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19
de abril de 1989
Estradas em ruínas Abandonados,
os 65 000 quilômetros das rodovias federais brasileiras são vítimas
de um feroz processo de demolição "Governar
é construir estradas." A frase, de 1926, do presidente Washington
Luís, foi levada a sério no Brasil. Os governantes que se seguiram
tomaram como certo que cada quilômetro de asfalto ou chão batido
resulta num punhado de votos a mais. Com o nascimento da indústria automobilística
nacional, em 1955, o país assistiu a uma explosão fenomenal de suas
vias. Os 8.500 quilômetros de estradas federais de 1955 hoje são
mais de 65.000 quilômetros, distância equivalente a uma volta e meia
no planeta Terra, 70% dos quais pavimentados. As rodovias rasgam o Brasil em seus
quatro cantos e transportam a sigla "BR" para as regiões mais
inóspitas. Com a mesma vitalidade com que despontaram, as estradas são
vítimas atualmente de um feroz processo de demolição. Entre
buracos na pista, má conservação, sinalização
abandonada e o resultado disso tudo os acidentes fatais , os 14 milhões
de brasileiros proprietários de automóveis poderiam cunhar uma nova
máxima, semelhante à de Washington Luís: governar é
desconstruir estradas. "A situação
das rodovias federais é a mesma de uma boca cheia de dentes que precisa
de uma restauração urgente", diz o senador Affonso Camargo
(PTB-PR), ex-ministro dos Transportes. No ano passado, 5.598 pessoas morreram
em acidentes rodoviários 624 a mais do que em 1985. Nesse ritmo, há
uma morte na estrada a cada noventa minutos. O número de feridos é
ainda mais impressionante - 38.923 em 1988 contra 36 790 em 1985. Ao se chegar
ao final da leitura desta reportagem, pelo menos duas pessoas terão se
ferido em alguma rodovia federal. Um recente relatório do Banco Mundial
- "Deterioração das estradas nos países em desenvolvimento"
mostra que, em 1979, 18% das rodovias federais do Brasil estavam em mau estado
e necessitavam de imediata recuperação. Hoje, de cada 100 quilômetros
de vias, pelo menos 28 já estão marcados por buracos e esfacelamento
do asfalto. Diante desse estado de precariedade, os técnicos do Banco Mundial
estimam um investimento de 2,4 bilhões de dólares para salvar as
estradas da morte. VIA ÁPIA
Com essa quantia, o governo poderia, por exemplo, duplicar a Régis
Bittencourt no trecho que liga São Paulo a Curitiba, conhecido como a "estrada
da morte" e pelo qual circula toda a produção alimentícia
e industrial entre o Sul e o Sudeste do país. Essa mesma porção
de 2,4 bilhões de dólares seria suficiente para construir a Ferrovia
Norte-Sul, que vai do nada a lugar nenhum, passando pelo Estado do presidente
José Sarney, o Maranhão. Às rodovias esburacadas restou o
abandono. Numa estrada sem manutenção, o consumo de combustível
de um automóvel cresce 58%. Os freios de um ônibus, que numa estrada
boa são trocados a cada 150 000 quilômetros, ficam velhos com metade
da distância percorrida. Por todo
o país não faltam estradas deterioradas. O trecho que liga Recife
a Maceió, com 230 quilômetros de extensão, não pode
mais ser considerado uma rodovia hoje, não passa de uma pista de rali.
