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de outubro de 1996A explosão Revolta
palestina contra A senhora palestina saiu da mesquita de Al-Aksa, no coração de Jerusalém, na sexta-feira, e parou, assustada com a enorme concentração de policiais israelenses à espera dos fiéis muçulmanos. 'Netanyahu maj’noun!', espantou-se -'Netanyahu está louco!'. No final da semana em que os palestinos se revoltaram contra as repetidas provocações feitas pelo governo linha-dura de Israel e a polícia palestina enfrentou o Exército israelense num confronto sangrento, com mais de sessenta mortos e de 1 000 feridos, não era difícil acreditar, no nível das impressões populares, que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu estava realmente maj’noun. Movido pela cega obstinação de rever as regras do jogo herdadas do governo
anterior, em apenas 100 dias ele implodiu sistematicamente o já complicadíssimo
processo de acomodação entre judeus e palestinos, que seus antecessores levaram
seis anos para construir. A gota d’água foi a decisão de reabrir sorrateiramente
um túnel arqueológico que passa perto das duas mesquitas veneradas pelos muçulmanos,
na parte antiga de Jerusalém. Diante da rebelião popular detonada por essa decisão
insensata e arrogante, Netanyahu demonstrou o distanciamento da realidade que
se espera encontrar em quem mergulhou na condição de maj’noun, mas jamais na de
primeiro-ministro de um país à beira de ser engolfado numa situação de guerra. Aos apelos do resto
do mundo, onde se multiplicavam os sinais de alarme - Alemanha, França e Inglaterra
fizeram uma declaração conjunta sem precedentes, implorando a pacificação dos
ânimos -, Netanyahu respondeu mandando reprimir qualquer manifestação na área
das mesquitas em Jerusalém. Recebida com pedradas, a polícia matou três palestinos
e feriu mais de cinqüenta. No meio da multidão, o repórter Daniel Blumenthal,
colaborador de VEJA, sentiu de perto a impotência das pessoas pegas no fogo cruzado
da repressão indiscriminada. 'A polícia bloqueou o portão de Nablus, na muralha
norte, e só deixava passar as ambulâncias para buscar os feridos', conta.
'Eram sete. Cada uma delas fez pelo menos dez viagens até o hospital
Al-Mukased.' No meio da confusão, um detalhe quase surrealista: um ursinho
de pelúcia, jogado no chão que já se cobria de trilhas de sangue. O banho de sangue começou de maneira quase habitual.
Palestinos fazem manifestações, jogam pedras, tocam fogo em pneus velhos. Policiais
e soldados israelenses respondem com balas de borracha e cassetetes (o ministro
das Finanças, Mohamed Nashashibi, levou umas pancadas, o elegante Faisal Husseini,
representante da OLP em Jerusalém, baixou no hospital). O confronto permanecia
dentro do figurino da intifada, a revolta palestina movida a pedradas e encerrada
com os acordos de paz, em 1993. Então, a situação fugiu ao padrão. 'Um membro
da Força 17 (a tropa de elite de Arafat) viu um civil cair ensangüentado a seus
pés', contou Khaled Matur, um estudante palestino ferido a bala no ombro.
'Ele perdeu o controle e abriu fogo. Logo todo mundo, palestinos e israelenses,
estava atirando indiscriminadamente.' Um incidente bizarro na cidade de Nablus ilustra o paradoxo da batalha entre dois signatários de um tratado de paz, mas que não chegam a um acordo de convivência pacífica. Num embate humilhante para o poderoso Exército do Estado judeu, um pelotão inteiro de 42 soldados israelenses viu-se cercado pela multidão de manifestantes e precisou do socorro da polícia palestina para se safar com vida. Os soldados faziam a guarda de uma antiga mesquita, que muitos judeus acreditam ser o túmulo de José, o personagem bíblico. O edifício murado, usado como centro de estudos por judeus religiosos, é o único enclave israelense na cidade sob controle palestino. A tropa enviada para resgatar a guarnição também foi cercada e abandonou seus veículos para se refugiar no prédio, logo invadido e ocupado pela polícia palestina. A televisão mostrou policiais gritando em hebraico 'não tenham medo' para os israelenses cercados. Os palestinos também forneceram água, comida e até telefones celulares para que os soldados pudessem ligar para casa. No final do dia, a polícia palestina escoltou os soldados feridos
até o território israelense e emprestou ambulância para levar os corpos de
seis militares mortos. Símbolo da vitória, a bandeira palestina foi hasteada na
torre de vigia em lugar da costumeira Estrela de Davi. A gravidade do confronto
em Nablus não se mede apenas pelo número de baixas israelenses, mas pelo ataque
a um lugar santo judaico. A analogia inevitável é com Hebron, onde 400 colonos,
todos fanáticos religiosos, vivem junto a outro santuário, o Túmulo dos Patriarcas,
no meio de 120 000 palestinos. Netanyahu diz que não retira as tropas porque ficaria
difícil proteger os colonos. O episódio de Nablus demonstra que manter um pequeno
enclave numa cidade palestina é um risco ainda maior. Só no
dia seguinte a polícia palestina voltou a acatar as ordens de Arafat - talvez
por isso mesmo o número de mortos na sexta-feira caiu para sete palestinos e três
israelenses. A força policial de 40 000 homens, a maioria ex-guerrilheiros repatriados
dois anos atrás, quando a Autonomia foi estabelecida, é a espinha dorsal
do poder de Yasser Arafat. Na semana passada, foi praticamente a primeira vez
que dispararam em defesa da população palestina - até então, vinham se especializando
na repressão interna, exigida por Israel e pelos Estados Unidos para controlar
o terrorismo dos fundamentalistas muçulmanos. A ação da polícia, com o conseqüente
aumento de vítimas entre os palestinos, reavivou o orgulho nacional e, ironicamente,
deu mais algum fôlego a Arafat. A convocação aos protestos de quinta-feira foi
feita na base da frente ampla, assinada por todas as vertentes palestinas, desde
a Fatah até os radicais do Hamas. Quando Netanyahu foi eleito, os otimistas
achavam que ele poderia 'ver a luz', como não é incomum acontecer
com durões colocados diante das realidades do poder. Se o intransigente Menachem
Begin assinou a paz com o Egito, Bibi, moderno, com muitos anos de vida nos Estados
Unidos e conhecimento das técnicas de marketing, também poderia render-se à lógica
da paz (as alternativas são eliminar os palestinos ou conviver eternamente com
a ocupação e o domínio de uma população inimiga). Netanyahu foi uma decepção para
os otimistas. Ele abandonou, na prática, o conceito de trocar terra por paz, que
norteou a política dos governos trabalhistas e permitiu arrancar dos palestinos
um acordo miserável - mas o único que conseguiram. Eleito com a promessa de oferecer
'Paz com segurança', sua intransigência e falta de habilidade conduziram
à situação que se via ao fim da semana: Israel não tinha uma coisa nem outra.
