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Reportagens 22 de maio de 1996Fraqueza no trono de Pedro Com sintomas de mal de Parkinson,
Há quinze anos, no dia 13 de maio de 1981, o papa João Paulo II foi atingido por três tiros, disparados pelo turco Mehmet Ali Agca. Uma das balas provocou grande estrago ao perfurar o abdome, atingir parte do intestino e passar de raspão pela coluna vertebral do papa. Os médicos tiveram de extirpar 30 centímetros de seu intestino, mas um dos cirurgiões que o operaram tranqüilizou os católicos ao dizer que, 'biologicamente, o papa é um homem mais jovem do que parece'. Na época, Karol Wojtyla tinha 61 anos. Hoje, aos 76, completados no sábado passado, João Paulo II é um homem que, biologicamente, aparenta ser mais velho do que é. Segundo vaticanistas, ele está padecendo da doença de Parkinson, o que explica o tremor constante da sua mão esquerda, o olhar ausente, o cansaço que demonstra. Alquebrado, o papa é motivo de preocupação na cúpula da hierarquia católica, que discretamente começa a discutir a sua sucessão (veja reportagem à pág. 52). Para o quase 1 bilhão de católicos que se espalham pelo mundo, o outono de João Paulo II é, teologicamente, uma estação estéril. Papa cujo objetivo secular maior foi a derrocada do comunismo, Wojtyla viu seu plano concretizar-se - e ficou sem bandeira alguma. No plano eclesiástico, sua missão foi dizimar as fileiras da teologia da libertação, o que também conseguiu - mas tem hoje uma hierarquia, construída à sua imagem e semelhança, sem ter o que dizer. Espiritualmente, os últimos anos do pontificado de João Paulo II têm sido um vácuo: seus sonhos se realizaram, e, no entanto, a Rússia e o Leste Europeu não se reconverteram ao catolicismo, as religiões evangélicas drenam o rebanho na América Latina e o avanço do capitalismo e da urbanização estoura os costumes, a família e a moral cristãs. Adoentado e envelhecido, João Paulo II parece sem forças para tirar a Igreja desse vazio. O tempo foi implacável com o papa que um dia foi chamado de Atleta de Deus. Os esquis de neve deram lugar a bengalas e tipóias. Sua saúde foi sendo minada por uma série de contratempos, além das seqüelas do atentado. Em 1992, uma operação lhe retirou do intestino um tumor do tamanho de uma laranja. O tumor era benigno, mas estava começando a se tornar maligno. No final de 1993, João Paulo II quebrou a omoplata numa queda diante do corpo diplomático e ficou engessado por várias semanas. Outra queda no ano seguinte, no banheiro, teve conseqüências sérias - ele fraturou o fêmur e teve de implantar uma prótese na cabeça do osso. O implante não foi bem-sucedido: ele está cada vez mais suscetível a acidentes domésticos e mal-estares. Em meio à bênção urbi et orbe (à cidade e ao mundo) do Natal passado, o papa interrompeu sua prece, deu um gemido e retirou-se da janela que se debruça sobre a Praça de São Pedro. Um frio percorreu a espinha dos milhares de fiéis que se aglomeravam na bela praça criada pelo arquiteto barroco Gian Lorenzo Bernini. Vinte minutos mais tarde, ele voltou à janela e, com voz trêmula, disse que 'também o papa tem suas fraquezas'. No dia 13 de março último, a audiência pública das quartas-feiras foi cancelada porque João Paulo II estava com 'uma febre de natureza digestiva', a mesma explicação oficial usada para justificar o mal-estar do Natal. Na audiência de 24 de abril, por fim, João Paulo II estava encurvado, com o andar trôpego, o rosto sem vivacidade. A voz grave e firme desapareceu. Ao condenar a idolatria - 'O idólatra é como a mulher que trai o marido...' -, mal conseguia pronunciar as palavras. As sílabas saíam pastosas, como se tivesse uma batata dentro da boca. Qual é a doença de Karol Wojtyla? Para o Vaticano, ele nem doente está. Qualquer papa tem a saúde de ferro até o dia de sua morte, como dizem os romanos. O porta-voz do papa, o espanhol Joaquín