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22 de março de 1978
Ataque e um
superseqüestro
"A Itália parece uma dessas lojas pelas quais se passa toda noite, a caminho de casa, onde o
alarma
contra assaltos está sempre tocando. Não se pode saber se há uma séria crise ocorrendo lá dentro ou
se
se
trata do mesmo e velho curto‑circuito que o dono da loja nunca se incomodou em consertar."
(Comentário da revista inglesa Sunday Times)
Desta vez, o alarma soava mais forte. Urna alta, altíssima personalidade do Estado fora seqüestrada ‑ ninguém menos do que Aldo Moro, de 61 anos, cinco vezes ex‑primeiro-ministro, figura de vanguarda na política do país nos últimos trinta anos, inquestionável monumento da República, hoje ocupando o cargo de presidente do maior partido político do país, o Democrata Cristão, e cérebro maior por trás das refinadas, sutilíssimas manobras que permitem à Itália continuar sendo governável, apesar de sua conhecida ingovernabilidade, e conciliável mesmo tendo um Partido Comunista que abocanha um terço do eleitorado. O país se via às voltas com uma ação terrorista absolutamente espantosa - mesmo para um país onde os seqüestros e atentados a bomba se converteram numa rotina literalmente diária, e onde o terrorismo tem hoje uma intensidade maior do que em qualquer outra parte. Declarações de uma tonitruante gravidade se sucediam. "Trata-se de um ato de guerra civil", disse o ex-presidente da República Giuseppe Saragat.
Mas seria mesmo urna crise, algo capaz de atingir o "coração do Estado", como repetiram variados oradores? Ou o alarma estaria tocando em falso? Sob o aspecto puramente político, havia razões para dúvidas. Pois, à parte o martírio pessoal de Moro e dos cinco guarda‑costas que o acompanhavam - estes assassinados durante a operação - o que se assistiu foi a uma demonstração de sangue‑frio e serenidade diante do imprevisto, da parte dos italianos, talvez tão impressionante quanto o ato terrorista em si. Uma massacrante, impecável unidade caracterizou a reação de todos os partidos políticos representados no Parlamento, liderados pelo Comunista e o Democrata‑Cristão. As três grandes confederações sindicais ‑ CGIL, CISL e UIL ‑ menos de três horas depois do seqüestro, pararam o país e o mantiveram em greve durante toda a quinta‑feira ‑ o dia do atentado ‑, em "defesa do Estado".
Manifestações gigantes foram realizadas nas principais cidades, onde as bandeiras com foice e martelo do PCI se misturavam ao escudo com o dístico "Libertas" da Democracia Cristã ‑ relata o correspondente de VEJA em Roma, Marco Antônio de Resende. Houve até mesmo gestos pequenos, mas eloqüentes, como o dos presos da penitenciária de Regina Coeli, no centro de Roma ‑ ladrões, assaltantes e criminosos comuns de todo o tipo ‑ que divulgaram um documento "associando‑se ao luto das famílias dos cinco trabalhadores que pereceram no cumprimento do dever" e juntando‑se "à indignação do povo italiano diante do crime de um punhado de assassinos, vítimas de loucura político‑ideológica". A Itália reagia com vigor e decisão ao episódio talvez mais espetaculoso de sua história do pós‑guerra.
Fechada e freada ‑ Não só a suprema estatura política de Moro, mas também os detalhes da operação contra ele demonstram os níveis de ousadia e profíssionalismo a que chegou o terrorismo italiano. O presidente da Democracia Cristã saía de casa, naquela manhã de quinta‑feira, para cumprir dois compromissos. Às 10 horas deveria estar presente à Câmara dos Deputados, onde o primeiro‑ministro Giulio Andreotti leria um discurso expondo o programa de seu novo governo, formado poucos dias antes e que traz como grande novidade o apoio do Partido Comunista. Depois, ao meio‑dia, Moro estaria na Universidade de Roma, onde é professor de Direito Penal, para julgar a apresentação das teses de um grupo de alunos.
Seu programa foi brutalmente truncado às 9h15. Moro viajava no banco de trás de seu Fiat 132, e se aproximava da esquina da via Mario Fani com a via Stresa, num bairro residencial de Rorna, quando a operação se iniciou. Veio um outro carro - uma perua Fiat 128 ‑, ultrapassou o de Moro normalmente e depois deu uma freada inesperada, bem à sua frente. Não que Moro estivesse desprotegido. Com ele viajavam, no banco da frente, o motorista e um guarda‑costas. Além disso, atrás vinha um outro carro, de escolta, carregando outros três agentes de segurança. Mas tudo foi muito rápido e desnorteante.
