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22 de janeiro de 1997
O imperador do Bradesco

Quem é Lázaro Brandão,
chefe da empresa privada de
maior lucro na História do país

Quando Amador Aguiar deixou a presidência do Bradesco, em 1981, muita gente se perguntava se o seu sucessor teria a mesma garra e agressividade para tocar um banco que, já naquela época, era a principal potência financeira do país. O eleito chamava-se Lázaro Brandão, um senhor quase rechonchudo, calmo, de gestos comedidos e fala mansa. Saía Amador Aguiar, um personagem mitológico que encarnava o empreendedor clássico - quando tirou férias pela primeira vez na vida, já avô, foi passá-las numa agência do Bradesco em Brasília. Entrava no seu lugar Lázaro Brandão, que mais parecia um cônego do interior, bondoso e contemplativo. Pois bem. Sob a batuta do sucessor, o Bradesco ficou muito maior do que era. Dentro de alguns dias, o banco anunciará à praça o maior lucro de toda a história da iniciativa privada no Brasil. Mas não é só isso. O Bradesco tornou-se agressivo e onipresente.

No comando de uma organização com mais de 50 000 funcionários, que possui um estoque de 13 bilhões de dólares para investir, Brandão tem o poder de tirar grandes empresas de dificuldades. A Sharp foi salva por ele. A Refripar, que fabrica as geladeiras Prosdócimo, também. Bancos com dificuldades de caixa recorrem a Brandão em primeiro lugar. Bilhões de reais do Bradesco são emprestados diariamente a outros bancos. Autoridades, de diretores do Banco Central a ministros, ligam todo dia para o presidente do Bradesco. Querem palpites sobre medidas econômicas, tomam a temperatura do mercado e muitas vezes pedem que ele ajude esta ou aquela instituição financeira. O porte do Bradesco, com sua presença em 1 300 municípios, faz com que ele seja sensível a qualquer alteração no humor dos depositantes e dos tomadores de empréstimos. O governo precisa dessa fonte de informação.
 
Negócios - Outra vez, não é só isso. É muito mais. O correntista comum do Bradesco não tem a mínima idéia, mas o grupo que leva o nome de seu banco está hoje metido em alguns dos maiores negócios que se fazem no Brasil. O Bradesco estava enfiado até o pescoço na famosa compra da indústria de autopeças Metal Leve por outra companhia do ramo, a Cofap, em associação com a multinacional Mahle. Simples: o Bradesco era dono de um pedaço da Metal Leve e de uma parte da Cofap. Também estava lá quando, na semana passada, a enorme Alpargatas sofreu intervenção e ganhou novos administradores. O Bradesco, junto com a empreiteira Camargo Corrêa, é dono de um bom naco da Alpargatas. Também é sócio da Pirelli, da Perdigão, da Sadia, da Antarctica, numa relação de 39 empresas. Sempre que vem ao Brasil, o financista italiano Sergio Cragnotti, que aqui é dono da Bombril, dá uma passada na sede do Bradesco, em Osasco, na Grande São Paulo, para ouvir as opiniões de Lázaro Brandão. No último negócio de Cragnotti, precedido de uma passadinha por Osasco, ele vendeu um pedaço da Bombril para a multi americana Procter & Gamble. O Bradesco estava ajudando Cragnotti a identificar oportunidades no ramo da indústria de alimentos, considerada pelo italiano um filé mignon brasileiro.

Há outras coisas, mas o essencial a reter é que o grupo Bradesco tem uma dimensão e uma dinâmica muitíssimo maiores do que imagina a maioria das pessoas, seus clientes inclusive. O banco, que é o maior privado da América Latina, divulgará agora seus resultados de 1996, aguardados com ansiedade por banqueiros e operadores das bolsas de valores. O lucro, que todos esperam, deve bater ou superar a casa dos 800 milhões de reais. A única vez que uma organização brasileira chegou mais perto disso, em 1994, essa companhia era uma multinacional poderosíssima, a Autolatina, resultado da desfeita associação da Ford do Brasil com a Volkswagen. A Autolatina conseguiu naquele ano lucro de 690 milhões de dólares. Montado num cofre transbordante de dinheiro, dono de um poder imperial no interior do Bradesco, conselheiro informal de autoridades, interlocutor ocasional do próprio presidente da República, Lázaro Brandão é hoje o executivo mais poderoso do mercado financeiro e a eminência parda da economia.