Navarro-Valls, é capaz de enrolar jornalistas da mesma forma com que faz o nó perfeito de suas gravatas de seda. Em agosto de 1994, por exemplo, durante as férias papais nas Montanhas Dolomitas, apesar de João Paulo II ter dificuldade até para subir degraus de altar, Navarro-Valls conseguiu passar a notícia de que Wojtyla escalava encostas como um alpinista e saltava riachos com vigor adolescente. Não há evidências de que o papa tenha câncer ósseo, como chegou a afirmar o cardeal brasileiro Aloísio Lorscheider há dois anos, tampouco câncer no cólon, o último boato que se espalhou por Roma. Em contrapartida, João Paulo II tem os sintomas de um portador da doença de Parkinson, moléstia causada pela baixa produção no cérebro da substância chamada dopamina, um neurotransmissor que ajuda a harmonizar os movimentos do corpo (veja quadro à pág. 48). O mais visível: sua mão esquerda treme sem parar, em estado de repouso. 'Começamos a notar que a mão do papa tremia em dezembro de 1992', diz Luigi Accatoli, o conceituado vaticanista do jornal Corriere della Sera. Na audiência de 1º de maio, as câmaras da televisão italiana registraram o sintoma. 'Esse tipo de tremor é um sinal fidedigno da doença', afirma o neurocirurgião paulista Jorge Roberto Pagura. O primeiro a trazer à tona que João Paulo II sofre do mal de Parkinson foi o jesuíta espanhol Pedro Miguel Lamet, biógrafo oficial de Pedro Arrupe, ex-superior-geral da ordem dos jesuítas, que tem excelentes relações no Vaticano. Lamet revelou inclusive o nome dos dois remédios que o papa estaria utilizando: Sinemet e Pergolide. O Sinemet, composto à base de dopamina sintetizada, é uma droga comum no tratamento de Parkinson. Já o Pergolide funciona como complemento, ao potencializar o Sinemet. Desde o início do ano circula em Roma a informação de que o papa havia começado a tomar uma nova medicação, experimentada com sucesso na França. A doença de Parkinson não mata, mas ao comprometer os movimentos do corpo pode causar artrite, infecções no aparelho digestivo e problemas respiratórios. A saúde do papa vai tão mal que os funcionários do Vaticano já se acostumaram a sobressaltos. Na manhã de 4 de setembro de 1994, os principais cardeais da Cúria Romana, a todo-poderosa burocracia da Igreja, re-ceberam um telefonema anunciando a morte de João Paulo II. Alguém vira Andrzej Maria Deskur, cardeal da Cracóvia e amigo íntimo de Wojtyla, entrar rapidamente às 5 horas da manhã na ala residencial do pontífice. A expressão de angústia de Deskur, somada ao horário inusitado, só poderia significar uma coisa: a morte do papa. Soado o alarme, a sacristia da Basílica de São Pedro recebeu ordem para que todas as missas do dia fossem celebradas em intenção da alma do papa morto. Antes que o engano fosse desfeito, um padre chegou a rezar uma missa de réquiem diante de quarenta peregrinos estarrecidos. Todos os problemas de saúde não impedem que João Paulo II continue com um ritmo de trabalho alucinante. Em seu dia-a-dia, o único hábito relativamente novo, adquirido a conselho médico, é uma sesta depois do almoço. A agenda de viagens continua lotadíssima. Na semana passada, esteve na Eslovênia. Em junho, vai a Istambul, para a conferência mundial sobre habitação. Em 1997, pretende visitar o Brasil. 'João Paulo II não se convence de suas limitações', observa uma autoridade jesuíta. João Paulo II é, de certa forma, prisioneiro de si mesmo. Primeiro papa a usar os meios de comunicação de maneira intensa e calculada, como se fosse um superastro, agora, se ele deixar de aparecer e viajar, aumentarão ainda mais as especulações sobre a sua saúde. Ao mesmo tempo, os câmaras de televisão são impiedosos, explorando seu semblante fatigado, sua dor. Não bastassem os problemas de saúde, João Paulo II vive num ambiente que, se não é hostil, também não lhe é muito simpático: a Cúria Romana. Dezoito anos no poder não foram suficientes para apagar completamente sua imagem de forasteiro em Roma. 