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21 de novembro de 1979
O limite da potência

Os EUA constataram que ser
um supergrande, num mundo de
economia cada vez mais complexa,
já não basta para resolver
uma crise como a do Irã

Em sua retirada às pressas, nos derradeiros momentos que precederam a queda do Vietnã do Sul para as tropas comunistas do Vietnã do Norte, o último embaixador americano em Saigon, Graham Martin, amarrou a seu corpo a bandeira dos Estados Unidos que antes tremulava nos jardins da embaixada - e levou-a intata num helicóptero de resgate da Força Aérea. Na semana passada, perplexos e indignados, milhões de americanos puderam assistir pela televisão a uma outra cena envolvendo a sua mesma bandeira bem diferente, porém, da protagonizada em 1975 pelo embaixador Martin. Sorridentes e desafiadores, dois estudantes iranianos entre as centenas que ocupavam há quase duas semanas a embaixada americana em Teerã, mantendo sob ameaça cerca de 100 reféns, transportavam, no pavilhão vermelho, azul e branco de listras e estrelas, o lixo produzido no edificio.

A cena era altamente simbólica. Golpeada e ultrajada por uma ocupação patrocinada por um governo hostil que prosseguia pisoteando normas seculares de convivência diplomática, a maior superpotência do planeta não podia senão reagir em doses homeopáticas. Na verdade, já neste limiar do ano 2000, a crise entre os EUA e o Irã dramaticamente evidenciava o quanto a enorme malha de interesses e compromissos de uma superpotência acaba tornando-a, de forma paradoxal, mais vulnerável. Neste caso, de fato, não era apenas a vida dos reféns - 65 deles americanos - que estava em jogo. O governo do aiatolá Khomeini continuava a brandir sabres sobre as cabeças dos reféns, exigindo a entrega pelos EUA do deposto xá Mohammed Reza Pahlevi - que se encontra internado num hospital de Nova York. E um tiroteio de medidas restritivas, retaliações e contra-retaliações econômicas trocadas durante a semana entre o terceiro maior exportador de petróleo do mundo e os Estados Unidos carregava ainda mais os tons já cinzentos da situação econômica internacional.

'DITADURA DO DÓLAR' - "É a maior crise que enfrentamos desde a II Guerra Mundial", chegou a comentar o ex-presidente Gerald Ford com amigos. Exageros à parte, a opinião de Ford dava uma idéia do delicadíssimo desafio que tinha diante de si o presidente Jimmy Carter, um homem acusado exatamente de hesitar em momentos difíceis e de não exercer a liderança forte de que necessita o governo de Washington.

Tendo à sua mão um complexo militar capaz de varrer do mapa continentes inteiros a um aperto de botão, o presidente continuava porém com a mesma limitação drástica da semana anterior de não poder utilizar a força para resgatar os reféns - até pela simples razão de que isso só traria mais e maiores problemas para os Estados Unidos. Apesar da enormidade dos meios militares à sua disposição, inclusive próximos do Irã, o presidente acabou tendo que concentrar a maior parte de suas energias no campo da guerra econômica. E, apesar do caráter enérgico das decisões americanas, como a de suspender todas as importações de petróleo do Irã e congelar todos os bens e depósitos iranianos em bancos americanos, o Irã parecia prosseguir decididamente num curso de colisão com o colosso americano. "Vamos acabar com a ditadura do dólar", disse na quinta-feira o chanceler provisório do Irã, Abdul Hassan Bani Sadr, sugerindo que seu país poderia deixar de aceitar a moeda americana em pagamento de seus fornecimentos de petróleo.

Na sexta-feira, Bani Sadr anunciou que a medida tinha sido adotada mas, numa demonstração do caos institucional em vigor no Irã, o próprio ministro do Petróleo, Ali Akhhar Moinfar, desmentiu em seguida qualquer decisão nesse sentido tomada seja lá por quem fosse. Ficou no ar, porém, uma não desprezível ameaça à economia de todo o Ocidente e do Japão, caso se concretize essa antiga aspiração dos membros mais radicais da OPEP, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo.

