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Reportagens 21 de julho de 1971Convite para um novo mundo
"Os governos dos dois países grandes devem estar em paz. Quando o conselheiro do presidente dos Estados Unidos anunciou que estava com dor de estômago, todos os repórteres e observadores diplomáticos foram dormir em paz. Na verdade, só acordaram uma semana depois, ao se revelar que a doença era falsa: Henry Kissinger passara 49 horas em Pequim combinando uma viagem de Richard Nixon à China. A impecável manobra de diplomacia secreta - possível ponto de partida para uma mudança radical nas relações internacionais - surpreendeu o mundo inteiro na noite de quinta-feira passada. O presidente Nixon, dos estúdios da NBC em Los Angeles, informava ter aceito um convite do primeiro-ministro Chu En-lai para uma visita ao seu país antes de maio de 1972. Foi um dos mais curtos pronunciamentos de Nixon pela televisão (três minutos e meio) mas também a mais dramática iniciativa de seu governo, acelerando vertiginosamente o processo de degelo iniciado há menos de cem dias entre a China e os EUA. Como coroamento de uma série de contatos e estudos - realizados a partir da visita à China da seleção americana de ping-pong, em abril -, Kissinger passou em Pequim o fim de semana de 9 a 11 de julho, acertando com Chu En-lai a viagem que pode abrir uma nova era no equilíbrio mundial. De um golpe, ela abre novas perspectivas para a solução da guerra no Vietnã, a admissão da China na ONU, a modificação na relação EUA-Rússia e Rússia-China, além de toda uma gama de possibilidades em problemas tão diversos quanto o futuro de Formosa, as negociações no Oriente Médio ou a crescente influência do Japão na Ásia. A BOA COMIDA - "O objetivo dessa viagem é buscar a normalização das relações entre os dois países", disse Nixon em sua histórica aparição na televisão. "Tomei esta decisão com a profunda convicção de que todas as nações vão ganhar com a redução de tensões e melhores relações entre China e Estados Unidos." Ao chegar de helicóptero no estúdio de TV, vindo da Casa Branca de verão em San Clemente, Califórnia, Nixon parecia particularmente descontraído e sorridente. Depois do pronunciamento, estava com humor suficiente para dizer aos jornalistas que ia fazer a viagem porque gosta muito de comida chinesa. Na verdade, o presidente saboreava um triunfo maior. No início do degelo, ao anunciar que pessoalmente gostaria de visitar a China, acrescentara não acreditar na possibilidade de fazer a viagem durante seu mandato. Talvez fosse um dos seus típicos excessos de cautela, mas o fato é que a visita se concretizou com uma rapidez que ninguém podia imaginar. Os preparativos ainda guardam muitos pontos obscuros, mas até o fim da semana passada já se sabia de alguns dados básicos. De acordo com explicações de um dos raros funcionários envolvidos no processo, houve duas fases. Na primeira, montou-se uma "moldura" para as negociações. Foi uma etapa delicada. "Quando não se tem contato com um país há 22 anos, é incrível a dificuldade para descobrir com quem falar, onde falar." A moldura estava pronta em abril. E a partir da visita dos jogadores de ping-pong houve movimentos específicos de ambas as partes. Iniciou-se a segunda etapa, já visando concretamente à viagem de Nixon. SIGILO TOTAL - Nos EUA, sabia das negociações, além de Nixon e Kissinger, talvez meia dúzia de pessoas - entre elas, o secretário de Estado William Rogers e o vice-presidente Spiro Agnew, que, na sua atual viagem de volta ao mundo, aproveitou várias oportunidades para elogiar a aproximação com a China. Há especulações, ainda, de que o primeiro-ministro romeno Ceausescu, que esteve em Pequim em junho, teria tomado parte nos contatos preparatórios. Seja como for, durante três meses o esquema foi sendo montado peça por peça tão secretamente, que mesmo Nixon e Kissinger, a sós, tomavam a precaução de não conversar no gabinete presidencial, para evitar o extravio de documentos ou anotacões secretas sobre as negociações. As conversas, usualmente, eram nas horas mortas depois do jantar, em esconderijos suficientemente seguros. Quando Kissinger