'Ele ainda é chamado na Cúria Romana de Giovanni Paolo Fuori Le Mura', diz um prelado jesuíta, fazendo um trocadilho com o nome em italiano da Basílica de San Paolo Fuori le Mura, situada fora do perímetro delimitado pelas muralhas históricas de Roma. O polonês João Paulo II e a Cúria Romana, que controla as instituições vaticanas, mantêm uma relação calorosa como uma lápide de mármore. Até o final da década de 50, o formidável aparelho burocrático encastelado ao redor da Praça de São Pedro mandava e desmandava no Vaticano, sem maiores incômodos. Os cardeais da Cúria costumam agir em bloco nos assuntos doutrinários e nos conclaves, as assembléias secretas que elegem o papa. Eles fizeram praticamente todos os pontífices modernos até a eleição de João XXIII, que promoveu uma abertura política na Igreja com o Concílio Vaticano II. Com isso, as rédeas de Roma foram um pouco afrouxadas e a Cúria perdeu espaço, mas sua influência não pode ser subestimada. Ela tem hoje 30 dos 120 cardeais com direito a voto em um conclave. Dez deles são italianos. João Paulo II, além de internacionalizar o Vaticano, estimulando um grande número de religiosos não italianos a trabalhar na sede do catolicismo, procurou afirmar sua autoridade afastando-se o maior tempo possível de Roma. Com isso, tentou desvincular a imagem do papa da burocracia eclesiástica, visando esvaziar esta última. 'A estratégia de João Paulo II foi a da privação', diz o vaticanista Giancarlo Zizola, autor do livro O Sucessor, publicado no início do ano, na França, uma ótima análise dos bastidores da Igreja. Zizola explica que a Cúria Romana aprendeu a aproveitar-se das ausências do papa para fazer seu próprio jogo. Em janeiro de 1995, por exemplo, ela puniu sem expressa permissão papal o bispo francês Jacques Gaillot, que andava distribuindo camisinhas a aidéticos, enquanto João Paulo II estava nas Filipinas. Num gesto que provocou um desgaste ainda maior entre o Vaticano e os bispos franceses, a Cúria nem se deu ao trabalho de avisar a Conferência Episcopal da França, que ficou sabendo da punição pelo rádio. Essas e outras liberdades da Cúria dão a impressão de que o papa está perdendo o pulso. Apesar das dificuldades, João Paulo II prossegue. Ele tem um objetivo fixo, de tonalidade mística: quer estar vivo na comemoração dos dois milênios do cristianismo, o jubileu do ano 2000. Sua intenção é promover na data um grande encontro ecumênico dos líderes das três grandes religiões monoteístas - o catolicismo, o judaísmo e o islamismo. Trabalha também para que os países pobres tenham suas dívidas perdoadas pelas nações ricas. Entre os vaticanistas, há quem acredite que o ano 2000 poderá ser a data de outra grande surpresa, caso o papa sobreviva até lá. Há quatro anos, quando começou a manifestar os primeiros sintomas do mal de Parkinson, o papa João Paulo II fez um comentário na presença de dezenas de cardeais que deixou os vaticanistas com a pulga atrás da orelha. 'Seria bom que um papa pudesse assistir à eleição de seu sucessor', disse ele. Como um ocupante do trono de Pedro dificilmente faz declarações gratuitas, todos se debruçaram sobre a frase para tentar decifrá-la. O seu real significado pôde ser entendido com a divulgação da Constituição Apostólica que traz modificações nas regras do conclave (veja reportagem que se segue). 'A nova lei eleitoral prevê formalmente a renúncia do papa, uma possibilidade a que antes só o Código de Direito Canônico fazia referência', explica Masina. 'Agora, caso ele deixe de própria vontade o cargo, abre-se imediatamente o processo que leva a um conclave.' A hipótese de que João Paulo II renuncie após o ano 2000 é discutida em Roma. 'O papa só renunciará caso tenha um impedimento psíquico', afirma Luigi Accatoli. Menos cauteloso, Giancarlo Zizola é taxativo: 'Acho que ele acabará renunciando'. Arriscam-se até mesmo previsões sobre o que acontecerá a João Paulo II depois da renúncia. 