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19 de novembro de 1986
De costas para o
voto
Fechadas as urnas, o governo abre
um pacote com novos preços, índices
e mais impostos sobre os assalariados
de classe média
Ao longo de toda esta semana os eleitores
vão fazer as contas para saber quem ganhou as eleições,
mas a principal conta, a única que de fato irá alterar
imediatamente no mundo real a vida do cidadão, estará
sendo feita nos gabinetes da equipe econômica do governo.
Horas antes do fechamento da última urna, no sábado,
o ruído da eleição se contrapunha ao silêncio
em meio ao qual se montava o mais novo pacote da economia pós-cruzado
- um bloco de medidas que, pelas estimativas feitas no Palácio
do Planalto, deverá entrar em vigor até esta sexta-feira,
incluindo aumento de preços e elevação efetiva
da carga tributária dos assalariados. Elas vêm, segundo
o governo, para conter a demanda, que cresce num ritmo maior que
a capacidade de produção das indústrias, e
preservar os ganhos conquistados pelos assalariados de mais baixa
renda desde o anúncio do Plano Cruzado. Por trás dos
ajustes e correções na política econômica,
prepara-se também, direta e indiretamente, uma nova investida
sobre os bolsos dos contribuintes.
Com duas facetas principais, o pacote em
estudo pela equipe comandada pelos ministros da Fazenda, Dilson
Funaro, e do Planejamento, João Sayad, reúne medidas
voluntárias de estímulo à poupança e
medidas compulsórias - algumas para levar o cidadão
a poupar mais do que já estaria poupando e outras para corrigir
preços e tarifas. Inclui, também, algo que já
se vai tornando inevitável toda vez que se fala em mudar
a economia: o aumento da arrecadação por parte do
governo. O impacto do braço compulsório do pacote
está dado pelas estimativas preliminares do Ministério
da Fazenda sobre quanto as novas medidas podem render ao governo
- uma cifra da ordem de 110 bilhões de cruzados, cerca de
30% da receita total de impostos pagos pelos brasileiros neste ano.
Numa evocação do que ocorrera
em 1982, quando o governo João Figueiredo escondeu até
o dia das eleições o fato de que o Brasil estava quebrado
nas suas contas externas, ia pedir ajuda ao Fundo Monetário
Internacional e aprontava-se para mergulhar numa profunda recessão,
o governo José Sarney trancou a sete chaves uma notícia
que político algum se interessou em filtrar nos palanques
ou no horário eleitoral gratuito: que medidas duras estavam
em gestação para consertar os desajustes do Plano
Cruzado e, de quebra, engordar as verbas em poder da máquina
estatal. "Colocar em debate um elenco de medidas econômicas
às vésperas de uma eleição é
problema de juízo da conveniência política",
argumenta o ministro-chefe do Gabinete Civil do governo Figueiredo,
João Leitão de Abreu - que em 1982 foi um dos que
preferiram ocultar a ida do país ao FMI, receoso de que tal
informação prejudicasse o desempenho do PSD nas eleições.
Quatro anos depois, aqueles que, na oposição
da época, disparavam munição pesada contra
esse tipo de comportamento hoje sobraçam o mesmo argumento
- o de que abrir o jogo sobre a decretação de medidas
econômicas na estação eleitoral é insultar
as regras elementares do manual do voto. "Falar de mudanças
num plano que a população de um modo geral acha que
deu certo não tem apelo eleitoral algum", justifica
um ministro do PMDB que subiu a vários palanques de candidatos
de seu partido nestas eleições - e nas de 1982 se
elegeu deputado acusando governo da época de falsear a situação
econômica do país. O ministro da Cultura, economista
Celso Furtado, encontra outras razões para que o pacote que
vem aí não tenha sido tema de campanha. "Quando
estávamos na oposição fazíamos debates,
seminários, reuniões", lembra Furtado. "Hoje,
não há mais essa discussão porque não
temos uma oposição capaz de discutir os assuntos com
a sociedade". Na visão do ministro, apenas os líricos,
e não os cidadãos efetivamente atingidos pelas mudanças
econômicas, teriam o direito de participar dos debates.
