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19 de março de 1969
O Brasil declara
renda
No
edifício do Ministério da Fazenda, na Guanabara -
um bloco maciço de grandes escadarias e colunas gregas -,
dois computadores eletrônicos do Serviço Federal de
Processamento de Dados (Sepro) estão em funcionamento numa
grande sala de paredes cinza-claro, alimentados por informações
que 220 funcionários vão selecionando. Em São
Paulo, mais dois computadores se preparam para entrar em ação.
Em Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte, Brasília, Salvador,
Recife, Fortaleza e Belém, outras tantas unidades do Sepro,
embora sem dispor de equipamentos tão modernos, também
estão preparadas. É que está em andamento a
maior operação destinada a arrecadar imposto de renda
já planejada no país. Este ano, todas as pessoas que
receberam, em 1968, mais de NCr$ 3 500,00, deverão declarar
seus rendimentos. Por isso, a Secretaria da Receita Federal prevê
a entrega de mais de 3,5 milhões de declarações
em 1969 contra apenas 605 149 declarações do ano passado.
Um universo maior - Como esclarecia
uma nota do Ministério da Fazenda, "alargando o universo
de contribuintes, é válido estimar uma redução
efetiva da carga tributária, dentro do princípio segundo
o qual 'onde todos pagam, todos pagam menos'". É um
conceito já delineado na revolução no imposto
de renda iniciada, em 1964, por Orlando Travancas, então
diretor do Imposto de Renda e aperfeiçoada nos últimos
quatro anos, tanto no aspecto técnico quanto no legislativo.
Os especialistas em legislação tributária vêem
no imposto de renda o mais justo dos impostos. Quanto maior a renda
dos indivíduos, maior a sua capacidade de pagar. Os impostos
indiretos - como o IPI (Imposto Sobre Produtos Industrializados)
e o ICM (Imposto sobre Circulação de Mercadorias)
- gravam o produto sem que seja levada em consideração
a pessoa que o adquire.
No ano passado, 21 por cento do total arrecadado
pelo Imposto de Renda vieram de classes altas, com renda acima de
NCr$ 80 000,00 anuais, enquanto que as de renda até NCr$
8 000,00 pagaram apenas 1,07 por cento da receita global.
A renda baixa - Então, por
que ampliar a obrigatoriedade de declarar rendimentos, sabendo-se
que muitos dos novos declarantes (a faixa maior dos que devem prestar
declaração pela primeira, vez têm rendimentos
entre NCr$ 3 500,00 e NCr$ 5 000,00) não terão imposto
a pagar? O declarante de renda baixa é importante para o
Fisco porque através dos dados fornecidos em sua declaração
será possível descobrir a sonegação
de contribuintes de renda mais alta. Por exemplo: o contribuinte
declara ter pago uma determinada quantia como aluguel, que o proprietário
do imóvel não faz constar em sua declaração.
Mas há um outro motivo de interesse mais amplo, pois é
útil à estratégia do desenvolvimento econômico
do país. As estatísticas disponíveis são
insuficientes, não permitindo ao governo, em muitos casos,
agir com a segurança de um médico que dispõe
de termômetro para medir a febre do doente: acaba agindo por
intuição. As declarações, assim, poderão
fornecer dados de distribuição da renda nacional,
permitindo a adoção de medidas que evitem dificuldades
a médio e longo prazo.
No cumprimento do dever - em busca
de um contribuinte que poderá ser talvez um símbolo
da campanha para aumentar o número dos que declaram suas
rendas, um funcionário da Fazenda esteve na semana passada
em casa de D. Sara Santos Silva, no Rio. Nas vésperas de
completar cem anos (nasceu a 23 de julho de 1869), D. Sara terá
de declarar, pela primeira vez na vida, seus rendimentos. Filha
de um cônsul do Brasil no Uruguai - Firmino da Silva Santos,
que foi voluntário da Guerra do Paraguai, D. Sara, morando
com a filha mais nova, recebe atualmente pensão no valor
de NCr$ 414,00 do Ministério do Exército, além
de NCr$ 270,00 pelo IPASE, por morte do seu irmão, inspetor
federal do ensino, que não tinha dependentes. Viúva
desde 1924, D. Sara não parece estar aborrecida com a obrigação
que o governo lhe impõe: "Sempre fiz questão
de cumprir o meu dever. E sei muito bem que, se não fossem
os impostos, como o Brasil iria viver?"
