BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
Publicidade

Arquivo
VEJA
 
Reportagens



Busca detalhada
 
Imagens de capa



Busca detalhada




Mais reportagens
Brasil e sociedade
Política e economia
Internacional
Ciência e tecnologia
Saúde e sexo
Artes e espetáculos
Gente e memória
Religião e História
Esporte e aventura
Educação e trabalho

Revistas
1997 - 2009 | edições integrais
Edição n° 1
Edições extras
Edições especiais
  Reportagens



21 de fevereiro de 1996
Duas mulheres na saga
rumo a Hollywood

O Quatrilho , com Glória Pires
e Patrícia Pillar, coloca o Brasil
na disputa pelo prêmio Oscar

Na madrugada do dia 25 de março, pela primeira vez o Brasil poderá ter o gostinho de torcer, ao assistir pela televisão à transmissão da cerimônia de entrega do prêmio Oscar. Depois de 33 anos de jejum, um filme nacional concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Em 1962, o Brasil era Zé do Burro em O Pagador de Promessas, baseado numa peça engajada de Dias Gomes. Era um filme modesto, que comovia ao mostrar um personagem ingênuo, massacrado pelos poderosos, vivendo num país que começava a tomar consciência de sua pobreza. O filme com Leonardo Villar e Glória Menezes perdeu o Oscar, mas ganhou uma Palma de Ouro em Cannes. Em 1996 o Brasil é loiro, tem olhos verdes e fala com sotaque italiano. Feito com 1,8 milhão de dólares, um orçamento esquálido para os padrões hollywoodianos, O Quatrilho é um filme mais que digno: bonito, bem-feito, bem fotografado, com um roteiro sem grandes complicações nem idéias mirabolantes. É uma história direta, com emoções sutis, habilmente levadas adiante pelas atrizes Glória Pires e Patrícia Pillar, em esplêndidas atuações nos papéis principais.

A indicação foi anunciada na terça-feira passada, em Los Angeles, por Arthur Hiller, presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, e pelo músico Quincy Jones, num horário bizarro, 5 e meia da manhã - para dar tempo para que os telejornais matutinos americanos pudessem falar sobre os indicados para o Oscar. Na noite de terça, no Rio de Janeiro, uma família comemorava efusivamente a indicação, num restaurante italiano em Ipanema. Luiz Carlos Barreto, o pai, Lucy Barreto, a mãe - ambos produtores de cinema -, e Bruno Barreto, cineasta e irmão mais velho de Fábio Barreto, o diretor de O Quatrilho, se confraternizavam com amigos. A família Barreto está sendo justamente premiada com a indicação: há mais de três décadas a sua história se confunde com a do cinema nacional. O patriarca, Luiz Carlos Barreto, o Barretão, foi fotógrafo de filmes do cinema novo, produtor de superproduções dos anos 70, como Dona Flor e Seus Dois Maridos, e agora vê seu filho concorrendo ao Oscar. O Quatrilho disputará o prêmio com três filmes europeus e um africano. Os europeus são L’Uomo delle Stelle, italiano, de Giuseppe Tornatore, o mesmo de Cinema Paradiso, o belga Antonia’s Line, narrativa feminista sobre uma mulher independente que enfrenta preconceitos entre fazendeiros holandeses, e o sueco Lust Och Fagring Stor, filme de época ambientado no tempo da II Grande Guerra. O quinto concorrente, Pousierres de Vie, vem da Argélia e é uma salada multicultural sobre prisioneiros de guerra com atores vietnamitas, tailandeses e argelinos.

A indicação de O Quatrilho pode sinalizar uma nova era no cinema nacional, um ser que, como o personagem Jason de Sexta-Feira 13, é freqüentemente dado como morto, mas, quando menos se espera, acaba ressuscitando. Os números provam que o ano passado foi de renascimento: houve dezenove títulos lançados. De um ano para o outro, a participação do cinema brasileiro nas bilheterias subiu de 0,1% para 4%. O total de público do cinema nacional em 1995 foi de cerca de 3,2 milhões de espectadores. Ainda se está longe dos números áureos. Em 1975, ano de um recorde histórico, 48 milhões de pessoas pagaram ingresso para ver filmes brasileiros, 18% do total. Só que na época muito mais gente ia ao cinema. O público total daquele ano foi de 275 milhões de pessoas, contra 80 milhões hoje. Em 1994, o cinema nacional fez dois campeões de bilheteria: Carlota Joaquina, com 1,2 milhão de espectadores, e O Quatrilho, com 800 000 - mais da metade da bilheteria total do segmento. Há uma previsão de trinta estréias de filmes nacionais neste ano, o que deve contribuir para elevar a média atual.
 
