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  19 de novembro de 1986
De costas para o voto

Fechadas as urnas, o governo abre
um pacote com novos preços, índices
e mais impostos sobre os assalariados
de classe média

Ao longo de toda esta semana os eleitores vão fazer as contas para saber quem ganhou as eleições, mas a principal conta, a única que de fato irá alterar imediatamente no mundo real a vida do cidadão, estará sendo feita nos gabinetes da equipe econômica do governo. Horas antes do fechamento da última urna, no sábado, o ruído da eleição se contrapunha ao silêncio em meio ao qual se montava o mais novo pacote da economia pós-cruzado - um bloco de medidas que, pelas estimativas feitas no Palácio do Planalto, deverá entrar em vigor até esta sexta-feira, incluindo aumento de preços e elevação efetiva da carga tributária dos assalariados. Elas vêm, segundo o governo, para conter a demanda, que cresce num ritmo maior que a capacidade de produção das indústrias, e preservar os ganhos conquistados pelos assalariados de mais baixa renda desde o anúncio do Plano Cruzado. Por trás dos ajustes e correções na política econômica, prepara-se também, direta e indiretamente, uma nova investida sobre os bolsos dos contribuintes.

Com duas facetas principais, o pacote em estudo pela equipe comandada pelos ministros da Fazenda, Dilson Funaro, e do Planejamento, João Sayad, reúne medidas voluntárias de estímulo à poupança e medidas compulsórias - algumas para levar o cidadão a poupar mais do que já estaria poupando e outras para corrigir preços e tarifas. Inclui, também, algo que já se vai tornando inevitável toda vez que se fala em mudar a economia: o aumento da arrecadação por parte do governo. O impacto do braço compulsório do pacote está dado pelas estimativas preliminares do Ministério da Fazenda sobre quanto as novas medidas podem render ao governo - uma cifra da ordem de 110 bilhões de cruzados, cerca de 30% da receita total de impostos pagos pelos brasileiros neste ano.

Numa evocação do que ocorrera em 1982, quando o governo João Figueiredo escondeu até o dia das eleições o fato de que o Brasil estava quebrado nas suas contas externas, ia pedir ajuda ao Fundo Monetário Internacional e aprontava-se para mergulhar numa profunda recessão, o governo José Sarney trancou a sete chaves uma notícia que político algum se interessou em filtrar nos palanques ou no horário eleitoral gratuito: que medidas duras estavam em gestação para consertar os desajustes do Plano Cruzado e, de quebra, engordar as verbas em poder da máquina estatal. "Colocar em debate um elenco de medidas econômicas às vésperas de uma eleição é problema de juízo da conveniência política", argumenta o ministro-chefe do Gabinete Civil do governo Figueiredo, João Leitão de Abreu - que em 1982 foi um dos que preferiram ocultar a ida do país ao FMI, receoso de que tal informação prejudicasse o desempenho do PSD nas eleições.

Quatro anos depois, aqueles que, na oposição da época, disparavam munição pesada contra esse tipo de comportamento hoje sobraçam o mesmo argumento - o de que abrir o jogo sobre a decretação de medidas econômicas na estação eleitoral é insultar as regras elementares do manual do voto. "Falar de mudanças num plano que a população de um modo geral acha que deu certo não tem apelo eleitoral algum", justifica um ministro do PMDB que subiu a vários palanques de candidatos de seu partido nestas eleições - e nas de 1982 se elegeu deputado acusando governo da época de falsear a situação econômica do país. O ministro da Cultura, economista Celso Furtado, encontra outras razões para que o pacote que vem aí não tenha sido tema de campanha. "Quando estávamos na oposição fazíamos debates, seminários, reuniões", lembra Furtado. "Hoje, não há mais essa discussão porque não temos uma oposição capaz de discutir os assuntos com a sociedade". Na visão do ministro, apenas os líricos, e não os cidadãos efetivamente atingidos pelas mudanças econômicas, teriam o direito de participar dos debates.

"Tradição de otimismo" - O chefe do Gabinete Civil, ministro Maciel, que em 1982 se elegeu senador pelo PDS de Pernambuco, acha não é justo comparar o silêncio de 86 com o silêncio de 1982 - as atuais eleições, sustenta ele, não guardam relação com a campanha eleitoral anterior. Naquela época, o governo negava que o país estivesse insolvente e negociando com o FMI um ajuste econômico que resultaria, mais tarde, numa recessão. Hoje, o governo simplesmente se calou. "O país amadureceu muito desde 1982", afirma Maciel. "O apelo que os candidatos fizeram em defesa do Plano Cruzado durante a campanha foi correto, porque ninguém está preparando uma armadilha para o eleitor". O chefe do Gabinete Civil de Sarney concorda, todavia, em que existe uma "tradição de otimismo" nas temporadas eleitorais.

