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21 de julho de 1982
Duas guerras
em aberto

Em meio ao tenso cerco israelense
em Beirute, o Irã lança 100.000
soldados ao combate com a missão
de derrubar o regime no Iraque

O estilo era facilmente reconhecível. O tom também. "Levantem-se contra o regime infiel de Saddam Hussein e instaurem o governo islâmico que vocês desejam... Acolham seus irmãos iranianos para poder cortar as mãos do inimigo...", dizia a voz revigorada do aiatolá Ruhollah Khomeini, líder máximo da revolução iraniana, em mensagem transmitida pela Rádio de Teerã para o povo e as Forças Armadas do vizinho iraque. Aos 82 anos de idade e com a saúde alquebrada, Khomeini saiu da relativa quietude em que se encontrava para injetar vida nova e força total a uma guerra quase em extinção, iniciada pelo adversário 22 meses atrás. A "Operação Ramadan", como foi batizado o ataque em homenagem ao mês sagrado dos muçulmanos, não poderia ter vindo em momento pior para o Oriente Médio: a região está tolada há seis semanas numa devastadora guerra travada por Israel contra os palestinos no Líbano, exaurindo a capacidade de negociação das partes em conflito.

A mera hipótese de que o Irã fundamentalista dos aiatolás saia vitorioso contra o Iraque e consiga exportar seu modelo de regime islâmico radical para gerava calafrios nos países árabes em geral e nos do Golfo Pérsico, mais vulneráveis, em particular. A ofensiva de Khomeini, além disso, remexe perigosamente com a jugular por onde passam 40% de todo o petróleo importado pelo mundo não-comunista, e ocorre num momento em que a superpotência de maior peso na região, os Estados Unidos, passa por uma funda reorganização de sua política externa. Diante desse quadro geopolítico, o aspecto puramente militar da nova guerra, embora assombroso, não comoveu tanto o mundo quanto o dramático cerco de 35 000 soldados israelenses ao setor muçulmano de Beirute.

Distantes desse cenário, e inteiramente alheios às implicações imediatas dos combates, até mesmo alguns fechados gabinetes da vida militar brasileira foram brindados com respingos da guerra. Tudo estava arrumado, em Brasília, para que o embaixador brasileiro no Iraque, general-de-exército Samuel Alves Correa, deixasse Bagdá e voltasse ao Brasil em setembro próximo. A pedido expresso de Saddarn Hussein, ele seria substituído por outro general, o que poderia finalmente abrir espaço no topo do Exército para a ascensão do general-de-divisão Coelho Netto. Ao cruzar a fronteira e modificar o quadro da região, os tanques iranianos podem ter barrado, ao menos de momento, o trajeto de Coelho Netto rumo à quarta estrela.

CIDADE-TROFÉU - Teoricamente, o confronto entre Irã e Iraque poderá resultar na maior batalha terrestre desde as que marcaram a Guerra da Coréia, pois, segundo a CIA americana, estão aquartelados no front nada menos que 125 000 soldados do Iraque e cerca de 100 000 do Irã. Mas, como nenhum jornalista estrangeiro obteve permissão para chegar à frente de combate até o final da semana passada, foi a propaganda oficial dos dois países em guerra quem forneceu os dados do confronto. A julgar pelos comunicados de Teerã, as forças iranianas já destruíram 48 tanques inimigos, capturaram 1 400 soldados e causaram pelo menos 600 mortos e feridos ao Iraque. O objetivo-chave da "Operação Ramadan", contudo, não foi atingido até a manhã de sábado: Basra, segunda maior cidade do Iraque, com 500 000 habitantes, único porto do inimigo no Golfo Pérsico e principal escoadouro de seu petróleo, sequer chegou a ser ameaçada pela primeira leva de "soldados da fé".

