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23 de fevereiro de 1972
O encontro de Pequim

Começa o diálogo entre
o país mais poderoso e a nação
mais populosa da Terra


Talvez tudo seja histórico, grandioso, inédito demais. Ao pousar na pista gelada do aeroporto de Pequim, na manhã desta segunda-feira, o avião presidencial de Richard Nixon, "Spirit of '76", terá percorrido 16.000 km, num vôo pioneiro de três dias e meio. A data - na qual já se comemora o aniversário de George Washington - foi batizada pelo Congresso dos EUA, na semana passada, de Dia de Oração Nacional pela Paz Mundial. Pela primeira vez na história, neste dia 21, o presidente da nação mais poderosa do mundo pisa no país mais populoso da Terra, numa aventura política comparável ao primeiro passo do homem na Lua. E os sete dias que ele passará na China compõem a visita oficial mais longa de um presidente dos Estados Unidos a um só país desde a viagem de Woodrow Wilson à Europa, após a Primeira Guerra Mundial.

Antes de tudo, nunca dois homens que encarnam tão dramaticamente o conflito de forças da história moderna, como Richard Nixon e Mao Tsé-tung, aproximaram-se, em pé de igualdade, para alterar a estrutura do poder mundial. A viagem é um "acontecimento que sacudirá a Terra", profetizou exaltado o líder do Partido Republicano no Senado, Hugh Scott.

Talvez. Instantes antes de seu embarque, no entanto, o próprio Marco Pólo dessa epopéia moderna falava com grande serenidade: "Não temos a ilusão de que vinte anos de hostilidade sejam eliminados com uma semana de conversações".

O EMBARQUE - Sorrindo sempre, acenando muito, o presidente parecia um garoto partindo para as férias. Seu embarque, às 10h10 da manhã de quinta-feira, fugiu - e excedeu - à rotina protocolar. Habitualmente, apenas os secretários de Estado e alguns altos funcionários assistem ao cerimonial de despedida, na base aérea de Andrews, em Maryland. Desta vez, houve uma imponente cerimônia oficial, nos jardins da própria Casa Branca, com a presença de senadores, deputados, diplomatas estrangeiros, milhares de crianças das escolas públicas de Washington e uma guarda de honra militar.

Nixon, de terno cinza-azulado impecável - não fossem duas pregas indesejáveis nas costas do paletó -, e Pat, com o mesmo casaco de peles de três anos atrás, percorreram a longa fila de cumprimentos com abraços prolongados, brincadeiras e risos. Após a continência da guarda de honra e os beijos finais para as filhas Tricia e Julie, subiram ao helicóptero e acenaram da janela até a decolagem.

Em Andrews, as coisas correram mais rápido: na curta caminhada do helicóptero para o "Spirit of '76", o casal Nixon veio seguido pelo secretário de Estado William Rogers e pelo conselheiro presidencial Henry Kissinger - este com sua inevitável pasta 007. Às 10h30, com precisão suíça, Richard Nixon iniciava o que chamou de "jornada para a paz". E a televisão americana saboreava o seu prato da década.

TUDO DIFERENTE - Por cortesia dos presidentes Mao e Nixon, de Howard Hughes, de Chu En-lai e de um elenco de centenas de técnicos, tudo estava pronto para o espetáculo de televisão mais sensacional deste ano eleitoral nos Estados Unidos. Em fins de janeiro, três aviões Hércules haviam transportado para Pequim a mesma estação terrestre "portátil" (25 toneladas) utilizada em Persépolis durante os festejos de aniversário do Irã, para transmitir as imagens em cores do primeiro passo do presidente Nixon em solo chinês. A estação, construída pela Hughes Aircraft Co., estará ligada ao recém-lançado satélite Intelsat IV (também da Hughes), com capacidade para operar 9.000 telefones e doze circuitos de televisão simultaneamente.

Há dezesseis anos, no Natal de 1956, quando William Worthy se preparava para ser o primeiro jornalista americano a violar a proibição de ir à China, "furando" - recordou ele na semana passada - "com a discrição de um Kissinger o cerco de funcionários da CIA em Hong Kong", a situação era bastante diferente. Na época, para não ser conivente com a ousadia de Worthy, a Columbia Broadcasting System (CBS) recusou-se até a lhe fornecer um gravador ou máquina de filmes. Imperava ainda a opinião intimidadora do secretário de Estado Foster Dulles, de que qualquer cobertura jornalística "daria respeitabilidade a um regime ilegal, na iminência de colapso".

