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19 de maio de 1971
Negócios à parte

A amizade Brasil-EUA e
os interesses de cada um

 

"Refiro-me, em primeiro lugar, às tendências protecionistas, evidenciadas em numerosos projetos legislativos em tramitação no Congresso americano, que, caso prevaleçam, resultarão na imposição de barreiras para produtos que países de industrialização recente, como o Brasil, oferecem ao mercado mundial, em boas condições de competitividade. Não é dífícil imaginar-se que, com isso, se estaria prestando um desserviço tanto ao Brasil, por desestimular o fortalecimento do nosso setor industrial de exportação, quanto aos próprios Estados Unidos, pois propiciaria a manutenção de setores ineficientes de sua economia."
(Do discurso do chanceler Mário Gibson Barboza à Câmara de
Comércio Brasil-Estados Unidos, em Nova York, quinta-feira passada.)

E John Foster Dulles, secretário de Estado do presidente Eisenhower, tremeu em seu túmulo do cemitério nacional de Arlington. Treze anos antes, durante sua visita ao Brasil, carrancudo e obstinado, destruiu, com curtos golpes do lápis amarelo que trazia sempre no bolso da camisa, as propostas de aperfeiçoamento do sistema comercial com os Estados Unidos contidas timidamente na Operação Pan-Americana, lançada pelo presidente brasileiro Juscelino Kubitschek.

A idéia de um chanceler latino-americano dizendo, em Nova York, que a indústria americana tem setores ineficientes e que uma parceria entre o Brasil e os Estados Unidos precisa evitar "suposições e preconceitos" pareceria ao ascético Foster Dulles, pelo menos, claramente antiamericana.

Contudo, quando o ministro Mário Gibson Barboza terminou seu discurso, foi aplaudido por cerca de duzentos convidados que representavam cerca de 150 corporações e centenas de bilhões de dólares. E, além dos aplausos, recebeu da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, ao lado do governador Nelson Rockefeller, o título de "Homem do Ano".

Ninguém considerou as palavras de Gibson exageradas, mas ficou a vaga impressão de que algo de novo está acontecendo nas relações Brasil-Estados Unidos. Para os diplomatas americanos que estavam no Departamento de Estado ao meio-dia de quarta-feira, a novidade começou quando um reluzente Mercedes atravessou o grande portão da "diplomatic entrance" do prédio 2201 de C Street levando o responsável pela condução da política que contém essas novidades: um senhor de meia altura, gordo, de cabelos louros descoloridos, olhos azuis claros e um rosto onde está estampado um permanente sorriso de ironia e satisfação. Ele desceu do carro e, em poucos minutos, andando sempre com o olhar dirigido para o chão, chegou à grande sala de despachos do secretário de Estado que, segundo seu primeiro ocupante - Dean Acheson -, parece-se com o refeitório da segunda classe do transatlântico "America". Lá, entregou ao secretário William Rogers as cópias figuradas de suas credenciais de embaixador da República Federativa do Brasil junto aos Estados Unidos da América. Era o embaixador João Augusto de Araújo Castro, ou Castro, como é conhecido no Itamaraty, ou Araucastro, como é identificado nos telegramas de serviço.


O profissional
Castro, ou Araucastro

Um singular diplomata de carreira: usa sapato marrom com cinto preto, não entende de vinhos, odeia coleções e é capaz de repousar um suarento copo de gim tônica sobre uma carta de lord Caradon, embaixador inglês na ONU. Diz que a procedência do uísque é indiferente e que todos os guarda-chuvas são iguais, numa afronta aos produtores de uísque escocês e aos fabricantes
de guarda-chuvas ingleses. Classifica como "esotérica e metafísíca" a questão da combinação da gravata com o terno e, demonstrando uma legendária veia de humor crítico - fruto exclusivo de uma timidez crônica -, diverte-se às custas dos vícios da própria carreira: "Existem diplomatas que arrumam melhor os convidados numa mesa que os pronomes numa frase". Ou então: "O secretário escreve, o ministro-conselheiro lê e o embaixador assina".

