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Reportagens 20 de agosto de 1969Correndo para a guerra Russos e chineses
Esta guerra já foi considerada pelos russos e chineses no passado como simples invenção dos "imperialistas" do Ocidente, interessados em sabotar a eterna amizade entre a Rússia soviética e a sua maior aliada, a China Comunista. Mas o curso da história tomou uma direção oposta. As divergências políticas e ideológicas entre Moscou e Pequim agravaram-se de tal maneira na atual década de 60 que os primeiros choques armados entre russos e chineses passaram a ser apenas uma questão de tempo. E, de repente, o tempo chegou. No dia 2 de março deste ano, russos e chineses travaram violenta batalha com morteiros e canhões na ilha Damansky (Chen Pao, em chinês), situada no meio do rio Ussuri, que faz fionteira entre os dois países, deixando 34 mortos e dezenas de feridos só do lado soviético. E na quarta-feira da semana passada ocorreu no outro extremo da fronteira o choque mais violento desde março e, também, o mais misterioso da longa série de incidentes. Os soviéticos acusam grupos militares chineses de terem violado a fronteira a 10 quilômetros a leste da localidade de Ahlanashkol, região de Semipalatinsk, abrindo fogo sobre as patrulhas russas. Os chineses teriam sido repelidos e a luta deixou dois militares chineses prisioneiros e cerca de sessenta baixas, entre mortos e feridos. A versão chinesa é completamente diferente e muito mais detalhada: os soviéticos enviaram dois helicópteros, dezenas de carros de assalto, veículos blindados e várias centenas de soldados, "que cometeram uma invasão no setor de Tiehkuekti, distrito de Yumin, na região autônoma de Sinkiang-Uighur", matando e ferindo grande número de guardas chineses. Além das acusações recíprocas de responsabilidade pelo incidente, o único ponto sobre o qual ambos coincidem inteiramente é que o novo conflito ocorreu no Sinkiang - justamente o ponto mais fraco e vulnerável de toda a defesa chinesa. E os russos sabem disto. Uma das regiões mais ricas da China Comunista, onde Mao Tsé-tung montou seu grande centro de provas nucleares e lançamento de mísseis (Lop Nor), o Território Autônomo do Sinkiang-Uighur (um sexto de toda a superfície chinesa, 1,6 milhão de quilômetros quadrados e 2.400 quilômetros de fronteiras com a Rússia) tornou-se o campo ideal para as investidas de Moscou contra os "rebeldes maoístas". Em nenhum outro lugar, dentro do Oriente, a influência russa e sua civilização de marca européia encontraram tanta facilidade de penetração. Em nenhum outro lugar, dentro da China, os soviéticos encontraram tanta simpatia popular. De fato, embora comandem a região com pulso de ferro, os chineses são minoria por ali: os uighurs e os casaques, muçulmanos de origem turca, fazem 75% dos 6 milhões de habitantes do Sinkiang. Por que tanta disputa? Em primeiro lugar, aquelas terras são riquíssimas em urânio (a matéria-prima das armas atômicas), molibdênio, ferro, carvão e petróleo. E a maior parte de suas reservas minerais ainda não foi explorada. Conhecido na Antiguidade como Hsi Yu, o Sirikian sempre esteve aberto às influências dos czares russos. Mesmo quando Sun Yatsen proclamou a república na China, em 1911, os camponeses uighurs e casaques preferiram se inclinar para o lado de Moscou. Mais ainda: depois da Revolução soviética, os russos conseguiram que os chineses lhes cedessem, por cinqüenta anos, todos os direitos de exploração mineral na região. Finalmente, em 1944, com o apoio ostensivo da Rússia, a população do Sinkiang promoveu uma verdadeira "guerra de libertação" contra os chineses. No entanto, cinco anos depois chegavam os soldados de Mao e as ambições de independência ficaram cada vez menores. De qualquer modo, Pequim não conseguiu até agora ganhar o controle completo do Sinkiang. Como diz a "Literaturnaya Gazeta", a "colonização do território pelos prepostos de Mao continua sendo feita através de métodos excessivamente brutais". As provas: em 29 de maio de 1962, os chineses teriam fuzilado duzentas pessoas que tentavam fugir para o território russo. Os soviéticos, de fato, sempre tentaram influenciar seus partidários no Sinkiang. Um dos recursos mais utilizados são as freqüentes transmissões que a emissora moscovita Paz e Progresso vem