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  VEJA 21/1/1970
A Caminho do Comunismo?

A Bolívia mudou de rumo três meses atrás, com o golpe que levou ao poder o general Ovando Candia, e agora parece caminhar claramente para a esquerda, com o aval dos militares como o general Juan José Torres, comandante das Forças Armadas. Nosso enviado especial Pedro Cavalcanti relata aqui o que é a "Nova Bolívia"

O antigo prédio da Aramayo Mines, que numa tarde de revolução o povo de La Paz invadiu e transformou na sede do Ministério das Minas e Energia da Bolívia, volta hoje, dezoito anos mais tarde, a viver as mesmas horas de febre e exaltação. Todas as manhãs, desde as 7 horas, a paixão das discussões políticas vagueia pelas escadarias e corredores. E entre todos que discutem, desde o contínuo e a secretária que faz poesias revolucionárias até os antigos políticos da oposição e professores universitários que assessoram o ministro, a informação é a mesma: "Isso não é oficial, claro, mas posso lhe garantir que dentro de mais dois ou três meses nós nacionalizamos tudo".

A onda de esquerdismo que envolve hoje a Bolívia nasceu oficialmente há pouco mais de cem dias, quando o general Alfredo Ovando Candia tomou o poder para uma "revolução nacionalista de esquerda". Mas, à medida que o tempo passa, o centro de interesse parece se deslocar da Casa Quemada, o palácio presidencial, em direção ao Ministério das Minas. Especialmente ao gabinete no segundo andar, onde o visitante, ouvindo os planos revolucionários do ministro, desvia a vista sem querer para as cortinas Vermelhas do Hotel Copacabana, no outro lado da rua, onde Che Guevara viveu dois meses com nome falso. Pois Marcelo Quiroga Santa Cruz, ministro das Minas e Energia, juntamente com Alberto Bailey, de Informações, e Mercado Ortiz, do Planejamento, representam hoje a ala mais à esquerda e, temporariamente pelo menos, mais forte do governo boliviano.

Foi por influência direta desse grupo de homens que o general Ovando Candia nacionalizou a Bolivian Gulf Oil Company, reabrindo violentamente a guerra contra as companhias de petróleo iniciada pelo general Alvarado no Peru. E é deles igualmente que emana a corrente de esquerdismo que vai ligando todos os meios oficiais de La Paz. Com amplo controle sobre a administração pública - Quiroga dirige sozinho toda a máquina burocrática ligada à administração das minas - e apoiados por um dispositivo militar presente em todos os quartéis, os ministros jovens parecem dirigir as ações do próprio general Ovando Candia na escolha dos destinos da Bolívia.

Caminhos insólitos - Há um ano, nada disso parecia possível. Quiroga Santa Cruz, descendente do marechal de Santa Cruz e filho do gerente-geral da Patiño Mines, estava na cadeia, em companhia do professor universitário Mercado Ortiz. A acusação contra ambos era a de terem usado seu mandato parlamentar para dirigir insultos à pessoa do presidente da República, general René Barrrientas Ortuño. Na cadeia, Quiroga recebeu a notícia da morte do pai e esperou pela libertação até o dia em que um desastre de helicóptero tirou a vida do presidente Barrientos e mudou o rumo político da Bolívia. Durante esse mesmo tempo, o ex-seminarista Alberto Bailey, hoje ministro de Informações e Turismo, escrevia artigos incendiários sobre a situação dos mineiros e percorria os subúrbios pobres de La Paz com seus companheiros do movimento social Ação Popular. No setor militar, o grupo formado por esses três ministros se completa com o coronel Juan Ayoroa, que, de todos eles, é o que tem talvez maiores razões sentimentais para ser nacionalista: durante a guerra do Chaco, na década de 30, seu pai, coronel José Ayoroa, fez uma declaração acusando companhias petrolíferas estrangeiras de terem provocado o conflito entre Bolívia e Paraguai e logo depois morreu misteriosamente envenenado por bicloreto de mercúrio num banquete oficial.

Como esses jovens políticos da oposição entraram em contato com o general Ovando Candia (na época comandante-chefe das Forças Armadas), para a organização do movimento militar boliviano, é coisa que resta esclarecer. "A revolução", lembrou sorrindo na semana passada o ministro Quiroga Santa Cruz, "tem caminhos insólitos."