O carro de Moro bateu na perua que o havia fechado, apesar de o motorista ter tentado uma guinada para a esquerda, para evitar o choque. Por sua vez, o carro de escolta também não pôde evitar bater no do ex‑primeiro‑ministro. Rapidamente, desceram da perua dois rapazes que passaram a disparar contra o motorista e o guarda‑costas do carro de Moro. Simultaneamente, entrou em ação um grupo de cinco ou seis outros terroristas - a polícia não pôde estimar ao certo - que esperavam na porta de um bar na esquina. Estes foram direto para o carro de escolta, atacando seus três ocupantes.
Do total de cinco acompanhantes de Moro, quatro morreram na hora e um, poucas horas mais tarde, no hospital. O dirigente democrata‑cristão foi arrancado de seu Fiat pela porta da esquerda e colocado no porta-malas de um segundo carro dos terroristas ‑ outro Fiat 132, igual ao de Moro ‑ que esperava logo atrás. Os dois jovens que viajavam na perua fugiram a pé, possivelmente para apanhar outro carro nas proximidades. Os demais seqüestradores escaparam no mesmo carro onde colocaram Moro.
Florista ausente ‑ A precisão da operação revela‑se também nos seus detalhes secundários. Os homens que esperavam na porta do bar vestiam roupas de pilotos da Alitalia, um disfarce adequado ‑ no bairro moram muitos funcionários da companhia e é comum vê-los pelas ruas, em grupo, esperando condução para o aeroporto. Mas o requinte maior está no pormenor de os terroristas terem conseguido livrar‑se de um florista que, normalmente, exerce seu ofício naquela esquina, vendendo as flores numa camionete. Naquela manhã, o florista encontrara os quatro pneus de sua camionete furados, e por isso não fora trabalhar. Talvez ele fosse considerado uma testemunha incômoda, talvez sua presença no local viesse a atrapalhar a logística da operação.
Mas quem são os seqüestradores de Moro? Pouco depois da operação, dezenas de telefonemas começaram a atingir as redações de jornais, centrais de polícia e outras repartições públicas da Itália ‑ a maioria deles em nome da organização Brigadas Vermelhas. Não há razões para duvidar que os responsáveis fossem os brigatisti ‑ eles formam o grupo terrorista mais atuante e mais sanguinário do país -, mas não havia nenhum documento escrito, nenhuma prova segura. Também circularam rumores de que o grupo alernão Baader-Meinhoff pudesse estar envolvido no seqüestro. Houve pelo menos um telefonema em alemão, para uma emissora de rádio: "Aldo Moro mituns", "Aldo Moro está conosco", dizia a voz. Ao mesmo tempo, lembrou-se da semelhança entre o seqúestro de Moro e o do industrial alemão Hans Martin Schleyer, no ano passado ‑ e nem é preciso dizer que havia ainda o argurriento de que a tecnologia alemã é sempre mais sofisticada do que a italiana, neste como em outros ramos de atividade.
Tribunal no bunker ‑ Quanto à exigência dos terroristas, também aqui havia dúvidas. Falou-se mais insistentemente num prazo de 48 horas, que venceria na manhã do sábado. Em troca de Moro, os seqüestradores estariam exigindo a libertação do mais conhecido dos terroristas italianos, Renato Curcio, o líder das Brigadas Vermelhas, além de um número não especificado do total de 48 companheiros de Curcio que com ele se encontram presos ern Turim. O momento seria adequado para a montagem de uma operação em favor de Curcio. Desde o último dia 10, ele e seus companheiros encontram-se em julgamento ‑ no processo mais sensacional dos últimos anos na Itália. Entre outras peculiaridades, há o fato de o julgamento transcorrer num antigo quartel de Turim, transformado em bunker inexpugnável. Todo o trânsito em volta foi desviado por todo o tempo em que o local funcionar como tribunal. Mil carabinieri tomam posições dentro e fora do prédio, toda a movimentação é minuciosamente acompanhada por um circuito interno de televisão ‑ e os réus ficam numa espécie de jaula de ferro.