fazendo ultimamente: exortam os habitantes não chineses do Sinkiang a não aceitarem a "ditadura de Mao". Outra medida de grande alcance é favorecer ao máximo o ingresso de habitantes da região no vizinho Casaquistão, uma das repúblicas soviéticas. Segundo o comandante chinês do Sinkiang, pelo menos 60.000 famílias chinesas das regiões fronteiriças de Ili e Tacheng já se uniram a seus parentes do lado soviético. Por outro lado, muitos políticos chineses descontentes com Mao também se refugiaram na Rússia, inclusive o General Wang Ming, amigo de Stálin, que foi Secretário do PC chinês na década de 30 e hoje dirige em Moscou o "Partido Comunista Chinês no Exílio". Ele e outros dirigentes secundários que fugiram da China poderiam ser o centro de um movimento conspiratório para a penetração soviética no Sinkiang. Mas os chineses estão se preparando para tudo. Desde os incidentes de março, quando a tensão na fronteira chegou a um clima de guerra iminente, eles colocaram seu Exército Popular de Libertação ao longo de toda a linha de defesa. Das montanhas Tien Shan, que separam o Sinkiang do Casaquistão soviétíco, até o outro extremo da linha, perto da cidade russa de Vladivostok, a Milícia Popular (força auxiliar do Exército, que pode mobilizar milhões de homens) foi convocada para reforçar as tropas regulares. Fábricas foram desmontadas nas grandes cidades e levadas para o interior. O Exército formou corpos de "Produção e Construção" na província chinesa da Mongólia Interior e na região de Heilungkiang, enquanto as forças fronteiriças junto à República da Mongólia (país independente) foram colocadas diretamente sob o comando da Região Militar de Pequim. Além disso, os chineses transferiram quinhentas peças de artilharia pesada, que estavam apontadas contra Formosa, para a fronteira soviética. Quanto à retórica de Pequim, ela é ainda mais frenética que as suas ações: seu povo há muito tempo vem sendo prevenido para "uma grande guerra ou para uma pequena guerra, uma guerra nuclear ou uma guerra convencional". A verdade é que a 18ª Divisão de Infantaria chinesa - sua unidade de elite - já está acantonada, há quatro meses, nas terras geladas da Manchúria, ao norte, onde estão as passagens mais desimpedidas para uma ofensiva: as terras do oeste são desérticas e no sul existe o complexo montanhoso do Himaiaia. Para proteger suas terras, os russos aumentaram substancialmente as 19 tropas de fronteira. Além disso, há quase dois anos nenhum diplomata ou jornalista ocidental consegue visto de entrada na Mongólia Exterior; há dois meses, nenhum estrangeiro recebe autorização para visitar as regiões que fazem fronteira com a China; e há duas semanas nenhum estrangeiro pode viajar pela ferrovia transiberiana que atravessa a URSS de leste a oeste, até a costa do Pacífico. Ainda assim, passando em revista a crônica jornalística da Rússia, peritos em "kremlinologia" puderam estabelecer que, em menos de um ano, aconteceram quase 1.600 choques de fronteira. As origens desses incidentes foram sempre iguais: pastores nômades chineses atravessam inadvertidamente (segundo Pequim) a fronteira e são expulsos a bala pelos soviéticos; de acordo com as versões russas, a atitude constante dos "pastores" faz parte de um programa oficial de provocações. Para evitar que essas provocações continuassem, desde o incidente do rio Ussuri, quase 200.000 soldados do Exército Vermelho foram deslocados para a fronteira. Atualmente, os russos possuem tropas em três frentes: no Casaquistão, 200.000 homens de infantaria; junto à República da Mongólia, 120.000 homens, mais artilharia motorizada e lançadores de mísseis: na Manchúria, outros 250.000 homens da infantaria aerotransportada. além de artilharia motorizada (total: 570.000). Contra eles, existem 765.000 soldados chineses: 90.000 de infantaria em Sinkiang; 275.000 de infantaria na Mongólia Interior, incluindo especialistas em guerra no deserto; 400.000 de infantaria, incluindo artilharia motorizada, junto à Manchúria. Além disso, cinqüenta aeroportos civis, perto da fronteira chinesa, foram transformados em bases militares pelos russos. Dos aeródromo, de Omsk, Tomsk, lrkutsk, Chita, Blagoveshchensk, Kabarovsk, Vladivostok, Ust Kamenogorsk, Alma Ata e Semipalatinsk, decolam seguidamente pesados bombardeiros e caças supersônicos para vôos de reconhecimento sobre a China. E, na República da Mongólia - firme aliada de Moscou -, os soviéticos instalaram mísseis balísticos, que não teriam dificuldades para atingir Lop Nor e destruir o complexo nuclear chinês: trezentos desses foguetes já estariam instalados em condição de fogo imediato. País tão vasto quanto a França e a Grã-Bretanha juntas, "povoado por 1 milhão de pessoas e 23 milhões de animais" (camelos, cabras, cavalos), onde o avião ainda é conhecido como a "máquina que voa", e onde se praticam os mesmos esportes desde a visita de Marco Pólo no século XIII (corrida a cavalo, caça com arco e flecha e luta-livre), a República da Mongólia está em primeiro lugar na lista das ambições territoriais chinesas. "Ela nos pertence por direitos históricos e naturais", afirmou em abril o Ministro da Defesa Lin Piao. O mais provável sucessor de Mao Tsé-tung não reivindicou pouca coisa: "Também deveriam fazer parte da China metade do Kirguize do Turquestão, o Ladakh, o Nepal, o Sikkim, o Butão, Assam, o Kachin Oriental, a Birmânia, a ilha Adaman, a Malásia, Singapura, a Tailândia, o Vietnã do Norte, o Vietnã do Sul, o arquipélago dos Pescadores, Formosa, a ilha japonesa de Ryukyu, a Coréia do Norte, a Coréia do Sul, a Manchúria, a região de Sikhote Alin (no extremo leste da URSS), o porto de Vladivostok, a ilha Sacalina e oitenta ilhas menores". Pouco depois do discurso de Lin Piao, da capital da Mongólia, Ulan Bator, a antiga Urga ("a cidade do guerreiro vermelho"), o Presidente soviético Nikolai Podgorny enviava sua imediata resposta: "Os chineses continuam nos provocando abertamente". Na semana seguinte, as unidades militares que os russos mantêm nas redondezas de Ulan Bator foram reforçadas com um maciço arsenal de mísseis nucleares e toda a fronteira da Mongólia com a China (4.000 km) ganhou guarda dobrada. No plano interno desse país, as preocupações de Moscou e as suas precauções são maiores ainda. Dois anos atrás, o Secretário do PC mongol, Yumshglin Tsedenhal, treinado em Moscou e casado com uma russa, recebeu ordens diretas do Kremlin: expurgar metade dos membros do Comitê Central do Partido, considerados "infiéis", filochineses ou nacionalistas. Entre estes últimos estavam muitos simpatizantes do movimento da Grande Mongólia, cujo sonho é reunir os 3 milhões de mongóis espalhados pela República da Mongólia, pela República Autônoma Soviética do Buriat e pela região da Mongólia Interior que faz parte da China Comunista. Para a União Soviética, o nacionalismo "excessivo" dos mongóis era um perigo grande demais que não podia ser tolerado. Entretanto, os objetivos imediatos do movimento não passavam de modestos. Embora animados pelas conquistas de Gengis Khan - no século XIII, seu império se estendeu de Pequim até as margens do Danúbio -, os mongóís pretenderam apenas a preservação da sua cultura, com a abolição do alfabeto cirílico, imposto pelos russos em 1946, e a sua substituição pelos caracteres mongólicos, uma mistura de sânscrito e tibetano. Nem essa pequena concessão Moscou permitiu. Apesar da influência soviética, foi exatamente com ela que a República da Mongólia - o primeiro país a se tornar comunista depois da Rússia, em 1921 - obteve mais progresso. De Estado feudal, governado por 100.000 lamas privilegiados (dos seus 767 monastérios eles controlavam os lucros produzidos pelos animais de carga, naquela época a única riqueza do país), a Mongólia transformou-se numa nação agrícola com razoável índice de industrialização, principalmente em torno de Ulan Bator e Darkhan, a segunda cidade em importância. De qualquer maneira, o povo mongol não aceita o progresso trazido pelos russos nem como consolo. E, da vizinha Mongólia Interior, os homens de Mao vão incentivando o espírito nacionalista. Se houvesse realmente uma independência da Grande Mongólia, a China permitiria sua existência como nação livre? Os russos afirmam que não. Segundo Moscou, Mao Tsé-tung mantém, na Mongólia Interior, 12 milhões de homens "prontos para esmagar o povo mongol". E enquanto trocam seus desafios verbais, soviéticos e chineses fabricam artifícios na tentativa de conseguirem apoio popular: arqueólogos russos descobriram a tumba de Gengis Khan em terras soviéticas; logo depois, Pequim anunciou que os restos mortais do conquistador tinham sido encontrados na província da Mongólia Interior. Preparando-se para ganhar esse jogo de cartas que se torna cada vez mais perigoso, a União Soviética lançou recentemente uma nova política para a Ásia, talvez com a intenção de isolar ainda mais a China de seus próprios vizinhos asiáticos. Durante a conferência internacional que reuniu trezentos delegados de 75 partidos comunistas em Moscou, no começo de junho, o Secretário-Geral do PC soviético, Leonid Brezhnev, definiu essa nova ofensiva diplomática: "Acredito que chegou a hora de estabelecermos um sistema de segurança coletiva na Ásia". Embora dirigida, teoricamente, a todos os países da Ásia, a sugestão deverá ser ignorada e rechaçada pela China Comunista, mas certamente poderia interessar a cinco países: a Índia, o Paquistão, o Afeganistão, a Birmânia e a Malásia. Objetivos imediatos: além de isolar a China, deslocar a URSS até o vazio aberto com a retirada americana para uma nova linha de defesa no Pacífico. Para que os planos de Moscou não encontrem obstáculos, os rublos estão sendo despejados fartamente nos cofres dos vizinhos dos chineses. A República da Mongólia recebeu 2,8 bilhões de cruzeiros novos. O Plano Qüinqüenal indiano foi ajudado com 2,5 bilhões de cruzeiros novos, além de outros 2,5 bilhões em armas. Em 1967, o Paquistão tinha comprado 160 milhões de cruzeiros novos em armas russas - hoje, o pagamento da dívida foi protelado e uma série enorme de empréstimos soviéticos começou a chover sobre a capital, Rawalpindi. A Malásia não recebe ajuda direta de Moscou, mas pelo menos um quarto da sua produção de borracha está sendo comprada pelos russos. Em Singapura, um dos maiores portos do mundo e posição chave para o tráfego aéreo do Índico e do Pacífico, aparelhos da Aeroflot soviética pousam e decolam regularmente. Com esses possíveis aliados garantidos, no caso de um confronto maior com os chineses, Moscou poderá pensar numa aplicação prática para a sua diplomacia. Um exemplo: semanas atrás, os russos sugeriram a construção de uma grande rodovia cruzando o Paquistão e o Afeganistão e ligando a Índia com seus territórios na Ásia Central. Essa estrada seria utilizada no comércio comum entre aqueles quatro países. No entanto, se a China tencionasse invadir a Índia, o caminho para uma rápida ajuda soviética já estaria aberto. Fica faltando o Japão, terceira potência industrial do mundo, onde os embaixadores russos aprimoram sua política de sorrisos fáceis. E os primeiros passos começaram a se completar. O comércio entre Tóquio e Moscou chegou, no ano passado, a um recorde animador: 2,4 bilhões de cruzeiros novos. Para a China, a situação é bem mais complicada. Afinal, em quase todo o Oriente, Pequim só tem um aliado inteiramente seguro: a pequenina Coréia do Norte, quase comprimida pelos 50.000 soldados que os americanos mantêm na fronteira da Coréia do Sul. Se os russos estão se lançando em ofensivas políticas na Ásia, procurando beneficiar-se de uma futura retirada americana do Vietnã, os Estados Unidos também não perdem tempo. Quando Nixon viajou pela Ásia há três semanas (aconselhando seus aliados a dizerem "não" à proposta soviética de um pacto de segurança coletiva), ainda não haviam ocorrido os novos choques entre russos e chineses no Sinkiang. A tendência então dominante entre os planejadores da política externa americana era de deixar de lado a possibilidade de uma guerra de grandes proporções entre a China e a Rússia. Um funcionário do Departamento de Defesa justificou essa atitude com o argumento de que um conflito dessa natureza seria perigoso demais, tanto para Moscou como para Pequim - e nenhum dos dois poderia esperar grandes frutos de uma possível vitória militar. E o líder comunista da Hungria, Janos Kadar, declarou que o desencadeamento de uma guerra entre a Rússia e a China é simplesmente "impensável". Mas quando um homem diz que algo é impensável, geralmente quer dizer que esteve pensando seriamente no assunto. E os americanos também fizeram o mesmo: na semana passada, numa aparente mudança de opinião, o Presidente Nixon nomeou uma comissão de peritos do Departamento de Estado, Pentágono e CIA para estudar quais seriam as conseqüências de uma guerra sino-soviética sobre os interesses da segurança americana. Até