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Reportagens 21 de agosto de 1974O pragmatismo sorridente
China, ninguém discute, só existe uma. Nisso, ao menos, tanto acreditam os 15 milhões de obstinados chineses que se comprimem na ilha de Formosa em torno do petrificado generalíssimo Chiang Kai-chek como os irredutíveis 750 milhões de chineses que se acotovelam no continente em torno do histórico líder Mao Tsé-tung, multiplicado em escapulários por um pequeno best-seller em encadernação vermelha. Pois se os chineses, incontestáveis e inconciliáveis autoridades no assunto, chegaram a acordo nessa delicada questão, bem pouco interessados na polêmica teriam necessariamente de estar os 97 países que, nos últimos 25 anos, vieram transferindo numa urgência crescente as suas embaixadas, e sua crença na existência de uma única China, de Taipé para Pequim. Graças a esse acordo, também, é que o último desses países - o Brasil - conseguiu na semana passada o milagre de reescrever nas cartilhas oficiais uma parte considerável da geografia da Ásia em precisamente 49 palavras. "O governo da República Federativa do Brasil reconhece que o governo da República Popular da China é o único governo legal da China" - rezava o comunicado que assinaram quinta-feira, em Brasília, o ministro das Relações Exteriores, Antônio Francisco Azeredo da Silveira, e o sorridente Chen Chieh, vice-ministro do Comércio Exterior chinês, que, oito dias antes, desembarcara no Rio à frente de uma missão comercial com presumiveis intenções de comprar algodão e açúcar. "O governo chinês reafirma que Taiwan é parte inalienável da República Popular da China. O governo brasileiro toma nota dessa posição do governo chinês." Magicamente, o nome República da China, substituído por Taiwan e sua semântica de província usurpada por Chiang Kai-chek, fora varrido do vocabulário do Itamaraty pelos ventos da diplomacia pragmática que desde março soprava do Palácio do Planalto. AVISO E ROMPIMENTO - Porém, se só existe uma China, muitos são os caminhos e as falas da diplomacia, mesmo a mais pragmática. Essas alternativas e desvios, que começaram a ser sondados desde que o presidente Ernesto Geisel, em março, trouxe para o governo e ao conhecimento de seu chanceler a vontade de promover a intensificação do comércio com a China comunista, é que foram automaticamente se afunilando pela intransigência de Pequim e Taipé em aceitar o reconhecimento simultâneo dos dois países. E o atalho tomado na semana passada, saltando agilmente por sobre as etapas que costumam abrandar as ladeiras do reconhecimento diplomático, acabou se tornando uma conseqüência inevitável da própria política chinesa. Assim, por exemplo, foi descartada de vez a hipótese de uma aproximação preliminar pela troca de escritórios consulares, que atenderia a todas as exigencias comerciais, mas não seria capaz de contornar o imediato rompimento com Formosa. Chen Chieh, que em sua peregrinação por capitais e indústrias brasileiras repetiu à exaustão o desejo de estabelecer "relações comerciais e estatais" com Brasília, tinha portanto um alvo preciso em suas declarações: a troca, "no mais breve prazo possível", de embaixadores, anunciada pelo comunicado que assinou com Silveira. E tais são as sutilezas da diplomacia asiática que muitos funcionários do Itamaraty saudavam no fim de semana a fórmula que isentou o Brasil da necessidade de romper com Taipé. Bastou que o secretário geral do Ministério, Ramiro Saraiva Guerreiro, avisasse com pequena antecedência o embaixador Fu Sung-chu da decisão do governo de "tomar nota" da proclamação da hegemonia de Pequim, para que o protesto, formal e previsível como um velho manual de boas maneiras à mesa, cuidasse do resto. A rigor, Formosa é que rompeu com o Brasil. PRESENTES - O desconcertante jeito oriental de reservar o mesmo sorriso para todas as ocasiões imediatamente desceria sobre o impacto da medida como um anestésico. Com seu inseparável sorriso, Chen Chieh celebraria, logo após o acordo, a chegada da diplomacia de Pequim a um "país jovem e belo". No dia seguinte, a embaixatriz de Formosa, Chungpei Hsuchu, brindaria com Coca-Cola e imperturbáveis sorrisos a visita de uma sua colega, a embaixatriz do Equador, em sua residência na península do Lago, em Brasília. No entanto, aos representantes de Chiang Kay-chek restam apenas 24 dias para