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21 de novembro de 1973
'Honni soit qui
mal y pense'
Que mal pensar na festa de reis
que uma família dá a sua filha?
Três tipos de pessoas ainda acreditam nos direitos divinos da monarquia: crianças inglesas de menos de doze anos (segundo as últimas sondagens), populações de esparsas aldeias espanholas e alguns professores de direito da faculdade do largo de São Francisco, em São Paulo. Juntos, não constituem um número impressionante. Mas, apesar desse ceticismo mundial, o casamento na última quarta-feira da princesa Anne Elizabeth Alice Louise de Windsor, 23 anos, filha da rainha Elizabeth II e do príncipe Philip de Mountbatten, duque de Edimburgo, com o capitão Mark Anthony Peter Phillips, 25 anos, filho de um modesto fabricante de salsichas, teve o dom de comover os quatro cantos do Império Britâníco. Levado pela televisão, ele fez ainda mais do que provocar lágrimas de alegria nos súditos da rainha. O "sim" dos noivos, gravado para sempre pela fábrica Polydor, que lançará imediatamente um disco, chegou ao vivo às mocinhas de lugares tão pouco acostumados com cerimônias reais, como camponesas da Ucrânia, ou aos moradores de confins tão raros quanto os do arquipélago de Sonda.
Em Londres, comentou satisfeito o dono de uma cadeia de jornais, nunca se vendeu tanto material impresso desde a coroação da rainha, 21 anos atrás e nunca houve uma "notícia tão boa" desde o desastre aéreo que matou o time de futebol do Manchester em 1958 , acrescentou ele perfidamente. No entanto, muitas das notícias publicadas na extraordinária quarta-feira da semana passada devem ter causado um vivo dissabor à família da noiva. O governo, relata o enviado especial de VEJA, Pedro Cavalcanti, teve que decretar o estado de emergência por causa da situação nas minas de carvão, começou o racionamento de eletricidade no país e a seleção inglesa perdeu para a da Itália, pela primeira vez, nos últimos quarenta anos.
Quando a festa acabou e se retiraram os 1 400 convidados (uma pequena massa que incluía soberanos sem trono, alguns tão anônimos quanto as pessoas que assistiam nas ruas à passagem do cortejo), sobraram uma conta de cerca de 1,5 milhão de cruzeiros e uma sensação generalizada de que a realeza britânica, indiferente ao tempo, continua compenetradíssima de sua majestade.
UM PARA O OUTRO - "É uma indecência", clamou o ultra-esquerdista "Libération", jornal de Jean-Paul Sartre, "tal demonstração de luxo, de auto-satisfação e de reminiscência de um passado que muitos querem abolir." Mais comedido, o "New York Times" ponderava que o desinteresse americano pelas bodas justificava-se pelo acúmulo de assuntos "mais sérios" nos lares americanos. Mas ressalvava: "Se fosse a nossa própria família real que estivesse em cena - nossos artistas de cinema e heróis esportivos - certamente a reação do povo seria outra". E o seriíssimo "Le Monde", no dia seguinte ao casamento, permitia-se a brincadeira de publicar, na sua última página, 78 linhas dedicadas a Mark e Anne e 68 linhas às bodas de Bernard Camisa, analista de uma empresa petrolífera, e Celia Magan, tipógrafa.
Para os ingleses e a família real, o casamento tinha um significado diferente. Anne, a "princesa liberada" dos anos 70, a "rebelde" que jamais soube o que fazer da vida, a não ser esperar pelo dia do casamento e andar a cavalo, entrava finalmente no papel que todos esperavam dela. Um computador de uma agência de matrimônios não poderia ter escolhido para ela um parceiro melhor. O capitão Phillips também ama os cavalos, numa paixão tão avassaladora que se constitui no seu único interesse na vida. Folheando velhos álbuns de família à procura de fotografias que denunciassem outras preocupações, os repórteres encontraram um instantâneo amarecelido onde o jovem Mark aparece aos 3 ansod e idade montado num porco. Pesquisando sua árvore genealógica à procura de ramos ilustres, os estudiosos encontraram somente o nome dos Horsey, cujo brasão tem três cabeças de cavalo de ouro e azul.