Mas não é só por coincidir com o julgamento de Curcio que o seqüestro de Moro parece ter sido planejado para o momento mais exato possível. Há ainda uma outra razão, política. O atentado ocorreu apenas uma semana depois de formado o novo governo, e no próprio dia em que ele começaria a ser referendado, com a aprovação de seu programa no Parlamento. Sendo que este governo, apesar de ser apenas mais um dos que têm se constituído de dez em dez meses, na Itália do pós-guerra, ao mesmo tempo não é um governo qualquer. Os comunistas, que desde meados do ano passado já sustentavam o gabinete monocolor democrata-cristão, por meio da abstenção no Parlamento, agora deram um passo além: vão votar a favor. Trata se de mais um importante passo no sentido do "compromisso histórico" tão desejado pelo PCI: um governo de união nacional, liderado em comum por comunistas e democratas-cristãos. Ainda não é isso, porque o PCI não terá cargos no Ministério. Mas já é quase. Uma ocasião nada má, portanto, para um ataque terrorista. Pois os ultra-esquerdistas italianos, já de uns anos para cá, têm dernonstrado tanta hostilidade para com o PCI quanto para com as formações conservadoras ‑ os comunistas, na sua óptica, estariam definitivamente comprometidos pelo "carreirismo" e o "aburguesamento".
'Um amigo' - Também vem perfeitamente a calhar, nesse quadro geral, a figura de Moro. Político de habilidade lendária, feiticeiro capaz de costurar as mais frágeis alianças, é sabido que é ele quem está por trás destes últimos exercícios de equilibrismo em que têm constituído os acordos com os comunistas. "Ele é um amigo", disse de Moro, na semana passada, o próprio secretário-geral do Partido Comunista, Enrico Berlinguer. Ele é tambem um amigo ‑ neste caso intimo ‑ do alto clero italiano. Antigo presidente da Federação Universitária Católica Italiana, na época em que ninguém menos que monsenhor Giovanni Batista Montini, o hoje papa Paulo VI, era o representante do mesmo órgão do Vaticano, Moro pode escolher a hora e o local para se reunir com quem desejar no Vaticano. Foi ele quem aplacou os receios da hierarquia da Igreja quando, no mês passado, o jornal Avvenire, da Conferência Episcopal Italiana, registrou sua "perplexidade" diante das negociações em curso com os comunistas.
Nem se diga que só o PCI foi favorecido pelos acordos que, articulados por Moro, desembocaram no governo atual. Os comunistas terão, sim, um status próximo ao de partido do governo ‑ mas também com o ônus de ter de justificar perante suas bases o apoio a uma política de austeridade que certamente continuará, com tudo que significa em contenção de salários e outras medidas impopulares. Além disso, nas negociações que precederam a formação do governo, o PCI não conseguiu realizar nenhuma das reivindicações que fazia para apoiar a Democracia Cristã: nem ministros, no Gabinete, nem a nacionalização da gigantesca empresa química Montedison, nem a permissão do governo para a formação de um "sindicato de policiais", a ser filiado às grandes confederações sindicais.
'Espero que não' ‑ Comunistas e democratas-cristãos, de resto, mostraram‑se afinados nas reações ao seqüestro ‑ primeiro e grave teste à sua recém-nascida aliança. O primeiro-ministro Andreotti foi à televisão, na quinta-feira, e fez um sisudo discurso. "Para a defesa da ordem e da segurança de cada cidadão, bastam os preciosos instrumentos que nos oferece o Estado democrático, ou teremos de recorrer a instrumentos mais incisivos?", perguntou. Ele mesmo respondeu: "Espero que não". O PCI, por sua vez, lançou nas ruas uma edição especial de seu órgão oficial, L'Unitá, onde eram condenados o "bárbaro e criminoso rapto do deputado Aldo Moro" e o "assalto subversivo há muito tempo em curso contra a democracia italiana".
