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23 de outubro de 1996
Rolando na cama

Seu casamento anda um tanto
aborrecido? Existe um consolo: todo
mundo enfrenta a mesma batalha

A comédia da vida privada costuma não ter a menor graça para os protagonistas. Domingo à tarde, por exemplo, ele se senta em frente da televisão para assistir ao futebol, e ela, amuada, não pode abrir a boca. O domingão é o prefácio de uma semana que segue monocórdia. De segunda a sexta, o casal troca algumas frases burocráticas pela manhã, de preferência antes de ele pegar o jornal para ler. À noite, ela vê novela e ele ronca na poltrona. O marido faz uma observação mesquinha sobre o serviço doméstico e sua mulher recita a cantilena de que ele só sabe reclamar, jamais a elogia, sempre foi ausente e que desse jeito não dá. Na hora de dormir, cada um vira para seu lado na cama e o 'boa-noite' protocolar encerra mais um dia de matrimônio.

Quem nunca viveu uma cena similar? Talvez sirva de consolo para os casais que se identificaram com o roteiro acima saber que pelo menos uma coisa têm em comum com o presidente francês Jacques Chirac e sua mulher, Bernadette. 'O presidente não é um especialista em felicidade conjugal', suspirou madame Chirac, no final de agosto, depois de entregar, em entrevista de rádio, a rotina soporífera que divide com o marido. Monsieur Chirac não fez nenhuma declaração pública sobre o desabafo da patroa, mas é batata que, para ele, Bernadette carrega toda a culpa pela chatice que tomou conta da sua vida conjugal. Não tem jeito: em matéria de casamento, o inferno é sempre o outro.

Acontece nos melhores contos de fadas, como atestam imbróglios recentes de gente famosa, do burguês casal Chirac aos moderninhos Mick Jagger e Jerry Hall. Fatalmente chega um dia em que se descobre que a pessoa que dorme no travesseiro vizinho, por quem o coração batia forte, se transformou num hábito - uma constatação que costuma ser dolorosa entre as classes mais favorecidas da sociedade ocidental, na qual se desenvolveu, em termos historicamente recentes, a associação entre casamento e amor ou, mais arriscado ainda, paixão. Quando os cônjuges são maduros, se admiram, se respeitam e se sentem razoavelmente atraídos um pelo outro, conseguem entender que há compensações muito boas na estabilidade. 'A crise é um estalo de intolerância. Mas, quando você gosta da pessoa, a tolerância é maior', atesta o ator Tarcísio Meira, protagonista de um dos casamentos mais estáveis do mundo artístico brasileiro - 33 anos de união com a atriz Glória Menezes.
 
Ponto enigmático - É comum, porém, a expectativa ansiosa pela excitação sentimental - surge daí a frustração com o casamento, que existe para fornecer rotina, uma base sólida para a criação dos filhos e a manutenção da família, e não aventura. Todo mundo já viu a cena na mesa ao lado, no restaurante: o homem, carrancudo, diz uma frase a cada dez minutos. A mulher olha sonhadora para um ponto enigmático no horizonte. Eles se acostumaram, é o que parece. O que muda depois disso? Para a maioria dos casais nada, já que, no Brasil, estima-se que só 20% dos casamentos acabam em divórcio, uma mixaria quando comparado ao campeão mundial, os Estados Unidos, com um índice próximo aos 50%. As estatísticas não registram o que acontece com os 80% restantes, mas uma pista é fornecida por terapeutas de casais e estudiosos da vida conjugal. Os especialistas constatam que boa parte dos casais renitentes empurra a realidade com a barriga (cada vez mais proeminente, no caso dos maridos), acomodando-se numa situação em que o tédio não é somente conseqüência da inexorabilidade do tempo e dos aborrecimentos cotidianos, mas uma saída para as sucessivas crises que costumam pontuar um casamento. 'No fundo, o tédio de que tantos casais reclamam é fruto de uma espécie de desidratação emocional', analisa o psicólogo Esdras Vasconcellos. 'Para não entrar em conflito com o parceiro, e assim comprometer o já precário equilíbrio do casamento, as pessoas enveredam por um cotidiano morno, sem novidades, questionamentos, mas repleto de pequenas cismas.'
 
