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Reportagens 22 de junho de 1983O guerreiro da fé Hoje, na Polônia. Ontem,
É débil o povo quando consente na derrota / Quando esquece a sua missão de velar Várias décadas após ter escrito este poema de juventude, o papa João Paulo II só mudou de rima - a essência de sua convicção permanece inalterada quando fala de sua terra, de seu povo, de sua Polônia. Na manhã da última sexta-feira, os seus passos ressoaram no Palácio Belvedere de Varsóvia, a sede seiscentista do Conselho de Estado da Polônia. No salão nobre, vestindo uniforme cáqui e dez fileiras de condecorações, visivelmente crispado, esperava-o o general Wojciech Jaruzelski, todo-poderoso primeiro-ministro polonês que decretou o estado de sítio, baniu o sindicato livre Solidariedade e ordenou a prisão de milhares de opositores. Era um verdadeiro encontro de cúpula, acompanhado com paixão pelo resto do mundo. "Não perco a esperança de que este momento difícil possa abrir o caminho da renovação social, cujos princípios estão firmados nos acordos de Gdansk de 1980",disse o papa em tom de sermão. Era o segundo dia da tensa e dramática peregrinação de João Paulo II a seu país natal. A obstinação do pontífice em retornar à pátria após a decretação do estado de sítio, e confrontar-se fisicamente com as aflições de seu povo tinha uma meta: transmitir a esperança de que a Polônia possa alcançar o exercício pleno de sua autonomia e o seu lugar histórico de elo cristão entre a Europa do Ocidente e do Oriente. O ponto alto de devoção desta cruzada de João Paulo II foi reservado para uma peregrinação em homenagem aos 600 anos da presença da Virgem negra de Czestochowa, no Santuário de Jasna Gora. O momento de maior eletricidade política, por sua vez, está marcado para esta segunda-feira, quando o papa se juntar aos trabalhadores das minas da Silésia, perto de Cracóvia, sua cidade natal. ESPERANÇAS - Para os 35 milhões de poloneses, contudo, todos os instantes de João Paulo II em solo pátrio são igualmente preciosos. Envergando suas roupas domingueiras, marchando de senho franzido ou rezando com um fervor quase patriótico, os poloneses aguardavam. Entre a força de um papa, que na tarde de sexta-feira paralisaria a vida da capital quando mais de 1 milhão de pessoas tentava chegar perto do Estádio de Varsóvia para ouvi-lo, e um governo cujo controle da vida dos cidadãos desce a detalhes corno o direito de comprar chocolate, café ou carne, o pêndulo permaneceu em suspenso. Durante 2 horas e meia - uma a mais do que o programado - Jaruzelski e João Paulo II se sentaram para barganhar: em troca de uma anistia aos ativistas punidos pelo regime, o papa acenou, possivelmente com o aval dos EUA, com um afrouxamento do estrangulamento financeiro do país no mercado ocidental. "Se a situação se desenvolver com sucesso" rumo a progressivos "estágios de normalização", respondeu Jaruzelski, a "suspensão da lei marcial e a aplicação apropriada de soluções humanitárias e legais" podem "ocorrer em uma data não distante". A estrada da conciliação estava aberta. A decisão de não impedir o ansiado encontro do líder sindical Lech Walesa com João Paulo II - com a explicação de que o papa é um chefe de Estado e tem o direito de se encontrar com quem quiser - foi devidamente colocada na lista de créditos do regime junto ao papa. O amplo leque de expectativas, porém, só se esgotará ao final da visita, nesta quinta-feira. A maioria dos poloneses simplesmente espera. Para os trabalhadores da fábrica Nowotko, por exemplo, a anistia é a questão número 1. Para seus colegas da fábrica Polkolor, a questão central está no renascimento moral. Há também os que aguardam simplesmente um passaporte e a reabertura das viagens ao exterior. Também Jaruzelski tem suas esperanças - no caso, que uma normalização rápida do país se harmonize com os interesses da URSS. João Paulo II, por fim, quer a Polônia próspera e serena. É possível que nenhum desses objetivos