Não se deve esquecer, por fim, que para a comoção e a coesão registradas entre os italianos na semana passada contribuiu a própria figura pessoal de Moro ‑ um "pai da pátria" acima de qualquer suspeita. Adiada da manhã para a tarde, depois de se cogitar de suspendê‑la definitivamente, a sessão realizada na Câmara dos Deputados para a aprovação do novo programa de governo, na quinta‑feira, teve características especiais. De um debate que normalmente levaria dias, a sessão foi transformada, por comum acordo entre os partidos, ao mínimo essencial: um breve discurso de Andreotti, em seguida a votação e a praticamente automática aprovação. Na hora da chamada dos deputados, houve um momento de emoção quando o secretário da mesa chamou o nome "Aldo Moro". Seguiram-se alguns momentos de silêncio. Depois, o plenário despencou nurna estrondosa ovação.
Um investimento no caos
Itália, 1969. Com quatro meses de trabalho, nessa época, um operário especializado conseguiria comprar um carrinho Fiat 500, o popular "Topolino " Uma geladeira custava menos do que em 1960. Praticamente todas as famílias podiam passar pelo menos alguns dias, durante o verão, na praia ou nas montanhas. E o crescimento Industrial do norte do país era suficiente para absorver a contínua onda de refugiados do atrasado mundo agrícola do sul. Era ainda a época do "milagre econômico". Parecia intato o impulso de reconstrução que tomara conta do país desde a queda do fascismo e o fim da II Guerra Mundial. Por que duvidar do clichê de sempre? Nenhuma mancha parecia se insinuar na imagem tão surrada de um povo de devoradores de spaghetti, expansivo, tolerante e cordial mesmo na adversidade.
Itália, 1978. A média de seqüestros de pessoas é de um a cada cinco dias. Bombas? A cada cinco horas explode uma. Tome‑se como exemplo a manhã do dia 14 de fevereiro último. O juiz romano Riccardo Palma, de 63 anos, saiu de casa às 8 horas e cumpriu seu ritual de sempre: foi até a esquina, comprou um jornal, deu uma olhada na primeira página e voltou para entrar em seu Fiat 128. Quando abria a porta do carro, foi assaltado por três homens. Seguiram‑se catorze tiros de metralhadora ‑ e Palma caiu ali mesmo, no banco do automóvel. Os assassinos fugiram. Mais tarde chegariam os policiais, apareceriam os curiosos. Na rua mesmo, um padre abençoou o cadáver. Apenas, caía mais uma vítima ‑ mais uma das cerca de oitenta vítimas fatais da violência dos últimos anos.
Que houve nesse intervalo? Onde foi parar a velha sabedoria italiana, o jeito pacífico e habilidoso de resolver os problemas? Há quem faça julgamentos gravíssimos sobre a situação em que foi desembocar a Itália neste final dos anos 70. "O que está acontecendo agora é uma mera repetição das táticas que Mussolini usou para tomar o poder há cinqüenta anos", diz o escritor e jornalista Indro Montanelli, diretor do matutino conservador Il Giornale, de Milão, e ele próprio uma vítima do terrorismo ‑ foi atingido por quatro tiros nas pernas, uma das mais originais modalidades do atual surto de violência, quando se encaminhava para o trabalho, numa manhã de junho do ano passado. Na opinião de Montanelli, o objetivo dos extremistas seria a criação de um estado de caos ao qual se seguiriam a destruição das liberdades e a instalação de um regime totalitário.
Pode-se não chegar a tanto. Mas que o investimento no caos tem aumentado em proporções alarmantes, nos últimos anos, é fato indiscutível na Itália ‑ provavelmente, o país mais permeado hoje em dia, em todo o mundo, pelo radicalismo e o extremismo. O número de atentados políticos foi de 702 em 1975. Em 1976, saltou para 1.198, e em 1977 quase dobrou ‑ 2.128. Há um fato preciso que inaugura a era do terrorismo contemporâneo na Itália: a explosão de uma bomba no saguão do Banco Nacional da Agricultura, na Piazza Fontana, em Milão, na tarde do dia 12 de dezembro de 1969, quando dezesseis pessoas morreram e dezenas de outras ficaram mutiladas. Faltavam então dezenove dias para terminar a década de 60. Um primeiro sinal já fora emitido em 1968 ‑ quando a Itália, embora de maneira menos intensa do que a Alemanha e, evidentemente, do que a França, conhecera algum estremecimento em suas universidades. Com a década de 60, se escoaria o que ainda sobrava da confiança e da harmonia social da Itália do pós‑guerra.