Foi em nome dessa tradição que o presidente nacional do PMDB e da Câmara, deputado Ulysses Guimarães, questionou diversas vezes o ministro Funaro sobre as mudanças econômicas que a equipe do governo vinha elaborando em sigilo. "Será que você vai conseguir segurar o congelamento até as eleições?", questionava Ulysses a Funaro, segundo um ministro peemedebista. O presidente nacional do PMDB não foi, porém, o único político a pedir que o governo nada fizesse na área econômica até o dia 15 de novembro. "Não só do PMDB, mas candidatos do PFL também fizeram o mesmo apelo", revela outro peemedebista do ministério Sarney. Alguns preferiram escapar logo do assunto. "No momento, só posso pensar em eleições", desculpou-se na semana passada o ministro da Educação, Jorge Bornhausen, que estava em Florianópolis em campanha. Na prática, a nível de campanha eleitoral, assim, viveu-se uma situação segundo a qual a eleição serviria apenas para eleger candidatos e não para expressar a vontade do povo.

"Eleição é sinônimo de euforia", constata Maciel. "Ou, como já disse o ex-ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen, é sinônimo de emissão - todos querem seus pleitos atendidos e acham que o governo deve abrir os cofres públicos." Outro ex-ministro, Antônio Delfim Netto, que em 1982 assinou o acordo com o FMI e este ano candidatou-se à Constituinte, baseia-se em sua experiência para achar que há semelhanças entre os processos políticos que revestiram as duas eleições. "Esse filme eu já vi", ironiza Delfim. "Suspeito que, quando o governo diz que vai corrigir o Plano Cruzado, ele quer dizer que vai fazer alguma coisa desagradável". Na semana passada, em Brasília, de fato, a euforia eleitoral cedia lugar à realidade do mundo da economia - algo de que o eleitorado já desconfiava e levou Funaro a assegurar na última terça-feira, no Rio de Janeiro, que "não existe nenhuma coincidência entre as eleições de 1982 e o pleito deste ano".

Chuva no comício - Funaro foi ao Rio para prestigiar o comício do candidato a governador Wellington Moreira Franco, cancelado na última hora debaixo de chuva. Foi a deixa que o ministro da Fazenda encontrou para encurtar sua aparição em público - sua preocupação, assim como a dos demais membros da equipe econômica do governo, era tentar evitar ao máximo o vazamento daquilo que está sendo cozinhado para reformar a política econômica. Já na quarta-feira pela manhã Funaro apresentou as medidas em estudo ao presidente José Sarney durante um longo despacho, segundo um assessor presidencial, no Palácio do Planalto. No dia seguinte, com Sayad já de volta de seu giro ao exterior, ambos reuniram-se por mais 2 horas com Sarney - que também se mostrava contrariado, na semana passada, com as especulações a respeito do que o governo iria ou não fazer nesta nova reforma, insistindo em que sua palavra final sobre as mudanças ainda não estava dada. A partir daí o pacote começou a tomar a forma final. Acertada uma decisão, ela vai sendo enviada ao consultor-geral da República, José Saulo Ramos, para os acertos legais.

O objetivo central de tudo o que se porá no pacote é reduzir o consumo, aumentar a poupança, incentivar os investimentos em projetos industriais, manter o nível de renda das famílias de até cinco salários mínimos - 4 020 cruzados -, cortar as despesas públicas e melhorar as receitas do Tesouro. Como pano de fundo, o governo identificou uma rápida deterioração das contas externas do país, em queda por força do grande consumo no mercado interno - o que leva importações a subir e exportações a cair -, e o início de rachaduras mais sérias nos alicerces da economia engessada, golpeada pelo ágio. Diagnóstico final: todos os males que solapam o sucesso da reforma econômica de 28 de fevereiro estariam no desbalanceamento entre o consumo e a produção. Como reverter tal processo é o que estava em discussão em intermináveis reuniões que se iniciavam no Ministério da Fazenda e no Planalto e terminavam altas horas noite na residência de Funaro.