Segundo fontes americanas, o quadro militar na fronteira configurava um impasse: depois de uma avalanche inicial com cerca de 30.000 homens, o Irã havia esbarrado em um eficiente contra-ataque, aéreo e terrestre, por parte do Iraque. A crer nas informações oficiais divulgadas por Bagdá, a investida na verdade resultou num estrondoso fracasso, com 4 700 soldados iranianos mortos ou feridos, pelo menos sessenta tanques destruídos e dois caças-bombardeiros Phantom da Força Aérea iranianos abatidos. As informações contraditórias dos dois lados só coincidiam nas referências à violência dos combates e no espetáculo de centenas de cadáveres espalhados por uma extensa área a nordeste de Basra.

Para o Irã, uma nova investida em massa contra essa cidade-troféu é quase obrigatória, uma vez que ela representa o tendão de Aquiles pelo qual Khomeini pretende derrubar seu arquiinimigo pessoal e concorrente pelo poder na região, Saddam Hussein, sem ter de chegar até Bagdá. Os estrategistas iranianos imaginam que se Basra, com sua população predominantemente xiita, for tomada, o resto do Iraque se erguerá num levante fatal contra o domínio dos 40% de sunitas chefiados com mão de ferro por Hussein, e o caminho estará livre para a instauração de uma segunda república islâmica na região. Isso, por sua vez, daria impulso às minorias xiitas em outros países do Golfo, como a Arábía Saudita, Kuwait e Emirados Árabes Unidos.

NEUTRALIDADE - De imediato, porém, parece mais provável que, se Saddam Hussein caísse, ele seria substituído por um regime secular não muito diferente do atual. As proclamações da Rádio de Teerã de que a ofensiva deverá chegar "até as portas de Jerusalém" também são interpretadas pelo governo americano como "retórica de guerra". Não se teme exatamente que o Irã invada militarmente seus vizinhos do Golfo, caso consiga vitórias no Iraque, mas que exerça pressão política agitando as minorias xiitas.

Fontes do Departamento de Estado, em Washington, lembram que há alguns meses um grupo de 73 extremistas muçulmanos treinados no Irã foi capturado em Bahrein. Embora descartando a retórica profecia feita na semana passada por Muammar Khadafi, da Líbia, de que "agora o caminho está aberto para a revolução islâmica mundial", a Arábia Saudita e outros países produtores de petróleo, que já haviam canalizado 20 bilhões de dólares para o esforço de guerra do Iraque, cerraram fileiras com mais vigor.

Sem relações diplomáticas com nenhum dos dois beligerantes, os Estados Unidos viram-se forçados a uma incômoda neutralidade. Embora não tenham qualquer simpatia pelo governo de Hussein, também não desejam vê-lo substituído por alguém que ameace a estabilidade da Arábia Saudita, cujo poderio econômico é inversamente proporcional a sua força militar. Por outro lado, embora o Irã do aiatolá Khomeini ainda trate os EUA por "Grande Satã", o governo de Ronald Reagan também não quer ver esse importante peão do Golfo Pérsico cair na órbita soviética. Khomeini pode ser um pesadelo, mas é anticomunista.

De imediato, o que os EUA se propunham a fazer era assegurar a seus aliados da região que estão prontos a ajudá-los se esta ajuda se fizer necessária - inclusive através de manobras militares conjuntas, nos moldes da "Operação Estrela Brilhante" realizada no ano passado com o Egito, Somália, Omã e Sudão. Ao que se sabe, porém, nenhum dos países do Golfo aceitou a oferta até agora.

IMPACIÊNCIA DOS EUA - A descontraída, ensolarada atmosfera de verão que envolveu a posse de George Shultz como 60º secretário de Estado americano, na sexta-feira, foi um dos raros momentos de distensão em Washington na semana passada. A transição completava-se justamente quando a diplomacia dos Estados Unidos parece sossobrar diante de problemas insolúveis e mais problemas à vista. Em Beirute, todo o incansável desempenho do enviado especial americano, Philip Habib, mostrara-se incapaz, até o final da semana, de encontrar uma solução para a retirada dos guerrilheiros palestinos sitiados no setor oeste da capital libanesa. Depois de mais de um mês de consultas, a situação estava pendurada em mais um precaríssimo cessar-fogo, e voltava-se à estaca zero: para onde enviar os 6 000 palestinos da OLP encurralados em Beirute?