Salada e feijoada - Quando os sentimentos mais profundos não são colocados em pratos limpos, quando não se discute a relação (o que elas adoram fazer, é verdade, e eles abominam), as picuinhas do dia-a-dia assumem uma dimensão maior do que a desejável. Acabam por transformar-se em um ritual que só reafirma o tédio ou alimenta o poço dos ressentimentos. Terapeuta de casais há 25 anos e autora de três livros sobre relações familiares, Magdalena Ramos ainda se surpreende com a capacidade de homens e mulheres suportarem o sofrimento causado por uma vida conjugal destituída de diálogo, marcada pelo marasmo ou infernizada por rusgas sem importância. 'Muitos sustentam um casamento ruim por anos a fio porque têm medo de falar sobre o que está errado de verdade', afirma Magdalena. 'Acham que, se discutirem os problemas de relacionamento, o casamento acaba.'

As pessoas talvez façam isso não por insensibilidade ou deficiência emocional - mas talvez porque reconhecem justamente a importância do casamento na organização da sociedade e de suas próprias vidas. A relação estável, de preferência monogâmica, não é a única forma de convivência entre os sexos, mas está sacramentada como a mais conveniente. Leis, religiões e a moral convencional estimulam o casamento e punem o adultério. Esse arranjo, no entanto, tem um aspecto muito realista, como as dietas alimentares. Bom para a saúde é a combinação de grelhados com salada e grãos integrais, mas sonha-se secretamente com a saciedade da feijoada e do chocolate.
 
Imagem idealizada - Só a experiência parece ser capaz de demonstrar que o casamento não é, nem pode ser, um eterno banquete. Os especialistas em mazelas matrimoniais observam que a maioria dos pombinhos toma um susto com o que se segue à lua-de-mel, não importa quão longo tenha sido o namoro ou detalhado o cursinho pré-nupcial. 'As pessoas têm uma visão limitada do casamento', teoriza a sexóloga Maria Helena Matarazzo, autora de Encontros, Desencontros & Reencontros. 'Elas planejam tudo nos mínimos detalhes até a cerimônia e não se informam do que as aguarda depois.'

Na tentativa de salvar suas ilusões pré-matrimoniais, é comum que marido e mulher insistam em preservar uma imagem idealizada do parceiro, construída nos tempos de namoro. Essa imagem, claro, não resiste aos embates do dia-a-dia e ao inelutável ocaso da paixão. Daí nasce, cedo ou tarde, a desilusão. 'É imaturidade querer manter num casamento as expectativas da época de namoro, querer viver como num filme ou romance de amor', diz a psicanalista Carmen Da Poian. 'As expectativas devem mudar com a convivência e a partir dos dados oferecidos pela realidade.' Qual o mais elementar desses dados? A volúpia do sexo sinfônico e eletrizante, como vivido nos primeiros tempos, está fadada a desaparecer da maioria dos casamentos. A boa notícia é que as pessoas podem viver perfeitamente sem sessões intermináveis de puxa-estica-torce-e-amassa. Maridos e mulheres fiéis são aqueles que, colocados diante da opção, escolhem a estabilidade. Infiéis são os que, por falta de um elemento mais forte que os mantenha atados ao parceiro, cedem ao impulso da curiosidade (veja quadro na pág. 67).
 