deixarem o país, os imóveis dos consulados no Rio e São Paulo e o terreno na avenida das Nações, em Brasília, onde nunca chegou a ser erguida uma embaixada. Neles, tomarão seu lugar os futuros enviados de Mao Tsé-tung, herdeiros do patrimônio acumulado em "tantos anos de amizade com a República da China", lastimava-se, sempre sorrindo, o secretário Hsien Cing-chan. No Rio, ao cônsul Cho Ying-yang talvez não sobre tempo sequer para conhecer os resultados finais da participação de sua barraca, há quinze dias, na Feira da Providência, quando teve grande saída um exótico licor de trigo, disputado a 70 cruzeiros a garrafa. Mas nada indica que os apreciadores da mercadoria (o impronunciável Kweichow Mou-Tai Chiew) serão lesados pelos "realinhamentos indispensáveis" de Geisel, pois já na sexta-feira, em Brasília, a bebida corria alegremente entre brindes erguidos pelos chineses, ao final do almoço oferecido pela comitiva de Chen Chieh às autoridades brasileiras. No restaurante do Hotel Torre Palace, entre o chefe da Casa Civil da Presidência, Golbery do Couto e Silva, quatro ministros de Estado e um batalhão de diplomatas, os sorrisos chineses pareciam bem mais genuínos. E Chen Chieh, surpreendendo brasileiros com presentes que sem dúvida não havia trazido para comercializar, se permitiu uma breve "avant-première" do novo senso de humor que o Brasil poderá importar. No pequeno vaso de porcelana pintada, que presenteara ao embaixador André Mesquita, mostrou como a peça, invertida "lembrava a arquitetura do Congresso Nacional". E arrancou risos, ocidentais e sonoros. TOQUES MARCIAIS - Só às 15 horas o general Golbery conseguiu, carregando a sua pequena amostra da pauta de supérfluos chineses (uma garrafa de licor e um corte de fazenda), deixar o hotel para esperar os visitantes no Palácio do Planalto. Dali, após rápidos apertos de mão com Geisel, os chineses sairam diretamente para a base militar, onde provaram pela primeira vez o estimulante sabor das honras oficiais: houve toques de banda militar em sua partida. Mudança tão rápida de tratamento não poderia deixar de produzir surpresas. E, enquanto diplomatas de Taipé subitamente apeados de suas representações não sabiam dizer o que será da missão comercial de 33 membros que seu governo havia programado mandar ao Brasil, o desconcertado proprietário do restaurante Pequim, no bairro da Liberdade, em São Paulo, asilou-se em sua deserta sala de refeições quando, na sexta-feira, repórteres foram lhe encomendar entrevistas sobre as "relações com os comunistas". Atônito, ele rebateu: "Não, eu não sou comunista, não", e sumiu. Contudo, em mesas que realmente importavam, o governo tomou meticulosos cuidados para evitar que a notícia caísse de surpresa. Ouvidos secretamente todos os oficiais de quatro estrelas do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, a única apreensão detectada se referia apenas às dúvidas quanto ao verdadeiro potencial do mercado chinês para produtos brasileiros. Consultado, embora sem uma reunião formal, o Conselho de Segurança Nacional manifestou moderadas preocupações com a infiltração de idéias que poderia vir no lastro dos artigos comerciais chineses. Risco contra o qual os discursos de Silveira parecem ter produzido, na semana passada, uma poderosa dose de antídotos. "O Brasil e a República Popular da China convergem no propósito", ele reiterou, "de que é um direito inalienável de cada povo o de escolher seu próprio destino." REALISMO E IMPRESSIONISMO - Formas de consulta ainda mais dissimuladas transparecem, talvez, no artigo que a Revista do Clube Militar publicou em sua edição de dezembro passado. Assinado pelo conselheiro Carlos Antônio Bettencourt Bueno, que serviu em Hong Kong e hoje chefia a Divisão de Ásia e Oceania do Itamaraty, anunciava que "países radicalmente anticomunistas e hostis à China" seriam obrigados a abandonar "posições ditadas por considerações ideológicas". Mais recentemente, numa conferência, em julho, na Escola Superior de Guerra, sobre a "ofensiva do sorriso", Bueno chegava a desenhar com notável precisão o esboço do quadro da escola realista diplomática finalmente exposto na semana passada. Os chineses de Chen Chieh não ficaram atrás no trabalho de arredondar arestas. No rastro de sua visita, deixaram impressões de um canhestro - mas iluminado de boa vontade - manuseio de talheres, de