finalmente deixou Washington, a 1º de julho, no caminho da Indochina, Índia, Paquistão e França, o segredo estava tão bem guardado como no primeiro dia. Oficialmente, era uma viagem de "constatação de fatos", embora se soubesse que algo muito importante estava em curso. Mas as suposições tinham direção errada: esperava-se que Kissinger fosse negociar alguma alteração básica na posição americana no Vietnã. A PONTE - Após o seu giro pelo Vietnã do Sul, Tailândia e Índia, Kissinger desembarcou no Paquistão - uma escala peculiar, pois, apesar da guerra civil e dos atritos com a Índia, os problemas paquistaneses não pareciam bastante graves para ocupar o seu tempo, num momento de negociações cruciais com Hanói e o Vietcong. O Paquistão, na verdade, era a ponte para Pequim. Na noite do dia 8, depois de se deixar ver no saguão do seu hotel em Islamabad, Kissinger retirou-se para seu quarto alegando uma indisposição de estômago. Na mesma noite, informava-se que havia viajado de carro para Nathiagali, cidade de veraneio nas montanhas, para descansar e organizar sua agenda de trabalho. Ao meio-dia do dia 9, um jato da Força Aérea Americana aterrava em Pequim, com Kissinger e três assessores. Ele mergulhou imediatamente nas negociações com Chu En-lai e outros altos funcionários chineses. Permaneceu ao todo 49 horas em Pequim, e o tempo que sobrou do sono e das refeições foi praticamente todo consumido nas conversações realizadas na casa de hóspedes do governo chinês, onde estava alojado, e no Grande Palácio do Povo. Nos diálogos com o enviado de Nixon, Chu En-lai usou três intérpretes. O primeiro-ministro de 73 anos, nascido e educado (na Inglaterra, França e Alemanha) como mandarim, fala inglês perfeitamente - talvez com sotaque melhor que o de Kissinger, alemão naturalizado, cujos erros de pronúncia são notórios em Washington. O uso dos intérpretes, assim, certamente beneficiou o veterano negociador chinês, dando-lhe sempre um prazo extra para pensar nas respostas. De volta a Islamabad, Kissinger reapareceu no hotel. E, "curado" da indisposição, pôde seguir viagem para Paris na segunda-feira, 11, com um atraso de dois dias. Finalmente, chegou na terça-feira passada à base aérea de El Toro, perto de San Clemente, sem que houvesse a mais leve suspeita sobre sua demora no Paquistão. Para Kissinger, o jovial divorciado de 48 anos que, a não ser pelo título, parece ser o verdadeiro secretário de Estado americano, era uma vitória total. ANTES DE MAIO - Em apenas 55 horas, após o seu regresso, o processo de divulgação do maior segredo diplomático das últimas décadas estava elaborado. Durante esse período, continuou-se a pensar que Nixon e Kissinger estariam trabalhando na proposta de paz comunista em Paris e na resposta americana. Na quinta-feira, uma hora antes de Nixon aparecer na televisão, William Rogers começou a telefonar para cerca de vinte embaixadores estrangeiros em Washington, informando-os sobre o conteúdo do pronunciamento. Na sexta-feira anunciou-se que a viagem seria feita "mais cedo do que tarde" - provavelmente, em dezembro ou janeiro - e que Nixon, além de Chu, deverá encontrar-se com Mao. RESPOSTA ADIADA - O anúncio da viagem de Nixon à China veio num momento importante para a solução da guerra no Vietnã: na semana passada estavam em jogo, simultaneamente, a última proposta de paz comunista - propondo a libertação dos prisioneiros americanos se os EUA fixarem uma data certa para a retirada de suas tropas ainda este ano -, a substituição do negociador americano em Paris, David Bruce, e uma inesperada manifestação chinesa, propondo a reabertura da Conferência de Genebra para debater o problema global da Indochina. A viagem de Nixon foi anunciada poucas horas após a 121ª reunião em Paris, onde David Bruce evitou, pela segunda vez, aceitar ou rejeitar a proposta comunista. Era clara a tática dos americanos de ganhar tempo, adiando uma resposta até Nixon poder anunciar a viagem. As negociações, de qualquer forma, devem entrar numa nova fase - a começar pela substituição de Bruce, provavelmente em meados de agosto, pelo atual americano na Coréia do Sul, William Porter. Aos 73 anos