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23 de junho de 1982
A grande arrancada

O Brasil se classifica para a segunda fase
da Copa com um futebol que encantou Sevilha
e abriu caminho para a conquista do tetra

Foram dois sustos coletivos, duas explosões de alegria e dois feriados nacionais em menos de uma semana. Na partida de estréia contra a União Soviética, 120 milhões de brasileiros foram com Valdir Peres buscar a bola no fundo das redes, atordoados com o desconcertante "frango" sofrido pelo goleiro e acompanharam pesarosos as comemorações dos escoceses quando, também de surpresa, abriram a contagem na partida de sexta-feira. Mas, em ambos os jogos, o país não tardaria a explodir com o gol de empate, vibrar com as espetaculares viradas que levaram aos 2 a 1 contra a Rússia e aos 4 a 1 contra a Escócia, e, ao som do apito final, mergulhar em comemorações só comparáveis às que sacudiram o território nacional ao longo da Copa do México, em 1970.

Justa alegria. A seleção montada pelo técnico Telê Santana é a primeira a classificar-se para a segunda fase do mundial da Espanha, e desde já parece ser uma legítima descendente, em linha direta, da antológica orquestra futebolística que seduziu o mundo há doze anos. Tanto contra os soviéticos como contra os escoceses, duas equipes fortes, valentes e bem preparadas, os brasileiros exibiram em Sevilha virtudes que os times de 1974 e 1978 estiveram longe de assimilar. Em primeiro lugar, têm uma fibra e uma aplicação profissional que lhes permitiram, por duas vezes consecutivas, começar perdendo - uma desvantagem psicológica que pode ser devastadora, no clima de alta tensão de uma Copa - e acabar ganhando nas duas. Além disso, estão jogando muito futebol. A Seleção de 1982 disputa a bola em todos os espaços do campo, esbanja vigor físico, toca a bola em alta velocidade, joga para a frente e demonstra uma contagiante vontade de vencer - qualidades que, somadas, forjaram um time capaz de atacar em tempo integral e virar jogos contra equipes montadas sobre sólidos esquemas defensivos.

Mais importante ainda, Telê soube afinar sua orquestra sem inibir o gênio improvisador dos solistas - nos gramados dos estádios Sánchez Pizjuán e Benito Villamarín, o talento individual dos craques brasileiros teve instantes tão luminosos quanto o sol de Sevilha. Na estréia da Seleção, por exemplo, o mundo foi apresentado ao chute do ponta-esquerda Éder, uma das sensações da Copa da Espanha e, depois de seu gol por cobertura contra a Escócia, o craque de estimação dos 5.000 eufóricos torcedores brasileiros presentes em Sevilha - um mar de camisas amarelas que se agita toda vez que a perna esquerda mais temida do certame toca na bola.

PANCADAS CERTEIRAS - Se repetir as atuações da primeira semana da Copa, Éder terá vaga assegurada numa galeria internacional onde já há algum tempo figuram Sócrates, Zico, Falcão e Júnior. Depois de uma estréia opaca, Zico mostrou contra a Escócia, sobretudo no artístico gol de falta que empatou o jogo, que a idéia de tirá-lo do time para a entrada de Cerezo, defendida por milhares de vozes apaixonadas e apressadas, fora apenas mais um capricho da instável torcida brasileira. Júnior, embora jogando bem, ainda deve à Espanha uma de suas atuações deslumbrantes, mas o "capitão" Sócrates e Paulo Roberto Falcão, o "Rei de Roma", prometem encerrar a Copa como titulares absolutos da seleção das estrelas do mundial de 1982.

Sócrates comandou a virada contra a Rússia com um gol inesquecível - e, na partida com a Escócia, perdeu tanto líquido no esforço que demorou mais de duas horas para colher o material do exame antidoping. E Falcão, ao cabo de uma coleção de finíssimas jogadas de efeito diante de russos e escoceses, fechou a goleada da sexta-feira com um soberbo petardo no canto do arco adversário, selando a classificação brasileira antes mesmo do jogo desta quarta-feira contra a humilde Nova Zelândia. O gol de Falcão contra a Escócia foi outra prova definitiva de que os jogadores brasileiros, até recentemente fiéis à lenda de que todo craque deve entrar na área driblando ou tabelando antes do arremate, afinal aprenderam a chutar de fora da área.

"Fiquei emocionado por ver outra jogada ensaiada virar gol", comentaria Falcão. Em dois jogos, o Brasil marcou seis gois - e só os de Éder e de Oscar, este numa espléndida cabeçada, na partida com a Escócia, nasceram no interior da grande área. "Eu não disse que iria fazer três gols nesta Copa?", diria Oscar mais tarde. "Pois ainda faltam dois." Também o gol de Oscar foi fruto de uma jogada ensaiada.