Ultrapassar os 80 quilômetros por hora é viver sob perigo. No ano
passado, mesmo sem ultrapassar essa velocidade, 73 pessoas morreram e outras 508
saíram feridas. "Esta estrada já acabou há muito tempo",
diz Leonildes Coriciolo, chefe distrital do DNER. O trajeto arriscado da BR-376
no trecho Curitiba-Garuva voltou com destaque às estatísticas da
Polícia Rodoviária na semana passada, com o registro de oito acidentes
envolvendo nove caminhões e quatro automóveis entre terça
e quinta-feira, deixando um saldo de seis feridos e alguns milagres. O motorista
de caminhão Paulo Roberto Amaral foi pego de surpresa sem freio numa das
centenas de curvas sinuosas da rodovia. Resultado: capotou com seu Mercedes 1988,
danificando toda sua carga. "Esta é a verdadeira rota do inferno",
diz ele. Desde que os romanos construíram
a Via Ápia, cortar a terra com estradas deixou de ser segredo e o desenvolvimento
de novos materiais, como o asfalto, apenas facilitou a empreitada. Se a indústria
de computadores no Brasil não é boa porque a reserva de mercado
da informática barra a entrada da tecnologia de ponta, o mesmo não
acontece com a construção de rodovias. Com elas, o problema é
essencialmente de descaso, de dinheiro mal aplicado. As rodovias federais representam
um patrimônio de 150 bilhões de dólares 35 bilhões
a mais do que o montante da dívida externa. São 500 bilhões
de passageiros por ano, contando as idas e vindas de todos que põem o pé
na estrada, e 240 bilhões de toneladas de carga. Quase 90% de toda a safra
de grãos, transportada por caminhões e avaliada em mais de 3 bilhões
de dólares anuais, gira no asfalto maltratado. São 65 000 quilômetros
que respondem por mais de 70% de todo o sistema de transporte num país
onde a malha ferroviária não passa dos 30.000 quilômetros.
Abandonar esse universo eqüivale a deixar progredir uma isquemia cardíaca
num paciente sadio. "O Brasil tem sua
economia assentada nas rodovias e não há como mudar este perfil",
diz Cloraldino Severo, ministro dos Transportes do governo Figueiredo. "A
circulação de cargas que escoa pelas ferrovias é pequena,
por isso é injustificável gastar fortunas com estradas de ferro.
A falta de manutenção das rodovias é o grande equívoco."
Para justificá-lo, os responsáveis pelo Departamento Nacional de
Estradas de Rodagem, o DNER, alegam a existência de um déficit anual
de 200 milhões de dólares. "Temos que ser criativos para fazer
serviços simples e de boa qualidade", afirma Paulo Neuenschewander,
diretor de manutenção do DNER. Liminar
Não faltou criatividade ao DNER quando o órgão implantou,
no último dia 1.º de março, uma aberração que
leva o nome de auto-selo e cujo objetivo é angariar fundos para a manutenção
das estradas federais. A Lei n.º 7712, que regulamenta o uso do "selinho",
determina que qualquer veículo que estiver rodando numa estrada federal
é obrigado a exibi-lo no pára-brisa. Metade da frota nacional de
veículos, ou cerca de 7 milhões de automóveis, já
tem o auto-selo mas desde sua invenção a antipatia e a inconstitucionalidade
da nova taxa fizeram explodir o protesto da população. Na semana
passada, a Ordem dos Advogados do Brasil, seção Niterói,
obteve liminar na Justiça isentando da colocação do selo
os 5.000 advogados inscritos na entidade. No Rio Grande do Sul, 15.000 veículos
filiados ao Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas também conseguiram
o mandado de segurança coletivo. "Já pago imposto demais para
ser obrigada a pagar mais uma taxa", reclama a bibliotecária paulista
Fernanda Telles da Silva, proprietária de um Fiat Uno 1986. "Além
do mais, não é justo que uma pessoa que enfrenta a estrada ocasionalmente,
como eu, seja forçada a pagar a mesma quantia de um cidadão que
viaja diariamente." Os advogados e juízes
que entram na Justiça contra o auto-selo apontam três inconstitucionalidades:
a bitributação, já que existe o IPVA, o uso da mesma base
de cálculo para dois tributos, o que é proibido pelo Código
Tributário, e a coação, pois o cidadão é obrigado
a portar o selo mesmo sem saber se vai usá-lo. "O pedágio numa
estrada é um preço pago por um serviço recebido diretamente
por quem nela trafega", diz o deputado federal José Serra (PSDB-SP),
que liderou solitariamente no Congresso uma campanha contra a aprovação
da lei e foi derrotado pelo pesado lobby de pequenas e médias empreiteiras.