Com a nova guerra entre Irã e Iraque mordendo os seus calcanhares, os Estados Unidos também tornaram-se mais impacientes para arrancar de Israel concessões em busca de uma solução definitiva ao problema palestino - entendido pelos países árabes moderados como a raiz de todos os outros. "O que temos visto no passado na atitude dos governos árabes aliados na região é que a tensão no Golfo Pérsico não os distrai da preocupação com o conflito árabe-israelense, disse a Selma Santa Cruz, de VEJA, um assessor do novo secretário de Estado americano, George Shultz. "Na verdade", esclarece ele, "as duas tensões se alimentam mutuamente." Em outras palavras, a instabilidade gerada pela falta de uma solução para o problema palestino seria um dos fatores complicadores que levaram à escalada do conflito Irã-Iraque.

Foi com todas as letras que o novo secretário demonstrou o agudo interesse dos Estados Unidos em atacar a questão palestina. Perante o Congresso americano, durante os depoimentos que precederam a sua posse na semana passada, George Shultz destoou marcadamente dos pronunciamentos de seus antecessores ao afirmar que a crise libanesa deixou "dolorosa e totalmente claro" que "as necessidades e os problemas legítimos do povo palestino devem ser atendidos urgentemente se pretendemos chegar a uma paz no Oriente Médio". Shultz também alertou os presentes para os perigos de haver "um povo capaz e corajoso sem lugar para onde ir" e ajudou a engrossar, voluntariamente ou não, a enxurrada de rumores que dava conta de um possível entendimento direto entre os Estados Unidos e a Organização para a Libertação da Palestina de Yasser Arafat.

PONTO BAIXO - A semana fora de tantas derrotas diplomáticas para Israel no cenário internacional, que tudo parecia possível. Montado numa formidável máquina militar que lhe assegurou a conquista fácil de boa parte do Líbano, o governo do primeiro ministro Menahem Begin não se sentiu com força política suficiente para colher o fruto natural de sua vitória: a eliminação total e completa da OLP de Beirute. Um assalto final ao setor muçulmano da cidade, advertira Reagan, "teria conseqüências sérias para nossas relações bilaterais". Essas relações, aliás, segundo o poderoso senador republicano Charles Percy, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, chegaram a seu ponto mais baixo dos últimos 25 anos e era tempo de Israel reconhecer que a "atitude do mundo e dos americanos em relação ao Estado judeu está mudando".

Crítico severo da invasão do Líbano, Percy afirmou que ela poderia transformar-se no "Vietnã de Israel" e colocou-se frontalmente contra o envio de tropas americanas para a região. O Congresso americano, por sua vez, examinará esta semana um relatório encaminhado pelo Departamento de Estado, segundo o qual Israel "provavelmente" violou a legislação que rege a exportação de armas dos EUA, ao usar material bélico americano na invasão do Líbano. Talvez antecipando a decisão parlamentar a esse  respeito, a cadeia de televisão ABC anunciou na noite de sexta-feira que os Estados Unidos suspenderam suas entregas de bombas de fragmentação para Israel. As notícias de que o Exército israelense teria utilizado esses obuses extremamente mortíferos contra povoações de civis no sul no Liffiano haviam gerado grave controvérsia em todo o país.

OBJETIVO Nº 1 - Para completar a lista de notícias ruins vindas daquele lado do Atlântico, Israel foi informado que Khaled al Hassan, conselheiro de Yasser Arafat e irmão de seu estrategista político, já estava em Washington, onde se juntará no início da semana ao príncipe Saud, da Arábia Saudita, e ao chanceler sírio para conversas sobre o Oriente Médio. Outro golpe recebido com indignação em Jerusalém foi desfechado pelo governo socialista francês de François Mitterrand, considerado, até a semana passada, um dos poucos "amigos de Israel". Em entrevista concedida durante sua visita oficial à Hungria, Mitterrand afirmou que "os palestinos sobreviverão sempre, não desaparecerão jamais, mesmo após uma batalha perdida", e deixou ambígua uma infeliz comparação entre o massacre cometido pelos nazistas contra a aldeia francesa de Oradour, durante a Segunda Guerra Mundial, e o cerco israelense aos palestinos em Beirute oeste. Como se não bastasse, recebeu no Palácio do Eliseu, em Paris, pela primeira vez, um representante da OLP - no caso, Faruk Kadumi, porta-voz da Organização para assuntos estrangeiros e um dos principais assessores de Yasser Arafat, recebendo em troca generosos elogios da OLP.