Alguns temas já estão praticamente certos, enquanto outros ainda se mantêm submetidos a um processo de avaliação tanto a nível técnico como político. É assim que, na questão reajustes das tarifas públicas, a Seplan se bate com o Ministério da Fazenda para incluir produtos como o aço, os combustíveis e a energia elétrica consumida pelas indústrias. A assessoria de Funaro questiona, porém, que os ajustes de preços têm de levar em conta a cadeia de custos industriais. O aumento do aço, exemplo, desencadearia um processo de reajustes sucessivos, a partir da porta da siderúrgica, que iria bater num necessário aumento dos preços das geladeiras. A idéia que até o final da semana passada tinha maior adesão prévia, no caso das estatais, os reajustes dos serviços finais - aqueles que, grosso modo, não onerariam os custos das empresas. Em última instância, seriam pagos pelos consumidores, pessoas físicas que não têm a quem repassar suas despesas.

Assim, já estavam praticamente aprovados os reajustes das contas da energia elétrica consumida em residências e no comércio, do telefone e dos serviços dos Correios. Na terça-feira, numa reunião no Ministério da Fazenda, o titular da Secretaria de Controle das Empresas Estatais, Antoninho Trevisan, foi persuadido pelo assessor especial do ministro Funaro, economista João Manoel Cardoso de Mello, a não iniciar a defesa dos reajustes dos preços do aço produzido pelas siderúrgicas do grupo Siderbrás. "As estatais, assim como as empresas privadas, têm de buscar produtividade e parar de querer resolver seus problemas repassando tudo para as costas do consumidor", costuma repetir Cardoso de Mello nessas reuniões. Como, notoriamente, a Siderbrás trabalha com déficit colossal, as siderúrgicas estatais terão de conviver mais algum tempo com subsídios do Tesouro.

Carona no reajuste - No caso dos preços de alguns produtos do setor privado, o governo decidiu tomar carona nos reajustes. Pretende-se, no caso, acertar os preços dos produtos que foram congelados em 28 de fevereiro em níveis abaixo do custo de produção. Estão incluídos na primeira leva os remédios, os cigarros, os automóveis, os caminhões e o leite e seus derivados, como queijos e iogurtes. A totalidade do aumento, contudo, não será faturada pelo fabricante. Uma parcela ficará com o próprio governo mediante o aumento de alíquota do imposto sobre produtos industrializados, o IPI. Não está descartada também a hipótese de alguns setores, como o das montadoras de veículos, virem a ter de negociar com seus fornecedores diretos - a indústria de autopeças - o repasse de parte do aumento que conseguirem.

Como regra geral, contudo, todos os preços reajustados voltariam logo em seguida a ser congelados novamente. "A retirada gradativa do gesso só começará quando as medidas de redução do consumo surtirem efeito", afirma um assessor do ministro da Fazenda. "Até lá, não se fala em descongelamento de preços". Essa rachadura nos preços engessados, no entanto, já seria o bastante para trazer de volta a inflação em níveis de 3% a 5% ao mês, ou cerca de 60% ao ano. É febre alta - e, para enfrentá-la, a idéia que mais simpatias criou dentro do governo é a troca do termômetro, criando um novo índice para medir a inflação. O IPC, dessa forma, seria substituído por outro indicador, já batizado de "cesta básica", que registraria a evolução apenas do padrão de consumo de famílias com até cinco salários mínimos (SM) de renda mensal. A lista de mercadorias que teriam sus preços pesquisados para formar esse novo índice seria sucinta. Nela haveria, por exemplo, apenas um tipo de camisa, sapatos ou de televisor. Naturalmente, a maior parte desses itens estaria com os preços tabelados e, assim, a inflação oficial poderia ser sempre baixa.

Inflação Administrada - O novo índice de inflação passaria a ser o fator de correção dos que ganham até cinco SM. Essa inflação "administrada" seria menor que a inflação efetiva registrada no país - mas, compensação, os produtos básicos consumidos pelas famílias de renda mais baixa continuariam com os preços tabelados. O problema já detectado pelas áreas políticas governo está com os assalariados que ganham acima de cinco SM. O que acontece nesse caso? Se a aplicação do índice da cesta básica for estendida a todos os salários indistintamente o resultado previsível seria um brutal arrocho, sobretudo da classe média - cujos reajustes seriam inevitavelmente inferiores ao aumento real do custo de vida, já que seu consumo efetivo inclui um volume de itens muito superior aos que compõem a cesta básica. A alternativa em estudo passa pela liberação das negociações salariais, ficando garantidos apenas os reajustes dos salários menores. Mas ainda existem mais dúvidas que soluções.