"Tradição de otimismo"
- O chefe do Gabinete Civil, ministro Maciel, que em 1982 se
elegeu senador pelo PDS de Pernambuco, acha não é
justo comparar o silêncio de 86 com o silêncio de 1982
- as atuais eleições, sustenta ele, não guardam
relação com a campanha eleitoral anterior. Naquela
época, o governo negava que o país estivesse insolvente
e negociando com o FMI um ajuste econômico que resultaria,
mais tarde, numa recessão. Hoje, o governo simplesmente se
calou. "O país amadureceu muito desde 1982", afirma
Maciel. "O apelo que os candidatos fizeram em defesa do Plano
Cruzado durante a campanha foi correto, porque ninguém está
preparando uma armadilha para o eleitor". O chefe do Gabinete
Civil de Sarney concorda, todavia, em que existe uma "tradição
de otimismo" nas temporadas eleitorais.
Foi em nome dessa tradição
que o presidente nacional do PMDB e da Câmara, deputado Ulysses
Guimarães, questionou diversas vezes o ministro Funaro sobre
as mudanças econômicas que a equipe do governo vinha
elaborando em sigilo. "Será que você vai conseguir
segurar o congelamento até as eleições?",
questionava Ulysses a Funaro, segundo um ministro peemedebista.
O presidente nacional do PMDB não foi, porém, o único
político a pedir que o governo nada fizesse na área
econômica até o dia 15 de novembro. "Não
só do PMDB, mas candidatos do PFL também fizeram o
mesmo apelo", revela outro peemedebista do ministério
Sarney. Alguns preferiram escapar logo do assunto. "No momento,
só posso pensar em eleições", desculpou-se
na semana passada o ministro da Educação, Jorge Bornhausen,
que estava em Florianópolis em campanha. Na prática,
a nível de campanha eleitoral, assim, viveu-se uma situação
segundo a qual a eleição serviria apenas para eleger
candidatos e não para expressar a vontade do povo.
"Eleição é sinônimo
de euforia", constata Maciel. "Ou, como já disse
o ex-ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen, é
sinônimo de emissão - todos querem seus pleitos atendidos
e acham que o governo deve abrir os cofres públicos."
Outro ex-ministro, Antônio Delfim Netto, que em 1982 assinou
o acordo com o FMI e este ano candidatou-se à Constituinte,
baseia-se em sua experiência para achar que há semelhanças
entre os processos políticos que revestiram as duas eleições.
"Esse filme eu já vi", ironiza Delfim. "Suspeito
que, quando o governo diz que vai corrigir o Plano Cruzado, ele
quer dizer que vai fazer alguma coisa desagradável".
Na semana passada, em Brasília, de fato, a euforia eleitoral
cedia lugar à realidade do mundo da economia - algo de que
o eleitorado já desconfiava e levou Funaro a assegurar na
última terça-feira, no Rio de Janeiro, que "não
existe nenhuma coincidência entre as eleições
de 1982 e o pleito deste ano".
Chuva no comício - Funaro
foi ao Rio para prestigiar o comício do candidato a governador
Wellington Moreira Franco, cancelado na última hora debaixo
de chuva. Foi a deixa que o ministro da Fazenda encontrou para encurtar
sua aparição em público - sua preocupação,
assim como a dos demais membros da equipe econômica do governo,
era tentar evitar ao máximo o vazamento daquilo que está
sendo cozinhado para reformar a política econômica.
Já na quarta-feira pela manhã Funaro apresentou as
medidas em estudo ao presidente José Sarney durante um longo
despacho, segundo um assessor presidencial, no Palácio do
Planalto. No dia seguinte, com Sayad já de volta de seu giro
ao exterior, ambos reuniram-se por mais 2 horas com Sarney - que
também se mostrava contrariado, na semana passada, com as
especulações a respeito do que o governo iria ou não
fazer nesta nova reforma, insistindo em que sua palavra final sobre
as mudanças ainda não estava dada. A partir daí
o pacote começou a tomar a forma final. Acertada uma decisão,
ela vai sendo enviada ao consultor-geral da República, José
Saulo Ramos, para os acertos legais.