um atento interesse pela arte sacra baiana e de uma entusiástica degustação dos sortilégios da gastronomia tropical - desde abacaxis a batidas de limão. E no restaurante Iemanjá, em Salvador, de onde sairam empanzinados de moquecas e carregando uma garrafa de pimenta malagueta, promoveram sensação na imprensa local: a Bahia iria exportar o tempero de seus acarajés. LINHA DIRETA - O alegre cerimonial dos condimentos não poderia, contudo, abalar uma sólida devoção dos visitantes ao mais antigo mandamento de sua doutrina comercial. Adotado há vinte anos pelo Partido Comunista Chinês, o princípio de que "as exportações são para as importações e estas servem para a construção da indústria socialista" sobreviveu a quatro planos qüinqüenais e a uma tempestuosa Revolução Cultural. E agora, numa fase de abertura da economia, seu inegável conteúdo utilitário serve como barreira ao desperdício. Foi o que se viu na sóbria declaração conjunta. No meticuloso compromisso de boas intenções, o Brasil anuncia a sua disposição de comprar metais não-ferrosos, petróleo, carvão e arame farpado. Em contrapartida, forneceria soja, sisal, algodão, ferro e celulose, além de 200.000 toneladas anuais de açúcar por um período ainda a ser negociado - provavelmente cinco anos. Para um mercado que importou, ao todo, 4,5 bilhões de dólares em 1973, esta eventual participação brasileira deverá ser necessariamente modesta. Mesmo porque, longe do que poderiam supor os profetas de uma cruzada pacífica pela conquista de 750 milhões de austeros sacerdotes de bicicletas, as compras chinesas no exterior parecem crescer numa persistente e conservadora taxa de 10% anuais. Ou seja, apenas no início da próxima década elas atingiriam 8 bilhões de dólares. A isso se acrescente o fato de que ofertas de artigos de consumo a clientes obsessivamente interessados em equipamentos requintados representa pura perda de tempo. Como indagava um membro da missão depois que lhe explicaram o significado de produto supérfluo, cuja taxação foi recentemente elevada: "Mas, se são supérfluos, por que importam?" ALTERNATIVAS - O panorama chinês foi entendido com rara velocidade pelos empresários americanos que, desde a tortuosa abertura das relações comerciais China-Estados Unidos - sem reconhecimento diplomático - no segundo semestre de 1971, conseguiram elevar seus negócios com Pequim até a compensadora média de 100 milhões de dólares por mês. Para o Brasil, que remeteu nos dois anos passados cerca de 140 milhões de dólares em açúcar e algodão, o reatamento oferece alternativas mais frugais, como a imediata e compensadora eliminação das trading companies inglesas, que processam as vendas por seus tradicionais agentes em Hong Kong. Na verdade, o prosaico e compreensível desejo de partilhar todos os benefícios de uma transação bilateral, inclusive a comissão, jamais poderia explicar a correção na rota da política externa brasileira. Um salto de Taipé a Pequim já não insinua qualquer mimetismo ideológico. Ainda assim, este exercício diplomático oferece requintes pouco comuns nas decisões rotineiras. Como ocorre, também na Ata Final, onde o futuro acordo de comércio - que prevê a instalação de uma comissão mista e o intercâmbio de feiras de amostras, além, das trocas - e uma negociação específica para transportes estão vinculados à normalização das relações políticas. Certamente, a busca de um parceiro comercial pouco afetado pela recessão econômica que ronda os países desenvolvidos acelerou os movimentos do Itamaraty. Mas a conquista relevante, ao menos no primeiro momento da aproximação, está na troca de embaixadores. MOBILIZAÇÃO - De fato, a República Popular da China, que atravessa desde o final da década passada um crescimento industrial médio de 12%, pode acomodar-se quase no topo da pirâmide das taxas de expansão. Sua renda nacional, estimada em 140 bilhões de dólares no ano passado, garante o espartano legado de 170 dólares anuais por habitante, um dos trinta mais baixos do mundo. Mas a efervescente mobilização da indústria do petróleo elevou, desde 1971, em 150% a quantidade disponível de óleo bruto. No ano passado obtiveram-se 50 milhões de toneladas, como informou o primeiro-ministro Chu En-lai a uma comitiva de funcionários ingleses que visitou Pequim em fevereiro último. A conquista de um modesto mas oportuno excedente de tão preciosa