aqui, os especialistas de Washington, quanto mais analisavam a hipótese da guerra, mais se convenciam de que todo esse brandir de armas poderia, principalmente, visar a objetivos políticos em vez de metas militares. O fato de que representantes da China e da Rússia, após dois meses de negociações secretas, tenham assinado um acordo há duas semanas, na cidade soviética de Kabarovsk, regulando a navegação de barcos dos dois países nos rios fronteiriços de Amur, Argon e Ussuri, parece reforçar esse ponto de vista. É a China Comunista, mais do que a URSS, que necessita dos incidentes fronteiriços para fins internos. Segundo peritos ocidentais em assuntos chineses (até onde se pode ser "perito" nessas questões), a Revolução Cultural desencadeada por Mao Tsé-tung há três anos é minoritária dentro dos quadros institucionais da China - isto é, ainda não conseguiu empolgar inteiramente o poder, apesar de todos os expurgos provocados por esse movimento. Sendo minoritária, a Revolução Cultural precisa lançar mão de iniciativas de grande envergadura para sacudir as massas e obter vasto apoio popular. Nesse quadro de raciocínio, os incidentes de fronteira, convenientemente preparados, teriam importância fundamental: quando se trata de defender o território nacional, os chineses seguiriam seus lideres, quaisquer que sejam eles. A crença de que os choques de fronteira servem a objetivos internos de de Mao é reforçada pelos próprios soviéticos. Em diversas ocasiões, após o início da Revolução Cultural, a imprensa de Moscou não se cansou de dar aos russos a sua versão dos acontecimentos da China: tudo seria uma espécie de golpe de Estado desferido por Mao com o apoio do Exército. Segundo os russos, Mao deturpou o regime comunista da "ditadura do proletariado", transformando-o numa "ditadura militar-burocrática". Observadores em Hong Kong e Tóquio não acham absurda a acusação soviética, especialmente considerando-se que um dos objetivos da Revolução Cultural de Mao foi destruir, logo no início, a Juventude Comunista de 25 milhões de membros, a Federação dos Sindicatos, a estrutura do Estado chinês (com a deposição do Presidente da República Liu Chao-chi e de todos os seus seguidores) e a investida sobre o sistema de ensino chinês, desde as escolas primárias até as universidades, que foram fechadas e somente reabertas muito tempo depois e sob novo figurino maoísta. E, com a sua vasta população de 700 milhões de habitantes, a China Comunista é absorvida por enormes problemas internos, que variam desde a produção de alimentos até a coexistência de dezenas de povos de nacionalidades diferentes e nem sempre muito amigas. De qualquer forma, não há dúvida de que os generais chineses e russos estejam se preparando para uma guerra verdadeira, seja qual for o motivo central das disputas fronteiriças. Segundo pensa a maioria dos militares ocidentais, o desenvolvimento de uma guerra entre a Rússia e a China dependeria muito de seu começo. Se os russos decidirem iniciar uma guerra preventiva - que poderia ter o pretexto de ajuda "fraternal" dos comunistas soviéticos a seus camaradas "leais" de Pequim, como ocorreu no caso da Checoslováquia -, o primeiro lance desse conflito poderia consistir no incitamento a uma guerra de "libertação" na parte ocidental da região chinesa de Sinkiang, onde os uighurs, casaques e outras minorias muçulmanas já estão intranqüilos sob o regime de Mao. Contudo, muitos analistas consideram mais provável que, caso os russos partam deliberadamente para a mutilação da China, eles procurem fazê-lo por meio de operações convencionais, em terra e no ar, contra limitados objetivos da China. E, já que os russos estão profundamente preocupados com a crescente capacidade atômica da China, os objetivos mais lógicos de tais ataques seriam o campo de provas nucleares de Lop Nor, no Sinkiang, e as usinas de materiais físseis de Lanchou e Paotou, ao sul da fronteira mongólica. Mas iria a União Soviética atacar com tal premeditação? Mesmo se os soviéticos, com a sua inequívoca superioridade militar, conseguissem demolir completamente as instalações nucleares da China, estariam conseguindo apenas um intervalo para tomar fôlego durante os próximos dez anos. Depois disso, a China ressurgiria, certamente, como nova potencia atômica - e com grande