"Ele não deve e nem pode ser cobrado de maneira genérica e
diante da simples possibilidade do uso do serviço." Vendido nas agências
do correio, nos postos da Polícia Rodoviária e do DNER e nos pedágios,
o auto-selo traz embutida uma série de truques contra o contribuinte. Para
valer a pena ter gasto 6,17 cruzados novos por um selo mensal, é preciso
cruzar 23 vezes as cabines do pedágio, que antes do decreto custava 28
centavos. Ou seja, são necessárias três viagens ida e volta
entre Rio de Janeiro e São Paulo, por mês, para não se cair
no prejuízo. Como ele só vale em rodovias federais, a pessoa que
pegar uma BR e depois uma estadual será obrigada a pagar os pedágios
do trecho estadual. UTI Com cinqüenta
dias de vigência, o dinheiro arrecadado pelo auto-selo que deve chegar
a 350 milhões de dólares anuais, segundo o governo ainda não
foi traduzido em melhorias reais para a malha rodoviária. Na semana passada,
porém, o DNER colocou em funcionamento pelo menos uma boa novidade um
simulador de tráfego, avaliado em 200 000 cruzados novos e desenvolvido
pelo Instituto de Pesquisas Rodoviárias. O aparelho consiste numa pista
circular, com 80 metros de circunferência, sobre a qual gira um trem de
carga em cuja extremidade há um par de rodas que pesa 2 toneladas. A partir
do estudo da circulação desse trem na pista, os técnicos
do DNER poderão desenvolver novas modalidades de asfalto e com isso diminuir
os custos de manutenção, conservação e construção
das estradas federais. O trem de carga circula oito horas por dia, a uma velocidade
média de 40 quilômetros por hora. Caso rodasse 24 horas por dia,
ininterruptamente, durante dois meses e meio, no final deste período a
pista teria um desgaste equivalente a dez anos de uso como se nela tivessem
trafegado cerca de 3 milhões de automóveis. "Os primeiros relatórios
ficarão prontos em dois meses", diz o engenheiro Paulo Gontijo, um
dos responsáveis pelo equipamento. "O objetivo é otimizar os
recursos arrecadados com a cobrança do selo para recuperar estradas." Enquanto
os remédios são testados em pistas experimentais, as estradas federais
de verdade continuam internadas na UTI. O vírus da desconstrução
invadiu definitivamente o organismo viário em agosto do ano passado, quando
o governo do presidente Sarney decretou a Operação Desmonte. Naquela
época, os 166 contratos na área de conservação e manutenção
em andamento foram abruptamente paralisados. No final de 1988, o DNER autorizou
as empreiteiras a prosseguir as obras, mas num ritmo tão lento que elas
são imperceptíveis. "A dívida do DNER com a nossa empresa
já está completando cinco meses", afirma o diretor de uma das
principais empreiteiras do país. As cinqüenta firmas que cuidam da
conservação e manutenção das rodovias por encomenda
do DNER só estão prestando serviços de emergência,
como o recolhimento de terra após uma queda de barreira e consertos de
pequenos trechos. "A situação hoje pode ser definida como uma
mera operação tapa-buracos", diz o empresário. "Uma
obra avaliada em 900 milhões de dólares está sendo executada
com apenas 300 milhões. Onde há necessidade de 300 trabalhadores,
colocamos apenas sessenta." "ECONOMIA
BURRA" À medida que sua manutenção é deixada
de lado, uma estrada custa mais caro aos cofres públicos. Quando um buraco
está em fase inicial de formação, basta tapá-lo. Quando
ele vai fundo a ponto de ferir a base da rodovia formada de pedra, cascalho,
saibro e arenito , o trabalho passa a ser muito mais difícil e custoso.
Nessa fase de estragos, o custo do tratamento é de 3.000 cruzados novos
por quilômetros. A exemplo do que ocorre quando um dentista trata uma cárie,
é necessário refazer o bloco todo onde o buraco cresceu. Se nada
for feito, ele aumentará ainda mais e comprometerá a estrutura da
estrada é quando o leito da rodovia começa a mostrar ondulações.
Nessa etapa de destruição, os consertos já são de
restauração e custam 130 000 cruzados novos por quilômetro.