Reengenharia - Se a esta altura você já se pergunta se o seu casamento acabou, das duas, uma: ou ele realmente chegou ao fim, e você só está adiando a hora de decretar a falência da instituição, ou então está na hora de encontrar uma maneira de salvá-lo. Salvar o casamento é uma atividade de risco à qual se dedicam mais e mais casais. O resultado nem sempre é bom, mas a iniciativa rende, no mínimo, aquela desculpa final de que 'eu pelo menos tentei'. Ao procurar profissionais especializados em convencer de que nada é melhor do que o casamento - excetuando-se alguns direitos humanos, lembraria um solteiro convicto, como a liberdade de ir e vir, o cardápio sexual variado e uma casa todinha sua -, os casais empenhados em fortalecer sua união ouvem basicamente duas frases. Uma de conotação religiosa e outra baseada numa perspectiva, por assim dizer, neoliberal. A primeira: o casamento (assim como a fé) é uma flor que se deve regar todos os dias. A segunda: o casamento é um contrato cujas bases devem ser renegociadas periodicamente.

Não importa a forma, o conteúdo é o mesmo - casamento feliz é obra de reengenharia constante. 'Para fugir do tédio e manter o interesse pelo parceiro, deve-se fazer planos e renovar projetos comuns', aconselha Carmen Da Poian. Os velhos truques sobre como manter 'acesa a chama' do sexo e da sedução andam fora de moda. Numa época em que os homens sonham com as acrobacias de Sharon Stone e as mulheres suspiram por Antonio Banderas, é difícil imaginar técnicas que façam um marido se lançar sobre a companheira de jornada com beijos molhados e respiração ofegante ou a esposa ouvir, maravilhada, mais uma história sobre a fascinante performance dele no escritório de contabilidade.

Os conselhos dos especialistas são mais pé no chão: uma reforma na casa, uma viagem ao exterior e até mesmo obrigar-se a sair regularmente com amigos. Recuperar a delicadeza perdida também é fundamental. 'Para uma boa convivência, os dois têm de ser delicados. Se não houver educação - o que nada tem a ver com segurar os talheres da maneira certa -, não funciona', diz a colunista social Danuza Leão, que já foi casada três vezes e está solteira há 'uns vinte anos'. Para Danuza, que volta e meia aborda em suas crônicas as vantagens e as desgraças da vida a dois, uma das grandes dificuldades do casamento é sincronizar as vontades. 'É um tormento quando um quer ir ao cinema e o outro quer ficar em casa; quando um quer ver televisão e o outro, ouvir música; quando um quer dormir e o outro, transar', enumera. Sincronizar as vontades exige que os dois aprendam a ceder, sem que isso configure uma derrota. 'O segredo é ser paciente e tolerante', resume Danuza.
 
Agenda carregada - 'Um bom casamento exige esforço, trabalho e empenho', diz a psicóloga Margareth de Mello Ferreira. Parece até placa de campo de concentração, mas não dá para deixar de suar a camisa. Uma pesquisa publicada nos Estados Unidos, com 243 casais na faixa dos 40 anos e treze anos de casados, relacionou as cinco estratégias mais utilizadas para manter uma união de pé. São elas: mimar o parceiro de vez em quando com presentes inesperados, conversar sobre o relacionamento, dividir as tarefas domésticas, realizar atividades conjuntas, fazer planos para o futuro.

Essa agenda carregada garante algumas horas extras de felicidade conjugal. Mas o que, exatamente, é isso? Num questionário elaborado pela agência matrimonial Happy End, de São Paulo, homens e mulheres dispostos a reincidir no casamento, depois de uma tentativa fracassada, disseram o que gostariam de encontrar no novo parceiro. Como era previsível, as respostas retrataram o abismo de expectativas entre os dois sexos. Eles desejam uma mulher que seja independente, goste de cozinhar, cuide bem do marido, participe dos problemas e lhes dê liberdade. Elas, por sua vez, querem um marido romântico, organizado, que não descuide da aparência, que aprecie sair e valorize a relação. Evidentemente, todos tomaram por base o que não tiveram do companheiro de primeira jornada matrimonial.
 