veja a luz a curto prazo, mas pelo menos uma semente foi plantada por dois homens díspares, um general e um papa - em comum eles têm apenas a Polônia e as palavras claras. Restam várias outras polêmicas. O chefe da Igreja Católica Apostólica Romana se teria tornado por demais obsessivo com sua Polônia natal? Ele não estaria encolhendo seu papel de guia espiritual de um sexto da humanidade para combater, lado a lado com os estadistas mundiais, nas trincheiras temporais da política internacional? FATALIDADE - Não há dúvida de que a "veia polonesa" está à flor da pele em João Paulo II, e comanda as alavancas de seu pontificado: quase cinco anos após ter cancelado sua reserva de volta para Cracóvia por ter sido eleito papa em Roma, Karol Wojtyla ainda age e reage, luta e medita, ora e decide como um bispo polonês. Não há dúvida, também, de que João Paulo II, desde que assumiu o trono de São Pedro, deu ao Vaticano uma voz e um peso político extraordinários. Mas acima disto tudo está "um homem de fé, de fortíssima fé, quase infantil", como o definia o velho primaz da Polônia, cardeal Stephan Wyszynski - uma força mística na natureza, que não iria à Polônia nem a parte alguma se não fosse para pregar sua doutrina aos homens que, crê ele, são o centro do Universo, feitos à imagem e semelhança de Deus. "Quem não entendeu que a preocupação religiosa é dominante, exclusiva no atual pontificado", observa o ex-primeiro-ministro italiano Giulio Andreotti, especialista em fintas políticas e na arte de entender papas, "arrisca caminhar irremediavelmente pela estrada errada." No caso da Polônía, naturalmente, os caminhos da fé e da política se cruzam com uma fatalidade inescapável - e isso tem uma influência decisiva nas ações de João Paulo II, ao contrário do que sucedeu com seus antecessores nos últimos 100 anos, todos eles moldados em uma escola de vida mais formal. Neste século, que para o Vaticano se abriu com a esplendorosa coroação de Pio X usando uma tiara ornada por 529 diamantes, 252 pérolas, 32 rubis e dezenove esmeraldas, todos os papas chancelaram seu currículo com uma passagem pela Secretaria de Estado - órgão diplomático e essencialmente político da Igreja. Leão XIII cursou a Pontifícia Academia de nobres eclesiásticos. Bento XV serviu no corpo diplomático. Pio XI foi núncio apostólico. Pio XII ingressou jovem para a Secretaria de Estado e foi professor de Diplomacia Eclesiástica. João XXIII foi Visitador Apostólico na Bulgária e núncio em Paris. Paulo VI, enfim, cursou a Pontifícia Academia e serviu na Cúria por mais de trinta anos. Seu sucessor, João Paulo I, eleito em agosto de 1978, teria sido a primeira exceção, mas seu pontificado de apenas 34 dias acabou não existindo para efeitos práticos. CARISMA UNIVERSAL - Repousa assim sobre os ombros de Karol Wojtyla, desde sua coroação em outubro de 1978, não só a carga de ser o primeiro papa não-italiano em mais de quatro séculos como também o de ser o primeiro cuja percepção da política não é acadêmica. A teologia, na Polônia de Wojtyla, cerrava fileiras com a luta armada contra a ocupação nazista, primeiro, e com a luta surda contra o regime comunista, depois. Quando Wojtyla ingressou no seminário clandestino patrocinado pelo arcebispo de Cracóvia, em 1942, aos 22 anos de idade, já conhecia as dolorosas agruras da guerra. Ele partilhara da desilusão do povo polonês diante da invasão alemã e do desmoronamento do seu Exército. Tivera amigos na Resistência, assistira ao esforço coletivo da organização católica para esconder judeus da Gestapo e sofrera as restrições ao culto mariano devido às conotações patrióticas da celebração de Nossa Senhora de Czestochowa, rainha da coroa polonesa. Sobretudo, já trabalhara como operário e descobrira nos palcos estudantis o fascínio da palavra e uma vocação inata de ator. Essa vivência serviu de sólida alavanca para João Paulo II subir com decisão no palco da política mundial, e lá brilhar, desde então, como estrela de