O objetivo central de tudo o que se porá
no pacote é reduzir o consumo, aumentar a poupança,
incentivar os investimentos em projetos industriais, manter o nível
de renda das famílias de até cinco salários
mínimos - 4 020 cruzados -, cortar as despesas públicas
e melhorar as receitas do Tesouro. Como pano de fundo, o governo
identificou uma rápida deterioração das contas
externas do país, em queda por força do grande consumo
no mercado interno - o que leva importações a subir
e exportações a cair -, e o início de rachaduras
mais sérias nos alicerces da economia engessada, golpeada
pelo ágio. Diagnóstico final: todos os males que solapam
o sucesso da reforma econômica de 28 de fevereiro estariam
no desbalanceamento entre o consumo e a produção.
Como reverter tal processo é o que estava em discussão
em intermináveis reuniões que se iniciavam no Ministério
da Fazenda e no Planalto e terminavam altas horas noite na residência
de Funaro.
Alguns temas já estão praticamente
certos, enquanto outros ainda se mantêm submetidos a um processo
de avaliação tanto a nível técnico como
político. É assim que, na questão reajustes
das tarifas públicas, a Seplan se bate com o Ministério
da Fazenda para incluir produtos como o aço, os combustíveis
e a energia elétrica consumida pelas indústrias. A
assessoria de Funaro questiona, porém, que os ajustes de
preços têm de levar em conta a cadeia de custos industriais.
O aumento do aço, exemplo, desencadearia um processo de reajustes
sucessivos, a partir da porta da siderúrgica, que iria bater
num necessário aumento dos preços das geladeiras.
A idéia que até o final da semana passada tinha maior
adesão prévia, no caso das estatais, os reajustes
dos serviços finais - aqueles que, grosso modo, não
onerariam os custos das empresas. Em última instância,
seriam pagos pelos consumidores, pessoas físicas que não
têm a quem repassar suas despesas.
Assim, já estavam praticamente aprovados
os reajustes das contas da energia elétrica consumida em
residências e no comércio, do telefone e dos serviços
dos Correios. Na terça-feira, numa reunião no Ministério
da Fazenda, o titular da Secretaria de Controle das Empresas Estatais,
Antoninho Trevisan, foi persuadido pelo assessor especial do ministro
Funaro, economista João Manoel Cardoso de Mello, a não
iniciar a defesa dos reajustes dos preços do aço produzido
pelas siderúrgicas do grupo Siderbrás. "As estatais,
assim como as empresas privadas, têm de buscar produtividade
e parar de querer resolver seus problemas repassando tudo para as
costas do consumidor", costuma repetir Cardoso de Mello nessas
reuniões. Como, notoriamente, a Siderbrás trabalha
com déficit colossal, as siderúrgicas estatais terão
de conviver mais algum tempo com subsídios do Tesouro.
Carona no reajuste - No caso dos
preços de alguns produtos do setor privado, o governo decidiu
tomar carona nos reajustes. Pretende-se, no caso, acertar os preços
dos produtos que foram congelados em 28 de fevereiro em níveis
abaixo do custo de produção. Estão incluídos
na primeira leva os remédios, os cigarros, os automóveis,
os caminhões e o leite e seus derivados, como queijos e iogurtes.
A totalidade do aumento, contudo, não será faturada
pelo fabricante. Uma parcela ficará com o próprio
governo mediante o aumento de alíquota do imposto sobre produtos
industrializados, o IPI. Não está descartada também
a hipótese de alguns setores, como o das montadoras de veículos,
virem a ter de negociar com seus fornecedores diretos - a indústria
de autopeças - o repasse de parte do aumento que conseguirem.