Essa simplicidade irreverente contrasta em Araújo Castro com um rigoroso requinte intelectual. Em 1942, aos 23 anos, acompanhado de seu colega Mozart Gurgel Valente, foi um dos cicerones de Orson Welles no Rio. Anos depois, publicou artigos sobre a filosofia de Kierkegaard, a estética de Benedetto Croce e o teatro de Christopher Marlowe. Todos extremamente eruditos na forma, claros na exposição e cautelosos nos conceitos. Contudo, avalia-se melhor o jovem e requintado Araújo Castro sabendo-se que, em 1948, quando a intelectualidade brasileira ainda se abastecia nos velhos romancistas franceses, ele publicava, em "O Jornal", um longo artigo sobre um obscuro (no Brasil) escritor checo. O título era: "A Eterna Busca - Aspectos da Angústia de Franz Kafka".

O embaixador não renega a literatura do secretário Araújo Castro, mas esclarece: "Eu não me tomo a sério". Por não se tomar a sério e também por timidez, não publica e não divulga o seu "Frederico Barbarroxa", um romance psicológico escrito em 1953, quando era primeiro-secretário em Roma. O romancista João Guimarães Rosa, seu colega de Itamaraty, leu e gostou. Outro romancista disse a VEJA: "É muito ruim. Ele gasta dezessete páginas descrevendo a caminhada do personagem pela rua Voluntários da Pátria". Esse personagem andarilho é um homem saído da província, em busca dos valores permanentes no mundo.

Sua carreira diplomática, porém, não é resultado da irreverência nem da erudição literária. Ele confessa que escolheu a diplomacia para ter um emprego público e poder viajar, "pois na época - 1939 - todos achávamos que o mundo estava perdido, com a França ocupada". Mas, em 1958, quando a intransigência de Foster Dulles e a demagogia do governo brasileiro provocaram o naufrágio da Operação Pan-Americana, Araújo Castro estava sentado num dos lugares da longa mesa do palácio do Catete, onde o secretário de Estado e o presidente Kubitschek negociaram, durante horas, uma agenda da qual Dulles extirpara de forma pouco polida os itens de financiamento à Petrobrás.

Quando o secretário de Estado voltou para Washington, a Operação Pan-Americana estava sendo calmamente digerida por seu estômago fatalmente doente. Kubitschek, a quem o poeta Augusto Frederico Schmidt - primeiro bailarino da OPA - oferecia "estátuas em todas as capitais do continente" e dizia que era preciso "botar uma hélice na b... do Brasil", saiu popularmente fortalecido. Os diplomatas que assessoravam o presidente e viam na negociação uma oportunidade para dinamizar a política externa brasileira, entristecidos, perderam, porém aprenderam.

Castro, qve era o terceiro homem da hierarquia do Itamaraty, como chefe do departamento político, pediu posto e foi para Tóquio. A dispersão do grupo de diplomatas que idealizara a OPA coincidiu com o fim do dogma da infalibilidade do Itamaraty, proclamado no tempo da diplomacia cartográfica do barão do Rio Branco e lentamente carcomido pela eficiência de outros setores da administração.

Nessa época, começou a nascer o mito Araújo Castro, no qual se misturam histórias de habilidade, humor e sobretudo de brilhantismo intelectual. Numa época em que o Itamaraty perdia prestígio, ele encarnou o rigor profissional e, se todos os diplomatas eram confundidos com enfadados colecionadores de bobagens, Castro era apresentado, pelos próprios diplomatas, como um funcionário de grandes virtudes e nenhuma coleção. O Itamaraty, porém, está longe de ter uma divisão rigorosa determinada pela qualidade da etiqueta dos alfaiates. Maurício Nabuco, ex-embaixador em Washington e ex-secretário geral, considerado por alguns como um modelo de refinamento (corre a lenda de que mesmo sozinho janta de smoking) e por outros como modelo de eficiência (até hoje o Itamaraty segue os padrões burocráticos que ele traçou em 1940), conta em sua casa repleta de quadros, no bairro carioca de Botafogo, que sempre achou os jovens saídos do Rio Branco, que, cheios de maneirismos, pensavam imitá-lo, "uns meninos pedantes". E, surpreendentemente, Nabuco e Castro são contra o Instituto Rio Branco, favoráveis a concursos diretos para ingresso no Itamaraty.