primeira grandeza. "Como papa e vigário de Cristo, voltado para a missão e a enorme responsabilidade de salvar a humanidade, João Paulo II é, sem dúvida, o grande homem deste final de século", diz o americano George Williams, professor da Harvard Divinity School e autor de um dos mais respeitados trabalhos sobre o papa. Como os grandes místicos, João Paulo II ressuscita palavras gastas, injeta-lhes corpo, alma, juventude e musculatura - e sai mundo afora numa luta quase épica contra o tempo material. À falta de uma língua universal compreensível por todos, João Paulo II vai aprendendo todos os idiomas que se colocam em seu caminho de pregador - hoje em dia, ele já é capaz de se exprimir de forma perfeitamente inteligível em 44 línguas. Na opinião do cardeal americano John Kroll, arcebispo de Filadélfia e um dos príncipes da Igreja mais próximos a João Paulo II, o papa acredita que é um grande comunicador e que, por mais magníficas e necessárias que sejam as encíclicas elaboradas por escrito, um contato pessoal com seu rebanho tem peso muito maior. "Artigos e documentos têm seu valor", diz Kroll, "mas a maior contribuição de João Paulo II é o que ele irradia diretamente para suas audiências." Marcado pela experiência de ter visto sua Igreja, na Polônia, presa pelo regime comunista à camisa-de-força do silêncio, sem acesso ao poder multiplicador dos meios de comunicação, o papa parece decidido a recuperar o tempo perdido e usar seu carisma universal da forma mais ostensiva e cênica possível. O resultado é que em menos de cinco anos de pontificado, João Paulo II tornou-se um líder mundial. Segundo uma pesquisa de opinião divulgada dias atrás em Paris, a maioria dos franceses considera o papel de João Paulo II no mundo de hoje mais importante que o do presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, ou do líder soviético Yuri Andropov. Esta percepção popular pode não corresponder à realidade dos fatos na arena concreta da política mundial, onde todos os dias são tomadas decisões que em pouco ou nada levam em conta as opiniões e desejos de João Paulo II. Mas é certo que neste final de século, o papa e sua fé messiânica estão tendo um peso político singular. ARMADILHAS - Essa presença marcante é fruto, em grande parte, de sua postura diante do mundo. "Um homem com a experiência pessoal deste papa", procura resumir um de seus mais próximos colaboradores, "é como uma dessas crianças de países da Ásia ou África, que desde cedo aprendem a distinguir o tiro de morteiro do tiro de canhão. Ele é capaz de ver as coisas mais complexas de forma simples." Resulta daí, na opinião do círculo íntimo de João Paulo II, um líder religioso que "sem querer fazer política, faz política bem feita - ao contrário de padres e bispos que querendo fazer política a fazem mal". Pelo menos para efeito de economia interna do Vaticano, acredita-se que este estilo deu certo nos últimos cinco anos. No caso específico das viagens pontifícias ao exterior, a noção predominante é a de que seu pontificado vem acumulando muito mais acertos que erros. O editor de religião do New York Times, Kenneth A. Briggs, autor de uma aguda análise do pontificado de João Paulo II, concorda com esse balanço, acrescentando que João Paulo II é sem dúvida mais eficiente no Terceiro Mundo do que no primeíro. "Eu o vejo como uma figura simbólica extremamente importante, que todos ouvem com êxtase, mas com o qual não concordam necessariamente", diz Briggs. Este pontificado móvel inaugurado por João Paulo II tem suas armadilhas. Quando a viagem vem revestida de urn manto essencialmente pastoral, como as visitas ao Brasil, França ou África Negra, o resultado é imponente e arrebatador. Quando, em contrapartida, uma questão mais imediata de política se atravessa à fervorosa caminhada do papa - como ocorreu na Inglaterra, Argentina ou Nicarágua - os ganhos pastorais não chegam sequer a aflorar e o fracasso da missão tem sido freqüente. A decisão de ir à Inglaterra em