Livros-caixas - Achar um ponto de equilíbrio para aspirações tão diferentes requer não só força de vontade como criatividade. Cada casal tem sua própria lógica interna, que não raro é estranha para quem está de fora. Roberto Henrique Barreiro da Silva, de 40 anos, e Elyana Louro de Almeida, de 34, estão no mesmo barco há dezesseis anos e têm três filhos adolescentes. Eles se consideram felizes, confiam um no outro, mas mantêm um arranjo excêntrico no que se refere às finanças, um ponto sensível da vida conjugal: registram tudo o que gastam e o que pertence a cada um em livros-caixas. A idéia surgiu logo depois que começaram a morar juntos. 'Se o casamento também pode ser interpretado como um negócio, então é preciso contabilizar tintim por tintim custos e benefícios', justifica Roberto. 'Além disso, em caso de separação, fica mais fácil na hora de dividir os bens.' Pelo jeito, está sendo um ótimo negócio para ambos - até hoje, eles já preencheram quinze livros-caixas. 'Sugiro que todos os casais adotem o sistema para evitar brigas. Só não aconselho isso a quem gosta de pular a cerca: a pessoa seria obrigada a ter um caixa dois', brinca Elyana.

Pular a cerca, mas não no sentido bíblico, é o que fazem Zulmira, de 48 anos, e Paulo Sérgio Sommer, de 51, quando a barra pesa. Depois de um rompimento que durou seis meses, os dois se reconciliaram. Mas nunca mais voltaram a dividir o mesmo teto, embora se considerem casados de fato, além de o ser no papel. Sommer mora a um quarteirão de Zulmira, em Porto Alegre - uma distância razoavelmente prudente. Casas separadas foi a maneira que acharam para espantar o tédio e evitar as briguinhas que minam os relacionamentos. 'Nós nos encontramos só quando estamos maravilhosos, cheirosos, de ginástica feita', conta Zulmira. 'E eu posso me esparramar pela cama, sem pedir licença a ela', completa Sommer, que dá expediente de marido até a hora em que ela pega no sono. 'Gosto de dormir com ele ali do meu lado, vendo TV. Não sei explicar direito por quê. Mas gosto de acordar sem ninguém do meu lado', diz Zulmira.
 
Empadinhas - Saídas originais atenuam aspectos negativos da vida prática, o que não é pouco, mas não implicam uma menor demanda emocional das partes envolvidas. Manter um casamento em condições ideais de temperatura e pressão representa um esforço monumental. Objetivos alcançados, o balanço é sempre positivo, de qualquer ponto de vista. A paixão pode arrefecer, mas sobram a amizade, a confiança, uma história comum (sem contar que pessoas solteiras, especialmente homens, têm expectativa de vida menor que as casadas). O sexo garantido pode não ser dos mais quentes, mas significa um porto seguro, especialmente nestes tempos perigosos de Aids. 'O casamento oferece abrigo existencial e ainda é a melhor oficina para o aprimoramento da personalidade', diz o psicólogo Esdras Vasconcellos.

Salustio Motta, de 79 anos, e Mary Nazaré Vieira Motta, de 68, são uma prova de que essa oficina produz resultados que valem a pena. Na semana passada, eles comemoraram cinqüenta anos de união, no Rio de Janeiro, cercados de filhos e netos. Os dois enfrentaram todo tipo de adversidade, tiveram lá suas brigas, mas chegam às bodas de ouro com uma conclusão definitiva. 'O bom do casamento é ter alguém com quem conversar e dividir os problemas', diz Salustio, que há pouco tempo deu a melhor demonstração de amor a sua mulher - empadinhas. 'Na medida do possível, sempre fiz as vontades dela. Outro dia, a Mary disse que estava com vontade de comer empadinha de palmito. Sei que ela adora as empadinhas de uma loja em Ipanema. Saí, peguei um ônibus e trouxe as empadinhas para ela. Fiquei tão feliz em vê-la comendo. Até mais feliz do que ela', lembra Salustio. Quantos casamentos não seriam salvos por um gesto tão simples de generosidade e afeto?