O MAIOR JOGO - Um mês antes da viagem de Nixon, as duas principais cadeias de TV dos EUA - a CBS e a NBC - já haviam vendido a preço de ouro todo o espaço comercial da cobertura da visita. Ao longo da semana, horários especiais estão reservados para boletins diários de trinta a sessenta minutos, além da cobertura ao vivo de todas as cerimônias e passeios (apenas a visita à Grande Muralha está excluída do esquema de cobertura, devido a dificuldades técnicas).

O custo dessa operação será exorbitante - mas nenhuma das três cadeias nacionais americanas ousou recusar as facilidades que a Casa Branca lhes ofereceu de maneira tão generosa. "É o maior jogo da história", comentou Richard Salant, presidente da CBS, lembrando que tudo poderia acabar numa desastrosa perda de dinheiro caso a televisão possa transmitir apenas imagens dos principais personagens entrando e saindo de carros.

Com ou sem riscos, é certo que durante uma semana, graças à amplitude da cobertura de televisão, os Estados Unidos viverão no fuso horário chinês. Entre outros assuntos menores, ficarão esquecidas as eleições primárias nos Estados de New Hampshire e Flórida, onde a campanha dos candidatos oposicionistas do Partido Democrático deveria, em circunstâncias normais, estar atingindo o seu clímax.

UM CURSO DE CHINA - De qualquer maneira, nas últimas semanas, Nixon não teve tempo para pensar em eleições primárias, ocunado em submeter-se a uma verdadeira "lavagem cerebral" sobre assuntos chineses. Como um colegial em vésperas de um vestibular, refugiou-se em sua casa de verão de Key Biscayne durante vários fins de semana para digerir oito volumes, encadernados de preto, preparados pelo Conselho de Segurança Nacional.

Além disso, já há vários meses vinha assistindo a um curso intensivo sobre a China contemporânea, programado pelo diretor da CIA, Richard Helms, e que abrangia desde o elementar "quem é quem" no governo de Pequim até questões sobre o desconhecido protocolo da China igualitária. Tanto a Casa Branca como o Conselho de Segurança Nacional mantiveram sigilo absoluto em torno do conteúdo exato da preparação teórica de Nixon. Presumivelmente, não interessaria dar a conhecer aos chineses que idéias sobre a China foram absorvidas pelo presidente. Sabe-se apenas que, quando os peritos do Departamento de Estado nada mais tinham a oferecer a Nixon, decidiram chamar o escritor francês e ministro da Cultura no tempo de De Gaulle, André Malraux, de 71 anos. Durante uma conversa com Nixon de quase uma hora e meia - da qual participaram apenas Henry Kissinger e uma intérprete -, Malraux teria predito que Mao Tsé-tung perguntaria qual a ajuda econômica que Nixon está disposto a oferecer à China.

Na opinião do autor de "A Condição Humana", Nixon deveria estar preparado para responder com um novo Plano Marshall - "sem o que a conversa não terá futuro". Em 1965, Mao confessou a Malraux que a China só poderia elevar seu padrão de vida através da industrialização, e que apenas os EUA teriam condições para fornecer-lhe os recursos necessários.

CUIDADOS COM O FUSO - Na Casa Branca e prédios oficiais adjacentes, um exército de assessores trabalhou, durante meses, na complexa logística de enviar o presidente e outros duzentos americanos para um país com o qual os Estados Unidos praticamente não têm contatos. O próprio vôo teve de ser cercado de cuidados especiais. Para permitir a adaptação do organismo à mudança de fuso horário (onze horas de diferença) e para evitar o desnorteamento psicológico que - segundo apurou a Casa Branca - torna passageiros de vôos a jato propensos a decisões impulsivas após viagens muito longas, Nixon e sua comitiva de treze pessoas passaram duas noites na base americana de Kanehoe, no Havaí, e uma terceira na ilha de Guam, antes de seguirem para Pequim.

