Brasil e sociedade

Política e economia

Internacional

Ciência e tecnologia

Saúde e sexo

Artes e espetáculos

Gente e memória

Religião e História

Esporte e aventura

Educação e trabalho

Sugira uma capa

Sobre o site

Sobre VEJA

1968 - 2007 | imagens

1993 - 2007 | reportagens

1997 - 2007 | edições integrais

Edição n° 1

Edições extras

Edições especiais

Reportagens de capa
1968 - 1997



Busca detalhada


Imagens das capas
1968 - 2007



Busca detalhada


Em Dia


Acesse o site

  21 de abril de 1982
Cartada de última hora

A Argentina dispõe-se a negociar,
propõe fórmulas de difícil aceitação
por Londres - e os EUA jogam
pesado para obter paz nas Malvinas

1
Alessandro Porro, de Londres
Alceu Nader e Hélio Teixeira, da Argentina
Roberto Garcia, de Washington

Entrando na sala subterrânea do comando de operações da Royal Navy, em Whitehall, na semana passada, a primeira-ministra Margaret Thatcher teve direito às honras dedicadas aos generais e almirantes. Diante dos mapas e miniaturas de todos os navios e aviões envolvidos na operação de confronto com a Argentina, Thatcher recebeu um cálice de vinho do Porto e brindou com os oficiais "à rainha e aos homens da frota". A mais de 11.000 quilômetros dali, no Almirantado argentino instalado no edifício Libertad, próximo ao centro de Buenos Aires, assoprava-se a poeira do livro "Táticas de Bloqueio", escrito antes da II Guerra Mundial pelo almirante francês Raoul Castex. Nele, e em "Fundamentos da Tática Naval", editado pela Escola Naval argentina, debruçavam-se os militares tentando adivinhar o comportamento da frota inglesa que se aproximava do Atlântico Sul com a missão de recuperar, para Londres, as ilhas Malvinas, tomadas militarmente pela Argentina no último dia 2.

Foi para se interpor a esses movimentos que ameaçavam confluir, inexoravelmente, para uma guerra entre Argentina e Inglaterra, que o secretário de Estado americano, Alexander Haig, tentou uma derradeira cartada na semana passada. Da primeira vez, na semana anterior, Haig falhara: depois de percorrer 34.000 quilômetros entre Washington, Londres e Buenos Aires, cruzar o Atlântico quatro vezes em quatro dias e esticar ao limite sua resistência cardíaca - aos 57 anos, ele já tem uma ponte de safena -, o secretário de Estado voltara a Washington de mãos vazias.

No final da semana passada, ele retornava ao campo de batalha diplomático no eixo Buenos Aires-Londres com os mesmos 23 assessores e os mesmos 24 agentes de segurança abarrotados de metralhadoras portáteis Uzi, pistolas Browning e revólveres Magnum. Mas com uma arma de grosso calibre adicional: uma espécie de carta branca do presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, para arrancar a paz à força ou então deixar a guerra começar de uma vez. Diante de um cenário que incluísse esta última e dramática hipótese, Haig teria então poderes para sacar de uma carta vital: com guerra, os EUA ficariam militarmente ao lado da Inglaterra. Em qualquer uma das hipóteses, o principal estrago já estava feito. O que nasceu corno uma disputa territorial entre dois países do bloco ocidental, sem qualquer componente ideológico, político ou regional, escorregara para a vala comum dos eternos confrontos entre Ocidente e o bloco cornunista.

O SINAL VERDE - Oficialmente, o conflito esteve envelopado numa postura rígida, com as duas partes querendo parecer firmes, indignadas e irredutíveis. Mas, apesar dos obstáculos visíveis em público, Alexander Haig não estava desanimado ao encontrar-se com os líderes argentinos em Buenos Aires, onde desembarcou pela segunda vez na última quinta-feira. A razão: a Argentina finalmente, decidira-se a negociar.

Foi o embaixador argentino em Washington, Esteban Takacs, quem deu o sinal verde às 4 horas da tarde do dia anterior, ao telefonar para o juiz William Clark, assessor de Ronald Reagan para Assuntos de Segurança Nacional, informando que o general Leopoldo Galtieri, presidente da Argentina, gostaria de conversar por telefone com o presidente dos Estados Unidos. Uma hora depois, sentado no Salão Oval da Casa Branca com três assessores, e com um intérprete instalado dois andares abaixo, no Situation Room - já que Reagan falava em inglês e Galtieri em espanhol -, o presidente americano iniciou uma conversa que o deixaria colado ao telefone durante 40 minutos.

