prova nobre, portanto estava a cavaleiro para não subir no pódio. Em Barcelona, ela lhe serviu de petisco, essencialmente como calmante e preparo para o prato principal. Em Atlanta, porém, beliscar qualquer medalha já no primeiro dia de provas serviria de poderosíssimo doping psicológico. Não apenas para a natação brasileira como para o Brasil olímpico como um todo. Gustavo Borges é capitão do time, e em time que começa ganhando todos gostam de apostar. Sua pernada continua não sendo ideal para impulsionar os 2,04 metros de altura e 93 quilos de massa. Mas a capacidade de explosão de seus pés tamanho 47, a envergadura alada de seus braços e o puxado forte do abdome farão marola nas águas de Atlanta. Gustavo só é tubarão na piscina. Fora dela, passa a imagem de genro ideal para mães casamenteiras, enquanto Fernando Scherer, o Xuxa, diabo loiro da natação brasileira, corre livre e solto, bem-nascido, bem-humorado, bem esculpido pela natureza e solteiríssimo pai da menina Isabella. Por trás dessa imagem mais volátil está um atleta ardido, disciplinado para vencer e absurdamente talentoso. Se tudo correr bem, competirá na final dos 100 metros lado a lado com e contra Gustavo Borges. Três dias depois, nesta quinta-feira, nadará a prova mais exuberante e curta das Olimpíadas - os 50 metros -, definida como "pânico organizado" pelo inglês Mark Foster. São oito nadadores batendo braços e pernas selvagemente, respirando uma só vez e com vitórias tão apertadas que muitas vezes vence quem estiver com as unhas da mão mais compridas. "É animal", concorda um dos favoritos a medalha, o "bad boy" americano Gary Hall Jr. Ao contrário de Gustavo, que enfrenta o colosso Popov nos 100 metros, mas não nos 200, Xuxa só compete em águas territoriais do russo. E Popov não cogita ceder um milímetro sequer de sua soberania. "Se vejo um adversário com potencial, prefiro matar seu entusiasmo no nascedouro, para que desista logo de nadar. Em forma, eu sou imbatível", diz. Tudo bem. Mas, como em pódio olímpico cabe mais de um, qualquer cor de medalha vale ouro, quando sai de águas freqüentadas por Popov. Quando o pai fala em judô, o pequeno Marco Aurélio, de 3 anos, arma uma tempestade. Chora, esperneia, grita. "Judô é ruim, judô é ruim", esbraveja e depois explica: "Ele leva o meu pai no avião". Só a imensidão do amor paterno mesmo para evitar uma explosão do célebre estopim curto de Aurélio Miguel. O judoca, medalha de ouro nas Olimpíadas de Seul, em 1988, sempre se agacha e envolve o filho com um abraço de urso, o pavor dos adversários, mas que nesse caso é só ternura. "Eu brigava feio com qualquer um que falava mal do judô, mas agora é diferente", diz Aurélio. "O Marco me derruba só com um sorriso." Alojado com a delegação brasileira de judô na Escola para Cegos da Geórgia, em Macon, cidadezinha sem graça, distante 100 quilômetros de Atlanta, Aurélio tenta não se derreter muito com as recordações das broncas do filho, do sorriso da filha, Beatriz, de 1 ano, que ainda não tem opinião formada sobre o judô, e da mulher, Daniella. "Tenho de mentalizar o Aurélio vencendo aqueles sujeitos durões, não posso me emocionar muito", diz Aurélio. Ele anda muito pensativo em Macon. Acha que poderia estar melhor preparado. Aos 32 anos, campeão olímpico consagrado, sua ida para Atlanta é um desafio a que apenas os grandes campeões se propõem, a volta ao pé da montanha esportiva depois de ter conhecido as alturas da glória. "O judô de alto nível tem um lado filosófico muito profundo", diz Aurélio, sem afetação. "Tenho refletido muito sobre isso." No intervalo dos treinos e das lutas de exibição que os judocas brasileiros têm feito para os moradores de Macon, Aurélio passeia pela escola e observa. "Os cegos são uma lição para nós: eles, sim, sabem o que é uma dor. Não reclamo mais de nada", diz o judoca. Ele é hoje um atleta muito diferente do garotão de 24 anos que foi a Seul com uma técnica precisa, e uma força física tão descomunal que venceu as cinco lutas que lhe deram a medalha de ouro por "excesso de passividade" dos oponentes. Esse tipo de