Todos os outros quatro resultaram de certeiras pancadas de meia-distância, uma arma mortífera aperfeiçoada por atacantes europeus. Desses, só o de Zico foi marcado com a bola parada. Ao contrário do que ocorreu no México, o Brasil não tem sido beneficiado pela marcação de faltas perto da grande área inimiga. Tanto a Rússia quanto a Escócia, que agora devem disputar a segunda vaga num mortal confronto direto, foram adversários limpos e leais - sendo que, no caso da Escócia, caíram por terra todas as previsões feitas pela imprensa de que haveria uma guerra em campo. A exemplo do que já haviam feito em sua vitória de 5 a 2 contra a Nova Zelândia, os escoceses não cometeram uma única falta violenta durante o jogo, não reclamaram e, em 90 minutos, o juiz não precisou sacar nenhuma vez o cartão amarelo.

VAZIO NA DIREITA - Essa postura saudável se converteria, terminado o jogo, em aberta admiração. Para começar, a indócil torcida escocesa aplaudiu demoradamente os vencedores. Depois, numa das saídas do Estádio Benito Villamarín, um grupo de homens corados e vestidos com um agasalho azul e vermelho foi visto correndo atrás de uma recepcionista espanhola. Longe da multidão de jornalistas e torcedores que aguardava a saída da Seleção Brasileira, eles reivindicavam um punhado de "santinhos" - fotos autografadas dos jogadores brasileiros. Os homens de azul e vermelho eram ninguém menos que os atletas da equipe nacional da Escócia.

"O futebol brasileiro é uma festa e dá à Copa uma dignidade que, sem o Brasil, ela talvez não tivesse", comentou o técnico escocês Jock Stein. "Perdemos para o melhor time do mundo", disse a VEJA o armador Souness, o competente capitão da Escócia. Faltam, na verdade, alguns acertos. A entrada de Toninho Cerezo no lugar de Paulo Isidoro, que resultou na montagem de um "quadrado" no meio de campo, não chegou a melhorar o time, novamente enfraquecido pelo vazio observado no lado direito do ataque.

No intervalo da partida, por sinal, Telê recomendou sobretudo que Zico, Falcão e Sócrates se revezassem por ali, e pediu mais velocidade e maior movimentação na troca de posições. Da mesma forma, o centroavante Serginho, embora sempre presente na área, continuou sem fazer gols e acabou abrindo vaga no fim do jogo para Paulo Isidoro, uma espécie de talismã que Telê Santana sempre gosta de utilizar durante as partidas.

REFLEXÕES SOLITÁRIAS - Paulo Isidoro não se mostra ressentido com o entra-e-sai, embora prometa estar em campo na final da Copa da Espanha. No banco, como os demais reservas, ele comemorou efusivamente o gol de Zico - e ouviu a admoestação dirigida pelo juiz costa-riquenho Luis Siles Calderón a Edinho, que invadira o gramado para abraçar o camisa 10 da Seleção. "Solamente por esta vez", avisou Calderón, dedo em riste. A vibração era compreensível: como todo o Brasil, os reservas postados no banco pressentiram naquele momento que estava aberto o caminho para Barcelona, onde a Seleção disputará a segunda fase da Copa.

Na noite de sexta-feira, Telê fazia solitárias reflexões sobre os prováveis adversários do Brasil nessa fase, uma complicada criação do presidente da FIFA, João Havelange. Em Barcelona, o Brasil enfrentará os segundos colocados dos grupos 3 (Bélgica, Argentina, Hungria e El Salvador) e 1 (Itália, Polônia, Peru e Camarões). É possível, por exemplo, que já na capital da Catalunha o Brasil se defronte com a Argentina, revigorada na sexta-feira pela goleada que aplicou à Hungria. Zico não parece preocupado com essa hipótese: "O que vier a gente traça", afirma. De qualquer forma, só na próxima semana serão conhecidos os futuros adversários da Seleção.

Depois do jogo contra a Escócia, sereno frente ao delírio dos torcedores que permaneciam nos arredores do estádio, entretidos em incontáveis batucadas, Telê se confessava "satisfeito com dois bons resultados sobre duas equipes fortes", mas fazia uma ressalva: "Não, ainda não me considero campeão do mundo". E lembrava, atento à história das duas partidas da semana, que a Seleção "precisa jogar também no primeiro tempo o futebol que tem apresentado no segundo". Isso foi verdade contra a Escócia - e ainda mais no jogo de estréia.

