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22 de julho de 1992
O sol ascendente

Japão, a potência que se ergueu das cinzas,
acerta economia e prepara-se para disputar
a liderança mundial no próximo século

Em agosto de 1943, no segundo ano da guerra do Japão com os Estados Unidos, o comando militar de Tóquio ordenou que fossem mortos os bichos do jardim zoológico do Parque Ueno. Primeiro foram os ursos, depois os leões e os leopardos. Os elefantes eram três - John, Wan-li e Tonki - e deveriam morrer antes do fim do mês. Injetaram cianeto numa batata, mas John jogou-a no funcionário. Botaram veneno na água mas não a bebeu. Mataram-no de fome. Wan-li morreu cinco dias depois. Restava Tonki, a caçula, favorita dos visitantes. Quando via os velhos funcionários, ajoelhava-se sobre as patas dianteiras e erguia a tromba. Repetia a brincadeira esperando que lhe dessem comida, como nos tempos de paz. Tentou por dez dias até que lhe faltaram as foças. Tonki morreu de fome no dia 23 de setembro de 1943.

Hoje, salvo um elefantinho de pelúcia deixado ao pé do monumento aos animais mortos durante a guerra, nada no zoológico de Tóquio lembra a história de Tonki. Os elefantes são quatro e Daya, a caçula, come por dia 300 quilos de folhas, forragem, cenouras e pão. Símbolo esquecido da tristeza de um Japão destruído, o Parque Ueno é hoje uma vitrine das singularidades da sua riqueza. Enquanto a classe média de Tóquio filma as jaulas e paga 2 dólares pela lata de cerveja, nas aléias de Ueno saltimbancos de todo o mundo pedem dinheiro aos japoneses. Do escocês tocando Oh Suzana na gaita de fole a Kerry Tonelli, o homem-banda americano ("Por favor, não contem que estes parques japoneses são bons, senão vem mais gente"). Um ex-engenheiro da força aérea peruana toca El Condor Pasa numa flauta, um iraniano tira do acordeom O que Será, Será e agradece as gorjetas com um "Merci, madame". Argentinos vendem pulseiras tailandesas, uma israelense vestida de odalisca azul-celeste oferece artesanato indiano e uma mexicana mostra pulseiras africanas. Mister Toot, um Carlitos nova-iorquino hipermaquilado, faz esculturas com balões de borracha e informa: "Estou há dez anos nisso, já atravessei a Europa e a Ásia. Cheguei há duas semanas e acho que este parque tem futuro".

Entre a morte de Tonki e a chegada de Mister Toot o Japão tornou-se a segunda potência do mundo. Desde as conquistas de Gengis Khan, há quase 1 000 anos, nunca uma nação asiática teve tamanho poder.

Para quem gosta de grandes números: o Japão tem a segunda maior economia do mundo e os maiores índices per capita em relação ao produto nacional bruto. Cada japonês vale, em tese, 25 500 dólares, contra 22 000 dólares para cada americano. A produção industrial japonesa poderá ultrapassar a dos Estados Unidos ainda nesta década. Se a sua economia crescer em média 2 pontos percentuais mais que a americana, no ano 2010 ela será a maior do mundo.

Para quem gosta de indicadores sociais: a expectativa de vida do japonês é a maior do mundo, com 82 anos para as mulheres e 76 para os homens, superior em três anos à dos americanos. Nove em cada dez estudantes termina o curso secundário. Desemprego? Nem pensar.

Para quem gosta dos sinais exteriores de riqueza: os dois homens mais ricos do mundo são japoneses - Taikichiro Mori (imóveis) e Yoshiaki Tsutsumi (ferrovias), cada um com mais de 10 bilhões de dólares.

Para quem gosta de cultura clássica: os japoneses pagaram a restauração das pinturas de Michelangelo na Capela Sistina e a substituição dos bronzes das Portas do Paraíso, de Lorenzo Ghiberti, no Batistério de Florença. É provável que banquem boa parte da restauração dos templos de Angkor, no Camboja, considerados como uma das maravilhas do mundo e massacrados pela guerra civil. O quadro mais caro do mundo, o Dr. Gachet, de Van Gogh, foi comprado por um industrial japonês. Pagou 87 milhões de dólares.

Cultura pop: Michael Jackson pertence ao plantel de artistas da Sony. O cantor custou 60 milhões de dólares.

Todo esse poderio foi visto até o ano passado como um sinal de que o Japão compraria o mundo. Enquanto a bolsa de Nova York assustava os investidores, a de Tóquio navegava altaneira, sem tombos. O índice Nikkei encostava nos 40 000 pontos. Numa cruel metáfora, o presidente George Bush, depois de desembarcar em Tóquio para arrancar concessões comerciais do primeiro-ministro, Kiichi Miyazawa, acabou vomitando-lhe nas calças.

Para velhos quadros da burocracia japonesa, como Yasushi Mieno, presidente do Banco do Japão - instituição semelhante ao Banco Central -, havia milagre demais naquela grande procissão. Nascido na Manchúria a 65 anos, Mieno viveu naquele Japão onde os elefantes morriam de fome. Depois da guerra estudava Direito na Universidade de Tóquio e sustentava a família vendendo sabão. Com 41 anos de banco, era conhecido pelo horror à inflação e pela teimosia. (Está aprendendo inglês há doze anos).