'Ele irá para a clausura, onde permanecerá incomunicável até a morte', diz Masina. 'Passado o jubileu, é possível que ele se mude para Jerusalém', especula Zizola. Levando-se em conta que a renúncia papal tem de ser espontânea, conforme reza o cânon 332 do Código de Direito Canônico, uma pergunta faz-se inevitável - como é que um papa de sanidade mental comprometida tomaria uma atitude baseada no livre-arbítrio? Trata-se de um problema complicadíssimo do ponto de vista jurídico e político, mas segundo um respeitado vaticanista existe uma maneira de resolver o impasse. 'O papa pode confiar à secretaria de Estado do Vaticano a decisão de quando ele deve assinar a renúncia', diz. Ainda que planejada, a renúncia é um grave fator de instabilidade institucional. Tanto que o último papa a ter renunciado foi Celestino V, em 1294. Pela sua covardia, Dante Alighieri o colocou no 'Inferno'. Mas o Vaticano o canonizou.
Certas regras foram mudadas, mas o conclave continua Ao publicar, há três meses, a Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis, João Paulo II alterou algumas regras do conclave, um processo de eleição que remonta a 1059, quando o papa Nicolau II decidiu que somente cardeais poderiam escolher o pontífice. Antes disso, bispos, padres e diáconos também participavam da eleição. O conclave, no entanto, só passou a ser uma votação secreta, em que os cardeais se isolam do mundo, mais de duzentos anos depois, por decreto de Gregório X. O papa queria evitar que pressões externas interferissem no processo, como aconteceu em sua própria eleição. Reunidos em assembléia aberta em Viterbo, perto de Roma, os cardeais demoraram dois anos e dez meses para escolher Gregório X. Só decidiram pelo seu nome depois que o magistrado da cidade, impaciente com a demora, trancou os religiosos em um palácio destelhado e os deixou sem comida. Enregelados e famintos, eles finalmente chegaram a um acordo. Atualmente, o número de cardeais com direito a voto em um conclave não pode ultrapassar 120. Aqueles que completam 80 anos são excluídos. A votação começa quinze dias depois da morte do pontífice. Antes de iniciar o conclave, os cardeais reúnem-se na parte da manhã na Basílica de São Pedro, em missa solene. Depois, na parte da tarde, devidamente paramentados com vestes corais, dirigem-se em procissão para a Sistina. Trancados a sete chaves, sob o testemunho dos maravilhosos afrescos de Michelangelo, os religiosos iniciam o processo eletivo. Antes da votação propriamente dita, o cardeal decano recita a todos os presentes uma extensa fórmula de juramento segundo a qual os eleitores se comprometem a seguir estritamente as regras do conclave e a não violar o segredo da eleição. Em seguida, com a mão sobre o Evangelho, cada um reafirma o juramento com as seguintes palavras: 'E eu, cardeal ..., prometo, obrigo-me e juro. Assim Deus me ajude e estes Santos Evangelhos, que toco com a minha mão'. Até que um nome seja escolhido, acontecem quatro escrutínios secretos por dia - dois na parte da manhã e dois à tarde. Se, após três dias, ou doze escrutínios, não se chegar a um nome que tenha obtido dois terços dos votos, o conclave é interrompido por um dia, para orações e conversas. Depois da pausa, estão previstas, a intervalos de 24 horas, três séries de sete escrutínios. Não se chegando a um resultado, os cardeais poderão optar pelo sistema de maioria simples, escolhendo entre os dois candidatos mais votados até então ou partindo para um terceiro nome. Uma das novidades trazidas pela Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis é que, agora, basta que mais de 50% dos eleitores concordem com a implantação do sistema de maioria absoluta para que ele passe a valer. Antes, era necessária a anuência da unanimidade dos cardeais. 