de idade, Bruce se retira oficialmente por motivos de saúde. Mas, na semana passada, corriam rumores de descontentamento mútuo: a Casa Branca estaria insatisfeita com a "falta de dinamismo" de Bruce como negociador; o diplomata estaria insatisfeito com a "falta de flexibilidade" de Nixon. SAIGON E HANÓI - O trabalho principal de seu substituto será explorar os novos sentimentos do Vietnã do Norte. O convite para a visita de Nixon deixou suficientemente claro para Hanói que mesmo os melhores amigos cuidam primeiro de seus interesses. O Vietnã do Norte sempre olhou com desconfiança o degelo de abril - mas agora as coisas chegaram a um ponto especialmente delicado. O fato de que o inimigo número um vai visitar o amigo número um talvez leve Hanói a reconsiderar algumas de suas posições. No Vietnã do Sul, o ambiente é de incerteza. É certo que o presidente Thieu elogiou a viagem. Mas o vice-presidente Cao Ky foi extremamente frio. Em alguns setores, temia-se uma "traição" como resultado final das conversas em Pequim. Ao mesmo tempo, também começava a se ver uma intervenção mais direta da China nas negociações de paz. Na semana passada, o líder do partido trabalhista australiano, Gough Whitlam, comunicou aos EUA que, durante um encontro com Chu En-lai, na semana anterior, em Pequim, o primeiro-ministro lhe anunciara a intenção de reabrir a conferência de Genebra - um movimento considerado positivo pelos EUA. A China poderá, ainda, participar da Conferência de Paris, corno "observador interessado". Nos meios políticos americanos, a impressão na semana passada era de que a retirada das tropas dos EUA poderá ser completada por volta de maio de 1972 ou mesmo antes, uma vez que a partir de agora é possível esperar concessões de Hanói. UM LINCOLN? - Todo esse movimento representa para Nixon uma jogada de primeira grandeza em política interna. A legião de adversários que concentravam seus ataques contra a atuação do presidente na guerra, segundo relata José Roberto Guzzo, correspondente de VEJA em Nova York, ficou repentinamente sem terreno firme sob os pés. Aconteça o que acontecer, na pior das hipóteses, Nixon já é o presidente que chegou mais perto da paz. "Dentro de cinqüenta anos", comenta o jornal belga "La Dernière Heure", "os povos talvez digam que Nixon foi um LincoIn." As primeiras reações internas à viagem foram um sucesso sem precedentes para a Casa Branca. O presidente teve apoio praticamente total do Congresso, de ambos os partidos e de todas as tendências. Seus mais duros adversários na questão da guerra aprovaram sem reservas a sua iniciativa. O mesmo aplauso veio de grande parte dos setores conservadores. Para a campanha de 1972, as coisas podem ter começado a mudar radicalmente. O tema da paz, uma arma de primeira linha para o Partido Democrático, pode esfriar - talvez, até, desaparecer. Por outro lado, Nixon precisará apaziguar o influente setor conservador da máquina partidária republicana, pois a solidariedade no Congresso e os elogios dos liberais pacifistas não representam necessariamente votos em outubro de 1972. Há, também, os riscos da viagem. Nixon precisa tirar resultados positivos da missão e, diante da magnitude de certos problemas que envolvem as relações EUA-China, parece claro que o presidente deu um passo audacioso. Um fiasco na visita seria fatal. Nos meses que o separam de Pequim, Nixon terá que trabalhar intensamente para afastar o perigo de um imprevisto que não seria o primeiro. Uma viagem à União Soviética, planejada pelo presidente Eisenhower em 1960, foi cancelada à última hora, devido à derrubada de um avião de espionagem U-2 em território russo. Lyndon Johnson, por outro lado, também não esperava ter de cancelar, devido à intervencão militar soviética em Praga, sua viagem a Moscou em 1968. ANTES DO PRELÚDIO - De qualquer forma, a simples intenção do presidente americano, antes mesmo de ser concretizada, é um marco sem precedentes na política internacional dos últimos 25 anos. "Estamos observando a liquidação de dois decênios de uma política americana, no leste da Ásia, dominada por John Foster Dulles", opinou Edgar Snow, o escritor americano que