Nessas condições, a família real pode ficar tranqüila. Enquanto houver uma sela disponível, o novo membro da monarquia não corre o risco de ter idéias políticas, tomar bebedeiras em público ou se apaixonar por jovens divorciadas, como o desaparecido duque de Windsor. A revista humorística "Punch", referindo-se a esta apaziguante falta de imaginação do noivo, observou que no Regimento dos Dragões da Rainha, ao qual ele pertence, "alguns oficiais são tão profundamente estúpidos que o fato chegou a ser notado pelos seus próprios colegas". Por sua vez, a princesa salva-se do perigo de terminar a vida fotografada nua em alguma ilha grega ou - o que talvez fosse até mais desagradável - casar-se com algum católico romano, sob a bênção do papa. Quanto ao dinheiro, finalmente não há problemas para o casal. Como disse Anne na véspera do casamento, "essa questão não é assunto meu nem do meu marido".
ESPÍRITO E MATÉRIA - É assunto, naturalmente, de sua real mãe, que recebe por ano 475 000 libras (cerca de 7 125 milhões de cruzeiros) para todas as suas imensas despesas. Não é muito, na verdade. É uma soma destinada à manutenção material dos cinco castelos em que a família real mora e também para a consolidação espiritual da aura que envolve seus membros e seus passos. Apesar de recentes medidas liberais, esta família continua sendo uma instituição extremamente fechada. E as lendas que a envolvem acentuam ainda mais a cortina de mistérios.
Assim como esforçados especialistas da corte arrumaram à última hora parentesco nobre para o capitão Mark Phillips, que seria descendente de um distante rei, a própria rainha costuma ser apresentada, conforme as circunstâncias, como descendente tanto de George Washington quanto de Maomé. Por ser a mais célebre, tradicional e rica família num trono, a britânica vive de uma complexa injeção de dinheiros públicos que lhe evitam humilhações estritamente plebéias, como a que vitimou o rei Balduíno e a rainha Fabíola, da Bélgica. Voaram 24 horas num velho DC-6, visitando oficialmente a Índia, porque o seu governo considerou que o uso de um Boeing 727 sairia muito caro.
De qualquer forma, a monarquia é a mais cara forma de governo, embora seja também uma suculenta fonte de lucros. As terras reais rendem à coroa cerca de 4 milhões de libras (60 milhões de cruzeiros) por ano. A coleção de obras de arte da rainha vale no mínimo 50 milhões de libras (750 milhões de cruzeiros), mas é impossível saber o que pertence a ela pessoalmente e o que é da nação. A família tem quatro carros Rolls-Royce bordô para cerimônias oficiais e dezoito outros, quatro aviões, dois helicópteros, um navio - o "Britannia", cuja manutenção custaria quase 1,5 milhão de libras, cerca de 22,5 milhões de cruzeiros, por ano - e dois trens, um com doze vagões (banheiro, sala de jogos, dormitórios) e outro com seis, para viagens mais curtas. Dá para tecer uma lenda.
AS HONRAS DA CASA - A manipulação dessa riqueza, de fato, é que excita a imaginação popular. Embora a família real não seja formada de pássaros aprisionados em gaiolas de ouro, ela é um poderoso estímulo à fantasia suburbana. Seus títulos e honrarias só podem ser entendidos por um especialista em quebra-cabeças hierárquicos. Além do mais, dão lucro. James I (1603-1625) vendeu 906 títulos de cavaleiro em quatro meses. Um primeiro-ministro, Lloyd George (1916-1922), vendeu um baronato, por 30 000 libras (450 000 cruzeiros) e um assento na Câmara dos Lordes por 100 000 (1,5 milhão de cruzeiros). Hoje, as distinções são dadas num processo mais democrático.