Rostos pintados ‑ Não é só o terrorismo que transmite as ondas de insegurança e medo que permeiam a sociedade italiana de hoje. Afinal, os terroristas propriamente ditos, segundo cálculos do governo, não seriam mais de 500 ou 600, além de 2.000 ou 3.000 simpatizantes. Nota‑se também uma expansão em espiral do crime comum. Dos 66 seqüestros registrados em 1977, a maioria foi pura e simplesmente por motivos de extorsão. Estima‑se, por baixo, que as famílias das vítimas já tenham pago de resgate mais de 130 bilhões de liras ‑ algo como 2,6 bilhões de cruzeiros. O resgate maior foi o do joalheiro Gianni Bulgari, o equivalente a 200 milhões de cruzeiros. O mais famoso, o do herdeiro Paul Getty Jr., que perdeu uma orelha e provocou um desfalque de 58,2 milhões de cruzeiros nas reservas do avô bilionário.
O crime comum e o crime político caminham paralelos contra o mesmo pano de fundo da recessão que tem caracterizado a economia italiana nesta década, em particular depois da crise do petróleo de 1973. Não raro, ambos os ramos se interpenetram e se confundem: há criminosos comuns atuando nos movimentos politicos, assim como há militantes políticos que praticam crimes com o objetivo único de enriquecer seu patrimônio pessoal. Mas há ainda um outro fenômeno, fruto do mesmo quadro geral, e talvez ainda mais inquietante, na medida em que contamina mais pessoas: o radicalismo, ou extremismo político que, embora sem resvalar necessariamente para o ato criminoso, traz em seu interior um alarmante potencial de niilismo e destruição.
As universidades e escolas secundárias italianas vivem hoje um momento de efervescência maior do que em qualquer outra parte do mundo. Desde o ano passado, não se passa uma semana sem uma greve, uma passeata, ou a ocupação de um edificio escolar. Contam‑se na Itália de hoje 115 "grupúsculos", como são conhecidos no país os pequenos movimentos políticos extremistas ‑ 94 de esquerda e 21 de direita, segundo as últimas estimativas. Nos meios estudantis, florescem grupos tão exóticos como os índios Metropolitanos, cujos membros têm como característica pintar o rosto como selvagens. Eles são mais ou menos a versão peninsular, ligeiramente mais politizada, dos punks ingleses.
A auto‑redução ‑ E há também os membros de organizações como a Lotta Continua ou, principalmente, os "autônomos", filiados à Autonomia Operária, o grupo hoje mais ativo entre os estudantes italianos. Os autônomos são criadores de imaginosas, originalíssimas formas de luta. Eles ocupam imóveis que estão sem inquilinos, à espera de valorização ‑ criando um inferno na vida dos proprietários. Ou, então, tentam reduzir unilateralmente o custo de vida. Em 1974, por exemplo, em resposta ao aumento dos preços dos serviços públicos, eles decretaram, em Milão e Turim, a instituição da autoriduzzione, "auto‑redução". Ou seja: pagavam apenas a metade das contas de luz, gás ou telefone. Com isso, de acordo com a lei, os serviços não podiam ser cortados ‑ e as empresas públicas, para receber o resto do dinheiro, tinham de recorrer a uma longa e incerta batalha judicial.
A autoriduzzione foi considerada uma ótima idéia ‑ e logo sua utilização era ampliada para outros campos. Passou a ser praticada, por exemplo, a "expropriação proletária" em lojas de comidas finas e restaurantes de luxo ‑ onde os autônomos comiam, bebiam e pagavam um décimo da conta, ou qualquer preço por eles considerado "justo". Fizeram‑se incursões, também, na área dos espetáculos, com operações‑relâmpago de largo emprego durante uma certa época: um pequeno grupo ocupava a bilheteria dos cinemas e passava a vender ingressos de 2.500 liras (50 cruzeiros) por 500 liras (10 cruzeiros). A ação se encerrava em minutos, antes que a polícia tivesse tempo de chegar.
Hoje, as aventuras na área da autoriduzzione já cansaram. Os autônomos estão envolvidos, ultimamente, na campanha pelo "seis político", em curso em toda a universidade italiana. De acordo com suas teorias, a atribuição de notas aos estudantes teria características discriminatórias e "classistas". Assim, a nota seis, mínimo obrigatório para a aprovação na Itália, deveria ser atribuída a todos os alunos, democraticamente, ou seja ‑ não devia haver reprovação. Outra ótima idéia. Para fazê‑la valer, os estudantes têm pregado uma ampla campanha de intimidação ‑ mesmo física, se necessária ‑ contra professores.
