| |
22
de março de 1972
A política do imposto
de renda
Sobre o imposto de renda,
parece haver um sólido consenso: todo mundo é contra.
Não que se neguem os louváveis propósitos dó
tributo - o governo taxa principalmente os mais afortunados para
aplicar a renda em obras e programas que beneficiem toda a comunidade.
O consenso se verifica no momento inevitável de recolher
o imposto aos cofres públicos ou, mais cedo ainda, quando
o salário já aparece desfalcado de uma fatia considerável.
Ney Antônio Silva de Sousa, 27 anos, gerente de uma loja paulistana
de artigos de caça e pesca, demonstra com bastante clareza
a posição típica do contribuinte brasileiro:
"O imposto de renda é o mais justo, pois tira mais de
quem recebe mais e menos de quem recebe menos". Quando a questão,
porém, se aproxima de seu imposto e da sua renda, Silva de
Sousa, como todos, é muito menos compreensivo: "É
evidente que eu pago muito imposto. Se esse dinheiro me sobrasse"
- este ano, ele vai pagar 3 500 cruzeiros - "eu poderia ir
à Europa fazer um curso para me aperfeiçoar".
Rejane Coeli Meneses, 28 anos, professora na Vila Mariana, São
Paulo, também acha que pelo menos o seu imposto de renda
ela saberia aplicar melhor que o governo: "Por causa do imposto
de renda, ainda não pude comprar um armário embutido,
uma radiola e uma máquina de escrever".
O imposto sem disfarce - O contribuinte
brasileiro preferia estar na situação muito mais confortável
dos contribuintes americanos Mutt e Jeff. Nessa historieta de AI
Smith, Mutt, com paciente didatismo, explica ao inseparável
parceiro que o governo americano preferiu mudar de estratégia
- em vez de cobrar mais impostos das pessoas, vai permitir que elas
façam mais compras e, apoiado nos bons negócios realizados
pelas fábricas, aplicará os impostos mais pesados
em cima das empresas. E, embora Jeff se mostre perplexo com a explicação
complicadíssima, perceberá facilmente as delícias
da nova estratégia, quando descobrir que, agora, poderá
fazer muito mais compras.
No Brasil, onde a estratégia ainda
é bastante diferente da americana, o governo talvez jamais
consiga explicar a todos os contribuintes que lhes devolve o imposto
de renda em forma de escolas, estradas, usinas hidrelétricas.
O próprio ministro da Fazenda, Antônio Delfim Netto,
de respeitados talentos didáticos, ainda será muitas
vezes obrigado a fazer pregações bastante convincentes
para enaltecer as excelências de um imposto que se intromete
diretamente no que ele mesmo costuma chamar de "a parte mais
sensível do corpo humano" - o bolso.
O imposto de renda leva a desvantagem de
aparecer sem qualquer disfarce no contracheque dos salários
ou na notificação. Os impostos indiretos, que vêm
embutidos nos preços dos produtos, são eventualmente
muito mais onerosos. O imposto sobre produtos industrializados (IPI),
por exemplo, incide em 365%, sobre os preços dos cigarros
e ninguém reclama tanto. Além disso, os impostos indiretos
oferecem ao comprador uma recompensa instantânea. "Se
você compra uma tevê, paga o imposto, mas pode ver o
Chacrinha", explica Adilson Renan, um corretor de imóveis
em São Paulo. "Com o imposto de renda, você paga
e não vê aparecer à sua frente benefício
nenhum. É como se a gente pagasse a prestação
de uma coisa que não existe".
Como os EUA e a Inglaterra - Na
verdade, o governo brasileiro, principalmente depois de 1964, decidiu
acionar uma arma poderosíssima que jazia adormecida na burocracia
oficial. Com várias operações de cerco aos
contribuintes mais bem remunerados e às empresas menos ciosas
de suas responsabilidades para com o Fisco, o governo passou a cobrar
impostos em quantidades suficientes para aplicar em projetos ambiciosos.
Em conseqüência, armou-se uma requintada máquina
arrecadadora que envolveu os contribuintes em alíquotas severas.
O Brasil transformou-se no país em desenvolvimento que mais
esforços exige de sua população para pagar
impostos, segundo estudos do abalizado Fundo Monetário Internacional.