O empresário Eugênio Staub, presidente da indústria eletroeletrônica Gradiente, aplaude a concessão de maiores graus de liberdade às negociações salariais, mas teme seus efeitos num primeiro momento se forem eliminados de uma só vez os mecanismos de referência para os reajustes. "Não é improvável a eclosão de tensões sociais e políticas", prevê Staub. O economista Carlos Antônio Rocca, presidente das lojas de departamento Mappin, também olha de lado para a idéia. Afinal, há várias questões ainda mal resolvidas nas relações entre as empresas e seus funcionários. Primeiro, os salários estariam inteiramente liberados, mas os preços continuariam congelados. A solução teria de passar por negociações realmente diretas das empresas com seus funcionários.

Surge aí a questão das negociações coletivas, a cargo de sindicatos, nas quais são firmados acordos válidos para todo um setor. A negociação direta choca-se com as convenções salariais coletivas. Não existe, além disso, uma lei de greve coerente com a liberdade de negociações salariais. "O primeiro passo de uma medida como essa pode ser o acirramento das reivindicações", alerta Rocca. A própria alteração no índice de inflação poderia trazer sérias repercussões. É o que previne o ex-ministro Mário Henrique Simonsen. "Não é nada bom mexer no índice mais uma vez, principalmente no momento em que o governo mais precisa de apoio da opinião pública", adverte Simonsen.

Implodir o Gatilho - Na verdade, não há como fazer mágica com índices de inflação quando os preços são reajustados. O resultado natural é o aumento do índice, e mais natural ainda a pretensão de quem se sente prejudicado de pleitear compensações. Não foi por outra razão que a equipe econômica do governo tentou antecipar-se às reações contra a mudança do IPC ao tentar implodir o mecanismo do gatilho - a salvaguarda, criada no bojo do Plano Cruzado, que prevê reajustes automáticos dos salários sempre que a inflação acumulada a partir de 28 de fevereiro último atingir 20%. Tal fato, se não se mudar o índice, poderá acontecer por volta de março ou até antes com os aumentos de preços programados no pacote econômico ora em gestação.

Um complicador não previsto, além disso, foi a descoberta, pelos economistas do governo, de que os reajustes salariais por conta do acionamento do gatilho podem, legalmente, ser repassados pelas empresas aos preços de seus produtos. Seria a volta da corrida preços-salários-preços. O mecanismo, por decisão do governo, será preservado, mas sofrerá uma regulamentação. Isto quer dizer, na prática, que o governo considerará descontáveis no cômputo do gatilho todos os reajustes salariais concedidos anteriormente pelas empresas. Assim, quem já tivesse recebido um reajuste de 18%, por exemplo, só faria jus à diferença entre este percentual e o da inflação acumulada de 20% no instante em que o gatilho fosse acionado. Receberia, assim, um reajuste de 2%. "Suprimir o gatilho seria uma insensatez", constata o ministro do Trabalho, Almir Pazzianotto. "Regulamentá-Io é uma medida de sabedoria política".

Mesmo assim, o panorama no meio sindical inspira cautela. Na semana passada, Funaro pôde sentir de perto a quantas anda o clima nessa área. Na quarta-feira, eclodiu uma greve em sua própria indústria, a Trol, fabricante de brinquedos no ABC paulista, em protesto contra a decisão da empresa descontar do reajuste salarial negociado para valer a partir de dezembro uma antecipação de 12,5% concedida em junho. "Não foi a Trol que não quis conversar, mas o sindicato é que não nos deu tempo de pensar direito", argumenta o presidente da empresa Gabriel Ferreira de Paula, que ajuizou uma ação contra o sindicato pedindo a ilegalidade da greve e demitiu 22 grevistas.

Oposição Aberta - Ao contrário do clima subseqüente ao Plano Cruzado, o governo está encontrando uma oposição às novas medidas que, anteriormente, só era manifestada a portas fechadas. O aumento do IPI, por exemplo, provocou surpresas entre os empresários. "Nós já pagamos 80% de IPI", surpreendeu-se o presidente da Brahma, Hubert Gregg, um empresário que cultiva habitualmente a discrição. "É um contra-senso aumentar o imposto, pois o que a indústria precisa é de incentivos para poder atender a demanda". Pelos planos do governo, a receita adicional a ser obtida com o IPI será usada no resgate dos títulos federais que formam a chamada dívida interna. Diminuindo seu tamanho, diminuiria também a pressão do Tesouro no mercado financeiro e, em conseqüência, poderiam cair os juros. Na semana passada, eles estavam em queda, diante da expectativa do pacote, mas continuavam excessivamente altos.