plena guerra das Malvinas, no ano passado, apenas para não alterar planos longamente acalentados, acabou tendo como resultado mais visível a repentina obrigatoriedade de visitar, também, a Argentina. Essa esdrúxula compensação ao regime do general Leopoldo Galtieri, por sua vez, em nada abreviou a agonia da guerra - que só acabou com a capitulação final de uma das partes. O caso da Nicarágua, país inextricavelmente atrelado a seu périplo de março último à América Central, foi ainda mais tempestuoso. Os riscos físicos da cruzada centro-americana justificariam plenamente o adiamento da visita de João Paulo II para um momento menos explosivo - pela primeira vez desde que o pontífice se pusera em movimento mundo afora o Ministério do Interior da Itália sugeriu que ele vestisse um colete à prova de balas. Mas João Paulo II obstinou-se em ir, aconselhado pelo cardeal colombiano Alfonso López Trujillo e calçado em sua própria convicção de que a coragem não é uma qualidade inútil. Acabou chocando-se com riscos de outra ordem. Ao desembarcar no Aeroporto de Manágua, o papa pisou num minado campo de batalha eclesiástico e político. Como atesta dom Hélder Câmara, arcebispo do Recife, "na Nicarágua ou se entra por uma mão ou por outra". Em outras palavras, ou se descontenta os comunistas ou os contra-revolucionários. Há pouco espaço, naquele cobiçado território, para uma pregação estritamente pastoral. Assim foi. Para fazer ouvir sua voz de pastor, João Paulo II teve de gritar como um político. Para se fazer ver, teve de subir num palanque onde murais dos heróis da revolução sandinista conseguiram esmagar sua figura habitualmente grandiosa. Para injetar confiança, fé e esperança em seu rebanho, deixou a Igreja da Nicarágua tão ou mais dividida do que antes. CHEFE EXECUTIVO - Para Wojtyla, a análise de suas empreitadas deve ser feita de outro ângulo - trata-se de dar exemplo de destemor na pregação da palavra de Deus, seja a ocasião oportuna ou não. "Eu não me surpreenderia se num momento crítico nas relações entre as superpotências João Paulo II se dispusesse a voar entre Moscou e Washington ou servir de mediador por telefone, fazendo uso de seu inglês e russo fluentes", opina um observador de talento. As incursões políticas mais polêmicas do papa não ocorrem, necessariamente, além dos muros do Vaticano. Sua decisão de receber o líder palestino Yasser Arafat, em setembro passado, na histórica Sala de Audiências do Palácio Pontifício, provoca celeuma até hoje. "A audiência", explicou a VEJA uma fonte autorizada, "havia sido negada várias vezes, mas com a invasão do Líbano pelas tropas israelenses, o papa julgou que chegara a hora de concedê-la." Não demorou muito a surgir uma conseqüência direta do gesto do Vaticano. O governo de Israel, que sempre ignorara a Santa Sé, iniciou recentemente gestões para estabelecer, pela primeira vez na História, contatos diplomáticos permanentes. Foi a resplandescente visibilidade de João Paulo Il nos quatro cantos do mundo que ajudou a traçar, com mais segurança, o seu perfil de pontífice, no qual sobressaem algumas características básicas. João Paulo II é autoritário, direto, sublima o poder da oração e encarna pessoalmente a instituição que representa. No fundo disso tudo, a sua marca indelével - ele é um polonês que é papa, e não o inverso. Trata-se de um chefe incontestável, sem as profundas dúvidas que corroíam o espírito fino de Paulo VI, nem a personalidade paternal de João XXIII ou a vocação de Pio XII para o isolamento. Naturalmente, todo papa é um monarca absoluto, mas o que distingue Wojtyla de seus antecessores é o seu lado mais executivo, mais semelhante a um presidente de uma grande companhia, que comanda de forma moderna e faz com que os subordinados executem o que ele quer. João Paulo II age mais à semelhança de um executivo que tem de cumprir um programa aprovado pela Assembléia Geral de acionistas - mas que ele próprio apresentou. Seu estilo de comando, no Vaticano, deixa