'SARAJEVO' - A possibilidade de o Irã não aceitar o dólar provocou uma queda nas cotações da moeda americana nos principais mercados financeiros, como Paris, Londres, Zurique e Frankfurt. É compreensível esse temor. A recusa de um grande produtor como o Irã em receber dólares por seu petróleo teria um efeito de dominó sobre a economia do Ocidente. De inicio, os importadores de petróleo iraniano teriam que fazer maciças trocas de suas reservas em dólares por moedas mais fortes e a grande oferta de dólares no mercado provocaria uma queda nas cotações.

Paralelamente, grandes clientes do Irã, como a Alemanha Ocidental e o Japão, veriam drasticamente aumentadas suas contas em petróleo, até agora pagas numa moeda - o dólar - em contínua desvalorização frente a suas próprias divisas. A desvalorização acelerada do dólar, por sua vez, poderia finalmente levar mesmo os moderados dentro da OPEP a exigir outras moedas, ou uma "cesta" de outras moedas, para a compra do petróleo produzido pelo cartel. Nesse caso, haveria uma elevação geral de preços, e os preços dos combustíveis dentro dos próprios Estados Unidos chegariam a níveis inimagináveis - pois os americanos, que importam 45% do petróleo que consomem, além de pagar mais pelo produto, teriam que jogar bilhões de dólares no mercado em busca de moedas mais fortes, num infernal ciclo vicioso inflacionário. "Isso está cheirando a Sarajevo", comentou um poderoso banqueiro americano - referindo-se ao atentado de 1914 que serviu de estopim à I Guerra Mundial.

KENNEDY E REAGAN - Na verdade, as primeiras escaramuças econômicas efetivamente traçadas já haviam comovido os meios econômicos. Na segunda-feira, contando com um sólido respaldo que ia de seu rival democrata Edward Kennedy ao conservador ex-governador da Califórnia, Ronald Reagan, que lançou na semana passada sua candidatura à Presidência nas eleições de 1980, o presidente Jimmy Carter decretara o fim de todas as compras de petróleo iraniano pelos Estados Unidos - no total, 700 000 barris diários, ou 4% das importações americanas. Pouco importa que o Irã, em seguida ao anúncio de Washington, decretasse um já então inócuo embargo de petróleo aos Estados Unidos. A decisão, como o próprio Carter explicou em discurso pela televisão, destinava-se a "eliminar qualquer sugestão de que pressões econômicas possam enfraquecer nossa posição numa questão básica de princípios" - o respeito à vida dos reféns e à integridade da representação diplomática.

Havia, de todo modo, um resultado econômico. Os EUA, conforme o próprio Carter assinalou, poderiam enfrentar a diminuição em suas importações se cada proprietário de automóvel no país tomasse a improvável decisão de rodar 5 quilômetros menos por dia. Mas na prática os americanos terão que buscar esse petróleo em outra parte, a preços maiores - sem contar que o Irã certamente lançaria, como o fez, esses 700 000 barris no mercado spot, ou mercado livre de Rotterdam, onde os preços já chegam a quase o dobro do preço-base da OPEP, de 23,50 dólares por barril. "Já estamos tendo um lucro adicional de 30 milhões de dólares por dia", vangloriou-se, a propósito, o chanceler provisório Bani Sadr.

Além de jogar petróleo no inflacionário spot e de decretar seu embargo inócuo aos EUA, o Irã contra-atacou embargando vendas de petróleo a multinacionais americanas, ainda que o óleo fosse destinado a outros mercados que não o americano. Essa medida, devido à complexidade do mercado petrolífero, poderia prejudicar o próprio Irã, perturbando a colocação de sua produção.

CONGELAMENTO - O chumbo grosso americano não tardaria. Às 4 e meia da madrugada de quarta-feira, o presidente Jimmy Carter foi acordado na Casa Branca por um telefonema do secretário do Tesouro, G. William Miller. Os EUA, informou Miller a Carter, haviam detectado a intenção do Irã de retirar dos bancos americanos todas as suas reservas em dólares. Seguiu-se uma reunião na Casa Branca, e a decisão de Carter: os depósitos iranianos seriam congelados.

Não era pouca coisa. Desde a década de 50, e coerentemente com sua posição de carro-chefe do capitalismo, os EUA firmaram sólida tradição de não tocar no enorme fluxo de dinheiro continuamente bombeado em seu mercado financeiro por investidores estrangeiros, públicos ou privados. Mas às 8 horas da manhã, de forma a antecipar-se à eventual movimentação do Irã, Carter assinava, com solenidade, o decreto de congelamento, devido à existência de "uma extraordinária ameaça à segurança nacional e à política externa dos EUA".

O presidente lançou mão, para tomar tal medida, de poderes que lhe são conferidos por uma lei de 1977, a Lei de Poderes Econômicos para Emergências Internacionais - que, contudo, submete à aprovação do Congresso, num prazo de trinta dias, as decisões presidenciais nela baseadas. Formalmente, segundo Carter, não se tratava de uma medida de retaliação, mas destinada a assegurar que eventuais reivindicações econômicas dos EUA ou de empresas americanas no Irã sejam "atendidas de uma forma ordeira". Os EUA ainda tem um total de 400 milhões de dólares em investimentos no Irã, que deve 2 bilhões de dólares a bancos americanos. Segundo o chanceler provisório Bani Sadr, haveria 12 bilhões de dólares iranianos nos EUA - mas os cálculos do governo americano chegaram a um total entre 5 e 6 bilhões, espalhados por diversos bancos, especialmente o Federal Reserve Board (o Banco Central americano), o Chase Manhattan e o City Bank of New York. Carter teria poderes para ir mais longe, decretando um embargo comercial ou congelando os bens de cidadãos privados iranianos, mas não o fez. Assim, não foram atingidos os depósitos e bens do deposto xá Mohammed Reza Pahlevi nos EUA.

'MAIS DE 1 TRILHÃO' - A determinação americana não diminuiu sua preocupação com os meios financeiros. Durante três horas antes da assinatura do decreto, Washington realizou consultas junto a grandes banqueiros americanos e estrangeiros e junto a governos árabes produtores de petróleo - "inclusive radicais", disse a VEJA uma fonte do Departamento do Tesouro -, obtendo em geral "compreensão" para a medida. De todo modo, não se pode dizer que a medida foi comemorada. "Os árabes estão literalmente mortos de medo agora", comentou em Paris um banqueiro ocidental que trabalha com um grupo Financeiro árabe.

"Quando as pessoas começam a se interrogar sobre a segurança de seus depósitos, a flexibilidade e a liquidez do sistema vão por água abaixo", acrescentou um banqueiro americano baseado em Londres. "Não há dúvida de que a longo prazo a iniciativa americana de congelar depósitos iranianos tornará os demais países produtores de petróleo mais relutantes em colocar seus excedentes financeiros nos EUA", disse para VEJA, em Nova York, o professor Paul Samuelson, Prêmio Nobel de Economia. Isso é tanto mais delicado quando se sabe que cerca de dois terços do quase inacreditável total de 230 bilhões de dólares amealhados pelos países da OPEP desde 1974 foram investidos nos EUA. Existe, contudo, um outro lado: praticamente não há, hoje em dia, melhor aplicação de grandes somas de dinheiro fora dos bancos americanos ou suas filiais, pois é lá que seu rendimento é maior. As taxas de juro a curto prazo, nos EUA, ocupam no momento o ponto mais alto da pirâmide entre os países ricos, justamente para atrair capitais flutuantes.

VITÓRIA NA ONU - Uma série de outros fatores trabalhou em favor dos EUA, apesar das tenebrosas conseqüências que a situação ainda poderia provocar. A estratégia americana de abrir todos os canais possíveis de solução não-violenta e de tentar isolar de todas as formas o Irã apresentava alguns resultados apreciáveis. Para ajudar a disciplinar o sensível mercado do petróleo, por exemplo, os EUA obtiveram o sólido respaldo dos dois maiores exportadores da OPEP, a Arábia Saudita e o Kuwait, que concordaram em bombar diariamente mais 1 milhão de barris de petróleo rumo ao Ocidente. Os sauditas também exerceram sua influência moderadora numa reunião de chanceleres árabes na Tunísia, quando uma proposta da Líbia para a utilização do petróleo como arma de negociação política foi rechaçada por inspiração do chanceler da Arábia Saudita, príncipe Saud al-Faisal.

No Conselho de Segurança da ONU, em Nova York, onde o Irã tentava convocar uma reunião para discutir o papel dos EUA em 37 anos do apoio à ditadura do xá, o secretário de Estado Cyrus Vance conseguiu uma vitória retumbante: por unanimidade, e com pleno apoio da URSS, os quinze membros do Conselho votaram contra qualquer discussão a respeito da situação iraniana enquanto os reféns não fossem libertados. Em Moscou, por sinal, círculos diplomáticos informavam que os russos, depois de terem insuflado os estudantes iranianos na semana anterior, estavam realizando gestões na tentativa de auxiliar na solução da crise.

Houve mais. Numa reunião do chanceler provisório Bani Sadr com setenta embaixadores e encarregados de negócios estrangeiros, até a neutra Suíça e a normalmente radical Argélia fizeram interpelações em favor dos reféns e da integridade da representação diplomática - e foram aplaudidas pelos presentes. Ao mesmo tempo, no Ministério das Relações Exteriores e na cidade santa de Qom, onde permanece o aiatolá Khomeini, choviam telegramas do mundo inteiro intercedendo pelos reféns, subscritos por líderes que iam do presidente Tito, da Iugoslávia, ao deposto chefe de Estado do Camboja, príncipe Norodom Sihanouk, que vive em Pequim.

'ATITUDE PASSIVA' - Curiosamente, de seus aliados tradicionais, os EUA não obtiveram muito mais do que um discretíssimo, quase pusilânime apoio e a promessa, feita por governos como os da Alemanha e do Japão, de que não vão comprar os excedentes petrolíferos do Irã. De toda forma, o quadro internacional oferecia escasso ou nulo apoio ao regime dos turbantes iranianos - a ponto de provocar lamúrias no aiatolá Hussein Ali Montazeri, o virtual número dois do momento. Durante oficio religioso em Teerã, Montazeri queixou-se da "atitude passiva dos árabes diante da campanha lançada no Irã contra o imperialismo americano".

Mas o isolamento do Irã ainda estava longe de representar um fim para o pesadelo que se abateu sobre os reféns presos há duas semanas na embaixada americana, ou de indicar um desfecho rápido e simples para a crise. Embora de certa forma recuando da posição inicial de exigir a cabeça do xá em troca da vida dos reféns, o Irã ainda mantinha condições intoleráveis para a soberania americana. Segundo Bani Sadr - sempre ele, transformado virtualmente na semana passada numa espécie de oráculo do aiatolá Khomeini -, Washington teria que tomar três providências básica: 1) reconhecer que o xá "é um criminoso"; 2) permitir que uma comissão internacional fosse interrogá-lo em território americano, para posterior julgamento; e 3) recambiar para o Irã toda a fortuna que Pahlevi "roubou do povo iraniano" - e que na verdade está em grande parte depositada na Europa.

DESAFIO - O clima do lado iraniano era tão pouco sereno quanto as exigências. Centenas de milhares de pessoas, inclusive membros das Forças Armadas, desfilaram diante da embaixada ao longo de toda a semana, gritando lemas antiamericanos. Carter foi declarado "inimigo da humanidade" pelo aiatolá Khomeini, que desafiou os EUA dizendo que os 35 milhões de iranianos estavam dispostos a um "martírio" para enfrentar "o grande Satã". O núncio apostólico Dom Anibale Bugnini, enviado do papa João Paulo II para interceder pelos reféns, foi recebido pelo aiatolá - mas voltou para Roma sob pesadas críticas de Khomeini ao silêncio que o Vaticano manteve durante meio século de opressão da dinastia Pahlevi sobre o Irã.

Acima de tudo, havia a inquietante possibilidade de que talvez interessasse ao aiatolá e seus turbantes a manutenção da tensão com os EUA por mais tempo, como forma de galvanizar a população em torno de um regime que está administrando o caos e que se via, até o início da crise, mergulhado em dificuldades de toda ordem. O Irã, de fato, simplesmente não tem um governo desde a renúncia do gabinete de Mehdi Bazargan, há duas semanas. Para piorar as coisas, o aiatolá, que normalmente já não tem maiores cuidados com o dia-a-dia dos assuntos de Estado, decidiu fazer um retiro para repousar até o dia 5 de dezembro, como se nada estivesse acontecendo. Não existem mais investimentos públicos. O funcionalismo público está paralisado - e a baderna é tal que o presidente do Banco Central do Irã precisou mandar um office-boy comprar jornais na semana passada para saber da decisão do secreto Conselho Revolucionário sobre retirada de fundos nos EUA.

O Conselho, aliás, tem o costume de anunciar suas decisões pela imprensa ou pelo rádio, e nunca para a burocracia do Estado. Nesses dias de crise, além disso, o Iraque está concentrando tropas na fronteira entre os dois países, e o Exército do Irã tem escassas condições de reagir: a maioria dos generais foi executada, os coronéis e oficiais médios que não estão desmoralizados não controlam a máquina militar nem impõem disciplina. A falta de peças de reposição americana e de manutenção já pôs fora de combate metade da Força Aérea. A oeste do país, a minoria curda voltou a se rebelar contra o poder central.

'GUERRA CIVIL' - No terreno econômico, a situação não é melhor. Calcula-se que um terço da força de trabalho do país, que é de 9 milhões de pessoas, esteja desempregada, em grande parte gente que trabalhava nos delirantes projetos governamentais do xá que foram cancelados pela "revolução islâmica". O país, que importa basicamente dos EUA um terço de suas necessidades em alimentos, agora terá dificuldades a curto prazo, com o congelamento das divisas depositadas nos próprios EUA.

Essa situação, somada à tendência do clero islâmico de concentrar o poder total em suas mãos, vinha provocando grandes divisões entre as diversas forças políticas e sociais que se uniram para derrubar o xá. "Vivemos um completo desastre", comentou na semana passada em Londres o ex-primeiro-ministro Shapur Bakhtiar, ex-líder oposicionista que chefiou um efêmero regime de transição no início do ano. "Sinto que uma guerra civil, lamentavelmente, é inevitável."

NOVO FÔLEGO - O presidente Carter, portanto, trabalhava em cima de uma situação extraordinariamente volátil e delicada. Mas o presidente parecia ter o conforto de amplo apoio. O PBX da Casa Branca não parou um minuto de receber telefonemas de toda parte elogiando a condução que Carter imprimia à crise. O presidente, ao entrar ou sair da Casa Branca, era aplaudido por populares - como foi intensamente aplaudido na missa a que compareceu na quinta-feira pela salvação dos reféns, numa catedral de Washington. Nos noticiários da televisão, o tratamento ao presidente, tradicional alvo de críticas, era respeitoso como nunca, desde que ele chegou ao cargo. Políticos de todas as tendências elogiavam ou apoiavam suas medidas.

Carter, assim, adquiriu novo fôlego em sua disputa por popularidade com o senador Kennedy, embora a dinâmica da crise pudesse atirá-lo ao abismo de uma hora para a outra. Mesmo certas críticas de setores conservadores sobre a "brandura" do presidente amainaram com seu discurso de quinta-feira, na sede da central sindical AFL-CIO, em que ele classificou de "terrorista" o comportamento do Irã e disse que "os americanos jamais venderão sua liberdade". O discurso foi considerado "o mais firme" da carreira de Carter.

A firmeza da fala presidencial calou fundo num país em pé de guerra contra o Irã. De norte a sul nos EUA, em dezenas de cidades, ocorreram na semana passada manifestações antiiranianas. Gritos e faixas com dizeres como "Fora, jóqueis de camelo" e outras mais insultosas foram a constante, com a temperatura se elevando diante de fatos como a morte de um jovem americano de 16 anos por um estudante iraniano no Colorado. Embora o governo, num assomo a mais de moderação, não se dispusesse e decretar o boicote de alimentos ao Irã - um em cada quatro iranianos é alimentado com produtos vindos dos EUA -, já começava a ocorrer um virtual embargo na prática. Estivadores americanos se recusavam a carregar navios rumo ao Irã e multinacionais com sede nos EUA cancelavam contratos de venda. Acresce, em tudo isso, o fato de que, à medida que o seqüestro se prolonga, com os EUA mantendo a serenidade e deixando de lado a força, fica mais e mais para o Irã o ônus de preservar a crise.

COMO UM JÓQUEI - Mas apoio a Carter ou ódio ao Irã não resolveriam, é claro, a crise em si. Para isso, tampouco os EUA pareciam inclinados a aceitar a saída do xá do país, como foi proposto novamente pelo próprio ex-monarca, internado no Centro Médico Cornell, em Nova York, a algumas quadras do apartamento onde estão sua mulher, Farah Diba, e três dos quatro filhos do casal. O estado do xá, que na semana passada sofreu três sessões de radioterapia para tentar bloquear um tumor canceroso no pescoço, é delicado. Um amigo que o visitou calcula que ele tenha perdido 15 quilos. "Ele está magro e parece pequeno como um jóquei", comentou outro visitante.

Para resolver a crise, os EUA confiavam sobretudo no sucesso da operação de isolar o Irã e de aumentar as pressões de toda ordem sobre o país. A intervenção militar continuava sendo descartada pelo próprio secretário de Defesa, Harold Brown - embora se admitisse a sua inevitabilidade no caso de haver morte dos reféns. Em tal caso, previa-se, o mínimo que ocorreria seria o bombardeio de campos petrolíferos. Se a crise terminar sem mortos, as opções em consideração nos altos escalões do governo americano começavam com um esmagamento progressivo da capacidade militar das Forças Armadas iranianas, até há meses entre as mais poderosas do mundo, mediante o total boicote de peças críticas para aviões, tanques, radares e navios, bem como a proibição de que técnicos americanos colaborem na manutenção.

Pensa-se também em grandes manobras militares na área do Golfo Pérsico e numa substancial melhora de relações com o Iraque, país que tem graves disputas -territoriais inclusive - com o Irã. As companhias americanas, além disso, serão pressionadas por Washington, como já vem acontecendo, para retirar seu pessoal técnico do Irã - o que atingirá boa parte da economia do país que ainda funciona.

Mas, terminada essa crise, os resultados certamente irão além disso. Carter e seus principais colaboradores chegaram ao poder pretendendo um novo relacionamento com o Terceiro Mundo. Prometiam acabar com as "operações encobertas" do tipo CIA e com uma política externa que muitas vezes voltou a opinião pública internacional contra os EUA. Com o assalto à embaixada e a intransigêngia do Irã, há claramente um endurecimento na opinião pública americana - e quanto mais durar a crise, parece mais difícil para Carter ou seu sucessor achar apoio significativo para uma política simpática ao Terceiro Mundo. Mais ainda que isso, não se descarta uma onda em favor de uma posição mais beligerante dos EUA no mundo, à moda da década de 50, que qualquer ocupante da Casa Branca deveria levar em conta - para lá permanecer, ou para lá ser conduzido pelo eleitorado.


Além da crise atual

Estudiosos em assuntos iranianos analisam a força de Khomeini e levantam hipóteses sobre sua sucessão

Selma Santa Cruz, de Nova York

Quem, afinal, está mandando no Irã? Em contatos recentes com políticos e intelectuais em seu país, o professor iraniano Ervand Abrahamian, que leciona história no Baruch College, da Universidade de Nova York, colheu uma informação surpreendente - os generais Karabaghi, ex-chefe das Forças Armadas do xá, e Fardust, dirigente da extinta polícia política, a Savak, teriam assento no Conselho Revolucionário, o misterioso clube de aiatolás que decide hoje em dia os destinos do Irã. Parece impossível, pois esses dois militares foram os comandantes supremos da repressão nos últimos dias do regime do xá Reza Pahlevi. Mas, num país onde o governo é secreto, nunca se sabe.

Sabe-se, é claro, quem manda no país - o insuperável Ruhollah Khomeini. Mas, quando se trata de decifrar quem são os homens que o cercam, nem mesmo os "iranólogos" mais bem informados acertam os ponteiros. Na verdade, o Conselho é um órgão secreto: desconhece-se mesmo quantos e quais são seus membros. O professor Zalmay Khalilzad, da Universidade de Colúmbia, e que manteve contatos com Khomeini em seu exílio em Paris, admite que sobre a distribuição do poder no Irã não se pode fazer muito mais que especular. "Khomeini é o chefe supremo", disse, "mas o poder está fragmentado entre os 60 000 mulás - sacerdotes muçulmanos - e os 1 500 Comitês Islâmicos que controlam o país."