Dentro da China, Nixon terá de abandonar o Boeing da Casa Branca (um misto de posto de comando e escritório, com dormitório azul-verde, quatro pequenas salas com máquinas de escrever elétricas, cozinha e bar, e permanentemente habitado por quatro agentes de segurança) e voar para Xangai e Hangchow no avião particular de Chu En-lai.

SEMPRE PERTO - Mas o coronel Ralph Albertazzie, de 48 anos, filho de mineiro e piloto do presidente há dois anos, afirma que o "Spirit of '76" estará sempre seguindo Richard Nixon, tendo na geladeira de bordo, para qualquer emergência, um estoque de sangue do grupo A-positivo para o presidente. Embora Nixon nunca tenha perdido um dia de trabalho na Casa Branca por motivo de saúde, viaja cercado dos mais meticulosos cuidados. Seu médico particular, o brigadeiro Walter Trach, da Força Aérea, revelou que estará constantemente, com um auxiliar, "a não menos de cinco segundos de distância do presidente". Ele inspecionou pessoalmente pelo menos um hospital em cada uma das três cidades chinesas a serem visitadas por Nixon.

A segurança nacional dos Estados Unidos também está inteiramente sob controle do presidente. Em noventa segundos, o "Spirit of '76" pode entrar em contato com todos os quinze altos comandos militares americanos espalhados pelo mundo. Enquanto estiver na China, Nixon terá condições para ordenar um imediato ataque nuclear: bastará pedir o código necessário para ativar o arsenal nuclear a um funcionário que o acompanhará permanentemente.

FESTAS DO RATO - Ao desembarcar em Pequim, conta José Roberto Guzzo, enviado especial de VEJA à China, o presidente Nixon ainda poderia sentir, logo após a entrada monumental que leva ao austero saguão, os ecos finais da surpreendente explosão de euforia que o país conheceu na semana passada. O ano do Rato - primeiro no ciclo de doze anos do calendário asiático, cada um regido por um animal - havia começado na terça-feira, dia 15, e durante três dias seguidos todas as grandes cidades estiveram em festa, com um entusiasmo que não se via desde a Revolução Cultural. Fogos de artifícios, balões e lanternas coloridos enfeitaram Pequim até a madrugada de sexta-feira e cerca de 500.000 pessoas passaram pelo portal em estilo pagode da estação ferroviária.

Em torno da visita presidencial, entretanto, havia um silêncio quase total. As repartições do governo estiveram fechadas durante os dias de festa, tornando difícil a obtenção de informações mais detalhadas sobre o programa oficial, que, até o final da semana, continuava parcialmente mergulhado em mistério. Falava-se numa recepção colorida e ruidosa, com milhares de jovens agitando bandeiras, tocando címbalos, pratos e tambores na praça Tien An Men. Soldados, em uniformes de gala, formariam a guarda de honra e uma salva de 21 tiros de canhão saudaria o visitante.

Embora todo o noticiário local sobre a visita tenha consumido apenas 1.647 caracteres chineses nos seis últimos meses, parece certo que a grande maioria da população adulta foi informada da chegada do presidente americano, através das três reuniões políticas semanais a que assistem normalmente. Contudo, raros são os que têm alguma noção de sua aparência: segundo alguns velhos residentes estrangeiros na China, a imprensa jamais publicou uma foto de Nixon.

VIZINHO DE CHU - Após o desembarque no aeroporto de Pequim (de onde foram banidas todas as placas indicativas escritas em russo, só permanecendo as dos banheiros), o programa, ao que se sabia, previa apenas a ida para a casa de hóspedes oficial, à beira do lago do Abismo de Jade, na região oeste da cidade. Até há pouco, quem lá morava era o príncipe Norodom Sihanouk, exilado em Pequim desde 1970. Fica não muito longe do estádio de pingue-pongue da capital, onde a seleção americana jogou em abril último, iniciando o degelo entre os dois países. E, convenientemente perto, moram Chu En-lai o a maioria dos líderes do partido e do governo. É possível que contatos extra-oficiais entre americanos e chineses se façam a horas mortas na casa do lago ou numa das residências da proximidade.