matéria-prima e a tradicional presença chinesa entre os fornecedores de metais raros - como tungstênio e molibdênio - colocaria o país como um dos mais promissores sócios internacionais do atual modelo brasileiro. No caso, uma posição solidamente reforçada no sentido inverso. A escassez de solos aráveis (apenas 13% dos 9,5 milhões de quilômetros quadrados) condiciona o programa agrícola da República Popular ao hercúleo trabalho de arrancar alimentos de cada poro útil da terra. Sem dar a menor importância aos cânones da economia de mercado, como produtividade, lucros ou redução de custos, foram colhidas, em 1973, 250 milhões de toneladas de arroz, trigo e batata doce. Os outros produtos vegetais, da soja ao algodão, vêm quase sempre do exterior. E, incidentalmente, são abundantes nos campos brasileiros. O aspecto complementar que sugere o confronto destas listas de exportação poderá assumir insuspeitado e duradouro papel de avalista para as desejadas transações. CHEQUE AO PORTADOR - Uma bonificação ainda mais palatável melhora o cenário para o exportador brasileiro. Se, de um lado, o rigoroso Ministério do Comércio Exterior chinês demarca em cotas irrecorríveis cada produto - e as fatias dos respectivos fornecedores -, de outro procura-se compensar a observância dessas medidas com o pagamento de 80% dos negócios a vista e sempre em moedas fortes. Trata-se de uma praxe alimentada basicamente pelos depósitos de importadores japoneses, os melhores clientes de Pequim, com 2 bilhões de dólares estimados em 1974, efetuados religiosamente em francos suíços ou marcos, no resgate de qualquer fatura. A moeda chinesa mesmo é yuan renminbi ("dinheiro do povo"), valendo atualmente 3 cruzeiros, uma cotação formal, pois nunca entra nas operações internacionais. E os negócios eventualmente financiados - experiência recente para os chineses, que, após a admissão nas Nações Unidas, em novembro de 1971, começaram a encomendar fábricas completas na França e no Japão - são conduzidos pelo braço financeiro do governo, o Banco da China, com sede em Hong Kong e agências em Londres e Cingapura, que reconhece desde junho de 1972 as taxas de juros ocidentais. Essa disposição quase medieval de honrar os pagamentos no ato da entrega do pedido cria um constrangimento definitivo para as tentativas de se estabelecer cláusulas de arbitragem nos contratos comerciais, como recomenda a prática européia. Mas, para o Brasil, a simples garantia de receber o devido em moeda familiar compensaria largamente as inquietações bacharelescas. A experiência das contas-convênio, fórmula escritural que registra o comércio com os demais países socialistas, mostra que o superavit registrado pelos exportadores brasileiros, de 150 milhões de dólares só em 1973, funciona a rigor como um financiamento a compradores nem sempre catalogados entre os subdesenvolvidos. Frente aos burocráticos ajustes em mercadorias que este sistema impõe, a solução chinesa tem a confiável tonalidade de um cheque visado ao portador. VELHO AMIGO - Um tão generoso e autêntico negócio com a China não foi concretizado dois anos atrás porque os nós da política externa brasileira confundiram-se com o insondável protocolo para degelo da chancelaria de Pequim. Se a difícil aproximação com os Estados Unidos se esboçou em junho de 1971, pelo inusitado intercâmbio de jogadores de pingue-pongue, para oito meses depois o então presidente Richard Nixon jurar amizade comercial sob a Grande Muralha, o caso brasileiro foi tratado sem pressa. A feira de Cantão, mostra semestral instalada durante quinze dias, na primavera e no outono do hemisfério norte, recebeu em novembro de 1971, como convidado oficial, o empresário Horácio Coimbra, principal acionista da Cacique, grupo de empresas liderado pela maior exportadora de café solúvel do país. A expedição pioneira rendeu a venda de 1 milhão de dólares e um jantar de três horas com Wong Yun-sang, vice-presidente da exibição que, nos seus 50.000 metros quadrados de área coberta, serve de ponto de encontro para 60% das transações chinesas com o exterior. "Os chineses não gostam de prometer nada", recordaria Coimbra, que passou dez dias percorrendo hipotéticos clientes. "Mas minhas sugestões de visitas ou temas de discussão, recebidas sob a mais absoluta indiferença pelo intérprete, constavam invariavelmente da agenda do dia seguinte." Em todo