Ponto de apoio - Além de insólitos, os caminhos das revoluções bolivianas costumam freqüentemente fazer voltas em marcha à ré, quando não desembocam inesperadamente num novo golpe de estado. Atualmente, no entanto, esses acidentes parecem pouco prováveis. Oscar Peña, diretor da Rádio Altiplano de La Paz - um dos locais onde os rumores e proclamações de golpes chegam tradicionalmente em primeira mão -, tem atravessado dias relativamente tranqüilos. Algumas vezes, como foi o caso do major Marcos Vasquez Sempertegui, no ano passado, o líder da conspiração chega a usar os microfones da emissora para seus chamados revolucionários. Outras vezes - caso do general Barrientos - é o próprio presidente que prefere evitar surpresas desagradáveis, mandando instalar um obus no teto do Ministério da Agricultura, exatamente em frente à rádio, do outro lado da rua.

Oscar Peña acha que no momento a situação do governo é estável e a força dos jovens ministros esquerdistas está em ascensão constante desde a nacionalização da Bolivian Gulf Oil Company. Como era de esperar, os setores descontentes, chegados às minas de tamanho médio - setor econômico de importância considerável -, gostariam de ver o fim do governo de Ovando Candia, mas os chefes militares capazes de chefiar um golpe foram asilados ou estão confinados em embaixadas bolivianas no estrangeiro. Além disso, o comando-chefe das tropas está nas mãos do general Juan José Torres, velho amigo pessoal de Ovando Candia, avalista dos ministros de esquerda e autor de alguns dos discursos mais radicais do governo atual. "Concluída a batalha das guerrilhas e enterrados os mortos", afirmou ele na sua última mensagem às Forças Armadas, "a Bolívia foi novamente relegada a uma zona de esquecimento pelas potências que regem os destinos do mundo ocidental. Mas os oficiais jovens que assistiram ao desenlace dramático das guerrilhas despertaram para uma realidade que já não podiam mais aceitar. Havia no ar uma espécie de amarga decepção, complicada pela dúvida sobre a correção da atitude que eles tinham tomado durante o drama. Foi então que, de todos os quartéis, das guarnições de fronteiras e dos fortins das selvas, começou a brotar a chama da rebelião".

Sonhos - Com essa espécie de simpatia mal disfarçada pelas guerrilhas, o general Torres apenas reforça o tom adotado pelo próprio presidente Ovando em quase todos os seus pronunciamentos sobre o assunto. Numa entrevista recente, Ovando afirma, por exemplo, que "tanto os guerrilheiros quanto as Forças Armadas lutavam pela melhoria da situação da pátria e o choque talvez pudesse ter sido evitado". Já o ministro Quiroga Santa Cruz muda o tom, mas conserva música. Para ele, as guerrilhas poderiam ser evitadas porque "vieram atrapalhar todo o processo de revolução na Bolívia: o povo ficou fascinado pela personalidade dos guerrilheiros, esquecendo-se completamente de seus verdadeiros problemas". Quiroga expõe sua tática: "Os trabalhadores acabaram desprezando seus sindicatos e os estudantes e intelectuais pararam de pensar nos verdadeiros problemas da revolução. Enquanto o povo sonhava com guerrilhas, a Gulf levava nosso petróleo". Por uma curiosa manobra do espírito nacionalista atual, a imagem do "inimigo da pátria", representada pela guerrilha no governo anterior, foi agora substituída pelas companhias estrangeiras e, naturalmente, pelos espiões da CIA. No começo eram apenas denúncias de estudantes e jornais da oposição, como o caso de quarenta porto-riquenhos misteriosos que teriam desembarcado em La Paz, sob cobertura da embaixada dos Estados Unidos. Logo depois, no entanto, o governo expulsou do país uma organização internacional de origem americana, que se dedica oficialmente a promover o desenvolvimento do país. E até o próprio embaixador dos Estados Unidos, Ernest Victor Siracusa, passou a ser acusado abertamente de ser uma espécie de "manager" da CIA no altiplano, especialista em assuntos internos de países subdesenvolvidos, especialmente latino-americanos.

Terremoto - Essa acusação tinha uma importância secundária até a semana passada, quando o general Ovando Candia, alegando uma reunião de gabinete, se recusou a receber a visita do embaixador. E, hoje, já não é possível esconder o mal-estar evidente entre os dois países. Um dos fatores desse afastamento foi um relatório secreto, escrito por Pat Holt, assessor da Comissão de Relações Exteriores do Congresso americano, e divulgado por engano, no qual o general Ovando Candia era classificado de "oportunista político sem princípios ideológicos ou políticos". Mas a honestidade diplomática tem alcance mais longo. Se nos primeiros dias do governo Ovando anunciou a formação de uma confederação ideológica com o Peru, sua política evoluiu até chegar a admitir, na semana passada, a criação de uma frente comum que, além de Bolívia e Peru, englobaria Cuba, dentro da "mesma luta contra o imperialismo". Por enquanto essa frente não passa de hipótese exclusiva do general Ovando e é impossível prever o terremoto que viria a sacudir as relações interamericanas caso a proposta fosse aceita por Fidel Castro.