AMBIENTE CARREGADO - A histórica virada contra a Seleção da União Soviética começou a nascer no intervalo do jogo, durante a tensa caminhada dos brasileiros entre o gramado e o vestiário. Tão logo soou o apito do juiz, Telê, com ar severo, desceu as escadas à frente dos onze atletas, que marcharam sob apupos de torcedores espanhóis. Só no vestiário o técnico quebrou seu silêncio. "Isidoro", comandou Telê, com um leve sinal de cabeça. O ponta-direita reserva Paulo Isidoro entendeu que deveria tratar de aquecer-se sob a orientação de Moracy Santana, o segundo preparador físico. Em seguida, Telê virou-se para o ponta que jogara o primeiro tempo e informou: "Dirceu, você vai sair".

A maioria dos jogadores trocou o uniforme, ensopado de suor - alguns trocaram até as meias -, e ouviu Telê fazer sua preleção, num tom de voz um tanto acima do habitual. "Foi uma preleção sobretudo técnica", contaria mais tarde um dos presentes. Não havia evidências de nervosismo, mas o ambiente estava carregado. O preparador físico Gilberto Tim, que normalmente anima os jogadores a sitiarem os adversários, pouco falou. Valdir Peres, abatido com o gol que sofrera, permaneceu alguns minutos apartado dos companheiros até que dele se acercou o preparador de goleiros, Valdir de Moraes. "Xará", disse Moraes, "foi um acidente." Foi um acidente, repetiram outros jogadores, e Valdir Peres pareceu reanimar-se.

O lateral Júnior foi o primeiro a dirigir-se a Telê - chamando-o de "senhor", ao contrário do que ocorre em momentos de maior descontração. "Sugeri que Zico encostasse mais no Serginho", lembraria depois o lateral do Flamengo. "Pelo que acertamos, passei a jogar praticamente na meia-esquerda, com o Luisinho virando lateral." Telê encampou de bom grado a idéia. "Sempre houve um entendimento muito bom entre o técnico e os jogadores, e nós conversamos muito", diria Telê depois da partida. Antes da subida das escadarias para o segundo tempo, jogadores e técnico elegeram as duas palavras de ordem que a Seleção Brasileira seguiria rigorosamente nos 45 minutos finais: partir para cima dos russos e virar o jogo.

‘TUDO OU NADA’ - Foi o que se viu em 45 minutos decididamente inesquecíveis, ao longo dos quais os brasileiros, liderados pelo "capitão" Sócrates, acuaram a excelente equipe soviética e fizeram seu melhor jogo numa Copa do Mundo desde as grandes jornadas do México 1970. A disposição com que o Brasil se atirou à luta em nada lembraria o "time do zero a zero" que Zagalo montou em 1974 para o mundial da Alemanha, ou a mutante seleção de Cláudio Coutinho que, em 1978, não teve a audácia indispensável para vencer a "Batalha de Rosário" contra a equipe da Argentina. Assustados, os russos desviavam a bola para escanteio ou faziam faltas - e depois disso sofriam a expectativa causada pelos poderosos chutes do ponteiro Éder.

Sobretudo em dois momentos exemplares, os guerreiros de Telê mostraram onde querem chegar nesta Copa. Num deles, uma bola espirrou pela lateral e mergulhou no túnel dos vestiários russos. Júníor correu, saltou sobre os painéis de propaganda à margem do campo, desceu as escadas e reapareceu segundos depois com a bola nas mãos. "Quando a bola saiu, notei que o técnico russo cutucou com o cotovelo o massagista, que foi atrás dela para fazer cera", recorda Júnior. "Entrei direto no túnel, vi o sujeito segurando a bola e gritei: 'Me dá isso aí'. O cara logo jogou a bola pra mim." Em outro lance, o central Oscar disparou na direção do habilidoso atacante Blokhin - com Shengelia, o organizador de todas as investidas russas, até desaparecer na última meia hora do jogo - e, mesmo pressentindo os perigos do choque, precipitou-se sobre o adversário.

Houve a colisão, Oscar caiu e arrastou na queda um painel de proteção da linha de fundo, desabando sobre os fotógrafos. O zagueiro quebrou um suporte plástico e afrouxou a objetiva de uma das câmaras do fotógrafo Almir Veiga, do Jornal do Brasil. Mas sustou a avançada de Blokhin. "Ali,era tudo ou nada", diz Oscar, que esteve impecável especialmente nas bolas pelo alto. "Nem pensei que poderia machucar-me." Assim, além de bom futebol, o Brasil mostrou valentia e audácia no segundo tempo. "Um time ofensivo como o nosso tem que se arriscar mesmo", diz Telê. "Um boxeador, quando ataca para vencer, precisa expor o rosto e pode levar um nocaute." A Seleção exibiu, também, um notável preparo físico. Contrariando a clássica noção segundo a qual os sul-americanos são grandes jogadores, mas carecem de força, enquanto os europeus esbanjam forma física, os brasileiros podem estar sendo os melhores atletas desta Copa, ao lado talvez dos belgas - ao passo que os russos e outros europeus têm visto o fôlego ir sumindo no segundo tempo.