em polvorosa a mais antiga burocracia do mundo - a Cúria Romana. "Para João Paulo II não há urgência", diagnostica um colaborador direto de Wojtyla. "Urgente" passa a ser apenas o que ele, papa, determina que o seja. Como pontífice João Paulo II também já se tornou notório pelo estilo direto. Ao arcebispo mexicano Sergio Mendez Arceo, por exemplo, disse certa vez que, por não portar sua cruz pastoral, não estava "adequadamente vestido". Dificilmente um interlocutor do papa conseguirá pegá-lo desprevenido em questões da Igreja. Durante um recente almoço de trabalho do papa com dom Eugênio Sales, cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, e outros três cardeais, em Roma, um dos convidados aparteou o pontífice sugerindo que o assunto em discussão precísava ser melhor estudado. Poderia ter ficado calado: sem pestanejar, João Paulo II infôrmou-o de que o tema já fora estudado e rendera uma publicação de título tal e número tal. CADERNINHO NA MÃO - É no capítulo do estilo intransigente de liderança de João Paulo II que pipocam as críticas mais freqüentes a seu pontificado. "O papa certamente atenderia a um fundo clamor da Igreja se se pautasse por uma maior colegial idade no comando da Igreja, conforme prega o Concilio Vaticano II",admite o monsenhor John Tracy Ellis, professor de História da Igreja na Universidade Católica de Washington, nos EUA. Em outras palavras: João Paulo II ouve atentamente cardeais e bispos, mas acaba fazendo o que planejou desde o início. Durante o último sínodo de 1980, por exemplo, o papa compareceu a todas as sessões, sempre com um caderninho de anotações em punho. Sua presença constante causou espanto, pois seu antecessor Paulo VI comparecia apenas à sessão inaugural, deixando os bispos debaterem com mais liberdade. Imediatamente após o final do sínodo, João Paulo II começou a redigir a sua Carta dos Direitos da Família, que nada tem a ver com as anotações que fizera, e muito menos com o que foi debatido pelos bispos. Não raro, este estilo de comando lhe traz problemas: sua viagem de outubro de 1979 aos Estados Unidos, por exemplo - uma das primeiras de seu pontificado e a mais exuberante entre as dezessete que fez até hoje -, acabou sendo a mais fraca, do ponto de vista da liderança da Igreja americana. João Paulo II decidiu impor com particular severidade a sua perspectiva de hierarquia, sem levar em conta a firmeza de opiniões do clero americano em questões como controle da natalidade e divórcio. "Ele pontificou para os bispos em Chicago como um mestre-escola disciplina seus alunos para trazê-los à linha, mas a reprimenda não funcionou", testemunha o monsenhor Ellis, de Washington. O papa também não deu atenção à sugestão da igreja americana de adiar ou antecipar em alguns dias sua visita aos EUA para que ela não coincidisse com a festa do perdão dos judeus. "Ele aterrissou bem no meio do Yom Kippur", observa um estudioso do Vaticano, "demonstrando surpreendente insensibilidade pela comunidade judaica americana, a segunda maior do mundo". Fatos como esse podem tomar-se mais raros. O reverendo americano Theodore Hesburgh, presidente da Notre Dame University, sugere que João Paulo II se está tornando "mais afiado" em suas viagens ao exterior. "Gradualmente", observa Hesburgh, "o papa tende a ouvir mais a hierarquia local no planejamento de suas visitas. Na visita ao Brasil, que foi uma das mais bem-sucedidas, os bispos locais já se fizeram ouvir e tiveram infuência na determinação do roteiro e no conteúdo das homilias papais." É sabido, com efeito, que antes de pronunciar os 54 discursos por ele elaborados para sua peregrinação brasileira, João Paulo II submeteu cada um deles ao bispo brasileiro local, solicitando sugestões de emendas ou alterações. Quando dom Aloísio Lorscheider, arcebispo de Fortaleza, solicitou oito retificações através de seu primo, dom Ivo Lorscheiter, elas foram feitas. RÉDEAS CURTAS - "Que ele é teologicamente conservador", diz o monsenhor