Corrida de obstáculos

As etapas do casamento que nem
todos conguem - ou querem - superar

1º ano - Os pombinhos contam as horas para voltar a seu ninho, e a vida sexual é intensíssima. Para os casais mais jovens, no entando, essa face de encantamento costuma acabar por volta dos quatro meses de união. Como em geral ganham pouco e dependem dos pais para bancar parte das despesas, as contas mensais tornam-se motivo de ansiedade e discussão

2º ano - Para muitos homens e mulheres que enfrentam problemas conjugais desde o início do casamento, completar um ano juntos é questão de honra. Sob os eflúvios das bodas de papel, eles vivem seis meses de calmaria, até que as desavenças voltam toda a força. Ultrapassar o segundo ano de casamento pode ser um objetivo inatingível

4º ano - A barra pesa porque, ao arrefecimento da paixão, somam-se o nascimento do primeiro filho, que desbanca o marido como centro das atenções da mulher, e a rotina desgastante. Surgem o que especialistas chamam de "ataques de individualidade". A frase mais ouvida nesse período é "Somos mesmo diferentes em tudo"

7º ano - A famosa crise dos sete anos é detonada pelos ressentimentos acumulados ao longo do tempo, que finalmente vêm à tona, e pela frustação das expectativas em relação ao parceiro. O tédio do dia-a-dia torna-se pesadíssimo para ambos. O terreno está fértil para que brote uma paixão extraconjugal

15º ano - É o momento em que marido e mulher fazem um balanço da vida a dois. Na virada dos 40, eles olham o passado com a sensação de que desperdiçaram seus melhores anos e vislumbram o futuro com angústia. A estrada comum pode encontrar uma bifurcação e cada um seguir para seu lado

25º ano - A meia-idade é um fardo, as perspectivas de mudança são praticamente nulas e os filhos já saíram de casa. Não é raro que marido e mulher se observem como dois estranhos. A frase que lhes vem à mente é: "Mas eu não me casei com essa pessoa". As picuinhas costumam crescer em progressão geométrica


À francesa

A cena de cooperação conjugal aí ao lado é puro marketing. Na vida real, o presidente francês Jacques Chirac é o protótipo do marido convencional - daqueles que jamais pilotariam um fogão para fazer um agrado à patroa. Ele não valoriza o trabalho de dona de casa e está sempre pronto a criticar a maneira como sua mulher, Bernadette, conduz os assuntos domésticos. Para conversar com o marido sempre ocupado, Bernadette tem de aproveitar a hora em que ele está fazendo a barba. Aos domingos, ela não pode dar um pio enquanto Chirac assiste ao futebol.

Pragmáticos

Muita gente se espantou quando o ator Hugh Grant, casado com a modelo Elizabeth Hurley, foi procurar os serviços da prostituta Divine Brown. Apesar do escândalo, Elizabeth não abandonou o barco, mostrando que seu casamento é sólido como a evolução da conta bancária de ambos. A parceria de Grant e Elizabeth ultrapassa o leito conjugal - e isso fortalece o amor. Ele a ajudou a subir na vida, ela serve de cartão de visitas para Grant, e os dois fundaram uma produtora de cinema. Útil e agradável.

Supernamoro

Depois de sessenta anos de namoro, a repórter Lois Lane e o Super-Homem juntaram os trapinhos. Devem ter tido tempo de sobra para se conhecer e discutir a relação, como recomendam os especialistas. Mas nem isso é garantia de um final feliz. Não há notícia de herói casado - com exceção do grego Ulisses, que arranjou uma odisséia para se manter longe de sua mulher, a carente Penélope. Em geral, heróis costumam ser onipotentes, gostam de bancar os provedores, o que não combina com uma mulher dinâmica como Lois.

O sovina

O pragmatismo americano continua surpreendendo quem tem noções românticas sobre o casamento. O encanto chique do enlace de John Kennedy Jr. e Carolyn Bessette não impediu que os dois firmassem um pacto pré-nupcial, seguindo o exemplo precursor de mamãe Jacqueline e Aristóteles Onassis. Carolyn levará 2 milhões de dólares se uma hipotética separação ocorrer entre o terceiro e o décimo ano de casamento. Depois de dez anos, a quantia sobe para 3 milhões. Como é dono de uma fortuna de 33 milhões de dólares, conclui-se que o homem mais sexy do mundo fez como muitos maridos carecas e barrigudos: bancou o sovina.