NÚMEROS ANIMADORES - Fiel a suas teorias, Telê assegura que, nos próximos jogos, os laterais brasileiros continuarão com seus ousados avanços. "Não vamos prender este time", garante. "Nós jogamos para ganhar." Leandro, alvo de críticas por ter vigiado de forma precária uma faixa do gramado por onde incursionavam com freqüência Blokhin e Shengelia, arremata: "A gente tem que avançar para vencer. Os russos criaram oportunidades porque são bons". Muito mais oportunidades criaram os brasileiros. Em 90 minutos, a seleção de Telê chutou 32 vezes contra o gol defendido pelo grande Dasaev, uma das revelações desta Copa. Os russos fizeram apenas sete tentativas - e no sufocante segundo tempo, a União Soviética arriscou um único chute contra o gol de Valdir Peres.

As minuciosas pranchetas de Moracy Santana também anotaram que a Seleção foi altamente precisa em sua estréia, não caindo na sucessão de passes, toques e lançamentos errados que tanto irritam a torcida. Os doze jogadores utilizados por Telê contra os russos somaram 383 toques na bola - aí considerados apenas o toque de receber e o de passe a um companheiro e não os de condução da bola. Desse total, erraram só 27, ou 7% do total, quando 10% é um índice tido como excelente em qualquer partida. Esses números certamente seriam menos animadores se os jogadores tivessem sucumbido à onda de nervosismo irradiada pelo gol dos soviéticos,

e providencialmente estancada no intervaio do jogo. Ou, quem sabe, se o juiz espanhol Augusto Lamo Castillo tivesse apitado um pênalti cometido pelo geralmente irrepreensível Luisinho, aos 17 minutos do primeiro tempo.

Luisinho repetiria a dose aos 35 minutos do segundo tempo, quando tocou agilmente a mão na bola, dentro da área, numa disputa com Blokhin. "Esse pênalti o juiz poderia ter marcado", reconhece Sócrates. Mas não marcou - para felicidade de 120 milhões de brasileiros e desolação dos russos. Depois do jogo, a delegação soviética insinuava que Castillo, o mesmo juiz que apitou em março passado a vitória de 1 a 0 do Brasil sobre a Alemanha, apenas retribuíra a calorosa acolhida que teria merecido, no Rio de Janeiro, da CBF. Receber juízes estrangeiros com festas e agrados é, na verdade, um costume universal. Mas é improvável que Castilio, 36 anos, diretor de uma fábrica de brinquedos educativos, cujo nome fora vetado pela FIFA, por solicitação da Argentina, para o jogo de abertura contra a Bélgica, volte a dirigir partidas na Copa da Espanha. Nesse caso, ele terá sido simbolicamente expulso dos gramados por pressões dos soviéticos.

IRA SAGRADA - O juiz efetivamente cometeu erros, mas a verdade é que venceu o melhor e o mais brilhante - como, por sinal, atestaram manchetes de jornais de todo o mundo, fascinados com um segundo tempo quase irretocável. Sócrates acha que os deuses do futebol passaram a sorrir para o Brasil quando a Seleção começou a marcar no campo do adversário, impedindo a União Soviética de sair jogando - algo que julga básico reprisar em todos os jogos. Para o "capitão" do time brasileiro, igualmente importante é seu posicionamento com Paulo Roberto Falcão. "Contra os russos", exemplifica Sócrates, "eu e Paulo estávamos jogando em linha, e isso atrapalhava. Resolvemos nos revezar atrás e na frente e rendeu mais."

A ira sagrada que se apossou do time na metade do segundo tempo, porém, foi tão importante quanto as mudanças táticas - e contagiou toda a equipe. Trata-se de uma liderança natural, exercida dentro e fora do campo. "O Magrão transmite nas horas mais difíceis uma tremenda calma", diz Júnior. "Ele é beleza: sossegado, amigo de todos", concorda Éder. "Sócrates adquiriu naturalmente as funções de 'capitão', por suas qualidades", completa Falcão, que começou a compor com o craque do Corinthians uma das mais harmoniosas parcerias do futebol mundial. Em torno desse eixo movimenta-se um esquema tático que Telê Santana, mesmo antes do jogo contra a Escócia, prometia preservar até o fim da Copa da Espanha.

