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20 de maio de 1981
Sangue na
praça da fé

Abalado pelos tiros que feriram
o papa, o mundo reza e procura
respostas para a pergunta feita
por João Paulo II: "Por que eu?"

A bordo do jato especial que levava João Paulo II para uma visita pastoral à conturbada Turquia, em novembro de 1979, monsenhor Romeo Panciroli, o porta-voz do Vaticano, aproximou-se preocupado do secretário particular do papa, Stanislaw Dziwisz. Um jovem turco de nome Mehmet Ali Agca, segredou Panciroli, autor de um assassinato e fugitivo há poucos dias de uma prisão militar, em Istambul, estaria pretendendo assassinar o papa durante a visita - ele havia, inclusive, enviado da clandestinidade uma carta à imprensa anunciando o seu propósito e até precisando que utilizaria uma arma munida de mira telescópica. João Paulo II ouviu tranqüilamente a conversa de dois fiéis servidores. "Mehmet... Mehmet..."-, repetiu ele em voz baixa, para si mesmo - e retornou ao seu silêncio. "Vossa Santidade não está com medo?", perguntaram-lhe. "Não", respondeu. "O amor é mais forte do que o medo e o ódio."

Não foi. Dezoito meses depois, alvejado na semana passada por três tiros disparados de uma automática Browning 9 milímetros em plena praça de São Pedro, no coração da fé católica mundial e diante do olhar horrorizado de 10.000 peregrinos, João Paulo II indagou, já quase sem voz, ao mesmo e fiel Dziwisz: "Por que eu?" Em seu hábito branco imaculado, de pé sobre o jipe papal que todas as quartas-feiras circula lentamente entre as imponentes colunas de Bernini, à vista dos fiéis, o papa era um alvo esplêndido. Inatingível no espiritual e intocável no pessoal, ele veio a ser um alvo tragicamente vulnerável ao terrorismo terreno. Foi a brutalidade dessa contradição que levou o mundo inteiro a mergulhar num estado de choque e a responder ao crime com uma vigília espontânea, sem precedentes, que derrubou fronteiras geográficas, barreiras religiosas e limitações culturais.

Rezou-se em todas as línguas possíveis na semana passada, chorou-se de todas as formas conhecidas, e um gigantesco movimento de solidariedade se espalhou pelos quatro cantos do mundo. Afinal, como disse o reverendo americano Miles Riley, da arquidiocese de San Francisco, "quando alguém atira num presidente, está ferindo um país, mas quando atira num papa, está ferindo o povo". Na praça de São Pedro, os alto-falantes passaram a transmitir orações em latim, chefes de Estado de todas as latitudes e de todos os credos começaram a enviar seus telegramas - e, diante de um mundo que prendia a respiração, a ambulância com o papa ferido perfazia os quinze minutos que separam o Vaticano do hospital Policlinico Agostino Gemelli. Até a manhã do dia seguinte ao atentado, quando o presidente socialista da Itália Sandro Pertini - 84 anos e único leigo a visitar o papa até o fim de semana - deu o primeiro retrato reconfortante pós-operatório, as esperanças de todos estiveram em suspenso.

SEM POSIÇÃO - Se Mehmet Ali Agca tivesse aberto a força seu caminho até não haver nada entre sua arma e seu alvo, é provável que a essa altura o papa estivesse morto. Por algum motivo desonhecido, porém, o terrorista não estava na primeira fila, e sim 1 ou 2 metros atrás, no momento em que disparou sua pistola. Por isso, teve que levantar os braços para poder atirar por cima das cabeças das pessoas à sua frente - e essa posição incômoda, além da distância, acabaram dificultando seu objetivo. Quando Agca disparou pela primeira vez, causando um som semelhante ao do espocar de um fogo de artifício, o jipe branco Fiat, modelo Cartipagnola, estava começando a movimentar-se pela praça de São Pedro. Nos segundos anteriores, o jipe estivera parado para que o papa pudesse alçar, do meio da multidão, uma menina loira, que beijou e devolveu aos pais - cena inseparável desse pequeno corso que João Paulo II realiza todas as quartas-feiras na praça, antes da audiência geral.

Em seguida, o pontífice começou a abrir os braços, ao mesmo tempo em que o jipe se movimentava. Foi nesse preciso instante - o relógio do Vaticano marcava 17h19 - que Agca disparou. O jipe já terminava sua primeira volta pela praça, através de um corredor aberto no meio da multidão, separada do papa por um gradil e pela colorida guarda suíça. Atingido por três disparos, João Paulo II encolheu-se com as mãos sobre o abdome, vacilou e começou a cair lentamente - queda precipitada pelo arranque do jipe mas amortecida pelo secretário polonês do papa, Stanislaw Dziwisz e seu camareiro.

