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Reportagens 23 de outubro de 1996Rolando na cama Seu casamento anda um tanto
A comédia da vida privada costuma não ter a menor graça para os protagonistas. Domingo à tarde, por exemplo, ele se senta em frente da televisão para assistir ao futebol, e ela, amuada, não pode abrir a boca. O domingão é o prefácio de uma semana que segue monocórdia. De segunda a sexta, o casal troca algumas frases burocráticas pela manhã, de preferência antes de ele pegar o jornal para ler. À noite, ela vê novela e ele ronca na poltrona. O marido faz uma observação mesquinha sobre o serviço doméstico e sua mulher recita a cantilena de que ele só sabe reclamar, jamais a elogia, sempre foi ausente e que desse jeito não dá. Na hora de dormir, cada um vira para seu lado na cama e o 'boa-noite' protocolar encerra mais um dia de matrimônio. Quem nunca viveu uma cena similar? Talvez sirva de consolo para os casais que se identificaram com o roteiro acima saber que pelo menos uma coisa têm em comum com o presidente francês Jacques Chirac e sua mulher, Bernadette. 'O presidente não é um especialista em felicidade conjugal', suspirou madame Chirac, no final de agosto, depois de entregar, em entrevista de rádio, a rotina soporífera que divide com o marido. Monsieur Chirac não fez nenhuma declaração pública sobre o desabafo da patroa, mas é batata que, para ele, Bernadette carrega toda a culpa pela chatice que tomou conta da sua vida conjugal. Não tem jeito: em matéria de casamento, o inferno é sempre o outro. Acontece nos melhores contos de fadas, como atestam imbróglios recentes de gente famosa, do burguês casal Chirac aos moderninhos Mick Jagger e Jerry Hall. Fatalmente chega um dia em que se descobre que a pessoa que dorme no travesseiro vizinho, por quem o coração batia forte, se transformou num hábito - uma constatação que costuma ser dolorosa entre as classes mais favorecidas da sociedade ocidental, na qual se desenvolveu, em termos historicamente recentes, a associação entre casamento e amor ou, mais arriscado ainda, paixão. Quando os cônjuges são maduros, se admiram, se respeitam e se sentem razoavelmente atraídos um pelo outro, conseguem entender que há compensações muito boas na estabilidade. 'A crise é um estalo de intolerância. Mas, quando você gosta da pessoa, a tolerância é maior', atesta o ator Tarcísio Meira, protagonista de um dos casamentos mais estáveis do mundo artístico brasileiro - 33 anos de união com a atriz Glória Menezes. As pessoas talvez façam isso não por insensibilidade ou deficiência emocional - mas talvez porque reconhecem justamente a importância do casamento na organização da sociedade e de suas próprias vidas. A relação estável, de preferência monogâmica, não é a única forma de convivência entre os sexos, mas está sacramentada como a mais conveniente. Leis, religiões e a moral convencional estimulam o casamento e punem o adultério. Esse arranjo, no entanto, tem um aspecto muito realista, como as dietas alimentares. Bom para a saúde é a combinação de grelhados com salada e grãos integrais, mas sonha-se secretamente com a saciedade da feijoada e do chocolate. Na tentativa de salvar suas ilusões pré-matrimoniais, é comum que marido e mulher insistam em preservar uma imagem idealizada do parceiro, construída nos tempos de namoro. Essa imagem, claro, não resiste aos embates do dia-a-dia e ao inelutável ocaso da paixão. Daí nasce, cedo ou tarde, a desilusão. 'É imaturidade querer manter num casamento as expectativas da época de namoro, querer viver como num filme ou romance de amor', diz a psicanalista Carmen Da Poian. 'As expectativas devem mudar com a convivência e a partir dos dados oferecidos pela realidade.' Qual o mais elementar desses dados? A volúpia do sexo sinfônico e eletrizante, como vivido nos primeiros tempos, está fadada a desaparecer da maioria dos casamentos. A boa notícia é que as pessoas podem viver perfeitamente sem sessões intermináveis de puxa-estica-torce-e-amassa. Maridos e mulheres fiéis são aqueles que, colocados diante da opção, escolhem a estabilidade. Infiéis são os que, por falta de um elemento mais forte que os mantenha atados ao parceiro, cedem ao impulso da curiosidade (veja quadro na pág. 67). Não importa a forma, o conteúdo é o mesmo - casamento feliz é obra de reengenharia constante. 