CARNEIROS DO EXÉRCITO - Se os números atestam que o cinema nacional ressuscitou, é difícil identificar uma nova tendência, um movimento, como a chanchada da Atlântica ou o cinema novo. Mas é possível enumerar algumas características da geração atual, que é acima de tudo pragmática. Os cineastas dos dias de hoje estão em busca do mesmo que a geração Dona Flor conseguiu: o sucesso popular, com o intuito de provar que o cinema nacional é um empreendimento viável. São mestres em se virar com os recursos disponíveis e se esmeram na qualidade técnica, conseguindo resultados surpreendentes - a reconstituição de época de Carlota Joaquina é convincente, com seus carneiros emprestados do Exército que simulam a Escócia. O filme também faz o espectador acreditar que São Luís do Maranhão é Lisboa. Os enredos preferidos são aqueles que passam ao largo de 'mensagens' ou inovações. O Quatrilho é até agora o melhor resultado da equação enredo linear + carpintaria cuidadosa = sucesso de público.
 
PARENTE DISTANTE - A equação, no entanto, não explica tudo. Com a indicação para o Oscar, houve logo quem dissesse que o filme parece uma novela ou minissérie da Globo. Grossa bobagem. Quando a Globo mostrou troca de casais, discursos contra a Igreja Católica e feminismo prático? Nunca. E O Quatrilho, além de tudo isso, não tem nada da vulgaridade televisiva, da gritaria de emoções, da embromação, da encheção de lingüiça e do nivelamento por baixo que caracterizam a televisão brasileira. O filme de Fábio Barreto trata de temas adultos, como a amizade que vira amor, a atração sexual pela mulher do melhor amigo, com uma delicadeza exemplar. É um filme acadêmico, realista, que trata de um Brasil que não costuma aparecer nas telas: o do Rio Grande do Sul, da imigração italiana na primeira metade do século, da vida em família. Não há tipos caricatos como o coronel nordestino, o empresário vilão, a mulata fogosa. Claro está, o filme não é uma obra-prima nem vai marcar indelevelmente a cultura brasileira. Mas está no nível do cubano Morango e Chocolate e do mexicano Como Água para Chocolate. Para a platéia brasileira é irresistível: fala de nosso país, de nossa História.

No seu academicismo e simplicidade, O Quatrilho conseguiu sensibilizar em Hollywood, mas não apenas devido a suas virtudes cinematográficas. Conseguir uma indicação para o maior prêmio do cinema é bem mais trabalhoso que fazer um filme. É necessário passar por vários estágios de caitituagem. A primeira peneira é aqui mesmo no Brasil. Com a extinção da Embrafilme, o país estava sem uma comissão oficial para indicar o seu representante. Luiz Carlos Barreto resolveu ele próprio formar uma comissão. Contatou Vera Zaverucha, titular da Secretaria do Audiovisual, órgão do Ministério da Cultura, e encomendou uma. Por coincidência, a comissão biônica escolheu O Quatrilho, de Fábio, filho de Barretão. Segundo Zaverucha, o lobby do papai não foi decisivo: 'A comissão decidiu por unanimidade achando que, entre os concorrentes, era o filme que teria maior apelo no mercado americano, por tratar do tema da imigração'. Ganha a batalha interna, era a hora de começar o verdadeiro pega-pra-capar, em Hollywood.

O colégio eleitoral que escolhe os concorrentes a melhor filme estrangeiro é formado por 143 integrantes da Academia de Hollywood. Os quarenta pré-selecionados são exibidos em várias 'sessões competitivas'. Mas há um detalhe: os integrantes do colégio eleitoral não são obrigados a comparecer a todas as exibições, e por isso descartam aqueles filmes que acham não ter muito interesse. Isso significa que os produtores têm de trabalhar para que os votantes achem que seu filme é digno de ser visto. Para criar um auê em torno do filme, os produtores de O Quatrilho o colocaram na mostra da American Film Foundation, nos Estados Unidos, em outubro do ano passado. Para a platéia foi convidado Steven Spielberg, aparentado do diretor Fábio Barreto. O diretor de E.T. é ex-marido da atriz Amy Irving, que é casada com Bruno, irmão de Fábio. Spielberg aplaudiu de pé. Acabou se tornando cabo eleitoral da campanha vitoriosa de O Quatrilho em busca da indicação. Ajudou a chamar a atenção para o filme.