COMOÇÃO MUNDIAL - Duas outras pessoas caíram no mesmo instante em que o papa foi atingido - a americana Anna Odre, 60 anos, atingida no peito, e a jamaicana Rose Hill, 22 anos, ferida no braço. A bala calibre 9 milímetros não se detém ao encontrar o corpo humano como obstáculo, como morre com a bala calibre 22 usada no atentado ao presidente americano Ronald Reagan - e tudo indica que os mesmos projéteis que atingiram o papa tenham ferido também as duas peregrinas. Diante da multidão ainda incrédula, o jipe arrancou de imediato em direção ao Arco dos Sinos para levar o pontífice ferido até uma das duas ambulâncias que todas as quartas-feiras ali fazem plantão. Ao contrário do que aconteceu no atentado a Reagan, quando as primeiras notícias otimistas foram substituídas pela informação de que ele esteve a ponto de morrer de hemorragia, o clima de comoção mundial, na noite de quarta-feira passada, indicando que João Paulo II poderia não sobreviver, cedeu lugar na noite seguinte a uma jubilosa missa pela sua recuperação.

'MÃE DE DEUS!' - Sem dúvida alguma, João Paulo II contou com dois golpes de sorte. Primeiro, a bala que perfurou de modo grave seu intestino não tocou nenhum órgão vital, e sobretudo não atingiu artérias importantes como as veias cava, aorta e ilíaca. Depois, no Policlinico Gemelli, para onde foi levado, havia uma sala operatória e uma equipe cirúrgica pronta para iniciar uma operação. "Estávamos decidindo se operaríamos ou não um garoto", lembra o doutor Giovanni Salgarello, da equipe de emergência do hospital. "Exatamente na hora em que decidimos não operá-lo, fomos avisados de que o papa estava chegando, ferido."

João Paulo II não chegou a perder a consciência, apesar do estado de choque. Antes de adormecer com a anestesia, ouviu uma freira enfermeira iugoslava desejar-lhe boa sorte em língua croata, que ele conhece perfeitamente, e respondeu num murmúrio: "Majko Bozjia, Majko Bozjia!", ou "Mãe de Deus, Mãe de Deus!". Na maca em que entrou na sala operatória, o papa já não vestia mais o hábito branco manchado de sangue. Tinha apenas uma camiseta e um escapulário com a imagem de Nossa Senhora do Carmo. Quando chegou o médico pessoal do papa, Renato Buzzonetti, a equipe de emergência do Policlinico já estava tentando estancar a hemorragia. Curiosamente, o médico que dirigiu a operação de cinco horas e meia, Gianfranco Castiglioni, como chefe da equipe, encontrava-se a 500 quilômetros de Roma, no aeroporto de Milão, quando soube do atentado. Localizado pelo alto-falante, embarcou imediatamente num DC-9 da Força Aérea Italiana para Roma e numa Alfetta dos carabinieri, a polícia militar, para o hospital - em tempo de atender João Paulo II e entrar, com sua habilidade de cirurgião, na luta contra os desígnios do assassino.

TRAMA NEGRA - Na verdade, ao contrário de John Hinckley, que atirou no presidente Ronald Reagan, e de Mark Chapman, que assassinou John Lennon - seus antecessores mais imediatos na galeria de "assassinos históricos" -, Mehmet Ali Agca (pronuncia-se Adja) não é um lobo solitário disposto a um gesto desesperado. Bem mais que Lee H. Oswald, o nebuloso assassino de John F. Kennedy, Agca se enquadra na tipologia do terrorista profissional a serviço de alguma coisa. A decantada teoria do complô, que consumiu tantos livros, investigações e dúvidas no caso do ex-presidente americano morto em 1963, brotou com inquietante naturalidade no caso de João Paulo II.

De fato, poucas horas após os disparos a polícia italiana já recolhia indícios de uma "trama negra" - ou seja, de que Agca não agiu sozinho. Se não tivesse atingido o papa na quarta-feira passada, ele teria tentado de novo durante a audiência desta semana: membro da organização terrorista turca Lobos Cinzentos, ligada a um partido ultradireitista do país, Agca há tempos vinha preparando-se para essa missão. "O comandante das cruzadas João Paulo II vem à Turquia enviado pelos imperialismos ocidentais", escreveu ele numa carta ao jornal Milliyet, de Istambul, na véspera da chegada do pontífice a seu país em novembro de 1979. "Ou esta visita é anulada ou eu o matarei. Por isso fugi da prisão."

Oito meses antes, numa esquina da capital, Agca batera com os dedos na janela de um carro parado num cruzamento. Quando o motorista baixou o vidro, Agca disparou-lhe todo o carregador de uma pistola automática. A vítima era justamente o diretor do Milliyet, um jornalista social-democrata, partidário do ex-primeiro-ministro liberal e reformista Buient Ecevít. Para Agca, era a primeira grande missão como um "lobo cinzento" nome que o bando terrorista apanhou no folclore turco, no qual se relata a lenda de um lobo que certa vez conduziu o povo para longe das perseguições de que era vítima.

CABEÇA A PRÊMIO - Preso e condenado à morte, Agca conseguiu fugir do inexpugnável quartel de Kartal, nos arredores de Istambul, vestido de oficial. Os seis soldados e três oficiais de verdade que o haviam ajudado na fuga foram presos: eram, também, lobos cinzentos. Quanto ao jovem assassino, condenado à morte à revelia e com a cabeça a prêmio pelo equivalente a 22 milhóes de cruzeiros, desapareceu na clandestinidade - não sem antes matar um cúmplice que o traíra.

Entre a primeira ameaça ao papa na Turquia e a chegada à praça de São Pedro para a audiência da semana passada, o ex-estudante de Economia Mehmet Agca fez um longo e misterioso roteiro por pelo menos seis países da Europa. Sempre com passaportes falsificados e, apesar de um mandado de prisão da Interpol, ele esteve na Bulgária, casou-se com uma alemã, obteve um visto de residência na Alemanha, passou pela França, Espanha e Suíça, e esteve várias vezes na Itália. A polícia italiana, aliás, tinha em seus arquivos cópia da ficha datíloscópica de Agca, com foto e tudo, expedida a 130 países pela Interpol. E o ministro do Exterior da Turquia garante que avisou o governo de Roma que o terrorista mais procurado em seu país se encontrava há algumas semanas na Itália.

Nada disso, porém, foi suficiente para que qualquer polícia européia detivesse o criminoso. Como um profissional, Agca evitava riscos inúteis. Em janeiro passado, fez uma "viagem de reconhecimento" à Itália, aparentemente sem motivo. Ficou um único dia e partiu. No último dia 5 de abril, desembarcou novamente no Aeroporto de Fiumicino, em Roma, e já no dia seguinte conseguiu matricular-se na Universidade para Estrangeiros em Perugia, a 150 quilômetros de Roma - um lugar que aparentemente deve merecer atenção especial dos serviços de segurança da Itália. Lá ele teria inclusive feito contato com outros dois jovens estudantes turcos, um rapaz e uma moça. Para a matrícula, usou o passaporte turco falso de número 136.635 e o nome Faruk Ozgun.

No dia 20 de abril, sempre a salvo da polícia, Ozgun/Agca partiu num vôo charter para uma semana na ilha espanhola de Maiorcal no Mediterrâneo. "Fui descansar", disse ele aos juízes que o interrogaram na semana passada. É provável, porém, que tenha encontrado possíveis cúmplices e recebido, por meio das permissivas fronteiras espanholas, a arma que depois deixaria escondida num guarda-malas automático, em Roma: a pistola Browning com que atirou em João Paulo II.

VIDRO DE TINTURA - A origem exata da arma - uma potente pistola militar belga capaz de carregar treze balas, mais uma na agulha - é apenas mais um dos mistérios que cercam a figura de Agca. Uma outra hipótese é que ele a tenha comprado no mercado negro da Bulgária, como fazem tantos outros terroristas turcos, sob a complacência das autoridades comunistas locais. Em seu quarto da Pensão Isa, alugado dois dias antes do crime, perto da Piazza Cavour e não longe do Vaticano, a polícia encontrou prova de que Agca havia deixado uma bagagem depositada na estação ferroviária central de Roma. Lá estava também um de seus passaportes falsos, o equivalente a 45.000 cruzeiros em liras italianas e francos suíços, e o disfarce para a fuga: um vidro de tintura para o cabelo. Havia também um roteiro para chegar à praça de São Pedro e instruções em turco sobre o que fazer: controlar a praça, seguir o percurso do jipe papal, atenção ao perigo representado mais pelos fiéis que pela polícia. No fim, três datas para o atentado: 13, 17 ou 20 de maio.

Enquanto a polícia italiana faz uma devassa na vida do criminoso para apurar de onde vinha seu dinheiro, quem lhe dava documentos falsos e quem lhe deu guarida na Europa até agora, o chefe da seção de combate ao terrorismo da polícia de Roma, Alfredo Lazzarini, após doze horas de interrogatório com o suspeito, qualificava Agca como "um terrorista com 'T' maiúsculo, frio, lúcido e decidido". A Turquia, por sua vez, apressou-se em encaminhar seu pedido de extradição - pelo assassínio do jornalista - mas ele jamais será aceito. Segundo mandam suas leis, a Itália não devolve criminosos a países onde estejam condenados à morte.

Os juízes que conduzem o inquérito em Roma decretaram sua prisão preventiva com base em sete crimes, entre eles tentativa de assassínio contra um chefe de Estado estrangeiro. Isso deverá valer a Agca a prisão perpétua - pena máxima na Itália, que está justamente sendo submetida a referendo popular nesse domingo. Significativamente, a denúncia judicial levanta a possibilidade de que o jovem terrorista tenha agido com a ajuda de outras pessoas, num complô internacional, pois o procurador-chefe Achille Gallucci fala em "cumplicidade com desconhecidos". Para o general turco Kenan Evren, homem forte do golpe militar instalado na Turquia em setembro passado, esse episódio todo deveria servir de lição à Europa liberal. "Esse é o resultado que alguns de nossos amigos europeus obtêm quando abraçam essa gente como refugiados políticos", sentenciou ele. "Gostaria que esses amigos, que divagam com suas cabeças nas nuvens, recobrassem agora seus sentidos."

SEM PÂNICO - O general Evren se referia ao governo da Alemanha Ocidental que, apesar de quatro avisos a respeíto da presença de Agca no país, jamais conseguiu pinçá-lo na colméia de quase 1,5 milhão de trabalhadores turcos que vivem no país. Esses imigrantes trouxeram para a Alemanha suas brigas de família, de grupos políticos e religiosos, muitos dos quais são considerados ilegais na Turquia - e frequentemente protegem fugitivos da Justiça em seu país de origem.

Enquanto as autoridades italianas e outros serviços de segurança ocidentais garimpavam nas malhas do terrorismo internacional, na esperança de arrombar o possível complô nos próximos dias, o governo central da Igreja Católica não dava sinais de taquicardia. Havia um ar de preocupação e emergência na cidade do Vaticano, mas jamais de pânico. Como no resto do mundo, acompanhava-se com ansiedade e esperança cada novo boletim médico expedido pelo Policlinico Agostino Gemelli. Ao longo dessa semana trágica, porém, bispos e padres estrangeiros verificaram com surpresa que funcionários do Vaticano ocupavam normalmente suas mesas de trabalho.

Comissões reuniam-se normalmente, documentos eram despachados e voltavam no emaranhado de congregações sagradas, grupos pontifícios, tribunais, secretarias e gabinetes que constituem a Cúria Romana - o aparato administrativo que regula a vida do Vaticano. Embora a lei canônica não tenha nenhum dispositivo referente a um substituto quando o papa fica incapacitado - há previsões apenas em caso de morte ou viagem ao exterior -, o Vaticano reagíu ao afastamento temporário de seu chefe com uma compostura invejável.

Não houve aparições intempestivas como a de um Alexander Haig, quando do atentado ao presidente Ronald Reagan. Não houve tampouco, nem mesmo quando o papa estava inconsciente na mesa de operações, uma corrida generalizada de clérigos ao hospital. Só o círculo imediato de João Paulo II, que abrange diversos religiosos poloneses, saiu da rotina e percorreu os poucos quilômetros que separam o Vaticano do Policlinico. Por via das dúvidas, o velho cardeal Stefan Wyszynski, 79 anos e moribundo num leito de hospital de Varsóvia, só foi informado do atentado contra o papa 24 horas mais tarde, quando os boletins médicos já emitiam sinais mais animadores.

SEGUNDO NO COMANDO - De resto, apenas a ausência, de Roma, no dia do atentado, do cardeal Agostino Casaroli causou um certo rebuliço. Ele foi informado do atentado quando sobrevoava o Atlântico a caminho de Nova York, e chegou-se a noticiar que o Boeing da PanAm faria meia-volta. Naturalmente, isso não aconteceu e ele só pôde retomar a Roma na manhã seguinte indo direto ao hospital. Amigo pessoal de João Paulo II, que o fez cardeal logo no primeiro consistório de seu pontificado, Casaroli, aos 66 anos de idade, desempenha na Cúria Romana um papel que supera amplamente os limites formais de seu cargo de secretário de Estado e segundo no comando do Vaticano.

Na verdade, para todos os efeitos práticos, o cardeal Casaroli estará dirigindo o governo da Igreja, com sua prodigiosa capacidade de trabalho, enquanto o pontífice estiver incapacitado - e ninguém ainda sabe ao certo quanto tempo isso vai demorar. Com ou sem instruções do papa, ele vai comandar o dia-a-dia dos 3.000 funcionários permanentes do braço administrativo do Vaticano. Já no final da semana, por exemplo, foi ele quem se apresentou perante os fiéis na praça de São Pedro para ler o texto do discurso que João Paulo II havia preparado em comemoração ao nonagésimo aniversário da encíclica "Rerum Novarum", carta magna da doutrina social da Igreja.

Algumas atribuições do papa, contudo, permanecerão em suspenso durante sua convalescença. A crucial revisão do Código Canônico cai nessa categoria. Há mais de dez anos em fase de preparação, terá de aguardar a aprovação de João Paulo II para entrar em vigor. Novas nomeações para os altos cargos da Igreja no mundo também dependerão de sua recuperação. Quanto aos milhares de pedidos de renúncia ao sacerdócio, assim como pedidos de rompimento de celibato, eles continuarão empilhando-se na Santa Sé. Embora não seja sua atribuição formal, João Paulo II insiste em analisar pessoalmente cada caso e indefere os pedidos mais freqüentemente que seus antecessores.

GUARDA-COSTAS - Mesmo que João Paulo II venha a recuperar totalmente seu extraordinário vigor físico e força pessoal, e retome com rapidez suas viagens de peregrino e sua pregação da fé, a imagem brutal de seu corpo baleado não desaparecerá tão cedo da consciência do mundo. Mais de trinta papas na rica história da Igreja tiveram morte não-natural, a começar pelo próprio São Pedro, e o Vaticano é o Estado que mais chefes perdeu em assassínios: nada menos que vinte, em quase 2.000 anos de existência. Mas em tempos modemos não havia registro de violência contra um papa até 26 de novembro de 1970, quando umpintor boliviano, Benjamín Mendoza y Amor, de faca na mão, pulou à frente de Paulo VI no aeroporto de Manilha, capital das Filipinas. A faca arranhou o papa, algumas gotas de sangue mancharam suas vestes brancas e Paulo Vi saiu mais seriamente ferido que foi anunciado na época.

O criminoso, na ocasião, acabou sendo imobilizado pela figura robusta e ágil do bispo americano Paul Marcinkus, que mais tarde viria a incorporar a imagem do guarda-costas perfeito de João Paulo II. Em todos os países percorridos pelo papa, esse ex-jogador de futebol americano de 58 anos ímpressionou pela onipresença e pela segurança com que protegeu o pontífice. Por isso, quando os três tiros soaram na praça de São Pedro e João Paulo II desabou no colo de seu secretário particular, milhões de telespeciadores perguntaram-se apreensivos: "Mas onde está Marcinkus?" Simplesmente, Marcinkus nada tem a ver com a segurança do papa no Vaticano. Apenas o acompanha nas viagens ao exterior - e portanto jamais está presente nas audiências públicas das quartas-feiras em Roma.

ELO TENEBROSO - O local em que João Paulo II foi ferido, na praça de São Pedro, já havia-se transformado, no final da semana, no mais novo ponto de romaria e oração de Roma. Nos dias que se seguiram ao crime, sob as luzes de potentes refletores ou sob os raios ainda tímidos do sol primaveril, uma multidão permanente - na quinta-feira, ela chegou a 30.000 pessoas - ali entoava a Ave-maria e o Padre-nosso. Para esta segunda-feira, data em que João Paulo II completa 61 anos de idade, todos os cardeais e bispos que estiverem em Roma celebrarão uma missa na Basílica de São Pedro, por seu restabelecimento - que se vai somar a milhares de outras pelo mundo afora. "O atentado ao papa e toda essa onda de violência são frutos da própria decomposição da sociedade, de seus valores morais", sentenciou no Brasil o cardeal do Rio de Janeiro, dom Eugênio Sales, após missa celebrada por seis bispos e oito padres no Edifício João Paulo II, no Rio de Janeiro.

Já para os italianos, tristemente habituados a um clima de violência política e terrorismo em suas cidades, restou um absurdo alívio ao saberem, pelo menos, que o homem que atirara no papa era estrangeiro. "Por uma vez, a violência na Itália não é italiana", comentou o jornal moderado La Repubblica. Antes que fosse divulgada a identidade de Mehmet Ali Agca, muitos chegaram a supor que João Paulo II, adotado pelos romanos com um entusiasmo sem precedentes, tivesse caído vítima da campanha para os plebiscitos que se realizam na Itália. O mais importante deles é o que pretende abolir a atual legislação sobre o aborto - e nos últimos dias a decidida intervenção do pontífice em defesa da vida do feto causoU violentas polêmicas.

Para o resto do mundo, porém, a suspeita de que o misterioso turco Agca possa ser apenas o elo final de um vasto complô terrorista é bem mais tenebrosa - ela mostrará que o pesadelo do terror internacional, em nossos dias, não tem mais nenhum limite e que ninguém, nem mesmo o papa, pode prevalecer contra ele.


A valentia do
pastor ferido

Varado por uma bala, o papa
reage aos ferimentos e concita
os médicos a terem coragem

Das três balas disparadas contra o papa João Paulo II, duas não provocaram lesões graves. Uma feriu o antebraço direito, outra fraturou o dedo indicador da mão esquerda - que só terá seus movimentos inteiramente recuperados ao cabo de exercícios ortopédicos destinados a evitar problemas de articulação e atrofia óssea e muscular. Os estragos causados pelo terceiro projétil foram bem maiores. A bala perfurou o abdome de João Paulo II, atingiu o intestino grosso e o intestino delgado, resvalou pelo osso sacro - parte da coluna vertebral - e saiu pelas costas.

Nesse percurso, a bala passou a providenciais centímetros de órgãos vitais - por exemplo, a veia aorta, que transporta o sangue oxigenado pelos pulmões. Se essa veia fosse atingida, é improvável que Karol Wojtyla sobrevivesse à corrida entre a praça de São Pedro e o Policlinico Agostino Gemelli, onde chegou abalado por uma intensa hemorragia, prontamente neutralizada por uma transfusão de 3 litros de sangue tipo A negativo e uma cirurgia que consumiu cinco horas e meia. Os quatro médicos que socorreram o papa fizeram uma lapartitomia exploratória: com um corte em sentido vertical que começou pouco abaixo do tórax e terminou no púbis, inspecionaram minuciosamente o abdome à caça de lesões. Nenhum dos órgãos vitais - como o pâncreas e o figado - fora afetado. Mas algumas partes do intestino haviam sido destruídas e os médicos tiveram de extrair cerca de trinta centímetros desse órgão.

Foi uma cirurgia lenta e delicada: à medida que encontravam pedaços de intestino atingidos, os operadores os seccionavam e, depois, ligavam as duas partes intactas. Mas o professor Arrigo Raia, chefe do setor de cirurgia do aparelho digestivo do Hospital das Clínicas, em São Paulo, informa que a invejável saúde de Karol Wojtyla não deverá sofrer abalos relevantes. "Retirar partes do intestino grosso, que tem 1,5 metro de comprimento e que se limita a conduzir as fezes, não representa nenhum problema", explica Raia. "Já no intestino delgado, onde se completa a digestão e os alimentos são assimilados pelo organismo, as dificuldades poderiam ser maiores. Mas, para isso, teriam de ser retirados de dois a três metros." O intestino delgado tem cerca de 5 metros de comprimento.

BOLETINS CAUTELOSOS - Concluída a seqüência de suturas, o papa foi submetido a uma colostomia, nome da operação destinada a abrir uma saída provisória do intestino. Trata-se de um orifício no abdome, acoplado a uma bolsa plástica maleável. "Essa saída é feita acima da zona lesionada, a fim de evitar a descida das fezes e seu contato prejudicial com as feridas", explica um dos médicos integrantes da equipe que operou o papa. Além de evitar uma sobrecarga nos intestinos, a colostomia dificulta o aparecimento de uma peritonite, ou infecção no peritônio, a membrana que reveste a cavidade abdominal.

O perigo da peritonite não foi ainda de todo afastado, o que justifica a cautela observada nos boletins emitidos pelo Policlinico Agostino Gemelli. Além do risco de infecções, João Paulo II continua sujeito a uma necrose intestinal, provocada pela possível permanência em seu organismo de partes lesionadas dos intestinos. Enfim, o paciente enfrenta o perigo de colliplicações nas religações dos intestinos, no momento combatidas por doses maciças de antibióticos. Caso nao surjam imprevistos desse gênero, João Paulo I estará de volta ao Vaticano no final deste mês. Em junho, contudo, ele sofrerã uma segunda cirurgia, para fechar a colostomia e normalizar suas funções intestinais.

Apesar da cautela dos boletins, médicos do Policlinico traíam no final da semana um certo otimismo, sobretudo porque sabem que não estão às voltas com um organismo combalido - muito pelo contrário. Aos 60 anos, Karol Wojtyla exibe uma vitalidade que tem desconcertado multidões de fiéis em todo o mundo. Nos doze dias que passou no Brasil, dormiu seis horas por noite. No Rio de Janeiro, ficou em pé catorze das trinta horas da programação e, depois de vencer 221 degraus na subida do Corcovado, mantinha inalterado o ritmo de sua respiração. Na manhã de sábado, o papa, recolhido à unidade de terapia intensiva do Policlinico, conservava temperatura, respiração e pressão dentro dos limites normais. Na véspera, ainda alimentado por via intravenosa - ele só poderá alimentar-se normalmente em nove dias - o papa tivera forças para dirigir algumas palavras aos médicos: concitou-os a serem corajosos. "Biologicamente", admira-se o médico Francesco Crucetti, que participou da operação, "o papa é um homem muito mais jovem".


Um convite ao terror

Sem um esquema de segurança que
proteja suas andanças, o papa
é um alvo perfeito para atentados

É fácil atirar no papa. Na quarta-feira, até ser alvejado quase à queima-roupa pelo terrorista turco Mehmet Ali Agca, João Paulo II foi tocado por milhares de mãos ao longo da frágil e baixa cerca que o separava da multidão aglomerada na praça de São Pedro para a audiência semanal. Não teria sido assím se se tratasse, por exemplo, do chefe de Estado italiano, forçosamente protegido por um rígido esquema baseado em três círculos concêntricos. No primeiro, pelo menos quatro agentes de segurança ficam virtualmente grudados ao alvo da proteção. No segundo, de oito a dez policiais armados se mantêm a 5 metros de distância. No terceiro, num raio de 10 metros, uma barreira de policiais impede que suspeitos se aproximem.

Esse esquema é acionado para garantir a circulação de personalidades de relevo - mas o papa, além de pertencer a tal categoria, é um pastor que não admite barreiras humanas entre ele e seu rebanho. Nos deslocamentos de João Paulo 11 por Roma, só estão invariavelmente a seu lado dois homens - seu camareiro, Angelo Gugel, e o secretário Staníslaw Dziwísz -, ambos desarmados e sem qualquer know-how em segurança pessoal. Graças a um desejo expresso de João Paulo II, policiais e agentes não podem dificultar seus contatos diretos com os fiéis. Naturalmente, cordões protetores montados em torno de homens públicos - o presidente João Figueiredo, por exemplo, costuma confraternizar com o povo sob os olhares atentos de dez agentes - não são inexpugnáveis, como demonstrou o recente atentado contra o presidente americano Ronald Reagan. Mas sua inexistência é um convite irresistível a disparos terroristas.

Em Roma, o desamparo de João Paulo II em suas andanças é acentuado pela ausência do bispo Paul Marcinkus, o atlético organizador das viagens internacionais do papa. A televisão popularizou a figura corpulenta e um tanto rude de Marcinkus caminhando ao lado do papa em vários países - eventualmente, abrindo caminho com cotoveladas em jornalistas e fiéis excessivamente excitados. Nessas viagens, a proteção dispensada ao pontífice é rigorosa mas a colaboração do Vaticano é quase simbólica. A comitiva oficial jamais inclui mais de três agentes do Ufficio Centrale di Vigilanza do Vaticano.

TAREFAS PROTOCOLARES - Na Irlanda do Norte, essa raquítica brigada juntou-se a 12.000 soldados mobilizados pelo governo para garantir a visita de João Paulo II. Em Tóquio, o trio de protetores testemunhou, deslumbrado, alguns estratagemas imaginados pela polícia japonesa, que se armou até mesmo de raquetes para, se preciso, rebater objetos atirados contra o risonho visitante. Mas os homens da Santa Sé recusam-se a assimilar essas lições oferecidas por governos familiarizados com a rotina da violência.