Como regra geral, contudo, todos os preços
reajustados voltariam logo em seguida a ser congelados novamente.
"A retirada gradativa do gesso só começará
quando as medidas de redução do consumo surtirem efeito",
afirma um assessor do ministro da Fazenda. "Até lá,
não se fala em descongelamento de preços". Essa
rachadura nos preços engessados, no entanto, já seria
o bastante para trazer de volta a inflação em níveis
de 3% a 5% ao mês, ou cerca de 60% ao ano. É febre
alta - e, para enfrentá-la, a idéia que mais simpatias
criou dentro do governo é a troca do termômetro, criando
um novo índice para medir a inflação. O IPC,
dessa forma, seria substituído por outro indicador, já
batizado de "cesta básica", que registraria a evolução
apenas do padrão de consumo de famílias com até
cinco salários mínimos (SM) de renda mensal. A lista
de mercadorias que teriam sus preços pesquisados para formar
esse novo índice seria sucinta. Nela haveria, por exemplo,
apenas um tipo de camisa, sapatos ou de televisor. Naturalmente,
a maior parte desses itens estaria com os preços tabelados
e, assim, a inflação oficial poderia ser sempre baixa.
Inflação Administrada
- O novo índice de inflação passaria a
ser o fator de correção dos que ganham até
cinco SM. Essa inflação "administrada" seria
menor que a inflação efetiva registrada no país
- mas, compensação, os produtos básicos consumidos
pelas famílias de renda mais baixa continuariam com os preços
tabelados. O problema já detectado pelas áreas políticas
governo está com os assalariados que ganham acima de cinco
SM. O que acontece nesse caso? Se a aplicação do índice
da cesta básica for estendida a todos os salários
indistintamente o resultado previsível seria um brutal arrocho,
sobretudo da classe média - cujos reajustes seriam inevitavelmente
inferiores ao aumento real do custo de vida, já que seu consumo
efetivo inclui um volume de itens muito superior aos que compõem
a cesta básica. A alternativa em estudo passa pela liberação
das negociações salariais, ficando garantidos apenas
os reajustes dos salários menores. Mas ainda existem mais
dúvidas que soluções.
O empresário Eugênio Staub,
presidente da indústria eletroeletrônica Gradiente,
aplaude a concessão de maiores graus de liberdade às
negociações salariais, mas teme seus efeitos num primeiro
momento se forem eliminados de uma só vez os mecanismos de
referência para os reajustes. "Não é improvável
a eclosão de tensões sociais e políticas",
prevê Staub. O economista Carlos Antônio Rocca, presidente
das lojas de departamento Mappin, também olha de lado para
a idéia. Afinal, há várias questões
ainda mal resolvidas nas relações entre as empresas
e seus funcionários. Primeiro, os salários estariam
inteiramente liberados, mas os preços continuariam congelados.
A solução teria de passar por negociações
realmente diretas das empresas com seus funcionários.
Surge aí a questão das negociações
coletivas, a cargo de sindicatos, nas quais são firmados
acordos válidos para todo um setor. A negociação
direta choca-se com as convenções salariais coletivas.
Não existe, além disso, uma lei de greve coerente
com a liberdade de negociações salariais. "O
primeiro passo de uma medida como essa pode ser o acirramento das
reivindicações", alerta Rocca. A própria
alteração no índice de inflação
poderia trazer sérias repercussões. É o que
previne o ex-ministro Mário Henrique Simonsen. "Não
é nada bom mexer no índice mais uma vez, principalmente
no momento em que o governo mais precisa de apoio da opinião
pública", adverte Simonsen.
Implodir o Gatilho - Na verdade,
não há como fazer mágica com índices
de inflação quando os preços são reajustados.