Das sete ordens existentes, somente duas - a da Jarreteira e sua equivalente escocesa, Thistle - são manipuladas diretamente pela família real. Além delas, a rainha recebe automaticamente a Ordem do Mérito Real Vitoriana, criada pela rainha Vitória em 1896 como arma contra os políticos, que estariam distribuindo honrarias em excesso. Os "connaisseurs" consideram-na ainda mais prestigiosa que as outras. Em 1970, 4 000 honrarias foram concedidas, contra apenas quinhentas - muitas delas pagas pelo contemplado - em 1900. Abaixo dessas, no entanto, a sabedoria real criou outras ordens para corrigir situações embaraçosas, como uma de 1917 destinada a contemplar "esforços de plebeus nos campos de batalha". Estas ordens, porém, não dão a seus ganhadores o título de sir.
Apesar da multiplicação do número de honrarias, ainda é relativamente difícil ganhar uma delas (afinal, existem 55 milhões de pessoas na Inglaterra). Os sinais de que o departamento prospera, no entanto, estão nos poderes que foram dados ao chefe da intricada rede de autoridades que decidem sobre a conveniência ou não de se contemplar alguém. Philip Milner-Barry, do cerimonial do Tesouro e campeão juvenil de xadrez em 1923, fala do seu trabalho com muito gosto e afirma que as honrarias "causam grande prazer em quem as recebe, especialmente nos escalões mais baixos da sociedade". Na verdade, este prazer não é sentido apenas ao nível do solo inglês: o país inteiro, dos teatros aos escritórios, está entulhado de honrarias.
O ACESSO AO PALÁCIO - É diante do Palácio de Buckingham, porém, que a majestade hipnótica da realeza britânica se manifesta com toda sua força. Buckingham, com seus quatrocentos empregados trabalhando 24 horas por dia, é a principal residência da família e o símbolo mais caro - 300 000 libras (45 milhões de cruzeiros) anuais de manutenção - deste poder. Os deserdados da vida sempre podem chegar ao palácio pedindo para assinar o livro de visitas. São então conduzidos por um guarda vislosamente fardado até os lugares que ele julga serem compreensíveis ou didáticos para os visitantes. Eles vêem roupas e objetos, sentam-se numa salinha para fumar e ler o "Times", assinam o livro, dizem "Thank you" e vão embora. Esta forma de acesso a Buckingham, por ser tão pouco estimulante, não, consegue interessar a mais que trinta pessoas por dia.
Outros, mais felizes, conseguem chegar aos salões e até às festas da Investidura, ou Garden Party. A elite, enfim, é chamada ao Banquete do Estado no Ball Room, onde o mínimo que se vê são candelabros de ouro medindo mais de 1 metro de altura. Nestas festas a família real oferece ao público o máximo de si mesma. Toda ela - ou pelo menos a maior quantidade de membro que for possível reunir - caminha em procissão até a Sala de Música, o ponto alto do acontecimento. É um ritual que não pode ter falhas, como adverte lorde Cobbold, um dos dois responsáveis pelo cerimonial em Buckingham: "Todo cerimonial é ridículo se não for perfeito. É preciso sobretudo manter o mistério e a dignidade da cena. O povo ama isso".
Na verdade, o povo apenas ama ouvir falar disso. Buckingham, mais do que qualquer outro lugar ou membro da família real, vive uma atmosfera de outros tempos e outros mundos. Laços de sangue e de posições sociais ganham ali status de determinações divinas. A limpeza do palácio, por exemplo, deve ser feita do lado de dentro pelo pessoal de lorde Cobbold e, do lado de fora, pelos funcionários do Depapamento de Parques e Jardins. O resultado tem sido uma elegante sujeira nos vidros do palácio. Um dos telefonistas de Buckingham dedica-se exclusivamente a fazer ligações entre membros da família real, recusando qualquer interferência telefônica espúria. Segundo seus colegas de trabalho, os momentos de êxtase desse profissional ocorrem quando ele põe em contato a rainha-mãe Elizabeth com a sua filha rainha Elizabeth, ocasiões em que o telefonista diz: "Vossa Majestade? É Sua Majestade, Vossa Majestade!"
DIA APÓS DIA - A vida no interior de semelhante local deve guardar, portanto, características muito especiais. A classe média britânica por certo formou a família real à sua própria imagem e semelhança: sólida, honesta, confiando em si mesma e acreditando mais em Deus do que nas especulações do intelecto. Tanto Mark e Atine quanto Elizabeth e Philip estão dentro desta tradição. Para muitos, a rainha, aos 47 anos, é não somente a pessoa mais importante da família como também um substituto adequado para Deus num país cada vez menos cristão.