Vulnerável - Todos esses acontecimentos são acompanhados pela imprensa de La Paz, que na sua maioria apóia o governo com o mesmo fervor com que acompanharia as batalhas de uma guerra convencional. Internamente, o principal alvo dos ataques é o ex-presidente, general René Barrientos, personagem que depois de morto passou a simbolizar os setores do Exército que se opõem à marcha para o nacionalismo socialista. Para a felicidade dos políticos do dia, a vida de Barrientos - curiosa mistura de aventureiro e político - está longe de ser invulnerável às críticas. Como o vice-presidente Cao Ky, do Vietnã do Sul, Barrientos confundia o país com um aeroporto. Em cada povoado, ele tirava do bolso do blusão de aviador quantias enormes de dinheiro que distribuía entre os camponeses. Oficialmente, o dinheiro provinha de admiradores anônimos, mas a oposição prefere acreditar em contribuições mais ou menos forçadas de companhias estrangeiras, funcionários da Alfândega e fabricantes de cocaína. Depois da sua morte descobriu-se que sua fortuna pessoal era imensamente maior do que se calculava. A cada nova edição, os jornais nacionalistas apresentam uma relação maior de imóveis, aviões particulares e carros de luxo. O fato de que um de seus maiores colaboradores tenha sido precisamente o general Ovando Candia, no entanto, parece estar inteiramente esquecido. (Desde 1964, quando os dois organizaram o golpe de estado que derrubou o presidente Paz Estensorro, até a morte de Barrientos, ambos dividiram o poder, um na presidência e outro no comando-chefe das Forças Armadas).

Último núcleo - A oposição ao atual governo conta igualmente com uma parte da imprensa, mas sua atuação é muito mais discreta. Comentando o filme Morrer em Madri, sobre a Guerra Civil, em La Paz, o editorialista de EI Diario discorre longamente sobre o perigo de uma Espanha comunista, enquanto, páginas adiante, um artigo econômico aponta todas as vantagens que o país perdeu por ter nacionalizado as minas de estanho em 1952. Bastaram essas críticas indiretas para que o proprietário do jornal fosse apresentado em caricatura nos panfletos colados aos muros de La Paz, como um buldogue preso por uma coleira às mãos da Bolivian Gulf Oil Company. Além disso, o jornal Octubre, feito por um grupo de intelectuais, passou a acusar a direção de EI Diario de não ter pago impostos desde 1957. Excluindo-se o Exército e a imprensa, a única oposição à escalada das esquerdas na Bolívia poderia ser encontrada nos partidos políticos. Acontece, no entanto, que as organizações políticas tradicionais ou aderiram ao governo, ou mergulharam na mais completa desorganização. A única exceção é o setor do MNR, que permanece fiel ao ex-presidente Paz Estenssoro, no seu exílio em Lima, e constitui praticamente o último núcleo de oposição ao general Ovando. Esse núcleo, no entanto, pode ser mais forte e mais perigoso do que se pensa. Paz Estenssoro, o homem que nacionalizou o estanho em 1952, ainda não foi esquecido nas minas e as minas estão no próprio coração contraditório da política boliviana.