A conversa propriamente dita durou bem menos, pois boa parte do tempo foi tomada pelo intérprete que, devidamente instruído, optou pelo que se chama de "interpretação consecutiva". Isso significa que Galtieri dizia algumas frases e esperava até ser traduzido, continuava e esperava novamente - o mesmo acontecendo com as respostas de Reagan. O outro método de tradução seria o simultâneo, bem mais rápido, mas ambas as partes preferiram o consecutivo para ter tempo de refletir, consultar os assessores durante as esperas e escolher bem as palavras. Ao que se sabe, tanto Reagan quanto Galtieri tiveram longos momentos de silêncio, mas também abordaram temas tão delicados como a ruidosa possibilidade de ajuda da União Soviética à Argentina. Sobretudo, ambos tiveram o cuidado de apenas abrir o caminho para a nova missão Haig, sem jamais abordar a questão-chave de como seria um acordo.

Foi em Buenos Aires, na noite da última sexta-feira, que o chanceler Nicanor Costa Méndez e Haig fizeram o rascunho do que os militares argentinos estão dispostos a oferecer a Londres. Em troca da promessa de que a temida frota britânica, que zarpara da Inglaterra na semana anterior, parasse a 3.000 milhas (5.550 quilómetros) das ilhas Malvinas, a Argentina retiraria gradualmente de lá seus 9.000 homens dentro de um prazo de quinze dias - na mesma proporção em que os britânicos fariam retornar suas belonaves a Portsmouth - mas deixaria sua bandeira tremulando nos mastros açoitados pelo vento antártido. Em contrapartida, a Inglaterra deixa seus submarinos rondando a área. Começaria então um período de transição durante o qual as ilhas seriam supervisionadas conjuntamente pelos EUA, a Inglaterra e a Argentina, ou por uma força de paz da ONU ou OEA. Numa terceira etapa, a começar no dia 31 de dezembro próximo, a Argentina assumiria a soberania das Malvinas, ficando em aberto, ainda, a questão de administração de seus 1.800 habitantes.

PISAR NO FREIO - À primeira vista, essa fórmula, que Haig levaria para Londres no fim de semana, parece totalmente inaceitável para Margaret Thatcher, sobretudo se a bandeira azul e branca da Argentina não for arreada, pelo menos simbolicamente, das Malvinas. Não se trata de questão apenas simbólica: bandeira, em relações internacionais, quer dizer soberania. Sobre a mesa de negociações, de todo modo, havia uma proposta que Londres poderia aceitar: nas Malvinas passariam a tremular as bandeiras da Argentina, da Inglaterra e da ONU ou OEA. Os argentinos, porém, permaneceriam irredutíveis, aparentemente sentindo-se mais seguros com o reforço de suas posições militares nas ilhas à medida que o tempo passava.

Ainda assim, na Inglaterra, todos parecem ter recebido ordens para não mais descartar, ao menos publicamente, uma possibilidade de acordo. "Nesta operação não existe um ponto de não-retorno. O poderio naval, como instrumento, é flexível", declarou em alto-mar o comandante do porta-aviões britânico Invincible, capitão Jererny Black, na madrugada de sábado. Foi a primeira vez, em quinze dias de crise, que alguém admitia a hipótese de, senão dar meia-volta, pelo menos parar as máquinas para dar tempo ao tempo. De fato, se esse esboço de acordo quiser ter alguma chance de dar certo, será rnesmo necessário alguém começar a pisar no freio, uma vez que o tempo no Atlântico Sul esteve tão esplêndido nesses últimos dias que os primeiros navios da Armada britânica - entrementes, inchada para 26 embarcações militares e 23 civis - já poderiam chegar à zona crítica na madrugada desta terça-feira.

Para pisar no freio, de qualquer forma, o governo britânico precisa convencer-se de que ganhou algo razoavelmente significativo com sua operação militar - do contrário não será fácil para Margaret Thatcher explicar a seu país que 1 bilhão de dólares foram jogados ao mar inutilmente, mesmo que o efeito de intimidação da Armada tenha sido estrondoso sobre os argentinos, agora muito mais inclinados a transigir do que logo após a ocupação das ilhas. Afinal, 67% dos ingleses, ainda na semana passada, manifestaram-se solidamente a favor do uso da força para recuperar as Malvinas e acompanhavam o avanço da frota pelas migalhas de informação autorizadas pelo Ministério da Defesa.