Se nada for feito, o passo seguinte será a deterioração da
estrada, e o único remédio é reconstruí-la desta
vez por 300.000 cruzados novos por quilômetro. "Não cuidar das
rodovias quando as rachaduras começam a despontar é uma economia
burra", diz o engenheiro Alan Cannell, coordenador técnico do programa
Volvo de segurança nas estradas. A
França, por exemplo, que possui 33.000 quilômetros de estradas federais,
gasta 500 milhões de dólares ao ano o equivalente a 15.150 dólares
por quilômetro. No Brasil, o DNER coloca apenas 10.700 dólares anuais
para cada quilômetro de estrada. Mas não é preciso ir muito
longe para encontrar rodovias em ótima situação. Nos 56 quilômetros
da Rodovia dos Trabalhadores, em São Paulo, controlada pelo governo do
Estado, há em média a cada 5 quilômetros um guincho de prontidão
na Via Dutra, há apenas um guincho para cada 15 quilômetros de
estrada. Quando a comparação trata dos acidentes, a diferença
é ainda maior na Trabalhadores, há oito acidentes por quilômetro
ao ano. Na Dutra, são dezessete por quilômetro. "As rodovias
estaduais estão em melhor estado devido à pressão direta
feita pela população contra prefeitos e governadores", diz
o senador Affonso Camargo. "Com as federais é diferente, ninguém
pode chegar perto do presidente." A mesma opinião tem o diretor da
Associação Brasiliense de Construtoras, Graciomário Queiroz.
"O melhor caminho seria municipalizar todas as estradas", diz ele. "A
burocracia seria menor, e o pagamento das empreiteiras sairia mais rápido."
A falta de recursos e de trabalho mina as finanças das dezoito empreiteiras
de Brasília, que ameaçam demitir 70% de seus empregados. "Estamos
vivendo do que ganhamos nos últimos vinte anos", diz Queiroz - uma
mostra de que não foram poucos os ganhos nesse período. FALHAS
GRAVES O sistema viário do Brasil não é o único
a sofrer com a administração federal. Há um mês, a
Associação Brasileira de Concessionárias de Energia Elétrica
divulgou um documento em que alertava para a falta de eletricidade no país
dentro de três anos. "Apesar de todo o investimento feito nas últimas
décadas no setor elétrico, tais como as obras de ltaipu, Tucuruí
e outras, devemos ter, já no início dos anos 90, períodos
de baixa confiabilidade no sistema elétrico, ou seja, racionamento",
diz o documento. Entre a manutenção das rodovias e o fornecimento
de energia elétrica, há um ponto em comum: a mão pesada mas
ineficiente da administração federal. Com a crise energética,
deflagrada no final da década de 70, a maioria dos recursos do Ministério
dos Transportes como o imposto único sobre combustível e a taxa
rodoviária única foi remetida para a vala comum do Ministério
do Planejamento. "Os recursos passaram a ser disputados a foice no orçamento
geral da União", diz o ex-ministro Cloraldino Severo. Jogadas
no acostamento do governo federal, as rodovias começaram a colecionar uma
série infinita de pequenos e grandes males. Recentemente, o DNER do Rio
Grande do Sul concluiu um estudo em que lista as seis falhas mais graves das estradas
que cortam o Brasil: Pedestres e animais
na pista, que respondem por 31 % das situações
Entroncamentos congestionados (16,5%)
Estradas malconservadas, com buracos em profusão 07,9%)
Trechos sinuosos, com curvas fechadas (14,4%)
Falta de sinalização (13,6%)
Ausência de sistemas preventivos de segurança (3,6%) Uma
estatística paralela, também do DNER do Rio Grande do Sul, constatou
que 50% dos estragos nas pistas são provocados pelo excesso de peso dos
caminhões e pelo menos 25% da destruição é resultado
da má execução dos serviços por parte das empreiteiras
que alteram a taxa de granulação do material usado na pavimentação,
enfraquecendo o asfalto. A circulação de caminhões com tonelagem
além do limite é fruto de uma outra mazela das rodovias brasileiras
a corrupção. "Os policiais aproveitam-se dos excessos de
carga para extorquir propinas dos caminhoneiros", denuncia Nélio Botelho,
presidente do Sindicato dos Caminhoneiros do Estado do Rio de Janeiro. O negócio
é simples. Em um posto de gasolina localizado logo antes da balança
de pesagem na Via Dutra, que faz a ligação Rio-São Paulo,
são quatro em cada sentido , o motorista pára e entrega o dinheiro
ao policial, que lhe passa a senha para não ser parado mais à frente:
piscadas alternadas de farol, por exemplo. A atual propina para caminhão
comum é de 10 cruzados novos e para as carretas, de 20 cruzados novos.