Outro exemplo de que o Itamaraty é uma instituição unida, sobretudo em torno da eficiência profissional, é a sobrevivência do próprio Araújo Castro nos quadros da carreira. De volta ao Japão, tornou-se especialista em questões de desarmamento e, em 1962, um então pouco conhecido professor de Harvard - Henry Kissinger - recomendou a uma revista especializada que lhe solicitasse um artigo. Em 1963 foi feito secretário-geral do ministério. E quando o presidente João Goulart nomeou o chanceler Evandro Lins e Silva para o Supremo Tribunal Federal, para não ter que rejeitar candidatos, preferiu a fórmula natural a "da Casa", indicou-o para ministro.

Em setembro, chefiando a delegação brasileira à Assembléia Geral da ONU, anunciou a sua famosa política dos "Três D" - Desenvolvimento, Desarmamento e Descolonização -, que até hoje vaga pelos corredores da ONU como uma esperança dos subdesenvolvidos. Contudo, em março, veio a Revolução. Nada mais natural, acreditavam alguns diplomatas sedentos de vagas e promoções, que "um expurgo". E, nele, a cabeça de Castro. Contudo, quando a Revolução convocou o embaixador Vasco Leitão da Cunha para o Ministério das Relações Exteriores, os torquemadas viram o refinadíssimo diplomata, que recebia as amostras dos cortes para seus ternos diretamente de Londres, colocar-se na porta do Itamaraty, como arcanjo, brandindo seu guarda-chuva Brigg's e afastando para o outro lado da rua Marechal Floriano, onde está uma delegacia de polícia, os propagandistas da "revolução do Itamaraty". Aposentado, entre retratos de chefes de Estado emoldurados em prata, Leitão da Cunha explicou a VEJA sua posição: "O essencial era não traumatizar a Casa a ponto de os funcionários passarem a ter receio de cumprir ordens".

Para muitos, Castro não foi molestado porque não compareceu ao comício realizado na Central do Brasil ("não vou porque não sou sindicalizado", teria dito). Contudo, a verdade é que ele não foi para não envolver o Itamaraty e, provavelmente, porque entendeu o caráter pirotécnico da manifestação. Mas, por não ter envolvido o Itamaraty na borrasca janguista, salvou a todos, inclusive a ele.

A tática de Leitão da Cunha em abril de 1964 foi tão simples quanto a recomendação do mitológico Neném Prancha, técnico de futebol de praia em Copacabana: "Chuta pra cima que enquanto estiver no céu não é gol". Castro foi para as alturas de Atenas. Ficou meses sem ter muito que fazer e talvez tenha se divertido muito mandando telegramas ao Rio de Janeiro, comunicando que o jardineiro da embaixada estava doente, descrevendo sintomas e solicitando instruções de medicações. Esses telegramas foram retirados do arquivo do Ministério e mandados destruir pelo então secretário-geral Pio Correa. Em 1967, seu périplo trouxe-o para mais perto: Lima. Finalmente, foi reabilitado ao ser escolhido pelo chanceler Magalhães Pinto como representante do Brasil na Conferência do Desarmamento, em Genebra. E, novamente, Araújo Castro voltou a empolgar tantos diplomatas, que, fascinados por ele, chegam a andar e falar como ele.

Em 1968, foi nomeado embaixador na ONU e um ano depois tornou-se presidente do Conselho de Segurança. Durante os dois anos em que permaneceu no grande edifício de Manhattan, onde, segundo o anedotário da organização, "mandam os pequenos, porque no resto do mundo mandam os Estados Unidos e a União Soviética", Castro se desencantou da eficiência de um organismo internacional que, pelo menos em 1964, ele julgava capaz de maior atividade em benefício da paz e do desenvolvimento. Contudo, ele mesmo classifica a própria geração de "cética" e não põe na ONU a culpa dos males do mundo: "A questão não é saber se as Nações Unidas, a Organização dos Estados Americanos, a UNESCO ou a UNCTAD são bons ou maus. Devemos saber se estamos trabalhando com esses organismos da melhor forma possível. O truque processual da criação de organismos internacionais para a discussão de velhos problemas dos países de sempre é uma ilusão. A Grã-Bretanha, por exemplo, não pode ter uma política num organismo e outra noutro". Na manhã de 21 de agosto de 1969, quando os jornais noticiavam explosivamente a invasão da Checoslováquia por tropas russas, ele deve ter sentido não só a fragilidade da ONU, como também a necessidade de senso de humor que convém mesmo para o presidente do Conselho de Segurança. Quando ligou para o embaixador soviético Malik, e lhe comunicou que o Conselho estava convocado para as 15 horas, ouviu a seguinte pergunta: "Caro embaixador, posso ser informado do assunto que será tratado nessa reunião?" Como era impossível que Malik não tivesse sequer lido os jornais, é certo que estava se divertindo.