Nada fácil

A modelo Jerry Hall bem que tentou seguir as fórmulas fáceis para salvar seu casamento com Mick Jagger, líder dos Rolling Stones (muitos filhos, ginástica à beça, roupas sensuais). Não adiantou. Constantemente informada - pelos jornais - de que seu marido se engraçara com essa e aquela beldade, ela se cansou. A gota d’água foi a modelo checa Jana Rajlich, com quem Jagger passou uma longa noite. Para levar metade da fortuna de Jagger, Jerry teria buscado a orientação do advogado que cuida dos interesses da princesa Diana.


Lista de casamento

As reclamações mais freqüentes de maridos e mulheres

 Ele odeia quando ela:
 • não prega os botões de suas camisas
 • passa horas ao telefone
 • quer ir ao cinema no domingo à tarde
 • o obriga a ir ao supermercado
 • demora na escolha da roupa para sair
 • acha que o dinheiro dele é dos dois e o dela, só dela
 • ataca sua família porque ele brigou com a sogra
 • grita com as crianças
 • o acusa de ser um pai ausente
 • quer discutir a relação

 Ela odeia quando ele:
 • deixa a toalha molhada em cima da cama
 • acha que fez muito ao enxugar a louça do jantar
 • passa a tarde de domingo vendo futebol
 • reclama que ela está gastando demais
 • banca o co-piloto quando ela está dirigindo
 • convida alguém para jantar sem avisá-la
 • quer resolver os problemas profissionais dela
 • grita com as crianças
 • não avisa onde está
 • se recusa a discutir a relação

O fascínio e o risco da traição

Ao se casar com a princesa Stéphanie, de Mônaco, o ex-guarda-costas Daniel Ducruet conquistou, além de uma das mais belas mulheres da Europa, o direito de levar um vidão. Festas elegantes, férias em cenários paradisíacos, uma conta bancária polpuda - tudo contribuía para que o tédio conjugal fosse um fantasma pequeno-burguês a milhões de dólares de distância. Mas Ducruet jogou tudo fora, ao ser flagrado com a dançarina Fili Houteman. Apesar das fotos comprometedoras, publicadas em revistas italianas, o ex-guarda-costas tentou seguir o conselho do poeta romano Ovídio aos maridos infiéis - negar, negar sempre. Acuado, Ducruet disse a Stéphanie que as fotos eram anteriores ao casamento. A princesa fez força para cair na esparrela, mas as revistas estamparam outra batelada de fotos, destacando a prova do crime: a aliança de casamento pousada sobre a coxa direita de Fili. O divórcio foi sumário.

Por que alguém aparentemente satisfeito no plano conjugal, como Ducruet ou o ator Hugh Grant, marido da esplendorosa modelo e atriz Elizabeth Hurley, cai na tentação? Para biólogos que estudam o assunto, a compulsão de trair, ou a negação da monogamia, é fruto do determinismo genético. Segundo esses pesquisadores, movidos pelo instinto de perpetuar a espécie, alimentado pela incontinência hormonal, os machos humanos teriam necessidade de distribuir seus genes entre um grande número de parceiras. Já as fêmeas, ao ciscar na área de outro espécime, visariam encontrar um reprodutor de melhor qualidade. Pode até fazer sentido no laboratório, mas numa crise conjugal é prudente não sacar da cartola essa justificativa científica.
 
'Romance e paixão' - Mais fácil é constatar que um casamento monótono, com déficit de felicidade e superávit de dificuldades, costuma ser a principal causa para a infidelidade, tanto de homens como de mulheres. É a velha história: eles querem mais sexo e elas, mais romance. Terapeutas conjugais afirmam que, ao trair, homens e mulheres buscam acima de tudo experimentar fantasias difíceis de ser vividas nos arredores do leito conjugal. 'Não posso negar que estou interessada em ter fora de casa o que o meu marido não me dá na cama, mas não é só isso. Preciso de alguém para conversar, trocar idéias, um pouco de romance e paixão', diz a paulista M.N., casada há 22 anos, que está vivendo seu segundo caso extraconjugal.