A medida mais rápida para baixar juros, segundo os banqueiros, consiste na redução das próprias taxas pagas a quem aplica em títulos federais ou na queda da taxa do recolhimento compulsório ao Banco Central de parte dos depósitos à vista captados pelos bancos. O que estava em cogitação, contudo, prevê outra destinação a esses depósitos - que, segundo os livros básicos de economia, servem para regular o volume do crédito na economia. Conforme se girasse essa válvula, o crédito ficaria mais curto ou mais farto, dependendo dos objetivos que se queira: estimular ou não o ritmo dos negócios na economia. No Brasil, há décadas a verdadeira finalidade de tais depósitos tem sido outra: cobrir rombos de caixa no BC ou o déficit público. Agora, teriam também uma outra função: engrossar as linhas de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES, destinadas ao financiamento de projetos industriais.

Os banqueiros, que em fevereiro absorveram calados o golpe representado pelo fim da correção monetária em suas operações, dessa vez resolveram protestar sem cerimônias. "Essa é mais uma medida estatizante, sem nenhuma justificativa", afirma o presidente do Banco Itaú, José Carlos Moraes Abreu. "O estado não se tem mostrado competente no gerenciamento do crédito. Basta ver o que aconteceu no crédito rural, no qual só se consumiu dinheiro e mais dinheiro do contribuinte". O vice-presidente do Banco Real, Juarez Soares, também bateu direto: "Os bancos privados são mais competentes que os estatais. Não aceitamos riscos inaceitáveis, que surgem em bancos públicos por influências políticas".

O Norte do pacote - Na amarração do pacote, apesar dos protestos dos setores prejudicados, o norte das medidas está em suas implicações, de acordo com o objetivo que se pretende implementar. Assim, reajustaram-se preços, mas se muda a inflação, para que ela continue como se nada tivesse acontecido e os salários não cresçam pela automaticidade da correção. Ao contrário, o objetivo, aí, é reduzir o consumo - e o caminho mais fácil e rápido passa pela diminuição do poder aquisitivo dos salários. Noutro lado, quer se aumentar os investimentos, mas falta dinheiro. Solução? Tirar de quem tem, os bancos privados. Precisa-se aumentar as receitas tributárias do governo. Então, aproveita-se a deixa dos reajustes de preços e majora-se o IPI.

Foi assim que se considerou na hora em que o presidente José Sarney deu sinal verde para que a equipe econômica podasse parte dos subsídios pagos aos produtores de trigo, aos plantadores de cana-de-açúcar e aos fabricantes de açúcar e álcool. No primeiro caso, a idéia é reduzir o subsídio, que este ano custará ao Tesouro cerca de 23 bilhões de cruzados, à metade desse desembolso. Noutro, a depuração seria mais lenta, dadas as implicações políticas em duas regiões canavieiras socialmente sensíveis: Pernambuco e Alagoas. Em ambos os casos, assim como no do leite, o ônus da redução do subsídio será custeado pelo consumidor. Não todos - a exigência de Sarney é no sentido de que as famílias mais pobres não paguem os custos do novo pacote. Assim, arquitetava-se uma compensação, válida apenas aos que ganham até cinco SM. Tais assalariados teriam um desconto na taxa de contribuição previdenciária equivalente ao que passariam a despender a mais com os reajustes dos preços dos produtos de primeira necessidade. Calcula-se que o custo dessa compensação seria da ordem de 2 bilhões de cruzados - o dinheiro viria da própria redução do subsídio ao trigo.

Pelas contas do governo, para se dar um tranco claro no atual nível de consumo e, adicionalmente, aumentar o volume de dinheiro dirigido aos investimentos, ainda seriam necessárias medidas de estímulo à poupança. Elas viriam sob a forma de variantes da velha caderneta de poupança. Três versões já estariam aprovadas: uma vinculada à compra da casa própria, outra reservada à captação de depósitos de pessoas jurídicas e uma terceira destinada a juntar o capital para a compra de telefone ou viagens turísticas. Ainda não está descartada a hipótese de um substancial incentivo fiscal, deduzível no imposto de renda, aos aplicadores nessas cadernetas. Mais incerta é a situação da proposta que envolve a criação de uma poupança voluntária em termos, já que submeteria os não optantes a sanções fiscais. Sarney não está convencido do acerto político dessa medida, que afetaria, sobretudo, a classe média. A nova poupança, se vier a ser aprovada, já tem nome. Foi batizada pela equipe econômica do governo de "voluntório", mistura de voluntário com compulsório.