O resultado natural é o aumento do índice, e mais
natural ainda a pretensão de quem se sente prejudicado de
pleitear compensações. Não foi por outra razão
que a equipe econômica do governo tentou antecipar-se às
reações contra a mudança do IPC ao tentar implodir
o mecanismo do gatilho - a salvaguarda, criada no bojo do Plano
Cruzado, que prevê reajustes automáticos dos salários
sempre que a inflação acumulada a partir de 28 de
fevereiro último atingir 20%. Tal fato, se não se
mudar o índice, poderá acontecer por volta de março
ou até antes com os aumentos de preços programados
no pacote econômico ora em gestação.
Um complicador não previsto, além
disso, foi a descoberta, pelos economistas do governo, de que os
reajustes salariais por conta do acionamento do gatilho podem, legalmente,
ser repassados pelas empresas aos preços de seus produtos.
Seria a volta da corrida preços-salários-preços.
O mecanismo, por decisão do governo, será preservado,
mas sofrerá uma regulamentação. Isto quer dizer,
na prática, que o governo considerará descontáveis
no cômputo do gatilho todos os reajustes salariais concedidos
anteriormente pelas empresas. Assim, quem já tivesse recebido
um reajuste de 18%, por exemplo, só faria jus à diferença
entre este percentual e o da inflação acumulada de
20% no instante em que o gatilho fosse acionado. Receberia, assim,
um reajuste de 2%. "Suprimir o gatilho seria uma insensatez",
constata o ministro do Trabalho, Almir Pazzianotto. "Regulamentá-Io
é uma medida de sabedoria política".
Mesmo assim, o panorama no meio sindical
inspira cautela. Na semana passada, Funaro pôde sentir de
perto a quantas anda o clima nessa área. Na quarta-feira,
eclodiu uma greve em sua própria indústria, a Trol,
fabricante de brinquedos no ABC paulista, em protesto contra a decisão
da empresa descontar do reajuste salarial negociado para valer a
partir de dezembro uma antecipação de 12,5% concedida
em junho. "Não foi a Trol que não quis conversar,
mas o sindicato é que não nos deu tempo de pensar
direito", argumenta o presidente da empresa Gabriel Ferreira
de Paula, que ajuizou uma ação contra o sindicato
pedindo a ilegalidade da greve e demitiu 22 grevistas.
Oposição Aberta -
Ao contrário do clima subseqüente ao Plano Cruzado,
o governo está encontrando uma oposição às
novas medidas que, anteriormente, só era manifestada a portas
fechadas. O aumento do IPI, por exemplo, provocou surpresas entre
os empresários. "Nós já pagamos 80% de
IPI", surpreendeu-se o presidente da Brahma, Hubert Gregg,
um empresário que cultiva habitualmente a discrição.
"É um contra-senso aumentar o imposto, pois o que a
indústria precisa é de incentivos para poder atender
a demanda". Pelos planos do governo, a receita adicional a
ser obtida com o IPI será usada no resgate dos títulos
federais que formam a chamada dívida interna. Diminuindo
seu tamanho, diminuiria também a pressão do Tesouro
no mercado financeiro e, em conseqüência, poderiam cair
os juros. Na semana passada, eles estavam em queda, diante da expectativa
do pacote, mas continuavam excessivamente altos.
A medida mais rápida para baixar
juros, segundo os banqueiros, consiste na redução
das próprias taxas pagas a quem aplica em títulos
federais ou na queda da taxa do recolhimento compulsório
ao Banco Central de parte dos depósitos à vista captados
pelos bancos. O que estava em cogitação, contudo,
prevê outra destinação a esses depósitos
- que, segundo os livros básicos de economia, servem para
regular o volume do crédito na economia. Conforme se girasse
essa válvula, o crédito ficaria mais curto ou mais
farto, dependendo dos objetivos que se queira: estimular ou não
o ritmo dos negócios na economia. No Brasil, há décadas
a verdadeira finalidade de tais depósitos tem sido outra:
cobrir rombos de caixa no BC ou o déficit público.
Agora, teriam também uma outra função: engrossar
as linhas de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social, o BNDES, destinadas ao financiamento de
projetos industriais.