Para chegar do aeroporto à sua moradia em Pequim, Nixon precisa atravessar boa parte da cidade. Todos os cartazes que durante os últimos vinte anos denunciavam o imperialismo americano foram retirados. No trajeto, restou no portal de uma alameda um gigantesco e inofensivo painel com a inscrição: "Sirva ao povo".

Aos jornalistas ávidos de detalhes sobre as atividades de Richard Nixon na China, as autoridades de Pequim e Washington limitaram-se a anunciar o óbvio: banquetes, visita de Pat Nixon a um hospital de crianças, excursões turísticas à cidade histórica de Hangchow, à Grande Muralha e às treze tumbas dos imperadores da dinastia Ming, etc. Sabe-se também que a inclusão da mulher de Nixon na viagem presidencial não era nem esperada nem desejada pelos líderes chineses. Segundo o protocolo, a anfitriã de Pat deveria ser Chiang Ching, mulher de Mao e o mais radical dos líderes da Revolução Cultural. Mas, ao que tudo indica, o clima de crise política no país foi responsável pela escolha de Teng Ying-chao, a pequena e enérgica mulher de Chu En-lai, para essa tarefa. Teng, que ingressou no partido como líder estudantil, casou-se com Chu em 1925 e foi uma das raras mulheres a acompanharem o marido na Longa Marcha. Chiang Ching, quarta esposa de Mao e número três na atual hierarquia política, também poderá se avistar com Pat, mas sua participação na visita seria inteiramente secundária. O próprio Mao Tsé-tung deverá aparecer menos, ao longo desta semana de encontros, do que o primeiro-ministro Chu En-lai.

INÍCIO DE PROCESSO - De qualquer forma, considerando-se o caráter evasivo das declarações do secretário de imprensa da Casa Branca, Ron Ziegler ("Nixon deverá se entrevistar com líderes chineses"), e a falta de um temário oficial, os jornalistas certamente não receberão qualquer "briefing" sobre as conversações antes da divulgação de um comunicado final. Saberão apenas que houve uma reunião de tantas horas com tais pessoas.

Parece evidente, no entanto, que o que se quer, de ambos os lados, não é apenas fazer viagens mas iniciar um processo de contatos em que Pequim e Washington possam entender seus propósitos respectivos; desta forma, em pontos de desentendimento, os dois países poderiam discordar sem o risco de levar as hostilidades a um nível perigoso. E, nos setores onde seus interesses fossem convergentes, as portas estariam abertas para maiores entendimentos.

Embora Henry Kissinger preferisse não especular sobre as áreas em que poderia haver acordos formais, ele declarou na semana passada que Washington esperava a institucionalização de contatos diplomáticos, mas, da mesma forma que Chu En-lai rejeita qualquer possibilidade de visitar os EUA na situação atual - "Enquanto houver uma embaixada de Formosa nos Estados Unidos, vocês não me verão lá" -, o governo de Pequim parece não pensar em troca de embaixadores antes de uma solução, mesmo provisória, do conflito no sudeste asiático.

TRIÂNGULO - Observadores políticos em Londres, conta Oriel P. do Valle, correspondente de VEJA, acreditam que Nixon dará aos líderes chineses o apoio dos Estados Unidos para a entrada da China na Comissão de Desarmamento da ONU. Ao mesmo tempo, abrirá uma ampla discussão sobre desarmamento e controle de armas nucleares, inclusive as negociações bilaterais atualmente em curso entre a URSS e os EUA. As questões dos três prisioneiros americanos detidos na China ou da instalação de um telefone direto entre Pequim e Washington terão bem mais chances de serem resolvidas do que os espinhosos temas do futuro de Formosa, da militarização do Japão, da divisão da Coréia. No que se refere ao intercâmbio comercial, Nixon já deu provas de boa vontade ao relaxar ainda mais, na semana passada, as restrições que vigoraram durante 22 anos, concedendo à China "completa paridade" com os soviéticos.

Essa paridade reflete um novo equilíbrio de forças no mundo, substituindo a antiga polarização da guerra fria por um triângulo isóscele cujos vértices estão em Washington, Moscou e Pequim.