Onde a classe média já está fadada a contribuir mais ao governo, na verdade, é no imposto de renda recolhido fonte. Tais contribuições foram reduzidas no pacote fiscal do fim do ano passado, detonando o processo de aumento do consumo que agora o governo quer verter. Assim, a idéia é não corrigir a tabela progressiva em janeiro, como deveria ocorrer, evitar que, por simples acréscimo salarial por conta da recuperação do poder aquisitivo perdido com a inflação, os contribuintes passem a pagar mais imposto. É a mesma política que o ex-ministro da Fazenda Francisco Dornelles tentou aplicar em junho ano passado e não conseguiu graças à oposição de Sarney. Só por aí o governo estima ganhar à custa dos contribuintes, de vez, mais 25 bilhões de cruzados. Além do IPI, portanto, estuda-se um aumento efetivo do IR, apesar das declarações de Sarney segundo as quais não haveria aumentos impostos. O fato é que, tecnicamente, o governo não precisa fazer nada - basta que deixe a tabela do IR como está para que cidadão passe a tirar mais do bolso.

Na questão cambial, segundo garantem todos os funcionários envolvidos na montagem das peças do novo pacote, a intenção é esperar para ver. Não haveria, assim, nenhuma medida nesse setor, embora empresários como Laerte Setúbal, da Duratex, e economistas como Antônio Rocca, do Mappin, estimem a existência de uma defasagem cambial de 12% a 20%. Circula junto aos principais assessores de Funaro e Sayad, no entanto, um estudo segundo o qual o governo poderia vir a dar um incentivo fiscal da ordem de 10% aos exportadores. A taxa cambial, nesse caso, permaneceria no atual nível de 14,04 cruzados.

O capítulo que se refere à contenção de gastos do setor público, enfim, é a parte mais movediça do novo pacote. A área econômica remeteu à apreciação do presidente propostas de fechar algumas empresas, vender outras, mas não há nenhuma garantia. Entre as privatizações acena-se com a mesma Mafersa velha de guerra - aquela cujo presidente caçoa dos anúncios governamentais de que será posta à venda. Se daí pouco pode esperar-se, na balança de gastos o pacote reserva uma surpresa: um reajuste de 20% para os funcionários civis e militares. "Até hoje não se viu nunca o governo cortar uma despesa", espanta-se o empresário Aldo Lorenzetti, presidente da Associação Brasileira da Indústria Eletroeletrônica, a Abinee. "O fechamento e a venda de algumas estatais é uma boa notícia, mas ainda constitui um passo muito modesto", censura o superagricuItor Olacyr Francisco de Moraes.

Em linhas gerais, os contornos do novo pacote não acenam com nenhum sinal de relaxamento do dirigismo do governo sobre a economia. "O que se vê é o aumento da carga tributária e do intervencionismo", diz Rocca. Nesse cenário, poderão repetir-se situações como a vivida por Sarney na última terça-feira, quando o problema do ágio desabou sobre sua mesa durante uma audiência concedida a associados da Confederação Nacional dos Diretores Lojistas. A certa altura da conversa, o presidente da entidade, Milton dos Reis, admitiu a prática do pagamento de ágios e o seu repasse aos consumidores. "Sempre fomos honestos, mas agora ou cometemos pequenos crimes ou quebramos", afirmou Reis. Criou-se uma situação sem saída: ou o presidente admitia essa realidade da vida ou ficaria na situação constrangedora de ter de chamar os fiscais da Sunab para colher o seu depoimento.

É por fatos como esses que o congelamento dos preços continua a despertar as mais profundas incertezas. Ninguém resumiu isso melhor que o economista americano Milton Friedman, Prêmio Nobel de Economia de 1976, que em entrevista à Folha de S. Paulo considerou um "caso interessante na teoria" a crença de que o controle de preços e salários resolve o problema da inflação. Com seu novo pacote econômico, na realidade, o governo está a mostrar que não havia um segundo coelho a tirar da cartola.

 
     
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