Os banqueiros, que em fevereiro absorveram
calados o golpe representado pelo fim da correção
monetária em suas operações, dessa vez resolveram
protestar sem cerimônias. "Essa é mais uma medida
estatizante, sem nenhuma justificativa", afirma o presidente
do Banco Itaú, José Carlos Moraes Abreu. "O estado
não se tem mostrado competente no gerenciamento do crédito.
Basta ver o que aconteceu no crédito rural, no qual só
se consumiu dinheiro e mais dinheiro do contribuinte". O vice-presidente
do Banco Real, Juarez Soares, também bateu direto: "Os
bancos privados são mais competentes que os estatais. Não
aceitamos riscos inaceitáveis, que surgem em bancos públicos
por influências políticas".
O Norte do pacote - Na amarração
do pacote, apesar dos protestos dos setores prejudicados, o norte
das medidas está em suas implicações, de acordo
com o objetivo que se pretende implementar. Assim, reajustaram-se
preços, mas se muda a inflação, para que ela
continue como se nada tivesse acontecido e os salários não
cresçam pela automaticidade da correção. Ao
contrário, o objetivo, aí, é reduzir o consumo
- e o caminho mais fácil e rápido passa pela diminuição
do poder aquisitivo dos salários. Noutro lado, quer se aumentar
os investimentos, mas falta dinheiro. Solução? Tirar
de quem tem, os bancos privados. Precisa-se aumentar as receitas
tributárias do governo. Então, aproveita-se a deixa
dos reajustes de preços e majora-se o IPI.
Foi assim que se considerou na hora em
que o presidente José Sarney deu sinal verde para que a equipe
econômica podasse parte dos subsídios pagos aos produtores
de trigo, aos plantadores de cana-de-açúcar e aos
fabricantes de açúcar e álcool. No primeiro
caso, a idéia é reduzir o subsídio, que este
ano custará ao Tesouro cerca de 23 bilhões de cruzados,
à metade desse desembolso. Noutro, a depuração
seria mais lenta, dadas as implicações políticas
em duas regiões canavieiras socialmente sensíveis:
Pernambuco e Alagoas. Em ambos os casos, assim como no do leite,
o ônus da redução do subsídio será
custeado pelo consumidor. Não todos - a exigência de
Sarney é no sentido de que as famílias mais pobres
não paguem os custos do novo pacote. Assim, arquitetava-se
uma compensação, válida apenas aos que ganham
até cinco SM. Tais assalariados teriam um desconto na taxa
de contribuição previdenciária equivalente
ao que passariam a despender a mais com os reajustes dos preços
dos produtos de primeira necessidade. Calcula-se que o custo dessa
compensação seria da ordem de 2 bilhões de
cruzados - o dinheiro viria da própria redução
do subsídio ao trigo.
Pelas contas do governo, para se dar um
tranco claro no atual nível de consumo e, adicionalmente,
aumentar o volume de dinheiro dirigido aos investimentos, ainda
seriam necessárias medidas de estímulo à poupança.
Elas viriam sob a forma de variantes da velha caderneta de poupança.
Três versões já estariam aprovadas: uma vinculada
à compra da casa própria, outra reservada à
captação de depósitos de pessoas jurídicas
e uma terceira destinada a juntar o capital para a compra de telefone
ou viagens turísticas. Ainda não está descartada
a hipótese de um substancial incentivo fiscal, deduzível
no imposto de renda, aos aplicadores nessas cadernetas. Mais incerta
é a situação da proposta que envolve a criação
de uma poupança voluntária em termos, já que
submeteria os não optantes a sanções fiscais.
Sarney não está convencido do acerto político
dessa medida, que afetaria, sobretudo, a classe média. A
nova poupança, se vier a ser aprovada, já tem nome.
Foi batizada pela equipe econômica do governo de "voluntório",
mistura de voluntário com compulsório.