A praça cultiva respeito e medo em relação a esse senhor que é sempre cortês, jamais levanta a voz e esconde sistematicamente seus pensamentos. Empresários querem e precisam estar de bem com ele. Um dia podem precisar de um favor, de um empréstimo, e a fonte mais abundante é o Bradesco. Eles sabem também que Brandão tem um peso enorme nas reuniões empresariais em que se decidem coisas significativas. Sem ele, um conchavo de empresários perde um pouco da substância. 'Ele vai a todas as reuniões importantes, e quase sempre fica quieto. É uma sombra. Mas uma sombra decisiva', diz Mario Amato, ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Fiesp.
 Por essa razão, fazer críticas abertas ao presidente do Bradesco é um mau negócio. 'Ninguém fala mal dele, porque todos temos juízo', diz um banqueiro de São Paulo. Se uma das faces do poder de Brandão está em ajudar empresários necessitados, por interesse financeiro, é claro, a outra face está em punir os malcomportados. Apoiado na fortuna de bilhões que administra, ele pode abalar a credibilidade de um banco no momento que quiser. Basta mostrar ao mercado que o Bradesco perdeu a confiança naquele banco. 'Se o Bradesco não empresta, eu também não empresto', diz um outro banqueiro paulista.

Na crise bancária do ano passado, detonada pela quebra dos bancos Econômico e Nacional, Brandão precisou ajudar o Banco Central. Chegou a emprestar mais de 1 bilhão de dólares por dia para sustentar os bancos à beira da quebra, enquanto o BC preparava a intervenção. 'Sem essa ajuda, nem nós sabíamos o que poderia acontecer ao mercado financeiro', conta um alto executivo do Bradesco. Nos momentos de mais tensão, o presidente Fernando Henrique chamou Brandão pelo menos duas vezes a Brasília para ouvir sua opinião. Os telefonemas do presidente do BC, Gustavo Loyola, ao banqueiro paulista foram freqüentes nessa crise.
 
'Seu' Brandão - Brandão preside o Bradesco há quase dezesseis anos, como um monarca. Quando ele entra no saguão do prédio-sede do banco, os funcionários que estão por perto ficam um pouco mais duros. E silenciosos. É estranho. Lembra um pouco a posição de sentido do soldado na chegada do oficial ao quartel. Ninguém, nem mesmo outros cardeais bradescanos com muitos anos de casa, o trata pelo primeiro nome. O que se ouve é 'seu Brandão'. Quando se referem a ele longe de sua presença, também usam esse formalismo, da mesma forma que Brandão até hoje chama o falecido Amador Aguiar de 'seu Aguiar'. O interessante é que Brandão não é o dono da organização, mas apenas funcionário de carreira, um dos três mais antigos. Mas conta com uma situação mais firme do que a maioria dos executivos no comando de outras organizações. Como os juízes, é quase inamovível. Essa situação se deve a uma armação feita pelo criador do Bradesco, o banqueiro Amador Aguiar, na medida para si próprio. Aguiar montou um sistema de mando feito para perpetuá-lo na presidência e para que pudesse controlar a instituição sem a interferência de ninguém. Em 1981, ungiu Brandão como seu sucessor e lhe transferiu o status de imperador.

O sistema funciona da seguinte maneira. O controle do Bradesco pertence a duas holdings, também presididas por Brandão. Ele só perde a chefia se enfrentar uma rebelião dos diretores que votam nessas holdings, mas isso, como sabem os diretores, é praticamente impossível. Sua Parker preta, já desgastada pelo uso, pode demitir toda a diretoria de uma vez só. Por isso, no grupo dos treze executivos que tocam o banco, ninguém o contraria. Nesse grupo, as pessoas lutam para chamar a atenção do chefe. Pelo estatuto, que ele pode alterar no momento que quiser, cabe a Brandão decidir quando se aposentar.