'Para fugir do tédio e manter o interesse pelo parceiro, deve-se fazer planos e renovar projetos comuns', aconselha Carmen Da Poian. Os velhos truques sobre como manter 'acesa a chama' do sexo e da sedução andam fora de moda. Numa época em que os homens sonham com as acrobacias de Sharon Stone e as mulheres suspiram por Antonio Banderas, é difícil imaginar técnicas que façam um marido se lançar sobre a companheira de jornada com beijos molhados e respiração ofegante ou a esposa ouvir, maravilhada, mais uma história sobre a fascinante performance dele no escritório de contabilidade. Os conselhos dos especialistas são mais pé no chão: uma reforma na casa, uma viagem ao exterior e até mesmo obrigar-se a sair regularmente com amigos. Recuperar a delicadeza perdida também é fundamental. 'Para uma boa convivência, os dois têm de ser delicados. Se não houver educação - o que nada tem a ver com segurar os talheres da maneira certa -, não funciona', diz a colunista social Danuza Leão, que já foi casada três vezes e está solteira há 'uns vinte anos'. Para Danuza, que volta e meia aborda em suas crônicas as vantagens e as desgraças da vida a dois, uma das grandes dificuldades do casamento é sincronizar as vontades. 'É um tormento quando um quer ir ao cinema e o outro quer ficar em casa; quando um quer ver televisão e o outro, ouvir música; quando um quer dormir e o outro, transar', enumera. Sincronizar as vontades exige que os dois aprendam a ceder, sem que isso configure uma derrota. 'O segredo é ser paciente e tolerante', resume Danuza. Essa agenda carregada garante algumas horas extras de felicidade conjugal. Mas o que, exatamente, é isso? Num questionário elaborado pela agência matrimonial Happy End, de São Paulo, homens e mulheres dispostos a reincidir no casamento, depois de uma tentativa fracassada, disseram o que gostariam de encontrar no novo parceiro. Como era previsível, as respostas retrataram o abismo de expectativas entre os dois sexos. Eles desejam uma mulher que seja independente, goste de cozinhar, cuide bem do marido, participe dos problemas e lhes dê liberdade. Elas, por sua vez, querem um marido romântico, organizado, que não descuide da aparência, que aprecie sair e valorize a relação. Evidentemente, todos tomaram por base o que não tiveram do companheiro de primeira jornada matrimonial. Pular a cerca, mas não no sentido bíblico, é o que fazem Zulmira, de 48 anos, e Paulo Sérgio Sommer, de 51, quando a barra pesa. Depois de um rompimento que durou seis meses, os dois se reconciliaram. Mas nunca mais voltaram a dividir o mesmo teto, embora se considerem casados de fato, além de o ser no papel. Sommer mora a um quarteirão de Zulmira, em Porto Alegre - uma distância razoavelmente prudente. Casas separadas foi a maneira que acharam para espantar o tédio e evitar as briguinhas que minam os relacionamentos. 'Nós nos encontramos só quando estamos maravilhosos, cheirosos, de ginástica feita', conta Zulmira. 'E eu posso me esparramar pela cama, sem pedir licença a ela', completa Sommer, que dá expediente de marido até a hora em que ela pega no sono. 'Gosto de dormir com ele ali do meu lado, vendo TV. Não sei explicar direito por quê. Mas gosto de acordar sem ninguém do meu lado', diz Zulmira. Salustio Motta, de 79 anos, e Mary Nazaré Vieira Motta, de 68, são uma prova de que essa oficina produz resultados que valem a pena. Na semana passada, eles comemoraram cinqüenta anos de união, no Rio de Janeiro, cercados de filhos e netos. Os dois enfrentaram todo tipo de adversidade, tiveram lá suas brigas, mas chegam às bodas de ouro com uma conclusão definitiva. 'O bom do casamento é ter alguém com quem conversar e dividir os problemas', diz Salustio, que há pouco tempo deu a melhor demonstração de amor a sua mulher - empadinhas. 'Na medida do possível, sempre fiz as vontades dela. Outro dia, a Mary disse que estava com vontade de comer empadinha de palmito. Sei que ela adora as empadinhas de uma loja em Ipanema. Saí, peguei um ônibus e trouxe as empadinhas para ela. Fiquei tão feliz em vê-la comendo. Até mais feliz do que ela', lembra Salustio. Quantos casamentos não seriam salvos por um gesto tão simples de generosidade e afeto?
As etapas do casamento que nem 1º ano - Os pombinhos contam as horas para voltar a seu ninho, e a vida sexual é intensíssima. Para os casais mais jovens, no entando, essa face de encantamento costuma acabar por volta dos quatro meses de união. Como em geral ganham pouco e dependem dos pais para bancar parte das despesas, as contas mensais tornam-se motivo de ansiedade e discussão 2º ano - Para muitos homens e mulheres que enfrentam problemas conjugais desde o início do casamento, completar um ano juntos é questão de honra. Sob os eflúvios das bodas de papel, eles vivem seis meses de calmaria, até que as desavenças voltam toda a força. Ultrapassar o segundo ano de casamento pode ser um objetivo inatingível 4º ano - A barra pesa porque, ao arrefecimento da paixão, somam-se o nascimento do primeiro filho, que desbanca o marido como centro das atenções da mulher, e a rotina desgastante. Surgem o que especialistas chamam de "ataques de individualidade". A frase mais ouvida nesse período é "Somos mesmo diferentes em tudo" 7º ano - A famosa crise dos sete anos é detonada pelos ressentimentos acumulados ao longo do tempo, que finalmente vêm à tona, e pela frustação das expectativas em relação ao parceiro. O tédio do dia-a-dia torna-se pesadíssimo para ambos. O terreno está fértil para que brote uma paixão extraconjugal 15º ano - É o momento em que marido e mulher fazem um balanço da vida a dois. Na virada dos 40, eles olham o passado com a sensação de que desperdiçaram seus melhores anos e vislumbram o futuro com angústia. A estrada comum pode encontrar uma bifurcação e cada um seguir para seu lado 25º ano - A meia-idade é um fardo, as perspectivas de mudança são praticamente nulas e os filhos já saíram de casa. Não é raro que marido e mulher se observem como dois estranhos. A frase que lhes vem à mente é: "Mas eu não me casei com essa pessoa". As picuinhas costumam crescer em progressão geométrica
A cena de cooperação conjugal aí ao lado é puro marketing. Na vida real, o presidente francês Jacques Chirac é o protótipo do marido convencional - daqueles que jamais pilotariam um fogão para fazer um agrado à patroa. Ele não valoriza o trabalho de dona de casa e está sempre pronto a criticar a maneira como sua mulher, Bernadette, conduz os assuntos domésticos. Para conversar com o marido sempre ocupado, Bernadette tem de aproveitar a hora em que ele está fazendo a barba. Aos domingos, ela não pode dar um pio enquanto Chirac assiste ao futebol. Pragmáticos Muita gente se espantou quando o ator Hugh Grant, casado com a modelo Elizabeth Hurley, foi procurar os serviços da prostituta Divine Brown. Apesar do escândalo, Elizabeth não abandonou o barco, mostrando que seu casamento é sólido como a evolução da conta bancária de ambos. A parceria de Grant e Elizabeth ultrapassa o leito conjugal - e isso fortalece o amor. Ele a ajudou a subir na vida, ela serve de cartão de visitas para Grant, e os dois fundaram uma produtora de cinema. Útil e agradável. Supernamoro Depois de sessenta anos de namoro, a repórter Lois Lane e o Super-Homem juntaram os trapinhos. Devem ter tido tempo de sobra para se conhecer e discutir a relação, como recomendam os especialistas. Mas nem isso é garantia de um final feliz. Não há notícia de herói casado - com exceção do grego Ulisses, que arranjou uma odisséia para se manter longe de sua mulher, a carente Penélope. Em geral, heróis costumam ser onipotentes, gostam de bancar os provedores, o que não combina com uma mulher dinâmica como Lois. O sovina O pragmatismo americano continua surpreendendo quem tem noções românticas sobre o casamento. O encanto chique do enlace de John Kennedy Jr. e Carolyn Bessette não impediu que os dois firmassem um pacto pré-nupcial, seguindo o exemplo precursor de mamãe Jacqueline e Aristóteles Onassis. Carolyn levará 2 milhões de dólares se uma hipotética separação ocorrer entre o terceiro e o décimo ano de casamento. Depois de dez anos, a quantia sobe para 3 milhões. Como é dono de uma fortuna de 33 milhões de dólares, conclui-se que o homem mais sexy do mundo fez como muitos maridos carecas e barrigudos: bancou o sovina. Nada fácil A modelo Jerry Hall bem que tentou seguir as fórmulas fáceis para salvar seu casamento com Mick Jagger, líder dos Rolling Stones (muitos filhos, ginástica à beça, roupas sensuais). Não adiantou. Constantemente informada - pelos jornais - de que seu marido se engraçara com essa e aquela beldade, ela se cansou. A gota d’água foi a modelo checa Jana Rajlich, com quem Jagger passou uma longa noite. Para levar metade da fortuna de Jagger, Jerry teria buscado a orientação do advogado que cuida dos interesses da princesa Diana.
