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Reportagens 23 de agosto de 1995A vitória sobre o espelho A conquista da beleza, que causa tanta
Liliana Gomes, 29 anos, é uma personagem de romance. Olhar atento e corpo esguio, seu trabalho é materializar os sonhos de dez entre dez adolescentes. Caça-talentos da agência Elite, Liliana coordena uma equipe de cinqüenta homens e mulheres, distribuídos pelas principais cidades do país, cuja função é passar os dias visitando portas de colégio, boates, shopping centers, academias de ginástica e praias. à espreita. Os olheiros andam pelas ruas. Medem lolitas e jovens adônis da cabeça aos pés. A tarefa é encontrar deuses e deusas da beleza, gente que se enquadre em estritos cânones estéticos, com vocação para virar top model da noite para o dia. A receita de Liliana para o sucesso é um tapa na cara das mortais. A mulher ideal, para ela, é um quebra-cabeça montado a partir daquilo que as modelos mais famosas do mundo têm de melhor em seus corpos. É demais: A altura tem de ficar entre 1,75 e 1,80 metro; os quadris, de 88 a 90 centímetros (os melhores são os de Naomi Campbell). A personalidade deve ser forte como a de Cindy Crawford; o rosto, bem proporcionado, como o de Paulina Porizkova (seu sorriso é soberbo). Para o busto, o ideal é ter as medidas entre 85 e 90 centímetros, com um formato parecido com o de Stephanie Seymour. Karen Mulder é paradigma de cintura - entre 60 e 65 centímetros. As pernas têm de ser longilíneas, de 1,10 metro, como as de Nadja Auermann, e o nariz, bem definido como o de Christy Turlington. Ah, o traseiro! Precisa ser rígido e firme como o de Naomi Campbell. É um padrão que assusta. A exigência de perfeição física para as modelos profissionais é apenas o sintoma mais visível de uma ansiedade que também massacra a mulher e o homem comuns. Para onde quer que olhe - televisão, publicidade, revistas femininas -, a pessoa vê rostos perfeitos e corpos deslumbrantes, magros nos lugares certos. Nem na rua a dona de casa pode andar em paz. Do alto dos outdoors, moças e rapazes impecáveis estão olhando para ela. Pouco a pouco, cria-se um sentimento de insatisfação com o próprio corpo. Quando não é o cabelo que é ralo demais, é o nariz de batatinha, são as coxas balofas, ou os seios (pequenos ou grandes como não deveriam ser). Não espanta que 90% das mulheres e 60% dos homens brasileiros se confessem tão aborrecidos com o rosto ou o corpo que não hesitariam em recorrer a uma cirurgia embelezadora. No ramo da cirurgia plástica, que nos últimos quinze anos deixou de ser privilégio de artistas e socialites para entrar no horizonte da classe média, ocorreu uma explosão de igual magnitude. Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Munir Curi, 100 000 cirurgias plásticas são feitas anualmente no país, das quais 80 000 com função puramente estética. Esse número representa um aumento de 100% em relação à média de dez anos atrás. E, com o progresso das técnicas, o preço caiu bastante. Curi calcula que o Brasil tenha cerca de 5 000 cirurgiões plásticos. Eram apenas 1 000 há dez anos. Com tantos recursos ao alcance da mão (ou do bolso), nunca a medicina e a cosmética puderam tanto e, por isso, nunca a beleza foi tão imperativa quanto é hoje - é obrigatório ser lindo, magro, saudável. Não dá mais para simplesmente culpar uma má herança genética quando se trata de estética corporal ou facial. Antes, era até fácil. Ou se nascia com o corpo então considerado estonteante de uma Marilyn Monroe, ou paciência. Pouco havia a fazer. Hoje não. Para tudo tem cura, remédio, consolo, ou pelo menos uma maneira de oferecer esperança de progresso. A gordura, a flacidez, a papada no queixo, a calvície, até os cabelos brancos - tudo isso virou uma espécie de vergonha para o portador. Os padrões estéticos tornaram-se tão rígidos que mesmo ídolos do passado já podem ser criticados. O corpo da própria Marilyn, uma coisa admirável em qualquer época, já mereceria um ou outro retoque hoje em dia. Marilyn Monroe tinha "apenas" 1,67 metro de altura. A modelo Cindy Crawford tem 1,77. Marilyn era naturalmente bem-feita, mas, numa época em que as pessoas não faziam ginástica, tinha as carnes