O passo seguinte foi colocar anúncios do filme em publicações especializadas, como Variety e Hollywood Reporter. Os seis anúncios custaram 35 000 dólares aos produtores. Houve também chamadas de televisão aberta nas redes CBS, NBC e ABC, as três grandes dos Estados Unidos. Deu certo. O filme foi escolhido. É difícil acreditar que Steven Spielberg tenha gastado a unha do indicador telefonando para os membros da academia e pedindo votos para O Quatrilho. Mas também é óbvio que ser filho de Barretão e aparentado do diretor de Tubarão ajudou Fábio Barreto a chegar com seu filme aonde chegou. Os Barreto formam, hoje, o clã mais poderoso do cinema nacional. Lucy e Luiz Carlos Barreto se casaram em 1955 e, movidos por uma paixão comum, no mesmo ano começaram a mexer com cinema - e deram início ao clã.
 
MELHOR QUE VIDEOGAME - No início de 60, Luiz Carlos, então repórter da revista O Cruzeiro, foi cobrir a filmagem de Barravento e conheceu Glauber Rocha. Os dois se tornaram muito amigos, e Glauber resolveu passar uma temporada na casa dos Barreto, no Rio de Janeiro, onde ficou por oito meses. 'Nós tínhamos uma moviola em casa, onde o Glauber ficava montando o filme. Os meninos ficavam fascinados. Aquilo era muito melhor que videogame', lembra Lucy Barreto, apelidada, pelas costas, de 'Lúcifer', pelo seu gênio difícil. Os dois meninos eram Bruno e Fábio. Depois de adultos, resolveram continuar a brincadeira. Bruno, hoje com 40 anos, se tornou o diretor de Dona Flor e Seus Dois Maridos, o filme com maior bilheteria na história do cinema no Brasil: 11 milhões de espectadores. Mudou-se para os Estados Unidos, casou-se com a ex de Spielberg, fez filmes por lá - nenhum foi estouro de bilheteria - e, com a volta do cinema nacional, está rodando a adaptação do livro O que É Isso, Companheiro?, de Fernando Gabeira. Fábio, 38 anos, fez Índia, A Filha do Sol, também com Gloria Pires, trabalhou com publicidade e minisséries de TV antes de produzir O Quatrilho. Só a irmã caçula, Paula, 36, não gosta de cinema. Sempre foi vidrada em esportes. Praticou natação e acabou se casando com o ex-centroavante Cláudio Adão, que fez carreira cheia de altos e baixos em vários times.

Os pais continuam produzindo filmes, à frente da LC Barreto Produções. 'O Barretão é um Spartacus, um gladiador que consegue sobreviver numa profissão que não é fácil no Brasil, a de produtor cinematográfico', elogia o cineasta Hector Babenco. Já Barretão prefere dizer que quem produz é Lucy e que ele prefere articular nos bastidores. 'Eu sempre fui bom lobista', define-se. Barreto passou os últimos quatros anos em viagens entre Brasília e Rio, convencendo os parlamentares sobre a Lei do Audiovisual. 'Levei muita bronca da Lucy porque deixava a empresa parada aqui e ia para o Planalto', diz ele, um cearense de 67 anos que não dispensa as peladas de futebol com os amigos no fim de semana. 'Já fui até confundido com deputado.' O auge do governismo de Barretão está em O Quatrilho: nos créditos, em letras pequeninas, o filme é dedicado 'ao governo Itamar Franco'.

FUNDO DE RENDA FIXA - Mesmo antes de ser confirmado na disputa de Hollywood, O Quatrilho já podia ser considerado um sucesso. Levou 800 000 pessoas aos cinemas no ano passado, configurando a segunda melhor bilheteria do ano do cinema nacional. Será relançado na esteira do Oscar. A previsão é de que leve mais 300 000 pessoas aos cinemas até o dia 25 de março. Lançado em vídeo, vendeu 20 000 fitas em três semanas. Um megassucesso americano tipo Parque dos Dinossauros vende cerca de 50 000. Do seu custo de 1,8 milhão de reais, 300 000 saíram do bolso dos Barreto. O Ministério da Cultura emprestou 400 000 reais na fase de finalização. Mas o grosso do dinheiro - 1,1 milhão de dólares - foi captado através da famigerada Lei nº 8685, conhecida como Lei do Audiovisual.