vitória, um tanto decepcionante para a platéia, é muito valorizada no judô. Ela mostra que o lutador intimidou tanto que o adversário não ousou atacar. Aurélio não conseguiu repetir a dose em Barcelona. Perdeu a concentração. As lutas de judô duram cinco minutos. "Antes dos três minutos eu já estava divagando, sentindo a medalha no peito. Foi apenas um flash de distração. Bastou isso. Perdi", lembra ele. Coube ao brasileiro Rogério Sampaio manter acesa a tradição de ouro do Brasil em Olimpíadas, o palco privilegiado do judô e única ocasião em que as lutas são transmitidas ao vivo para todo o mundo. Ao contrário do atletismo, do basquete, do futebol e do vôlei, e mais recentemente até da natação, o judô fora dos Jogos Olímpicos inexiste como espetáculo esportivo. É só nas Olimpíadas, diante das câmaras de televisão, que as lendas do judô nascem, crescem e se firmam. Depois de Barcelona, Sampaio, que ajudou também a manter a fama de imprevisibilidade desse esporte ao surpreender reputações muito mais estabelecidas, nunca mais teve projeção. Vítima de uma contusão, ele não conseguiu classificar-se para competir em Atlanta. O Brasil, porém, trouxe a Atlanta nomes capazes de mostrar-se ao mundo no palco privilegiado das Olimpíadas. É o caso do médio Edelmar Zanol, que conseguiu a vaga do medalhado Sampaio. O judô olímpico é também o cenário em que as grandes escolas mundiais do esporte se defrontam. É um leque interessante de possibilidades. A força bruta da Europa do Leste se contrapondo mais uma vez ao primor de técnica dos japoneses. O Brasil fica a meio caminho das duas filosofias. Os judocas brasileiros costumam ser uma mistura das duas características. Aurélio Miguel passou um mês treinando no Japão, aprimorando-se na Universidade de Budo e no Instituto Kodokan, os templos originais do judô. Nos últimos meses, sob protestos e lágrimas do pequeno Marco, foi à Europa competir duas vezes, uma na Inglaterra e na Holanda, e outra na Itália. O prestígio, a honra e a glória de exibir-se numa Olimpíada foi o fator mais significativo do crescimento do judô no Brasil. Aurélio, com sua medalha de Seul e com a que Atlanta lhe trouxer, é o símbolo dessa inesperada vocação nacional. Quando o vôlei feminino do Brasil estreou nas Olimpíadas, em 1984, Ana Moser era uma menina de 16 anos que vivia um drama municipal. Blumenau, a cidade onde nascera e morava até então, estava submersa numa devastadora enchente. Com a casa inundada e as ruas intransitáveis, só restou uma coisa para a menina fazer. "Pela televisão, assisti a todos os jogos de vôlei e a todas as provas de atletismo das Olimpíadas", lembra. Doze anos mais tarde, quando o vôlei feminino do Brasil se preparava para chegar pela primeira vez ao pódio olímpico, Ana Moser, já com 28 anos e consagrada como uma das melhores atacantes do mundo, vivia um drama pessoal. Operada de uma lesão grave nos ligamentos do joelho direito, no dia 17 de janeiro, ela ouviu do cirurgião um diagnóstico desalentador: só poderia voltar a pisar numa quadra de vôlei dentro de oito meses, um depois da final olímpica. Em vez de chorar, Ana resolveu se insurgir contra a previsão. Dois dias depois iniciou um programa de recuperação física intensivo. Quatro meses mais tarde, Ana Moser está de novo na quadra. Desde sábado, quando o Brasil enfrentou o Peru, na estréia do vôlei feminino em Atlanta, ela fala duro, sem cerimônia: "Qualquer resultado que não inclua uma medalha será uma derrota para nós", diz com confiança. "Não temos sonho: temos objetivo, o ouro." Durante quatro meses, a atleta passou oito horas por dia, seis dias por semana, exercitando o corpo dentro de seu limite físico. Paralelamente, não recusou nenhum orixá: fez tratamento de RPG, aderiu à medicina ortomolecular, consultou-se com guias espirituais. Sua irmã Isabel, ex-jogadora de vôlei, mudou-se de Blumenau para São Paulo apenas para cuidar de sua dieta. "Que ela tem talento, todo mundo já sabe", diz Jorge dos Santos, o fisioterapeuta carioca que não largou de seu pé. "Poucos atletas têm o mesmo senso de responsabilidade." O