macias demais para o cânone atual. Perto do rei da pancadaria kickboxe, Jean-Claude Van Damme, os super-heróis do passado (veja quadro à pág. 74) são lesmas gordas - quase beirando o ridículo. Por que tal obsessão pela beleza nos dias que correm? A solução: cortar o mal pela barriga. Em janeiro deste ano, pesando 90 quilos - 25 acima de seu peso atual -, achando-se feia e deselegante, ela se submeteu a uma plástica para retirar 2,6 quilos de gordura acumulados no abdômen. "Coloquei toda a minha esperança na operação", afirma. Teresa nasceu de novo. "Logo que acordei da anestesia, eu me senti diferente. Ainda na clínica, quando entrei numa cinta modeladora tamanho 44, foi uma realização", diz ela, que, com apenas 1,62 metro, chegou a usar roupas de manequim 50 antes da cirurgia. O visual pós-operatório foi complementado por um corte nos cabelos, que ficaram mais curtos, modernos e ainda ganharam uma coloração ruiva. "Passei a me olhar no espelho com prazer e todo mundo fala que estou ótima. Só recebo elogios", diz. Com o incentivo, a advogada passou até a usar biquíni. O ex-marido casou de novo, mas Teresa não se abala. "Estou começando a ver que ele não é o único homem", diz. O segundo ponto a explicar por que a beleza virou obsessão é o medo do envelhecimento, tanto mais forte quanto mais cresce a expectativa de vida. Um cidadão de classe média que hoje tenha 20 anos viverá em média vinte anos a mais do que seus avós, e é natural que espere fazê-lo com certa graça. "Não quero representar o velho rejeitado. A sociedade brasileira é má, é pérfida. O velho aqui é rechaçado", diz o médico paulista Carlos Canova, de 62 anos, adepto do tingimento capilar para disfarçar a idade. "O cabelo branco não significa falta de saúde, mas é visto como sinal de que a senilidade está próxima, quando não já instalada", explica o médico. Há dois anos, ele tinge de castanho-médio algumas mechas de seus cabelos num salão de beleza paulistano. "Não faço isso para o meu bem-estar. Apenas represento um papel." Por trinta minutos, o médico coloca uma touca de borracha perfurada com alguns tufos de cabelo à mostra, tingidos pacientemente de cor castanha. Ao seu lado, um jovem senhor colore os pêlos do peito, enquanto outro, de bobs na cabeça, faz cachinhos nas madeixas. Há quem depile o peito, também. O modelo Douglas Roque, de 24 anos, faz esse tipo curioso de faxina, com ajuda de cera fria. "Na hora de arrancar os pêlos dá uma dor danada, mas as mulheres preferem os homens sem pêlos", explica o rapaz, deitado no salão de beleza, enquanto uma profissional arranca a floresta que ele tem no peito. Vai longe o tempo em que o homem que cuidava da aparência com esse empenho provocava suspeitas sobre sua sexualidade. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, o público barbado saltou de apenas 8% nas clínicas especializadas para 30% nos últimos dez anos. Nas academias de ginástica, calcula-se, 40% dos que procuram um físico mais bem torneado são homens, contra 60% de mulheres. O terceiro motivo de procura da beleza é que as empresas não hesitam em preterir o feio em benefício do bonito. "Uma pessoa com aparência mais próxima do padrão de beleza demonstra que é empenhada. É gente que malha, faz ginástica ou regime. Quem se esforça desse jeito deve ser recompensado com a contratação porque tem força de vontade e determinação", justifica Thomas Case, presidente da consultoria de recursos humanos Grupo Catho, de São Paulo. Os feios, ou simplesmente fora do padrão, que se acautelem - a discriminação é pesada, e já surgem até empresas especializadas em procurar executivos e gerentes competentes e belos. Candidato a uma vaga de gerente financeiro, não ficou mais do que duas semanas sem emprego. Logo conquistou um. "Ele tinha um perfil técnico adequado e é muito bonito", diz a headhunter Efigênia. O oposto é um executivo que acaba de entregar seu currículo, cujo nome ela prefere manter em sigilo. Também candidato a uma vaga de executivo financeiro, chegou à Quatre mal-arrumado, com certo odor na camisa, que ainda por cima estava aberta nos botões superiores. Os cabelos eram malcuidados. "A aparência depõe contra ele", acredita Efigênia. A Localiza, de