Mentalidade educativa - Para o secretário
da Receita Federal Amilcar de Oliveira Lima, cearense de 39 anos,
a quem está afeto todo o problema do imposto de renda, a
preocupação é justamente essa: convencer o
contribuinte de todas as categorias de que declarar rendimentos
ou pagar imposto constituem uma contribuição efetiva
e pessoal ao desenvolvimento do país. Por isso, segundo ele,
há uma mentalidade educativa nas operações
do Fisco. Cita como prova dessa intenção as ordens
dadas pelo Ministro da Fazenda, Antonio Delfim Netto, no sentido
de melhorar e simplificar os formulários. Por enquanto, ainda
não são tão simples como desejaria a própria
Secretaria da Receita, mas já está sendo estudado
um novo formulário para o ano que vem. Além disso,
em todo o Brasil, a distribuição do formulário
está sendo gratuita, enquanto mais de 2 milhões de
folhetos explicando o seu preenchimento serão encartados
em revistas e jornais. A campanha educativa terá prosseguimento
com a publicação, proximamente, de um folheto sobre
a necessidade de pagar impostos em geral e será distribuído
nas escolas para adolescentes.
Acabar com fenômeno - Tanto
Amilcar como os técnicos do seu setor identificam na sonegação
em massa um fenômeno típico de país subdesenvolvido,
onde o contribuinte acha que não pagar é uma forma
válida de evitar que seu dinheiro seja mal empregado pelo
Poder Público. O trabalho educativo, nessas condições,
fará com que a sonegação venha a desaparecer
como instituição.
Mesmo os pequenos recursos não
legítimos - chamados pelos técnicos de "residuais"
- para diminuir o valor da renda sobre a qual incide a tributação,
tendem a desaparecer, na opinião da Secretaria da Receita,
na medida em que ocorra a conscientização das vantagens
de se pagar corretamente o imposto, aliada a melhoria da sistemática
da fiscalização. Uma etapa importante na melhoria
dessa fiscalização pode ser identificada na elaboração
do Projeto 14, chamado "Programa de Identificação
do Contribuintes Omissos" e que se tornou popularmente conhecido
como "Operação Arrastão". Colocado
em execução em julho do ano passado, a Secretaria
da Receita intimou, até agora, mais de 650 mil pessoas, baseando-se
principalmente nos "sinais exteriores de riqueza", Um
fiscal de renda chegou a comparar essa operação com
uma briga entre gato e rato. O gato - no caso o Imposto de Renda
-, dizia ele, "adota a tática de dar a patada e esconder
as unhas",
A arte do arrastão - A imagem
pitoresca pode ser ilustrada com um caso: apesar de ter adquirido
vários carros, a pessoa não tinha apresentado sua
declaração de rendimentos. Informado do fato, os coordenadores
da "Operação", sem explicar a razão,
intimam a pessoa a declarar seus rendimentos no prazo de 20 dias.
Como não sabe de que maneira foi identificada, ela procurará
fazer uma declaração completa, sem omitir nada. Para
não passar por um vexame como daquele senhor bem vestido
que chegou no Ministério da Fazenda com a intimação
na mão, alegando que sua renda mensal era inferior a 300
cruzeiros novos e que por isso estava isento de declarar, não
se justificando a notificação. Foi surpreendido pela
pergunta do fiscal: "E como o senhor sustenta o seu cavalo
de corrida?" Wilson Cruz, que foi coordenador da "Operação
Arrastão", comentava também que o objetivo não
era só de arrecadar mais impostos, mas também de criar
um clima psicológico para aumentar o número de declarações
este ano. Mas, mesmo durante a realização da operação,
esse efeito psicológico já se fez sentir: muitas pessoas,
sem serem intimadas, começaram a apresentar espontaneamente
suas declarações, embora tardiamente. Em Paraibuna,
no Piauí, houve até um caso curioso: um senhor se
apresentou com a intimação endereçada a uma
mulher, querendo saber se a denúncia era de sua esposa -
a mulher era sua amante. Quando soube que a esposa nada tinha a
ver com a denúncia, saiu mais tranqüilo, enquanto a
funcionária do Fisco, Maria José Ferreira de Souza,
anotava o seguinte comentário no processo: "Por ai se
vê que a 'Operação Arrastão' descobriu
em poucos dias, aquilo que a esposa ignorava há muitos anos"
.
O fim do absurdo - A "Operação
Arrastão" conseguiu corrigir o absurdo antes registrado
de haver quase o mesmo número de empresas e pessoas pagando
imposto de renda. Uma informação estatística
oficial chegou a acusar um número maior de contribuintes
entre pessoas jurídicas (firmas) que pessoas físicas.
Muitos sócios ou donos de empresa, assim, não teriam
aparentemente renda tributável. São os que o diretor
do então Departamento de Imposto de Renda, Cleto Henrique
Maier, chamou de "sócios ricos de empresa pobre".