Estátua do diabo - A mais de 4 500 metros de altitude, varrido dia e noite pelo vento gelado dos Andes, está o acampamento mineiro Siglo XX, o maior da Bolívia, com seus 4 450 operários. Um túnel de 2,5 quilômetros penetra horizontalmente até uma estação central de onde saem as "jaulas", elevadores primitivos que sobem até 100 metros, parando em três níveis diferentes, cada um com sua rede própria de galerias. No fundo das galerias do segundo nível há uma espécie de caverna onde os mineiros se protegem durante as explosões. Nessa caverna - diante da tradicional estátua do diabo que segura um vidro de aguardente numa mão e uma banana de dinamite na outra -, um grupo de mineiros tentou explicar suas idéias políticas ao nosso enviado especial. "Aqui dentro, a morte está sempre presente, seja por explosão acidental, por desmoronamento de galeria ou pelo pó, que mata mais lentamente. Quando chega uma revolução, a gente não nota muito a diferença". Na verdade, os mineiros participaram de muitas revoluções. Mais freqüentes do que as revoluções, no entanto, foram os massacres: em 1942, quando a Siglo XX pertencia ainda ao magnata Simón Patiño, os mineiros tentaram uma manifestação e foram baleados. Em represália, os operários prenderam alguns dirigentes da empresa como reféns, providência que se revelou de escasso valor prático: todos foram bombardeados pela aviação, tanques e artilharia. Quando o Exército conseguiu entrar, o banho de sangue durou três dias. Logo depois, a mina foi nacionalizada, mas os massacres não acabaram: na noite de São João de 1967, o trem que sai todos os dias com minério da Siglo XX voltou de madrugada com tropas do Exército. Morreram trinta pessoas. Na época, o comandante-chefe das Forças Armadas era o atual presidente Ovando Candia. Mas os sindicatos dão seu apoio político a cada homem de acordo com os dados concretos do momento, e no momento atual a política de Ovando Candia favorece os mineiros. Em primeiro lugar, os sindicatos foram reabertos e as forças do Exército que ocupavam as minas desde 1967 foram retiradas. Robert Camargo, 39 anos de idade e 25 de minas, secretário-geral do sindicato de Cataví - a instalação anexa a Siglo XX que trata o minério de estanho saído da mina -, passeia animadamente por entre os destroços da emissora de rádio do sindicato, destruída a coronhadas em 1967. "O governo já prometeu uma instalação nova. Mas, no momento, nossa principal reivindicação é a melhoria dos serviços de aposentadoria, porque nossa vida é muito dura e muito curta".

Explosões súbitas - Trinta anos, dizem as estatísticas citadas até pelos ministros do atual governo. E, nesse caso, é bastante fácil verificar que as estatísticas não mentem: basta assistir à saída dos mineiros depois de um turno de oito horas de trabalho. Pouco antes das 3 da tarde, as luzes dos capacetes começam a aparecer no fundo do corredor. Lentamente, durante longos minutos, vão-se aproximando: os mineiros andam devagar, para se habituarem à claridade, mas, ao saírem, a luz do dia ainda os ofusca. Todos vêm igualmente cobertos do pó cinzento do minério de estanho, mas é fácil notar entre os mais cansados, pelo olhar brilhante e pele seca agarrada às maçãs do rosto, os sintomas da silicose. A silicose atinge praticamente todos os mineiros e não tem cura. O tempo que leva para inutilizar um homem varia desde vinte anos para os mais resistentes até seis meses para os mais fracos ou os que têm o azar de trabalhar numa galeria de rocha silicosa. Declarada a doença, o estado oferece uma pensão parcial, mas, como ela é insuficiente para o sustento da família, que tem em média oito pessoas, a maioria dos mineiros permanece em serviço até a incapacidade completa. Os últimos dias são passados no hospital da empresa até que sobrevenha a morte por asfixia. Com tudo isso, e ao contrário do que se imagina, o mineiro boliviano não é um homem embrutecido nem permanentemente triste. É apenas reservado, silencioso e sujeito a súbitas explosões de violência, principalmente na política. Em tempos de calma, suas crianças vão à escola e, apesar do salário baixo - 4 cruzeiros novos por dia -, ele consegue na cooperativa da empresa estatal uma quantidade determinada de carne, arroz, pão e café a preços fictícios, que lhe permite levar a vida.