Ou talvez não tão isóscele assim: a União Soviética tem hoje nas proximidades das fronteiras chinesas quase 1 milhão de soldados - o mesmo número que no governo Johnson cercava a China.

No momento em que Nixon chega a Pequim, é evidente que os americanos estão mais próximos dos chineses do que dos russos. Isso se nota não apenas nos grandes vôos diplomáticos como nos detalhes mais prosaicos da vida americana: programam-se cruzeiros à China, surge um grande entusiasmo pela cozinha e a moda chinesas, livros sobre o país de Mao são best sellers garantidos.

No entanto, a estratégia americana tem menos o sentido de construção de uma íntima aliança bilateral do que de recuperar um atraso de duas décadas na sua política asiática. É preciso não esquecer que o incansável viajante Richard Nixon estará em maio em Moscou, conferenciando com os homens que a China vê hoje como seus maiores inimigos.


Dois profissionais

O aluno de Metternich e o admirador de Stálin

O suave e maneiroso neto de mandarim manchu (e não chinês jaino) é capaz de interromper uma afável discussão política para lembrar polida mas firmemente que o visitante ocidental não deve comer as folhas de lótus que acompanham o guisado de porco. O arrogante e irônico filho de professor ginasial judeu-alemão (e não anglo-saxão) pode muito bem dizer que na próxima semana não é possível haver crises, pois sua agenda está toda tomada.

São dois profissionais brilhantes. Por isso mesmo, tanto Chu En-lai como Henry Kissinger devem no íntimo estar convencidos de que a aproximação entre a China e os Estados Unidos, exatamente por ser viável, tornou-se quase inevitável. No entanto, mais do que ninguém, são eles os principais responsáveis, no mínimo, pela escolha do maior momento deste início de década.

Os motivos de Chu En-lai são simples. Trata-se de romper o isolamento do comunismo chinês, e abrir uma nova frente contra o comunismo soviético.

Os motivos de Henry Kissinger são mais complicados. Não é apenas uma nova fronteira que se abre no tabuleiro internacional, deixando sob ameaça de xeque a União Soviética. Era necessário dar novo combustível à perene esperança americana. "Se houver uma revolução nos Estados Unidos, não será dirigida por universitários cabeludos da classe média. E sim pelas hordas frustradas e zangadas da direita, que sentirão que o país foi derrotado e humilhado militar e economicamente no Vietnã e em outros lugares", disse Kissinger em novembro passado. Ele pretende, com novos triunfos diplomáticos e uma "retirada honrosa" no Vietnã, aplacar a direita, "a fim de poupar o país de uma tentativa de revolução de tipo fascista".

Nem todas as pessoas em volta ficarão em atencioso silêncio quando eles começarem a falar em publico - se é que ambos vão falar em público. Para ouvi-los, não é necessário formalizar-se numa atitude estática de atenção solene. Eles também aparecerão muito menos, nas fotos e nas transmissões ao vivo pela televisão, do que os dois presidentes, Mao Tsé-tung e Richard Nixon. Concretamente, no entanto, talvez as palavras trocadas entre o primeiro-ministro Chu En-lai e o conselheiro presidencial para a Segurança Nacional, Henry Kissinger, se tornem mais relevantes para o futuro do que as dos dois donos da festa.

A explicação é simples. Ambos conhecem o dia-a-dia das complicadas relações internacionais da atualidade melhor do que seus líderes. Também parecem mais conscientes da profunda influência exercida sobre os acontecimentos diários ou episódicos pelas grandes linhas já milenares da história universal.

Não há dúvida de que Chu En-lai tem uma experiência muito mais variada do que a de Henry Kissinger. Nesse ponto, o ocidental de 48 anos é um neófito perto do oriental de 73. No entanto, o revolucionário e o conservador poderão encontrar uma linguagem comum. Muito mais facilmente, pelo menos, do que Nixon e Mao.

Cada um deles reverencia um homem que morreu cercado pelo ódio de grande parte de seus contemporâneos - e que a posteridade não costuma homenagear.