Esse esquema se apóia numa incessante rotatividade dos jogadores pelas diversas posições - uma movimentação que na semana passada deixava perplexo o jornalista chinês Hsian Tzu-Chuan, encarregado de cobrir o campeonato para a agência Nova China e às voltas com a melhor maneira de explicar a seus leitores que sistema de jogo usa o Brasil: 4-3-3, 4-2-4 ou 4-4-2? "Isso não funciona mais para os brasileiros?", indagava Tzu-Chuan em bom castelhano. Não funciona, como não funciona para todas as equipes que trataram de assimilar lições ministradas em 1974 pelo soberbo selecionado holandês. O jogo contra a Rússia mostrou que o Brasil ficou fisicamente forte e aprendeu a marcar, sem abdicar do brilho individual de seus craques.

SEM IMPULSÃO - Telê está decidido a manter em seu estoque tático mesmo jogadas que não surtiram efeito contra a Rússia - por exemplo, os cruzamentos pelo alto. "Vamos explorá-los contra outros adversários quando houver facilidades", diz o técnico, explicando que as tentativas no jogo de estréia resultaram da constatação de que os zagueiros russos não tinham tanta impulsão. De fato, Serginho conseguiu cabecear duas vezes contra o gol de Dasaev, errando por falta de pontaria, além de servir a Zico, sempre de cabeça, outras duas vezes. "Se eu tivesse tido um pouco mais de felicidade, teria faturado os dois", lamenta o camisa 10 da Seleção.

Éder, o jogador que mais chutou contra os russos - oito bolas -, também não vê motivos para arquivar a jogada ensaiada para os escanteios, sobretudo do lado direito, quando ele dispara bolas que vêm queimando para cima da linha de gol. A jogada pouco de produtivo conseguiu na primeira partida, mas Éder prosseguirá com ela. "Até porque", lembra o ponta, risonho, "escanteio a gente sempre tem que bater, não é?" Nesta Copa, a jogada tem sido prejudicada pela exigüidade do espaço existente para o jogador correr em direção ao chute. O campo do Palmeiras, em São Paulo, ou o campo do Flamengo, na Gávea, no Rio de Janeiro, oferecem muito maior comodidade nos escanteios que os estádios Sánchez Pizjuán e Benito Villamarín, em Sevilha. De qualquer forma, Éder pretende continuar assustando as defesas inimigas com seus petardos.

CONVERSAS NOTURNAS - Resgatado o prestígio do futebol brasileiro, os jogadores tiveram o sono adiado pelas emoções da estréia feliz. "Bicho, ninguém consegue dormir depois de um jogo, especialmente depois de um jogo desses", conta Edinho, um dos craques que só foram para a cama na madrugada de terça-feira. Éder, por exemplo, só pegou no sono às 4 da manhã. Depois do jantar, enquanto alegres torcedores comandavam o carnaval nas ruas de Sevilha, alguns jogadores se reuniram no quarto de Sócrates para beber a segunda cerveja - garrafa pequena - autorizada para a noite. Desfeita a roda, Éder ainda ficou conversando com Serginho, seu companheiro de quarto. "Falamos sobre o jogo", lembra Éder. "O Negrão reclamou de um cruzamento muito alto que fiz para ele no primelro tempo." O contentamento pela primeira vitória fez a Seleção esquecer o constrangimento causado pela partida de Careca, que preferiu continuar seu tratamento no Brasil, e as tensões geradas pelo "frango" de Valdir Peres. O próprio goleiro dormiu antes dos outros, confortado por palavras de estímulo dos colegas de Seleção.

"Pelo que ele já fez na Seleção", disse Zico, "tem crédito para errar. Foi uma coisa anormal que é normal." Da mesma forma, não abalou o grupo a insatisfação de Batista não só com a reserva como, também, com sua ausência no banco para o jogo de estréia. "Cá pra nós", ponderava um dos titulares na semana passada, "quem é que gosta de ficar na reserva?" No final da semana, mesmo instado a concentrar-se na rude Nova Zelândia, o adversário desta quarta-feira, o Brasil repartia atenções entre outros possíveis obstáculos - e é quase certo que a Itália ou a Polônia, que empataram sem gols na semana passada, estarão à espera do Brasil em Barcelona, para a segunda fase da Copa. Ali, na capital da Catalunha, a Seleção de Telê poderá provar se de fato é, como afirmaram jornais espanhóis, a última relíquia de um futebol no qual se fundem a arte e magia.


 
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