Todas as manhãs, durante 15 minutos, não importa em que palácio esteja, a rainha toma o seu breakfast ao som de uma gaita de foles tocada pelo especialista da corte, Andrew Pittkealthly. (É um som do qual se gosta ou se detesta. O príncipe Philip, que o detesta, quis cortar esta tradição, criada pela rainha Vitória, mas perdeu esta batalha conjugal.) Depois de ler "Sporting Life" e outros jornais, a rainha vai para seu estúdio no primeiro andar de Buckingham, geralmente em busca do "Daily Telegraph" do dia anterior, para acabar o jogo de palavras cruzadas. Os inúmeros papéis a assinar são então trazidos por seu secretário particular, sir Michael Adeane, que explica rapidamente a origem e significado de cada um deles.
A vida pessoal de Elizabeth II é protegida por uma discrição que causaria vergonha em muitos outros setores da vida pública britânica. Os relações-públicas de Buckingham, com notável sangue-frio, expedem boletins afirmando que Anne, como sua mãe, terá uma vida "normal", comum, apesar de ter 50 milhões de libras em jóias e morar em cinco palácios. Além disso, não é qualquer mulher que pode tecnicamente ser considerada "homem" em algumas regiões da Inglaterra. A rainha pode. Em Lancashire, por exemplo, Elizabeth II é duque de Lancaster porque a fogosa rainha Vitória - sempre ela! - decidiu que isso seria apropriado para os primogênitos reais, fossem eles meninos ou meninas. No mais, a rainha tem gostos simples e garantidos: Haendel na música, Agatha Christie e novelas históricas na literatura e muita televisão, quando o marido está viajando.
Quando partem juntos em missão oficial, o VC-10 real carrega para o ar, qualquer que seja a duração da viagem, um pouco do estilo de Buckingham: 24 garrafas de Liebfraumilch Madonna, garrafas de Château Latour, doze garrafas de Anjou rosê, 24 garrafas de Beaujolais, três latas de bolo de amêndoas, 72 pãezinhos doces, oito caixas de bombons marca After Eight, três vidros de geléia de morango, seis garrafas de iogurte, seis garrafas de leite fresco, queijos, 24 latas de creme chantilly, três garrafas de molho de hortelã, água do rio Malven (a mais pura da Inglaterra) para fazer chá, porcelana com monograma para o chá, sacos de água quente, travesseiros de plumas, 1 tonelada de fotos com molduras de prata para distribuir, duzentas papoulas para cerimônias em túmulos de soldados desconhecidos e 1 quilo de tabletes de açúcar mascavo para chupar antes dos discursos e limpar a garganta.
CRIANDO LENDAS - Há, também, as duas grandes sensações do espetáculo real, Charles e Anne. Dos dois, Charles, de 25 anos, é o que tem o papel mais difícil - na verdade, um dos papéis mais dramáticos e trabalhosos de hoje em dia, o de provar ao mundo a viabilidade de um monarca no século XXI. Ao nascer, Charles se tornou, pelo simples fato de vir ao mundo, duque de CornuaIha no pariato da Inglaterra, duque de Rothesay, conde de Carrick e barão do Renfrew no pariato da Escócia; é também lorde das Ilhas e príncipe e Grande Intendente, da Escócia. Para os seus primeiros professores, porém, o pequeno Charles foi um aluno pouco aplicado - Buckingham, em resposta, classifica a educação que lhe foi dada nesta época de "inadequada".
Anne, mais extrovertida, foi chamada de "selvagem". Não coopera com a imprensa, mas foi capaz de subir ao palco para abraçar os atores nus de "Hair" e ganhar aplausos nos jornais. Já dirigiu um tanque, alegremente, e deu entrevista contando que tipo de roupa íntima usa. Na última vez que apareceu na TV como solteira, demonstrou mais uma vez seu desembaraço, salvando seu assustado príncipe de vários acessos de gagueira. Continuava, porém, com a mania de referir-se a si mesma na terceira pessoa, como Tarzan, e mantinha a preocupação de não mostrar os dentes.