Ao se despedir da ONU, transferido para Washington, foi elogiado pelo secretário-geral U Thant como um dos diplomatas mais competentes já enviados para a organização. (Seu nome vinha sendo articulado para a sucessão de U Thant, com razoáveis chances de êxito.)


Mito americano
As coisas não são bem assim...

A chegada de Castro ao velho prédio de Whitehaven, 3007, onde está instalada a embaixada do Brasil, talvez seja a mais séria de todas as tentativas feitas nos últimos quarenta anos para colocar as relações entre Brasil e os Estados Unidos num nível de absoluto realismo e seriedade. Essa seriedade evidencia-se não só pela sua própria indicação, mas sobretudo pela formulação que
o governo e o Itamaraty vêm dando às relações com Washington nos últimos meses.

Desde que o comerciante americano Henry Hill enviou uma mensagem de boas-vindas ao príncipe dom João VI, que chegava ao Brasil, em 1808, as relações diplomáticas entre os dois países nunca foram más na qualidade, mas freqüentemente foram formalmente caóticas e hipocritamente afetuosas.

Os brasileiros acreditam que os diplomatas americanos são raposas de sabedoria e imensos depósitos de informações. Contudo, hoje, se sabe que o cônsul no Recife, no dia 10 de setembro de 1930, comentando ações severas do governador João Pessoa, espantava-se e dizia ao Departamento de Estado que "um político mais astuto teria assumido compromissos". Na realidade, um político mais astuto teria sido exilado junto com as raposas da República Velha, 23 dias depois, com a revolução de que o cônsul não desconfiava. (Outro funcionário da embaixada americana, 38 anos depois, acreditou que era suficientemente astuto para negociar, na Vila Militar, um compromisso que contivesse o AI-5.)

Em alguns casos, o Brasil recebeu dos Estados Unidos diplomatas brilhantes como Jefferson Caffery, que ficou de 1937 a 1943 e podia dar-se ao luxo de enviar telegramas a Washington dizendo: "Eu estava jogando golfe com o presidente Vargas no domingo de manhã quando..." (Caffery, transferido para o Cairo, haveria de ser, segundo o atual cônsul americano em São Paulo, Robert Corrigan - seu discípulo, amigo e biógrafo -, o primeiro estrangeiro a saber da conspiração para derrubar o rei Faruk e o último a despedir-se do soberano, quando ele foi para o exílio.)

Em outros casos, os brasileiros viam nas indicações de alguns embaixadores mirabolantes conspirações. esse foi o caso de Adolf Berle Jr., indicado em 1943, depois de ter sido derrotado pelo subsecretário de Estado Dean Acheson numa divergência interna dentro do Departamento de Estado, conforme ele mesmo declarou ao depor contra Acheson na Comissão de Atividades Antiamericanas. Assim, um posto de exílio foi confundido com uma conspiração. Além disso, o próprio Berle acabou vendo-se envolvido em outro incidente ao fazer um discurso "democrático" no apagar das luzes do Estado Novo. Há quem acredite até hoje que o discurso de Berle foi o estopim da queda de Vargas, mas a verdade é que o embaixador entregara, dias antes, o original ao chanceler Oswaldo Aranha, que o mostrou a Vargas e este o considerou "correto".

Em alguns casos, os próprios americanos pregam mentiras afetuosas. Freqüentemente eles declaram que a "fraternal" colaboração industrial entre os Estados Unidos e o Brasil começou em 1940, quando foi concedido o financiamento para a construção da usina de Volta Redonda. Os arquivos do Departamento de Estado, porém, revelam que, em maio de 1940, Washington já começava a se preocupar com as intenções da indústria alemã Krupp de instalar uma usina siderúrgica no Brasil. E o subsecretário de Estado Sumner Welles advertia que, se a oferta fosse aceita, "a predominância alemã na vida econômica e militar do Brasil estaria garantida por muitos anos". Americanos e brasileiros supõem, permanentemente, que viver no Rio de Janeiro é uma das maiores dádivas que podem ser dadas a um ser humano. No entanto, o embaixador americano George Kennan, um dos mais brilhantes diplomatas que o Departamento de Estado teve neste século, depois de passar pelo Brasil em 1950, anotou em seu diário: "O Rio me foi repulsivo por seu barulho, seu tráfego desordenado e seus inacreditáveis contrastes entre a riqueza e a miséria (...) E São Paulo é pior..."