No momento, ele não pensa nisso. Por sinal, com 70 anos de idade já deveria estar aposentado. De acordo com o antigo estatuto, o presidente do Bradesco saía aos 65 anos. Só que Brandão alterou os estatutos, criando uma exceção que só beneficia a ele. Tanto quanto Fernando Henrique Cardoso, Brandão quis ficar mais no poder. No seu caso, é mais fácil. Não precisa negociar com um Congresso inteiro. Negocia apenas com sua própria vaidade e ambição. Um administrador com esse poder, estando disposto a usá-lo, desagrada muita gente. Aconteceu com a mudança estatutária. Sem perspectiva de ocupar a escrivaninha do chefe, Alcides Tápias, ex-presidente da Febraban e um dos profissionais mais brilhantes do banco, pediu demissão no ano passado. Virou presidente do grupo Camargo Corrêa. Um outro que estava na linha sucessória, Armando Fernandes Júnior, estabeleceu-se como empresário fora do Bradesco.
 
Jogos arriscados - A força de Lázaro Brandão vem do dinheiro que ele tem para gastar e da liberdade para escolher onde e como aplicar os reais de seus 5 milhões de contas correntes, 14,8 milhões de cadernetas de poupança, mais de uma centena de fundos de investimentos. Num momento em que as empresas estão se fundindo e há tantos empresários enforcados em dívidas, a sua assinatura pode ser fundamental. Em 1995, as quatro grandes montadoras, Ford, Fiat, GM e Volks, procuraram Lázaro Brandão para que ele salvasse a Brosol, uma fabricante de autopeças que estava falida mas era estratégica para a produção de carros no Brasil. O pedido foi aceito. No ano passado, o empresário paulista Ricardo Mansur, dono dos laticínios Vigor e Leco, sofreu restrições de uma boa parte dos empresários de São Paulo. Ele faz jogos arriscados e não gosta de divulgar as contas de suas empresas. Não importa. Brandão admira Mansur, e isso basta. Com dinheiro do Bradesco, Mansur comprou o Mappin, rede de lojas de departamentos de São Paulo, e o banco Antônio de Queiroz.

Em outras ocasiões, o Bradesco negaceia. Em meados de 1995, Marcos Magalhães Pinto ofereceu-lhe o Nacional, o banco que acabou quebrando em novembro daquele ano. Executivos do Bradesco estudaram os números do Nacional só para dar a Brandão argumentos para recusar a oferta. O ex-banqueiro Ângelo Calmon de Sá, do Econômico, foi mais despachado. Já estava quebradíssimo quando pediu dinheiro emprestado ao Bradesco. 'Não se retraia, senão eu quebro', disse a Brandão num telefonema. O Bradesco ajudou o Econômico, em empréstimos renováveis a cada dia. Ângelo Calmon voltou a ligar, reclamando do prazo muito curto, mas não foi atendido. Calmon já era visto com desconfiança havia tempos. Em 1991, Bradesco e Itaú se uniram para impedir que o banqueiro baiano se elegesse presidente da Federação Brasileira dos Bancos, Febraban. Temiam que ele usasse a entidade para obter vantagens para o Econômico, que já não ia bem. O eleito para a Febraban foi Alcides Tápias, vice-presidente do Bradesco na época.

O poder de socorrer ou atrapalhar ajuda a compreender algumas ocorrências econômicas do país. Até setembro de 1994, o Bradesco liderava um grupo de bancos no financiamento ao Banespa, feito com o giro de títulos do governo de São Paulo. Com o avanço de Mário Covas na campanha eleitoral, o Bradesco passou a ter medo. Imaginou que Covas poderia dar um calote nos títulos estaduais para resolver o problema do Banespa e parou de socorrê-lo. Os outros bancos o imitaram, e o Banco Central teve de intervir no Banespa.
 