Ellis, "é algo tão óbvio quanto dois e dois são quatro. Acho, também, que ele não vai mudar. Mas suponho que um certo grau de conservadorismo seja até saudável, para que a minoria de pensadores católicos que se tenta acomodar ao mundo modemo não ameace fazer ruir a essência da fé católica." No entender de Ellis, é a substância da Igreja que está em jogo, e é uma dádiva histórica que João Paulo II tenha sido feito papa num momento "em que nossa casa perdeu o sentido de direção". João Paulo II não é o tipo que apenas lamenta o estado atual das coisas - ele se ergue e diz basta como que batendo as mãos, de forma disciplinar. Paulo VI sofria intensamente com as divisões da Igreja e a deserção de sacerdotes. "Certa vez estive com ele", conta dom Eugênio, "e levava a carta de um padre que pedia a laicização. 'Como isso me entristece', disse apenas Paulo VI." João Paulo II, em contrapartida, simplesmente trancou há cinco anos - com raríssimas exceções - qualquer licença de abandono do sacerdócio, condenando os candidatos a uma amarga tempestade interior. Filho da Igreja polonesa que recusa seminaristas por falta de lugar, e que até hoje exporta padres para o mundo inteiro, o papa jamais admitiria facilitar o minguar da fé durante seu pontificado. Embora inovador no estilo pessoal, João Paulo II mantérn curtas as rédeas com experimentações na liturgia. Segundo um diplomata que habitualmente recebe a comunhão do papa no Vaticano, mais de uma pessoa já tentou pegar com a mão a hóstia consagrada por João Paulo II - inovação do Concílio para acabar com o privilégio de que só o sacerdote é digno de tocar no símbolo da eucaristia. Em todas essas ocasiões, o interessado ficou com as mãos abanando. Outros habituais freqüentadores do gabinete pontifício já renunciaram há tempos ao impulso de experimentar com inovações litúrgicas - eles sabem que, no entendimento de João Paulo II, deve prevalecer a rígida moldura que deu unidade à Igreja polonesa. DÍVIDA RESGATADA - Por mais que se busque outros caminhos na mente de João Paulo II, todas as rotas de sua floresta metafísica e doutrinária acabam desembocando, de fato, na iluminada clareira da fé polonesa. "Este papa polonês exige uma unidade no pensamento teológico da Igreja, porque a sobrevivência da Igreja da Polônia só foi possível graças à sua inquebrantável união e oposição em bloco a todos os invasores e opressores", interpreta o especialista Kenneth Briggs. Ocorre, porém, que essa militância em bloco não faz parte da tradição do pensamento ocidental, que é mais pluralista, e poucos negam a grande dificuldade de João Paulo II conviver com dissidentes e diferenças de opinião. Da mesma forma como ele ouve cardeais e bispos mas acaba fazendo o que quer, o papa também se envolve em discussões de ordem filosófica com pensadores da Igreja, mas acaba concluindo que todas as questões fundamentais da teologia já foram estabelecidas, que os princípios básicos da fé são inquestionáveis e não há por que remoer os dogmas da Igreja. Mais que qualquer outro papa, João Paulo II se vale dos altares para demonstrar seu apreço pelo que o próprio homem constrói nas profundezas de seu espírito. E, pela mesma via, procura condenar tudo o que se interpõe à consciência, à vontade e à liberdade desse homem. A Polônia é o país onde com mais nitidez a força do espírito tem triunfado sobre a repressão - e especialmente a que se ampara na espada. Assim, João Paulo II foi capturar em dois momentos da História recente de seu país dois mártires dessas circunstâncias, que pretende apresentar como modelos de virtude à Igreja universal. O primeiro, Maximiliano Kolbe, um frade franciscano que se ofereceu para morrer em lugar de um chefe de família numerosa, condenado pelos nazistas em Auschwitz, ele canonizou no ano passado. Kolbe viveu até as últimas conseqüências o ensinamento de Jesus Cristo de "dar a vida pelos seus amigos". O outro, o monge carmelita Rafael Kalinowski, será beatificado por João Paulo II