entrevistou Mao Tsé-tung em dezembro último. Para o jornal "Le Monde", "essa decisão, inconcebível há vários meses, é o prelúdio das maiores redivisões de mapas vistas pelo mundo desde a guerra". Não resta dúvida, porém, de que a maior carga de surpresa e de readaptação às novas circunstâncias caiu sobre o próprio povo americano. Antes da tomada do poder pelos comunistas na China, em 1949, Mao Tsé-tung e seus companheiros eram classificados pela imprensa dos EUA como "pretensos comunistas", "reformadores agrários", ou mesmo "socialistas à inglesa". O próprio Stálin encorajava opiniões controvertidas, qualificando-os, em conversa com o diplomata Averell Harriman, de "comunistas de margarina". O LIVRO FECHADO - Quando o presidente Harry Truman percebeu a ascensão da força de Mao e a iminência de uma guerra civil entre comunistas e as forças de Chiang Kay-shek, enviou o general George Marshall à China para tentar reconciliar as duas partes. Era a última visita de um representante dos Estados Unidos à nação chinesa: dois anos após o fracasso da missão Marshall, Mao Tsé-tung assumia irremediàvelmente o controle de todo o país, instituía a República Popular da China e forçava as tropas de Chiang Kai-shek a se refugiarem na ilha de Taiwan. Para os Estados Unidos, as alianças estavam seladas e, durante os 22 anos seguintes, a China comunista permaneceu um livro fechado para a população americana. De tempos em tempos, um novo golpe - guerra da Coréia, escalada americana no Vietnã, Revolução Cultural na China - aprofundava ainda mais o abismo político e diplomático entre os dois governos. Até fevereiro deste ano a possibilidade de um confronto direto Estados Unidos-China (motivado pela intervenção aliada no Laos) era, por muitos, levantada com seriedade. A descida dos primeiros americanos no planeta China, em abril deste ano, foi a primeira revelação de um novo mundo. A notícia da visita de Richard Nixon a Mão Tsé-tung já anuncia seus prováveis contornos. VELHOS AMIGOS - No seu grande salto da última quinta-feira, o presidente Nixon fez apenas uma - mas significativa - ressalva pública: a reaproximação com a China, disse ele, não se faria "às custas dos nossos velhos amigos" (a China nacionalista). Apesar dessa garantia, é dificil imaginar qualquer progresso efetivo no degelo, que, de alguma forma, não custe caro ao regime anticomunista de Chiang Kai-shek. Mais do que o Vietnã - onde uma solução é considerada uma questão de tempo -, Formosa permanece como o maior obstáculo entre Washington e Pequim. O governo comunista reclama soberania sobre Formosa e não aceita a formação de duas Chinas; o governo nacionalista sustenta que o regime de Pequim é rebelde e ilegal. Na dupla rigidez, a de Pequim é a mais séria: sua principal exigência aos EUA é a saída dos navios da Sétima Frota do estreito de Formosa e a retirada das bases militares na ilha. Quanto ao reconhecimento formal da soberania, não é uma preocupação para os comunistas. "A liberação de Formosa", disse recentemente Chu En-lai, "é assunto interno chinês. E não será tão complicado como se pensa." DESABAFO AMARGO - Até o momento, Pequim não deu sinal algum de que negociaria uma solução intermediária para o problema. Os comunistas também não aceitam a idéia de um plebiscito no qual os 14 milhões de habitantes (12 milhões de nativos da ilha e 2 milhões de chineses vindos do continente) decidiriam entre três hipóteses: continuação do regime atual, independência ou anexação à China continental. A única indicação mais branda que se conseguiu até agora foi uma recente declaração de Chu En-lai comprometendo-se a impedir qualquer ação vingativa contra os habitantes da ilha. É muito pouco para o entendimento, e o caminho americano - apertado entre a necessidade de obter progressos significativos com Pequim e a impossibilidade de abandonar Formosa à própria sorte - parece especialmente obscuro nesse problema. Os chineses nacionalistas, de qualquer forma, pressentem a tempestade. O embaixador de Formosa nos EUA, James Shen, foi avisado da viagem de Nixon vinte minutos antes do pronunciamento, num dos telefonemas de Rogers, e respondeu: "Não posso dar