As reclamações mais freqüentes de maridos e mulheres Ele odeia quando ela: Ela odeia quando ele: O fascínio e o risco da traição Ao se casar com a princesa Stéphanie, de Mônaco, o ex-guarda-costas Daniel Ducruet conquistou, além de uma das mais belas mulheres da Europa, o direito de levar um vidão. Festas elegantes, férias em cenários paradisíacos, uma conta bancária polpuda - tudo contribuía para que o tédio conjugal fosse um fantasma pequeno-burguês a milhões de dólares de distância. Mas Ducruet jogou tudo fora, ao ser flagrado com a dançarina Fili Houteman. Apesar das fotos comprometedoras, publicadas em revistas italianas, o ex-guarda-costas tentou seguir o conselho do poeta romano Ovídio aos maridos infiéis - negar, negar sempre. Acuado, Ducruet disse a Stéphanie que as fotos eram anteriores ao casamento. A princesa fez força para cair na esparrela, mas as revistas estamparam outra batelada de fotos, destacando a prova do crime: a aliança de casamento pousada sobre a coxa direita de Fili. O divórcio foi sumário. Por que alguém aparentemente satisfeito no plano conjugal, como Ducruet ou o ator Hugh Grant, marido da esplendorosa modelo e atriz Elizabeth Hurley, cai na tentação? Para biólogos que estudam o assunto, a compulsão de trair, ou a negação da monogamia, é fruto do determinismo genético. Segundo esses pesquisadores, movidos pelo instinto de perpetuar a espécie, alimentado pela incontinência hormonal, os machos humanos teriam necessidade de distribuir seus genes entre um grande número de parceiras. Já as fêmeas, ao ciscar na área de outro espécime, visariam encontrar um reprodutor de melhor qualidade. Pode até fazer sentido no laboratório, mas numa crise conjugal é prudente não sacar da cartola essa justificativa científica. A arte de pular a cerca, no entanto, continua a ser predominantemente masculina, como qualquer uma sabe. Numa sondagem realizada nos Estados Unidos em 1994, 21% dos homens e 11% das mulheres admitiram ter traído o cônjuge pelo menos uma vez. No Brasil, um número interessante é fornecido pela agência de casamentos Happy End. Vinte e dois por cento das mulheres e 3% dos homens que buscam uma segunda união apontaram a infidelidade como motivo de separação do primeiro parceiro. Numa pesquisa recente sobre adultério, feita pela revista Newsweek, 70% das pessoas entrevistadas disseram que um caso extraconjugal é sempre prejudicial ao casamento. 'A infidelidade sempre causa dor quando revelada', assinala o psicólogo Esdras Vasconcellos. 'Mas um casal bem estruturado pode assimilar uma escapada eventual de um dos parceiros.' Nesses casos, passado o susto, a parte traída faz um balanço do relacionamento antes de bater ou não em retirada. A advogada Eileen McGann, mulher de Dick Morris, ex-assessor do presidente Bill Clinton, decidiu ficar ao lado do marido mesmo depois de saber que ele fazia hora extra com uma prostituta. 'Foi terrível, mas não posso deixar de uma hora para outra uma pessoa que é o meu melhor amigo há vinte anos', raciocinou Eileen. Vingança Quem disse que intelectuais estão a salvo dos baixos instintos? Trocada por uma mulher mais jovem, depois de dezoito anos de casamento com o escritor Philip Roth, a atriz Claire Bloom vingou-se com um livro de memórias, recém-lançado nos Estados Unidos. Uma amostra do inferno: Roth a ameaçava por meio de bilhetinhos, cantou a melhor amiga de sua filha e sofreu uma espécie de regressão por ocasião da morte da mãe. Roth também foi mesquinho na separação. Pediu de volta todos os presentes que havia dado a ela e cobrou 150 dólares por hora que passou ao lado da atriz repassando seus scripts. Guerra total Woody Allen, o noivo neurótico, e Mia Farrow, a noiva nervosa, nunca se casaram no papel e durante anos viveram em casas separadas, para evitar o desgaste do cotidiano. Não funcionou. Allen trocou Mia por Soon-Yi, filha adotiva da atriz. Na guerra que se seguiu à revelação do romance quase incestuoso, Mia acusou Woody de molestar sexualmente sua filha menor. Woody rebateu, acusando a ex-mulher de dar uma cadeirada em Soon-Yi. A idéia de que nova-iorquinos famosos e descolados seriam diferentes dos casais comuns ruiu para sempre. |
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