"Todo mundo fala mal dela, mas é essa lei que está possibilitando o renascimento do cinema nacional", diz o cineasta Emiliano Ribeiro, que viabilizou dessa forma seu filme As Meninas, baseado na obra de Lygia Fagundes Telles. A lei permite que o produtor encaminhe o projeto à Secretaria do Audiovisual. Se for aprovado, ele fica autorizado a captar recursos com a intermediação de uma corretora cadastrada na Comissão de Valores Mobiliários, CVM. Ou seja: qualquer pessoa física ou jurídica pode comprar cotas do filme como se fossem ações da bolsa, e depois ganha o retorno em forma de dividendos. Além disso, o comprador ganha um desconto de 3% no imposto de renda, se for pessoa física, e de 1%, se for pessoa jurídica. Os cineastas da geração pragmática acreditam que a indicação do filme de Fábio Barreto ao Oscar irá ajudar a consolidar o cinema como investimento. 'A grande conquista dessa indicação de O Quatrilho ao Oscar é que o cinema brasileiro está sendo promovido ao status de indústria mesmo', opina Monique Gardenberg, diretora de Jenipapo, filme brasileiro falado em inglês com estréia prevista para março. No caso de O Quatrilho, a rentabilidade foi de 10% em apenas três meses - mais do que fundo de renda fixa ou caderneta de poupança.
 
TRANÇANDO PALHA - Para conseguir dinheiro, os produtores de O Quatrilho apelaram não só a bancos mas também ao patriotismo das empresas gaúchas. Cerca de 40% do dinheiro do filme foi arrecadado no próprio Rio Grande do Sul. Fábio Barreto conseguiu, inclusive, convencer o empresariado local a restaurar um trecho de ferrovia que estava desativado havia dez anos. O apoio se justifica, já que é raro uma produção se debruçar sobre a vida no Sul do país. Quando se trata de filme regional, o Nordeste é sempre o cenário preferido - basta lembrar Deus e o Diabo na Terra do Sol, Vidas Secas e Os Fuzis. Diz Fábio Barreto que o tema lhe caiu nas mãos por acaso. Numa viagem a Porto Alegre, em 1986, ouviu falar do livro, comprou-o no aeroporto, leu-o no avião e desembarcou no Rio de Janeiro com o roteiro de um filme na cabeça. As filmagens tiveram laboratórios dignos de um Actor’s Studio. Os atores ficaram meses apurando o sotaque vêneto. O resultado não é lá muito convincente, mas dá um charme extra ao filme. Glória Pires e Patrícia Pillar aprenderam, de verdade, a trançar palha para fazer cestos. Depois do filme, levaram para casa vários deles. Os atores Alexandre Paternost e Bruno Campos, depois de vários tombos, tiveram de se adestrar em equitação.

O Quatrilho é, antes de mais nada, a saga de duas mulheres. No filme, os papéis femininos ofuscam os masculinos. Tanto que o diretor Fábio Barreto escolheu primeiro as duas atrizes e depois submeteu os candidatos a galã à aprovação delas. Acabaram sendo propostos pelo pai e pela avó do diretor. Alexandre Paternost foi escolhido por Lucíola, mãe de Lucy Barreto, por não se sentir muito à vontade no papel. 'Ele não sabe bem onde colocar as mãos, fica encabulado, é exatamente como o personagem Angelo', explica Fábio. Já Bruno Campos, que faz o papel do colono bonitão, foi sugerido por Luiz Carlos. Filho de um funcionário do Banco do Brasil, Bruno, de 24 anos, passou a maior parte da vida nos Estados Unidos, onde estudou teatro. Lá, chegou a ser contratado pela Companhia Shakespeariana de Chicago no cargo de ator principal. Interpretou de Hamlet a Rei Lear.