'Essa mudança pode parecer uma sutileza sem importância, mas isso significa que, no caso de um conclave difícil, prevalecerá o grupo de cardeais mais articulado', diz Ettore Masina, observador da cena vaticana. 'Ao não conseguir os dois terços para seu candidato, esse grupo poderá arrastar a votação até que seja instaurado o sistema de maioria simples.' Apesar de existir desde já um clima de intensa disputa, boa parte dos vaticanistas acha que os príncipes da Igreja não demorarão muito para escolher o novo papa. 'É improvável um impasse que dure muitos dias', opina Luigi Accatoli. 'Wojtyla, por exemplo, eleito em um conclave cheio de peripécias, acabou escolhido no sétimo escrutínio.' João Paulo II também aboliu dois tipos de eleição que caíram em desuso: a por aclamação, em que todos os cardeais de livre e espontânea vontade proclamam em voz alta o nome do escolhido, e a por compromisso, em que se delega a um grupo de cardeais o direito de eleger, em nome de todos, o novo papa. Ao editar as novas regras, Karol Wojtyla teve de dar conta das engenhocas eletrônicas desenvolvidas nos últimos vinte anos. A Constituição Apostólica ameaça com pesadas sanções quem levar para o conclave filmadoras, microfones ou qualquer outro meio de gravação audiovisual. É uma maneira a mais de salvaguardar os segredos da cerimônia, que os cardeais moderninhos desejariam transformar em assembléia aberta, inclusive com a participação dos bispos.
Quem são os principais candidatos à sucessão Apesar dos desmentidos oficiais sobre a deterioração da saúde de João Paulo II, a cúpula da Igreja já vive o clima de sucessão. De acordo com o vaticanista Giancarlo Zizola, os cardeais da Cúria Romana esmeram-se em oferecer jantares aos eleitores de passagem pela cidade, de olho no trono de Pedro. 'É uma ocasião agradável para fazer, ao final da refeição, uma discreta sondagem ou para lançar uma sugestão sutil, mas eloqüente, do nome de um papável', afirma Zizola. Além disso, virou rotina as madres enclausuradas nos conventos do Monte Aventino, uma das sete colinas de Roma, receberem dos cardeais pedidos de orações para que Deus ilumine os participantes do próximo conclave. Na bolsa de apostas dos vaticanistas e religiosos, as opiniões se dividem. Um grupo acredita que, depois de um polonês, a maioria dos cardeais tentará fazer um papa italiano, de linha moderada. Em primeiro lugar, porque os tempos são outros. João Paulo II cumpriu sua função ao desempenhar um papel importante na derrocada do comunismo e ao reafirmar a hegemonia doutrinária de Roma, mas estaria na hora de um pontífice com uma visão mais serena do mundo moderno. Nesse caso, um italiano seria ideal porque viria de um país sem traumas recentes em sua História, e sem papel decisivo no cenário internacional - um papa alemão ou americano é uma possibilidade remotíssima devido ao peso econômico e político da Alemanha e dos Estados Unidos. Além disso, embora pareça um aspecto secundário, o papa é também o bispo de Roma - e o polonês Karol Wojtyla teria deixado essa função em quinto plano. Por último, um papa italiano é mais palatável à Cúria Romana do que outro 'forasteiro'. Boa parte dessas características é personificada pelo mais papável do papáveis - Carlo Maria Martini, 69 anos, cardeal de Milão. Simpático aos poderosos alemães, com um perfil mais conciliador do que João Paulo II, o que não significa que seja um homem de convicções liberais, ele freqüenta a lista de prováveis sucessores do trono de Pedro há pelo menos quatro anos. Isso deu origem a uma piada nos meios eclesiásticos romanos. Dois cardeais se encontram na rua e começam a conversar: - Você já sabe que Martini é o favorito para se tornar papa? - pergunta um deles. Quanto mais tempo João Paulo II durar, menos chance terá Martini. É difícil que no próximo conclave seja escolhido um papa com mais de 70 anos. Difícil, mas não impossível, caso o