Delfim pondera que comparar as dimensões
da economia brasileira com as da maioria dos países selecionados
pelo FMI provoca uma certa distorção. O Brasil, explica
o ministro, estaria num estágio superior de desenvolvimento,
onde se justifica o esforço que hoje se exige da população.
"A carga tributária do Brasil não é diferente
da que se aplica em países com o nível de renda igual
ao nosso, nem diferente da Inglaterra e dos Estados Unidos nos anos
30", diz Delfim.
Mesmo admitindo-se que a carga tributária
brasileira, segundo Rômulo de Almeida, antigo assessor do
presidente Getúlio Vargas e respeitado economista, "seja
indispensável para a retomada do ritmo de crescimento do
país, já que cabe ao governo que arrecada os impostos
uma altíssima participação nos investimentos
de que precisa a economia", Delfim, num ponto, concorda que
o imposto de renda, no Brasil, ainda não cumpre sua função
essencial.
Instrumento primitivo - Teoricamente,
o imposto de renda deve permitir que o governo pratique um saudável
robinhoodismo: taxar mais os ricos e menos os pobres, para promover
com rapidez um dos objetivos básicos de qualquer política
econômica - a distribuição da renda. "O
imposto de renda ainda é um instrumento primitivo para distribuir
a renda", confirma Delfim. "Por isso, foi preciso, antes,
montar uma eficiente máquina de arrecadação
para mais tarde usá-Ia na estratégia de distribuição".
O próprio contribuinte brasileiro parece ter consciência
dessa provisória limitação. "O imposto
de renda é justo, mas quem ganha mais deve realmente pagar
mais. E, na prática, não é isso que acontece",
diz Renato Abucham, 28 anos, engenheiro civil que trocou sua profissão
pela de corretor da Bolsa de Valores de São Paulo. "Muita
gente que ganha fortunas paga muito pouco em relação
à maioria dos contribuintes".
Na política do imposto de renda,
porém, a generosidade do governo deve ser dosada. Não
convém punir indiscriminadamente os de maior renda - porque,
afinal, o sistema não deve desencorajar ninguém a
aumentar seus rendimentos - nem premiar sem critério os menos
remunerados. "Distribuir renda não é tirar de
quem ganha 100 000 para entregar a quem ganha 1 000", explica
José Rodolfo Hulse, assessor do Grupo de Política
Tributária do Ministério da Fazenda. "Distribuir
é retirar recursos da mão do indivíduo e entregá-Ios
ao setor público, que, por sua vez, o aplicará em
benefício de toda a sociedade".
Duas interpretações -
Num país em desenvolvimento como o Brasil, a participação
do governo nos investimentos feitos na economia torna-se particularmente
indispensável. "Para vencer a distância entre
o subdesenvolvimento e o desenvolvimento de maneira rápida",
diz o economista Gilberto Paim, "o único caminho é
retirar do setor privado e aplicar em setores prioritários,
porque não há nenhuma garantia de que a iniciativa
privada vá construir estradas, usinas hidrelétricas
ou redes de telecomunicação".
Exatamente por isso, Delfim justifica a
criação do imposto único sobre lubrificantes
e combustíveis (IULC), utilizado para financiar a construção
de estradas. "No Brasil, a estrada é um dos principais
instrumentos de distribuição de renda", diz o
ministro. E explica: um produtor de arroz do interior de Goiás
que plante apenas para o seu consumo não está integrado
na economia brasileira.
Embora já existam a força
de trabalho e a terra, falta a demanda, ou seja, falta ligá-Io
aos centros consumidores. No momento em que uma estrada permite
que ele venda seu arroz no mercado, o agricultor eleva seu nível
de renda. É verdade, porém, que ele entra na economia
no nível de renda mais baixo. "Aí, podem aparecer
dois tipos de interpretação", continua Delfim.
"Quem olhar apenas as estatísticas, terá localizado
mais um pobre. Quem sabe o que está acontecendo, reconhecerá
que mais uma pessoa deixou de ser um simples ponto demográfico".
Sacrifício intolerável
- Mas nem todos aceitam que o governo esteja cobrando o mínimo
de impostos necessários para financiar, como é seu
dever, grandes projetos de infra-estrutura. Com a retórica
que lhe valeu, em 1939, o título de melhor orador das Arcadas"
(como é conhecida a tradicional Faculdade de Direito do Largo
de São Francisco, em São Paulo), o deputado Ulysses
Guimarães, presidente nacional do MDB e professor de Direito
Internacional Público, afirma: "Evidentemente, há
muitas obras por fazer - pontes, estradas, usinas hidrelétricas.
Mas não se pode exigir um sacrifício intolerável
das gerações presentes para que a economia dê
saltos no tempo. É preciso fazer o desenvolvimento com justiça
social e, no Brasil, exige-se demais do contribuinte em benefício
do estado".
Uma maneira de avaliar o rigor de um governo
com seus contribuintes é analisar a participação
dos impostos diretos e indiretos no total da arrecadação.
Teoricamente, os impostos indiretos são os mais impiedosos,
pois taxam igualmente os de maior e os de menor renda. Por exemplo,
o IPI aplicado sobre um antibiótico é o mesmo para
quem ganha salário mínimo e para quem fatura 10 000
cruzeiros mensais. Por isso, o imposto de renda direto é
teoricamente o mais justo: porque as alíquotas são
maiores à medida que os rendimentos crescem. Nos países
mais desenvolvidos, a participação dos impostos diretos
no total da arrecadação tende, assim, a ser maior
que a dos indiretos. Nos Estados Unidos, onde o rigor do Fisco é
inexcedível, o contribuinte solteiro que tenha uma renda
anual de 200 000 dólares - 1,2 milhão de cruzeiros
- pagará 123 000 dólares de imposto de renda, ou seja,
o estado sorve mais de 6 dólares de cada 10 de seus rendimentos.
Predominância futura - O crescimento
do imposto de renda na arrecadação brasileira ainda
não pode ser considerado alentador. "Com uma massa de
impostos indiretos ainda sustentando a receita", observa Luís
Gonzaga Furtado de Andrade, secretário da Receita Federal,
"a predominância futura do imposto de renda só
poderá acontecer com o aumento do poder aquisitivo, ou melhor,
da renda do povo brasileiro. "Mas se a participação
do imposto de renda ainda não atingiu níveis de razoável
eqüidade, já que seu crescimento é relativamente
lento (em 1967, era de 30,83% e, em 1971, de 30,88%), Delfim chama
a atenção para um dado significativo. A participação
do IPI o imposto indireto por excelência - caiu de 56,50%
em 1967 para 45,78% em 1971.
A verdade, porém, é que o
imposto de renda no Brasil não cresce no bolo da receita
porque o governo deliberadamente decidiu que ele não deve
crescer. Para que o imposto de renda seja um instrumento inigualável
de distribuição de renda, precisa ser altamente progressivo:
aumentando a renda, aumenta proporcionalmente o tributo. No Canadá,
um contribuinte que receba 54 000 cruzeiros anuais pagará
21% de imposto (no Brasil pagaria 18%). Em níveis de renda
mais altos, a diferença aparentemente também não
é grande. Um contribuinte brasileiro e um canadense que tivessem
a renda de 600 000 cruzeiros pagariam, respectivamente, 45% e 48%
de imposto de renda. Mas há uma diferença fundamental.
Cai a progressão - "No
Brasil, o imposto só é progressivo até o ponto
em que interessa ao sistema que se está construindo",
diz Delfim. Os incentivos fiscais que permitem à pessoa jurídica
abater 50% do imposto devido para a aplicação em projetos
da Sudene ou da Sudam, por exemplo, diminuem substancialmente a
progressividade do imposto.
Onde, normalmente, as alíquotas
começariam a ser mais pesadas, o governo adiciona um incentivo
que, evidentemente, só beneficia a quem tem muito a pagar.
"É certo que a carga tributária é demasiada
para um país de baixa renda per capita, mas deve-se ressaltar
que nenhum país tem o sistema de devoluções
existente no Brasil: os incentivos fiscais, seja a aplicação
na Sudene, seja na utilização do Decreto-Lei 157,
que permite o abatimento de 12% do imposto para a compra de ações",
diz Paim. Ainda assim, Guimarães parece não concordar
com a estratégia do governo: "Estamos criando um excesso
de siglas nominais, do tipo Sudene, que hoje não passa de
uma máquina burocrática".