O escritor José Clemente Pozenato, 57 anos, autor da história que deu origem ao filme, um ex-padre que largou a batina com 31 anos para se dedicar ao magistério e às letras, ouviu-a de um amigo. Mas nunca se preocupou muito em pesquisar o enredo verdadeiro. 'Gostei do mote da troca de casais e resolvi usá-lo como ponto de partida em meu livro', diz Pozenato, que na esteira do sucesso do filme vendeu 30 000 exemplares de sua obra. No filme, que reproduz fielmente a história do livro, ambientada numa colônia de imigrantes italianos, Patrícia Pillar interpreta Tereza, uma moça fogosa e cabeça-de-vento que é casada com Angelo (Alexandre Paternost), um homem que só pensa em ficar rico. O outro papel decisivo, o da séria Pierina, é feito com galhardia por Glória Pires. No dia 25 de março, minutos antes de ser aberto o envelope no Dorothy Chandler Auditorium, em Los Angeles, a mesma cidade em que o Brasil conquistou o tetracampeonato do mundo há dois anos, outra cidade, Caxias, terá grande parte da população em praça pública, torcendo diante de um telão que a prefeitura promete colocar. E o resto do Brasil estará também com os olhos vidrados em sua dupla de área, Glória Pires e Patrícia Pillar - as atrizes que, com seu talento, constituem a alma do filme de Fábio Barreto.

 

TNo papel da imigrante sensual

Patrícia Pillar batalhou para compor sua Tereza

Até começarem as filmagens de O Quatrilho, o máximo que a atriz Patrícia Pillar conhecia do Rio Grande do Sul era o Festival de Gramado, boca-livre anual que se realiza na Serra Gaúcha com resultados até hoje desconhecidos para o cinema brasileiro. Quem a vê no filme como a afogueada Tereza constata que ela percorreu um longo caminho para encarnar a imigrante italiana do início do século. 'Suei com um professor para aprender o sotaque, convivi com os colonos do lugar, gente que passou a infância sem ter uma sandália para calçar', ela conta, cheia de entusiasmo com o filme do diretor Fábio Barreto.
 Ultimamente, Patrícia Pillar andou fazendo trabalhos muito diferentes. No filme O Menino Maluquinho, sucesso do ano passado, com peruca escura e aspirador de pó em punho, ela fazia a compreensiva mãe do garoto, numa participação meio mortiça porque era secundária por exigência da história. Na novela Renascer, a última que fez, era Eliana, a sem-vergonha que se enroscava ao mesmo tempo com Taumaturgo Ferreira e Jackson 'Charles Bronson' Antunes. Nesse papel da TV, está mais parecida com a exuberante, alegre e espontânea Tereza, de O Quatrilho.

Aos 32 anos, nascida em Brasília e criada no Rio de Janeiro, Patrícia Pillar está num bom momento de sua carreira. Nada que lembre sua estréia nas telas como a adolescente de Para Viver um Grande Amor, de 1984, em que contracenava com o cantor Djavan. O filme era um desastre, mas ela atraiu a atenção dos olheiros da Rede Globo, que logo lhe ofereceram um lugar em Roque Santeiro. E foi na TV que ela se firmou, em novelas como Rainha da Sucata, Salomé e, finalmente, Renascer.

Patrícia está vibrando com a indicação para o Oscar de O Quatrilho, mas, assim como Glória Pires, com quem contracena no filme, nem pensa em tentar um lugar ao sol em Hollywood, como fez Sônia Braga, a 'louca varrida'. O que não significa que seu próximo projeto seja despretensioso. Ela vai viver nas telas Olga Benário, a mulher alemã do líder comunista Luís Carlos Prestes, que foi deportada para a Alemanha nazista, grávida, pelo governo Vargas, e posteriormente morta num campo de concentração. O filme é baseado na biografia de Olga feita pelo escritor Fernando Morais e será dirigido por Sérgio Toledo. 'O brasileiro quer de novo se enxergar no cinema, e não apenas na televisão', diz Patrícia. Para os que gostam de novela, nenhum risco de perdê-la de vista. Ela já tem posto garantido em O Rei do Gado, de Benedito Ruy Barbosa, uma das próximas atrações da Globo.

Patrícia não gosta de falar de sua vida pessoal, mas sabe-se que está em fase de coração alado, depois de um longo casamento com o músico Zé Renato, do grupo Boca Livre. No final do ano passado, surgiu o boato de que estaria namorando o ex-governador do Ceará Ciro Gomes e teria sido o pivô da separação de Gomes de sua mulher. Ela garante que é tudo fofoca.