caso, essas pequenas provas de consideração não trouxeram outros contratos. Mas o périplo interessou particularmente seu discreto acompanhante brasileiro, o diplomata Geraldo Hollanda Cavalcanti, então cônsul lotado em Hong Kong. Sem qualificação diplomática, Cavalcanti - hoje na assessoria do ministro Azeredo Silveira - foi autorizado a seguir com Coimbra para recolher as primeiras impressões oficiais sobre a República Popular da China, desde a Revolução. Este relatório ainda é confidencial. Mas uma garrafa - coletada por Coimbra como souvenir - de "fenchiew", bebida própria para brinde, muito forte, que é servida num pequeno cálice para ser tomada de um só gole, já fez sua aparição. Na noite de terça-feira da semana passada, a relíquia foi retirada da adega de Coimbra, anfitrião da única recepção particular à comitiva que passou dois dias em São Paulo. E ao final de duas horas de conversa informal abastecida por coxinhas e canapés ocidentais, acompanhados de minúsculas doses de Findiater's, uísque importado por Coimbra, todos os presentes, permutando sonoros "kam-pei" (saúde), consumiram a preciosa relíquia, trazida de uma expedição ao mundo então proibido. Contudo, mesmo este mundo começaria a ser melhor desbravado no momento em que encontrou uma segura linha de apoio da Associação dos Exportadores Brasileiros (AEB). A AEB, uma sociedade civil, fundada há pouco mais de três anos no Rio, reúne setecentas empresas praticantes ou interessadas nas vendas ao exterior. Seu presidente, Giulite Coutinho, antigo dirigente do América carioca, coordenou duas missões à feira de Cantão. A primeira, em novembro de 1972, um ano após a solitária visita de Coimbra, e a outra em abril passado. "Esta, acompanhada por três representantes do governo, deixou claro que as relações entre os dois países tomariam novos rumos", testemunha Coutinho. E, realmente, os 22 empresários da missão ouviram o emissário do Itamaraty, conselheiro Bueno, apresentar um convite oficial ao vice-ministro Chen Chieh, para que, "em data conveniente", fosse enviada ao Brasil uma comitiva chinesa de sondagem. Para Coutinho, o convite foi aceito e a missão "cumpriu o entendimento com surpreendente rapidez". DINASTIA - Rapidez certamente houve - e com decisiva ajuda do governo brasileiro que, num só dia, abriu as portas dos ministérios das Relações Exteriores, Indústria e Comércio e Planejamento à comitiva. Mas dificilmente se poderá falar em precipitação, pois, desde que os primeiros chineses andaram experimentando a aclimatação do chá no Jardim Botânico, no Rio, há 160 anos, as relações entre o Brasil e a China tradicionalmente evoluíram com letárgica dificuldade. Nesses anos, escoaram-se mirabolantes razões de Estado, como as infindáveis discussões que paralisaram as assembléias imperiais em torno da questão de se importarem trabalhadores "coolies", num bizarro programa de substituição de escravos nas fazendas de cana-de-açúcar e café - cuja produção os chineses de agora vieram comprar. Emperradas em sucessivos convênios jamais ratificados, essas relações só em 1917 levaram o primeiro embaixador do Brasil, Alfredo de Almeida Brandão, a desembarcar na república recém-inaugurada por Sun Ya-tsen. Vinte e cinco anos depois, num navio italiano sem água a bordo, Renato Lago, o último dessa breve dinastia de embaixadores, deixava Pequim invadida pelos japoneses. Quando a guerra terminasse, a tentativa de reocupação da embaixada duraria pouco, apenas o suficiente para que as tropas de Mao Tsé-tung varressem Pequim da rota da diplomacia ocidental. Cercada por relíquias de porcelana e terracota chinesa, a embaixatriz Esther Proença do Lago ornamenta a notícia do reatamento com urgentes planos de voltar a Pequim, "o posto mais difícil e a época mais feliz de minha vida". Lá passou sete anos num palácio da época Manchu, com uma absurda composição de dois quartos para senhores e sete para criados, "sem contar os cubículos para porteiros". E recorda "adoráveis verões e invernos, compensados por primaveras terríveis em que o vento do deserto de Gobi varava janelas calafetadas e inundava a casa de areia amarela". ESPECIALISTAS - Aos futuros embaixadores, decerto será poupado o espetáculo do fuzilamento de ladrões e os ataques de disenteria amebiana, mas os vasos Ming, os cavalos Tang e o palácio Manchu que faziam o encanto de seus antecessores passaram inapelavelmente às mãos do Estado. Nos próximos dias o Itamaraty deflagrará o processo de abertura da embaixada enviando a Pequim um funcionário encarregado de procurar casa para a futura delegação. Mais demoradas, provavelmente, serão suas providências para a arregimentação de pessoal especializado, pois em Brasília, no momento, existem apenas dois: o ministro Geraldo Hollanda e o conselheiro Bueno, ambos com recente estágio em Hong Kong. Nenhum fala chinês. "A embaixada brasileira em Pequim deverá ser sobretudo pequena, sem gastos supérfluos, com o mínimo pessoal exigido pelo trabalho e ocupado por gente discreta que procure assimilar gradualmente as praxes diplomáticas de um país tão importante quanto desconhecido" - recomenda o embaixador Maurício Nabuco, aos 83 anos um guia consagrado do código de bom senso das maneiras diplomáticas. Em recompensa, a esses funcionários ele anuncia o convívio "com pessoas amáveis e cultas, sempre dispostas a cultivar o lado bom da vida, as artes, a natureza e o batepapo". A menos que tenham mudado, porque "o embaixador Leão Velloso lá ficou durante anos, sempre falando bem do lugar". O embaixador, cujo pai - o político do Império Joaquim Nabuco - bombardeou com farpas de sua campanha abolicionista a vinda de trabalhadores chineses para as lavouras paulistas, garante que "de longa data vinha dizendo aos amigos que esse reatamento era inevitável". Menos previdente, o senador gaucho Guido Mondim resumia, sexta-feira, o impacto brando da notícia sobre o Congresso: "Há quinze anos, teria provocado em mim gritos ululantes. Hoje, sou totalmente favorável". LENTO AMADURECIMENTO - Sem dúvida, os gritos não teriam sido em uníssono. No caso das relações com Pequim, o Legislativo foi resgatado de eventuais atrasos pelo discurso com que o deputado Joaquim Coutinho, da Arena pernambucana, inaugurou seu mandato em 1971. "Ele tinha sido redigido antes de o presidente Richard Nixou anunciar sua viagem à China", afirma Coutinho. "Mas a marcação do líder Geraldo Freire só permitiu que eu o pronunciasse 45 dias depois. E eu tive muito cuidado na preparação." De qualquer maneira, ele recebeu na época doze apartes - todos favoráveis. Contudo, assim como o governo conseguiu preservar para o comunicado conjunto de Silveira e Chen Chieh picantes condimentos de surpresa, adicionando à mistura final fermentos de efeito rápido, também o tempo em que a decisão amadureceu à margem dos acontecimentos internacionais ajudou a eliminar da fórmula enzimas perigosas à digestão interna da notícia. Exatamente treze agostos atrás, o vice-presidente João Belchior Goulart estava em Pequim, recrutado às pressas para a política do governo Jânio Quadros de aberturas para o Extremo Oriente. "Nós queríamos enviar para lá uma missão comercial, e o presidente decidiu colocar o Goulart na chefia, para afastá-lo do país", lembra o chanceler da época, político em recesso e professor de Direito Constitucional, Afonso Arinos de Mello Franco. Mas a maneira como os resultados dessa missão foram desbaratados custou dez anos de atraso à aproximação do Brasil com a China. Em pouco mais de dois anos, Quadros renunciou, Goulart assumiu, foi despejado pelo movimento de março de 1964 - e, em abril, os chineses que Pequim enviou ao Brasil descobriram que, de repente, haviam sido transferidos para a clandestinidade. Tivessem cumprido a pena - dez anos por subversão, sabotagem e espionagem - e é possível que esses chineses tivessem hoje razões extras de comemoração, festejando ao mesmo tempo o reatamento e a própria liberdade. Mas foram repatriados, e um deles, Wang Yao-ding, é o presidente do Conselho para o Fomento do Comércio Internacional, coadjuvante da festa da semana passada. O próprio tempo, porém, é que apurou os sorrisos e a oportunidade do acordo firmado quinta-feira. Serviu, por exemplo, para que Brasília e Pequim descobrissem insuspeitadas afinidades em questões externas, como o mar territorial de 200 milhas e a política nuclear. Tanto que, cinco dias antes, um agente de segurança baiano, interceptando a pergunta de um repórter, quase antecipa inadvertidamente a revelação da troca de embaixadores: "Por que você não pergunta sobre o relacionamento da China com o Brasil?" - aconselhou, sem saber que as relações até aquele momento não existiam. |
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