CIRANDA DO PODER - Além do mais, trata-se de uma situação revolucionária. Vários grupos em ação tentam puxar o tapete do aiatolá - como é o caso dos guerrilheiros fedayn, de pelo menos 10 000 marxistas mujahedin defensores de uma extravagante receita marxista-islâmica - ou ainda dos social-democratas da coalizão Frente Nacional. É preciso levar em conta, sobretudo, o pequeno núcleo de aiatolás que se movimenta à sombra do chefe mais ou menos leais, mais ou menos radicais, mais ou menos influentes.

"Não chega a ser uma luta pelo poder", analisa o professor Marvin Zonis, da Universidade de Chicago, "mas é lógico que há uma disputa por influência, embora Khomeini não peça opinião de ninguém antes de tomar decisões." Pode-se estar ora nas graças do aiatolá, ora em desgraça. Esta seria, segundo Khalilzad, uma das conveniências para os aiatolás de se manter a composição do Conselho secreta - seus membros podem ser designados e descartados sem que se criem problemas com a opinião pública.

Existe um certo consenso, contudo, sobre quem seria agora o segundo homem em força política - o aiatolá Hussein Ali Montazeri, designado para suceder o ex-chefe religioso de Teerã, Mahmud Taleghani, morto em setembro. Ao contrário de Taleghani, Montazeri é da facção dos duros, a mesma de Khomeini - ou seja, a dos que querem simplesmente abolir qualquer vestígio de Estado secular. Chefe da chamada Assembléia dos Sábios, encarregada de redigir a nova "constituição islâmica" do Irã, ele é considerado a "sombra de Khomeini". Sua intolerancia é tamanha, afirma o professor Abrahamian, que, enquanto esteve preso sob o regime do xá, Montazeri negava-se até a cumprimentar os companheiros marxistas de cadeia. O professor o considera "o Trótski da revolução iraniana".

SEGUNDO ESCALÃO - Abaixo de Montazeri estaria o aiatolá Hossein Beheshti, dirigente do Partido Republicano lslâmico, a organização política de massa dos religiosos. Há quem o considere um moderado, mas o professor Abrahamian não nutre ilusões: "Ele é tão fanátíco quanto Montazeri, com a agravante de ser mais ambicioso". Para uma alternativa moderada a Khomeini, portanto, o horizonte não parece muito promissor. Pode-se contar apenas com alguma sensatez por parte do aiatolá Shariat Madari - na verdade superior ao próprio Khomeini na hierarquia religiosa e dono de enorme prestígio popular no noroeste do país.

É unânime entre os especialistas a opinião de que os iranianos vinham demonstrando crescente descontentamento com o absolutismo do aiatolá até a ocupação da embaixada. Abrahamian nota que nas últimas eleições locais, em outubro, o clero conseguiu atrair para as urnas pouco mais de 10% dos eleitores - quase nada comparado aos 90% que em março votaram no referendo pela instituição da República. O professor acha que, se não planejou a ação contra os americanos, Khomeini "pelo menos a encaminhou como forma de recompor sua ascendência sobre as massas". Abrahamian acredita, também, que "o episódio da embaixada poderá tirar o poder de suas mãos". Ele imagina que, em meio a tal situação, potências estrangeiras sempre encontrarão meios de ajudar os grupos que desafiam Khomeini.

O que parece improvável é que o aiatolá, um homem com 80 anos de idade, continue indefinidamente no comando depois da provocação contra Washington. "Khomeini não é homem perverso", arrisca o professor Mehdi Haeri, ele mesmo um aiatolá, ex-discípulo de Khomeini, atualmente professor de filosofia na Georgetown University, em Washington. "Na verdade, ele é cheio de boas intenções. O problema é que nem ele nem os outros aiatolás têm qualificação para governar o país."


 
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