Essa relação diplomática baseada em sensações emocionais e afetivas foi condenada pelo próprio embaixador Araújo Castro ao dizer, diante da Comissão de Relações Exteriores do Senado, em abril, que argumentos tais como "fomos aliados em duas guerras" e "somos um só hemisfério" não fazem sentido algum em Washington.

Os diplomatas de carreira quase sempre sabem que nem todos acreditam que o Rio seja adorável e que, como diz freqüentemente Araújo Castro, "ninguém dá nada a ninguem de graça". Sem essa frieza profissional, embaixadores estranhos ao serviço diplomático freqüentemente deixam mais problemas que obras. E talvez tenha sido esse o caso do professor de economia Lincoln Gordon, embaixador no Rio de 1961 a 1966, que, com a ajuda de um superdotado adido militar, o general Vernon Walters, talvez tenha sido um dos embaixadores mais bem relacionados dentro do governo brasileiro desde o período de Caffery. Contudo, Caffery, hierático e elegante apoiado em sua bengala, sabia manter-se discretamente afastado quando era preciso. E, se Caffery saiu com os louros de um bom profissional, Gordon deixou o Brasil com o slogan "Chega de intermediários, Lincoln Gordon para presidente", o que pode ser muito lisonjeiro para um amador mas fatal para quem pretendeu ser diplomata. "Gordon nasceu por acaso na URSS e não era da carreira, por isso fazia tudo para mostrar que era americano e que era embaixador", explica um jornalista americano.

A verdade, porém, é que seu sucessor, John Tuthill, de 1966 a 1969, teve dois graves problemas: afastar a embaixada do governo e resistir ao calor do Rio. O primeiro ele enfrentou com um corte drástico no número de funcionários da embaixada e dos programas de ajuda, provocando o esvaziamento de dois andares no grande prédio do Banco do Estado da Guanabara, no Rio. (Esse corte, denominado Operação Topsy, revelou que inúmeros jovens protegidos de figuras da política americana estavam no Brasil fazendo pesquisas oficiais para esperar o fim da guerra do Vietnã. Havia um grupo deles, numa cidade do interior, pesquisando um tipo de febre de morcego que não existe em nenhum lugar do mundo.)

Tuthill acabou envolvido num incidente de nenhuma proporção e grave repercussão depois de ter ido almoçar com o político cassado Carlos Lacerda. A visita foi considerada uma interferência nos assuntos internos do Brasil e ele chegou a receber a recomendação de não ir ao palácio do Planalto. Bem educado e aborrecido com o Rio e com a própria carreira, pouco tempo depois Tuthill deixou os dois e foi lecionar economia no clima temperado de Bolonha, na Itália.

Se Tuthill se envolveu num incidente aborrecido, o destino de seu sucessor foi bastante menos agradável. Pouco tempo depois de ter entregue credenciais ao presidente Costa e Silva, numa tarde ensolarada de setembro, no Rio, Charles Burke Elbrick acabou sendo o primeiro diplomata seqüestrado por terroristas na história do Brasil, dos Estados Unidos e do resto do mundo. No seqüestro, Elbrick deu dois azares. O primeiro foi estar com sua pasta de couro cru repleta de documentos e o segundo foi manter longas conversações com seus captores, que não só guardaram os documentos como gravaram as conversas. Dias depois, documentos e conversas eram examinados pelas autoridades brasileiras, que, se não os divulgaram, pelo menos deram demonstrações de irritação diante do conteúdo de uns e outros.

Elbrick, marcado pelo seqüestro, chegou a ser repreendido pelo chanceler Mário Gibson Barboza por ter dito, em Porto Alegre, que seus diplomatas não tinham esquemas de segurança eficientes. Desgastado, deixou o posto meses antes de sofrer um derrame cerebral em Washington, do qual se recuperou milagrosamente.