crédito a meus ouvidos". No dia seguinte, ele entregava uma violenta nota de protesto e desabafava amargamente com os jornalistas: "Esse não é o tipo de coisa que um amigo e aliado deveria fazer. Não fornos consultados e nem ao menos avisados com um mínimo de antecedência. Foi uma manobra barata". Em Formosa, o tom era o mesmo. O gabinete foi convocado com urgência e o premier C. K. Yen falava da possibilidade de "uma tragédia". Na sexta-feira, o governo de Chiang Kai-shek ordenou ao embaixador Shen que retornasse a Taipé e divulgou comunicados em que classificava o anúncio da visita de Nixon como "jogo sujo" dos Estados Unidos. QUASE NA ONU - Ao mesmo tempo que a viagem de Nixon criava visões de isolamento em Formosa, ficava claro que, agora, a China comunista está separada da ONU por um fio - no fim da semana, em Nova York, havia uma forte impressão de que Pequim poderia ser admitido na próxima Assembléia Geral, em setembro, substituindo o regime nacionalista. A posição dos EUA, mais uma vez, será decisiva - e o Departamento de Estado já anunciou que uma "nova posição" será conhecida num futuro próximo. PROBLEMAS NO JAPÃO - Fora do contexto diretamente chinês, a viagem de Nixon - além de receber uma ampla aprovação mundial - veio introduzir novos elementos em toda a área do Pacífico. O principal envolvido é o Japão. Para a China, o "problema japonês" é uma preocupação de primeira importância. Em seu encontro com Nixon, Chu En-lai certamente mencionará a ajuda militar americana ao Japão. Segundo Pequim, os EUA estariam "remilitarizando o Japão", tornando-o um fator de desequilíbrio no Pacífico. Em Tóquio, por outro lado, a ida de Nixon à China desperta complexos problemas de política interna - porque a oposição ganhou novos argumentos para forçar o governo a melhorar suas relações com Mao - e de relações externas: embora a visita tenha sido oficialmente aplaudida, o governo não vê com bons olhos o principal fiador de sua segurança aproximar-se de Pequim. RESERVA EM MOSCOU - Resta a União Soviética, onde, aparentemente, a surpresa da viagem desorientou os líderes (a notícia foi transmitida pela Rádio de Moscou, sem comentários, com sete horas de atraso). Certamente criou um ambiente de irritação, pois os soviéticos se viram completamente à margem de um movimento diplomático fundamental. Na sexta-feira à tarde, o primeiro-ministro Alexei Kossiguin conferenciou durante mais de duas horas com quatro personalidades americanas, entre as quais o senador Frank Church, sem mencionar uma única vez o surpreendente anúncio da viagem de Nixon. Foi um notável exemplo da reserva soviética. Segundo as primeiras análises, porém, o lance americano não parece visar a União Soviética ou conter qualquer tipo de ameaça a Moscou. Seu objetivo seria, essencialmente, o de tentar construir uma estratégia a longo prazo com a China. Ainda assim, é possível que os soviéticos decidam por conta própria recuar em sua política de entendimento com os EUA. E as conseqüências disso logo apareceriam nas conversações sobre Berlim e mesmo sobre o Oriente Médio. De qualquer forma, para o Kremlin, a agenda das viagens oficiais do presidente Nixon já tem um sabor particularmente desagradável: primeiro a Romênia, em 1969, e agora a China - precisamente os dois países mais rebeldes à liderança soviética no mundo comunista. Incontestavelmente, é curioso que um presidente dos Estados Unidos visite Pequim antes de Moscou - embora mantenha relações com a União Soviética há quase quarenta anos -, antes mesmo de reconhecer o governo de Mao. A estranheza em Moscou, o desagrado em Taipé, os problemas em Tóquio, nada disso parece, no entanto, ser mais importante do que o suspiro de alívio coletivo ouvido em quase todas as capitais mundiais. E num dia antes de maio, quando Mao Tsé-tung responder com um caloroso "huangyn" (bem-vindo) ao "hello" de Richard Nixon, um momento histórico estará ocorrendo. Primeiro passo para a paz ou fonte de insuspeitados conflitos, será certamente o instante em que se começará a desenhar uma nova face para as relações internacionais no século XX. |
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