Frutos - Qual a penetração do atual governo nas minas de estanho, centro nervoso do país e responsável por 80% de suas rendas? O esquerdismo oficial de La Paz, ao que parece, não terá dificuldades de se instalar na escuridão dos poços da Siglo XX, assim como não teve para se infiltrar na administração do país. "O general Ovando parece que está disposto a tudo para conseguir o perdão dos mineiros", diz o diretor da rádio católica Pio XII, um padre francês muito magro e muito moço, que não esconde suas posições de esquerda no acampamento das minas. Resta saber que frutos trará o "socialismo boliviano" depois de aceito pelos mineiros. Com simples intenções, até agora, a política boliviana nunca conseguiu encontrar o rumo que seus líderes imaginaram. Em 1952, um ano antes que Fidel Castro iniciasse sua campanha atacando o quartel de Moncada em Havana, o clima na Bolívia, tanto ou mais do que hoje em dia, se parecia com o de uma revolução nacionalista de esquerda. Numa cerimônia solene, festejada com rajadas de metralhadora e explosões de dinamite, o presidente Paz Estenssoro assinou o decreto que incorporava ao patrimônio nacional as empresas de mineração dos magnatas Patiño, Hoschild e Aramayo. "Fecha-se aqui e agora", declarou um líder sindical, "a última noite do imperialismo americano". Onze meses mais tarde, no entanto, o próprio Víctor Paz Estenssoro entregava ao embaixador americano em La Paz uma carta onde solicitava "alimentos e outros artigos essenciais para o povo da Bolívia, porque a ameaça da fome desce sobre os bolivianos". Se a revolução de Estenssoro foi um fiasco econômico, a revolução de Ovando e seus ministros socialistas encontra a Bolívia, em melhores condições de sobrevivência. Hoje os preços do estanho são mais estáveis e o mercado, eventualmente, pode ser oferecido pelos países socialistas. (Embora nada haja de concreto no momento, a discreta, movimentação de funcionários russos e húngaros em La Paz pode ser o sintoma de futuros acordos.) Além disso, a Bolívia já tomou algumas providências defensivas. Diversificou sua economia, aumentando a produção de bismuto, zinco, prata e chumbo, e iniciou a construção de uma refinaria de estanho dentro do próprio país. Se a diversificação é uma manobra secundária, a refinaria, que deve entrar em funcionamento ainda este ano, é uma arma excelente nas guerras do comércio internacional.

Má vontade - O comércio internacional, no entanto, tem algumas dificuldades inesperadas. Enquanto os reservatórios da Bolívia estão lotados de petróleo sem mercado, o Uruguai se abastece no Oriente Médio e o Brasil na União Soviética. Economicamente, a questão do petróleo boliviano pode ser secundária, como afirmam os ministros do general Ovando, mas politicamente sua importância é decisiva. Isso se nota, aliás, com muito mais força em La Paz do que em Santa Cruz de Ia Sierra, centro da região petrolífera. Ao contrário da capital e dos acampamentos mineiros, nos Andes, Santa Cruz de Ia Sierra, em plena planície amazônica, parece ignorar as paixões políticas. Enquanto em La Paz quase não se pode encontrar uma parede sem cartazes e inscrições contra a Gulf, em Santa Cruz, cidade onde a companhia estava estabelecida, mal se consegue encontrar duas ou três frases pintadas de má vontade nas paredes da universidade. Santa Cruz de Ia Sierra é uma cidade rica. Depois da abertura das estradas até Cochabamba, de um lado, e Corumbá, no Brasil, de outro, o número de habitantes saltou de 40 000 para 130 000. Pergunta-se sobre petróleo e ouve-se falar em exportações de arroz, madeira e algodão. A falta de paixão chega a tal ponto, que muitos funcionários da empresa estatal - Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos, YPFB - admitem que a Gulf ajudou o desenvolvimento da cidade. Os problemas trabalhistas da nacionalização foram secundários: os 170 empregados da Gulf, exceção dos quarenta técnicos americanos, passaram simplesmente a trabalhar para a empresa estatal ganhando os mesmos salários de sempre, cinco vezes superiores aos de um mineiro. E as firmas especializadas que trabalhavam para Gulf, a Parker Driling (americana) e Matprol (boliviana) passaram seus contratos para a YPFB. De certa forma, Santa Cruz de Ia Sierra resolveu seus problemas econômicos e políticos da forma como todo o resto do país sempre sonhou resolver.

Três meses - No resto da Bolívia, entretanto, a eterna frustração do sonho de realização nacional começa a criar um clima perigoso: os bolivianos parecem tentados a seguir qualquer caminho para transformá-Io em realidade. La Paz, atualmente, dá a nítida impressão de que o povo vai perdendo a paciência: ainda está disposto a seguir seus governantes no que for necessário, mas decidido a condená-Ios ao primeiro sinal de marasmo, ou relaxamento. Hoje, o povo encontrou novamente um grupo de homens decididos a quebrar a rotina. E, na Bolívia, quebrar a rotina, em qualquer direção, parece ser um elemento essencial para a obtenção de apoio popular. Mas até onde essa rotina será quebrada? "Os próximos três meses serão decisivos para a revolução boliviana", revelou na semana passada o ministro Quiroga Santa Cruz ao nosso enviado especial. Sem dúvida, mas em que pensava ele? No preço do estanho? Na abertura de mercados junto à União Soviética? Na nacionalização de todas as empresas estrangeiras? Ou em Cuba? Na cidade de La Paz, o único homem que se recusa a ter opiniões políticas locais é o porta-voz da embaixada americana. "Esperemos", diz ele. "A Bolívia é um país curioso".

 
   
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