O objetivo número 1 dos palestinos, hoje, é obter um canal com o governo de Ronald Reagan e negociar assim o seu reconhecimento político. Em troca, a OLP estaria disposta a aceitar o reconhecimento mútuo com Israel, depor suas armas pesadas, transferir seus guerrilheiros sitiados para a Síria, o norte do Líbano ou até a Jordânia - se alguém os aceitar. Mas talvez não haja tempo. Na quinta-feira passada, Dia da Força Aérea de Israel, o ministro da Defesa Ariel Sharon anunciou: "Nossas tropas não embainharão a espada enquanto o último terrorista não tiver deixado Beirute". 0 rígido bloqueio estabelecido em torno da cidade por 35 000 soldados e 300 tanques de Israel não permite que a OLP receba novas armas, mas analistas militares em Telavive acreditam que os palestinos ainda conservam 60% de sua força militar.

RUA MINADA - Tudo indica que os guerrilheiros cercados em Beirute são a nata da OLP. Além dos 1 200 soldados regulares do Exército de Libertação da Palestina (ELP), restam 3 000 guerrilheiros permanentes e 2 000 milicianos do Comando Palestino Armado de Combate, espécie de força policial que controla os grandes campos de refugiados. Há ainda outros 6 000 homens armados que integram uma dezena de milícias muçulmanas, e 500 soldados sírios que não escaparam da cidade a tempo de evitar a ratoeira israelense. Mas não havia sinais, na semana passada, de que a esquerda muçulmana do Líbano se disporia a juntar forças com os palestinos no caso de uma ofensiva final dos israelenses. Nos meios cristãos maronitas dava-se como certo que Israel vai atacar, mas escolhendo a dedo objetivos militares e precisos - os campos palestinos e alguns bairros onde estão concentradas armas e munições. Desta forma, não haveria a destruição total de Beirute ocidental, até porque os blindados não poderiam circular sobre entulho e escombros.

No escritório de informações da OLP, na deserta e semidemolida Avenida Abu Chaker, um comandante palestino do mesmo grupo de Arafat ironizava: "Os países árabes vão resistir até o último palestino". Não contando, militarmente, com ninguém, boa parte dos palestinos dos campos de refugiados foram transferidos nos últimos dias para milhares de apartamentos abandonados em Beirute. Também os depósitos de munição e as armas pesadas não necessárias para a defesa dos campos estão sendo escondidos em porões de edifícios residenciais e cinemas abandonados no coração da cidade. Trincheiras profundas já foram cavadas na orla marítima e algumas ruas que poderiam servir para o temido avanço dos blindados israelenses foram minadas. Na Rua Verdun, onde a Embaixada do Brasil no Líbano esteve instalada até o início da guerra civil, há agora uma placa em árabe que diz: "Atenção, rua minada".

Fora a máquina da OLP, nada mais parece funcionar no setor sitiado de Beirute. Em certos casos, a cidade adquiriu aspectos medievais. Em pleno centro, por exemplo, em terrenos vagos ao lado da torre de cristal do Banco Narodny de Moscou, vacas e ovelhas trazidas do sul por novos refugiados pastam tranqüilamente. Para suprir a falta de elevadores, todos quebrados por absoluta falta de manutenção, cestos amarrados em cordinhas, usados para alçar pequenas compras e objetos, pendem das janelas de muitos edifícios modernos que, poucos anos atrás, ainda faziam Beirute ser conhecida como a Paris do Oriente Médio. Entregue a si própria, a capital espera o acerto final de contas entre Israel e os palestinos - um acerto que deverá marcar a fundo o futuro da região.