Se o problema for apenas de documentação, o "preço"
cai para não mais do que 8 cruzados novos. "Ao longo de toda a malha
viária isso rende a bolada de uma loteria esportiva por semana", arrisca
Botelho. A falta de policiamento é um outro agravante na desconstrução
das estradas federais. No país inteiro há um efetivo de 6.300 policiais
e 1.853 viaturas. "Precisaríamos de no mínimo 9.200 homens",
diz o coronel Edmar Telesca, chefe da Divisão de Polícia Rodoviária
do DNER. SOBREVIVÊNCIA Em
meio a falta de policiamento e estradas em estado de coma, uma população
de personagens quase folclóricos cresce à margem dos 65.000 quilômetros
de rodovias brasileiras. São figuras típicas de um universo em decomposição.
Os caminhoneiros que transitam pela BR-116, no trecho do Rio Grande do Sul, já
estão acostumados com a histórica precariedade da rodovia e elaboram
manuais próprios de sobrevivência no asfalto. Cena comum, por exemplo,
é ver enormes jamantas trafegando pela contramão ou no acostamento,
em busca de uma nesga mais qualificada de pista. Quem não consegue atingir
um pedaço seguro e entra para a trágica estatística dos acidentes
é socorrido pelo proprietário do posto Texaco no quilômetro
327 da rodovia: José Augusto Giordano Nunes, mais conhecido como o "Anjo
da Guarda". "Juntar corpo estendido
na estrada já virou rotina para mim", diz Nunes, com a frieza de quem
já perdeu as contas desse ato tenebroso. Em frente ao posto está
um dos trechos mais irregulares e esburacados da BR-116. "Às vezes,
chegam a ironizar dizendo que eu é que não permito que o DNER restaure
o asfalto para que os veículos passem devagar diante do meu posto e entrem",
conta ele. É verdade que os automóveis entram no Posto do Anjo da
Guarda mas nem sempre para abastecer. "No final do ano passado um caminhão
entrou com a roda dentro de um buraco, quebrou o eixo e o pneu veio cair dentro
de casa." A casa de Nunes fica a quase 100 metros da pista. Costuma-se
comparar a estatística de mortes no trânsito das grandes cidades
do Brasil e nas rodovias com o saldo de vítimas da Guerra do Vietnã
é um Vietnã por ano de vítimas fatais em acidentes automobilísticos
no país. No caso das estradas, a analogia é estranhamente correta.
Como se estivesse elaborando uma estratégia de guerra, o Sindicato das
Empresas de Transporte Rodoviário de Carga da Bahia, uma entidade que reúne
170 das 700 empresas do setor no Estado, está organizando um curso de direção
defensiva. Os inimigos são os buracos, verdadeiras armadilhas, e os motoristas
que tentam escapar deles. Como peça didática do curso, Antonio Siqueira,
presidente do sindicato, passou as últimas semanas empunhando uma câmara
portátil de vídeo, para documentar os piores trechos das rodovias
BR-116, a Rio-Bahia, e BR-101, onde há uma placa curiosa: "Devagar,
curva perigosa. Não insista". "Tem muita gente que não
acredita quando nós dizemos que as condições dessas estradas
estão para lá de precárias", diz ele. "CIDADE
DAS VIÚVAS" - No mapa negro das rodovias federais brasileiras,
duas delas têm posição destacada a Via Dutra, que liga
São Paulo ao Rio de Janeiro, por onde trafega um número recorde
de 120.000 veículos por dia, e a Régis Bittencourt, que faz a ponte
entre São Paulo e Curitiba. As duas rodovias têm uma peculiaridade
em comum: elas cruzam dezenas de cidades que ficam à margem do asfalto.
Quando atravessa um perímetro urbano, a rodovia Régis Bittencourt
onde no ano passado morreram 215 pessoas deixa um rastro de vítimas.