De fato, assim como os navios passaram a navegar sem luz, durante a noite, e sem rádio, para dificultar sua interceptação, também os vinte jornalistas britânicos que acompanham a Armada começaram a seguir ao pé da letra um código de trabalho elaborado em 1958 pelo Ministério da Defesa e com o qual todos concordaram antes de embarcar. Além de não poder mais citar a composição ou a localização das unidades navais, nem os métodos de camuflagem, nem os planos operacionais, os "correspondentes de guerra", como passaram a ser classificados, também não poderiam enviar despachos sobre eventuais baixas. As únicas notícias de bordo que ainda chegavam, na semana passada, eram amenas. Soube-se, assim, que diariamente um avião-radar Nimrod da Força Aérea surgia nos céus do Atlântico para jogar ao mar, pelo compartimento de bombas, cilindros de metal com flutuadores contendo disputadíssimos jornais e filmes noticiosos. Imediatamente, algum helicóptero de um dos dois porta-aviões levantava vôo com um homem-rã, para recolher os cilindros.

COLOSSO SOVIÉTICO - Enquanto ninguém sabia para que lado se inclinavam as negociações, espelhos e outros objetos quebráveis eram simplesmente retirados de circulação na Armada. Por fim, pareciam terminar a operação de composição da frota, com a inclusão, ao longo da semana, de vários navios pesqueiros de alto-mar transformados em varre-minas, e até mesmo do navio mercante Bonte, recém-chegado da Argentina. Como o Bonte já navegava rumo ao Atlântico Norte, quando as sanções econômicas contra a Argentina entraram em vigor, ele prosseguiu sua rota, descarregou suas 15.000 toneladas na Inglaterra e, como diziam os portuários de Liverpool, "voltará para a Argentina com a carga que eles merecem".

Naturalmente, qualquer notícia sobre o deslocamento de toda essa parafernália naval de mais de quarenta unidades passou a ser de interesse vital para o comando militar argentino, tão pobre em recursos de informação eletrônica. Foi aí que se abriu a brecha para a entrada em cena do colosso soviético. Há vários dias, sabia-se que um grande navio de espionagem russo da classe Primorye, normalmente estacionado entre a Escócia e a Irlanda do Norte, passara a acompanhar fielmente a rota do transatlântico Canberra, que integra a Armada britânica como navio de transporte de tropas e equipamentos. Além disso, pelo menos um avião de reconhecimento Tupolev 95 - dos cinco que estariam fazendo o mesmo serviço - foi visto na sexta-feira sobrevoando o porta-aviões Invincible.

Com sua estupenda autonomia de vôo de 12.500 quilômetros, esse aparelho pode ter saído tanto de Cuba como de Angola, ambos países-clientes da URSS, para realizar sua missão de reconhecimento. E, de concreto, havia ainda o Akademik Knipovich aportando na semana passada no porto argentino de Ushuaia. Oficialmente registrado como "navio de pesquisas de pesca", trata-se na realidade de um navio de espionagem antigo, com capacidade limitada de coleta de informações, mas equipado com radares aptos a detectar submarinos. Sua presença em águas argentinas causou, aliás, certo arrepio em alguns setores militares de Buenos Aires, eles mesmos desnorteados pelo rumo que a crise estava tomando.

APOIO INCÔMODO - Não era para menos. Afinal, em pouco mais de duas semanas, a União Soviética passou a ser vista como um dos pólos da crise, por sua inclinação verbal - e talvez apoio material - ao regime ditatorial de Buenos Aires. "Estamos utilizando o apoio que os soviéticos nos ofereceram, mas isso não significa que estamos entrando na órbita deles", explicou sibilinamente um alto funcionário do Palácio San Martín, a chancelaria argentina. "É como um instrumento de pressão contra os Estados Unidos, para que saibam que há quem nos apóie." Esse mesmo diplomata, no entanto, acrescentava tratar-se de uma aproximação "circunstancial, que atende só a interesses determinados".

A grande questão, não esclarecida até o final da semana, é saber qual o grau de ajuda que os russos efetivamente deram aos argentinos até agora: se o apoio foi apenas verbal, por meio de repetidas denúncias às posições "colonialistas" da Inglaterra na questão das Malvinas, ou se as Forças Armadas soviéticas efetivamente repassaram sua coleta de informações eletrônicas para o governo de Buenos Aires. Neste caso, teriam tirado três ou quatro satélites de sua órbita normal para detectar a frota inglesa no Atlântico Sul e estariam usando também satélites específicos de espionagem da mesma forma como os Estados Unidos parecem ter rastreado a movimentação militar argentina para os ingleses. Para completar o quadro de aproximação entre Buenos Aires e Moscou, a Argentina ainda assinou um acordo de compra de "máquinas e equipamentos" soviéticos na semana passada - no Brasil, esta rubrica nas guias de exportação costuma esconder venda de armas -, junto com um acerto para receber urânio enriquecido, água pesada e assistência tecnológica para sua usina nuclear de Atucha 1.