Seu sucessor, o veterano embaixador Williarn Rountree, e o especialista em assuntos latino-americanos, ministro Clarence Boonstra, solucionaram o problema da segurança com grande habilidade, eliminando a possibilidade de atritos com o governo e encontros com terroristas: Rountree mora em Brasília, onde um seqüestro parece tecnicamente impossível, e Boonstra, no Rio, teria comentado há meses, durante um jantar: "Meu carro tem contato permanente de rádio com a embaixada. Além disso, se os terroristas quiserem trocar uns tiros com os rapazes que me acompanham, não creio que façam um bom negócio".

Enquanto os embaixadores americanos no Brasil sofriam, desde 1964, uma espécie de maldição, os brasileiros nos Estados Unidos viviam períodos muito mais tranqüilos. Roberto Campos, que Dean Acheson chamou em suas severas memórias de "um dos mais hábeis economistas da América Latina", saiu da embaixada para assumir o Ministério do Planejamento. Foi substituído por Juracy Magalhães, a quem é atribuída a frase: "O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil", e em cujo período, quando Vasco Leitão da Cunha era chanceler, a diplomacia brasileira foi atirada num projeto elementarmente inviável: a Força Interamericana de Paz. Magalhães foi o último embaixador em Washington vindo de fora da carreira. Sucederam-no Leitão da Cunha, Mário Gibson Barboza e Mozart Gurgel Valente. Essa continuidade profissional foi mantida graças à resistência de todos os chanceleres diante das investidas de personalidades estranhas à carreira porém ligadas ao governo.

Todavia, tanto para os Estados Unidos quanto para o Brasil, a freqüência na mudança de embaixadores revela alguma desordem. Em sete anos, o Departamento de Estado indicou quatro e o Itamaraty cinco. (O normal, no caso, seriam, no mínimo, dois de cada lado, com períodos de quatro anos cada um.)

Experiente, Maurício Nabuco acrescenta um dado: "A embaixada em Washington tem ficado vaga muito tempo desta vez, desde dezembro. Ela tem sido muito maltratada. Araújo Castro deve ficar muitos anos e tem condições para isso, sobretudo porque fala muito bem o inglês". (Castro é professor de inglês formado pela Universidade de Cambridge.) E, ao que tudo indica, tanto Castro quanto Rountree ficarão muito tempo em Washington e em Brasília.


Afinal, realistas
Um luxo do desenvolvimento

Araújo Castro chega a Washington num ano em que está comprovada uma sensível mudança nas relações econômicas entre Brasil e Estados Unidos. As exportações de café verde, que representavam o núcleo principal dos interesses brasileiros nos Estados Unidos, estão decrescendo na porcentagem do total das trocas comerciais. Enquanto isso, as exportações de manufaturados, que há sete anos representavam apenas 5% do total, já atingiram o índice de 13%. Essa gangorra estatística não se esgota na frieza dos números. Ela ensina que o exportador de café, condenado a comerciar num mercado de potencial praticamente esgotado, está sendo superado por ágeis produtores de bens manufaturados, que forçam as barreiras do mercado americano com os preços e a qualidade de seus produtos.

Mas essas barreiras não são tão suaves quanto as melodiosas e freqüentes declarações de "solidariedade hemisférica" e "espírito pan-americano". Em 1969, quando se chegou a pensar que a vinda ao Brasil de um senhor importante - Nelson Rockefeller - representando outro senhor importante - Richard Nixon - seria suficiente para resolver as principais questões comerciais do Brasil e dos Estados Unidos, o Itamaraty, num estudo técnico, dizia: "A estrutura tarifária americana - e a política comercial dos EUA de um modo geral - se tem caracterizado por uma orientação tendente a perpetuar, no que se refere ao intercâmbio com os países subdesenvolvidos, um padrão de relacionamento do tipo coloniaI".

Araújo Castro, porém, não teme o protecionismo americano e explica: "Protecionismo é coisa de país pequeno ou país economicamente fraco". Para ele, "com o desenvolvimento econômico, o Brasil pode dar-se ao luxo de praticar uma diplomacia realista". Essa "diplomacia realista" é a de quem, depois de 31 anos de carreira, diz: "Por maiores que sejam os princípios, a negociação econômica sempre permite que um país surja como forte e outro como fraco, pois a igualdade entre negociadores só ocorre quando se discutem questões jurídicas".