Figura desconhecida - Montado em tantos bilhões, o Bradesco transformou-se num acumulador de energia política. No mês passado, o governo do Rio de Janeiro tentou vender o Banerj, mas o leilão foi adiado por causa de uma sentença judicial. Essa é a história oficial. A verdadeira, de acordo com pessoas que acompanharam o caso, foi o desinteresse do Bradesco em comprar o Banerj. Brandão não queria mais o banco. Mas estava, como sempre, fazendo um favor ao Banco Central. O BC lhe pediu para entrar na concorrência, de maneira a estimular os outros concorrentes. Sem o Bradesco, o leilão ficaria anêmico.

Com essa articulação que o leva de um lado para o outro, sempre que há muito dinheiro em jogo, Lázaro Brandão continua uma figura desconhecida da maioria dos brasileiros. Para os que, eventualmente, pudessem interessar-se pelo assunto, existe ainda uma barreira. Uma das obsessões de Brandão é proteger sua intimidade. 'Não fico à vontade para falar de mim, não gosto de aparecer. Prefiro que falem a respeito do banco', diz. Observado de perto, ele é uma figura intrigante. Tem uma rotina metódica como trem japonês. Acorda um pouco antes de o despertador tocar, às 5h45, e desliga o botão antes do apito. Veste um terno invariavelmente escuro. Só tira o paletó quando volta para casa. Às 6h45, está subindo para sua sala de trabalho na Cidade de Deus, uma bairro em Osasco que abriga a sede do Bradesco.

No trato pessoal, Brandão cultiva uma gentileza formal. Fala em tom baixo e mede seus gestos. Nenhum deles é brusco. Nunca interrompe um interlocutor e responde em frases curtas. Essa cortina polida pode atrapalhar o julgamento de quem conversa com ele pela primeira vez. Dá até para pensar que o banqueiro é mesmo uma pessoa humilde, ou inerte. Ele não é uma coisa nem outra. Sabe o quanto é poderoso e gosta disso. 'Eu me dou bem com o poder', diz. Comanda o Bradesco com energia militar e passa por cima de quem o incomoda como uma motoniveladora. Não repete uma ordem pela segunda vez. Quem desobedece a Brandão sai do Bradesco, sem choro. Neste ponto, o banqueiro que faz mesuras para os visitantes torna-se frio e inflexível como uma garrafa de vidro.
 
Origem humilde - O Bradesco é uma organização estranha. Não há outro banco que funcione como ele no país. Lá não se admite brilho individual e por isso, de vez em quando, se perde um talento, como Alcides Tápias ou Fernão Bracher, que saiu do Bradesco para ser presidente do Banco Central e depois montou o seu riquíssimo BBA. O grupo de treze executivos que forma o estado-maior de Lázaro Brandão é constituído de pessoas de origem humilde, que começaram no Bradesco como escriturários ou caixas. Lá não tem filho nem primo de milionário. Encontram-se entre os vice-presidentes alguns que não têm curso superior, um ex-professor primário, um bacharel em direito pela faculdade de Osasco. Essa elite do Bradesco não joga golfe, dá duro em cursinhos de inglês e seu assunto predileto, fora o banco, é futebol. Mas eles conhecem profundamente o funcionamento de um banco, sabem como pensa o cliente, e por isso o Bradesco funciona como uma máquina ágil.
 Esse sistema pode não ser bom para bancos de risco, como o Garantia e o Pactual, com sua penca de garotos brilhantes com chapéu de Ph.D. Mas dá certo no Bradesco, que não gosta da aventura e é hiperconservador em suas jogadas. Esse conservadorismo dá às pessoas a impressão, correta, de que o Bradesco é uma pilastra segura. Por isso, em momentos de incerteza no mercado financeiro, muita gente transfere seus investimentos ou sua conta corrente para o bancão de Osasco.

Aquele que aborrece o comandante desse transatlântico financeiro deve-se preparar para um castigo. Certos comportamentos Brandão não perdoa. Falta de cortesia é um deles. No ano passado, um cliente reclamou da demora no atendimento no caixa de uma agência do Rio Grande do Sul. O funcionário que ouviu a queixa sugeriu que ela fosse feita diretamente ao Alô Bradesco, um serviço que anota queixas e sugestões dos clientes. Todo dia de manhã, Brandão lê um relatório desse serviço. Viu a história e mandou demitir o funcionário mal-educado.
 
'Geladeira' - Os castigos são distribuídos democraticamente. Há dois anos, o Banco Boavista contratou um grupo de executivos do Bradesco, prática rotineira no mercado financeiro. Para o presidente do Bradesco, isso é traição. O relacionamento comercial com o Boavista foi cortado. O Garantia, o banco arrogante de Jorge Paulo Leman, fez truques com cheques e ganhou dinheiro à custa do Bradesco. A esperteza irritou Brandão. De sua caneta partiu um raio punitivo contra o Garantia. 'Eles foram para a geladeira e sabem muito bem por que', diz um executivo do Bradesco.

Esse homem, que pode tornar-se vingativo quando o irritam, tem uma outra mania. Gosta de parecer simples. Um de seus pratos prediletos é arroz, feijão, bife e salada. Mesmo que o encostem na parede, não consegue lembrar de algo mais saboroso. Bebe vinho nas festas a que vai. Esse é o teor alcoólico máximo que ele suporta. Anda com 200 reais no bolso, um cartão de crédito e três ou quatro folhas de cheque, destacadas do talão. O chefe do Bradesco não usa carteira. 'É um trambolho', diz.

Ele não vai a cinema ou teatro, nem aluga fita de vídeo para ver em casa. Não se lembra do último romance que leu. Liga a TV de noite, depois do jantar, e fica pulando de um canal a outro até se aborrecer e desligar o aparelho. Não sabe quem é o cantor do momento, nem tem um ator predileto de cinema.

Brandão é casado há 47 anos com dona Albertina, tem três filhas e um neto. Ele é rico. Em ações do Bradesco, tem mais de 20 milhões de reais. É dono de dois apartamentos e uma fazenda de 300 hectares na cidade de Itatiba, onde cria gado leiteiro. Sua frota é formada por um Omega (Brandão pronuncia 'Oméga') ano 1992, um Fusca azul e um jipe importado. O Fusca foi um capricho. 'Comprei em 1986 quando soube que o carrinho ia sair de linha.' Seu apartamento, num prédio da região dos Jardins - área em que moram pessoas ricas e de classe média alta -, tem 700 metros quadrados. No mesmo prédio, um ex-diretor do Bradesco mora num apartamento que tem o dobro do tamanho.

Essas marcas de simplicidade, cortesia, frugalidade protegem Brandão de críticas. Mesmo que se esprema a laranja, não dá para achar nada que manche o seu retrato de bom moço. São uma ferramenta para cuidar não só da imagem dele, mas de todo o banco. Ele exige esse comportamento discreto de todos os seus executivos. A figura do banqueiro milionário e exibido incomoda as pessoas comuns, e Brandão quer que o alto escalão de seu banco passe para o público a impressão de que, ali, todos são pessoas como as outras.
 
Acareação - Esses sinais, no entanto, escondem um empresário que é tão vaidoso e autoritário como seus colegas. O que não é nenhum defeito. Um indício da vaidade do chefe do Bradesco é o fato de que ele não admira nenhum outro banco. Depois de muita insistência, diz que 'respeita' o Itaú. Brandão parou os estudos ao concluir o 2º grau. Não tem no Bradesco um departamento de economistas para orientá-lo. 'Nós mesmos, da diretoria, damos conta do serviço.' É na questão da autoridade que está a aresta mais pontuda do banqueiro cortês-modesto, que só arranha o inglês, não usa celular porque o aparelho o chateia e só domina as funções básicas de um microcomputador.

Nas reuniões de diretoria, questões que interessam ao presidente do Bradesco podem ser discutidas à vontade pelos treze vice-presidentes e diretores-gerentes. Mas quem dá o primeiro voto é Lázaro Brandão, e todos o acompanham. Contestações frontais às suas decisões não são admitidas na lei não escrita do Bradesco. 'Quem manda lá é ele e todos nós sabemos disso', diz um desses executivos.

O cerimonial interno do Bradesco é muito interessante. Brandão raramente faz repreensões pessoais aos executivos. Quando não gosta do comportamento de algum deles, faz com que um colega passe o recado de que o chefe não está gostando. Quando um executivo reclama do serviço de outro, os dois são acareados pelo presidente. Nesse grupo de executivos, ninguém é demitido no rito sumário. Aquele que desagradou Brandão é avisado, pelo chefe, de que não será reeleito para o cargo na próxima assembléia. As assembléias que elegem esses treze diretores e o próprio Brandão ocorrem anualmente, no mês de março. Quem vota são eles mesmos, e a lista de eleitos é feita pelo próprio Brandão.

Essa engenharia genética, capaz de produzir uma diretoria uniforme por muito tempo, foi criada por Amador Aguiar, que morreu em 1991. Ele era um homem esquisito, que não gostava de meias, criava leões e cultivava a religião protestante com fanatismo. Aguiar entrou no Bradesco em 1943, como gerente, vindo de uma família de roceiros do interior de São Paulo. Acabou virando o dono do banco.

Sob a gestão de Aguiar, a diretoria do Bradesco assumiu a sua feição atual. Todos trabalham num mesmo salão no prédio de Osasco. Diretores e vice-presidentes não têm mesa própria. Dividem duas grandes mesas - os 'mesões'. No salão, há duas escrivaninhas antigas. Uma é ocupada por Lázaro Brandão. A outra, vazia, era de Aguiar. Essa escrivaninha é ornada de uma plaqueta de plástico com a palavra 'Pense'. É chamada no salão de 'a mesa do Pense'. Mas ela ficou ali, na verdade, para lembrar as orientações do antigo chefe. Brandão e seu antecessor têm muitas semelhanças. Os dois começaram a vida no interior de São Paulo, como funcionários do banco, em postos subalternos. Aguiar, como Brandão, cultuava o trabalho e a disciplina. O seu símbolo físico do Bradesco era um burrico de carga. Aguiar proibia exibições de riqueza. Brandão não as admite.
 
Lado oriental - O Bradesco está mudando rapidamente. Na época de Aguiar, o banco era misturado com a religiosidade do patrão. Tanto que sua sede, um bairro inteiro em Osasco, se chama Cidade de Deus. No passado, os impressos do Bradesco traziam a frase 'Confiamos em Deus'. Isso já não existe desde 1993. Outra coisa que acabou foi uma declaração de princípios que os funcionários tinham de assinar quando assumiam cargos importantes. Era um juramento de amor à pátria, ao trabalho, à humildade, ao banco e à hierarquia. Na mudança do Bradesco, o mais interessante é o rumo que o grupo tomou. Até 1989, o foco central dos negócios na Cidade de Deus era o banco. Nesse ano ocorreu a eleição presidencial e o Bradesco tomou um susto. Em determinada fase da campanha, os dois candidatos de esquerda, Lula, do PT, e Leonel Brizola, do PDT, ficaram muito fortes. Na Cidade de Deus, passou-se a temer que o banco fosse prejudicado caso algum deles se elegesse. 'A área financeira seria muito visada num governo de esquerda', diz um alto executivo do Bradesco.

Foi nesse momento que o banco passou a se fortalecer fora da área financeira comprando participações em indústrias e empresas comerciais. Lázaro Brandão tem um lado oriental em sua personalidade. Raramente diz não. Ele é visitado quase todos os dias por uma fila de gente que pede coisas. Há de tudo nessa romaria, de políticos a religiosos e cantores. Nunca recebe as visitas sozinho, para evitar o supremo desprazer de negar alguma coisa. Na hora do não, alguma secretária o chama para um compromisso e quem nega o pedido é o diretor que ficou com a visita. Um segredo que todos gostariam de saber é a data de sua aposentadoria. Mais do que isso: é o nome que Brandão escolherá para ocupar o seu posto. É provável que nem dona Albertina, mulher de Lázaro, saiba quando o marido irá aposentar-se. Ela foi a primeira a saber que o namorado cobiçava algo mais do que o cargo de inspetor do Bradesco. 'Eu ainda vou ser presidente desse banco', disse Lázaro a Albertina, em 1948, quando ainda eram namorados.

 

 


 
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