Não é de admirar, portanto, que até mesmo círculos militares argentinos, teoricamente bem informados sobre as razões de Estado envolvidas na questão, acabassem sentindo-se desconfortáveis. "O pessoal está com medo", confessava, em Buenos Aires, um financista de íntimas relações com os militares, "e não sabe o que pode acontecer. Estão achando que isso pode virar um Egito de Nasser de uma hora para outra." De fato, para um regime que oficialmente tem-se considerado "em guerra interna" contra a esquerda, razão apresentada pelos militares para justificar uma campanha de repressão que já fez milhares de mortos na Argentina, o apoio soviético numa "guerra externa" não poderia ser mais incômodo.

O fato de a TFP argentina ter colocado um anúncio de protesto nos jornais de Buenos Aires, alertando para o fato de que a ameaça comunista era mais importante para o país que a soberania nas Malvinas, pode ser visto como folclórico. Mas a reunião que o presidente Galtieri teve na Casa Rosada com os principais generais da reserva - entre eles os ex-presidentes Jorge Rafael Videla, Roberto Levingston, Alejandro Lanusse e Juan Carios Onganía - foi séria. Muitos saíram da conversa e trataram de fazer contatos imediatos com seus colegas da ativa para falar dos laços de Galtieri com os russos. Esclarecimentos a respeito foram passados a todas as unidades militares do país. Outros militares acompanharam com preocupação os intensos aplausos da torcida argentina para a Seleção Soviética de futebol durante o empate de 1 a 1 entre URSS e Argentina na semana passada, no estádio do River Plate.

CEM VÔOS - Também a tentativa empreendida por Galtieri para captar adesões "terceiro-mundistas", "latino-americanas" e "não-alinhadas" nesse momento histórico da Argentina deu resultados decepcionantes. Na prática, ele conseguiu sobretudo o apoio de países que têm problernas de fronteiras próprios e que, portanto, sonham com a idéia de um dia poder resolvê-los pela força, legitimados pelo precedente argentino. Nessa categoria se incluem o Peru, que tem pendências territoriais com o Chile (que por sua vez tem problemas com a própria Argentina) e com o Equador e já despachou seis caças-bombardeiros para Comodoro Rivadavia, à Bolívia, que vive às turras com o Peru e o Chile e ainda por cima precisa pagar à Argentina a ajuda que recebeu por ocasião do último golpe militar. Mas os dois principais países abaixo do rio Grande, Brasil e México, continuavam silenciosos. O Brasil mostrou compreensão para com Buenos Aires, mas não mais que isso. E, apesar de o governo argentino ter acenado ao México com a iminente libertação de Juan Manuel Abal Medina, ex-dirigente peronista e campeão mundial de exílio diplomático, que há seis anos espera salvo-conduto na embaixada mexicana em Buenos Aires, nada de mais concreto obteve em troca.

Na verdade, todo esse esforço diplomático na área latino-americana, por parte de Buenos Aires, visa assegurar a retaguarda militar argentina em caso de fracasso nas negociações e conflito armado com a Inglaterra. A Argentina tentaria então obter os catorze votos necessários (dois terços dos países-membros) para invocar o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, junto à OEA, o que obrigaria os signatários a lhe prestar ajuda militar, colocando-se também em pé de guerra com a Inglaterra. A julgar pelas intensas e nervosas atividades militares dos argentinos na semana passada, eles se preparavam para o pior.

Segundo fontes oficiais de Buenos Aires, 100 vôos diários entre Comodoro Rivadavia e as ilhas Malvinas, por cima do até agora inoperante bloqueio naval britânico, transformaram as ilhas recém-conquistadas numa "fortaleza inexpugnável". Revelou-se também que a pista de pouso em Port Stanley, capital do arquipélago, fora aumentada o suficiente para permitir a descida e decolagem de caças-bombardeiros Mirage 5 da Força Aérea, com pleno carregamento de armas, mísseis e bombas - o que, segundo os argentinos, poderia alterar substancialmente a teórica supremacia britânica no conflito. É bem verdade que essa mesma informação foi imediatamente desmentida por dois técnicos ingleses repatriados das Malvinas, que entregaram valiosos dados ao Ministério da Defesa em Londres, na semana passada.

Mas, exceto em casos-limites e facilmente verificáveis - como a notícia de que o maior porta-aviões da frota britânica, o Hermes, estava com problema nas turbinas e não conseguia avançar -, a campanha de desinformação empreendida pelos dois países sempre dava algum resultado. Não houvesse a mediação de Alexander Haig em andamento poder-se-ia ter a impressão de que o caso das Malvinas seria resolvido com a mesma fórmula apresentada pelo ministro da Justiça iraniano, na semana passada, ao receber uma delegação de mediadores que tentavam acabar com a guerra Irã-Iraque: "Essa guerra precisa ser resolvida no campo de batalha".

 
     
voltar
 
  VEJA on-line | Em Dia