Como são escolhidos os vencedores do Oscar

Hollywood é uma indústria movida a dólar e vaidade, e uma indicação para o Oscar garante ao felizardo uma injeção extra de ambos. Calcula-se que um filme, ao ser apontado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas como um dos cinco melhores do ano anterior, atraia 20% mais espectadores aos cinemas e 50% mais às locadoras de vídeo. Isso apenas nos Estados Unidos. No mercado externo, cada vez mais importante para a indústria do cinema, esses números são, respectivamente, 50% e 100%. No caso de o filme ser contemplado com a estatueta, todas essas cifras dobram de tamanho - da mesma forma que o cachê e o ego do ator ou diretor premiado. Mas, afinal, como são feitas as indicações e que critérios são usados para escolher os vencedores? Nem sempre é fácil responder a essas perguntas - freqüentemente, a academia é a primeira a quebrar as regras que ela própria inventa. Mas pode-se estabelecer a trajetória básica das premiações.

A Academia de Hollywood, apelido dessa espécie de sindicato dos poderosos do cinema, é formada por 4 650 membros. Todos eles receberam na vida pelo menos uma indicação ao Oscar - pré-requisito único e indispensável para a filiação automática aos quadros da entidade. Assim, ela mistura celebridades como o ator Arnold Schwarzenegger e o músico Elton John a técnicos em efeitos visuais ou sonoros dos quais só se ouve falar nas noites de premiação. O colégio eleitoral do Oscar é formado pelo conjunto dos membros, mas nem todos votam em todas as categorias. Para o melhor filme do ano, todos podem votar. A partir daí, os grupos se dividem: 1 340 atores e atrizes votam para os melhores nessas categorias, 383 roteiristas para o melhor roteiro e assim por diante. O Brasil está representado pelo diretor Hector Babenco, cineasta argentino de nascimento que vive no Brasil - em 1986, seu filme O Beijo da Mulher Aranha, com Sônia Braga no elenco, foi indicado nas categorias de melhor filme, diretor, roteiro adaptado e ator (William Hurt levou a estatueta).

Na categoria de melhor filme estrangeiro, que neste ano inclui o brasileiro O Quatrilho, votam 143 membros da academia - entre estrangeiros já premiados em categorias diversas ou americanos que apreciam produções de paladar exótico. Normalmente, destinam-se a essa categoria os filmes falados em outro idioma que não o inglês e cujos créditos não incluam diretores, produtores ou roteiristas americanos. Os próprios membros da academia, porém, acham que as regras existem para ser quebradas. Neste ano, causou espanto a indicação para melhor filme de O Carteiro e o Poeta, uma produção ítalo-franco-belga, dirigida pelo inglês nascido na Índia Michael Radford e falada em italiano. A distribuidora independente Miramax - a mesma de Pulp Fiction - promoveu uma maciça caitituagem do filme em Hollywood, valendo-se até de uma arma sentimental: o ator Massimo Troisi, que faz o papel do carteiro, morreu dormindo, um dia depois de completar as filmagens. O filme faturou também uma indicação póstuma de melhor ator para Troisi, a primeira desde 1984, quando Ralph Richardson foi premiado, depois de morto, pelo filme Greystoke - A Lenda de Tarzan. Hollywood se entusiasmou pela história do carteiro e abriu uma rara exceção. Na história do Oscar, apenas duas produções em língua estrangeira foram indicadas para a categoria de melhor filme: Z, do grego Costa-Gavras (em 1969), e Gritos e Sussurros, do sueco Ingmar Bergman (em 1973). No Oscar deste ano, O Poeta e o Carteiro concorre com Apollo 13, a aventura espacial estrelada por Tom Hanks, Razão e Sensibilidade, badaladíssima adaptação para as telas do romance homônimo da escritora inglesa Jane Austen, Coração Valente, tolice épica protagonizada por Mel Gibson, e a aventura infantil Babe - O Porquinho Atrapalhado.

Teoricamente, os filmes em idioma estrangeiro podem também gerar indicações para melhor ator, atriz e diretor. Para isso, a academia exige que tenham sido exibidos comercialmente em Los Angeles e permanecido em cartaz pelo menos uma semana durante o ano anterior. Na prática, dificilmente Hollywood abre mão de festejar seus próprios nomes nessas categorias. Para se ter uma idéia, Sophia Loren foi a única atriz de um filme estrangeiro - Duas Mulheres, exibido há 35 anos - a ganhar um Oscar. Entre os atores, nenhum conseguiu esse feito até hoje.


 
  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |