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  20 de janeiro de 1993
Suave é a noite

Com pesquisas, novas drogas
e tratamentos, a medicina combate com
sucesso os males noturnos que
afligem 50 milhões de brasileiros

A medicina está acordando de uma longa noite de ignorância sobre os mistérios do sono. As terapias e os diagnósticos melhoraram tanto nos últimos dois anos que mais de cinqüenta distúrbios, antes atribuídos à depressão psíquica e a males orgânicos, foram descobertos e estão sendo tratados com sucesso pelos médicos como falhas da mente em repouso. Multiplicam-se os laboratórios especializados no tratamento das doenças que comprometem o descanso noturno. Já existem três em funcionamento no Brasil, dois em São Paulo e um no Rio Grande do Sul. De um deles, dirigido pelo neurologista paulista Rubens Reimão, acaba de sair a mais completa pesquisa com brasileiros que se queixam de dormir mal. Mais de 6.000 pacientes foram ouvidos e surgiram revelações inquietantes. "Quase metade dos insones leva um ano para buscar a ajuda de um médico", diz Reimão. "As pessoas ficam se medicando por conta própria. Não conseguem combater a insônia e ainda podem contrair outras doenças."

No campo teórico, firmou-se a constatação de que o sono não deve ser sacrificado. "Não se pode passar dois dias sem beber água ou uma semana sem comer, mas as pessoas acham que podem dispensar noventa ou 100 horas de sono por mês para trabalhar ou se divertir mais. Isso é um erro", diz o neurologista Charles Pollak, especialista em sono da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, um dos maiores conhecedores do assunto no mundo. O tempo que se passa dormindo, garantem os médicos, não pode ser contabilizado como tempo perdido. O sono é um investimento na manutenção e melhoria das capacidades mentais e do estado de alerta. Somente agora, setenta anos depois de aprender que o cérebro trabalha durante o sono, a medicina descobriu que enquanto a pessoa dorme sua mente está se preparando para enfrentar o novo dia. "Há até bem pouco tempo, os conhecimentos que se tinha sobre esse assunto eram muito subjetivos. A insônia e os outros distúrbios eram subestimados", diz Flávio Aloe, neurologista do Centro de Sono do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

DÉFICIT NOTURNO - Quatro em cada dez pessoas ouvidas pela pesquisa coordenada pelo médico Reimão declararam que dormem menos do que julgam necessário para acordar descansadas. Um terço da população brasileira dorme mal. São homens que roncam com a intensidade de uma serra elétrica, crianças que passeiam à noite pela casa trombando nos móveis em crises de sonambulismo ou mulheres que acordam aos gritos em meio a pesadelos recorrentes. O ranger de dentes é comum entre crianças e adultos. Cerca de 5% dos brasileiros sofrem desse mal que provoca doenças nas gengivas e atrapalha o sono. Os médicos alertam que esses problemas precisam ser medicados com a mesma ênfase com que se busca tratamento para os dois mais comuns e perigosos males do sono, a insônia e a apnéia, uma falha respiratória grave que só agora tem tratamento eficaz.

Também perde horas de repouso um número gigantesco de pessoas que não são doentes mas que trocam sono por trabalho ou diversão. Executivos ambiciosos levam montanhas de papel para casa, estudantes se matam noite adentro às vésperas de provas e mães de recém-nascidos trançam pela casa com seus filhos no colo madrugada afora. Quem fica acordado quando deveria estar dormindo, seja por algum distúrbio de saúde, por obrigação ou estilo de vida, tem uma conta a resgatar com o organismo. Os médicos dizem que essas pessoas têm um "déficit de sono". Esse déficit é cobrado no dia seguinte. Muita gente paga a conta em todos os dias seguintes, ano após ano, na forma de irritação, dificuldade de concentração e lapsos de memória.

ATENÇÃO ABALADA - É em virtude do déficit de sono que se flagram trabalhadores tirando um cochilo no ônibus suburbano e senhores sisudos cabeceando em reuniões. Três ex-ministros da Fazenda do Brasil, um cargo que não dá boa vida para ninguém, foram fotografados dormindo em plena luz do dia - e com muita gente em volta. É o peso da inflação, que tira o sono de noite mas não tem força para tirá-lo também no dia seguinte. Pelo menos um dos ex-ministros, Mailson da Nóbrega, sofreu durante algum tempo de insônia terminal, aquela que desperta a pessoa no final da madrugada. Na época, Mailson pilotava aquela inflação do fim do governo Sarney. Também foram vistos dormindo em público Francisco Dornelles e Luiz Carlos Bresser Pereira, para não voltar ao caso do ex-ministro Paulo Brossard, que dorme e ronca. Nas formas mais graves de déficit de sono, a pessoa vaga pelo dia seminarcotizada. Baixo desempenho escolar e profissional e até acidentes graves estão associados ao déficit de sono. A pesquisa do médico Rubens Reimão mostrou que 50% dos entrevistados - todos pacientes com problemas de sono - acordam no dia seguinte sentindo-se mal ou muito mal.

"O déficit de sono é a maior fonte de limitação da capacidade das pessoas nas sociedades modernas. É espantoso que só tenhamos acordado para isso nos últimos anos", diz o médico Pollak. Pessoas com sono atrasado podem andar, ouvir e enxergar como todas as outras. Os estudos mostram, porém, que a habilidade de raciocínio, o poder de fazer julgamentos e manter a atenção ficam abalados. O médico gaúcho Denis Martinez, da Santa Casa de Porto Alegre e presidente da Sociedade Brasileira do Sono, conduziu uma pesquisa com conclusões semelhantes no Brasil. Ele ouviu 870 operários gaúchos e chegou à conclusão de que dois em cada dez acidentes de trabalho são causados por noites maldormidas. Um estudo feito em 1990 pelo Departamento Nacional de Segurança no Trânsito dos Estados Unidos mostrou que 31% dos desastres rodoviários ocorridos no país podiam ser atribuídos à fadiga do motorista. "Nas estradas os distúrbios do sono matam mais do que as drogas ou álcool", diz Merrill Mitler, diretor de pesquisas do laboratório do sono da clínica Seripps de La Jolla, nos Estados Unidos.

DROGA DA MODA - "Uma noite inteira sem sono derruba a atenção para 30% de sua função normal", observa David Dinges, neurobiologista da Universidade da Pensilvânia. O acidente na usina nuclear de Three Mile Island, em 1979, e o vazamento de óleo do navio Exxon Valdez, no Alasca, em 1989, podem ser atribuídos ao déficit de sono. Em Three Mile Island, um funcionário-chave dormia quando o painel a sua frente acusou o crescimento exagerado da pressão no vaso do reator. O timoneiro, se não estivesse dormindo em pé, poderia ter salvo o Exxon Valdez de colidir com um recife. Conspiraram para o acidente duas falhas, pois o capitão do navio, no instante da manobra trágica, estava embriagado em sua cabine.

Os mais numerosos devedores de sono são as pessoas que sofrem de insônia. A pesquisa de Reimão mostra que quase a metade dos insones brasileiros é do tipo que não consegue adormecer, um terço acorda sobressaltado à noite e apenas oito em 100 têm a insônia terminal. São cerca de 10 milhões de adultos com um dos três tipos deste distúrbio no Brasil. Atingidos pela insônia, a modelo Mônica Fraga, 23 anos, e o compositor Jards Macalé, 49, ambos cariocas, tiveram reações diferentes. Mônica sofreu muitos anos antes de procurar um médico que lhe receitou calmantes, vitaminas e resolveu seu problema. Macalé se considera um caso fora do alcance da medicina. "Meu relógio biológico é diferente do da maioria das pessoas", diz o músico. Ele engole de vez em quando um comprimido do remédio Lexotan, uma droga contra ansiedade que virou moda como sonífero no Brasil (veja quadro à pág. 60).

SONO DE NAPOLEÃO - Para sofredores noturnos de todos os tipos há boas notícias. Os métodos de diagnóstico e tratamento em laboratórios dedicados apenas ao sono tornam-se cada dia mais eficientes. Terapias que misturam técnicas de relaxamento com drogas de terceira geração - como o Imovane, vendido no Brasil pela Rhodia - que não causam dependência física podem curar quase 90% dos casos de insônia. "Atualmente os médicos podem realmente dar algum alívio a seus pacientes", diz Reimão. A pesquisa coordenada pelo médico paulista reuniu dados enviados por mais de 2.000 médicos no Brasil e revelou que as mulheres são mais decididas quando se trata de procurar um médico. "Alguns homens acham que é demonstração de coragem pessoal enfrentar noites maldormidas", diz o pesquisador paulista. A tradição deve ser antiga. Atribui-se a Napoleão a afirmação de que "os homens dormem duas horas, as mulheres quatro e os idiotas oito". De batalhas, Napoleão entendia. Em matéria de metabolismo humano, era um idiota.

Entre as mais recentes conquistas da medicina no campo do sono está a compreensão detalhada de um distúrbio devastador, a apnéia, um problema pouco conhecido pelo público em geral, incluída aí a maioria de suas vítimas. Muitas pessoas que têm apnéia percebem apenas os sintomas da doença: cansaço crônico, mau humor, irritabilidade e concentração fora de foco. Em geral, atribuem esses sintomas a causas como o excesso de trabalho, stress, crises matrimoniais. A apnéia, que pode ser definida como uma interrupção sistemática da respiração durante vários segundos pelo fechamento das vias aéreas, ataca quase dois milhões de brasileiros. Já podem ser feitos no país tratamentos especiais e cirurgias para a correção do problema. O diagnóstico feito nos laboratórios do sono, onde a pessoa passa uma noite conectada a aparelhos, é bastante preciso. A maioria das pessoas que sofrem dessa síndrome são homens gordos que roncam muito - toda vítima de apnéia ronca, mas nem toda pessoa que ronca tem apnéia. Raramente ela ataca mulheres.

MÁSCARA DE AR - A apnéia pode interromper o fluxo de ar para o pulmão até 1.000 vezes durante uma única noite de sono. Quando a pessoa adormece, a musculatura relaxa e os tecidos das vias respiratórias cedem e fecham a passagem do ar. Os gordos têm mais problemas justamente porque têm mais tecidos no fundo da boca (o palato mole) e no interior da garganta. A vítima de apnéia não descansa, pois a cada período sem ar o cérebro ordena ao organismo que reaja. O doente não acorda inteiramente e nem se dá conta da natureza do problema. A longo prazo, a apnéia pode provocar infarto, derrame e hipertensão. Como efeito imediato, a pessoa passa o dia caindo de sono, perde a capacidade de se concentrar, sofre falhas de memória e tende a compensar as noites maldormidas com cochilos constrangedores na sala de espera do dentista, na mesa de trabalho e diante da TV. Há o perigo de dormir no volante do carro, e isso efetivamente ocorre em muitos casos. Paulo César Farias, o amigo de Fernando Collor e do Erário, foi a Barcelona, na Espanha, fazer um diagnóstico de seus problemas e descobriu uma apnéia. Seu ronco é famoso.

Há duas abordagens para o problema, ambas disponíveis no Brasil. O tratamento cirúrgico, que retira o excesso de tecido das vias respiratórias, dá certo em apenas 50% dos casos. Com o outro socorro, uma máscara ligada a um compressor de ar que a pessoa usa à noite para injetar ar sob pressão no pulmão, os médicos obtêm 60% de resultados positivos. Na semana passada, o comerciante gaúcho José Roque Bresolin, de 37 anos, ouviu dos médicos da Santa Casa que ele sofria de apnéia. Bresolin foi monitorado durante uma noite e teve cerca de 300 paradas respiratórias. "Minha mulher deu o alarme. Ela notava que toda a noite eu parava de respirar entre um ronco e outro", conta Bresolin. Ele só se animou a procurar os médicos depois da morte súbita de um amigo de 48 anos com apnéia noturna diagnosticada. "Pensei que podia estar indo pelo mesmo caminho", diz ele. Um terceiro tratamento, mais novo, consiste num aparelho parecido com os ortodônticos, que coloca o maxilar numa posição que abre a garganta e permite respirar melhor.

Além de tratar as doenças do sono com porcentagens de cura cada vez mais altas, os médicos conseguem responder com mais precisão à pergunta que a humanidade se faz há milhares de anos: o que é o sono? Os gregos acreditavam que o sono era um castigo, uma maneira de os deuses manifestarem aos homens sua fragilidade. O coração, segundo Hipócrates, mandava o corpo dormir quando atingia seu ponto máximo de excitação. Sigmund Freud, no capítulo quatro de seu último livro, Moisés e o Monoteísmo, de 1939, atribuiu o sono a um instinto. "Ao nascer a pessoa traz ao mundo o instinto de retorno à vida intra-uterina que acaba de ser abandonada. Este instinto é o de dormir. O sono é uma forma de retorno ao útero", escreveu o pai da psicanálise. Se Freud estiver certo e se houver mesmo o instinto da volta ao útero e sua materialização diária pelo sono, então há pessoas com maior e menor vontade de viajar para as entranhas da mãe.

OS FELIZARDOS - Um adulto precisa, em média, de sete a oito horas de sono por noite. Os pesquisadores descobriram, porém, pessoas sadias muito acima e abaixo dessa faixa. "Uma pessoa em 100 precisa dormir mais de dez horas por noite para se refazer totalmente. No outro extremo, uma em 100 também precisa de apenas quatro horas para estar completamente alerta no dia seguinte", explica o médico Pollak. "Mas não adianta forçar. As pessoas nascem assim. Não se trata de uma questão de aprendizado ou sacrifício." As pessoas que dormem pouco e repousam inteiramente são felizardos que podem se vangloriar de viver 50% a mais do que os mortais comuns. Ao final de uma vida de 80 anos, esses indivíduos terão vivido o que equivaleria a 120 anos para uma pessoa de padrão convencional de sono. O senador Marco Maciel, do PFL de Pernambuco, é um desses tipos raros. "Durmo quatro horas por noite e não sinto nada de anormal no outro dia", diz Maciel, que tem quatro horas sobressalentes para ler na madrugada, enquanto os demais estão com o cérebro adormecido num travesseiro.

Pessoas em evidência, no auge da carreira e em cargos públicos de alta responsabilidade costumam dormir menos do que precisam por motivação genuína, vaidade ou para vender uma imagem de dinamismo. O pesquisador americano James Walsh, um dos pioneiros das pesquisas de insônia, escreveu uma carta ao presidente eleito dos Estados Unidos, Bill Clinton, assim que o ouviu falar num programa de televisão que dormia apenas seis horas por noite. No mesmo programa George Bush revelou dormir menos de seis horas por noite e revelou-se que o ex-presidente Lyndon Johnson gostava de dizer que dormia apenas quatro horas. "Pessoas altamente motivadas conseguem reduzir o período de sono em algumas horas - mas esse estado de euforia não dura para sempre", escreveu Walsh.

MERGULHO PROFUNDO - Adormecer descansa o corpo e alivia os problemas emocionais, mas para o cérebro é um período de intensa atividade. Durante as diversas etapas do sono, o cérebro desliga os circuitos que funcionam mais durante o período em que a pessoa está acordada e, ao mesmo tempo, pluga outros neurônios que vão zelar pelo organismo durante o repouso. O processo pode ser comparado a um mergulho em que o nadador vai lentamente explorando regiões cada vez mais profundas. Cada profundidade corresponde a um estágio do sono sadio. O primeiro estágio é uma zona de sombra muito rasa entre a vigília e o adormecimento. A pessoa que for subitamente despertada nesse estágio volta a si velozmente.

CHAVE DOS MISTÉRIOS - O sono de verdade começa mesmo no segundo estágio, quando já se passou cerca de meia hora de perda da consciência. "É um período de enorme atividade neuronal em que o cérebro se prepara para enfrentar as profundidades abissais da inconsciência. Como um submarino, ele fecha as comportas para o mundo real, desligando os sentidos", define Anthony Crisp, psiquiatra-chefe do laboratório de distúrbios do sono do Serviço Nacional de Saúde dos Estados Unidos. O sono profundo é o que mais interessa aos pesquisadores. Essa fase conhecida como REM, sigla em inglês para "movimento rápido dos olhos", foi descoberta em 1953 pelo pesquisador americano de origem polonesa Eugene Aserinsky. Examinando recém-nascidos num berçário, ele notou que as crianças, mesmo estando com os olhos fechados, mexiam caoticamente o globo ocular a intervalos regulares de duas horas, em média.

A descoberta de Aserinsky confirmou o que já se suspeitava desde a década de 20, quando cientistas alemães, usando um aparelho de eletroencefalograma, conseguiram medir ondas cerebrais em pessoas adormecidas. A constatação de que no sono o cérebro trabalha - e muito - abriu as portas para a maioria dos tratamentos bem-sucedidos de doenças do sono que a medicina pode oferecer atualmente. Sonhos, pesadelos, roncos, sufocamentos, crises de sonambulismo, enfim, nove em cada dez distúrbios noturnos ocorrem na fase profunda do sono. Nesse período, parte do cérebro comporta-se misteriosamente, como se a pessoa estivesse acordada. A pressão arterial varia, a pulsação segue o ritmo dos sonhos e o consumo de oxigênio pelas células cerebrais é tão intenso quanto o da pessoa acordada. Os períodos de sono profundo duram cerca de 45 a sessenta minutos. Neles está a chave para se resolverem os mistérios do corpo em repouso.

Com exceção da apnéia, a suspensão passageira da respiração durante o sono, num processo repetido, não há muita razão para grandes preocupações entre as pessoas com algum tipo de problema de repouso. "Duas noites maldormidas seguidas equivalem em mal-estar a uma boa surra", diz o pesquisador Reimão. "Não há quem não tenha experimentado ficar uma ou duas noites sem dormir. É como ter sede ou fome", compara o médico gaúcho Denis Martinez. Os pesquisadores ainda não encontraram provas irrefutáveis de que a privação do sono seja a causa de doenças graves. Também não se encontraram evidências de que uma ou duas noites sem sono possam predispor a pessoa a pegar resfriados ou gripes.

BEBÊ DESPERTADOR - Descobriu-se também que uma noite bem-dormida restaura 90% da atenção e da capacidade mental. Uma segunda noite impecável e a pessoa volta a sua forma normal. "Quando a insônia é ocasional e não tem uma causa física que necessita tratamento especializado, o remédio para ela é uma boa noite de sono", diz Martinez. Nem sempre isso é possível. A atriz Vera Fischer não dorme uma noite inteira desde que o filho Gabriel nasceu, há um mês. "Durmo quando ele deixa. Acordo pelo menos três vezes durante a noite para amamentar. O resultado é que no dia seguinte fico exausta", diz a atriz.

Os médicos alertam: não há barganha possível nesses casos. "Para os que se sobrecarregam a ponto de ficar com poucas horas destinadas ao sono, trabalhando em três empregos, por exemplo, não há conselho possível", garante o neurologista Martinez. "São pessoas que estão simplesmente vendendo sua saúde no mercado de trabalho." Mães, estudantes, motoristas de caminhão, executivos compulsivos, leitores vorazes e outros insones por opção ou necessidade torcem para que a ciência consiga produzir um dia uma pílula do sono. Bastaria um copo d'água e um comprimido para repor uma noite perdida. Os médicos acham difícil chegar a uma solução química do tipo bala de prata, mas apostam no avanço das drogas, terapias de relaxamento, na mudança de hábitos das pessoas e na exigência das empresas com relação a seus funcionários. Eles têm um bom argumento. Assim que se publicaram amplamente pesquisas sobre os efeitos danosos do fumo e do colesterol, seu consumo foi drasticamente reduzido nos países industrializados. Com as revelações dos custos sociais e pessoais do déficit de sono espera-se uma reação semelhante. •

Uma saída química
Pílulas para dormir, segundo o NIH, o instituto americano de saúde, podem ser tomadas no máximo por três semanas e, mesmo assim, em dias alternados. Os médicos citam dois casos clássicos em que elas são receitadas para pessoas sadias. O primeiro é a morte de um parente querido. A insônia provocada pela dor da perda nos primeiros dias pode ser combatida em segurança com pílulas para dormir. O segundo caso é o executivo que fará uma palestra para a diretoria. A tensão das noites que precedem a reunião pode ser amenizada com remédios. O uso continuado de soníferos, no entanto, é condenado porque provoca amnésia parcial, depressão e, em alguns casos, dependência física da droga. "A insônia crônica tem causas subjacentes que o comprimido não resolve", diz o médico Sérgio Tufik, da Escola Paulista de Medicina.

Um novo tipo de sonífero de última geração, a ciclopirolona, chegou ao Brasil há alguns meses trazido pela Rhodia, com o nome de Imovane. O fabricante garante que a nova droga, já vendida na Europa, não causa dependência. A FDA, o órgão de controle de remédios dos Estados Unidos, ainda não aprovou sua venda no país. A pílula para dormir mais usada no Brasil, o Lexotan, da Roche, não é um sonífero, mas um calmante. O Lexotan age no sistema nervoso central e só pode ser vendido mediante receita médica. "Comecei a tomar Lexotan porque acordava pronta para tudo enquanto a cidade toda dormia", conta a carioca Danuza Leão. Danuza experimentou há dias um outro remédio, o Dormunid, um hipnótico capaz de induzir o sono. "Traí o Lexotan", diz Danuza. "O Dormunid derruba em vinte minutos." O ex-ministro da Fazenda Gustavo Krause, que sofre de insônia crônica, fez do Lexotan seu companheiro por muitos anos. "Chegou a hora de decretar guerra ao remédio. Se não tiver sono vou ficar acordado e pronto", decidiu Krause.

 

 

 

 

 

 

 

 

 
     
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