Este ano, o Ministro Delfim Netto, valendo-se das conclusões
trazidas por essa operação, resolveu baixar o teto
de isenção para declarar rendimentos para NCr$ 3 500,
00 (no ano passado foi de NCr$ 13 097,00) e estender a obrigatoriedade
para os que ''tenham tido, durante o ano-base de 1968, a propriedade
ou a posse de qualquer dos seguintes bens ou direitos: 1 - automóvel
ou veículo similar; 2 - imóvel residencial de área
construída superior a 100m2; 3 - residência de veraneio;
4 - imóvel alugado ou desocupado; 5 - títulos de renda
e/ ou títulos de crédito de valor superior a NCr$
S 000,00; 6 - ações ou cotas de capital em valor superior
a NCr$ 3000,00, inclusive firma individual; 7 - embarcação,
qualquer que seja o tipo ou tonelagem; 8 - título de propriedade
de clube recreativo ou sociedade desportiva de valor venal superior
a NCr$ 5 000,00; 9 - aeronave; 10 - imóvel rural; e 11 -
cavalo de corrida".
A grande meta - Baixando o limite,
o Ministério da Fazenda procura caminhar para chegar à
meta de 10 milhões de pessoas que declarem rendimentos, saindo
desse número 1 milhão que efetivamente paguem o imposto
de renda. Daí a opinião de um contador, especialista
no assunto, de que "a melhor maneira de lesar o Fisco, hoje,
é declarar seus rendimentos corretamente", Nelson Cecotto,
coordenador regional do Serviço de Recepção
da Pessoa Física em São Paulo, tem a impressão
de que "muita gente não entende que uma coisa é
fazer a declaração e não ter imposto a pagar,
e outra é deixar de fazer a declaração".
Quem era descontado na fonte, prossegue ele, "geralmente se
sentia desobrigado de fazer a declaração, mesmo que
o seus rendimentos tivessem sido superiores ao teto que isentava
o contribuinte da declaração". O cadastramento
de um grande número de contribuintes, ainda para Cecotto,
permitirá também identificar os contribuintes mais
desconhecidos do Imposto de Renda, justamente aqueles que trabalham
sem relação direta de emprego, como os que operam
no mercado de títulos, de veículos, de cautelas e
penhores e os corretores de valores e imóveis que não
passam recibo. E acima de tudo, Cecotto não considera a declaração
"um bicho-papão".
Buscando ajuda - Quando lhe perguntam
se já sabe como fazer sua declaração para o
Imposto de Renda, um sorriso acanhado se abre no rosto gordo e retinto
de Alvino Felizardo da Silva, 44 anos, motorista da CMTC há
15: "Bem, eu e meus colegas não sabemos muito bem".
A explicação evasiva revela que ele ainda não
entendeu, que confunde com a declaração que precisou
fazer para receber salário-família a declaração
de rendimentos. Por isso, acredita que já declarou em anos
anteriores, isso de agora é uma forma nova da mesma coisa.
Só está certo da utilização do "papelzinho
branco" (comprovante de rendimentos fornecido pela firma) que
recebeu junto com formulário a preencher: "Bem, aquilo
é o que a gente tem de declarar". Alvino carrega o formulário
e o "papelzinho branco" na mesma pasta de couro onde leva
sua marmita de todos os dias. Diz que ainda não teve tempo
de ler, mas no fundo espera a oportunidade de encontrar uma pessoa
que lhe explique para que serve tudo aquilo. Essa pessoa já
existe. Alvino vai procurar Pedro Correia Rama, chefe da Seção
de Estatística da Garagem da Barra Funda, que foi treinado
pela administração da CMTC para orientar os funcionários
daquela garagem na declaração. E então ficará
sabendo que, descontando do seu rendimento bruto de NCr$ 8127,57
- NCr$ 638,31 para o INPS, NCr$ 8,88 para o imposto sindical (deduções
cedulares), menos os abatimentos a que tem direito por cada dependente
(sua esposa Manuela e dois filhos), num total de NCr$ 4 680,00,
ficará com renda líquida inferior a NCr$ 3 500,00,
isento pois do imposto. Orientação como esta poderá
ser dada por mais de 2 000 funcionários de outras empresas,
preparados no Centro de Treinamento do Ministério da Fazenda.
Em busca do equilíbrio -
Alvino não terá de pagar nada. Outros pagarão
um pouco, ou muito. O objetivo do governo é exatamente o
de aumentar a receita proveniente de imposto dessa natureza, chamado
direto, através da ampliação de faixa de contribuintes
e combatendo a sonegação. Com isto, poderá
reduzir os chamados impostos indiretos (como o IPI e ICM) que, incidindo
sobre o preço de utilidades e serviços, pesam por
igual tanto no rico como no pobre. E com isso, a tributação
assume um aspecto de maior justiça social. Por isso, Pelé,
no seu caso, terá de pagar cerca de 110 milhões de
cruzeiros velhos pelo que recebeu da Monark, Cia. Atma Paulista,
Dulcora, Chuteiras Pelé (da Inglaterra), Associação
dos Produtores de Açúcar, Fábrica Fiotex, Cia.
Gilete, TV Excelsior, Construtora Netuno - da qual é dono
-, e do Santos FC, do qual é o "rei". Mas não
se queixa: "Se eu pago isto é sinal de que estou ganhando
bem. E se pudesse pagaria mais, pois estaria ganhando bem mais".
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