nesta quarta-feira, em Cracóvia, juntamente com Alberto Chmielowski, um franciscano que se dedicou ao socorro espiritual de mendigos e marginais. Kalinowski foi um dos líderes da insurreição que os poloneses promoveram em 1863 contra a dominação russa. Fracassado o movimento, caiu prisioneiro do inimigo e foi condenado a dez anos de trabalhos forçados na Sibéria. Pela sua vida de oração e esforço de união com Deus, passou a ser considerado um santo vivo. O seu processo de santificação, somado ao de Kolbe, faz com que o Vaticano, através da vontade de João Paulo II, tenha resgatado uma dívida para com os mártires da opressão do homem pelo homem. ACIMA DAS IDEOLOGIAS - Pode-se classificar João Paulo II de conservador em questões de doutrina, moral e tradições da Igreja - mas isso em pouco ou nada afeta sua inflamada inquietação quanto às questões básicas da dignidade do ser humano. Nesse campo, o papa está no extremo oposto do conformismo. "Durante muitos séculos, a teologia negligenciou aquilo que é a preocupação central deste papa, a pessoa humana", observa o reverendo americano Hesburgh. A Igreja conviveu séculos com a escravidão, sem grandes espasmos. Hoje, com João Paulo II à frente do Vaticano, seria inconcebível que o papa não subisse à tribuna diante de algo semelhante à escravidão. A terceira encíclica de seu pontificado - Laborem Exercens - chega a ser revolucionária, no sentido em que ela está construída sobre uma ética do trabalho que se aproxima de forma intrigante de alguns elementos fundamentais do pensamento marxista, que jamais foram postos em prática pelos governos comunistas. Na encíclica, João Paulo II usa o termo "alienação" e proclama alto e bom som que "o trabalho é feito para o homem, e não pelo homem". Trabalhador em uma mina de sódio durante os tempos de ocupação alemã na Polônia, o papa não precisou mergulhar em fundos estudos teóricos sobre a moral do trabalho para redigir seu decálogo. "Aprendi estas coisas com o meu próprio corpo," comentou ele recentemente com um grupo de operários de Milão, "e não lendo livros." "É difícil querer enquadrar o papa na própria mentalidade dos católicos porque ele paira acima das ideologias", observa dom Eugênio Sales. "As mesmas expressões duras que João Paulo II usa para condenar o socialismo de Estado marxista ele também usa para atacar o capitalismo selvagem." Neste sentido, seria um erro identificar a monumental luta de João Paulo II contra a opressão soviética em seu país natal com o exercício político habitual do anticomunismo. Sua convicção anti-comunista baseia-se menos nos fundamentos teóricos do marxismo, a respeito dos quais parece demonstrar pouco interesse, do que na impossibilidade prática que tem sido a coexistência entre religião católica e os regimes comunistas a começar pela Polônia. A mais ilustrativa resposta de João Paulo II à questão das ideologias talvez esteja contida num livro do francês André Frossard (Dialogue avec Jean-Paul II), a ser brevemente editado no Brasil, no qual o autor relata um longo diálogo com o papa. "O Evangelho não é uma ideologia. A ele não corresponde nenhum sistema político, social ou econômico, por natureza limitado ao temporal." COM PRESSA - O raciocínio de João Paulo II é cristalino quando condena a participação político-partidária dos padres. Se o Evangelho dá a resposta a todas as aspirações profundas do homem, pensa o papa, por que largar o Evangelho para pregar uma ideologia que sempre será parcial, transitória e mais pobre? Assim como ele mesmo não permanece enclausurado nas paredes do Vaticano, João Paulo II também não exige que seus sacerdotes fiquem trancafiados na sacristia. Apenas, cada padre deve ser como ele - deve ser o juiz que não teme nada, não corteja os poderosos e nem se deixa conduzir pelos que, por trás da luta política, querem mesmo é trocar de lugar com os que mandam. "Se um padre pertence a algum partido como é que membros do outro partido poderão se confessar com ele?", indaga