As negociações de paz com a Síria foram não apenas interrompidas como agora ambos os países estão concentrando tropas nas fronteiras. O Catar desistiu de enviar representante para Tel-Aviv. O rei Hassan, do Marrocos, que se entendia bem com Shimon Peres, suspendeu os contatos. Até a Jordânia, paparicada pelos israelenses e interessada em manter um bom relacionamento, cancelou uma visita do príncipe Hassan, irmão do rei Hussein. Também nesse caso o primeiro-ministro israelense não consegue entender por que sua política em relação aos palestinos irrita tanto os vizinhos árabes. Se não é loucura clínica, é um caso extremo de insanidade política. Maj’noun, com certeza.
Uma obra feita na calada da noite, sob forte proteção policial, no coração histórico da cidade que dois povos inimigos disputam como sua capital, não poderia mesmo dar certo. O túnel que provocou a explosão de revolta entre os palestinos existe há mais de 2 000 anos na parte antiga de Jerusalém e tem interesse arqueológico. Ao longo de seus 488 metros, há marcas das inúmeras civilizações que já passaram por Jerusalém: um aqueduto construído pelos macabeus há quarenta séculos, uma rua romana, uma pedra do alicerce do Muro das Lamentações, uma piscina bizantina e vestígios da época da dominação árabe e das cruzadas cristãs. O que interessa, no entanto, está acima da superfície: a 400 metros do túnel, erguem-se as magníficas mesquitas de Al-Aksa e de Omar, particularmente veneradas pelos muçulmanos. A mesquita redonda de Omar circunda a rocha bruta de onde, segundo a crença islâmica, o profeta Maomé ascendeu aos céus. A alegação, feita pelos palestinos,
de que a ampliação do túnel abalaria as fundações da mesquita pode parecer paranóia.
E é - o mais insano dos governos israelenses não cogitaria cometer tal sacrilégio.
Mas até a paranóia tem seu lado compreensível quando se lembra que fanáticos
judeus chegaram a planejar um atentado com explosivos para detonar a mesquita
inteira, a pretexto de reconstruir em seu lugar o templo judaico destruído pelos
romanos. (Os terroristas foram presos antes de levar a conspiração adiante, julgados,
condenados e, mais tarde, anistiados.)
O confronto entre o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e os árabes começou no dia 1 do seu governo. Os incidentes sucederam-se numa escalada, até a grande explosão: • Logo que assumiu, em junho, Netanyahu exigiu mais garantias para os judeus fanáticos que vivem num bunker em Hebron, cidade que deveria passar à administração palestina. As tropas israelenses continuam lá, no desafio mais flagrante aos acordos de paz. • A angústia foi crescendo com a revogação da proibição de novas colônias na Cisjordânia ocupada. Aumentou o ritmo de construção de estradas exclusivas para os colonos judeus. Dezenas de milhares de palestinos continuaram proibidos de entrar em Israel para trabalhar. • Só três meses depois da posse Netanyahu encontrou-se com o líder palestino Yasser Arafat. Um encontro gelado. Depois da reunião, o primeiro-ministro disse que os palestinos jamais teriam um Estado próprio. • O anúncio do plano de construir 3 800 casas para colonos na Cisjordânia levou Arafat a convocar greve geral e manifestações. Israel fechou o acesso ao local do protesto. • Israel pôs abaixo um centro comunitário palestino que, segundo alegou, funcionava sem licença, e uma 'confusão da segurança' forçou o helicóptero de Arafat a vagar por 45 minutos antes de conseguir pousar na Cisjordânia. Aumentou o número de soldados israelenses nas ruas de Jerusalém. • Do lado de fora, os países árabes acompanharam o começo de governo com ansiedade crescente. A Síria grudou um batalhão nas colinas de Golã, que Israel ocupou em 1967 e Netanyahu excluiu totalmente um eventual acordo de paz. No Egito, o tom das críticas atingiu níveis sem precedentes. |
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