aluguel de automóveis, é uma das empresas mineiras que deixam claro que se preocupam com aparência e beleza. "A pessoa que cuida bem de sua imagem transfere isso para outros aspectos da vida", depõe Hélvia Barcelos, gerente de recursos humanos. "Ela acaba cuidando bem também dos negócios da empresa", sentencia. Na grande maioria das empresas, não há normas tão específicas para o momento da contratação. Mas a experiência mostra que, mesmo inconscientemente, os encarregados de departamento de pessoal não querem saber de gente com ar envelhecido, desprezam os que aparecem mal vestidos e olham criticamente barriga acentuada e rosto em forma de lua. Atenção: o cabelo emite fortíssimas mensagens em código. Aquele penteado à vontade, do tipo "acabei de sair do banho", é ponto contra. Falta de maquilagem - ou excesso de maquilagem -, nem pensar. Nada há de inédito nessa teia de regras. Normas de comportamento, mais e menos explícitas, existem em todas as sociedades e até em subgrupos. Experimente a mulher ir a uma reunião do PT de salto alto e unhas pintadas de vermelho. Ou então tente o homem comparecer a um encontro de pastores evangélicos com um belo rabo-de-cavalo e uma barbicha petista. São coisas inaceitáveis nesses dois tabernáculos, porque há regras não declaradas mas rígidas para o comportamento da comunidade. A exigência de saúde e beleza, com todos os exageros que existem, tem pelo menos a vantagem de estar associada a práticas como ginástica, boa alimentação e auto-estima. Evita-se o enfarte e prolonga-se a expectativa de vida. Nos anos 50, as rainhas do lar eram socialmente pressionadas a se interessar por eletrodomésticos e a trocar receitas culinárias. Ah, aquele tempo dá saudade em muitas matronas. Até o marido esperava que a mulher entalasse na porta depois do terceiro filho. Mas, sabendo fazer doce de abóbora, tudo bem. Essa receita de mulher entrou em recesso com as novas exigências do mercado de trabalho e foi substituída pela mística da juventude. Hoje, as mulheres com obrigação profissional de ser referência para a multidão, como a cantora Madonna e a atriz Demi Moore, têm treinadores particulares para três ou quatro horas de ginástica por dia. E passam por uma revisão no cirurgião plástico a cada 10 000 quilômetros rodados. Em filmes como Proposta Indecente e Assédio Sexual, Demi Moore exibe curvas e seios que devem muito mais ao bisturi do que à genética. Esses são casos especiais. Demi Moore defende milhões de dólares com sua aparência. Tônia Carrero quer continuar no palco e na televisão. E Michael Jackson é maluco. O normal é usar as cirurgias e demais tratamentos com moderação - e é isso que está acontecendo de maneira crescente, também no Brasil. Mulheres em número cada vez maior estão fazendo lipoaspiração para tirar o excesso de gordura dos quadris, coxas, barriga ou pescoço. É também uma arma eficaz contra o queixo duplo, um caso em que a batalha na clínica custa 1 000 reais. Faz-se na sexta-feira e volta-se ao trabalho na segunda. Outro procedimento corriqueiro, a redução e o aumento de busto progrediram muito nos últimos anos. As cicatrizes, que já foram em forma de T ou L e de mais de 10 centímetros, hoje não chegam a 5 centímetros. Para aumentar os seios, os europeus já usam rotineiramente o implante de gordura retirada de outra parte do corpo, mas no Brasil ainda é comum a prótese de silicone, que costuma dar problemas com certa freqüência. E agora a boa notícia: o preço das cirurgias plásticas caiu muito, o de algumas para um terço do que os médicos cobravam poucos anos atrás. Corta-se menos, muitas operações deixaram de exigir anestesia geral, outras simplesmente foram transferidas do hospital para o consultório. Até uma cirurgia mais delicada como a que é feita para o levantamento de face, ou lifting, teve seu preço reduzido de cerca de 8 000 para 4 000 ou 5 000 reais. É uma operação indicada para rugas, vincos e flacidez, feita com um grande corte que vai do alto da testa (na linha do cabelo) até as orelhas e termina no lóbulo. Durante duas horas e meia, o médico descola a pele, tira um pedaço dela, raspa os músculos, posiciona a pele de volta e costura. Um dos problemas da cirurgia plástica, além