Na verdade, a estratégia oficial
não prevê a proliferação de siglas artificiais.
Delfim, por exemplo, explica o mecanismo dos incentivos fiscais
de outro ângulo: "Montamos um mecanismo eficaz do ponto
de vista do desenvolvimento e do investimento. O governo quis descentralizar
a iniciativa econômica - milhares de investidores descobrem
milhares de oportunidades de negócios. Fizemos isso sem precisar
criar uma Gosplan (o órgão central de planejamento
econômico da União Soviética), que criaria milhares
de empregos, mas para economistas".
A concentração - O
imposto de renda brasileiro, portanto, deixa de ser progressivo
no momento em que o governo prefere atribuir às empresas
e a pessoas físicas de alto nível de renda uma responsabilidade
na estratégia política de descentralizar a atividade
econômica. Contudo, perguntado sobre o fato de que 40% dos
contribuintes detêm apenas 9,5% da renda total, Delfim admitiu:
"Os incentivos fiscais são eficazes, porém provocam
inevitavelmente uma concentração de renda". Fica
óbvio, portanto, que a prioridade governamental não
é distribuir a renda imediatamente. É preciso, primeiro,
garantir que o governo arrecadará o suficiente para continuar
aplicando de forma maciça ("O que se chama muitas vezes
de 'excessiva' carga tributária tem de ser explicado pelos
altos níveis do investimento público", diz Delfim)
e, também, permitir que o empresário privado fique
mais forte para dividir com o governo a tarefa de investir. "O
empresário tem que ser apoiado diretamente, através
de crédito das entidades do estado, e até indiretamente,
através da associação com o estado em empresas-chaves",
diz Rômulo de Almeida. "É um equívoco quando
certos órgãos representativos do setor privado brasileiro
esbravejam contra a pesada carga tributária no Brasil, pois
a tal carga, paradoxalmente, não retira a renda e potência
do setor privado, na medida em que o estado faça investimentos".
Os juros - Embora a estratégia
empregada provoque uma desaceleração na política
de distribuição de renda, o governo vem procurando
fazer alterações que, de alguma forma, contribuam
para tornar a legislação mais justa. Este ano, por
exemplo, fechou uma ampla janela por onde os contribuintes de alta
renda escapavam. Reduziu de maneira drástica o limite para
abatimento de juros de dívidas pessoais. Passou de 50% para
apenas 6% .
Não foi, é óbvio,
uma providência motivada por um implacável espírito
de perseguição. O ministro Delfim Netto pediu ao Grupo
de Política Tributária um estudo sobre esse abatimento.
E, em fins de 1970, obteve resultados altamente esclarecedores.
Descobriu-se, de saída, que havia uma rigorosa relação
entre os níveis de renda e a aplicação desse
abatimento.
Em 1968, os contribuintes que tiveram renda
anual de até 6 000 cruzeiros representavam apenas 4% do total
de contribuintes que se valiam desse abatimento. Em compensação,
os que auferiam em torno de 400 000 cruzeiros anuais eram 54% do
total. Na prática, esse abatimento era utilizado pelas pessoas
de alta renda simplesmente para pagar menos imposto. Por exemplo,
era vantajoso levantar um empréstimo bancário e aplicar
o dinheiro na Bolsa, pois a dedução dos juros resultaria
numa substancial diminuição do imposto a ser pago.
(Sem falar, é claro, nos eventuais rendimentos conseguidos
com uma favorável maré na Bolsa.)
Apesar da pesada redução
de 50% para 6%, procurou-se "preservar a capacidade total de
endividamento dos contribuintes que estão na faixa de renda
de até 48 000 cruzeiros", explica Antônio Milão
Rodrigues Lima, coordenador substituto do sistema de tributação
da Secretaria da Receita. "Para que isso fosse conseguido,
permitiu-se uma dedução de até 3 024 cruzeiros,
mesmo que esse valor vá além do limite de 6%".
Os liberais - Uma outra janela,
usada com a mesma intensidade com que se acumulavam juros de dívida
pessoal a serem abatidos, era o capítulo da lei que permitia
aos chamados profissionais liberais - médicos, dentistas,
advogados - descontarem sem qualquer comprovação até
40% de seus rendimentos. Esse capítulo da lei procurava englobar
despesas como a montagem de um consultório.
Mais uma vez, porém, os bons propósitos
da legislação eram manipulados com intenções
menos nobres. Cada vez menos profissionais liberais pagavam o imposto.
Em São Paulo, um dentista com 45
anos de profissão, aposentado pelo INPS, mas ainda clinicando
em seu consultório particular, é bastante franco:
"Eu pagava, mas depois fui verificando que meus colegas não
o faziam. Resolvi, então, deixar de pagar, e ninguém
veio me perturbar. Há quatro anos, achei que seria melhor
voltar a pagar o imposto. E agora não há como escapulir".
Hoje, as possibilidades de escapulir tornam-se
cada vez menores. Além de ter ocorrido, este ano, uma redução
do limite de 40% para 20% de despesas sem comprovantes, a partir
de 1973 será introduzido o sistema de pagamentos em bases
correntes, que eliminará mais uma vantagem dos profissionais
liberais: não pagar o imposto na fonte. "Essas medidas
revelam uma desconfiança injusta com o profissional liberal,
principalmente com o médico", protesta Bernardo Rochwerger,
proprietário de clínica para check-up, em São
Paulo. "Somos sempre olhados com má vontade. Há
pouco tempo, o Fisco pensou em introduzir notas fiscais nos consultórios
médicos. A classe protestou, acabaram mudando de idéia.
Seria um absurdo, porque um consultório médico não
é uma lojinha comercial. "
Casa própria - As alterações
na legislação do imposto de renda não se preocupam
apenas em fechar as janelas da evasão. Em 1972 será
permitido deduzir os juros e até 20% do total das prestações
pagas pelo contribuinte que tiver comprado casa no Sistema Nacional
de Habitação liderado pelo BNH.
É evidente que essa decisão
foi provocada pela necessidade de reativar os negócios imobiliários,
fortalecendo o programa habitacional do governo. De qualquer forma,
diminuirá o impacto dos juros e da correção
monetária sobre os orçamentos familiares. É
uma medida que beneficiará todos os compradores. principalmente
os de renda mais baixa - exatamente os que compõem a maioria
dos que compram casa pelo BNH.
Ainda para este ano foram alteradas as
alíquotas que determinam o desconto do imposto de renda na
fonte. Basicamente, caíram as porcentagens que incidem sobre
as classes de renda mais baixa. O objetivo foi reduzir o número
de pedidos de restituição de imposto pago a mais.
No ano passado, 650 000 contribuintes receberam cheques de restituição.
"Eram contribuintes que estavam adiantando dinheiro que o governo
depois devolvia", explica Furtado.
"A alteração mostra
que não queremos receber nem a mais nem amenos". Esse
aumento do teto descongestionará os já sobrecarregados
computadores do Serviço Federal de Processamento de Dados.
O principal objetivo da modificação é, portanto,
simplificar os trabalhos do Fisco. Mas uma camada razoável
dos contribuintes de renda baixa deixará de pagar o imposto
ou, pelo menos, sofrerá descontos menores em seus vencimentos.
A segurança - Todas essas
providências são, de certa maneira, uma tentativa de
utilizar o imposto de renda para aliviar a carga que pesa sobre
os contribuintes de renda inferior - e, portanto, de utilizá-lo
como instrumento de justiça social.
Embora o líder oposicionista Ulysses
Guimarães acuse o governo de revelar uma deplorável
"gula fiscal", as autoridades federais parecem conhecer
toda a extensão de sua estratégia. Se, por exemplo,
se lamenta a cumplicidade do imposto de renda com uma tendência
à concentração de renda, Delfim Netto responde
com segurança: "Isso não é mau nem bom.
Isso é o que ficou estabelecido no programa do governo. Estão
tentando julgar eticamente um instrumento construído dentro
de uma estratégia política".
|
|