Os jovens príncipes (como a família real inteira) já deram, porém, uma contribuição mais que palpável aos criadores de lendas e autores românticos. Um homem que convenceu jornais americanos e europeus sobre suas boas relações reais ganha 60 000 cruzeiros por ano inventando histórias sobre gente que nunca sequer viu. Uma certa Helen Cathcart já escreveu nove livros reais, embora seja impossível encontrá-la em qualquer lugar do planeta. Um livro de fotografias reais rendeu, em 1970, 30 000 dólares. Os personagens desses livros continuam valiosos para os jornais. E foi para se juntar a eles que o capitão Mark Phillips acordou às 9 horas na quarta-feira passada, comeu ovos com presunto em companhia do seu padrinho, tomou um gole de uísque e dirigiu-se para a Abadia de Westminster.
TESTES DE RESISTÊNCIA - Cinqüenta câmaras de televisão espalhavam-se pela rua desde a madrugada, conta Pedro Cavalcanti. O primeiro filme passado pela manhã, já incluído na cobertura do casamento, mostrava a rainha Elizabeth examinando com ar feliz um jornal com as seguintes manchetes em português: "Tarado Mata Milionária", e "Samba, Futebol e Amor na Despedida da Rainha". Era uma homenagem à viagem real ao Brasil em 1968, unanimemente considerada em Londres como um dos mais espantosos feitos da Casa de Windsor. Durante toda a noite, ao longo do percurso das carruagens entre o Palácio de Buckingham e a Abadia de Westminster, o povo acampou alimentando-se de punhados de batata frita e goles de chá. Conforme se apurou mais tarde, a maior parte dessas pessoas era formada por senhoras que chegavam de interior em longos percursos de bicicleta, marinheiros australianos de volta da boêmia no Soho e uma farta variedade de hippies e maníacos, incluindo pregadores religiosos e batedores de carteiras vindos do que os ingleses chamam de "Continente" (isto é, a Europa), especialmente para a ocasião.
Às 10 e meia, Mark vestiu seu uniforme novo, com galões de latão dourado e botões de alumínio. Seus últimos dias de solteiro haviam sido extremamente cansativos. No domingo, participara de uma festa de despedida de solteiro entre os colegas de farda, quando bebeu uma garrafa de champanha no gargalo. Na segunda-feira, foi ao baile em Buckingham, onde 1 500 convidados resistiram até o amanhecer. Na terça-feira, enfim, suara diante das câmaras de TV, apesar da ajuda de sua futura mulher, Mark deixou de lado o capacete de penacho que emprestara do pai e serenamente caminhou para o altar. Cerca de 1400 pessoas cravaram nele seus nobres olhares. Confortado apenas pelo padrinho, capitão Eric Grounds, que murmurava ao seu lado - segundo confessou depois - anedotas de papagaio, Mark enfrentava com aparente desembaraço o seu primeiro grande teste junto à realeza européia, seus futuros iguais.
A SENSAÇÃO DE HOLLYWOOD - Toda essa seleta platéia, como os milhões de plebeus que lá fora esperavam nas ruas ou encaravam seus aparelhos de TV, estava pronta para criticar duramente qualquer quebra do protocolo. Carinhosamente, as maiores preocupações eram pelo noivo, plantado no altar de Westminster à espera da noiva, e que depois das últimas maratonas devia ter passado uma noite mal dormida no Cavalry, seu clube londrino. A abadia tem a forma de uma cruz. E, de onde estavam, no encontro das alas com a nave principal, o noivo e seu padrinho podiam ter uma visão geral dos convidados, com os chapéus das senhoras chamando imediatamente toda a atenção.
Certas pessoas acreditam que o gosto da rainha pelos seus chapéus é determinado por alguma bárbara tradição medieval ou constitui uma tara aristocrática, como a hemofilia. Seja como for, o fenômeno tem se espalhado pela sociedade britânica. Pelo menos 90% das setecentas senhoras presentes à igreja ostentavam assustadoras variações em seda, veludo ou leopardo, do modelo da moda, que é a boina estilo Rembrandt. As exceções vinham geralmente dos convidados de fora.