vôlei feminino chega a Atlanta com responsabilidade maior do que em Olimpíadas anteriores: se não conseguir medalha, será considerado fracasso. Ana Moser é parte da virada. Em 1988, nos Jogos de Seul, ela estava na seleção que perdeu quatro dos cinco jogos que disputou, e ficou num constrangedor sexto lugar, entre oito competidores. Em 1992, em Barcelona, o time ganhou três partidas e perdeu outras três. Terminou em quarto lugar. De volta ao Brasil, Ana sentiu que o esquema de preparação da seleção estava esgotado e pediu dispensa. "Você conhece um time depois do 12º ponto de um set", ela explica. "Fazer os doze pontos iniciais é fácil. Difícil é fazer os três últimos que decidem." A seleção havia-se transformado em um time de doze pontos. Tinha boas jogadoras, jogava bonito, mas faltava-lhe força para decidir os jogos. Outras jogadoras acompanharam Ana e a debandada foi geral. A crise só foi superada com a substituição do técnico Wadson Lima por Bernardo Resende, o Bernardinho, responsável pela construção de um novo time. A embocadura parece sólida: desde 1994, a seleção disputou quinze torneios internacionais e chegou à final em todos eles. A cortada de Ana Moser na ponta da rede está mais respeitada: atrás dela, na quadra, há um time. Nem todo iatista tem estômago de aço. Na semana passada, quando o furacão Bertha raspou a costa atlântica americana, perto da cidade de Savannah, o brasileiro Robert Scheidt tinha seu estoque do remédio Scopoderm à mão. Se precisasse velejar com ondas de 4 metros, colaria o adesivo anestésico atrás da orelha, e a substância escopolamina chegaria até o seu labirinto através da pele, nocauteando os enjôos que o perseguem. Pois é: velejador calejado também passa mal. No caso de Scheidt, ele herdou esse problema do pai. Mas decidiu ir em frente, a todo o vapor: em apenas um ano de regatas, está vencendo mais léguas do que Pedro Álvares Cabral navegou para chegar ao Brasil. Scheidt estréia com estrondo em Savannah, a capital olímpica das provas de iatismo. Ele é um dos raros brasileiros a constar como favorito absoluto de sua modalidade esportiva em todas as listas de medalháveis da imprensa mundial. Antes dele, apenas Adhemar Ferreira da Silva, em 1956, ano do seu bicampeonato no salto triplo, mereceu esse reconhecimento antecipado. Na verdade serão duas estréias simultâneas: junto com Scheidt se apresenta pela primeira vez no cenário olímpico a classe Laser. Além da propensão para enjôos, o velejador paulista herdou da família um "pentálogo" de princípios. É o próprio pai quem os enumera: ser honesto, ter visão, dedicação extrema, perseverança e agüentar a dor. "Esporte é cabeça", sustenta o administrador de empresas Fritz Scheidt. No universo do clã, Robert se pronuncia Rôbert, e por trás dessa diferença tônica está todo um mundo de deveres e responsabilidades da sua linhagem germano-sueca. Ao contrário da maioria dos atletas olímpicos universitários, por exemplo, ele jamais trancou matrícula no Mackenzie. Concluiu o curso poucas semanas antes de embarcar para Savannah. Não há ostentação na família: Robert mal cabe em seu acanhado quarto de solteiro e dirige um velho Gol GL. Aos 23 anos de idade, é ponderado em terra e audacioso no mar. Quatro anos atrás, quando desembarcou na Escócia para participar do Campeonato Mundial da Juventude, levava na bagagem uma bandeira do Brasil comprada na tradicional Casa Bayard, no centrão de São Paulo, e um disco com o Hino Nacional que o pai pedira emprestado a um amigo. Foi tratado como penetra. "Esse pessoal vem apenas para comparecer, não para competir", ouviu de um dos organizadores ingleses. Das onze regatas do campeonato, Robert ganhou dez. Os ingleses tiveram de engolir o seu hino e a sua bandeira. Em 1996, se houver festa do iatismo brasileiro, ela será em Savannah mesmo, distante quase 500 quilômetros de Atlanta. A cidade parece ter estacionado nos anos 50, e suas maiores celebridades são um ponto de ônibus e um banco de madeira imortalizados pelo ator Tom Hanks no filme Forrest Gump. Para os velejadores, habituados a formar uma tribo