A longa ocupação

Sem resolver de vez seu problema com os
palestinos, Israel já está fazendo
preparativos para passar o inverno no Líbano

Marco Antônio de Rezende, de Beirute

Nos últimos anos, sempre que uma nova batalha da guerra civil incandescia Beirute, os três pontos de passagem entre os dois setores da cidade eram guardados de um lado por palestinos e milicianos libaneses da esquerda muçulmana, e, do outro, pela falange dos cristãos maronitas do Líbano. Na semana passada, com a metade ocidental de Beirute cercada pelas forças israelenses e transformada em inapelável armadilha para 350 000 muçulmanos libaneses e 6 000 guerrilheiros, as três portas da cidade eram ferreamente controladas por soldados do Tsahal - o Exército de Israel.

A passagem do cais do porto era reservada a diplomatas e personalidades sob escolta. Nas outras duas, a da Avenida Semaan e a do Museu Nacional, passavam sob rigoroso controle apenas poucos automóveis e raros caminhões. Mesmo assim a um alto preço: segundo denúncias de vendedores, eles estariam pagando 3 000 libras libanesas (cerca de 100 000 cruzeiros) de pedágio pela passagem de cada caminhão. "Viemos aqui ganhar uma guerra, não fazer negócio", diz, indignado, um soldado israelense que comanda um pelotão de falangistas.

No fim da semana passada, a guerra que Israel mais quer ganhar - a expulsão pura e simples do Líbano dos guerrilheiros palestinos encurralados em Beirute - parecia derrapar em complicadas negociações. Mas, do ponto de vista militar, 42 dias depois que o Exército israelense invadiu o país, não havia dúvidas sobre quem mandava no Líbano. Da fronteira até a altura da capital, um terço do país é controlado por cerca de 100 000 soldados de Israel. No sul, o enclave do major Saad Haddad, um dissidente do Exército libanês que se ligou a Telavive, continua de pé, transformado de vanguarda em retaguarda das forças israelenses. O setor oriental de Beirute e o litoral até o porto de Trípoli, no norte, constituem o sólido e bem armado território dos cristãos maronitas, fiéis aliados de Israel, como o major Haddad, no objetivo de expulsar os palestinos. Resta o contingente militar sírio, petrificado no vale de Bekaa, e um perplexo contingente das Nações Unidas no sul, sem ter o que fazer depois de ser atropelado pelo avanço israelense.

GANSOS DE NEON - No setor oriental de Beirute, os soldados israelenses circulam à vontade, como se estivessem em Telavive. Sua presença não é mais marcante porque alguns dos tanques e jipes que se misturam ao caótico tráfego da parte cristã da cidade ostentam, às vezes, a insígnia da Falange, o braço militar dos maronitas - uma bandeira laranja com um triângulo dentro de um círculo vermelho. Mesmo assim, é fácil distinguir os soldados israelenses: eles usam sempre colete à prova de balas, óculos escuros e o típico capacete redondo de seu Exército. Além disso, seguem estritamente as ordens de seu comando: manter o dedo no gatilho e não se envolver com a população civil.

O quartel-general israelense no Líbano, instalado num antigo conservatório de música, no alto da Colina de Baabda, um bairro luxuoso de Beirute onde ficam o palácio presidencial e muitas residências diplomáticas, tem praticamente a capital a seus pés. É como se um exército invasor sitiasse metade do Rio de Janeiro concentrando sua artilharia no morro do Corcovado. Do alto de Baabda, canhões montados sobre lagartas e pelo menos sessenta tanques estão apontados para os principais alvos palestinos em Beirute ocidental. "Pode parecer uma surpresa o modo tranqüilo como os libaneses receberam o Exército invasor israelense", comenta um médico maronita que continua a viver e a clinicar em Beirute ocidental. "Mas o fato é que mesmo os muçulmanos de esquerda já começam a achar que uma causa justa não é motivo para que os palestinos se sintam no direito de provocar a destruição do Líbano."

A chegada dos israelenses transformou, inclusive, em atração turística a Colina de Beit Mery, situada a 600 metros de altitude num dos subúrbios do setor cristão de Beirute. De lá, os moradores da cidade têm uma visão privilegiada dos obuses israelenses que cortam o céu, rumo à parte oeste, deixando um rastro luminoso que já ganhou um apelido: são os "gansos de neon". Um bom tiro que acerta nas posições palestinas recebe, invariavelmente, os aplausos da assistência.

OLHOS VENDADOS - Com o inesperado prolongamento de sua presença no Líbano, entretanto, o Exército israelense começa a ter os problemas clássicos de uma força de ocupação. Pelo menos quarenta de seus soldados foram surpreendidos voltando para casa com televisores, aparelhos de som e relógios obtidos de maneira irregular. Parte da mercadoria foi roubada, em lojas e casas particulares. O resto foi comprado legalmente no Líbano, mas passava pela fronteira sem pagar as taxas alfandegárias. Os soldados foram punidos e um sargento, além de preso, rebaixado a soldado. "Um exército que comete pilhagens não pode dizer que luta por uma causa justa", sentenciou o juiz militar israelense que os condenou. No posto fronteiriço de Metulla, as autoridades de Israel passaram a revistar seus tanques e carros blindados que voltam do Líbano. Foi instalado ali, inclusive, um sistema semelhante ao dos aeroportos internacionais: há uma faixa de rolamento verde, para quem não tem nada a declarar, e uma vermelha, para os que trazem objetos sujeitos às taxas alfandegárias.

A necessidade de controlar a população das áreas ocupadas criou problemas adicionais para as forças de Israel. Na semana passada, caminhões israelenses foram apedrejados quando recolhiam jovens para ser interrogados, nas aldeias de Ain al Helweh e Seiroub. O principal centro de interrogatórios israelense funciona na cidade litorânea de Sidon, onde cada um dos 450 000 habitantes da região considerado "limpo" e não palestino teve sua carteira de identidade carimbada com caracteres hebraicos. Só assim pode atravessar as barreiras militares. Os interrogatórios prosseguem até hoje e são realizados num grande galpão. Os presos esperam sua vez, algemados e com os olhos vendados. Quando um deles é libertado, sai feliz, andando lentamente. A maioria, porém, passa com os olhos vendados, rumo a um campo de internamento provisório perto de Nabatieh.

AGÊNCIA DE VIAGENS - A questão dos prisioneiros, aliás, promete criar mais dores de cabeça. Apesar dos protestos da Cruz Vermelha e de outros organismos internacionais, Israel não concede aos palestinos detidos o status de prisioneiros de guerra. Do ponto de vista israelense, eles são terroristas e serão submetidos a julgamento por tribunal militar sem direito a advogado ou a visitas da família. Mas trata-se de muita gente: segundo um comunicado oficial de Telavive, suas forças já prenderam 9 000 guerrilheiros desde o início da invasão. Por enquanto, o futuro desses detentos parece ser um campo que está sendo construído em ritmo acelerado em Ansar, nas colinas ao sul de Sidon. Ali também parece estar nascendo uma base militar israelense de grande porte, pois caminhões e tratores trabalham dia e noite na área, construindo quartéis e pistas de pouso.

Apesar do rigor dessas medidas, as tropas de Israel ainda não dispõem de uma segurança completa no Líbano. Ainda na semana passada, quatro de seus soldados morreram em emboscadas preparadas pelos palestinos. A principal ameaça vem dos cerca de 1 000 guerrilheiros que escaparam ao cerco em Sidon e se esconderam, divididos em pequenos grupos, nas montanhas a leste dessa cidade. Durante a noite, eles se abrigam nas pequenas fazendas da região. Ao longo do dia, plantam minas e armam emboscadas.

Para melhorar sua imagem, Israel vem executando prudentes passos de relações públicas. Civis feridos no sul foram levados de helicóptero para receber tratamento nos bem equipados hospitais israelenses. Quando começaram a surgir protestos contra as escavações que arqueólogos israelenses faziam em Tiro e Sidon, o governo de Israel comunicou que vai executar o conserto das estradas devastadas pela passagem de seus tanques. Além disso, com o Aeroporto de Beirute fechado em conseqüência da guerra, a companhia aérea El Al anunciou a abertura de uma agência de viagens em Sidon - para atender aos libaneses dispostos a viajar ao exterior por intermédio do Aeroporto de Telavive, a quatro horas de automóvel da capital libanesa.

VAZIO MILITAR - Além disso, preocupados em reduzir ao mínimo sua presença visível no país, as forças israelenses estão entregando as tarefas administrativas do Líbano ocupado a seus próprios aliados libaneses. Exceto alguns pontos-chave como a rebelde Sidon, os falangistas ganharam o controle do litoral, até Tiro, e das cidades maronitas na região de Jezzine, enquanto as forças de Haddad subiram pelas montanhas até as encostas ao norte do Monte Hermon. Ambos saíram ganhando. Somando os novos territórios ao seu reduto tradicional, ao norte de Beirute, a Falange controla, hoje, mais da metade do Líbano. Haddad, ao mesmo tempo, está engrossando sua tropa com muçulmanos radicados em seus novos domínios. "Apenas nos limitamos a preencher um vazio militar", declarou Karim Pakradouni, confidente do líder Bachir Gemayel e um dos principais dirigentes da Falange. "Mas seríamos estúpidos se não aproveitássemos a oportunidade, mesmo sabendo que os israelenses agem em seu próprio interesse e não no nosso."

A verdade é que a influência de Israel no Líbano já ultrapassa muito o aspecto puramente militar. Frutas, verduras e material de construção israelenses passam a fronteira, todos os dias, e são vendidos em Beirute e no norte do país. Bancos israelenses montaram unidades móveis de câmbio, que percorrem as ruas de Beirute trocando shekels israelenses por libras libanesas. O ministro da Fazenda de Israel, Yoram Aridor, esteve na semana passada em Sidon para conversar com diretores do Banco Central do Líbano. Oficialmente, porém, Israel desmente que tenha outros objetivos além de guerrear os palestinos. "Nossa missão aqui é a de afastar os terroristas da OLP", disse a VEJA o coronel Paul Kedar, porta-voz do Exército israelense em Beirute. "Prestamos até um serviço ao país, ao fortalecer seu governo legítimo."

ABRIGO DE INVERNO - É possível que no futuro, sem a presença dos palestinos, sírios e israelenses, o governo libanês ressuscite de fato, pois, ao menos formalmente, controla as instituições e segue ao pé da letra a Constituição do país. Mas esse dia não parece próximo. "Sem conseguir expulsar os palestinos até agora, as forças israelenses vão ficando e se transformam num típico exército de ocupação, ou seja, num exército estrangeiro e num simples dado a mais no trágico panorama do meu país", declarou um empresário maronita, Georges Seikaly, que transferiu provisoriamente seus negócios para Atenas. Sua opinião é partilhada por muitos.

Apesar de seus protestos de respeito pelo governo libanês, os israelenses ainda não delegaram nenhuma tarefa que consideram importante ao governo local. O litoral é patrulhado como se fosse uma simples extensão da costa israelense, a fim de impedir que os palestinos sitiados recebam, por mar, reforços em homens e armas. Os cargueiros que transportam mercadorias e uns poucos passageiros entre Larnaca, na Ilha de Chipre, e o Porto de Junieh, no enclave maronita ao norte de Beirute, são detidos por lanchas israelenses ainda em alto mar, minuciosamente revistados e escoltados até o pequeno porto. Além disso, são cada vez mais evidentes os sinais de que os israelenses pretendem ficar no Líbano por algum tempo. Na semana passada, soldados israelenses expulsaram o pequeno contingente do Exército libanês na histórica fortaleza de Rachaya, no vale de Bekaa, e assumiram o controle da posição. O oficial israelense encarregado da operação explicou que suas forças pretendem usar o quartel para se abrigar durante o inverno. No Líbano, o frio só chegará daqui a três meses.


 
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