Entre São Paulo e Curitiba, a estrada passa raspando por nove cidades.
Num fenômeno comum a boa parte das rodovias do país, o tráfego
rápido e intenso da estrada se confunde com o movimento lerdo das ruas
das cidades ribeirinhas. O reflexo desse encontro são os acidentes. Nesta
rotina trágica, a cidade de Juquitiba, a 74 quilômetros de São
Paulo, ganhou até um apelido - a "cidade das viúvas",
numa alusão às dezenas de homens que morreram atropelados na estrada
e deixaram mulher e filhos. Apenas na Rua Eduardo Roberto Daher vivem cinco viúvas
cujos maridos foram pegos por automóveis na Régis Bittencourt. Maria
Vieira Godinho tem sete filhos e cuida de um pequeno restaurante que funciona
ao lado de sua residência. Ela perdeu o marido no dia 23 de setembro de
1980. Oscar Soares Godinho, comerciante, dirigia seu Passat com destino a Itapecirica
da Serra, onde a mulher fazia uma consulta médica. No quilômetro
334 da estrada, um caminhão resolveu fazer uma ultrapassagem na pista simples
e jogou-se para cima de Oscar, que morreu na hora. "O dono do caminhão
está solto até hoje. O sujeito chegou a oferecer um carro novo para
compensar a perda, mas minha família ameaçou matá-lo se ele
não fosse embora", diz Maria Vieira. "Meus pais ajudaram a construir
essa estrada. Mas a vida aqui agora parece um acampamento de guerra." Semelhantes
no descaso, na má sinalização e nos buracos, a Via Dutra
e a Régis Bittencourt são diferentes em pelo menos um ponto. A Dutra
é responsável por 53,5% dos acidentes nas rodovias federais de São
Paulo enquanto à Régis Bittencourt cabe uma fatia menor de acidentes:
32%. Essa proporção se inverte quando a variável são
as mortes. Apenas 21 % das pessoas que morreram em rodovias federais trafegavam
pela Dutra, enquanto 43% das vítimas passavam pela Régis. A Dutra
tem uma média de um morto para cada dezessete acidentes. Na Régis
Bittencourt, essa relação é de uma morte em onze acidentes.
Mas as duas estradas têm companhias à altura. No quilômetro
444 da Rodovia Fernão Dias, a cidade de Citrolândia é cortada
ao meio. Ali, nos últimos dois anos, dez pessoas morreram tentando atravessar
a estrada. No canteiro do trevo que marca o início do perímetro
urbano, catorze cruzes de madeira dão conta da carnificina em que aquele
trecho da Fernão Dias se transformou. MORTE
EM TERRA Entre todos os casos de acidentes com vítimas fatais que
aconteceram nas estradas federais do país este ano, talvez o do piloto
de avião Paulo Roberto Reyna Lamas, de 41 anos, comandante de vôos
internacionais da Varig, seja o mais exemplar da situação precária
das rodovias. Na madrugada do dia 23 de fevereiro passado, Lamas viajava sozinho
pela Régis Bittencourt com destino a São Paulo. Chovia muito. Na
curva do quilômetro 43 da rodovia, no município paranaense de Campina
Grande do Sul, o Escort vermelho de Lamas desgarrou-se da pista, rodopiou e se
chocou de frente com um caminhão Mercedes que vinha em sentido contrário.
"Ele teve morte instantânea", recorda-se Lourival de Oliveira,
o patrulheiro rodoviário que naquela madrugada deslocou-se para a curva
do acidente na tentativa de salvar o piloto. Não houve tempo. O Escort
virou sucata e hoje está abandonado à beira da estrada, no estacionamento
do posto da Polícia Rodoviária, como um troféu das trapaças
que a estrada concede. Casado, pai de quatro filhos, Lamas perdeu a vida e entrou
para as estatísticas amargas que provam que viajar de carro é bem
mais perigoso do que viajar de avião. No Brasil, há 100 vezes mais
probabilidade de alguém se envolver num desastre automobilístico
do que num acidente aéreo. O piloto de avião Reyna Lamas, experiente,
foi morrer em terra firme. | |