sede de vingança contra a Rússia. Outra probabilidade considerada pelos especialistas do Ocidente é o desencadeamento de uma guerra sino-soviética através de outro incidente fronteiriço, que daria aos comandantes de ambos os lados a oportunidade de pedirem reforços cada vez maiores até que, finalmente, o confronto se tornaria geral. De fato, esse foi precisamente o processo que levou às guerras não declaradas oficialmente, em que os russos lutaram contra os japoneses nas fronteiras da Manchúria, em 1938 e 1939. Naquelas batalhas, os russos arrasaram os japoneses e a lembrança dessas vitórias ainda está viva na memória dos comandantes soviéticos em Moscou - e dos generais chineses em Pequim. Por isso, na eventualidade de uma guerra "acidental", o alto comando soviético poderia preferir a luta na mesma base geral, para atravessar a Mongólia Interior e a Manchúria, rumo a Pequim. Em tal campanha, o provável objetivo soviético seria conquistar o norte da China numa guerra-relâmpago, pois praticamente todos os observadores estrangeiros acreditam que os russos não desejariam manter suas tropas na China por muito tempo, nem enviá-las além de Pequim, no sul. O propósito soviético na tomada da capital chinesa, como ocorreu com Praga em 1968, seria inteiramente político, procurando desacreditar internacionalmente o regime de Mao, e conseguir o estabelecimento de um governo de "leais marxistas-leninistas", que seria inteiramente favorável a Moscou. Na prática, entretanto, a possibilidade de que essa estratégia funcione é muito discutível. Os russos certamente ganhariam a maior parte das grandes batalhas, devido à sua imensa superioridade em canhões, tanques e aviões. Mas os chineses, com seus também imensos recursos humanos, poderiam absorver, como esponja, o ataque russo. Bandos guerrilheiros atacariam por todos os lados as colunas soviéticas em marcha, e poderiam avançar pela estreita faixa de território russo que envolve Vladivostok, ou sabotar a vulnerável ferrovia transiberiana. Acima de tudo, os comandantes chineses se esforçariam ao máximo para atrair as forças soviéticas mais profundamente para dentro das áreas rurais da China, onde os russos cairiam no atoleiro das guerrilhas. Se os chineses não tivessem êxito nesse plano, poderia acontecer o que um jornalista de Hong Kong previu: "O destino dos invasores russos seria pior que o dos americanos no Vietnã". Seja qual for o desenrolar dessa suposta guerra, os seus resultados seriam bem recebidos por alguns ocidentais. Se os russos ganhassem, a presença irracional de Mao Tsé-tung acabaria removida do cenário mundial. Se os chineses conseguissem executar com perfeição a guerra de guerrilhas, os soviéticos ficariam paralisados, e sua capacidade de agir efetivamente em outras áreas se reduziria bastante. Em qualquer dos casos de invasão, a URSS ficaria desacreditada aos olhos da maioria das outras nações comunistas, por seu ataque a um membro essencial da "comunidade socialista" - desta vez, sem poder invocar o perigo de que a China estivesse caindo nas mãos de "contra-revolucionários" direitistas, como fez para justificar a intervenção na Checoslováquia. Entretanto, muitos observadores americanos são de opinião que as vantagens para o Ocidente, em caso de uma guerra China-Rússia, são mais ilusórias do que reais. Em primeiro lugar, se a URSS tivesse sucesso nas batalhas contra os chineses, e acabasse conquistando a China, a correlação de forças internacionais ficaria drasticamente alterada, com nítida vantagem para o mundo comunista. A maioria dos militares americanos, e dos diplomatas estrangeiros nos Estados Unidos, pensa que é improvável que os soviéticos venham a usar, por exemplo, suas armas atômicas - única maneira efetiva de vencer a guerra, a menos que Pequim lançasse suas bombas primeiro. E ninguém pode prever que a China, diante de uma derrota certa, não seja tentada a utilizar seu pequeno arsenal de armas nucleares. Se a guerra irrompesse realmente, o fato alarmaria tanto os americanos, que as relações de Washington com Moscou mergulhariam num estado de suspeita e animosidade mais profundas do que aquelas dos piores momentos da guerra fria. E o mundo inteiro estaria, mais do que nunca, ameaçado pela destruição geral. |
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