A arte de pular a cerca, no entanto, continua a ser predominantemente masculina, como qualquer uma sabe. Numa sondagem realizada nos Estados Unidos em 1994, 21% dos homens e 11% das mulheres admitiram ter traído o cônjuge pelo menos uma vez. No Brasil, um número interessante é fornecido pela agência de casamentos Happy End. Vinte e dois por cento das mulheres e 3% dos homens que buscam uma segunda união apontaram a infidelidade como motivo de separação do primeiro parceiro.

Numa pesquisa recente sobre adultério, feita pela revista Newsweek, 70% das pessoas entrevistadas disseram que um caso extraconjugal é sempre prejudicial ao casamento. 'A infidelidade sempre causa dor quando revelada', assinala o psicólogo Esdras Vasconcellos. 'Mas um casal bem estruturado pode assimilar uma escapada eventual de um dos parceiros.' Nesses casos, passado o susto, a parte traída faz um balanço do relacionamento antes de bater ou não em retirada. A advogada Eileen McGann, mulher de Dick Morris, ex-assessor do presidente Bill Clinton, decidiu ficar ao lado do marido mesmo depois de saber que ele fazia hora extra com uma prostituta. 'Foi terrível, mas não posso deixar de uma hora para outra uma pessoa que é o meu melhor amigo há vinte anos', raciocinou Eileen.
 
Suadouro -
É comum ouvir que um affair extraconjugal pode servir para esquentar um casamento morno. Trata-se de um argumento discutível, mas não há dúvida de que viver perigosamente dá um suadouro danado. O empresário paulista R.S., de 44 anos, vive um cotidiano estressante pelo fato de ter mulher, amante fixa e diversas aventuras passageiras. 'Passo o dia pensando nas mentiras que tenho de contar. Minha mulher não faz marcação cerrada, mas às vezes me dá indiretas. Eu sempre nego. Com a outra, é a mesma coisa. Quando conto uma mentira, fico firme. Esse é o segredo para os homens que querem trair. Manter um caixa dois também é bom para não ter de justificar os gastos. Cheguei a comemorar o aniversário da filha que tenho com minha amante no mesmo bufê infantil em que havia dado uma festa para meu filho, dias antes. Os garçons me reconheciam e perguntavam: ‘Mas não era o senhor que estava aqui na semana passada?’ E eu, com a maior cara-de-pau: ‘Quem, eu? O senhor está me confundindo com outra pessoa’.' A máxima de Ovídio resiste aos séculos.

Vingança

Quem disse que intelectuais estão a salvo dos baixos instintos? Trocada por uma mulher mais jovem, depois de dezoito anos de casamento com o escritor Philip Roth, a atriz Claire Bloom vingou-se com um livro de memórias, recém-lançado nos Estados Unidos. Uma amostra do inferno: Roth a ameaçava por meio de bilhetinhos, cantou a melhor amiga de sua filha e sofreu uma espécie de regressão por ocasião da morte da mãe. Roth também foi mesquinho na separação. Pediu de volta todos os presentes que havia dado a ela e cobrou 150 dólares por hora que passou ao lado da atriz repassando seus scripts.

Guerra total

Woody Allen, o noivo neurótico, e Mia Farrow, a noiva nervosa, nunca se casaram no papel e durante anos viveram em casas separadas, para evitar o desgaste do cotidiano. Não funcionou. Allen trocou Mia por Soon-Yi, filha adotiva da atriz. Na guerra que se seguiu à revelação do romance quase incestuoso, Mia acusou Woody de molestar sexualmente sua filha menor. Woody rebateu, acusando a ex-mulher de dar uma cadeirada em Soon-Yi. A idéia de que nova-iorquinos famosos e descolados seriam diferentes dos casais comuns ruiu para sempre.


 
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