'Matar ou ser morto' ‑ Mas aqui, apesar de todos os riscos evidentes no ar, ainda não se está no campo do terrorismo. Pelo menos, ainda não se entrou no ramo do terrorismo pesado ‑ o terrorismo dos assassínios, seqüestros e atentados. Esta é uma prática quase exclusiva, na Itália de hoje, de dois grupos: as Brigate Rosse, ou Brigadas Vermelhas ‑ o grupo que seqüestrou Aldo Moro ‑, e os Nuclei Armati Proletari (NAP), ou Núcleos Armados Proletários. Ambos têm apenas um objetivo: simplesmente, "destruir o Estado burguês". Também sua origem, curiosamente, é a mesma, e o mesmo é o seu fundador e cérebro, Renato Curcio, hoje preso em Turim ‑ uma espécie de Andreas Baader italiano e, justamente, o principal dos terroristas que os seqüestradores de Moro queriam ver libertados.
Uma breve história de Curcio pode ser instrutiva para se esboçar o retrato falado do terrorista italiano de hoje. Atualmente com 37 anos, ele é produto de uma relação ilegítima: seu pai era um romano abastado que certa vez teve como faxineira uma ingênua jovem da província ‑ e seduziu‑a. Como numa obra de Dickens, as crueldades se sucedem nas origens do futuro superterrorista. A empregada não só foi seduzida, como o patrão, ao saber que ela estava grávida, colocou‑a na rua. A mãe de Curcio foi trabalhar com o filho na Suíça, onde a mão-de-obra rudimentar era - e ainda é - mais bem paga que na Itália. Ali Curcio conseguiu estudar regularmente. Chegou à Universidade Católica de Trento, no norte da Itália, e ali se revelou um aluno brilhante, com notas altas em todas as disciplinas. À medida que chega à vida adulta, porém, a história de Curcio vai perdendo seus tons dickensianos em favor dos traços mais pesados, mais torturados e brutais de um Dostoiévski.
Ele era inteligente, sim - mas também dotado de um messianismo vulcânico. Curcio iniciou sua militância política na extrema direita, como neofascista - e isso ilustra de maneira perfeita o conteúdo, tantas vezes cego, tantas vezes confuso, ideologicamente, do impulso terrorista. Depois, ele acabaria fundando, com um grupo de ex-colegas de universidade em Trento, as Brigadas Vermelhas - cujas primeiras atividades consistiram, em meados de 1970, na distribuição de um jornal clandestino e em ataques dispersos a sedes sindicais, com o objetivo de "converter os trabalhadores para as formas armadas de luta". O fato de que os trabalhadores jamais se tivessem interessado pelas "formas armadas de luta" parecia secundário para Curcio. "Estou habituado a ser visto como um monstro a ser abatido", refletiu ele certa vez. "Isso não me incomoda. Eu sou um combatente. Quando se é um revolucionário, deve-se aceitar a idéia de dar e receber a morie. Matar ou ser morto é a coisa mais simples do mundo. É só o tempo de apertar o gatilho e atirar uma bala que não vaIe 100 liras."
Os jovens e o desemprego - Outro episódio que ilustra o fanatismo de Curcio e sua equipe são as circunstâncias da morte de sua mulher e companheira de armas, Margherita Gagol, com quem havia se casado - no civil e no religioso - nos tempos de estudante. Margherita, assim corno Curcio, fazia parte do grupo que, em 1974, seqüestrou o industrial Villarino Gancia, o "rei do spumante" - e o mantinha retido numa fazenda perto de Turim. O local foi descoberto pela polícia. Curcio fugiu a tempo, mas Margherita se viu cercada pelos policiais e se rendeu - ou melhor. Fingiu que se rendeu. Num último gesto desesperado, ela ainda tentou abaixar as mãos para alcançar no chão uma banana de dinamite. Nesse momento foi alvejada e morta.