Kissinger: "Ele era uma figura rococó, complexa, finamente esculpida, toda superfície, como um prisma cortado intricadamente. Sua face era delicada mas sem profundidade, sua conversação brilhante mas sem seriedade rigorosa. Igualmente à vontade no salão e no gabinete, era o 'beau-ideal' de uma aristocracia que se justificava não pela sua verdade, mas pela sua existência. E se nunca chegou a uma concordância com a nova era não foi por não ter compreendido sua seriedade, mas porque ele a desdenhava". Seu herói é o príncipe Clemens Metternich, chanceler conservador do Império Austro-Húngaro, no século passado, a quem Kissinger dedicou sua tese de doutorado em Harvard.

Chu En-lai: "Ele tinha, sem dúvida, seus defeitos. Quando da Conferência de Ialta, por exemplo, com Roosevelt e Churchill, não levou suficientemente em consideração os interesses da China. Mas, se se consideram suas ações na escala do planeta, há muitas coisas a dizer em seu favor. Nós vemos nele um grande marxista-leninista. Lênin, lamentavelmente, morreu cedo demais e então apenas ele e ninguém mais poderia assegurar a sobrevivência da União Soviética, ninguém. Sem os quinze anos de construção da União Soviética, teria sido impossível bater os alemães". Falava, em agosto passado, de Yussif Vissarionovitch Stálin, o homem que tantas dificuldades criou para o comunismo chinês.

Nessas reverências comovidas a personalidades fortes e autoritárias, opostas politicamente mas identificadas pelo afã de impedir a evolução que não desejavam, Chu e Kissinger podem sem dúvida encontrar algo em comum. Mas há uma diferença: Kissinger, quando fala de Metternich, está falando de si mesmo. Chu, ao referir-se a Stálin, está discutindo outra pessoa.

Em Metternich, Kissinger vê-se como num espelho. Teve porém a desvantagem de não nascer príncipe (Chu poderia, ironicamente, ter sido mandarim, se a revolução republicana de 1911 não tivesse abolido os títulos) e a vantagem de se ter formado em Harvard. Sua primeira obra para o grande público, "As Armas Nucleares e a Política Externa", foi um best-seller nos fins da década de 50. Ele contrapunha à "retaliação maciça", então predominante, a "resposta flexível" e a "guerra nuclear limitada". Foi assessor do governador republicano Nelson Rockefeller e do presidente democrata John Kennedy, sem ter causado impressão particular. Nesse tempo ainda era um tímido acrescentando a esse defeito profissional o retraimento de um jovem refugiado do nazismo.

No entanto, nesse tempo Kissinger já trazia em si solidamente alicerçados os fundamentos da teoria que hoje domina a política externa americana. Trata-se da velha noção do equilíbrio do poder. Pelo menos na prática - e não na teoria - essa noção pode muito bem ser compreendida e aceita por Chu En-lai, antigo estudante de geologia e política na Inglaterra, França e Alemanha.

A regra principal do equilíbrio do poder, em que Metternich foi mestre, reza que, quando as nações entram na arena da política internacional, elas agem como Estados-nações. Não são governos revolucionários ou conservadores, direitistas ou esquerdistas. E sim entidades dispostas ao compromisso, maleáveis, tendentes a negociar quando ameaçadas pelo uso da força. Conservadores e revolucionários podem assim entender-se, em benefício mútuo, tendente a favorecer o mais forte. Casos raros são os movimentos ultra-radicais, que pretendem alterar o equilíbrio do poder. A arma a utilizar contra eles não é a ameaça - e sim o uso da força, até reduzir o adversário à necessidade da negociação.

É essa a política que Kissinger procura introduzir no Vietnã exatamente um "caso raro". O coração da teoria, o entendimento entre Estados-nações, é o que ele está fazendo na China. Assim agia Metternich na Europa do século passado. Chu aceita essa primeira parte da regra - mas contra o parágrafo que tem sido aplicado no Vietnã não se cansa de queixar-se. No entanto, o equilíbrio do poder é um jogo em que quem entra dificilmente pode sair, a não ser que tenha sido liquidado.

A convocação de Kissinger por Nixon foi surpreendente. Ao assessorar o candidato a candidato Rockefeller, Kissinger havia criticado Nixon: "Esse homem simplesmente não serve para presidente". Raramente, porém, dois homens se deram tão bem na política americana como Nixon e Kissinger. Em parte, isso advém de Kissinger não poder de modo nenhum projetar uma sombra política: como imigrante e erudito, seu futuro só pode resultar de nomeações - nunca de uma eleição.