A Guarda Suíça, encarregada da defesa do palácio pontifício e da pessoa do papa, é formada por 140 soldados que exibem apenas as tradicionais alabardas, lanças medievais que adornam o uniforme da Guarda desde sua criação, em 1506. Pelo menos um papa, Clemente VII, teve sua vida salva pelos guardas suíços, que o levaram para um castelo na margem direita do rio Tibre e para longe das tropas de Carlos V, que saquearam o Vaticano.

Hoje, um batalhão da Guarda vela diutumamente o apartamento do papa, no 3º andar do palácio pontifício, mas seu papel no esquema de segurança termina aí. Postados nas entradas do Vaticano com seus uniformes emplumados e coloridos de azul, amarelo e vermelho - desenhados, segundo a lenda, por Michelangelo -, os soldados suíços limitam-se a tarefas meramente protocolares e atraem os sucessivos disparos das máquinas fotográficas carregadas pelas procissões de turistas. Em 1975, Paulo VI tentou modernizar a segurança da Cidade do Vaticano com a criação do Ufficio Centrale di Vigilanza, formado por 200 homens, em sua maioria recrutados nos quadros dos carabinieri, força da polícia italiana.

LÁGRIMAS NA PRAÇA - Em tese, o organismo seguiu o figurino do serviço secreto americano. Na prática, não é bem assim. Seus integrantes, é verdade, trajam elegantes ternos azuis e podem comunicar-se entre si por meio de minúscUlos transmissores ocultos no paletó. Mas o Vaticano jamais informou se esse pequeno exército anda armado ou não - na quarta-feira, nenhum revólver foi sacado por qualquer dos agentes que acompanhavam o papa. Alheio a tais pudores, seus similares americanos freqüentemente carregam submetralhadoras, exibidas sempre que necessário. Algumas dessas armas foram mostradas ao mundo no atentado sofrido por Reagan, que também detonou uma demonstração de eficácia um tanto acima dos padrões do Vaticano,

Quando Reagan foi atingido, um grupo de agentes montou um muro humano a seu redor, outro desabou sobre o autor do atentado e, em segundos, o carro do presidente disparava em direção ao hospital. Na quarta-feira, na praça de São Pedro, alguns agentes do Ufficio - que, como de hábito, caminhavam nas imediações do jipe papal - saltaram sobre o veículo na tentativa de formar um cordão protetor em torno de João Paulo II. Mas vários deles ficaram paralisados pela surpresa, alguns choraram e poucos lembraram-se de que, se o jipe continuasse estacionado na praça, o papa poderia morrer.

Durante as audiências coletivas das quartas-feiras, a ampla área da praça de São Pedro ganha a discreta presença de um punhado de carabinieri, resultado de um acordo celebrado entre a Santa Sé e o governo italiano. É provável que agora, a pedido do Vaticano, mais policiais freqüentem a praça e agentes do serviço secreto italiano sejam infiltrados na multidão. Mas também aí as lições americanas dificilmente serão copiadas. Na sexta-feira. ao sair às ruas pela primeira vez depois do atentado que sofreu, para um jantar num bairro de Washington, Reagan e sua mulher Nancy foram retirados do carro pela porta traseira por agentes que, depois, os devolveram à Casa Branca em outro veículo, não identificado. Muito menos cautelosa, a Santa Sé já avisou que o papa não interromperá seus contatos com a multidão. Depois de ter circulado ileso, até a semana passada, entre milhões de pessoas, o papa talvez esteja convencido de que o fato de só ter sofrido até agora um único atentado não deixa de ser um milagre - e prefira confiar sua vida não a agentes armados e, sim, às mãos de Deus.


O risonho peregrino

Espontâneo, informal, João Paulo II
tornou-se, em apenas dois anos e meio,
o papa mais visto e ouvido do mundo

Se o pontificado de João Paulo II fosse encerrado na semana passada, os historiadores do futuro teriam a impressão de que a era de Karol Wojtyla não se resumira a apenas dois anos e meio. Para o atual chefe da Igreja Católica, a consciência profética de sua missão é proporcional à intensidade com que a exerce. Sobretudo por isso bastou-lhe um período de tempo muito inferior à média de duração dos seis pontificados do século XX - doze anos e meio excetuado o brevíssimo reinado de 33 dias de João Paulo I - para que João Paulo II oferecesse ao mundo pelo menos três traços inconfundíveis: um estilo esfuziante, a força moral de sua pregação e uma inesgotável capacidade de trabalho.

Nenhum outro papa foi visto e ouvido por tanta gente, em todos os tempos. Mais que seus antecessores, é verdade, ele pôde e soube valer-se do alcance do rádio e da televisão. Mas João Paulo II, como lembra o pensador católico inglês Norman St. John-Stevas, "é um fenômeno em séculos de cristianismo". A espontaneidade e o informalismo de João Paulo II começaram por seduzir os romanos, habitantes de uma cidade há tempos minada pelo agnosticismo e pelo anticlericalismo. Com ele, a capital italiana voltou a olhar com respeito e admiração a larga e imponente Via della Conciliazíone que leva ao Vaticano. "Ele não tem aquele ar de pastor, humilde e submisso", surpreendeu-se o jornal Corriere della Sera, de Milão, numa clara alusão ao contraste de sua imagem cosmopolita com a aparência de angélico aldeão exibida por seu antecessor, João Paulo I.