olímpica à parte, esse isolamento já é rotina e está de bom tamanho. Para sorte do Brasil, nem tudo é novidade num esporte freqüentemente comparado ao vinho - "quanto mais velho, melhor". Torben Grael, 36 anos, duas medalhas olímpicas e nome mais venerado da vela brasileira, compete novamente na classe Star, a mais nobre do iatismo. Com um calouro de peso numa ponta, um veterano premiadíssimo na outra e muitas consoantes no meio, a vela brasileira tem alegrias a dar em Savannah. Depois de carregar a vida inteira a fama de retranqueiro sortudo, o treinador Mário Jorge Lobo Zagallo vai atacar em Atlanta. Mais lépido do que nunca, aos 64 anos, Zagallo desfruta uma situação única entre todos seus antecessores no cargo: é compreendido, admirado e até exaltado pelos torcedores brasileiros. Em março último, sob seu comando, a seleção, ainda inexperiente mas determinada, ganhou o torneio pré-olímpico na Argentina, jogando sempre na alameda que leva ao gol. Quatro meses depois, ele dirige um time mais sólido, mais maduro e mais talentoso. Está credenciado a arrebatar a medalha de ouro num esporte que terá vida à parte nas Olimpíadas, a começar pelo fato de que nenhuma de suas 32 partidas irá realizar-se em Atlanta. O Brasil jogará em Miami, a Espanha, atual campeã, no paraíso infanto-juvenil de Orlando e a Argentina, em Washington e em Birmingham, no Alabama. Se forem às finais, eles se encontrarão em Athens, a 100 quilômetros da sede dos Jogos. O Brasil, medalha de prata em 1984 e 1988, está com tudo para chegar lá. Não pela sorte, claro, mas por sua própria força e pelas limitações da maioria dos adversários. A seleção é diferente de todas as anteriores, dadas as peculiaridades do regulamento. Só reúne dezoito jogadores. Em qualquer competição internacional, há 22 atletas por equipe, ou seja, dois por posição. Dos dezoito, apenas três têm mais de 23 anos. Foi a saída híbrida que a Fifa, entidade que governa o mundo do futebol, adotou neste ano para evitar competição com a Copa do Mundo. Escapou assim também da antiga hipocrisia dos Jogos Olímpicos em relação ao profissionalismo. No passado, como as demais modalidades, o futebol estava reservado para os amadores. Não há lembrança de nenhum peladeiro que tenha jogado bola nas Olimpíadas, mas a estupidez dessa exigência fez com que, entre 1952 e 1980, os campeões fossem ex-países socialistas da Europa Oriental, nos quais, apenas oficialmente, o futebol profissional não existia. A partir de 1984, a regra foi afrouxada e, desta vez, o torneio está aberto a qualquer futebolista, respeitado o limite de idade para quinze dos convocados de cada seleção. Entre as dezesseis equipes participantes, algumas não se valeram disso. No Japão, por exemplo, adversário do Brasil na estréia deste domingo, 21, os dezoito jogadores estão abaixo dos 23 anos. Mesmo se não estivessem, provavelmente não haveria muita diferença. A Itália chamou Pagliuca, o goleiro da Copa de 94, outros dois veteranos que não são exatamente estrelas, o meia Crippa, do Parma, e o atacante Branca, da Inter de Milão, e mais quinze jovens, que, na maior parte, estão na reserva em seus clubes. Já a Argentina encarou as Olimpíadas a sério. Armou um timaço, em que se destacam o zagueiro Sensini, o lateral Chamot, o meia Simeone, estes com mais de 23, o também meia Ortega e o atacante López. Na teoria, que em futebol nem sempre funciona, a Argentina é a única seleção à altura do Brasil. O poderio brasileiro concentra-se no meio-de-campo e no ataque. O brilho de jogadores como Rivaldo, um dos responsáveis pelas magistrais exibições do Palmeiras no primeiro semestre, o agressivo lateral Roberto Carlos, os gols e a frieza do artilheiro Bebeto levaram Zagallo à corajosa decisão de não incluir Romário na lista. Bebeto terá a seu lado um grande goleador, seja Sávio, seja Ronaldinho. O ponto fraco é o centro da defesa. Para reforçá-la, o técnico importou da Itália o campeão mundial Aldair, de 30 anos, um zagueiro tão eficiente quanto silencioso. Ele fala com os pés, costuma dizer Carlos Alberto Parreira, antecessor de