Castro sabe que levar só princípios para Washington equivaleria a ser embaixador no país das maravilhas. Se princípios ganhassem negociações, o café solúvel brasileiro teria invadido o mercado americano. E, no entanto, em 1968, quando o embaixador George Maciel, então chefe do Departamento Econômico do Itamaraty, foi a Londres participar das primeiras negociações do solúvel, ouviu do delegado americano uma advertência de péssimo gosto: "Ceda agora... Vocês acabarão cedendo..." Seguro, Maciel perguntou: "E quando vocês mandarão os marines?"

A questão do solúvel, no entanto, foi um caso típico de recuo do governo americano diante de pressões particulares. "Nos Estados Unidos as pressões não saem do governo para a periferia, mas vêm da periferia para o governo", ensina Vasco Leitão da Cunha. Na verdade, o Departamento de Estado cedeu, ao endossar uma posição, genericamente protecionista do Departamento de Comércio e particularmente lucrativa da General Foods, que de seus escritórios, em Nova York, comandou a luta contra o solúvel brasileiro.

Em abril passado, quando a questão foi encerrada com um acordo de mútuas concessões, sem que nenhum dos dois lados tivesse consumido seus últimos cartuchos, o recuo oficial às pressões periféricas foi visto pelo Brasil com muito realismo, mas também com uma certa dose de ressentimento. Contudo, cultivar ressentimentos diplomáticos talvez seja apenas uma fórmula sofisticada de procurar aborrecimentos. Para Araújo Castro, a questão central é manter as relações Brasil-Estados Unidos no nível de Estado para Estado, evitando, sempre que possível, entendimentos paralelos com grupos particulares. O senador Ernâni do Amaral Peixoto, embaixador em Washington durante o governo Kubitschek. vai mais longe: "Toda vez que algum funcionário do governo for mandado em missão oficial a um país estrangeiro, deve ir subordinado ao embaixador, a quem cabe fixar as linhas gerais de negociações entre os dois países".

A primeira grande negociação econômica a encontrar Araújo Castro na embaixada talvez seja a questão do açúcar: pelo Sugar Act, o Brasil tem 9,6% do mercado americano (e pretende aumentar sua cota até 15%) a preços preferenciais de 156 dólares a tonelada, o que é um ótimo negócio, pois no mercado livre a tonelada não ultrapassa os 100 dólares. No entanto, o governo americano parece estar disposto a fazer importantes modificações no Sugar Act e, portanto, no bom negócio.

No campo político, Araújo Castro, pela terceira vez, está designado para um posto onde ferve o tema do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, que o Brasil se recusa a assinar. Pelo tratado, os países que ainda não possuem explosivos atômicos assumem o compromisso de não fabricá-los. Para o Itamaraty, isso significa "a castração dos eunucos": o Brasil não pode abrir mão de parte de sua potencialidade em nome de um documento que não traz nenhuma vantagem concreta para a conquista da paz, uma vez que os países nuclearizados não só continuam com todas as suas bombas, como continuam no direito de fabricar outras. Essa questão, que envolve esotéricos argumentos de política externa, foi considerada, há três anos, pelo então secretário-geral do Itamaraty, Mário Gibson Barboza, "a mais difícil de minha vida". E Castro reconhece: "Nela, as pressões foram totais". As pressões certamente continuam, mas talvez estejam mais cautelosas, pois no ano passado as insistentes negativas de fornecimentos militares americanos ao Brasil levaram o governo a comprar uma esquadrilha de aviões Mirage na França. Essa atitude brasileira inverteu os papéis na mesa de negociações e os Estados Unidos, que agiam como se tivessem o monopólio armamentista, passaram a oferecer aviões e equipamentos a preços módicos.