um sacerdote que trabalha diariamente com o papa. É neste conceito, precisamente, que se enquadra o limitado apoio de João Paulo II à "teologia da libertação". Para o reverendo Hesburgh, não há dúvida de que João Paulo II será julgado historicamente como um dos grandes papas da Igreja. "Ele não poderia fazer o que faz sem uma grande profundidade espiritual", diz. "Se você o vê de perto fazendo um sermão durante a missa ele está num ritmo especial, a 110 por hora. Imediatamente depois, quando se senta e os outros cantam o credo, ele literalmente volta a si e aparece então como uma pessoa completamente diferente." Em sua opinião, o papa dá a impressão de achar que não viverá muito, daí a intensidade que coloca em seus dias. Sem dúvida, as balas disparadas contra João Paulo II na Praça São Pedro, em maio de 1981, provocaram, além dos ferimentos, uma marcante mudança de comportamento, já constatada pela Cúria Romana. Extremado devoto da Virgem Maria, capaz de colocar um grande "M" dourado, o "M" de Maria, em seu brasão pontifício, João Paulo II não faz segredo de ter atribuído a uma "intervenção de Nossa Senhora de Fátima" o fato de ter sobrevivido. De um lado, esta crença reforçou sua vontade de continuar pregando o que considera ser a salvação. De outro, as balas alteraram sua noção de duração de vida, tornando-o mais apressado, mais propenso a fazer o que acha que deve ser feito. Embora fisicamente enfraquecido, João Paulo II recusa obstinadamente qualquer sugestão para encurtar alguma viagem ou saltar uma audiência pública na Praça de São Pedro. "Ele age como se cada pequeno gesto fosse um desafio", observa um cardeal da Cúria. "No entender do papa, se ele deixasse de cumprir alguma tarefa, estaria dando uma vitória à maldade que moveu o atentado." GRANDE PROFECIA - Para os estudiosos, João Pauto II tem uma vertente otimista e sua visão do mundo - a de que por volta do ano 2000 a Igreja e a humanidade terão deixado para trás o pior das injustiças e da ameaça de destruição nuclear. Mas haveria também uma corrente mais sombria dentro de seu pensamento: se não houver progresso, terá chegado a hora do julgamento final. O tempo, portanto, é curto. Munido de seu relógio digital para controlar o tempo material, o apóstolo João Paulo II mergulha com mais intensidade em sua missão salvadora, após o atentado. Sua meta é de uma intensidade mística e dimensão humana sem precedentes: obter a aproximação do Ocidente com o Leste europeu, através do fortalecimento espiritual no mundo comunista. A primeira pedra desta obra a ser lapidada seria a Polônia. A última, na passagem do milênio, a União Soviética. Se confrontada com a Realpolitik do mundo moderno a convicção de João Paulo II soa aberrante. Mas, do ponto de vista espiritual, ela tem fundamento. Dedicado devoto de Nossa Senhora de Fátima, o papa percebe desígnios inequívocos no fato de ter sido vítima de um segundo atentado, um ano após o primeiro, justamente quando visitava o santuário da Virgem de Portugal. Uma força destruidora estaria querendo impedi-lo de perseguir a sua versão pessoal da grande profecia de Nossa Senhora de Fátima - a conversão do mundo comunista. Da mesma forma que os tiros da Praça de São Pedro, contudo, a baioneta empunhada pelo espanhol Juan Krohn em Fátima apenas aprofundou o "milenarismo" de João Paulo II - ou seja, a convicção de que a cada 1.000 anos pode surgir um novo reino. É dentro deste plano de salvação da humanidade que a atual viagem do papa à Polônia adquire um sentido mais fundo do que apenas o forte impulso nacionalista de João Paulo II em arrancar seu país de suas aflições do momento. João Paulo II parece crer que a Polônia tem um destino marcado, da mesma forma que Israel esteve destinado a servir de berço de Cristo, no passado. Tal qual um guerreiro da fé, o papa forçará as fronteiras escudado em sua extraordinária força interior. É ele o apóstolo do fim do século. |
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