dos casos de incompetência pura e simples dos médicos, é que muita gente coloca esperanças excessivas nessa operação. Estica-se a pele, mas ela continua obviamente a envelhecer e a cair. As operações consecutivas a que algumas mulheres se submetem podem deixar o rosto com aparência artificial. E, é claro, ninguém se engana muito com uma senhora de rosto liso como um pandeiro, mas com olhos baços, mãos enrugadas e andar vacilante. Mas essa é uma questão de sensatez e fica por conta do equilíbrio de cada pessoa. O problema mesmo é a incompetência médica. Numa área que mexe com a aparência das pessoas, alterando-a, a coisa pode adquirir contornos dramáticos. Sônia Guerreiro, ex-modelo e ex-acompanhante do rei da soja e empreiteiro Olacyr de Moraes, também foi vítima de erro médico. Ela sempre quis reduzir seus quadris, de 90 centímetros, a medida padrão para as modelos internacionais. "Como eu não tenho seios muito fartos, os quadris aparecem demais, o que me incomoda bastante", comenta. Quatro anos de musculação (com ênfase nos exercícios de peito), aeróbica (contra a gordura localizada nos quadris) e uma rigorosa dieta alimentar não lhe bastaram. Sônia decidiu tentar a lipoaspiração, apesar da negativa dos médicos, que consideravam seu corpo proporcional e irretocável. Acabou se dando mal. No ano passado, fez uma lipoaspiração que não deu certo e terminou em trombose. Um médico que afinal aceitou tratá-la sugou 300 gramas de suas ancas, o que lhe custou uma internação hospitalar de 25 dias. Ela não tinha tanta gordura para ser retirada. Até hoje, é obrigada a tomar anticoagulantes. Sônia continua querendo reduzir os quadris, apesar do fracasso. Partiu agora para a pressoterapia, um tratamento para gordura localizada e celulite. Coloca-se um macacão inflável feito com o mesmo náilon que reveste as roupas de pára-quedistas. Quando infla, o macacão pressiona os tecidos do corpo, ativando a circulação do sangue. Resultado da trabalheira, conforme os que a aplicam: acaba-se por eliminar excessos e toxinas pela urina. "Tenho medo de ser gorda como minha irmã", diz a ex-modelo. "Antes, ela era linda, mas depois de uma decepção amorosa engordou desenfreadamente. E quem engorda começa a deixar de ser amado." A ex de Olacyr é um caso típico de exagero causado pela ansiedade de ser fisicamente perfeita. O cabelo, que foi castanho, virou ruivo há duas semanas e já está louro. E ela toma o cuidado de repintar todos os pêlos do corpo da mesma cor que usa na cabeça. Outro recurso contra a celulite, dos mais procurados, é a eletrolipoforese. A técnica consiste em dar choques elétricos no tecido celular, estimulando a eliminação de toxinas. Costuma dar certo. A paulistana Luciana Fernandes, de 25 anos, por exemplo, livrou-se de "ondulações horrorosas" à custa de quatro sessões de eletrolipoforese. Que dói, dói. Mas, quinze dias depois da última aplicação, a jovem já podia comemorar quadris 3 centímetros menores e um culote 4 centímetros mais estreito. Na parte mais visível de toda tendência de comportamento vêem-se personalidades públicas que afinal faturam com isso, ou então as pessoas mais volúveis, ansiosas ou maníacas. Na corrida pela beleza é assim também. Mas é na parte invisível do iceberg que está a maioria dos homens e mulheres, os normais, reagindo de maneira saudável a uma nova convocação dos tempos. Corrigir um desenho grotesco do rosto com uma plástica ou remoçar dez anos na hora certa com uma lipoaspiração de meia hora são certamente providências recomendáveis. Fazer uma dieta balanceada e ativar o corpo na ginástica retarda o envelhecimento, evita doenças e combate o stress. No seu aspecto positivo, a criação de um padrão mais exigente de beleza serviu para estimular as pessoas normais a adotar hábitos muito mais adequados. Há gente que transformou isso numa segunda natureza. A empresária e colunável Montserrat Coelho, 46 anos, casada com o presidente da rede McDonald's, Gregory Ryan, fez uma pequena plástica nas pálpebras, mas é no exercício físico que mantém sua forma. Pula da cama às 7 da manhã, faz três horas de ginástica por dia, metade na sala de aparelhos e a outra metade na quadra de tênis, e depois vai para o