Uma carta esquecida sobre a mesa - a extensão do mar territorial brasileiro para 200 milhas - também deverá voltar a ser disputada. Os Estados Unidos, sentindo-se prejudicados com o decreto, já que por ele têm sua pesca no litoral brasileiro pelo menos sistematizada, não reconhecem a decisão de Brasília. Até agora, a questão ainda não foi movimentada, mas, acredita-se, isso não se deve a desinteresse no caso. Washington, sabendo das dificuldades na negociação do solúvel, teria resolvido congelar as águas territoriais à espera de uma boa oportunidade para discutir. Mas essas difíceis questões, para os leigos novas crises em gestação, apenas são o material de trabalho dos diplomatas. Eles estão habituádos a resolvê-las sabendo que o pior é a transformação de uma divergência numa briga. E, nas relações Brasil-Estados Unidos, o governo brasileiro parece estar especialmente disposto a valorizar a posição do seu negociador substituindo a velha rotina de empréstimos e ajudas por um balanço realista do que elas significam realmente, tanto para Brasília quanto para Washington. Talvez por isso, o chanceler Mário Gibson Barboza lembrou, em seu discurso de quinta-feira passada, que os Estados Unidos precisam "compreender nossas afinidades, mas também respeitar nossa diversidade".

Para alguns americanos, como David Trubek, ex-diretor da USAID no Rio, porém, o fundamental é caracterizar a diversidade: num artigo para a revista "Foreign Affairs", depois de dizer que "futebol, desenvolvimento econômico e a subida da Bolsa se transformaram no pão e circo do Brasil urbano", fez inúmeras críticas ao modelo econômico brasileiro e ao que chamou de "sociedade politicamente fechada". Outros, como o vice-presidente do First National City Bank para a América Latina, George Clark Jr., entendem o que à primeira vista poderia parecer uma diversidade: "O passado recente sugere que, depois de anos de falsas arrancadas, o governo brasileiro está conduzindo sua política econômica de maneira consistente e altamente produtiva". (...) "O nacionalismo é forte mas é um nacionalismo sem contexto prático, no qual o capital estrangeiro é bem-vindo sempre que vem servir aos interesses brasileiros."

O boletim "Tendências Econômicas", do Departamento de Comércio dos Estados Unidos, depois de alinhar dados estatísticos, concluiu, em março passado: "As implicações gerais dessas tendências para os negócios americanos são de que a economia brasileira, em crescimento, oferece boas oportunidades de exportação e investimentos".

Nesse mundo de boas oportunidades, a partir desta semana, surgirá, como um dos personagens centrais, "ostentando a renda sem ter o capital", conforme sua própria definição, o embaixador Araújo Castro. Sua família - Viveiros de Castro - é nome de rua em Copacabana, onde ele tem o único bem de raiz que conseguiu retirar da carreira: um apartamento. Decidindo e negociando questões que envolvem milhões de dólares, ele conta que nunca recebeu uma oferta de suborno, por mais discreta que fosse. Mas, durante o governo Goulart, como chanceler, convidou o chefe do
Cerimonial a esfriar o ímpeto "de um diplomata alemão que, preparando a visita do presidente Luebke, oferecia velozes Mercedes aos membros do Gabinete Civil.

Morando na grande casa de Massachusetts Avenue, com mordomo - "eles são sempre muito formais, isso faz parte da profissão" -, não viverá cercado de uma luxuosa bagagem diplomática. Levou alguns ícones gregos, quadros cusquenhos e esculturas pré-colombianas, além do que chama de "a prata óbvia". Durante o expediente, vai encaminhar negociações que em 1969 provocaram um movimento comercial de cerca de 700 milhões de dólares. À noite, freqüentemente vai reler, pela enésima vez, Proust, Kafka e Dostoiévski. E, no fim do mês, receberá seu contracheque com o salário que não chega a 4.000 dólares, dos quais devem sair todas as recepções, almoços e jantares de representação. À primeira vista é muito, mas dificilmente um embaixador deixa Washington com economias. A idéia de perder dinheiro no posto passa pela cabeça de Araújo Castro, "mas isso não importa". De certa forma, ele só se aflige porque em Nova York podia deixar de comparecer a três recepções no mesmo dia "e em Washington deve-se ir".

Segundo Maurício Nabuco, "todos os países do mundo esforçam-se para mandar para Washington o que eles têm de melhor". Às vezes vai o genro de um velho presidente, como ocorreu com o decano Guillermo Sevilla Sacaza, da Nicarágua. Em outros casos vai um parente do rei. O Brasil mandou Araújo Castro, um eficiente profissional da carreira, em busca de uma relação eficiente.


 
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