Mais surpreendente foi o modo pelo qual o tímido Kissinger domou, mesmo sem amestrá-los, os velhos leões do Departamento do Estado, do Pentágono, das agências de segurança, do Senado e da Câmara que, até então, enfiavam cada um sua colher no caldeirão da política externa americana. Essas instituições - e seus chefes - preferiam lidar diretamente com o presidente. Kissinger conseguiu tornar o inoperante Conselho de Segurança Nacional - e a sua pessoa, como conselheiro especial - não só a única via de acesso a Nixon como também no filtro de todas as sugestões sobre política internacional ao presidente. Mesmo que partam do secretário de Estado, William Rogers. Mais do que isso, as viagens secretas e depois públicas de Kissinger a Pequim, para combinar a viagem de Nixon, e a Paris, para discutir diretamente com o Vietnã do Norte e a Frente Nacional da Libertação do Vietnã do Sul, o transformaram no "segundo homem mais poderoso do mundo". Desde que o primeiro seja Nixon.

Pois Kissinger não tem de prestar a ninguém conta de suas ações, nem mesmo ao Congresso americano. Não é ministro, não é funcionário de carreira - apenas tem de manter a confiança de seu chefe para manter o cargo. Pôde até dar-se ao luxo, no caso dos documentos secretos divulgados pelo jornalista Jack Anderson, de não dar a menor atenção à divulgação das suas dasastradas afirmações não destinadas ao público sobre a guerra entre Índia e Paquistão. No entanto ninguém duvida que seja Kissinger o elaborador da política externa americana. Mas não só por esse motivo ele se tornou uma figura internacional. A sua imagem pública é formada por três faces iguais: ao lado do estrategista intelectual estão o misterioso agente da diplomacia secreta e o playboy conquistador. Possivelmente, seu lugar na história estará definitivamente conquistado - se já não estiver - quando revelar seu maior segredo: como arranja tempo e disposição para tudo isso.

Também Chu - que vive pacatamente com a mulher com a qual se casou em 1923 - é quem dirige a política, tanto interna quanto internacional de seu país. Seus métodos - mesmo porque está em função executiva - são outros, mas não menos astuciosos. Em sua carreira política, iniciada em 1919, apenas três vezes entrou em dificuldades sérias - além, é claro, das vicissitudes militares da guerra revolucionária. Na primeira, em 1919 mesmo, ficou preso um ano, por ter participado de um comício contra a influência japonesa na China.

Na segunda vez, ficou do lado vencido numa discussão do PC chinês e na Internacional Comunista, em 1930. Achava que a revolução chinesa devia ser "urbana", venceu a ala que pretendia a "revolução vinda do campo". Chu teve de fazer autocrítica. Na terceira vez, na Revolução Cultural, também teve de fazer autocrítica - mas na verdade isso já fazia parte do esquema que elaborou para não cair mais em dificuldades políticas: nunca mais saiu às ruas, desde 1919, e nunca mais ficou verdadeiramente do lado vencido - desde 1930. É simples. Sempre que há uma discussão do PC chinês, como no Grande Salto ou na Revolução Cultural, primeiro surge uma linha esquerdista, que se vai radicalizando e cada vez ganhando mais adeptos. Desde o início, Chu, tradicionalmente o organizador e estabilizador, fica contra a corrente esquerdista. Apenas quando ela já chega ao triunfo completo, ele passa a apoiá-la e exige, inclusive, que a nova linha vá às últimas conseqüências, já que foi aprovada. Quando vem a crise, ao invés de dizer "eu não disse?", continua a defender a linha esquerdista, contra a maré da direita que começa a subir. É quando é chamado para por em ordem a casa, sem que ninguém possa acusá-lo de direitista ou esquerdista. Essa caricatura não deve ser considerada exagerada. Chu está plenamente consciente da importância de seu papel de moderador - e o exerce com a perfeição de um ator à altura do drama.

Deverá, mais uma vez, entender-se bem com Kissinger. São dois profissionais.


 
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