Os sinais perturbadores estavam no ar há muito tempo. Em 1987 a corretora de papéis Nomura superara em lucro a fábrica de automóveis Toyota (lidar com dinheiro estava rendendo mais que lidar com parafusos). Dois anos depois, quando o metro quadrado de área comercial no centro de Tóquio chegou a 300 000 dólares, verificou-se que a terra da região metropolitana da capital japonesa valia mais que toda a superfície territorial dos Estados Unidos. Um quarto-e-sala custava mais de 1 milhão de dólares. A euforia japonesa baseava-se numa ciranda financeira em que, à custa de trabalhadores e de acionistas, regalavam-se bancos, corretoras e especuladores imobiliários. Para Mieno era ela de novo, mas não se deixaria pegar desprevenido, mesmo que tivesse de acabar com a festa. Ela quem? A inflação, disfarçada de prosperidade.

Mieno meteu-se numa briga com o ministro das Finanças, desafiou o empresariado e aumentou 2,5 vezes a taxa de juros, levando-a de 3,3% para 8,2%. A praça ficou sem dinheiro e o impossível aconteceu. Em março o índice Nikkei, da Bolsa de Tóquio, caiu abaixo dos 20 000. "A orgia de dinheiro fácil e a especulação levaram a economia a uma expansão histérica, que agora está entrando em colapso", apontou o economista americano Robert Samuelson. No início de abril o Nikkei caiu a 18 000, uma semana depois rolou para 16 500. "Antes de amanhecer sempre fica um pouco mais escuro", avisou o primeiro-ministro, Miyazawa, prometendo dias melhores. Enquanto não amanhece os papéis da Bolsa de Tóquio perderam 50% de seu valor. Em alguns casos, como o do colosso de comunicações NTT, essa desvalorização transformou 1,5 milhão de acionistas em micos que viram seus papéis perderem 60% do valor.

Na outra ponta do salão o mercado imobiliário caiu 30% em um ano. Em Tóquio o metro quadrado mal vale a metade do que se pagou em 1987. Todos os grandes grupos industriais e financeiros fecharam o ano de 1991 com os lucros em baixa, os investimentos externos encolheram 35%, a produção de automóveis e as vendas de videocassetes tiveram ligeiras quedas e a Sony perdeu dinheiro no primeiro trimestre de 1992. Sumiram 10 000 funcionários da bolsa e milhares de vendedores de papéis foram remanejados dentro das empresas. Desapareceu do mercado gente como Nui Onoue, dona de um restaurante em Osaka que jogava na bolsa com palpites dos deuses e certificados de depósito falsos. Ela enganou 12 bancos e detonou 2 bilhões de dólares. Quebraram 10 000 empresas, quase todas pequenas. Evaporaram-se da economia entre 5 e 6 trilhões de dólares de falsos valores, quer em papéis, quer em imóveis.

Teria sido o fim do que se chamou de "economia da bolha", talvez até da prosperidade japonesa, mas não é a primeira vez que isso acontece. O Japão, um arquipélago onde o Padre Eterno não colocou uma só gota de petróleo, deveria ter sumido do mapa do progresso industrial entre 1973 e 1980, quando o preço do barril subiu perto de 1 000%. Sobreviveu e enriqueceu reorientando sua indústria. Em 1985, quando as potências industriais obrigaram Tóquio a valorizar o iene para dificultar-lhe as exportações, parecia que aquela gente havia sido posta no seu lugar. O primeiro-ministro, Noboru Takeshita, chegou a reclamar: "Vocês querem que eu vire cantor de uma hora para outra?" Pois com o iene forte os japoneses aprenderam a cantar e compraram meio mundo, dos estúdios Universal, na Califórnia, ao Rockefeller Center, em Nova York. Em dezembro do ano passado, quando os veterano americanos voaram para Pearl Harbour, no Havaí, para lembrar os cinqüenta anos do "dia infame" do ataque aéreo que praticamente destruiu a frita dos Estados Unidos no Pacífico, descobriram que os dois melhores hotéis da ilha eram japoneses. "Nós somos devoradores de crises", ensina Naohiro Amaya, um dos mais respeitados burocratas do país. "Essa crise acaba antes do fim do ano", arrisca Soichi Saba, 73 anos, o patriarca da Toshiba, otimista como todos os patriarcas japoneses. "O Japão vai ter de agüentar dois anos de crescimento negativo", prevê o consultor Tadashi Nakamae, um dos oráculos financeiros de Tóquio, santificado depois de ter previsto a queda da bolsa e as dificuldades dos bancos com mais de um ano de antecedência.

"Por favor, não compare a contração da economia japonesa com as recessões em outros países, aqui não se despedem os empregados", pede Kaoru Hayama, diretor executivo do Banco de Tóquio. Para cada pessoa interessada em trabalhar o Japão tem 1,15 emprego. É verdade que já teve 2,5 colocações, mas a noção de desemprego ainda é estranha ao trabalhador. Neste ano a indústria japonesa vai investir 20% do seu PNB em fábricas e equipamentos, o dobro do que investirão os Estados Unidos Não há loja vazia no grã-finódromo de Ginza (na Madison Avenue, em Nova York, há uma por quarteirão). As importadoras continuam vendendo melões por 150 dólares e papaias por 10 dólares. Paraíso de perua, a butique de Gianni Versace pede 1 000 dólares por um par de sapatos de falsa pele de tigre e 3 000 por vestidos com padronagem de lenços Hermès, ambos capazes de constranger usineiro alagoano. Num subsolo sem janelas, o restaurante Arakawa continua vendendo filé mignon a 400 dólares a cabeça. Em Paris a loja de bolsas Louis Vuitton, na Avenida Montaigne, continua barrando caucasianos quando está atendendo os passageiros de ônibus de turismo japoneses. Uma surpresa para quem pensa que japonês paga qualquer dinheiro por uma griffe: no início de maio Soichiro Toyoda, o dono da Toyota, recusou-se a comprar a Rolls-Royce, não um Rolls-Royce, mas a fábrica toda.


 
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