Curcio havia sido preso uma primeira vez em 1972, junto com vários outros companheiros, e é dessa temporada no cárcere que surgem os Núcleos Armados Proletários: esse grupo é formado, basicamente, por criminosos comuns convertidos pelos brigatisti à atividade "política", em longas conversas nas celas da Itália. Em 1974, o líder terrorista conseguiu fugir, quando era transferido de um presídio para outro. Em 1976, foi preso novamente - e seu julgamento, assim como o de outros 48 membros das Brigadas Vermelhas, também presos, começou no último dia 10, em Turim. No processo, Curcio e seus companheiros são acusados de nada menos que quarenta assassínios, trinta seqüestros e centenas de casos de roubo e sabotagem variada.
Naturalmente, nem todos os extremistas italianos configuram casos patológicos como Curcio. Os Curcio ainda são raros, especialíssimos. Ainda assim, a massa de extremistas italianos é suficientemente barulhenta para caracterizar uma tendência no país. Como explicá-la? Que levaria hoje uma parcela dos jovens italianos a radicalizar-se corno o vêm fazendo? As explicações possíveis são várias. A mais substantiva delas tem muito a ver com o estado da economia italiana - mais especificamente, com o número de desempregados. Em dezembro do ano passado, para citar o último dado disponível, o número de italianos que procuravam emprego era de 1.598.000. Mais ilustrativo ainda era o fato de que, desse total, mais de três quartos - exatamente, 1.211.000 - eram jovens entre 14 e 29 anos. E, destes, 40% eram possuidores de diplomas universitários. Ou seja: o desemprego italiano atinge principalmente a faixa daqueles que estão começando na vida, e castiga uma parte da classe média, daqueles que puderam estudar. O país simplesmente não tem condições de absorver os 200.000 jovens formandos que, todo ano, chegam ao saturado mercado de trabalho.
'Exclusão do poder' - A partir de dados como esse, Guido Bolaffi, um dirigente da CGIL a confederação sindical de influência comunista, tira importantes conclusões. "O jovem desempregado moderno é diferente do desempregado dos anos 50. Este não podia ficar muito tempo sem trabalho. Ele ocupava as praças e reclamava o pão, e contentava-se em viver numa situação completamente subalterna." Quanto ao desempregado de hoje, Bolaffi prossegue: "Ele não está mais numa situação subalterna, pois geralmente estudou. Seu problema não é o pão: ele pode contar com o dinheiro da família, ou viver de pequenos expedientes. O problema do jovem sem trabalho, assim, tem mais a ver com sua exclusão dos centros de decisão, sua exclusão do poder. Ele não conta na sociedade, e essa marginalização é ainda mais ressentida se se tem em conta que ele alimentou um certo número de esperanças".
Dessa forma é que nasceria o "grupúsculo". "O pequeno grupo, entre outras coisas, serve para a autodeterminação. a autodefiniçào e a expressão da subjetividade", interpreta o sociólogo Luigi Manconi. Mas outra razão geralmente apontada para o radicalismo italiano refere-se aos rumos tomados pelo Partido Comunista, cuja imagem foi evoluindo num sentido cada vez mais contido e "responsável", até chegar à situação atual - onde, como partido da ordem, é praticamente um condômino da Democracia Cristã no poder. "Alguns anos atrás, o PCI provavelmente poderia absorver e conter essa gente", diz Francesco Alberoni, outro sociólogo italiano. "Mas, desde que os comunistas assumiram o papel de partido do poder, tornou-se simplesmente impossível para os extremistas manterem-se quietos em suas fileiras."
Não são poucos, hoje, os conflitos entre os extremistas de esquerda e o Partido Comunista - cujos membros ou simpatizantes são genericamente tachados pelos primeiros de "barões vermelhos". Em março do ano passado ocorreu um episódio típico dessas divergências, quando um grupo de estudantes foi convidado a falar durante um congresso de operários metalúrgicos, em Florença. Os estudantes apresentaram suas reivindicações: alojamento gratuito, atividades de 35 horas por semana, "luta contra a repressão e o fascismo" - e nada menos, também, do que "um salário garantido para todo estudante, indexado sobre a evolução do custo de vida". Outra formidável idéia, de fazer mesmo parecer pobre a imaginação dos "autônornos". Um jovem operário, porém, levantou-se e respondeu: "Por que eu seria mais idiota que você? Eu luto para fazer oito horas na Alfa Romeo. Você, pelo que eu entendo, se bate para não trabalhar e ter um salário garantido. Que tenho eu a ver com você?" Pior é que não é só com o jovem operário que o extremista "não tem nada a ver". Cada vez mais, ele tem pouco a ver com qualquer mortal.
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