conclave opte por escolher um 'papa de transição'. Ou seja, um velhinho, que terá um pontificado menor que o mandato de João Paulo II. Foi o que aconteceu no conclave que elegeu João XXIII, em 1958, um mês antes de completar 77 anos. Contra Martini pesam, ainda, o fato de ser jesuíta - a fortíssima Companhia de Jesus provoca receio nas outras ordens - e o horror que a simples menção de seu nome desperta na Cúria Romana. O assédio da imprensa italiana também não conta pontos a seu favor. Os jornais insistem em colocá-lo na posição de 'opositor' do papa em questões morais, e isso pode desgastar sua candidatura. Outro italiano com boa chance é Camillo Ruini, 65 anos, vigário-geral de Roma. Ruini cresceu à sombra de João Paulo II, de quem procura imitar certos comportamentos, mas sem comprometer seu próprio estilo moderado. É um homem moldável às necessidades políticas do momento e pode ser uma solução de consenso no caso de um impasse no conclave. Tem a simpatia da Cúria Romana, assim como Pio Laghi, dono de grande experiência internacional. Na década de 70, Laghi foi núncio apostólico na Argentina, onde deixou uma imagem ambígua: ajudou a esconder ativistas de esquerda perseguidos pelo regime militar, mas o movimento das mães da Praça de Maio o acusa de omissão no caso dos desaparecidos políticos. O grande trunfo de Laghi é ter sido o primeiro núncio apostólico nos Estados Unidos, onde em várias oportunidades serviu de ponte entre João Paulo II e os presidentes Ronald Reagan e George Bush. Tem o apoio dos dez cardeais americanos com direito a voto no conclave. Laghi seria um 'papa de transição', pois tem 74 anos, apenas dois a menos que Wojtyla. Um terceiro nome a que se deve prestar atenção, segundo o vaticanista Luigi Accatoli, é o arcebispo Dionigi Tettamanzi, de 62 anos. Jovem para os padrões do Vaticano, ele é considerado de centro e deve tornar-se cardeal até o final do ano. Tettamanzi foi secretário-geral da Conferência Episcopal Italiana e o papa já lhe deu incumbências importantes. Entre os que acham que o próximo papa não será um italiano, por acreditar que Wojtyla abriu um processo irreversível de internacionalização da Igreja, alguns apontam o francês Jean-Marie Lustiger, 69 anos. Como ele é de origem judia, alguns cardeais torcem o nariz, pois acham que isso dificultaria o diálogo com os muçulmanos, uma das prioridades da política externa do Vaticano. Finalmente, o brasileiro Lucas Moreira Neves, 70 anos. O arcebispo de Salvador e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil divide opiniões também em Roma. Dom Lucas ocupou vários cargos importantes no Vaticano, onde viveu treze anos, e é amigo pessoal e homem de confiança do papa. Um de seus últimos serviços relevantes à ala conservadora da Igreja foi ter contribuído para que o Opus Dei, o movimento de extrema direita católica, adquirisse o status de prelazia especial. O currículo do brasileiro é respeitável, mas religiosos e observadores do Vaticano acreditam que o brasileiro tem pouca capacidade intelectual para ser papa. Como ele escreve semanalmente em jornais brasileiros, opinando inclusive sobre telenovelas, suas limitações intelectuais ficam evidentes. Outro fator que pesa contra sua candidatura são seus freqüentes problemas de saúde. No início do mês, ele foi internado às pressas em um hospital americano, depois de sofrer uma crise de diabete em um avião que o levava para Nova York. Permaneceu um dia internado. O mesmo aconteceu no ano passado, em Roma, quando dom Lucas precisou ficar três dias sob cuidados médicos. Em Roma, dom Lucas é considerado o terceiro papável na lista dos preferidos da Cúria Romana, depois de Ruini e Laghi. Em um conclave complicado, os cardeais da máquina burocrática do Vaticano o vêem como uma opção moreno-populista capaz de aglutinar os eleitores do Terceiro Mundo. |
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