Nos lugares de honra, dispostos nas vizinhanças de Mark, instalaram-se Rainier e Grace de Mônaco, Constantino e Ana Maria da Grécia, Juan Carlos da Espanha, os Haralda da Noruega, Beatriz e Klaus da Holanda e alguns primos iugoslavos e alemães da rainha ou do duque de Edimburgo. Faltavam lorde Harewood, que, embora primo-irmão da rainha, cometeu o erro de se divorciar, e a eternamente ausente duquesa de Windsor, condenada a comentar a festa de longe, na solidão do Maxim's de Paris.
Estavam presentes, porém, no lado da nobreza mais noticiada, os infelizes príncipes Alexandre e Tomislau, da Iugoslávia, e representantes de casas reais de memória histórica, como o príncipe e princesa de Hohenlohe-Langenburg.
Juan Carlos trocou inúmeros adeuzinhos e dava a impressão de se divertir imensamente, ao contrário de Rainier, que logo ao chegar pôs óculos e mergulhou profundamente na leitura do programa, como que meditando num problema de Estado. Sua mulher, Grace, provocou grande sensação comparecendo de branco da cabeça aos pés, num espetacular modelo parisiense de Philip Vanet, atitude que alguns consideraram "digna apenas de uma artista de cinema". A vingança britânica foi que ela não conseguiu os serviços do seu maquilador predileto, o francês Olivier Chedauvont, inteiramente ocupado na manhã do casamento em preparar o rosto da noiva.
FRIO NAS RUAS - Às 11h27, finalmente, ela chegou de braços dados com o pai. Entraram lentamente na nave central, ao som de música, trocando murmúrios e confidências. Sensação. Que estariam dizendo? Por que fugiam dos microfones que a BBC havia colocado praticamente atrás de cada coluna?
No altar, à medida que a cerimônia corria, o jovem príncipe Edward, de 9 anos, irmão de Anne, mergulhara num ameaçador estado letárgico e o príncipe Rainier, após esgotar os recursos do programa, olhava desconsoladamente os próprios sapatos. Quando as últimas palavras foram pronunciadas, a sensação geral era a de que a cerimônia durara o bastante. Curiosamente, durante o percurso de volta das carruagens, a multidão era muito mais minguada e fria do que na ida. Não mais que 45 000 pessoas saíram às ruas, embora 88 000 tenham comparecido poucas horas depois ao Estádio de Wembley, para ver a Inglaterra perder da Itália.
A família real só reapareceu mais uma vez rapidamente em público no balcão do Palácio de Buckingham à 1 e meia da tarde. Os noivos passaram a noite de núpcias na casa da princesa Alexandra, casada com o sr. James Ogilvy, prima de Anne. No dia seguinte, viajaram para Barbados num avião comercial, juntamente com outros dezoito passageiros da primeira classe, e de lá seguirão no "Britannia" para um cruzeiro nas ilhas Galápagos, Quito, Guaiaquil e Bogotá.
O PRÓXIMO SHOW - Para o público, os convidados e o resto do mundo a extravagância real não teve, afinal de contas, a grandeza de uma apoteose. Muitos lembraram-se de que bodas na família britânica dão azar e que em 1947, quando Elizabeth e Philip se casaram, o país sofria um racionamento até de batatas, que não faltavam desde os dias da guerra. Um funcionário de Buckingham, perguntado sobre a existência de planos para o dia em que Charles casar - este sim, um momento desde já inesquecível - respondeu prontamente: "Não há planos. E espero que o príncipe também não os tenha".
Em outras palavras, calcula-se que o próximo espetáculo matrimonial não poderá ser montado antes de três anos porque as finanças de Buckingham já estão suficientemente abaladas. Para a família real, o custo deve ter valido pena. Afinal, durante alguns dias ofereceram ao mundo um espetáculo brilhante, fútil, vaidoso e vão, mas ao mesmo tempo tão particular e inofensivo que só mesmo a maldição poderá punir quem mal pensar de tudo isso. |
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