Zagallo. Até nas suas falhas essa seleção traz uma notícia animadora para os torcedores. A estrela do alagoano Zagallo jamais o deixou na estrada. Um exemplo: no Dia dos Namorados do ano passado, 9 230 pessoas concorriam a duas passagens para Aruba sorteadas entre os clientes do BarraShopping, no Rio de Janeiro. Quem ganhou? Ele mesmo, Zagallo, que alguns dias antes do sorteio tinha ido com a mulher, Alcina, fazer compras no local. Se tudo correr bem, a estrela vai brilhar em Athens outra vez. "Sou um predestinado", diz o treinador. E é mesmo. Em 48 anos de carreira como jogador e técnico, conquistou 29 títulos. É o único de sua geração que ainda tem poder nos rumos do futebol brasileiro. Sorte nossa. No fundo da quadra, Sandra estica ao extremo o corpo e, num salto ágil, toca a bola para o centro. Jacqueline recebe o passe e, com a ponta dos dedos, suspende a bola sobre a rede. Sandra se recompõe rapidamente, o corpo coberto de areia, salta de novo e corta. A bola sai sem muita violência, mas, com precisão letal, cai no ponto da areia onde nenhuma adversária poderia alcançá-la. Nos últimos dezoito meses essa cena tem-se repetido com tal freqüência que a dupla brasileira formada por Jacqueline Louise Silva Cruz , 34 anos, e Sandra Pires Tavares, 23, chegou lá - ao topo do ranking mundial do vôlei de praia. Jackie e Sandrinha, como é conhecida a dupla, representam hoje a essência do melhor vôlei de praia praticado no mundo. Sandra e Jacqueline são apontadas como candidatas certas a uma medalha. Se for a de ouro, nem assim haverá surpresa. Mas não é tudo. O Brasil leva ainda a Atlanta mais uma dupla feminina, formada pelas cariocas Mônica e Adriana, e duas masculinas, todas com chances reais de subir ao pódio. O vôlei de praia estréia em Atlanta como o esporte dos tempos modernos - e o Brasil parece ser seu dono. A modalidade, que se popularizou nas areias da Califórnia, há dez anos, já nasceu com vocação profissional. Mar, areia, sol e pouca roupa são ingredientes tão importantes para o jogo quanto a bola e a rede, a televisão e o dinheiro dos patrocinadores. É talvez o único esporte em que torcedores e jogadores se vestem - ou se desvestem - da mesma maneira. A praia não é essencial. O Atlanta Beach, um estádio permanente de vôlei de praia, com capacidade para 9 000 espectadores, onde serão disputados os jogos, está a 400 quilômetros do mar. Estreando junto com a nova modalidade estará Jacqueline, uma veterana que disputará sua terceira Olimpíada como se fosse a primeira. Desde sua última participação, em 1984, Jacqueline mudou de esporte e mudou a si mesma. Em 1980 e 1984 era a levantadora titular da seleção de vôlei. "Em Moscou, era nossa estréia e não entendemos o que estávamos fazendo lá", lembra. "Na Olimpíada seguinte, em Los Angeles, treinamos durante seis meses, mas esquecemos de preparar a cabeça para vencer." Jacqueline, mal saída de seus 20 anos, vivia entre o deslumbramento de quem era apontada como uma das mais talentosas jogadoras do mundo e a rebeldia de quem queria experimentar tudo na vida e reformar o mundo. Hoje, amadurecida, continua apenas maníaca. "Cansei de ser rebelde", conforma-se. "Agora quero apenas ser a melhor." Por isso trocou a quadra pela praia. Jogado em duplas, o vôlei de praia livrou Jacqueline de clubes, federações, dirigentes, técnicos, treinos coletivos e concentrações. Ela se mudou para os Estados Unidos em 1986, depois de ser cortada da seleção por indisciplina. Construiu uma das mais brilhantes carreiras nas praias americanas, onde se fartou de ganhar títulos. Voltou ao Brasil apenas em 1993, disposta a conquistar uma das vagas para representar o país nas Olimpíadas. Largou suas parceiras americanas e formou dupla com Sandra, perfeccionista e encrenqueira como uma Jacqueline de dez anos atrás. "Brigamos sempre, mas nunca pensamos em desfazer a dupla porque sabemos que cada uma quer a mesma coisa e sabe que precisa da outra para conseguir", diz Jacqueline. Xingam-se, estranham-se. Mas estão sempre juntas. Vencendo. |
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