UM PAPA MARIANO - Os atentos romanos logo notaram que o novo papa não precisava de óculos para ler, usava um relógio a quartzo no pulso esquerdo e tinha uma voz de barítono, forte e envolvente. Roma é sobretudo uma cidade teatral - e ali estava uma personalidade à altura de seu drama. As audiências públicas da quarta-feira voltaram a lotar a praça de São Pedro. Aliando a energia física a uma contagiante simpatia pessoal, João Paulo II tomou-se protagonista de cenas habitualmente reservadas a carismáticos líderes populares. Numa quarta-feira, uma freira tentou morder-lhe a orelha. Recentemente, um padre quis arrancar-lhe um botão da batina branca. "Mémernich ficou desconcertado com o liberalismo de Pio IX", escreveu John-Stevas. "Que reação teria se visse essa manifestação ainda mais estranha de um papa pop?"

O tempo mostrou que o sucesso das aparições públicas de João Paulo II resulta tanto de fatores pessoais como religiosos. O papa de nossos dias é um filósofo, discípulo do personalista Max Scheler, e um místico, estudioso de São João da Cruz, além de cultor da Teologia Moral. As audiências públicas, as viagens pelo mundo - marcadas pelo beijo no solo dos países visitados - e os encontros com personalídades internacionais são motes de que João Paulo II se aproveita para difundir seus conceitos sobre a Igreja, os problemas do mundo e as relações internacionais. Ele martela sobretudo o discurso dirigido ao interior da Igreja nas grandes reuniões eclesiásticas, como o Sínodo dos Bispos ou as assembléias católicas da massa de fiéis que confiam no que ensina o papa. Seu modelo de Igreja é uma Igreja popular, de massa - mas não como a esquerda católica entende tais noções. João Paulo II hasteia o Evangelho como sua única bandeira.

Agarrado à fé, João Paulo II tem passeado suas idéias, nestes dois anos e meio, indiferente à suspeita, alimentada pela ala esquerda, de que é um propagandista camuflado do conservadorismo doutrinário da Igreja. Nesse ponto, ele é de fato conservador, e não se envergonha disso. Em sua primeira aparição no balcão da Basílica de São Pedro, na noite de sua eleição, a 16 de outubro de 1978, proclamou-se um mariano - algo que para muitos teólogos trai idéias mais adequadas à Idade Média: "Tive medo de receber esta nomeação, mas o fiz no espírito de obediência em relação a Nosso Senhor e na confiança total em sua Mãe, Maria Santíssima", explicou.

VISÃO TRADICIONAL - Preso ou não a conceitos envelhecidos, a verdade é que João Paulo II tem sido uma ameaça a impérios modernos. Por exemplo, a URSS, que viu uma irônica pergunta de Josef Stalin - "Quantas divisões tem o papa?" - duramente abalada pela crise da Polônia. Em nome de soldados armados apenas com a fé, João Paulo II interveio com sua voz na Polônia, na Irlanda, no Libano e mesmo na disputa de fronteiras entre o Chile e a Argentina, já disparou palavras severas a governantes autoritários e solidarizou-se com desenvoltura a católicos oprimidos. Na visita que fez à Polônia, João Paulo II arrancou de seus patrícios um gigantesco mas pacífico plebiscito em favor da Igreja e da liberdade nos países comunistas - e reuniu mais gente em público, ali, que qualquer líder do partido único jamais havia conseguido. O governo polonês dificilmente patrocinaria qualquer tentativa violenta de remover Wojtyla do Vaticano. Mas não ficaria infeliz se fosse retomada a longa linhagem de papas italianos.

Embora seu reinado seja pleno de citações de Paulo VI e do Concílio Vaticano II, do qual participou, alguns analistas já classificam sua visão tradicional da Igreja - nessa ótica, uma instituição de padres, religiosas, religiosos e seminaristas solteiros, e casais fecundos - como uma contra-reforma, quase anticonciliar, disfarçada por seu ativismo. "É verdade que o papa fala também a linguagem da moderação", diz o padre Gianni Baget Bozzo, ex-secretário do cardeal Giuseppe Siri, atualmente dedicado a análises políticas na imprensa italiana. "Mas ele faz isso de modo essencialmente moderado. Não há um gesto nessa direção que signifique um passo decidido adiante enquanto a condenação de Hans Küng ou a nova regulamentação (para dificultar) à dispensa das ordens sacerdotais são gestos significativos, mas na direção oposta."

Essas farpas endereçadas a João Paulo II, certamente indecifráveis para as multidões que o aclamam, não impedem o aparecimento nas novas nações católicas da África e da América Latina de um novo modelo cristão de padres entusiasmados com a prática religiosa. No Brasil, os seminários voltaram a abrigar numerosos candidatos ao sacerdócio. João Paulo II naturalmente não é o único responsável por tal fenômeno mas tem muito a ver com isso. Afinal, constata o vaticanólogo romano Marco Politi, "este papa está devolvendo à humanidade o orgulho de ser cristão".


 
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