escritório. Outra colunável, a carioca Aparecida Marinho, também malha três horas por dia. "É o tempo que tiro para mim durante o dia", diz ela. Anda na praia, pedala uma bicicleta, toma aulas de balé e faz musculação. Fugiu das festas à noite, levanta-se sempre cedo e tem respeito pelo seu organismo. Está gloriosa com seus 60 quilos socadinhos em 1,78 metro de altura. Aparecida nota que o foco das atenções físicas mudou de uma geração de colunáveis para outra. "A Carmem Mayrink Veiga diz que foi um bebê bonito, uma moça bonita e também conseguiu ser uma senhora bonita. Já eu fui um bebê saudável, uma moça saudável e quero ser uma senhora saudável." Se a tirania da beleza, mesmo criando ansiedade, serve para melhorar os padrões de vida das pessoas, então é mais inteligente contornar os excessos e aceitar com alegria tudo aquilo que ela traz de positivo. Os ganhos são óbvios. "Faria tudo outra vez" Na sala de cirurgia, o anestesista colocou Andréa Braga sentada e enfiou em suas costas uma agulha com 1 milímetro de espessura e 10 centímetros de comprimento pela qual injetou 175 miligramas de anestésico - dose capaz de deixá-la fora do ar por seis horas. Ela baqueou, mas o nervosismo era tanto que ainda conseguiu balbuciar o que ia por sua cabeça entorpecida: "Mulher sofre". O sofrimento de Andréa tinha, a seu ver, um objetivo nobre. Duas bolotas de gordura abaixo da curva da cintura estavam deformando seu invejável corpo de 60 quilos e 1,71 metro. Como não houve exercício, dieta nem creme que acabasse com o infortúnio, ela decidiu pagar 3 000 reais para submeter-se, aos 24 anos de idade, a uma lipoaspiração. "O que me anima é que, em pouco mais de uma hora, vou acabar com um problema que me importuna 24 horas por dia." A anestesia é importante para que Andréa não sinta dor. Os sedativos, fundamentais para que ela não veja e depois não se lembre da cena grotesca que é uma operação de lipoaspiração. Para que as veias se contraiam e o sangramento seja menor, o cirurgião plástico Luiz Paulo Barbosa injeta meio litro de soro fisiológico misturado com adrenalina nas partes do corpo previamente demarcadas com pincel atômico. São oitenta picadas em menos de dois minutos. O ritmo frenético não pára. Através de um corte de 1 centímetro de largura feito pouco acima do cóccix, o médico introduz uma cânula com 30 centímetros de comprimento e 4 milímetros de diâmetro, parecida com um espeto de churrasco feito de teflon. A gordura entra por um buraco na ponta e é sugada pela cânula. A sucção pode ser feita tanto por uma seringa com vácuo encaixada no final da cânula quanto por um tubo plástico ligado a um aparelho aspirador. A partir do corte no final da coluna, a cânula atinge as bolotas de gordura na lateral do corpo de Andréa. O médico empurra e puxa o espeto sem parar. "É um trabalho braçal", descreve Barbosa. Depois de quinze minutos cavoucando para a direita e para a esquerda, ele descansa. Faz outro cortezinho 15 centímetros acima e cutuca mais e mais. É preciso um pouco de força e velocidade para vencer as placas de gordura. Com a paciente virada de frente, mais meio litro de soro com adrenalina é injetado e a pele é cortada em outros dois pontos, um de cada lado da virilha. De lá, a cânula atinge a lateral do corpo, a barriga e a parte interna da coxa. Ao final de uma hora, 800 mililitros de gordura e sangue quase enchem uma bojuda garrafa de vidro ao pé da cama. Uma parte dessa mistura é peneirada e a gordura mais limpa é reinjetada na lateral do bumbum, onde, segundo o médico, Andréa tem uma depressão. Oliveira modela a pele com a mão, como se estivesse brincando de massinha. Esse processo de implante da gordura retirada da própria pessoa é chamado de lipoescultura. Terminada a cirurgia, o médico sai da sala e tira o avental. Sua camisa está encharcada de suor. Para Andréa, o sacrifício não terminou. Ela ficará com o corpo roxo, inchado, dolorido e apertado com uma cinta por mais dez dias. Uma semana depois da operação, ainda inchada, dolorida e sem poder ver no próprio corpo a comprovação de se vale a pena uma mulher sofrer tanto, Andréa afirmava: "Faria tudo outra vez, se fosse preciso".