Onde a classe média já está
fadada a contribuir mais ao governo, na verdade, é no imposto
de renda recolhido fonte. Tais contribuições foram
reduzidas no pacote fiscal do fim do ano passado, detonando o processo
de aumento do consumo que agora o governo quer verter. Assim, a
idéia é não corrigir a tabela progressiva em
janeiro, como deveria ocorrer, evitar que, por simples acréscimo
salarial por conta da recuperação do poder aquisitivo
perdido com a inflação, os contribuintes passem a
pagar mais imposto. É a mesma política que o ex-ministro
da Fazenda Francisco Dornelles tentou aplicar em junho ano passado
e não conseguiu graças à oposição
de Sarney. Só por aí o governo estima ganhar à
custa dos contribuintes, de vez, mais 25 bilhões de cruzados.
Além do IPI, portanto, estuda-se um aumento efetivo do IR,
apesar das declarações de Sarney segundo as quais
não haveria aumentos impostos. O fato é que, tecnicamente,
o governo não precisa fazer nada - basta que deixe a tabela
do IR como está para que cidadão passe a tirar mais
do bolso.
Na questão cambial, segundo garantem
todos os funcionários envolvidos na montagem das peças
do novo pacote, a intenção é esperar para ver.
Não haveria, assim, nenhuma medida nesse setor, embora empresários
como Laerte Setúbal, da Duratex, e economistas como Antônio
Rocca, do Mappin, estimem a existência de uma defasagem cambial
de 12% a 20%. Circula junto aos principais assessores de Funaro
e Sayad, no entanto, um estudo segundo o qual o governo poderia
vir a dar um incentivo fiscal da ordem de 10% aos exportadores.
A taxa cambial, nesse caso, permaneceria no atual nível de
14,04 cruzados.
O capítulo que se refere à
contenção de gastos do setor público, enfim,
é a parte mais movediça do novo pacote. A área
econômica remeteu à apreciação do presidente
propostas de fechar algumas empresas, vender outras, mas não
há nenhuma garantia. Entre as privatizações
acena-se com a mesma Mafersa velha de guerra - aquela cujo presidente
caçoa dos anúncios governamentais de que será
posta à venda. Se daí pouco pode esperar-se, na balança
de gastos o pacote reserva uma surpresa: um reajuste de 20% para
os funcionários civis e militares. "Até hoje
não se viu nunca o governo cortar uma despesa", espanta-se
o empresário Aldo Lorenzetti, presidente da Associação
Brasileira da Indústria Eletroeletrônica, a Abinee.
"O fechamento e a venda de algumas estatais é uma boa
notícia, mas ainda constitui um passo muito modesto",
censura o superagricuItor Olacyr Francisco de Moraes.
Em linhas gerais, os contornos do novo
pacote não acenam com nenhum sinal de relaxamento do dirigismo
do governo sobre a economia. "O que se vê é o
aumento da carga tributária e do intervencionismo",
diz Rocca. Nesse cenário, poderão repetir-se situações
como a vivida por Sarney na última terça-feira, quando
o problema do ágio desabou sobre sua mesa durante uma audiência
concedida a associados da Confederação Nacional dos
Diretores Lojistas. A certa altura da conversa, o presidente da
entidade, Milton dos Reis, admitiu a prática do pagamento
de ágios e o seu repasse aos consumidores. "Sempre fomos
honestos, mas agora ou cometemos pequenos crimes ou quebramos",
afirmou Reis. Criou-se uma situação sem saída:
ou o presidente admitia essa realidade da vida ou ficaria na situação
constrangedora de ter de chamar os fiscais da Sunab para colher
o seu depoimento.
É por fatos como esses que o congelamento
dos preços continua a despertar as mais profundas incertezas.
Ninguém resumiu isso melhor que o economista americano Milton
Friedman, Prêmio Nobel de Economia de 1976, que em entrevista
à Folha de S. Paulo considerou um "caso interessante
na teoria" a crença de que o controle de preços
e salários resolve o problema da inflação.
Com seu novo pacote econômico, na realidade, o governo está
a mostrar que não havia um segundo coelho a tirar da cartola.
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