O império da vaidade Em tempos de ditadura da beleza, o corpo é Paulo Moreira Leite Você sabe por que a televisão, a publicidade, o cinema e os jornais defendem os músculos torneados, as vitaminas milagrosas, as modelos longilíneas e as academias de ginástica? Porque tudo isso dá dinheiro. Sabe por que ninguém fala do afeto e do respeito entre duas pessoas comuns, mesmo meio gordas, um pouco feias, que fazem piquenique na praia? Porque isso não dá dinheiro para os negociantes, mas dá prazer para os participantes. O prazer é físico, independentemente do físico que se tenha: namorar, tomar milk-shake, sentir o sol na pele, carregar o filho no colo, andar descalço, ficar em casa sem fazer nada. Os melhores prazeres são de graça - a conversa com o amigo, o cheiro do jasmim, a rua vazia de madrugada -, e a humanidade sempre gostou de conviver com eles. Comer uma feijoada com amigos, tomar caipirinha no sábado também é uma grande pedida. Ter um momento de prazer é compensar muitos momentos de desprazer. Relaxar, descansar, despreocupar-se, desligar-se da competição, da áspera luta pela vida - isso é prazer. Mas vivemos num mundo onde relaxar e desligar-se se tornou um problema. O prazer gratuito, espontâneo, está cada vez mais difícil. O que importa, o que vale, é o prazer que se compra e se exibe, o que não deixa de ser um aspecto da competição. Estamos submetidos a uma cultura atroz, que quer fazer-nos infelizes, ansiosos, neuróticos. As filhas precisam ser Xuxas, as namoradas precisam ser modelos que desfilam em Paris, os homens não podem assumir sua idade. Não vivemos a ditadura do corpo, mas seu contrário: um massacre da indústria e do comércio. Querem que sintamos culpa quando nossa silhueta fica um pouco mais gorda, não porque querem que sejamos mais saudáveis - mas porque, se não ficarmos angustiados, não faremos mais regimes, não compraremos mais produtos dietéticos, nem produtos de beleza, nem roupas e mais roupas. Precisam da nossa impotência, da nossa insegurança, da nossa angústia. O único valor coerente que essa cultura apresenta é o narcisismo. Vivemos voltados para dentro, à procura de mundos interiores (ou mesmo vidas anteriores). O esoterismo não acaba nunca - só muda de papa a cada Bienal do Livro -, assim como os cursos de autoconhecimento, auto-realização e, especialmente, autopromoção. O narcisismo explica nossa ânsia pela fama e pela posição social. É hipocrisia dizer que entramos numa academia de ginástica porque estamos preocupados com a saúde. Se fosse assim, já teríamos arrumado uma solução para questões mais graves, como a poluição que arrebenta os pulmões, o barulho das grandes cidades, a falta de saneamento. Estamos preocupados em marcar a diferença, em afirmar uma hierarquia social, em ser distintos da massa. O cidadão que passa o dia à frente do espelho, medindo o bíceps e comparando o tórax com o do vizinho do lado, é uma pessoa movida por uma necessidade desesperada - precisa ser admirado para conseguir gostar de si próprio. A mulher que fez da luta contra os cabelos brancos e as rugas seu maior projeto de vida tornou-se a vítima preferencial de um massacre perpetrado pela indústria de cosméticos. Como foi demonstrado pela feminista americana Naomi Wolf, o segredo da indústria da boa forma é que as pessoas nunca ficam em boa forma: os métodos de rejuvenescimento não impedem o envelhecimento, 90% das pessoas que fazem regime voltam a engordar, e assim por diante. O que se vende não é um sonho, mas um fracasso, uma angústia, uma derrota. Estamos atrás de uma beleza frenética, de um padrão externo, fabricado, que não é neutro nem inocente. Ao longo dos séculos, a beleza sempre esteve associada ao ócio. As mulheres do Renascimento tinham aquelas formas porque isso mostrava que elas não trabalhavam. As belas personagens femininas do romantismo brasileiro sempre tinham a pele branca, alabastrina - qualquer tom mais moreno, como se sabe, já significava escravidão e trabalho. Beleza é luta de classes. Estamos na fase da beleza ostentatória, que faz questão de mostrar o dinheiro, o tempo livre para passar tardes em academias e mostra, afinal, quem nós somos: bonitos, ricos e dignos de ser admirados.
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